Amigos do Fingidor

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

exercício nº 2


Zemaria Pinto


(as ásperas palavras que te disse
naquela madrugada de setembro
retornam feito facas em meu peito
forjadas pela têmpera do tempo)

a noite agônica se plasma lenta
sobre os escombros da cidade cinza,
dispondo sombras que, multiplicadas,
deslizam livres aos desvãos da vida

ao eco dos silêncios vem juntar-se
a frágil consciência da distância:
menos que pena, dor dilacerada

meus olhos lúcidos deliram sonhos
por sob as tardas horas que traduzem
ausência, perda, solidão e nada

Éticas e práticas de curas interligadas às linguagens-culturas



João Bosco Botelho

Algumas das dificuldades conceituais da ética médica têm sido estabelecer parâmetros para separar a má-prática dos maus resultados secundários aos incontáveis vetores de incertezas e variáveis que regem o funcionamento do corpo. Parece lógico pressupor que os conceitos que entendem e julgam as más-práticas e os maus resultados variam nos tempos e nas sociedades.
Os códigos que regulavam a profissão médica, desde o segundo milênio a.C., estão claramente ajustados às linguagens-culturas. Dessa forma, a ética médica é um produto do processo histórico da Medicina e do médico, ligada à ética e à moral, ao longo de mais de dois anos, como novo componente teórico, de caráter pedagógico e fiscalizador, para manter o principio fundamental que deve nortear as práticas médicas, sejam ou não de instrumental pesquisador: têm caráter libertador e devem acompanhar as mudanças sociais e tecnológicas na construção de um mundo melhor.
Nesse sentido e sob essa compreensão é válido relembrar alguns aspectos históricos.     Na Mesopotâmia e nas culturas que se desenvolveram mais intensamente, durante no segundo milênio a. C., no oriente, as práticas médicas estavam claramente dependentes das ideias e crenças religiosas por meio de muitos deuses e deusas taumaturgos. Não existia um processo teórico para explicar a saúde e a doença fora das ideias e crenças religiosas.
Nesse conjunto complexo, sem dúvida o médico, nominalmente reconhecido, fazia parte dos especialistas sociais. Existem fortes indicativos de um início consistente quanto a preocupação dos médicos quanto a:
– Entender, dominar e modificar a multiplicidade dinâmica das formas e funções do corpo;
– Estabelecer parâmetros do normal e patológico;
– Vencer as limitações impostas pelo determinismo da dor e da morte fora de controle. 
Assim, é possível identificar curadores que conviviam simultaneamente em torno de ações específicas para controlar a dor e aumentar os limites da vida vinculados às três Medicinas, cujos limites eram imprecisos:
– Medicina-divina: fortificada nos templos dedicados às muitas divindades, cujos agentes, sacerdotes e sacerdotisas, com forte destaque social, ofereciam a cura por meio de rezas e encantamentos sob a guarda dos deuses e deusas curadoras. Como uma facção muito forte, os adivinhos floresceram. Alguns registros nas tábuas de escrita cuneiforme atestam que os agentes das curas, na Mesopotâmia, além de encantadores, eram reconhecidos como exímios adivinhos. Essa característica dos curadores, na Mesopotâmia, não passou despercebida aos que redigiram alguns livros do Antigo Testamento, no período do cativeiro mesopotâmico, que demonstram forte influência da adivinhação.
– Medicina-empírica: nesse grupo, apesar de os agentes, homens e mulheres do povo, não exercerem as práticas nos templos, também com forte partilha com as ideias e crenças religiosas, estavam parteiras, erveiros, encantadores e benzedores. De tudo e todos interrompiam a caminhada para orientar, oferecer o tratamento.      

