Amigos do Fingidor

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Academia Amazonense de Letras promove nova série de palestras

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V Mostra Amazônica do Filme Etnográfico

Medicina como especialidade social – éticas médicas de Platão a Hipócrates

João Bosco Botelho


Alguns instrumentos cirúrgicos que foram utilizados pelos médicos gregos são semelhantes aos de hoje: as sondas, os bisturis, os trépanos, as pinças e os afastadores. A concepção teórica dos instrumentos é a mesma, mudaram os materiais.

As observações do corpo humano, desvendando e materializando o escondido atrás da pele, foram responsáveis por descrições minuciosas e maravilhosas da anatomia, como as feitas por Herófilo, contemporâneo de Hipócrates, que distinguiu o cérebro do cerebelo, identificou as membranas meninges e o líquido cérebro-raquidiano, as funções motoras e sensitivas dos nervos periféricos e o sistema linfático; todos seriam “redescobertos” nos séculos 17 e 18.

Mesmo com o grande avanço para entender a saúde e a doença como partes do conjunto do corpo, com textos claramente dirigidos para retirar dos deuses e deusas os destinos da saúde e da doença, não ocorreu ruptura violenta com as idéias e crenças religiosas que conviviam com as mentalidades da época. É possível que essa conciliação cautelosa de Hipócrates e de outros médicos da escola de Cós, reconhecendo a materialidade das doenças sem atacar o panteão taumaturgo tenha contribuído para que mantivesse o prestígio social e evitasse o mesmo destino de Sócrates.

Assim, foi mantido o templo dedicado a Asclépio, anexo à Escola de Medicina de Cós. Segundo a mitologia grega, Asclépio era filho de Apolo e da ninfa Coronis. Apolo matou Coronis e entregou o filho aos cuidados do centauro Quíron, famoso médico, que instruiu Asclépio na arte de curar e na delicadeza dos movimentos das mãos do cirurgião. Finalmente, Asclépio consolidou-se nas mentalidades como o principal deus protetor da Medicina e dos médicos. Em sua homenagem foram construídos muitos templos. O mais famoso deles é o de Epidauro, na ilha de Cós, cuja reconstrução arqueológica mostrou salões, vestiários e alojamentos para médicos e doentes, salas de banho e teatro para a recreação.

É certo que a figura do médico, como especialista social, dependente das crenças e idéias religiosas tenha chegado aos gregos com poucas mudanças, oriundas de tempos muito anteriores. Quando a Escola de Cós já estava no seu apogeu e Hipócrates já era reconhecidamente uma autoridade como médico, havia harmoniosa convivência entre a nova Medicina, proposta por meio da teoria dos Quatro Humores e as práticas médico-míticas exercidas pelos sacerdotes-médicos dos templos de Asclépio. Como inequívoca comprovação desse fato, destacam-se as várias estelas de mármores e argila, encontradas no templo de Epidauro, com inscrições de agradecimento ao deus Asclépio pela cura obtida.

É pertinente, mais uma vez, assinalar que o conjunto teórico atribuído a Hipócrates e aos seus discípulos, mesmo obtendo importantes avanços em comparação às práticas médicas das cidades-reinos do Egito e da Mesopotâmia, não provocou explicitamente ruptura com as crenças e idéias religiosas do panteão grego. Essa situação de convivência harmônica entre médicos, que provocaram o início do processo para materializar a saúde e a doença, e os devotos de Asclépio, o principal deus voltado à proteção da Medicina, despertou interesse coletivo e recebeu críticas ácidas, como as atribuídas a Aristófanes, o irônico comediógrafo de Atenas, que encenava peças ridicularizando o médico-sacerdote de pouco escrúpulo.

A idéia cristalizada que perdura no pensamento ocidental de como o médico deve agir, falar, vestir e trabalhar, inclusive a relação da Medicina com as idéias e crenças religiosas, é também uma das consequências da assimilação, no Ocidente, do Tratado Ético hipocrático. Reforça este raciocínio o primeiro parágrafo de A Lei inserido no Tratado Ético: “A Medicina é de todas as profissões a mais nobre...“. Essa distinção da Medicina das outras profissões foi adotada por Galeno, no século II, em Roma, considerado o sucessor de Hipócrates, na sua afirmação: “Todo médico deverá ser filósofo”.

