Amigos do Fingidor

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O clube da serpente

Marco Adolfs



Tenho uma sala no centro da cidade onde costumo meditar, escrever e pintar. Um dia desses, ao entrar na tal sala, tomei um susto enorme ao ver um homem sentado na cadeira da minha escrivaninha.


– Que é isto!? – gritei. – Quem é você!? – continuei, preparando-me para lutar. 


– Sou o Julio – ele completou, voltando-se timidamente. E continuou, mais firme: – Julio Cortázar! 


– Ah! Claro! – exclamei, abrindo um sorriso de alívio. Disse isso sem sequer pensar no absurdo daquele acontecimento. 


– Como entrastes aqui? – perguntei-lhe, não querendo acreditar que ele era um fantasma. 


– A casa de nosso pai tem várias entradas –  respondeu-me, ainda sorridente, o escritor.  Aquele que sempre percebe esse fato, torna-se um escritor capaz de estar em todos os lugares, viajando no tempo e no espaço – continuou. 


– E você? Que fazes? – perguntou-me de supetão, acordando-me da minha letargia momentânea. 


– Buscava justamente o bestiário – respondi, na hora, o que me viera à cabeça. Sorrimos. 


– E você? – perguntei de volta.      


– Vim aqui para lhe dizer que pretendo reativar, nesta cidade quente e úmida chamada Manaus o Clube da Serpente – disse Cortázar. 


Engoli a seco. 


– Mas achas que é possível existir aqui uma reunião de escritores malditos, com suas formas atravancadas de existir e fazer– desafiei. 


– Perfeitamente possível – reafirmou Cortázar –, já que a forma de escrever está precisando dessas sacudidelas absurdas e malditas. Não é mais possível uma literatura feita de discursos abusivos e cultos a personalidades; comportada ao extremo; excessivamente clássica ou acadêmica em tempos de internet, blogs – finalizou. Hoje o que prevalece é a não-linearidade das produções. Seja de que tipo for. Chega de escritor de edições pagas, programadas e de discursos personalísticos!... Desses professores chatos, com cara e jeito de século XIX!...Bolorentos e sérios como se tivessem todos um ferro enterrado no ânus. 


Cortázar falava de forma incisiva e eu resolvi sentar-me para enxugar o suor. 


– Mas porque o Clube da Serpente logo aqui, em Manaus? – indaguei face ao absurdo da proposta. 


– Morelli – lembra do Morelli? 


Balancei a cabeça, lembrando. Cortázar continuou. 


– Conversou comigo um dia desses e me disse que aqui, nesta cidade, o espírito parisiense de seus artistas é muito forte. 


Ao relembrar de seu personagem Morelli, sorri.


– Ele não quis dizer espírito parintinense!? – tergiversei, brincando. 


Cortázar ficou em dúvida. 


– Espírito parintinense!?... Que é isso? – resolveu perguntar Cortázar. 


– Espírito de tribo que vive em uma ilha e come jaraqui com farinha... E gosta de tucumã com toada, também,.. E gosta de... 


– Chega! – exclamou um aborrecido Cortázar... Estou falando de literatura, e não de tribos indígenas. 


– Mas aqui tudo que é artista vive com uma tribo específica... Tem a tribo dos poetas; dos músicos; dos artistas visuais; dos... 


– Nossa! Tem muito índio, aqui... – disse Cortázar. 


– E cacique! – exclamei, completando o raciocínio... Tem um que só se veste de branco; outro que usa colete; aliás, dois; outro que gosta de usar chapéu, do Panamá... E por aí vai indo, o cocar de cada um... Mas isso tudo é apenas brincadeira minha, seu Cortázar... Aqui os artistas são muitos criativos, essa é a verdade... Porém, pouco unidos... Não dá pra criar nem um clube, não...Vai dar  em fofoca, inveja e briga... 


Cortázar riu, antes de desaparecer em uma nuvem de poeira.  


“Um clube!?... Onde já se viu!?...E logo com esse bando de serpentes!?”, pensei, antes de cair na real. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Brevidades e a chave do labirinto

Jorge Tufic
 


       Embora aposentado das resenhas, e, por extensão, dos prefácios sobre livros que tivessem me dado essa força, quer pela temática, quer pela linguagem, Brevidades, do poeta Pedro Du Bois, traz-me agora de volta para esse pequeno extravasamento de apenas leitor, já que as outras virtudes do ofício carecem do lastro acadêmico para alcançar-lhe as profundezas que aí se cristalizam, numa síntese de quem fala para si, mas que essa fala para si pode, também, ser a fala do outro, numa interlocução que objetiva os “relatos” de cada poema. 