 – Medicina-oficial: tanto na Mesopotâmia, quanto em outras culturas que se organizaram e prosperaram, no segundo milênio a.C., os processos dos aprendizados, amparados pelos poderes dominantes, na formação do médico, estavam dentro dos templos das divindades curadoras mais importantes. Também por essa razão, é possível justificar, historicamente, os estreitos laços da Medicina-oficial com as ideias e crenças religiosas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Fantasy Art - Galeria


Autor desconhecido.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Lembranças ao prefeito



Pedro Lucas Lindoso

Fui a Jaguariúna, interior de São Paulo, visitar tia Ana Maria e primos que moram por lá há anos.
Jaguariúna é uma cidade aprazível e próspera do interior paulista. Foi em Jaguariúna, na casa dos meus primos amazonenses, que conheci dona Elsa. Uma simpática senhora que ajudou minha prima a criar os filhos e secretariar nos serviços domésticos.
Imagine alguém que conhece Manaus e nossas comidas como ninguém sem jamais ter visitado a cidade. Essa é a dona Elsa. Faz uma excelente caldeirada de tambaqui, um apetitoso pirarucu de casaca e até tacacá.
Adora doce de cupuaçu e já viu várias fotos do Encontro das Águas, do Teatro Amazonas e da Ponta Negra.
Quando há alguma notícia sobre a cidade de Manaus ou mesmo do Amazonas na televisão, Elsa corre para ver. 
Mesmo sem qualquer autoridade para tal, resolvi nomear dona Elsa como Consulesa honorária de Manaus junto a municipalidade de Jaguariúna.
Elsa é uma figura conhecida na cidade. Adora politica. Conhece todos os vereadores e secretários do município. É íntima do prefeito da cidade.
Elsa é uma disputada cabo eleitoral. Nos períodos de eleição os políticos buscam o apoio incondicional da dona Elsa. E ela vibra com os arranjos políticos e dá notícia de tudo e de todos.
Quando soube que eu morava em Manaus quis saber se conhecia o Mercado Adolpho Lisboa.
– É lá onde compram a farinha do Uarini e pimenta murupi. Não existe aqui em Jaguariúna e nem em São Paulo, me disse.
Além das coisas de nossa terra, Elsa gosta mesmo é de política. Perguntou-me se conhecia o prefeito de Manaus. Eu lhe disse que sim. Mas não era íntimo. Ao nos despedirmos, Elsa foi enfática.
– Lembranças minhas ao prefeito de Manaus.

domingo, 30 de agosto de 2015

Manaus, amor e memória CCXXVII


Palácio Rio Negro.

sábado, 29 de agosto de 2015

Fantasy Art - Galeria


Boris Vallejo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

exercício nº 4


Zemaria Pinto


O som do sol se pondo sobre o rio
compõe a melodia-desatino
de negros ecos, negras ressonâncias,
inventando hemoptises na calçada.

Um barco rasga lentamente a água
e uma gaivota faz evoluções
tardias. Pela beira, dois cães magros,
como dois homens, caçam nos monturos.

Aos poucos, desfaz-se a tarde submissa         
à noite, o imenso pássaro sombrio,
sobrepairando azul sobre a cidade,
o hálito morno, as garras afiadas.

Meu peito inda lateja a dor antiga,
tanto cruel quanto serena e amiga.