Os filósofos eram considerados como possuidores de saberes superiores em relação aos outros homens. Esse assunto é claramente expresso no “Fédon”, de Platão, quando trata do “Mito do Destino das Almas”, no diálogo entre Sócrates e Símias:

“E, entre estes, aqueles que pela filosofia se purificarem de modo suficiente sem os seus corpos, durante o resto do tempo, e a residir em lugares ainda mais belos que os demais”.

 O juramento original contido no Tratado Ético de Hipócrates começa assim: “Eu juro por Apolo, médico, por Asclépio, por Hígia e Panacéia, por todos os deuses e todas as deusas...”, mantendo evidente relação com as idéias e crenças religiosas daquele tempo. Essa posição, de modo espetacular, atravessou os séculos e foi mantida, de diferentes formas, até hoje.

            A análise do conteúdo ético do juramento de Hipócrates constitui claríssima conduta com o objetivo de evitar a prática médica prejudicial aos doentes, de certo modo semelhante ao código de Hammurabi, porém sem a agressividade punitiva babilônica.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A função dos intelectuais



O intelectual têm um dever, no caso de pertencer a um grupo.

O intelectual tem de ser a consciência crítica do grupo.

Ele existe para incomodar!



(Umberto Eco, A função dos intelectuais; artigo de revista; cópia achada dentro de um livro de... Gramsci.)

Simplicidade e magia

Jorge Tufic
 

             É como defino o modo desta nossa colega de Piripiri, cujo livro, que me parece de estreia, vem de ser lançado, em Fortaleza, por este espantoso Oboé, um instrumento de cultura que entre nós está  mais afeito ao sopro que dá do que ao sopro que recebe. Ou seja, ele tem preenchido, ao longo desses anos, consideráveis lacunas nas ações de apoio às atividades literárias do Estado do Ceará, o que constitui um exemplo que ainda não foi seguido.

             Sobre Eliene César depõe o escritor Altevir Alencar: “Eliene retira da sua infância e da sua adolescência, da paisagem de sua querida Piripiri, a matéria prima de uma poética enternecedora que fala diretamente ao coração da gente, transmitindo mensagens emocionais que se fixam na retentiva de quem lê com os olhos da alma”.

             Na verdade, raras são as páginas deste livro que não nos oferecem momentos para refletir, ou sonhar. Ou pedras de toque através das quais se avaliam os poderes ainda não totalmente revelados da autora, a exemplo deste começo do poema “Solidão”: “No vácuo de minha solidão/ Disperso-me/ ...já não sei onde estou.¨

             O tom descritivo de suas estrofes, a delicadeza das imagens, as conclusões axiomáticas a que chega nos estágios da incompreensão ou dos absurdos de nossa existência, os discursos de circunstância, mesmo quando faz concessão aos filosofemas personales, ou sente necessidade de poetizar sobre a própria poesia, seu lirismo não é apenas do eu-lírico, mas parece falar por milhares de outros seres que vagueiam entre o “nós” e a parábola de Narciso.

             A simplicidade de Eliene, como podem verificar da leitura de seu livro, consiste basicamente no repouso que lhe concede a emoção de um poema, conforme se lê numa de suas epígrafes. E ainda: “Nem todo suspiro de um poeta/ se transforma em poesia;/ Nem todo poema é resultado de um sonho seu;/ Tudo que emana de seus pensamentos é, simplesmente, o desejo de poetar!” Um desejo, diga-se de passagem, que atinge os seus mais ambiciosos objetivos na constante descoberta de si mesma, na adoração de seu mundo interior e na esperança que se multiplica: tudo nos limites de um colóquio voluntário entre o que foi e o que ainda lhe resta.