       Pode-se dizer, assim, que estes conjuntos lapidares são códigos de uma lírica que foge ao mesmismo de tantas outras brevidades e questionamentos acerca da música, da lucidez, dos gestos repetidos, dos imprevistos e do próprio silêncio, de onde se alçam os pássaros aflitos do ser e do nada. Recortes visuais da paisagem urbana, objetos cativos, o irreal no lugar do real, cadenciam as estrofes do poeta, enquanto seu “lúcido acordar” apanha o centeio e vela o sono equivalente a quilômetros e milímetros daquela chuva de que trata seu poema 11, “jogos que terminam empatados”, olhares e cenas imaginadas.  

      (Ousamos, aqui, eleger o de número 42 como referência de leitura para cada uma dessas unidades plumárias de celebração poética, ficando ele como guia alternativo para todo o texto.) 

      Assim, é de importância observar como o autor deste livro capta as situações e posturas mais diversas em que se vê, dando aos tranquilos ou abismáticos rituais de seu quotidiano admiráveis “estampas” da realidade em cada bloco ou fragmento, como se “cantos” fossem de uma bem elaborada saga individual, entre a “solidão do corpo” e a “sentinela do olvido”. 

      Vê-se, então, com mais claridade à força de o ler, que o poeta Pedro Du Bois se estrutura, com a palavra alquímica, ao atingir os auges da metáfora espontânea, capaz desta e de outras metamorfoses que se completam no arremesso da seta que leva de parelha tudo quanto escorrega (e não volta), “o final reprisado ao avesso”, rei e vassalo. 

      Não é, pois, a meu ver, uma poesia que se expõe ao arreganho dos críticos, muito menos à inútil tentativa de analisá-la, como se faz a um texto comum, parecido com tantos outros. É poesia para ser lida e pensada, se possível tomando por exemplo o método do autor: “onde me valem horas de palavras”. No mais,  o sabor do que é novo, a alegria de saber que a palavra ainda é capaz de unir, em vez de separar. 

domingo, 13 de novembro de 2011

Manaus, amor e memória XXXII


A Cidade do Pecado tem uma Catedral pomposa.
Este é um dos muitos caminhos que levam ao sagrado.

sábado, 12 de novembro de 2011

Fantasy Art – Galeria

Boris Vallejo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Literatura amazonense de ficção – referências

Zemaria Pinto*


Talvez por questões quantitativas, os poucos que se aventuraram a escrever sobre a história da literatura amazonense preferem se referir a uma “literatura amazônica”, onde se inserem, naturalmente, os escritores paraenses. Isto me parece falso e artificial. A prosa de ficção no Amazonas existe, sim, e, embora pouco volumosa, vem obtendo reconhecimento nacional.

Devemos começar lembrando que a literatura não está unicamente confinada aos livros, embora este seja o veículo adequado a sua perpetuação. Assim, muito antes da colonização pelo homem branco, já tínhamos na região uma literatura autêntica, que passava de geração a geração, via tradição oral. Refiro-me às lendas e aos mitos indígenas, que foram registrados em livros e que hoje podemos conhecer através da leitura de obras como Poranduba Amazonense (1887), de Barbosa Rodrigues, Lendas em Nheengatu e Português (1928), de Brandão Amorim, e Moronguetá – Um Decameron Indígena (1967), de Nunes Pereira.

Simá – Romance Histórico do Alto Amazonas (1857), do baiano Lourenço da Silva Araújo Amazonas, foi o primeiro romance com temática amazônica a ser publicado. De características românticas, Simá, ambientado nos arredores de Barcelos, mostra a degradação a que os portugueses submeteram a nação Manau, levando-a à revolta e iniciando um processo que viria resultar no seu extermínio. A experiência de Lourenço Amazonas só vem encontrar continuidade 18 anos depois, com a publicação de Os Selvagens (1875), do português Francisco Gomes de Amorim, também de cunho indianista.

Os contos de Inferno Verde (1908), do pernambucano Alberto Rangel, abandonam a temática indígena e passam a usar a selva como personagem. Essa é uma característica que vamos encontrar em inúmeras narrativas de ficção sobre o Amazonas, todos elas de influência marcadamente naturalista, como A Selva (1930), do português Ferreira de Castro, e No Circo Sem Teto da Amazônia (1935), do amazonense Ramayana de Chevalier, ambos tendo como pano de fundo a exploração dos seringais. Esse é também o caminho traçado por Álvaro Maia. Natural de Humaitá, ele escreveu, entre outros, o romance Beiradão (1958), e os livros de contos Banco de Canoa (1963) e Defumadores e Porongas (1966).

