Amigos do Fingidor

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O efêmero eterno – simplicidade e leveza nas Folhas da selva

                                                                                                                  Zemaria Pinto*


Li essa historinha em uma antologia japonesa de contos para crianças. Tentarei recontá-la, condensando-a.

 O aluno pergunta:

 Mestre, onde posso encontrar o verdadeiro sentido da existência?

 Sem vacilar, o mestre responde:

 – O verdadeiro sentido da existência humana, gafanhoto, está na poesia.

 O garoto pensa alguns segundos. Vai se afastando, retorna, titubeante:

 – Desculpe-me, não consigo atinar...

 – É simples: se todos voltassem sua atenção, pelo menos algumas horas por dia, com sincera dedicação, à poesia, teríamos um mundo com menos espaço para a violência, para a poluição... E até para a corrupção. As relações seriam mais harmoniosas, baseadas na fraternidade, porque a poesia não está apenas nas palavras que se perdem no ar; ela está nos gestos, nos olhares e em muitos outros lugares: a poesia está no vento, na chuva, no céu estrelado, no pôr-do-sol, no correr do rio, na pluma que cai lentamente sobre o asfalto da estrada... Ter os sentidos aguçados para perceber a poesia da natureza não nos faz melhores, mas nos faz mais conscientes de nosso papel como seres humanos.

 Não consegui deixar de pensar naquele mestre como um haijin, um cultor da simplicidade poética do haicai, para quem tudo é transitório, impermanente, efêmero: é preciso cultivar o instante, como a uma flor. acrescentaria, fazendo graça, que os sentidos seriam mais bem explorados de forma sinestésica: olhos para comer, nariz para escutar, ouvidos para cheirar, mãos para ver e língua para tatear...  

 Agora, com Folhas da selva em mãos, penso o quanto vale toda uma vida dedicada integralmente à poesia. Aos 60 anos, o poeta Anibal Beça pode olhar para trás e avaliar, a partir de sua própria experiência, se o velho mestre tinha ou não razão. Reunindo a produção de haicais, presentes em sua obra publicada em livro desde Filhos da várzea, de 1984, Folhas da selva é um livro novo, mesmo quando nos deparamos com poemas familiares, uma vez que a disposição é outra, sendo conseqüente abstrair uma nova sensação dessa nova leitura. Os haicais de No país do carnaval e Dos olhos da amada, por exemplo, titulados e rimados, estão apropriadamente reunidos sob o título geral À maneira de Guilherme de Almeida, num tributo merecido àquele que vulgarizou, no melhor sentido dessa palavra, a prática do haicai no Brasil. Os poemas de Mínima fratura, de 1987, também são encontrados entre as Folhas da selva, dispersos, como se houvessem sido tangidos pelo vento. 

 Ao leitor menos afeito à leitura da poesia japonesa, termos como haibun, senryu e renga podem soar estranhos. Então, o professor que mora em mim pede o teclado. Renga, a haijin Rosa Clement explica, com muita propriedade, na introdução a “Chá das Quatro”, bela parceria com o poeta José Félix. Haibun é prosa poética, haicai em prosa ou haicai entremeado com prosa. Senryu é o haicai com finalidade cômica. Dadas as dicas, o leitor descubra por si mesmo o que afinal é poetrix. Voltei. Entendo ser imprescindível a união entre haicai e humor, no que este tem de graça, leveza, presença de espírito. E peço licença ao professorou será que ele voltou? – para lembrar Octávio Paz, para quem o bom haicai divide-se em duas partes:

·       uma, que reflete a condição geral, temporal e/ou espacial do poema – contendo em si a idéia de eterno, não no sentido metafísico, mas da repetição cotidiana, por isso eterna: uma flor, um pássaro, o nascer do sol, a lua cheia, uma formação de nuvens;

·       outra, refletindo o instante, o efêmero – a experiência jamais sentida. 

Uma parte enunciativa ou descritiva; outra, inesperada, relampejante. É isso que o haicai procura registrar: o agora em contraponto com o sempre. E se alguém mais atento estiver pensando que eu usei contraponto quando deveria ter usado contraposição, esclareço que foi de propósitoafinal contraponto é justaposição de vozes, sem perda de harmonia. 

Folhas da selva”, a coleção que abre e dá título ao livro de Anibal Beça, transborda de exemplos que ilustram essa “tese”:

 

Flauta na floresta

o vento sopra nos furos

do bambu brocado.

 

O vento e a floresta representam a condição geral, espacial do poema, o sempre. A música provocada pelo vento nos furos do bambu – a flauta – é o efêmero, a experiência única, o agora que não se repetirá jamais.

 

Olhos marejados –

saudade se misturando

aos pingos da chuva.

 

Se o humor não transparece, fica a leveza, o espírito do poeta ao vivenciar aquela cena sob a chuva, o elemento espacial. A abstração de que é a saudade que provoca aquela imagem única é, na verdade, uma quebra do distanciamento, mas, ao mesmo tempo, é um exercício de autoironia. 

Com Folhas da selva, Anibal Beça encerra um ciclo que prenuncia outro, pois a selva, assim como a relva, faz parte da condição geral do poema, do eterno que se renova porque se repete, folha a folha, poema a poema, até o infinito.

 

*Zemaria Pinto é poeta e dramaturgo, autor, entre outros títulos, de Música Para Surdos, Nós, Medéia e Dabacuri. Ocupa, desde 2004, a cadeira nº 27 da Academia Amazonense de Letras.


domingo, 15 de fevereiro de 2009

Manaus, amor e memória II
Biblioteca Pública. Vista lateral, a partir da rua 7 de Setembro.

Biblioteca Pública. Vista da rua Barroso.
Nesse prédio, a 09 de janeiro de 1918 – e não em 1° de janeiro, como se acreditou por décadas – foi fundada oficialmente a Academia Amazonense de Letras.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Repercussão 1

Oi, Zemaria: Em matéria no Diário do Amazonas do dia 28/01/2009 - "Diretores de teatro ousam para agradar crianças" o escritor Márcio Souza, diretor do Teatro Experimental do Sesc do Amazonas (TESC), declara: Para se ter autores, é preciso saber ler e escrever, conhecer a língua portuguesa. Em uma cidade que não possui sequer biblioteca pública disponível, como é que vai ter autores?

Pelo visto o escritor também, como nós, está desinformado sem saber onde ficam as bibliotecas do Estado, enquanto a tradicional Biblioteca Pública, na Sete de Setembro com a Barroso, mofa em si mesma.