Evolução histórica dos códigos de ética médica



João Bosco Botelho

Na tese de doutorado defendida em Paris, em 1955, intitulada “A ética médica”, o professor Derrien firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do homem e da mulher. Assim, o entendimento do professor Derrien da virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, estaria ligada ao “bem”, ao “bom”, à praticidade, estreitando os vínculos das ações médicas, de modo geral, ao controle da dor e adiando os limites da vida. Dessa forma, é inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na maior parte das abordagens teóricas referenciais.
Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado que ligam a ética médica à boa prática, entendidas  pelo senso comum como bons resultados profissionais atadas às ações que devem, obrigatoriamente, trazem melhorias à vida pessoal e coletiva.
Parece razoável pressupor que o conhecimento historicamente acumulado, desde os primeiros registros do médico como personagem social, se ajustou na maior inclusão dos curadores (aqui compreendidos tanto os médicos, como representantes da medicina-oficial, aquela amparada pelo poder dominante, quanto os benzedores, erveiros, parteiras, sacerdotes, encantadores e muitos outros) que obtinham melhores resultados nos respectivos procedimentos de curas. Do outro lado, nos mesmos milhares de anos, os curadores que não conseguiam firmar o reconhecimento coletivo em torno da competência na solução dos problemas expostos pelos postulantes, não recebiam o reconhecimento coletivo.
Entre esses dois grupos, as organizações sociais, em diferentes instâncias, ao mesmo tempo em que reconheciam e nominavam a medicina e o médico, inclusive em algumas sociedades, também os especialistas, compondo parte do conjunto das profissões, procuraram refletir, identificar, coibir e punir a má-prática médica. De modo geral, essa má-prática está mais atada ao resultado desfavorável à saúde do doente, seja pessoal ou coletivo. Nenhum procedimento médico, no passado e no presente, tem sido aceito se provoca piora no estado de saúde do doente.
Esse conjunto normativo entre ética e moral culminou, na Grécia, com o aparecimento do conceito de deontologia (do gr. déontos, “o que é obrigatório, necessário” + logia), que evoluiu para “o estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral”.
A palavra deontologia ligada à prática médica, em torno da ética e da moral, apareceu pela primeira vez, em 1845, no Congresso Médico de Paris, no trabalho do médico M. Simon, intitulado “Deontologia médica ou dever e direitos dos médicos no estado atual da civilização”.
De modo geral, os códigos de deontologia médica comportam três fundamentos estruturantes, reafirmando o indivíduo e não o coletivo como o mais importante valor da prática médica, maior parte das vezes, distribuídos entre os artigos:
- O médico deve estar sempre a serviço do indivíduo, respeitando a vida e sua dignidade, e da saúde pública;
- O médico deve exercer a profissão com liberdade de decidir, prescrever e indicar tratamento, ao mesmo tempo em que o doente deve manter a liberdade de escolher o médico para dirigir o tratamento. Essa plena liberdade dos médicos deve estar atada ao conjunto de explicações por meio dos “termos de consentimentos livres e esclarecidos” para que o doente tenha maior conhecimento da doença e do tratamento proposto;
- O médico é responsável pelos seus atos entendidos como valores de competência amparada na ciência.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Fantasy Art - Galeria


Luis Royo.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Panapaná



Pedro Lucas Lindoso

Encontrei-me com Dr. Chaguinhas no Tribunal. Comentávamos com entusiasmado sobre a Semana  Internacional de Museus, cujo dia é comemorado em 18 de maio. Disse a ele que o Dr. Adalberto Karim Antônio, juiz e articulista do Jornal do Commercio, fez excelente palestra sobre museus e sustentabilidade na sede do IGHA – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Naquela manhã, o museu do Instituto recebia um grupo grande de alunos de uma escola pública.
Chaguinhas é um apaixonado por museus. Ao ponto de passar vinte dias de férias em Paris, exclusivamente dedicados a visitação do Louvre.
Chaguinhas não se conforma com o fechamento do Museu de Ciências Naturais da Amazônia, que ficava localizado na Colônia dos Japoneses, aqui em Manaus. Conhecido como Museu do Japonês.
Por lá, havia coleções de animais empalhados e um vasto acervo em taxionomia. Parte da Botânica e da Zoologia que trata da descrição, identificação e classificação, o acervo taxionômico do museu em borboletas, insetos, aranhas e peixes raros da região era significativo e não deveria ser relegado ao abandono e fechamento definitivo.
 Um aquário enorme abrigava pirarucus e tambaquis.  Esses provavelmente já foram objeto de nutrição para humanos, mas onde estariam os insetos, os enormes besouros e as fabulosas aranhas amazônicas?
Chaguinhas já foi um exímio colecionador de borboletas e não se cansa de indagar pelo destino da coleção de borboletas do acervo do Museu de Ciências Naturais.
Perguntei a ele o que o atraia tanto nas borboletas. Chaguinhas me disse que era a metamorfose. A transformação de um ser em outro. A Mudança de forma e de estrutura que ocorre no monstro lagarta ao se transformar na bela borboleta.
– Se você souber onde se encontra aquele maravilhoso panapaná, que estava no Museu do Japonês, me avisa.
– O que é panapaná, Chaguinhas?
– Então você não sabe? É o coletivo de borboletas.