             A magia de Eliene é o que se encontra, afinal, nas entrelinhas do sentimento maior que ela externa pela sua gleba nativa, a que nunca devem faltar os amigos, o brinde da confraternização aos gols de uma tarde esportiva ou na longa viagem pelas estradas do Piauí, aventuras etc..

              Piripiri, como devem saber, é uma lenda da nossa Amazônia. Do tempo em que os bichos falavam. O cenário dessa história, se não estou enganado, era o Baixo Amazonas. Ali as moças de uma tribo encontraram um jovem índio que por onde ele fosse deixava um perfume no ar. Tão forte e ao mesmo tempo suave, que a todas cativara. Chamava-se  Piripiri. Ao morrer, deixara em seu lugar uma planta de nome Piripirióca.

             Tal referência, tendo muito a ver com esse município do Piauí, terra de nossa poetisa, da poetisa desta noite, a nossa querida Eliene César, serve também como um recurso poético para dizer-lhe que, ao retornar aos seus pagos misteriosos, já não ficaremos tão sós; pois ficará conosco a sua poesia, o aroma que nos doa, a planta verbal do milagre olfativo e do verbo encarnado.

             Que assim seja.

domingo, 16 de outubro de 2011

Manaus, amor e memória XXVIII

Porto flutuante de Manaus, maravilha da engenharia... inglesa. Funcionando com perfeição há mais um século. 100% de eficácia e eficiência.
Enquanto isso, os portos da dupla Nascimento/Braga naufragam, literalmente...

sábado, 15 de outubro de 2011

Fantasy Art – Galeria

Heavenly Twins.
Julie Bell.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Literatura amazonense de invenção

Zemaria Pinto


Foi Gaspar de Carvajal o primeiro grande ficcionista do Amazonas. Seu relato fabuloso acerca das índias guerreiras habitantes das margens do Nhamundá inaugurou, em pleno século XVI, a literatura ficcional, e, por extensão, a Literatura Amazonense. Talvez esse acontecimento fantástico tenha inibido nossos prosadores, a tal ponto que a prosa amazonense só volta a ter expressão mais de quatro séculos após, com os romances de Paulo Jacob (Chuva branca), Márcio Souza (Galvez, o Imperador do Acre) e Milton Hatoum (Relato de um certo Oriente).

É curioso observar, entretanto, o desenvolvimento da poesia. O poema épico A Muhuraida, de Henrique João Wilkens, escrito no último quartel do século XVIII, é o marco inicial da poesia amazonense. Durante muito tempo acreditou-se que fora escrito em língua aborígine. Fantasiava-se que os originais haviam se perdido, ficando apenas a “tradução” para o idioma civilizado. Ficções. Escrito em português escorreito, A Muhuraida canta o triunfo da fé católica sobre os gentios habitantes das margens do Madeira. Do ponto de vista do colonizador, um rito de passagem. De nossa perspectiva politicamente correta, uma epopeia do genocídio. Mas nem o itinerante espanhol Carvajal, nem o português, estabelecido em Barcelos, Wilkens mereceram a devida atenção da crítica tanto quanto Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, cuja obra poética só viria a lume, depois de inúmeras peripécias, em meados do século XIX, quarenta anos após sua morte. Nascido em Barcelos, nossa primeira capital, Tenreiro Aranha é figurinha carimbada em qualquer antologia séria da poesia brasileira do período colonial, especialmente pelos sonetos “A Maria Bárbara” e “A Um Passarinho”. Sua poesia é simples, com elementos árcades e barrocos, mas prenunciadora do Romantismo. É o primeiro artista autenticamente amazonense.

O século XX trouxe a riqueza efêmera da borracha e também uma grande leva de poetas nordestinos. Jornalistas, médicos, advogados, aventureiros, que, tal como a mão de obra não especializada, que acabava escravizada em algum seringal distante, vieram atraídos pela ilusão do látex e aqui fincaram raízes. Entre tantos, podemos citar como mais expressivos Jonas da Silva, piauiense, e Maranhão Sobrinho, cujo nome denuncia a origem geográfica. E veio o Modernismo, com todas as suas vertentes, as grandes guerras, a grande depressão, a guerra fria, Hiroxima e Nagasaki. O mundo, e o Amazonas no seu bojo, pareciam prescindir da poesia. Foi então que aconteceu.