Mauri Marques


Repercussão 2

Prezado Zemaria Pinto:

Quero de público externar toda a minha solidariedade a você no caso em epígrafe.

Sobre as palavras do secretário, tudo bem que ele esteja transferindo a pinacoteca para um lugar mais adequado, uma vez que a Vila Ninita realmente estava fora dos propósitos.

Acrescento, porém, que nada está sendo feito que não seja da obrigação do Estado. Observei as fotos dos quadros do Moacir Andrade e fiquei estarrecido.

Na minha modesta opinião, o "nosso" Moacir bem que merecia uma distinção maior em razão de tudo o que ele já fez e continua fazendo pela arte amazônica. Por outro lado, fica evidente o "esforço" que está sendo feito em prol da arte em nosso Estado. É triste saber que tudo está sendo sucumbido por uma burocracia arcaica que penaliza a todos que de alguma forma admiram ou praticam a arte.

Em relação às bibliotecas eu até prefiro não me estender muito. Todas as pessoas que de alguma forma mexem com livros sabem do descaso que as nossas parcas bibliotecas sofrem. E só para informação, quase metade dos municípios amazonenses não possuem sequer uma bilblioteca. Não desanime caro Zemaria. Quem sabe um dia, ainda poderemos assistir a mudança da utopia atual para uma realidade sonhada por todos àqueles que apreciam arte e leitura.

Benayas Inácio Pereira

Mauri Marques - cantor, compositor, diretor de teatro.
Benayas Inácio Pereira - poeta e cronista.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Robério Braga responde
O quadro de Moacir Andrade, pelas lentes de um fotógrafo da SEC.
Recebi e-mail do secretário de Cultura Robério Braga, que transcrevo na íntegra:

Zé Maria,

Recebi o e-mail que você retransmitiu.
Respondo, pedindo que faça chegar ao interessado.
Em 20 de outubro de 2008, por oficio de nº 1385/GS/SEC, requeri ao Secretário de Fazenda a cessão da obra de Moacir Andrade a que se refere o signatário original do e-mail.
O pedido foi arquivado pela dra. Rose, subsecretária, que não autorizou a cessão.
Seguem os registros fotográficos da nossa equipe que visitou o local e a obra.
De outro lado, devo dizer:
A Pinacoteca do Estado existe, criada em 1965, remontada em 1997, até o mês passado funcionava na Vila Ninita, anexo ao Palácio Negro. Agora está sendo montada em local definitivo, no Palacete Provincial, antigo Quartel da Policia Militar, na praça da Policia.
Na ocasião (1997) criamos o ateliê de restauro de obras de arte para salvamento do pequeno acervo recebido.
Quanto a não existir bibliotecas, creio que o autor da matéria não sabe da existência. Porque talvez não seja usuário de bibliotecas, pois existem, e são várias, até para deficientes visuais.

Atenciosamente,

Robério dos Santos Pereira Braga
Secretário de Estado de Cultura

Obs: a carta referida, cuja cópia veio anexa ao e-mail, serve para nos informar que muito antes de 20 de outubro de 2008 o quadro já estava na mesma situação em que se encontra hoje. Menos deteriorado, talvez. Provam-no as fotos que o secretário gentilmente anexou – uma delas acima reproduzida. Quanto à nova Pinacoteca: viva! Já não era sem tempo. Em relação à Biblioteca, o secretário tem razão: o autor não faz uso de bibliotecas públicas porque tem a sua, particular, com mais de 20 mil volumes, comprados, ao longo dos últimos 39 anos, com seu parco salário. Pena que as bibliotecas existentes tenham um funcionamento tão burocrático: segunda a sexta, de 8 às 17h. Nem vou comentar tal limitação. Mais: a Biblioteca Pública a que me referi é um prédio histórico, situado na esquina da rua Barroso com a Sete de Setembro, em “reforma” há anos, e sem prazo para voltar a funcionar.
Ah, informações úteis: o quadro se chama “A magia do Uirapuru” e data de 1977.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Obra de Moacir Andrade apodrece no subsolo da SEFAZ
Exposto à umidade e ao mofo do subsolo, o quadro, envergonhado, volta-se para a parede.

Um quadro de Moacir Andrade, medindo cerca de 2 x 4,5m, está abandonado no subsolo da Secretaria de Fazenda do Estado. Servidora do alto escalão daquele órgão confidenciou-me que foi pedida ajuda à Secretaria de Cultura, com a finalidade de restaurar o quadro que já esteve no hall de entrada da SEFAZ, mas a SEC “nem te ligo”.

Tem sentido: a SEFAZ tem vários quadros de Moacir Andrade e de outros artistas locais, adornando suas paredes, humanizando aquele ambiente onde só se respira o vil metal; mas quem entende de arte é a Secretaria de Cultura, mantenedora da Pinacoteca do Estado. Alguém viu uma Pinacoteca por aí? Nem uma Biblioteca, não é mesmo, Mauri?

INDIGNE-SE!
As cores vibrantes de Moacir Andrade, marca registrada de um trabalho que tem reconhecimento mundial, estão perdendo a alma num porão público.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Imprensando a imprensa

Quando eu reclamo dos mano da imprensa local (superficiais, escrevem mal, titulam pior ainda) dizem que eu sou exigente. Serei, sempre. A imprensa tem poder. Nós, que estamos fora dela, estamos sujeitos à sua influência e manipulação. Mas não vou chover no molhado. O Malfazejo e o Blog do Holanda vivem cantando as pedras dos conchavos entre imprensa e governo, no Amazonas. Leia. Informe-se.

O que me tirou do sério foi um texto de Isabela Boscov, todo-poderosa crítica de cinema da poderosíssima Veja. Sempre que leio a opinião da Sra. Boscov procuro orientar-me pelo viés contrário, ou seja: se ela diz que o filme é bom tenho certeza de que é uma meroda. E vice-versa.

Comentando o filme O lutador, estrelado por Mickey Rourke, Madame Boscov consegue ser, entre pedante e simplória, engraçada. Não vou entrar no mérito da abrangência: leia a revista e tire suas próprias conclusões. Mas a parte engraçada quero dividir com você.

Comentando o mergulho fulminante de Rourke do estrelato à ruína (palavras dela), Mrs. Boscov escreve:

Na fase terminal do processo, lá pelo fim dos anos 90, chegou a depender da mesada de um dos dois amigos que lhe restavam para comer.