domingo, 23 de agosto de 2015

Manaus, amor e memória CCXXVI


Escola de datilografia.

sábado, 22 de agosto de 2015

Fantasy Art - Galeria


Portrait of a Witch Azurelle.
Anne Pogoda.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

exercício nº 12


Zemaria Pinto


à fronte guarda sombras de outras eras
e um par de olhos tão tristes, que canção
alguma alcança. fixas ancas lançam
o rabo que balança ao som do vento.

a branca estrada sob o ubre úmido
é o caminho da força eclipsada
à meia-lua que se forma em aura
no cósmico avatar da terra farta.

esta a imagem da Vaca, impura e bela.
à tortura ordenada indiferente,
as asas ruflam num ruído surdo
buscando o largo campo do universo:

a Vaca precipita-se no espaço,
o olhar perdido nalgum vão do éter.

Astrid Cabral recebe homenagem no Rio de Janeiro



Historicidade da ética médica



João Bosco Botelho

O alfabeto grego possui duas letras “e” longo = eta e o “e”curto = épsilon. Dessa forma, êthos com a letra eta significa: característica, modo habitual de se comportar; éthos com a letra épsilon: corriqueiro, costume, usual. O processo histórico linguístico impôs semelhança etimológica entre os dois termos: ambos estão vinculados à virtude. Talvez também por essa razão, no cotidiano, a ética tem caminhado ao lado da moral.
A palavra “moral” é de origem latina, “mores” significa “costume”, mas não qualquer costume, e sim estritamente aderido à virtude. Assim, Kant, de modo genial, caracterizou a ação moral plena de virtude e realizada, exclusivamente, por dever legalista, em respeito às leis, em caráter universal.
Em muitas circunstâncias, essa característica universal da ação moral, citada por Kant, isso é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, independente do processo fiscalizador, ultrapassa as relações sociais em si mesmas. Não é impertinência pensar que esse desejo humano, desde um passado impossível de precisar, de valorizar a virtude, como antagonismo ao vicio, seja um processo gerado ao longo da humanização, ligado à sobrevivência do grupo humano.
Sem esforço, torna-se inevitável articular um pensamento teórico voltado à herança genética, para a existência de uma ou mais memórias-sócio-genéticas (MSGs) ligadas à valorização da virtude e o desprezo ao vício, atadas aos mecanismos institucionais para valorizar a virtude e unir os vícios. Esse conjunto organizador social presente nas MSGs, vinculado à sobrevivência – ética-moral –, presente na espécie humana, a única com neocórtex tão desenvolvido, desprezando o vício (aqui compreendido como oposição à virtude) também se manifesta socialmente por meio de outras categorias metamórficas, todas amparando a sobrevivência pessoal e coletiva: linguagem, ser-tempo (pessoas vistas e pensadas), ser-não-tempo (seres pensados impossíveis de serem vistos), relações médico-míticas (associação de deuses e deusas de muitos panteões com a saúde a doença), dor-histórica (presentes nas MSGs, ao contrário da dor pessoal, tratada pelo agente da cura, funciona alerta de um ou mais sofrimentos coletivos que impuseram mudanças socias) e a coesão social.  A ética-moral ampara e mantém as MSGs.
É claro que nos dias atuais ainda não existem mecanismos na engenharia genética capazes de identificar essas MGSs, mas esse fato não invalida essa construção teórica.
É difícil atribuir a atávica busca da virtude somente às relações sociais. Em incontáveis ações humanas, sejam pessoais ou coletivas, em grupos sociais das mais diversas etnias, nos quatro cantos do planeta, existem fortes indicativos de que esse encanto coletivo pela virtude seja motivado por impulsos que transcendem o exclusivamente social.
Desse modo, sob essa perspectiva, os significantes da ética ligada a moral, oriundos da escrita grega, com o “e” longo, o eta, ou com o “e”curto, o épsilon, reproduzem importantes e indispensáveis mecanismos sociogenéticos da sobrevivência da espécie humana, materializados nos códigos de ética de muitas atividades, nas quais a ética médica é um deles.