Com a fundação, em 1954, do movimento conhecido como Clube da Madrugada, a ficção amazonense dá um duplo salto, quantitativo e qualitativo. Inicialmente divulgados através de jornais, os contos dos jovens autores amazonenses começam a aparecer em livros: Histórias de Submundo (1960), de Arthur Engrácio, Alameda (1963), de Astrid Cabral, O Outro e Outros Contos (1963), de Benjamin Sanches, O Palhaço e a Rosa (1963), de Francisco Vasconcelos, Mundo Mundo Vasto Mundo (1966), de Carlos Gomes. Em 1965, o poeta Antísthenes Pinto publica sua primeira obra de ficção: a novela Chavascal. Embora sem qualquer ligação com o Clube, é por essa época que se revela o romancista Paulo Jacob, o primeiro a obter projeção nacional duradoura. Entre seus muitos títulos, destacam-se Chuva Branca (1968) e Vila Rica das Queimadas (1976).

Nas décadas seguintes, a produção dos afiliados ao Clube segue intensa: Restinga (1976) e Estórias do Rio (1984), contos de Arthur Engrácio, O Tocador de Charamela (1979), contos de Erasmo Linhares, Várzea dos Afogados (1982), romance, e Os Agachados (1985), novela, ambos de Antísthenes Pinto. Egresso do Clube e um dos poetas mais importantes daquele movimento, Elson Farias surpreende o seu público leitor com o romance O Adeus de Diana (1996).

Mas em paralelo ao fenômeno Clube da Madrugada a vida segue seu curso. Prematuramente desaparecido, Antônio Paulo Graça deixou-nos apenas um romance: Tango Selvagem (1993). Radicado em Brasília, o manauense Adrino Aragão destaca-se como contista: Tigre no Espelho (1993) é o seu livro mais conhecido. Merece destaque também, na década de 90, a contista Maria Luiza Damasceno, autora de O Eterno Vigia dos Meus (1992).

Márcio Souza e Milton Hatoum são um caso à parte no panorama atual da prosa de ficção no Amazonas. Autores de prestígio internacional, têm suas obras traduzidas em vários idiomas, além de, no Brasil, seus livros serem constantemente reeditados. Márcio Souza estreou com o romance Galvez, o Imperador do Acre (1976), escrito sob a forma de folhetim. Operação Silêncio (1978), Mad Maria (1980) e O Brasileiro Voador (1985) estão entre seus títulos de maior sucesso. O premiado Relato de Um Certo Oriente (1989) foi o primeiro romance de Milton Hatoum. Onze anos depois, lançou Dois Irmãos (2000), logrando alcançar, junto à crítica e ao público, sucesso idêntico ao primeiro.

(*) Não lembro mais o que me levou a produzir texto tão insosso, tão sem espírito.
Bem, talvez tenha alguma utilidade. Pelas referências, deve ser de uns 10 anos atrás.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Medicina como especialidade social – ruptura dogmática: as universidades

João Bosco Botelho

A compreensão cristã da relação entre doença e pecado permaneceu inalterada na Idade Média, fazendo com que a atividade médica perdesse as conquistas alcançadas no período greco-romano, interferindo diretamente no novo rumo da Medicina-oficial, com absoluto predomínio da Medicina-divina.

Possivelmente pelas pressões políticas e pelo gradual fechamento das escolas de Medicina, o número de médicos diminuiu significativamente a partir do século V. O atendimento médico e o combate das principais doenças passaram a ser feitas dentro dos mosteiros pelos padres de diferentes ordens religiosas. 

Entre os mosteiros que se destacaram no exercício da atividade médica está o de Monte Cassino, na Itália, construído sobre antigo templo de Apolo. Esse acontecimento, a substituição dos templos dedicados aos deuses do panteão greco-romano, foi sendo realizado de modo competente pelas autoridades cristãs. As edificações eram conservadas e, na maior parte das vezes, ampliadas, e as antigas imagens dos deuses do politeísmo eram substituídas pelos do cristianismo. Os santos protetores cristãos tomaram os lugares dos deuses curadores romanos.  

Ao mesmo tempo, multiplicava-se também o uso de relíquias para a proteção das doenças. Exemplos marcantes de como a superstição era o fundamento da Medicina dessa época podem ser sentidos nas palavras de Santo Agostinho: “O perfume de azeviche afugenta os demônios e seu uso desata e desfaz o quebranto, ligaduras e encantamentos, e todos os fantasmas tristes, e melancolia”. 