PQP! Além de junkie (informe-se), o velho Mickey é biba? Ele tinha dois amigos para comer. Comia um de manhã e outro à noitinha, ou antes de dormir? A construção da frase é tão esdrúxula que cabe até uma leitura mais radical: o velho Mickey – junkie e biba – é também canibal. Por isso que lhe restam só dois amigos para comer. Já comeu, e jogou os ossinhos fora, como um Dr. Hannibal Lecter (informe-se) subnutrido, todos os seus outros amigos. Ô Belinha, dessa vez você se excedeu, minha filha!

Agora, falando sério (força de expressão: eu sempre falo sério). Se você quiser ver um Mickey Rourke em grande estilo, assista a Sin City, filmaço de Robert Rodriguez & Frank Miller – e Tarantino dirigindo uma cena como “diretor convidado”. A Boscov achou Sin City uma meroda!

Publicado originalmente nO Malfazejo, ontem.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Lembrando Max Martins
Jorge Tufic

Fiquei surpreso com o falecimento do Max Martins. Um grande amigo do Pará, ao tempo de Rui Guilherme Barata, Bruno de Menezes e Jurandyr Bezerra. Ao lado desses, estiveram conosco, em Manaus, o Benedito Nunes, o Max, este com mais frequência, e o Nazareno Tourinho. Foi a época em que a literatura apagou de vez as rivalidades de futebol entre os dois Estados: Pará e Amazonas.

Em 1961, eu obtive o primeiro lugar no concurso de poesia realizado pela Província do Pará para o Norte/Nordeste, com a apoio da SPEVEA. O segundo lugar foi do Alonso Rocha. Um tempo de muita fraternidade entre os escritores e poetas desses dois estados da federação.

Em Manaus, o Max Martins hospedava-se em casa: ele devia ter uns trinta e cinco anos e temia desaparecer aos 40 ou 41, idade em que seu pai deixara este mundo. Eu nunca vi tanto medo da morte!

Eu tenho comigo a primeira edição de O Estranho, com dedicatória do autor. Além de outros livros de sua autoria, geralmente pequenos. O Max fazia parte das reuniões semanais na casa do Bené, à rua da Estrela, em Belém. Uma bela casa, com torre medieval...

Max Martins (Belém, 26/06/1926 – Belém, 09/02/2009)

O poeta Max Martins, por J. Bosco.
Max Martins nasceu em Belém do Pará, em 1926. Exerceu cargos públicos até o momento de sua aposentadoria, a qual o Inamps incorporou outra: a de escritor, obtida há alguns anos e transformada, de imediato, no primeiro caso de escritor que se aposenta e recebe benefícios por ter exercido, por mais de trinta anos, a poesia. Hoje é diretor de um núcleo de cursos na área de linguagem verbal, aberto a estudantes de nível médio, universitários e interessados na literatura de um modo geral, conhecido como Casa da Linguagem.

Lançou seu primeiro livro, O Estranho, em 1952 (edição do autor). Dessa edição muitos exemplares se perderam, pois o resultado da impressão, muito precária, àquela época, não tendo agradado ao poeta, deveria ter sido jogada fora, a seu pedido. Porém, o garoto encarregado da tarefa, penalizado, deixou alguns exemplares nas soleiras dos casarões por onde passara a caminho do incinerador público, contrariando assim a ordem expressa do poeta. Graças a esse fato, O Estranho conheceu uma repercussão a posteriori, por ocasião das doações de acervo das grandes famílias de Belém a bibliotecas de universidades e instituições.

O Estranho refletia a percepção, mesmo que tardia, do modernismo, principalmente da musicalidade de Cecília Meireles, e do coloquialismo estilizado de Carlos Drummond de Andrade em Alguma Poesia, bem como do livro O Homem e sua Hora, de Mário Faustino ("O pão dos sábados/E as aventuras de Mário e Juvenal/Já não te comoverão/Na tristíssima volta ao lar paterno").

Em Anti-retrato (1960), nota-se a evolução para o trato com temas que se tornariam recorrentes em seus poemas – evolução impulsionada, de resto, pela aproximação entre as formas de construção da prosa e da poesia postulada por Faustino em seus estudos sobre poética. ("Já é tudo pedra/os dias, os desenganos./Rios secaram neste rosto, casca/de barro, areia causticante").

Esse projeto de escrita vai se aperfeiçoar uma década depois em H'Era (1971) com, entre outros fatos, a declaração expressa em seus poemas da preferência por autores nacionais como Drummond, Jorge de Lima e Guimarães Rosa, e por estrangeiros como Dylan Thomas, William Alden e Henry Miller. ("Palavras famintas pedem bis, e o X/de Hamlet e Henry Miller me visava;/velhas rezavam, se revezavam/em cantos, panos, palinódias").

Em O Risco Subscrito (1976), os poemas de Max Martins ganham um tom mais universalizante, ¡á anunciado no livro anterior. Aqui, a preocupação com a linguagem se torna o próprio assunto do poema; o ritmo bem marcado delimita agora uma nova relação formal com o espaço em branco da página. 0 que Benedito Nunes, na apresentação da obra, chama de "ensaio de espacialismo", principalmente em O Ovo filosófico:

o olho
do ovo
----------
o ovo
do olho.

Em Caminho de Marahu (1983), a opção pelos temas eróticos transforma-se em um objeto de pesquisa e crítica para o poeta. A influência de João Cabral e dos movimentos de vanguarda, como a poesia concreta e o poemaprocesso, redunda em um certo estranhamento da linguagem dos textos, que associam a natureza da pesquisa de linguagem à natureza do desejo sexual: "O branco apaga tudo – as cores deste gozo/E o próprio gozo/neste poço/ cala/o som da água".
Para Edilberto Coutinho (O Globo, 9/fev/1984), "Max Martins se revela, neste Caminho de Marahu além de poeta, um pesquisador e crítico, na linguagem de Décio Pignatari e dos irmãos Campos, (...) com seus parâmetros mais remotos (dentro da modernidade) em Mallarmé – por exemplo – ou, mais recentemente e de forma mais ostensiva, em Ezra Pound".

Um livro-folder, ou um livro-pôster, assim era 60/35 em sua primeira edição, em 1986. Os dezoito poemas que o compõem parecem confirmar as imagens utilizadas em seus livros anteriores. Como diz o verso de Edmond Jabès, que serve de mote para o autor, "tu és aquele que escreve e que é escrito". Nesses poemas percebem-se decisões quase sólidas na construção dos versos ("Escrevo duro/escrevo escuro"). Característica que constitui sua diferença quando comparados a Marahu, onde, ao mesmo tempo que retorna a temas e imagens anteriores, parece cair em um pessimismo absoluto da linguagem ("Ponho na tua boca as cinzas/da minha insígnia"). Marahu encerra, cronologicamente, a lista dos livros reunidos em Não Para Consolar (1992).