Ainda em torno das associações entre a ética e a moral, especificamente, na compreensão ética e moral das práticas médicas, existem algumas tentativas para conceituar a ética médica também integrando à virtude, independentes de a primeira estar pressuposta ao coletivo e a segunda, ao indivíduo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Fantasy Art - Galeria


Andrius Kovelinas.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Estrogonofe, não!



Pedro Lucas Lindoso

O mês de agosto nos traz muitas saudades de meu inesquecível pai, JOSÉ LINDOSO. Não só pelo dia dos pais e pelo dia do advogado, comemorado em 11 de agosto, mas principalmente pelo dia 21, quando faria 94 anos.
JOSÉ LINDOSO, advogado e professor, foi secretário de educação, deputado federal, senador e governador do Amazonas. Todavia, o mais importante para ele foi ser marido de Amine Daou Lindoso, filho de vovó Zezé e pai de seus sete filhos. Amigo e companheiro dos filhos e idolatrado pelas filhas, surpreendia nossos professores em Brasília ao comparecer às reuniões de pais e mestres. Afinal era senador, líder do governo no Congresso, membro da mesa do Senado.
Antes de governar o Amazonas foi vice-presidente do Congresso Nacional. Mas sempre teve tempo para os filhos. Prezava sua família. Gostava de livros, de estudar, de conversar, dos amigos e principalmente do diálogo com os filhos.
Certo dia, tia Vitória, sua irmã, chegou a casa e perguntou: “Cadê o Zeca?” Achei Zeca muito chinfrim e comecei a chamá-lo de Zecão. Pegou. Até os netos o chamariam de vovô Zecão.
JOSÉ LINDOSO era um homem simples, despojado de vaidades. Gostava de política, no bom sentido. No sentido original da palavra “polis+ética” = política. Coisa rara nos dias de hoje. Em jantares entre políticos, em nossa casa, lembrava aos convivas que o cerimonial que conhecia era o do “Rio Madeira”. O protocolo era o aprendido em Manicoré.
Gostava de ir às livrarias, aos sábados pela manhã. No final da vida voltou a exercer o magistério no Departamento de Direito da UnB. Caminhava diariamente pelas arborizadas quadras de Brasília. Nunca precisou de seguranças. Como bom amazonense, apreciava nossos peixes e a culinária regional. Comia normalmente de tudo. Só não gostava de estrogonofe.

No final dos anos setenta, havia uma propaganda de creme de leite na televisão. A esposa preparava um estrogonofe com o tal creme de leite, quando o marido telefonava informando que levaria um colega para o almoço. E virava-se para o amigo e dizia: Arnaldo, vais comer um estrogonofe! Ao ver a tal propaganda, invariavelmente dizia: Coitado do Arnaldo! Vai comer estrogonofe! A saudade de meu pai é imensa. Se houver festa no céu e servirem a tal iguaria, com certeza vai dizer: “Estrogonofe, não. Obrigado”.

domingo, 16 de agosto de 2015

Manaus, amor e memória CCXXV


Mercado Adolpha Lisboa, o Mercado Grande ou Mercadão.

sábado, 15 de agosto de 2015

Fantasy Art - Galeria


Echo Chernik.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O primeiro amor de Maranhão Sobrinho