Do mesmo modo, também é clara na descrição da peste negra feita por Boccaccio: “No ano de Nossa Senhora de 1348 ocorreu em Florença, a mais bela cidade de toda a Itália, uma peste terrível, que seja, devido à influência dos planetas ou seja como castigo de Deus aos nossos pecados...”. 

Possivelmente, vários fatores intervieram para estruturar a concepção da caridade cristã. Houve, certamente, influência desse entendimento na transformação do serviço médico como trabalho profissional remunerado, como era desde a época pré-hipocrática, em espécie de sacerdócio que poderia ser remunerado ou não. Também por essa razão, a Medicina passou a ser exercida quase exclusivamente por religiosos no interior das abadias e mosteiros. 

 Existem centenas de manifestações artísticas, em pinturas e esculturas, nos principais museus do mundo, entre os séculos VII e XIV, saudando e estimulando a prática médica como atividade religiosa não remunerada, simplesmente objetivando o bem do próximo, como na parábola do Bom Samaritano. No mesmo período, não por simples coincidência, ocorreu maior especialização dos santos na cura de determinada doença especifica. 

Com o passar dos anos, os padres passaram a exercer a Medicina fora dos muros dos mosteiros. Em consequência dos atritos criados pelas graves complicações dos atos médicos desqualificados, em especial as muitas mortes, e outros danos causados nos doentes, como a sangria mal conduzida, os religiosos foram proibidos de exercer a atividade médica fora dos mosteiros por determinação dos Concílios de Remis (1131) e de Roma (1139). 

Essa situação evoluiu para a formação das universidades, inclusive as faculdades de Medicina, que foram, pouco a pouco, se formando junto aos mosteiros. A Escola Médica de Salerno, no Sul da Itália, fundada ao lado de um convento beneditino, foi uma das primeiras a receber a participação de médicos laicos. A Escola de Salerno é responsável perante a História pela famosa frase: “Primo, non nuocere” ou “Em primeiro, não faça mal”, restaurando um dos fundamentos mais importantes da Medicina hipocrática. 

 Pouco tempo depois, surgiu a Escola de Montpelier, na França, com as mesmas características da Escola de Salerno, isto é, a fundamentação do ensino médico era baseada nas obras de Hipócrates e Galeno.  

O grande expoente da Escola de Montpelier foi Guy de Chauliac (1300-1370), autor do livro Grande Cirurgia, difundido em toda a Europa nos séculos seguintes. 

Nesse período, começa a ser esboçado novo avanço nas idéias por meio dos escritos de Thomás de Aquino (1225-1274). Professor em Montpelier, reformulou o pensamento aristotélico que dominava a teologia medieval e retomou a relação entre a fé e a razão iniciada por Abelardo (1079-1142). Nas considerações filosóficas em torno do “será”, Thomás de Aquino afirma que a perfeição máxima não é a idéia de ser, mas o ato de ser – e rejeita a interferência de Deus na auto-suficiência do conhecimento humano. Com essa nova visão teológica, o caminho para novos conhecimentos e indagações estava aberto, mesmo que de forma ainda restrita, culminando com a criação e o fortalecimento das universidades de Bolonha e Paris. 

Os estudos da anatomia humana foram retomadas pelas mãos de Mondino de Luzzi (1270-1326), professor da Universidade de Bolonha, que realizou a sua primeira dissecção humana em 1315. Como fruto das suas observações anatômicas, desacredita publicamente muitas afirmações de Galeno, que se mantiveram intocáveis durante dez séculos. Os estudos de anatomia de Mondino permaneceram como verdades absolutas até que Vesálio, em 1543, publicou o seu maravilhoso tratado de anatomia humana “Human Corporis fabrica”.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Contos de uma aula no vermelho

Contos de uma aula no vermelho será lançado
nesta quarta-feira, 09/11, às 19h,
na Saraiva MegaStore.

Só escreve com efeito fulminante quem tem conhecimento de causa. Assim é o contista João Pinto, autor dos livros de contos Luzes esvaídas (Teresina, 1991) e O ditador na Terra do Sol (Manaus, 2002). O leitor não sai da leitura da mesma forma. Inovador é pouco. Um experimentador de novas formas. Não o contista experimental. Maduro na arte. Contos de uma aula no vermelho arrastam o leitor para novas possibilidades expressivas: a marcação da vírgula, quando assim o escritor quer. O leitor sente o estranhamento e a advertência.

O anacoluto e a fragmentação são as recorrências amiúdes que não deixam o leitor no sossego. “Fico ao lado do caixão para ver a anatomia de um professor morto”. A anatomia do conto, olhar vesgo e amargo do trabalho de carpintaria, do remador, do oleiro no desempenho e desempeno da feitura do objeto. 