Denyse Cantuária
Mestre em Comunicação e Semiótica.
Professora da Universidade Estadual do Pará, UEPA.
Manaus, amor e memória I
Manaus, início dos novecentos.
Palácio da Justiça, na avenida Eduardo Ribeiro.
(Obs: o título da postagem, início de uma série, foi emprestado de Thiago de Mello)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Carroll + Bandeira = Snark
Traduttore, traditore. Traduzir poesia só pode ter duas finalidades: ganhar uma grana ou recriar o original, no sentido poundiano de “crítica via tradução”, que pode se originar de algo do tipo “li uma tradução, mas não gostei; faço melhor” – o que não deixa de ser uma forma de crítica, muito criativa. Mas o ditado italiano – “tradutor, traidor” – sempre corre o risco de se concretizar, qualquer que seja o caso. Aliás, alguém (quem, mesmo?) já disse que, numa tradução, a poesia é exatamente aquilo que se perde.

Como eu sei que não tem grana no jogo, fica apenas a certeza de que Jorge Bandeira, mais uma vez, optou pelo risco. Aliás, é escrevendo perigosamente que ele constrói sua obra. Sempre no limite. Sempre à margem – do óbvio e do oblívio. E a edição é bilíngüe: para mostrar que não tem nada a esconder.

Traduzir Lewis Carroll é duplo desafio: o texto, tempossacralizado, intocável, é muitas vezes intraduzível – para quem teme o humanum experimentum, legado de Prometeu: só desafiando os deuses podemos merecer a consciência humana. Eva intuiu isso: ao provar do fruto do conhecimento, arrastou Adão para trás da primeira parreira que encontrou e deu uma banana à serpente.

Nascido Charles Lutwidge Dodgson, Lewis Carroll (1832-1898), inglês, filho de um pastor anglicano, diplomado em matemática por Oxford, dividiu seu tempo de adulto entre lecionar matemática e lógica, escrever poesia e ficção para crianças, e fotografar muito – menininhas, em poses lânguidas, numa época em que esse adorável passatempo ainda não era satanizado. Além de um belo álbum com essas fotos, deixou-nos o sublime “Alice no país das maravilhas” (1865) e seu complemento “Através do espelho e o que Alice encontrou lá” (1871), que formam com este “A caçada do Snark” (1876) a sua trilogia do absurdo. Carroll joga com a linguagem e a lógica, e, como bom matemático, autor de “Euclides e seus rivais modernos” (1879), com os paradoxos que contradizem a concepção ordinária de espaço e de tempo.

Para você imaginar o que vem a ser um Snark, o nosso herói, ou melhor, a nossa caça, pense em um híbrido de serpente (snake) e tubarão (shark). E embarque com o leiloeiro nessa equação plena de nonsense.

(Zemaria Pinto - apresentação de A caçada do Snark)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Botando o pingo nos ii

Conhecida jornalista baré propôs em artigo recente o fim da crase. Confessou, humildemente (coisa rara num jornalista; tanto quanto num médico, advogado, analista de sistemas... tá bom, a lista é longa), que a maldita farpa era uma pedra no seu caminho. Cá entre nós, mais é o mourão, como diria aquela ciganinha do Lorca (informe-se).

Devagar com a louça, moça. Roma não se fez num dia. E o mundo, feito em apenas seis – sem análise de impacto, sem comissões ambientais, sem sequer a menor tabela de caminhos críticos – deu nessa meroda (nem adianta informar-se: abstraia) que está aí.

Assim como, um dia, tiraram a farpa do sete (havia uma farpinha cortando o 7 horizontalmente, para difençá-lo do 1...) e, para os informáticos pré-billgates, tiraram o farpão do zero (Ø, achavam que confundia com a letra O), proponho, como o início da reforma da reforma, a RETIRADA IMEDIATA DOS PINGOS DOS II, QUER DIZER DOS ii.

PS: o título não está errado: para tirar o pingo dos ii é necessário botá-los. Isso é pura metafísica (informe-se).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lançamento: A Lenda da Mangaba

O jornalista e sociólogo José Maria Viana de Souza lança neste sábado, dia 7 de fevereiro, às 10h, na Livraria Valer (Ramos Ferreira, 1195, Centro) o livro A Lenda da Mangaba. Trata-se de uma peça de teatro que se divide em cinco cenas, exatamente como os atos das tragédias gregas. A obra reune diversas linguagens culturais, numa retomada das raízes do "caboco-indígena". O autor menciona a passagem do padre Antônio Vieira pela Amazônia como apóstolo dos índios.

O livro traz ainda mais dois textos: A terra dos bravos, que discute a saga do seringueiro, e Araquarela, a Bela, que brinca com a história cultural da cidade paulista de Araraquara. São 122 páginas por onde desfilam índios e caboclos, comerciantes e aventureiros, com lembranças, discussões históricas, críticas, apelos, saudades e peripécias da condição humana.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Márcio Souza relança A Selva

No próximo sábado, dia 07/02, o Grupo de Estudos e Práticas Audiovisuais Difusão Audiovisual promove seu primeiro encontro aberto ao público. O encontro se dará no SESC da rua Henrique Martins, Centro. O escritor Márcio Souza fará a exibição do filme "A Selva", rodado na década de 1970, em Manaus. Em seguida, haverá um bate-papo com o escritor sobre a experiência da produção do longa-metragem e seu processo de criação.

Horário: 18 às 21h
Entrada franca

Haverá ainda sorteio de ingressos para a abertura da temporada 2009 da peça "Sábados Detonados".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

"Vou sentir saudades do trema"

(Entrevista ao caderno Muito + JC, do Jornal do Commercio, em 16.01.09)

O escritor Zemaria Pinto, fala sobre o impacto das mudanças ortográficas da língua portuguesa, iniciadas em 1º de janeiro.

Seu nome oficial é José Maria Pinto de Figueiredo, mas ele prefere que o chamem de Zemaria Pinto. É amazonense de Manaus, onde reside desde sempre, mas, por mero acaso, nasceu em Santarém, no Pará. É formado em Economia, com pós-graduação em Análise de Sistemas e em Literatura Brasileira, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

Autor de sete livros, desde 2004 ocupa a cadeira nº 27, na Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Tavares Bastos. Uma de suas características, e qualidades, é se empenhar em divulgar a literatura, com destaque para a amazonense.