Kissyan Castro
          
Entrar na intimidade de um artista sem divisá-la de sua própria arte é como estar às apalpadelas em intrincado labirinto, sem contar com a ajuda de um fauno. Sobretudo a intimidade de poetas da esteira de um Maranhão Sobrinho. Pois, como bem nos acautela Fernando Pessoa, esses demiurgos da lira costumam celebrar, também, as suas “dores fingidas”. No entanto, valendo-me do que a despeito disso escreveu o poeta Floriano Martins, em Escritura Conquistada, de que “os poetas estamos todos em cada um de nossos versos”, além do relato de testemunhas auriculares, apoiado por documentos oficiais, e do que se pode depreender do que nos deixou em prosa e verso o próprio Maranhão Sobrinho, arrisco-me a falar, ainda que minimamente, desta que talvez tenha sido o primeiro amor do nosso poeta maior. Refiro-me a Honorina Fernandes de Miranda.
Com o passamento do pai, o Capitão Honório Fernandes de Miranda, e vendo abalada a estrutura econômica da família, Manoel Raimundo Nonato de Miranda resolve deixar Cururupu, sua gleba natal, para vir exercer o magistério na então próspera Vila de Santa Cruz da Barra do Corda. A mãe, Dona Rita Maria da Silva Miranda, recusa-se a acompanhá-lo, mas recomenda-lhe a irmã, a pequena Honorina Fernandes de Miranda, que, mesmo tenra, manifestava disposição e vivacidade incomuns, podendo muito bem auxiliá-lo em suas atividades.
Maranhão Sobrinho fora seu mais obstinado aluno, e não escapou às suas recorrentes traquinagens, chegando a botar pimenta moída no seu “torrado”. Hábil educador, Raimundo Nonato conseguiu vislumbrar, por trás da excentricidade peráltica do pequeno Zeca, o gênio invulgar que se tornaria mais tarde. Além da instrução basilar, Maranhão Sobrinho recebeu de seu mestre admiração e sincera amizade. Quantas vezes o poeta não deve ter-lhe visitado para tirar alguma dúvida retida durante a aula formal, ou para ouvir-lhe as exóticas histórias, folhear os livros de sua biblioteca particular, ou simplesmente – e por que não? – para contemplar a jovem Honorina, por quem cedo passou a nutrir especial afeto, e cuja formosura entusiasticamente exalta num poema publicado no jornal cordino O Porvir, em 21 de fevereiro de 1897, época em que supostamente namoravam:

Vês? Teus seios gentis por entre as rendas
Da perfumosa e cândida mantilha,
Cantam baladas e soletram lendas.

Teu rosto tem a palidez de Ofélia,
O perfume das virgens de Sevilha
E a mágica expressão do de Cordélia!

O saudoso escritor Antonio de Oliveira, na separata nº 82 da Revista das Academias de Letras, de 1976, foi quem primeiro trouxe à tona o assunto, ao referir-se a uma entrevista com Olímpio Fialho, amigo de infância de Maranhão Sobrinho, o qual lhe segredou que o autor de Papéis Velhos..., aos 18 anos de idade, tivera uma namorada chamada Honorina de Miranda, a Noca, como era comumente conhecida. Moça que, a julgar pela caligrafia impecável com que assinava os documentos oficiais, possuía esmerada educação.
Eu mesmo não tinha sequer noção do quanto significou essa primeira experiência amorosa para o aedo barra-cordense, até encontrar, em O Guarany, outro antigo periódico cordino, como por acaso, um texto em prosa do poeta, uma crônica que denuncia um Maranhão Sobrinho romântico, a desaguar o coração sem o menor desvelo. Transcrevo aqui um trecho:

Há lá para as bandas da Rua Formosa[1], célebre, muito célebre no canhenho do humilde rabiscador modelo destas linhas, uma celestial senhorita que me cativou docemente o coração. É um mimo da natureza; é a verdadeira coroa da criação...

Refere-se esta “celestial senhorita” a Honorina de Miranda? Provavelmente. Tanto que mais adiante ele indaga:

Conheces a minha bela?

Maranhão Sobrinho emitiu essa crônica ao jornal enquanto passava alguns dias com parentes, provavelmente em Carolina ou Riachão, cidades onde o clã Maranhão possuía presença expressiva. E a julgar pelo temperamento irrequieto do poeta, não é de se estranhar sua tendência andarilha de viajor. No entanto, sua aventura amorosa inaugural chegou ao fim quando numa dessas viagens teve um sonho, não um sonho qualquer, fruto do enfado e ansiedades da vida, mas um sonho premonitório, cujo relato do cumprimento Maranhão Sobrinho deixa registrado em versos, na Revista Elegante, em 23 de março de 1899:

Parti... e tu ficaste! Um só momento
Não pude me esquecer de ti, amada!
Do fundo da minh’alma angustiada
Fugira todo o meu contentamento.

E andei... mas tendo em ti o pensamento,
Nunca olvidei-te. Em meio da jornada,
Sonhei qu’esta minh’alma apaixonada
Tinhas lançado em tredo esquecimento!