“Uma caneta contra a minha escola”. A sentença remete o leitor ao dilema existencial do professor. O apontador deambula no quadro de todos os contos de uma aula no vermelho. Os contos espelham a sensação da incompletude e do desespero do escrevinhador, devolve-os como quem migra. A metáfora de cada conto, uma obra em construção, que se completa no ato finito que é a linguagem. 

O professor e o contista se reconhecem – duas vozes em uníssono – o social e o estético se entrecruzam surpreendentemente, tecendo a teia do fabulador no permanente flerte-flashe da vida. O conto do João – o vinho no balanço da taça encorpando o gosto no contato leve com o vidro e os lábios. O contista, qual o padeiro entre o forno e a fôrma; ou o ferrageiro entre a forja e a bigorna. Trabalha até obter o fascínio do objeto. Um deleite e um desafio para o leitor: 19 contos-aula, que nocauteado pelas lições de vida, resumidos numa mesma personagem. 

(Luiz Romero de Lima, na apresentação do livro)



Sobre o autor


João Pinto é contista do Piauí, nasceu em 1951, em Luzilândia, vive no Amazonas desde 1979, e sempre foi professor na Rede Estadual de Ensino, dando aula de Língua Portuguesa e Literatura, formou-se em Letras pela Universidade da Paraíba. É em João Pessoa, na década de 70, que se lança como contista no suplemento literário Correio das Artes. Em trinta anos com a arte de fazer contos, já lançou três livros Luzes Esvaídas (pelo projeto Petrônio Portela, Teresina, PI), O ditador da terra do sol (Editora Valer, Projeto Valores da Terra) e Contos de uma aula no vermelho (livraria Valer, com pré-lançamento na Escola Senador João Bosco, Cidade Nova, em 2010). Na década de 90, venceu o concurso de contos do Curso de Letras e Língua Portuguesa da Universidade do Amazonas. 

O livro em questão, Contos de uma aula no vermelho, apresenta-se com 19 contos num universo de 124 páginas. O tema principal da obra retrata a sala de aula, questionando as mazelas do ensino brasileiro com uma linguagem bem elaborada e criativa, que sempre foi o estilo do autor, não só neste novo livro mas também em toda a sua obra contista, que até já escreveu. O comentário a seguir, de Hildeberto Barbosa Filho, crítico e poeta paraibano, define bem a obra: 

Ando lendo seus Contos de uma Aula no Vermelho. Vejo que o velho artífice no manejo da linguagem continua o mesmo, desde aquele livrinho de estreia. Só que agora inteiramente maturado pelo tempo e pela experiência. Você trata o idioma como se polisse a textura de um cristal, como se buscasse, nessa estranha empreitada, novos encaixes para as palavras, novas possibilidades de deslocamentos e condensações para que elas sugiram. Como na poesia e à Mallarmé, significações surpreendentes e inesperadas. As aspirais que você modula em torno do tempo, a fragmentação da frase, os cortes abruptos de perspectiva, enfim, o jogo incandescente das metáforas e, sobretudo, o impacto dos anacolutos, faz de sua prosa não somente uma modelar vivência da forma, mas pura formatividade, para me valer de uma expressão de Luigi Pareyzon. Também aprecio o apelo social da temática, na sua unidade de substância e na sua singularidade pragmática. A consciência do professor não elide a consciência do esteta. Sem mais, por enquanto. Meu grande abraço.
(Hildeberto Barbosa Filho)


O futuro de sua pele

Marco Adolfs



Ela tentara enganar o espelho enquanto pudera. Mas agora percebera que o jeito era fazer cirurgia plástica na face, na barriga e até nas coxas. Tudo por culpa da decadência de suas células que provocavam aquela flacidez e sobra de pele. As malditas rugas. Mas fazendo a cirurgia plástica ela poderia esticar-se todinha como borracha. Se pudesse, usaria luvas plásticas coladas nas mãos. “Ficaria lisinha, lisinha”, pensou fantasiosamente. Só assim poderia esconder a verdade.

Deitara-se então em uma maca e estava sendo examinada pele a pele, célula a célula pelo cirurgião plástico.

– A nossa cirurgia propõe retirar esses excessos, senhora – dizia-lhe o doutor. – Realizamos uma tração no sentido superior a fim de reposicionar a pele e os músculos.

– Preciso imensamente disso, doutor – observou.

– Vamos lhe dar anestesia local e sedação – continuou o doutor. – Mas posso usar anestesia geral, se a senhora assim o preferir...?...