Muito + JC: Desde o dia 1º de janeiro estão valendo as mudanças na ortografia da língua portuguesa. O que você achou dessas mudanças?

Zemaria: Vou sentir saudades do trema. Para nós, do Brasil, as outras mudanças foram para melhor.

Muito + JC: Em 1971 foi feita uma mudança similar a essa. Você acha que ainda cabem outras mudanças ou a língua portuguesa, nos oito países que a falam, agora está unificada?

Zemaria: Lembro perfeitamente dessa última mudança. Eu fazia o ginásio, na época, e não ganhei nenhum trauma por isso. Aliás, lendo livros editados antes dessa reforma, dou-me conta de quanto ela foi positiva, no sentido de simplificar o uso da língua. O idioma não é um monumento imutável; ele é um processo dinâmico: está em constante metamorfose. Essa tentativa (ainda não acredito que vá dar certo, embora torça por isso) de unificação é positiva. Se ela der certo, é necessário que, de tempos em tempos, se faça uma revisão, pois as mudanças naturais que ocorrem em um país não ocorrem em outro. É uma questão cultural. É como fazem os países de língua espanhola, que é unificada.

Muito + JC: A língua portuguesa, pelo menos no Brasil, é bastante mutável. Você acredita que isso, a longo prazo, não torna, novamente, o português (no Brasil), passível de outro processo de unificação com os demais países?

Zemaria: Foi o que eu disse antes. Todas as línguas são mutáveis, são organismos vivos. Dentro de um determinado prazo, 20 a 30 anos, deverá haver uma revisão, sim. Principalmente, com relação a novas palavras.

Muito + JC: Será que essas mudanças não vão "bagunçar" a cabeça dos alunos da disciplina de português, afinal, nossa língua é bem complicada, difícil de ser dominada completamente, e ainda fica sendo mudada.

Zemaria: Todas as línguas são complexas. O português não é mais difícil que nenhuma outra língua. Quanto à modificação, ela acontece cotidianamente, sem que sequer nos demos conta. Agora, cá entre nós, a cabeça dos alunos, mesmo os de nível "superior", já é bem bagunçada. Não acredito que essa reforma vá complicar nada. E é uma boa oportunidade para os professores acomodados, que acham que já não têm mais nada a aprender, abrirem novamente a gramática.

Muito + JC: O que de bom e o que de ruim resultará com essas mudanças?

Zemaria: O que eu vejo de extremamente negativo é o fim do trema. As outras mudanças vieram para facilitar o uso da língua. Essa é uma visão, reconheço, colonialista. Sei que grandes escritores portugueses, Saramago entre eles, ofenderam-se com a mudança, que teve um foco no Brasil. Já os africanos adoraram, porque eles já estão acostumados com o português "brasileiro". Tem o aspecto econômico, também. Uma edição de livro brasileiro não precisará ser "traduzida" para ser vendida em Portugal e nos outros países. O inverso também é verdadeiro. Todos ganham com isso.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Academia Amazonense de Letras promove homenagem anual
O escritor Péricles Moraes (1882-1956), um dos fundadores da AAL.

Pelo quinto ano consecutivo, a Academia Amazonense de Letras concede a Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, nas áreas de Arte, Letras e Mecenato. Personagens como Astrid Cabral, Ivete Ibiapina, Nivaldo Santiago, Óscar Ramos e Milton Hatoum já foram agraciadas. Neste ano, o bailarino Marcelo Mourão, o escritor Carlos Gomes e o Instituto Dirson Costa foram os escolhidos.

A entrega da medalha, em noite de gala, será a 28 de abril, em local a ser confirmado, pois o prédio da AAL está em reforma. O orador da cerimônia, entretanto, já foi designado: será o escritor Max Carphentier.

Péricles Moraes foi um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras, seu presidente de 1948 a 1956, e hoje é patrono da cadeira número 1. O dia 28 de abril marca o seu aniversário de nascimento, em 1882.

sábado, 31 de janeiro de 2009

De John Donne a Caetano Veloso

Retrato de John Donne. Autor desconhecido.

De John Donne a Caetano Veloso o poema Elegia: indo para o leito, que O Fingidor (http://ofingidor2008.blogspot.com/) publica hoje, percorreu um longo caminho. Jogue trechos da "letra" (deixa que a minha mão errante adentre, atrás, na frente, em cima, em baixo, entre) num site de pesquisa e virão milhares de ocorrências com a reprodução da letra e da música "de Caetano Veloso". Mas a Internet não é uma moça confiável. Serei breve.

John Donne, escritor inglês, que viveu entre os séculos XVI e XVII, contemporâneo de Shakespeare, escreveu, entre outras coisas, poemas eróticos, na juventude, e carolas, depois de sua "conversão" – "entre o dom e a danação", como bem observou Augusto de Campos, tradutor de Elegia: indo para o leito, que teve fragmentos musicados por Péricles Cavalcanti.

Como vêem, o Caetano Veloso não entrou na história. Ele gravou? Sim, "Cinema Transcental", 1979. Mas ele também gravou Peninha, Odair José, Roberto Carlos, Orlando Silva, Vicente Celestino e outros monstros da falida MPB... Nem por isso as obras destes lhes são atribuídas. Não entrou, não.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Blues e samba no Chá do Armando

Mello Junior e Rossini Lima.

O Chá do Armando deveria ser o Chá da Academia Amazonense de Letras, mas é apenas o Chá do Armando, em homenagem ao memoralista Armando de Menezes, o grande incentivador da reunião que tomou o seu nome, que acontece todas as sextas-feiras, há seis anos, reunindo artistas de todas as áreas, entre as 16 e as 22h. Mais ou menos. Uma extended happy hour, como diriam os boçais.

Atualmente, a reunião acontece na colorida sala da casa-ateliê do pintor e artemultinstrumentista Anisio Mello.

A foto acima foi feita na sexta-feira passada, 23/01, mas a cena pode se repetir hoje, novamente: Mello Junior, no baixo, e Rossini Lima, no violão, sem qualquer ensaio prévio, desfilaram uma série de clássicos da mpb, além de canções de autoria dos próprios – do samba ao blues.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Testemunho sobre Aparição do clown
(Jorge Tufic)
Capa da 1a. edição de Aparição do Clown (1959).
Concepção absolutamente inovadora do artista plástico Óscar Ramos.
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Esse ponto longínquo de nossa vida, o janeiro de 1959, se constitui num dos mais altos da literatura amazonense, em particular do movimento Madrugada. L. Ruas, tal como assinava os seus livros, artigos e crônicas, surpreende a todos com este seu longo poema, ao mesmo tempo estranho e revolucionário, mas no fundo mesmo uma projeção corajosa da personalidade do autor.
O clown de Ruas é o ator ou o dançarino do universo que ele consegue libertar das amarras sociais e dos preconceitos irremovíveis, um corpo astral de silêncios e coisas que se transformam, ao menor toque de um bastão luminoso. Basta dizer que até hoje ninguém soube interpretá-lo, seja como texto, seja como fosse a partitura volátil de uma confissão transbordante, plena de movimentos em busca de uma unidade de sons e palavras, afinal conquistada.