Voltei então... julguei achar-te a espera
Minha cantando a doce primavera
Do nosso amor, festiva, palpitante...

Cheguei, enfim... Ó dor! Ó sentimento!
Como sonhei – achei o esquecimento...
E sorrias nos braços d’outro amante!

Quem teria sido esse “outro amante” em cujos braços o poeta flagrou sua amada Honorina? Em minhas pesquisas, acabei descobrindo que se tratava de Políbio Martins Jorge, filho do capitão Caetano Martins Jorge e Ana Martins da Cunha, influente família nesta cidade. Esse pérfido ato teria deixado profundas e indeléveis marcas em sua alma de poeta.
Este assunto seria irrelevante não fossem as implicações que viriam a ter tanto na poesia de Maranhão Sobrinho, quanto, talvez, nas motivações que lhe fizeram deixar Barra do Corda. A propósito, o que teria mesmo motivado o nosso aedo a deixar sua família, amigos, seu torrão natal, para nunca mais voltar a vê-los? A versão oficial reza que Barra do Corda tornara-se pequena demais para ele, e, à maneira de Rimbaud, exaurira todas as possibilidades de aquisição do conhecimento que sua aldeia poderia oferecer. Concordo. Mas parece uma versão cômoda demais. Teria sido apenas isso? Não buscava o nosso poeta destaque, posição social? Não. Ou não teria abandonado o curso normal em São Luís só por se ter indisposto com um dos professores. Ou teria procurado amparo em outra entidade afim, o que não fez. O que o levou daqui não teria sido a ambição por “metais preciosos”? Definitivamente, não. Pois, como nos diz Antônio Lobo em Os Novos Atenienses, Maranhão Sobrinho “possuía pelas coisas materiais da vida a mais soberba das indiferenças”. Poderíamos atribuir o seu êxodo talvez a uma frustração política, por causa da prevalescência do republicanismo local? Ou mesmo por suas inclinações nomadistas, próprias do seu temperamento erradio? Vale ressaltar que O Guarany, de 26 de fevereiro de 1899, trazia estampada na primeira página a seguinte manchete: “O Fim do Mundo em 13 de Novembro deste Ano”. Teria esta charlatanesca mensagem fustigado o nosso poeta, que para não enfrentar o Juízo Final por aqui mesmo, saíra às pressas apenas três meses antes?  Seria trágico, não fosse cômico. Por fim, não poderíamos atrelar a essas hipóteses também a sua frustração amorosa?
Creio que nos esquecemos de relacionar dois detalhes importantes: a mudança de Maranhão Sobrinho para São Luís, em 15 de agosto de 1899, com o casamento de Políbio Martins Jorge e Honorina Fernandes de Miranda, ocorrido em 27 de maio de 1899. Terá sido mera coincidência o nosso aedo ter deixado Barra do Corda, definitivamente, a menos de três meses do casamento do seu primeiro e grande amor? Junte a isso a tendência escapista do poeta e já não teremos uma hipótese que se possa descartar.
Dizem os antigos que jamais nos esquecemos do primeiro encontro, do primeiro beijo, da primeira intimidade, enfim, do primeiro amor.  Verdade ou não, deixemos que o próprio Maranhão Sobrinho nos conte em versos a sua experiência, num dos primeiros poemas que publicou ao chegar em São Luís:

E tu passas mimosa,
Ó casta e meiga flor da minha aldeia!
Gravando com os pezinhos cor de rosa
Estrofes raras na suave areia...

Maranhão Sobrinho de fato não a esqueceu. Sua imagem foi sendo mistificada, e verso a verso expurgada até a sublimação arquetípica da perfeição feminina, até que enfim estivesse pronta para reencontrá-lo, não mais em carne e osso, e correr o risco de perdê-la novamente, mas no âmbito do poema, onde a aguarda em sua turris ebúrnea, “longe dos homens e das casas”, onde só há lugar para dois, onde a eternidade é descartável, e apenas “dois brancos pares de travessas asas” ruflam uníssonas na imensidão azul do Sonho.




[1] Atual Frederico Figueira.