O poeta Thiago de Mello, nascido em Barreirinha, no baixo Amazonas, inaugura a segunda metade do século com Silêncio e Palavra, instituindo uma nova ordem na literatura amazonense: não nascer aqui passa a ser mero acidente. O que antes era literatura “no Amazonas” passa a ser “do Amazonas”. Toda a obra de Thiago e toda a literatura que aqui se produziu ao longo destes últimos 45 anos está intrinsecamente ligada à terra, mesmo quando universal − ou é universal por isso mesmo.

Quando o Clube da Madrugada surgiu, na antemanhã de um dia de novembro de 1954, deitou mais sementes dessa literatura que ainda vem se construindo, se consolidando. O tempo certamente se encarregará de inscrever nomes que serão lembrados no futuro, mas não há como ignorar o trabalho já reconhecido de Jorge Tufic (Varanda de Pássaros), Elson Farias (Ciclo das Águas) e Luiz Bacellar (Frauta de Barro). Da geração imediatamente posterior, hoje em torno dos 50 anos de idade, destacam-se os também poetas Aldisio Filgueiras (Malária e Outras Canções Malignas) e Anibal Beça (Suíte Para os Habitantes da Noite).

É inegável a vocação amazonense para a poesia. Isso não nos faz diferentes, é claro, mas, com certeza, nos faz melhores, individualmente. Embora eu devesse dizer o inverso. Porque, se a poesia não muda a ordem mundial, não provoca revoluções, nem cataclismos, certamente ela nos torna, autores e leitores, mais sensíveis, mais humanos, mais aptos a compreender este mundo em que, por força das circunstâncias, coabitamos.

(Publicado no Guia Turístico Manaus 1996-1997, da Fundação Municipal de Turismo, Prefeitura de Manaus;
Aliás, até hoje não me pagaram! E eu nem falei da minha geração!)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Zezé no tempo dos dinossauros

O urubu albino, de Zemaria Pinto

O Urubu Albino, de Zemaria Pinto, com ilustrações de Josiney da Encarnação.

A literatura se nutre da vida e a criação literária nasce do diálogo do escritor com o mundo. Os bons livros falam das vivências, sonhos e sofrimentos vividos pelo ser humano. É por isso que os textos nos ajudam a compreender a vida e a nós mesmos. E, assim, vamos aprendendo a entender as diferenças e os problemas que vivemos na sociedade. Zemaria Pinto é um autor identificado com a condição humana. Não se intimida diante dos desafios que a existência nos impõe cotidianamente. O urubu albino é uma expressão desse compromisso com as questões humanas. É uma obra delicada e entranhada de humanidade. É uma narrativa sobre cuidado e compaixão, em que tematiza o preconceito, a diferença e a aceitação. Bico Claro, personagem principal, é um filhote de urubu que nos comove com sua história. Zemaria, com este texto, ensina-nos que tudo pode ser diferente na convivência entre os seres humanos.



(Tenório Telles)

Arnaldo Garcez e Jair Jacqmont 2 * AM

Medicina como especialidade social – retirando dos deuses a primazia das curas

João Bosco Botelho



A grande mudança das práticas médicas, no Ocidente, ocorreu na consolidação da cultura grega ligada à cidade-estado ou poli (do grego = pólis), com estrutura político-jurídica definida e o homem entendido como a medida de todas as coisas.

Nesse conjunto, sobressaindo Hipócrates e seus seguidores, na ilha de Cós, entre outros extraordinários filósofos, constituiu o esplendor da nova visão das relações do homem com a saúde e a doença.

Nesse período, Políbio, o genro de Hipócrates, baseado nos quatro elementos de Empédocles (terra, fogo, ar, água), descreveu o primeiro processo teórico capaz de compreender os binômios saúde-doença e vida-morte fora dos domínios dos panteões das divindades protetoras e vingadoras: a teoria dos Quatro Humores, preconizando a saúde como resultado do equilibro de quatro humores – bilioso preto, bilioso amarelo, sanguíneo, fleumático:

“Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras”.