Terá sido difícil a esse religioso evitar uma prática antiga daqueles que, embora poetas, se devotam a Deus ou a Krishna, e acabam por esquecer que à poesia não cabe o papel de servir, mas de ser servida.

Pois eu considero o Aparição do clown uma batalha entre a cruz, como dever a Deus, e a liberdade, como dever à Deus e à poesia. Uma forma terrena e divina de conciliação dos extremos, mas onde, graças à Poesia, os extremos também desaparecem, enquanto libertam.

Meu testemunho sobre L. Ruas abrange esse largo período de nossa existência, que vai da fundação do Clube da Madrugada, em novembro de 1954; atravessa os anos selvagens da ditadura militar; sangra nos tempos em que o poeta esteve longe de nosso convívio; termina com o seu falecimento e a minha transferência domiciliar de Manaus para Fortaleza.

Foram memoráveis os nossos encontros de final de semana!

Memoráveis os seus discursos ao pé do mulateiro, na Praça da Polícia Militar!

Memoráveis as missas que celebrava!

E os porres, também, com muita dignidade!

1975, lançamento de Faturação do ócio, de Jorge Tufic. L. Ruas discursa ao pé do mulateiro, árvore-símbolo do Clube da Madrugada. Atrás dele, de paletó, Luiz Cabral e Tufic. Ao seu lado, de perfil, Aluísio Sampaio.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Os 50 anos de Aparição do Clown
No próximo sábado, 31 de janeiro, é o aniversário de 50 anos de publicação do livro Aparição do Clown, de L. Ruas. Para comemorar essa data, a Livraria Valer realizará a partir das 10h da manhã um encontro com estudiosos e pessoas interessadas na obra do escritor.

Ao longo de cinco anos, o historiador Roberto Mendonça pesquisou sobre a vida e a obra de L. Ruas; durante o evento, ele apresentará o resultado de seu estudo. Em seguida, a palavra será aberta aos presentes. O evento comemorativo contará ainda com exposição de livros e fotos do homenageado, leitura de poemas feitas por integrantes do Clam – Clube Literário do Amazonas, e apresentação do músico Mauri Marques, que musicou alguns poemas de L. Ruas.

Na ocasião, a segunda edição do livro Aparição do Clown estará a venda com 50% de desconto.

Considerada uma das mais importantes obras da literatura amazonense, Aparição do Clown é um longo poema, ocupando as 105 páginas do livro, reeditado pela Valer, dentro da Coleção Resgate.

Aparição do Clown é um poema místico e filosófico. Na apreciação do Professor Tenório Telles, o livro reproduz simbolicamente a trajetória de Cristo na terra, a promessa de redenção do mundo, a busca do homem, um palhaço no palco da vida a procura da sua verdadeira face, em sua tentativa de reencontro com o divino.

Sacerdote da arquidiocese de Manaus, Luiz Augusto de Lima Ruas nasceu em Manaus em 1931, tendo exercido seu ministério sacerdotal nas paróquias de Educandos, Colônia Oliveira Machado, dos Remédios e Sagrado Coração de Jesus, onde se despediu da atividade religiosa. Ao tempo de sua ordenação, em 1954, passou a lecionar algumas disciplinas em colégios, como o Colégio Estadual (Francês), o Instituto de Educação do Amazonas (Psicologia) e no então Instituto Christus, que teve sempre sua colaboração. Também foi professor de Psicologia, na Faculdade de Filosofia, quando esta foi criada. Iniciou sua atividade jornalística no Universal, jornal da Igreja Católica, que circulava aos domingos, de 1953 a 1958.

Adotando o nome literário de L. Ruas, passou, em 1956, a colaborar com o jornal A Crítica. Dispunha de uma coluna diária, "Ronda dos Fatos", onde cuidava com propriedade de problemas da vida humana. Deixou esse jornal em 1960. Em 1955, a convite de Jorge Tufic e encaminhado por Bosco Araújo, juntou-se ao movimento literário Clube da Madrugada, do qual foi presidente no biênio de 1957-58. Colaborou fartamente no Suplemento, editado pelo Clube, enquanto este circulou encartado em O Jornal, no período de 1962-72.

L. Ruas também esteve envolvido no movimento cinematográfico da cidade, escrevendo para a revista Cinéfilo, que circulou em quatro edições. Todavia, o movimento militar de 1964 fez o padre Ruas amargar dias de prisão, junto com outros companheiros intelectuais e políticos. Faleceu em 1º de abril de 2000, estando sepultado no cemitério de São João Batista.

Obras publicadas:

· 1959 – Aparição do Clown, poesia.
· 1970 – Linha d´Água, crônicas reunidas.
· 1979 – Os Graus do Poético, ensaios.
· 1985 – Poemeu, poesia. Prêmio de Poesia Governo do Estado do Amazonas em 1970.

L. Ruas colaborou também como cronista na Rádio Rio Mar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O traço e o verso

Depois de ler a notícia sobre os originais de Moacir Andrade, ainda menino, em vias de se perderem (veja postagem de 15.01), Jorge Tufic enviou-me cópia reprográfica do seu livro O traço e o verso (Manaus: SEMEC, 1985), onde o poeta "ilustra" os desenhos de Moacir. Tufic relembra, na introdução:

A caminho de casa, esses breves rascunhos que serviram de embrião para uma arte consagrada hoje no mundo inteiro foram crescendo aos meus olhos, tocando-me as cordas interiores. Quando cheguei em meu quarto, sentei-me; e foi de uma sentada, não me lembro de quantas horas, que saíram estes pequenos momentos de referência poética, às vezes num tom circunstancial, aos desenhos de Moacir. No todo, 22.

Como exemplo da poesia (reproduzir a imagem comprometeria sua qualidade), aí vai o poema que Jorge Tufic escreveu para um desenho que mostra um homem carregando um cesto cheio de pães, datado de 1939:

Ali vai o padeiro entregador,
o padeiro de cestos nos ombros.

Ali vai o ano de 1939
passando pela rua deserta.