– Ah! É bem melhor, assim eu não vejo nada.

No dia marcado ela então foi para a sala de cirurgia como quem vai para a promessa do paraíso. Um leve nervosismo não poderia perturbar a certeza de uma cara novinha em folha.

            A operação então começou. Completamente sedada, o corte do bisturi passeava pelas linhas coloridas feitas em sua face como se fosse um pincel. A gordura localizada foi a primeira a sair por debaixo da pele repuxada. E como flocos de algodão, eram depositados em uma bandeja. Logo o doutor a costurava. No final, fez a lipoaspiração do pescoço.

Recuperando- se, ainda imobilizada na cama, seus olhos procuravam o futuro de sua pele. Via-se novinha em folha entre amigas invejosas e homens interessados. O espelho brilhando de alegria.  

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tiara do verde amor

Jorge Tufic


Duas epígrafes, imagino agora, deveriam ter sido impressas nas páginas de entrada desta tríplice coroa de sonetos , Tiara do verde amor, de um dos melhores poetas brasileiros de todos os tempos, Max Carphentier, autor, inclusive, de um livro de contos e de um romance premiado pela SUFRAMA (Superintendências da Zona Franca de Manaus). Uma delas eu tirei da Cartilha da Amazônia (Livro do aluno, SEDUC/INPA, 1979) e traz a seguinte frase ou período simples: “A Amazônia vai até onde acaba a vegetação amazônica”. A outra é minha, e tem forma de trova:

                                               Floresta é tudo o que encerra
                                               fauna, flora, sol e ermo:
                                               entre o verde e a moto-serra
                                               não pode haver meio-termo.

Não se trata aqui, porém, de um livro técnico, embora se trate de livro que tenha, aliado ao poético e à difícil arte da espécie coroa, o interesse de infundir amor pela nossa Amazônia, última grandeza natural que testemunha o homem e o nascimento da poesia.

Como no tempo dos árcades, o autor festeja o advento da Amada, repleta de bons prenúncios. O verbo chega a marcar-lhe a presença, nem muito sutil nem muito ruidosa, pelo fato de já tê-la em si mesmo e no todo que ainda vai ser narrado e percorrido. Ela chega assim veículo e companheiro, musa e pão, tapete mágico e flor aquática. E ambos partem, depois desse introito, a tecer, nos ares perfumados e bosques atentos, sonetos que tecem sonetos, sonetos que tecem de verde o amor através do qual, o poeta e sua Amada, nutrindo-se da seiva agonizante que instaura a vida e protege os seres do planeta, tentam salvar a Amazônia do maior e mais longo enterro ecológico da História. A tiara, símbolo do poder místico, eleva-se do canto em ramos luminosos que se agitam de esperança.

Transferida para os mísseis de alcance continental, a intensidade poética em jogo através da terra e dos mitos da coroa intermediária, redobra em potência. A verde tiara do Amor, contudo, alando-se cada vez mais em descobertas e leves registros metafóricos, sem a cor alarmante das caixas de alta tensão, pretende colocar o bom senso, em vez do pânico; a vigília, em vez do ódio; a árvore, em vez do poste; a vida, em vez da morte; o verde em vez das queimadas.

Em verdade, poeta, só o Deus venerado pelos brancos, ou os deuses rubros da forja de Vulcano, podem salvar esse conjunto de matas e águas em absurdo que se juntaram no ecossistema da Amazônia, vista e sonhada por gregos e troianos, ianques e russos, pretos e amarelos, mas onde apenas alguns reconhecem a impossibilidade de um meio-termo que seja, entre o desenvolvimento colocado pelos homens de empresa e a necessidade de sua preservação, como parte que é de tantos outros sistemas, ainda hoje desconhecidos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Manaus, amor e memória XXXI

Em tempos de pontes...
Essa aí foi cobrada em libras esterlinas, mas já está paga.
Acho que ainda tem uns resquícios, na Constantino Nery, altura do Milenium.
Pertinho da Verônica, puteiro afamado...

sábado, 5 de novembro de 2011

Fantasy Art – Galeria

Someplace Flying.
John Jude Palencar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Apresentação que não aconteceu do livro Testemunhos e Memórias, de Armando de Menezes

Zemaria Pinto*



Testemunhos e Memória é um não-livro. Quero dizer, sendo um livro sobre livros, busca registrar o que sua gênese não registrou: a imanência própria da trajetória de textos que foram dados a lume... Desculpem-me: clareza, simplicidade e propriedade de expressão, recomenda-me o velho mestre. Recomecemos. Testemunhos e Memória é um livro sobre dois outros livros de Armando de Menezes – O Ministério Público do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas e O “Velho” Tude e Encontros com Familiares e Amigos. Traz ainda alguns bônus, mas vamos nos ater à matéria principal, que é o resgate do que foi publicado depois, compondo a história dos dois livros, registros que se perderiam em páginas de jornais ou em folhas soltas de cartas, bilhetes, telegramas. 