AR – fleuma

ÁGUA – bile amarela

FOGO – sangue

TERRA – bile preta

Sem que até hoje saibamos, exatamente, o que representavam os humores, a idéia revolucionária dos médicos gregos da Escola Médica, na ilha de Cós, representados por Hipócrates, ficou conhecida como teoria dos Quatro Humores. Sob essa formidável concepção teórica, que dominou completamente as práticas da Medicina-oficial até o século 17, o corpo humano seria constituído de quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile preta.

O equilíbrio entre a quantidade e qualidade dos humores seria o responsável pela saúde. Ao contrário, os desequilíbrios entre eles provocaram as doenças. Como consequência imediata, esse sistema teórico permitiu aos médicos hipocráticos explicarem a origem das doenças e, pela primeira vez, iniciar o conflito de competência com a religião. A epilepsia, tida como doença de natureza divina, foi arrancada do domínio dos deuses.

Para tratar qualquer doença, bastaria forçar o equilíbrio dos humores por meio de atitudes induzidas para eliminar os líquidos e excreções corpóreos. Os métodos de tratamentos da Medicina-oficial passaram a utilizar a sangria e as substâncias provocadoras do vômito, da diurese, do suor e da diarréia.

Hipócrates, considerado o pai da Medicina, teria nascido no ano 460 a.C., na ilha de Cós, nessa Grécia caracterizada também pela busca da materialidade. A forma física imaginária que nos chegou de Hipócrates, foi a de um velho, calvo e barbudo, com semblante tranqüilizador, sendo contemporâneo de Sócrates, dos sofistas Górgias e Demócrito, com quem teria tido relações pessoais e profissionais em Abdera.

Sem nenhuma dúvida, além de Hipócrates representar para a Medicina o mesmo que Platão para a filosofia, foi o fundador das bases da atual ordem médica, representada pela incessante determinação de diminuir a abstração e aumentar a materialidade na compreensão da saúde-doença e da vida-morte.

Hoje, sabe-se que muitos dos livros que foram atribuídos a Hipócrates, foram escritos por outros médicos da Escola de Cós. Não há dúvidas da participação de Hipócrates, direta ou indiretamente, na elaboração dos seguintes:

- Epidemia;

- O Prognóstico;

- Tratado Cirúrgico;

- Tratado Dietético;

- Tratado Nosológico;

- Tratado Ginecológico;

- Tratado Ético.

 O Tratado Ético representa o suporte ético-moral da atual Medicina praticada no Ocidente.

Na mesma época em que Demócrito lançava as bases do atomismo – tudo é formado por átomos que são partículas indivisíveis e invisíveis, eternas e imutáveis – oferecendo pela primeira vez a materialidade do odor, da cor e do sabor, a Escola de Cós difundia o trabalho de Políbio – teoria dos Quatro Humores – para explicar o aparecimento de doenças.

            Entre dezenas de ensinamentos hipocráticos, sempre reforçando a determinação de aumentar a materialidade e diminuir a abstração para compreender a doença e o doente, é possível destacar como atuais os conceitos de diagnóstico, prognóstico e tratamento, distinção entre sintoma e doença e os três aforismos: o médico e a sua arte, o doente e a sua natureza individual e a doença. Esses conceitos, apesar de terem sofrido aperfeiçoamento ao longo dos séculos, continuam válidos e utilizados, mesmo com toda a tecnologia da moderna Medicina.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

AAL, “um museu de pessoas vivas”

.
Precisamos parar de nos voltar para nós mesmos, como um museu de pessoas vivas, e começar a interagir com a população da qual fazemos parte.