E do cesto de pão nos vem esse cheiro
que ensina o amor sem fronteiras
pela cartilha da fome.
Lançamento

Lançamento, neste sábado, 24 de janeiro, às 10h, na livraria Valer (Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro), do livro Enquanto os sinos plangem, de Rosa Lia Dinelli.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Clique sobre a figura para ampliá-la.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O outro Charles Chaplin
Charles Chaplin, o pintor.
Charles Joshua Chaplin (1825-1891) era um pintor francês, realista e acadêmico. Não sei de qualquer parentesco com Carlitos, que era inglês, a mesma nacionalidade do pai do pintor.
Aliás, que delícia de nome para um palhaço: Carlitos, derivado do francês Charlot. Se ele aparecesse hoje, o chamaríamos de Charlie, como os de língua inglesa. Tão americanos somos!
Voltando ao pintor Charles Chaplin, veja, hoje, nO Fingidor (http://ofingidor2008.blogspot.com/) seu belo quadro Moça com um ninho.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Moacir Andrade: conversa à boca da noite
Moacir Andrade.

Hoje, mal a noite começava, eu e o compositor Mauri Marques fomos tomar um tacacá no ateliê de Moacir Andrade, que nos recebeu com a alegria que sempre o caracterizou.

Aos 82 anos, a completar em março, Moacir tem saúde e disposição para trabalhar diariamente nos seus quadros e escritos. Contou-nos muitas histórias, fez-nos várias confidências (algumas bem cabeludas) e mostrou-nos um acervo de livros e fotografias raras, além de desenhos seus, elaborados entre os 6 e os 12 anos.

Esses desenhos já deixavam antever o pintor que encantaria o mundo com suas paisagens e suas interpretações dos mitos amazônicos: são pequenos flagrantes do cotidiano, que, reunidos, compõem um ensaio visual-antropológico sobre os costumes urbanos da Manaus de 1935 a 1941.

Pena que, nesta cidade desprovida de memória, se não se tomar providências urgentes, todo esse material vai se perder. Atenção senhores donos da cultura, muita atenção!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Rosario Andrade: o mito revisitado

Auto-retrato.

Rosario Andrade é uma jovem artista plástica portuguesa, com obras em escultura e em pintura. Seu trabalho de revisão de cenas mitológicas é primoroso, promovendo um encontro inusitado entre a tradição intemporal e a contemporaneidade mais conseqüente. Confira na edição de hoje dO Fingidor (http://ofingidor2008.blogspot.com/) o quadro Perseu e Andromeda.

Mais trabalhos de Rosario Andrade, inclusive suas belas paisagens do Porto e de Coimbra, podem ser admirados na galeria virtual da artista: http://rosarioandrade.blogspot.com./

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Produção de texto poético (uma introdução) – X (final)

Zemaria Pinto

50 – Clichê – um mal desnecessário. O clichê poético é o maior inimigo de qualquer poeta. Trata-se, quase sempre de uma metáfora ou outra figura de linguagem; porém é uma figura desgastada. Exemplos: a estrada serpenteia pela planície; o mar beija a praia; aurora da vida; flor dos anos; mais uma página do livro da vida; luar de prata; silêncio sepulcral.

51 – Muitas vezes, nem é figura, apenas uma combinação desgastada de um substantivo com um adjetivo: doce esperança; amarga decepção; ilustre professor; poeta inspirado; pai extremoso. Mas existem também os clichês de situação: o final feliz, a madrasta má etc. E os clichês de roteiro: as histórias policiais, as histórias de terror – de estrutura repetitiva.

52 – Exercícios de liberação da linguagem e do pensamento. Para descobrir a fala/escritura de cada um é preciso que a linguagem e o pensamento se liberem dos condicionamentos que tendem a torná-los padronizados e mecânicos

53 – Existem vários tipos de exercícios com essa finalidade. Vejamos alguns deles:

• exercício nº 1
+ relaxamento: exercícios respiratórios; alongamento
+ escreva livremente sobre o que lhe vier à cabeça;
+ não se preocupe com o nexo
+ não releia, não raciocine; não analise; deixe que sua mão/corpo conduza sua mente; não tenha medo; procure escrever o mais rapidamente possível; qualquer censura deve ser registrada;
+ esse exercício, também chamado de escrita automática, era muito usado pelos surrealistas, que pretendia “flagrar” manifestações do próprio subconsciente.

• exercício nº 2
+ livre associação – dadas três palavras, escolha uma delas e associe livremente com outras palavras – associar é estabelecer correspondência (ainda que livremente)
+ não releia, não raciocine; não analise; deixe que sua mão/corpo conduza sua mente; procure escrever o mais rapidamente possível;
+ Palavras sugeridas: espelho – punhal – tigre (temas de Borges)

• exercício nº 3
+ a partir de um determinado poema, construa um novo poema, a sua “versão”

54 – Escrever é exercitar. O exercício nº 3 pode ter inúmeras variantes. Emvezes de basear-se em outro texto, escreva sobre um quadro, por exemplo; ou sobre uma situação que você vivenciou; uma notícia de jornal; uma história que ouviu há muito tempo. Enfim, as possibilidades são ilimitadas.


55 – Lá no início nos referimos à necessidade de reunir conhecimento, habilidade e talento. Vimos vários conceitos, falamos um pouco sobre a técnica que há por trás do poema e falamos da necessidade de desenvolver uma linguagem criadora. O tempo todo estávamos falando de conhecimento (que pode ser adquirido) e habilidade (que pode ser desenvolvida). Talento – a linguagem de cada um – deve ser cultivado.

Construindo o texto poético, com conhecimento, habilidade e talento.
O cerne da criação está na interseção entre conhecimento, habilidade e talento.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Subsídios para uma história da Academia Amazonense de Letras

Zemaria Pinto


Num ensaio sobre Octavio Sarmento (em A Uiara & outros poemas), chamei a atenção para o desencontro de informações quanto à data de fundação da Academia Amazonense de Letras. Três datas aparecem de diferentes fontes, todas elas nomeadas naquele trabalho: os dias 1º, 07 e 17 de janeiro de 1918[1]. Tendo como fonte as edições de 06, 09, 10 e 11 daquele ano do jornal diário A Capital, podemos afirmar que a instalação solene da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, nome original da AAL, deu-se a 09 de janeiro de 1918, uma quarta-feira.