No que seria a primeira parte do livro, Armando de Menezes registra a história de O Ministério Público..., após o seu lançamento, a 22 de agosto de 2003, no salão nobre da Academia Amazonense de Letras. Nesse livro sobressaiu-se, sobretudo, o pesquisador, que já se destacara no livro de estréia – O Tribunal de Contas do Amazonas, de 1977, e, um pouco, pois ali prevalecera o memorialista, em Aderson de Menezes – o Professor, de 1997, escrito em homenagem ao irmão querido, a quem todos somos devedores. Naquele livro, o professor de História alia-se ao jornalista e ao memorialista, pois, antes de ser Conselheiro daquela egrégia Corte, e seu Presidente, Armando foi membro do Ministério Público. Destaco da fala de apresentação do eminente acadêmico Élson Farias o registro da alegria do autor em reunir tantos amigos, porque, diz Elson, entre as “inúmeras artes em que é mestre o nosso companheiro de Academia, a arte da amizade é a que ele exerce com a maior destreza e a mais clara sabedoria.” 

A recepção ao livro que conta a história da atuação do Ministério Público no TCE do Amazonas vai muito além das palavras carinhosas dos amigos, pois se trata de obra original: os fatos narrados são iluminados pelo autor, ora coadjuvante, ora protagonista, revelando nuanças que a letra fria dos documentos oculta.    

A segunda parte de Testemunhos e Memória registra a história do livro O “Velho” Tude..., lançado também no venerável salão azul, na noite de 21 de novembro de 2003. Nesse livro, o homem cordial, o homem-coração, que é o Armando, faz uma comovente homenagem a seus pais, o Velho Tude e Dona Santa, forjadores do caráter íntegro e afável do amigo de todos nós, que começou Mandoca e hoje é o ínclito Dr. Armando Andrade de Menezes, titular da cadeira número 30 daquela quase nonagenária Casa. 

Os destaques sobre O “Velho” Tude... são tantos que enumerá-los seria maçante. Mas não posso deixar de citar o belo discurso de apresentação do confrade Almir Diniz, muito apropriadamente intitulado “A Nação dos Menezes”. Tampouco posso ignorar a saudação improvisada e terna do Dr. Oyama Ituassu, amigo pessoal do Velho Tude, que a todos emocionou ao recitar o antológico poema de Luís Guimarães Júnior “Visita à casa paterna”:  

Como a ave que volta ao ninho antigo,

depois de um longo e tenebroso inverno,

eu quis também rever o lar paterno,

o meu primeiro e virginal abrigo.

Se o Armando não tivesse tido a iniciativa de publicar Testemunhos e Memória, aquele momento sublime seria hoje apenas mera lembrança dos que aqui estiveram naquela noite. E não teríamos também o registro das belas mensagens de Paulo Figueiredo, Almino Affonso, Bernardo Cabral, Carlos Michiles, Thiago de Mello e um poema inédito de Jorge Tufic: 

Tendo mais que esse olhar, posto que sonha,

Armando tece os fios com que tece

os pólens da saudade e do carinho. 

Se somos o que lembramos, como alguém já afirmou, Testemunhos e Memória é um livro digno da bibliografia de Armando de Menezes, pois, fundamenta e enriquece a compreensão dos livros a que se reporta, especialmente de O “Velho” Tude..., que já tem estofo de clássico da memorialística amazonense.

 
*Texto escrito para ser lido por ocasião do lançamento do livro Testemunhos e Memória, de Armando de Menezes, em setembro de 2005, que, não lembro mais porque diabos, não aconteceu.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os mitos na obra de William Waterhouse

Medicina como especialidade social – cristianização da medicina greco-romana

João Bosco Botelho



Cláudio Galeno nasceu em Pérgamo, na Ásia Menor, no ano de 130 d.C. Foi sem dúvida o mais famoso médico do seu tempo. Os seus livros, acredita-se que outros se perderam, abordaram a anatomia, a fisiologia, a patologia, a sintomatologia e a terapêutica.

A maior parte dos seus livros foi reeditada, em Veneza, no ano 1538, e constituiu o principal livro de consulta dos médicos medievais.