(Elson Farias, candidato à presidência da Academia Amazonense de Letras, falando sobre seus planos – Diário do Amazonas, Caderno PLUS, 09/10/11)

Poemas para minha aldeia

Jorge Tufic



São raros, hoje, os textos de poesia que não temem a crítica por assumir uma postura independente da parafernália daqueles que estão mais para as letras de música pop, do que mesmo para uma lírica moderna, ainda em paz com a arte do soneto, do verso livre, das redondilhas que lembram Rosália de Castro, a par de cânticos e louvores da terra, quase evocativos de autores como Ronald de Carvalho e Judas Isgorogota. Pois este Poemas para minha aldeia, de Sarah Rodrigues, traz-nos de volta as delícias de todo esse cancioneiro perdido entre as névoas de um passado recente, sem, contudo, deixar de ombrear-se aos maiores de nossa atualidade, quer pela escolha e desenvolvimento de seus temas, quer pelo senso lapidário de suas estrofes solares, com maior empenho formal quando elege o soneto como seu modo predileto de forjar os momentos eternos da vida e da morte. Exemplos disto iremos encontrar naqueles intitulados de “O corpo da paixão não terá sono”, “O olhar se perde agora na moldura”, “Coração deserto”, “A velha seringueira”, o dedicado a seu pai, para citar apenas alguns de uma série realmente antológica.

Os demais são poemas intercalados que tratam de motivos diversos concernentes ao planeta amazônico, seu amor à terra, com a imagem do rio, das paisagens e dos fenômenos cromáticos e meteorológicos, num diálogo permanente de quem ama a vida e sabe cantá-la tão bem quanto os pássaros mágicos do lendário perdido. Ou seja, daquele que só os poetas compreendem nas vozes da natureza.

domingo, 9 de outubro de 2011

Manaus, amor e memória XXVII


Nem só de glamour vivia a Manaus Antiga: a foto ilustra lavadeiras à beira de um igarapé – provavelmente, já poluído por dejetos humanos. 

sábado, 8 de outubro de 2011

Fantasy Art – Galeria

Caroline Westerhout.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A Divina Comédia humana 6/6

A Rosa do Paraíso, por Doré,
Canto XXXI do Paraíso.
Zemaria Pinto

XI

A recepção à Comédia começa com Boccaccio e se estende pelos últimos sete séculos, encontrando, entre a crítica contemporânea, uma unanimidade que quase nega o axioma de Nelson Rodrigues, não fosse por Octavio Paz – para quem a leitura de Dante só é possível dentro da perspectiva histórica da época – e Harold Bloom – que, com sua mania clerical de cânones, elege Shakespeare como o centro do seu, relegando o florentino a um mero segundo lugar. Concorre para isso o fato de Dante haver “fundado” a língua italiana, a partir dos inúmeros dialetos que forjavam o que ele mesmo chamou, em bom latim, de “vulgari eloquentia”. Foi a partir de seu poema que a língua italiana se estabeleceu. Se a Comédia fosse escrita em latim, o que muitos por muito tempo lamentaram que não o fosse, não teria hoje a importância e o reconhecimento que tem, pelo fato de ser escrita em uma língua viva, que o fluente lê sem qualquer dificuldade.  

Em um ensaio de 1929, T. S. Eliot escreve que “o estilo de Dante tem uma lucidez peculiar – uma lucidez poética, diversa da lucidez intelectual. O pensamento pode ser obscuro, mas a palavra é lúcida, ou melhor, translúcida.” Mais adiante, ele arremata: “A experiência de um poema é, ao mesmo tempo, a de um momento e de uma vida inteira (...) Superamos e sobrevivemos à maior parte dos poemas, como superamos e sobrevivemos à maioria das paixões. Dante é um daqueles com os quais apenas esperamos crescer até o fim de nossa vida.” 

Para Ezra Pound, Dante é um inventor e um mestre. Pound entende que a maior qualidade da Comédia é sua “materialidade”, isto é, esqueça o leitor todo o aparato crítico – o contato físico com a obra é o bastante. Ele mesmo, Pound, em vez de tecer altas elucubrações em torna da obra, limitava-se a citá-la no original – era a melhor crítica que julgava poder fazer. 

Jorge Luis Borges é categórico: “a Divina Comédia foi o melhor livro que os homens escreveram”. Ou: “o conhecimento direto da Divina Comédia é a felicidade mais inesgotável que a literatura pode nos dar.” 