Pela importância do acontecimento e por se tratar de uma fonte primária sobre a qual não pairam dúvidas – nem quanto à veracidade nem quanto à possibilidade de erros de interpretação – transcrevo a seguir a notícia principal, integralmente, veiculada na edição de 11 de janeiro. As demais edições têm o seguinte conteúdo, lembrando que todos os registros foram feitos na primeira página do citado diário:

06/01/1918 – registra o recebimento do convite para a instalação da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, às 20 horas do dia 09 de janeiro, no salão da Assembléia Legislativa;
09/01/1918 – noticia a fundação da SAHL, a ocorrer naquela noite, e dá alguns detalhes da programação a ser desenvolvida;
10/11/1918 – em nota breve, informa sobre a solenidade, prometendo para a edição seguinte todos os detalhes do acontecimento. Com o título Sociedade Amazonense de Homens de Letras – sua brilhante inauguração, foi assim noticiado o fato:
Foi inaugurada, em Manaus, uma Sociedade de Homens de Letras. É oportuno registrar que a realização dessa tentativa é devida ao esforço e principalmente à energia moral de intelectuais de prestígio, vencendo à resistência do meio, notadamente hostil, senão às belezas da Arte e das Letras, ao menos às organizações semelhantes a que se inaugurou auspiciosamente na noite de anteontem, no principal salão da Assembléia Legislativa do Estado.

Foi pelo menos isso que deixou transparecer em seu belíssimo discurso de abertura da sessão, o ilustre presidente da Sociedade, Adriano Jorge, um dos espíritos mais cultos dos nossos círculos intelectuais.

À sessão compareceu o que Manaus possui de mais seleto em todos os ramos da atividade pública e o mundo oficial, pela representação dos seus mais notáveis elementos. À mesa da direção, por exemplo, tomaram lugar, ladeando Adriano Jorge, os drs. Alfredo da Matta, presidente da Assembléia Legislativa; Hamilton Mourão, secretário geral do Estado, representando o sr. dr. governador do Estado; Ayres de Almeida, superintendente municipal; padre dr. José Thomaz, secretário do bispo diocesano, d. João Irineu Joffely.

Na bancada destinada aos membros da Sociedade, viam-se os srs. Jorge de Moraes, Benjamin Lima, Alcides Bahia, Thaumaturgo Vaz, Araújo Filho, Dorval Porto, Araújo Lima, Benjamin de Sousa, João Leda, Generino Maciel, Raymundo Monteiro, Virgílio Barbosa, Odilon Lima, Carlos Chauvin, José Chevalier, Álvaro Maia, Aurélio Pinheiro e Paulo Eleuthério, ocupando o conferencista do dia, Péricles Moraes, um lugar de destaque à frente do auditório, onde se destacavam também, exmas. senhoras e senhorinhas de nossa alta sociedade. Ali vimos: Madames Agapito Pereira, Raymundo Monteiro, Britto Pereira, Agnello Bittencourt, Carlos Chauvin e senhorinhas Maria Luiza Saboya e Zulmira Cruz.

Às 20 horas e poucos minutos, após a execução de várias peças pela banda de música da Força Policial do Estado, foi aberta a sessão, proferindo o presidente o seu magnífico discurso inaugural, a que antes nos referimos.

Teve a palavra, em seguida, o sr. Péricles Moraes, que ocupa a cadeira patrocinada por Gonzaga Duque, iniciando a sua brilhante peça literária sobre O Tolstoismo e a verdadeira concepção da beleza, ocupando a atenção de todos numa dissertação que mereceu os mais justos e calorosos aplausos.

Antes, Péricles Moraes fizera a apologia do seu patrono, o admirável escritor dos Graves e frívolos. Fez, ainda, o estudo crítico da obra de Gonzaga Duque e salientou a característica de sua arte.

No desenvolvimento da tese que constituiu a parte mais importante de sua conferência, o orador foi imaginoso e fecundo, fazendo a longa e torturada psicologia artística de Tolstoi, o incomparável solitário de Yosnaia Poliana, misto de demagogo e de artista, cujo nome atravessou as fronteiras da Rússia e causou a admiração do mundo, como o filósofo mais singular do seu tempo.

A sessão terminou perto das 22 horas, retirando-se toda a assistência muito bem impressionada pela Sociedade de Homens de Letras.

Além dos intelectuais que citamos acima, são ainda membros da Sociedade, constituindo um total de 30, os srs. Raul de Azevedo, Coriolano Durand, Jonas da Silva, Octávio Sarmento, Nunes Pereira, Heliodoro Balbi, Genésio Cavalcante, Huascar de Figueiredo, Gaspar Guimarães e Mendonça Lima.

São patronos das trinta cadeiras: Machado de Assis, Aluisio de Azevedo, Raymundo Corrêa, Oswaldo Cruz, Francisco de Castro, Cruz e Sousa, Martins Junior, Affonso Arinos, Sylvio Romero, Gonzaga Duque, Joaquim Nabuco, Rio Branco, Annibal Theophilo, Euclydes da Cunha, Escragnolle Thaunay, Eduardo prado, Thomaz Lopes, Adolpho Caminha, Raul Pompéia Tito Lívio de Castro, Torquato Tapajós, B. Lopes, José Veríssimo, José do Patrocínio, Sousa Bandeira, França Júnior, Lafayette, Farias Britto e Maranhão Sobrinho.
[2]
Nota-se que foram enumerados apenas 29 patronos. Faltou o nome de Tenreiro Aranha. Acrescente-se ainda que, contrariando versão amplamente divulgada, de que na noite da instalação todos os acadêmicos estiveram presentes, apenas vinte deles compareceram, sendo nomeados claramente os ausentes.

A Capital. Detalhe da primeira página. Manaus, 11 de janeiro de 1918. Arquivo do IGHA.
***
[1] Mário Ypiranga Monteiro, em conferência proferida a 03.01.1968, publicada no Nº 12 da Revista da Academia Amazonense de Letras, datada de julho de 1968, informa que a instalação da SAHL se deu a 07.01.1918. Genesino Braga, no livro Nascença e Vivência da Biblioteca do Amazonas, noticia o mesmo fato como tendo ocorrido no dia 17 de janeiro de 1918. Péricles Moraes, em artigo publicado na Revista da Academia de setembro de 1955, escreve, referindo-se ao que aconteceu após a decisão de fundar a SAHL, que a tradição consagrou como 01/01/1918: “semanas depois, a arrancada da inteligência congregava em sessão ordinária os trinta membros convocados, que a ela compareceram sem exceção de um só.”As informações aqui divulgadas repõem a verdade dos fatos.[2] A CAPITAL. Manaus: 11 de janeiro de 1918. Arquivo do IGHA.