O outro médico romano que ficou na História foi Sorano, nascido em Éfeso. Os escritos dele que foram recuperados são de extrema lucidez e bom senso. Esse médico notável descreveu a existência dos médicos parteiros, que deveriam ser numerosos, uma mistura de práticos e especialistas, semelhantes às parteiras da atualidade, e os que faziam abortos, proibidos pela lei romana. Quando descobertos eram punidos com o degredo.

Entre as obras de Sorano destaca-se o “Manual de Ginecologia”, que serviu de orientação para os médicos durante quase quinze séculos, praticamente sem qualquer contestação. Neste manual, ele descreveu com absoluta precisão as posições anormais dos fetos no útero grávido:

- Podálico com os pés unidos;

- Podálico com um só pé;

- Ajoelhado;

- Sentado;

- De ombros.

Essas posições anômalas do feto, no desenvolvimento do parto, ainda hoje, representam maior atenção para os obstetras, mesmo com todos os recursos atuais.

Sem dúvida alguma o Império Romano preocupou-se com a prática médica e procurou, através de normas jurídicas, constituir um serviço público amplo na maior parte das cidades do Império. Porém, esse início foi a partir da melhora da assistência médica às mulheres dos militares das legiões, que foram as primeiras beneficiárias, com a construção de hospitais militares em diferentes regiões do imenso Império Romano. O mais famoso deles, o de Vindonissa, em Windish, na atual Suiça, com sessenta quartos e capacidades para 480 doentes, distribuídos em enfermarias.

A preocupação coma saúde pública, entre as diferentes fases do império romano, era inquestionável. A Lei das Doze Tábuas, que remonta aos primórdios da República, estabeleceu normas para o sepultamento e queima dos cadáveres fora dos muros da cidade e a construção dos esgotos, como a Cloaca Máxima, em Roma, que ainda é utilizado na parte antiga da cidade.

As autoridades públicas fiscalizavam o cumprimento das normas que regulamentavam a higiene pública. Os grandes arquitetos romanos, como Vitrúvio, recomendavam a escolha de lugares ensolarados para a construção das casas.

Além dos cuidados com a organização das cidades, foram construídas centenas de banhos públicos estimulando a higiene pessoal. Essas termas, algumas recuperadas pelos trabalhos arqueológicos, como o de Diocleciano, em Roma, contavam com médicos e podiam obrigar em diferentes piscinas e salas de ginásticas centenas de pessoas ao mesmo tempo.

Com a divisão do Império Romano, iniciada pelo Imperador Constantino e consolidada por Teodósio, em fins do século IV, o Império Romano do Ocidente teve a sua capital em Milão, na Itália, e o Império Romano do Oriente, em Constantinopla, atual Istambul, capital da Turquia.

O Império Romano do Ocidente sofreu profundas transformações sociais e políticas nos anos que se seguiram, notadamente, em consequência:

- Invasão dos visigodos;

- Cristianização;

- Gradativa mudança do sistema mercantil-escravista para o feudal.

Como não poderia deixar de ser, a prática médica foi envolvida e modificada pelas mudanças em curso. Com a cristianização do Império Romano do Ocidente, a influência exercida pela Igreja Católica na Medicina foi se fazendo de forma gradativa e irreversível.

Na realidade, a raiz dessa interferência remonta ao tempo pré-cristão, quando o pensamento judaico associava o aparecimento das doenças aos pecados cometidos e à cólera de Deus, semelhante às culturas egípcias e babilônicas. Progressivamente, a doença passou, novamente, de modo predominante, a representar espécie de pecado, sendo que o único tratamento possível para o sofrimento era o perdão da Trindade cristã, santos e mártires.

Essa relação do homem romano com a doença como consequência do pecado, após a cristianização, evoluiu sem alteração e se consolidou, no Ocidente, atada à ação evangélica de Jesus Cristo, que incluía a capacidade de curar milagrosamente inúmeras doenças, cujos relatos foram passados através das gerações, por meio do Novo Testamento, pelos apóstolos Marcos, Mateus, Lucas e João.

Entre os depoimentos dos apóstolos de curas milagrosas que Jesus Cristo realizou, é possível citar a cura do paralítico (Mt 7,32-35), cura do louco (Mt 20,30-34), cura do surdo-mudo (Mc 7,32-35), cura do epilético (Mc 9,16-26) , chegando a ressuscitar o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-25) e Lázaro, já em processo de decomposição do corpo (Jo 11,17-44).

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fantasy Art – Galeria

Imaginary friends.
Jim Warren.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Convicções profundas



Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais.

                                                                                  (Fernando Pessoa)*



(*) Não sei onde ele escreveu isso.
Também não sei de quem é a ilustração.
Não sei nada! Merda!!!