Para Philippe Sollers, a universalidade e a intemporalidade de Dante “presta-se a tudo o que se quiser: a universidade, o academicismo e o modernismo podem cada qual reivindicá-lo sem grandes riscos.” 

Com sua habitual e antidantesca tendência ao hermético, Haroldo de Campos escreve que o “olho de Dante é o de um artista óptico, cinético, apto a divisar a luz na luz, o íris no íris, o fogo no fulgor: espécies luminosas, ‘distinções em claridade’ (...) E o mistério, o enigma teológico, se resolve em epifania, faneroscopia, escrita paradisíaca: luz.” Entendeu?  

O compatrício Ítalo Calvino afirma que a “genialidade” de Dante consiste em “extrair da língua todas as suas possibilidades sonoras e emocionais, tudo o que ela pode evocar de sensações; em capturar no verso o mundo em toda a variedade de seus níveis, formas e atributos; em transmitir a ideia de um mundo organizado num sistema, numa ordem, numa hierarquia em que tudo encontra seu lugar (...) Dante empresta solidez corpórea até mesmo à mais abstrata especulação.”      

Comentando esses escritores-críticos, Leyla Perrone-Moisés diz que a Comédia “não é lida como um texto religioso, mas como um texto no sentido moderno da palavra, como um tecido verbal revelador de um formidável ‘ofício’ e dotado de uma capacidade infinita de produção de novos sentidos. A linguagem não é mais encarada como um meio, mas como um fim. Dante não é, para eles, um mestre de teologia e de moral, mas um mestre de linguagem, e é como tal que ele é fonte de prazer e de conhecimento permanentes.” 

XII


A ficção de Dante deve ser lida, meu caro jovem leitor – por um momento me esqueci de ti –, como um poema inigualável, com todas aquelas características de um grande poema: música intensa, imagens sedutoras e a harmonia das palavras – em sons e imagens – dançando enlouquecida em nossas mentes. Esquece a história, esquece a moral, esquece o caráter místico – e vive o poema. Voltemos àquele ponto, muitos parágrafos atrás, onde dizíamos que Dante faz a viagem do Homem em busca de si mesmo, de sua harmonia individual, tendo por fim a harmonia coletiva. Depois de viajarmos, um tanto apressados, pelos três reinos do além-Dante, podemos acrescentar que essa viagem é uma representação metafórica da elevação espiritual do ser humano. Esta, entretanto, só se realizará plenamente em uma estrutura social onde haja paz, justiça e fraternidade, trindade que Dante resume na palavra Amor, que move o sol e as outras estrelas. Daí se concluir – uma conclusão em tantas possíveis – que A Divina Comédia, muito além da poética elevação espiritual do homem, visa também incutir no indivíduo-leitor a consciência de uma prosaica necessidade de aperfeiçoamento das instituições políticas e sociais. Essa a grande realização de Dante: unir numa obra para sempre única todo o conhecimento e todo sonho e desejo possíveis e impossíveis.  

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Bibliografia


  1. ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia – Inferno. Trad. Xavier Pinheiro. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1967.
  2. ________________. A Divina Comédia – Paraíso. Trad. Xavier Pinheiro. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1967.
  3. ________________. A Divina Comédia – Purgatório. Trad. Xavier Pinheiro. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1967.
  4. ________________. A Divina Comédia. Trad. Hernani Donato. São Paulo: Abril, 1979.
  5. ________________. A Divina Comédia. Trad. Vasco Graça Moura. São Paulo: Landmark, 2005.
  6. ________________. Vida Nova. Trad. Paulo M. Oliveira e Blasio Demétrio. In Os Pensadores VIII. São Paulo: Abril, 1973.
  7. BERNARDINI, Aurora F. e outros. Dante Alighieri. São Paulo: EntreClássicos 1, Duetto, 2006.
  8. BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
  9. BORGES, Jorge Luis. Obras Completas – Vol III. São Paulo: Globo, 1999.
  10. D`ONOFRIO, Salvatore. Literatura Ocidental. São Paulo: Ática, 1990.
  11. PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011