Amigos do Fingidor

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Encruzilhada

Tainá Vieira

 

Passei na seleção de mestrado com um projeto em que eu propunha estudar a violência simbólica no romance A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Marta Batalha. Por questões relacionadas à orientação, tive de mudar o foco para o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O tema da minha pesquisa é gênero, memória e agência feminina; nesse sentido, meu recorte são as personagens femininas, obviamente.

Pois bem. Acontece que as pessoas vivem me perguntando: o que é agência? O curioso é que, até pouco tempo atrás, eu também não sabia responder. Mais curioso ainda é perceber que todas nós, mulheres, sabemos o que é agência. Aliás, todo mundo sabe, mas nem sempre conhece esse nome.

Mas o que é agência, afinal?

Sem recorrer aos fundamentos teóricos, apenas a partir da forma como a compreendi, agência é a capacidade que um sujeito desenvolve e mobiliza para sair de uma condição de opressão, subalternização ou marginalização. É a possibilidade de agir sobre a própria realidade, mesmo quando as circunstâncias parecem determinadas por forças maiores.

Na minha pesquisa, por exemplo, analiso as estratégias que as personagens utilizam para conquistar direitos básicos para uma vida digna: o direito à terra, à moradia, à educação, entre tantos outros. Mas não é somente isso. A obra suscita temas que nos tocam e nos atravessam de tal maneira que nos deixam profundamente comovidos ou igualmente revoltados. Entre as intersecções de gênero, racial e condição socioeconômica, as personagens exercem, de forma implícita ou explícita, essa capacidade de transformar a própria existência. Elas lutam para romper o ciclo de servidão em que nasceram, para que seus filhos e, consequentemente, seus netos não sejam condenados à mesma vida que marcou seus antepassados.

Dito isso, quero trazer esse conhecimento adquirido pela pesquisa para minha vida como escritora. Como saber se estou caminhando amparada pela agência ou simplesmente metendo os pés pelas mãos?

Desde muito cedo, nós, mulheres filhas de ribeirinhos, como é o meu caso, aprendemos a lei da sobrevivência. Nossas mães não nos ensinam por meio de explicações detalhadas ou manuais de instrução. Elas ensinam vivendo. Ensinam na lida diária, no trabalho árduo, nos gestos repetidos que sustentam uma casa e uma família. Cabe a nós observar atentamente cada movimento, cada escolha, cada silêncio. Mais tarde, quando crescemos e assumimos nossas próprias casas, reproduzimos aquilo que aprendemos. É um ciclo. É a roda girando. É o conhecimento da terra criando raízes cada vez mais profundas.

E ainda me perguntarão: o que isso tem a ver com ser escritora?

Tudo, direi.

Minha escrita nasce exatamente daí: da lida cotidiana, das imagens que atravessam os dias enquanto a panela está no fogo, enquanto respondo mensagens no grupo de mães da escola ou tento destrinchar alguma teoria para um artigo. Ela nasce também nos momentos mais difíceis, quando surge aquela vontade de desaparecer do mundo. Sim, eu já quis morrer muitas vezes. Mas, quando sinto que estou quase indo, lembro que ainda faltam coisas para resolver. Muitas coisas, aliás. Por isso, minha escrita me custa muito.

Não porque me fira ou me machuque, mas porque necessito dela e ela necessita de mim. Muitas vezes nossos tempos não coincidem. Quando ela sopra sua chama sobre mim e eu não estou pronta para recebê-la, ela espera. Compreende minhas ausências. Por isso não acredito em inspiração. Acredito em encontro. E quando finalmente me vejo capaz de acolher aquilo que ela me oferece, ela se entrega inteira. E me salva.

Nem todos os dias sou escritora. Nem todos os dias quero ser. E isso não acontece por relapso ou irresponsabilidade. Acontece porque, muitas vezes, estou tão cansada que não me obrigo a carregar mais esse peso. Um peso bom, é verdade, mas ainda assim um peso. Talvez por isso a escrita me seja tão cara.

Então, quando alguém me pergunta quem sou eu, com meus poemas pingando sangue e cheirando a cachimbo de avó, querendo dar pinta de escritora, não me sinto ofendida nem machucada. Ao contrário. Sinto-me desafiada. É um chamado para o combate. E eu não me calo. Porque toda vez que uma mulher silencia, apaga-se um pouco da memória das mulheres que vieram antes. Apaga-se um pouco dos ensinamentos da mãe, da avó, das ancestrais que sobreviveram para que ela pudesse existir. Quando isso acontece, ela deixa de ocupar o lugar de sujeito agente de sua própria história.

E, ao silenciar por causa de alguém, ou renunciar à própria voz, decreta não apenas uma falência intelectual, mas uma rendição antecipada. Declara-se vencida antes mesmo de conhecer o calor da luta, o fervor da resistência e a potência transformadora de permanecer de pé. Não romantizo o combate, mas também não enxergo esse muro todo me separando do inimigo, ao contrário, essa fronteira para mim é tão frágil que se eu assoprar bem forte ela evapora.

Talvez seja justamente isso a agência. Não um conceito acadêmico encerrado em livros e teorias, mas a decisão cotidiana de continuar existindo, falando, escrevendo, lutando e desafiando. Mesmo quando o mundo insiste em nos ensinar o contrário. E ainda bem que temos os romances e suas protagonistas, porque elas nos lembram que nenhuma forma de silêncio é definitiva. Em algum momento da vida, fui Eurídice Gusmão, hoje, porém, reconheço-me em Belonísia: a mulher que teve a língua decepada, mas que, ao lado da irmã, inventou uma nova linguagem para continuar existindo.

Porque foi isso que fizeram as mulheres que vieram antes de nós e aquelas que insistimos em ser: quando lhes tiram a voz, elas transformam o silêncio em outra forma de fala. E enquanto houver uma mulher escrevendo, lembrando e recusando a rendição, a subordinação, nenhuma de nós estará verdadeiramente calada.

 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Bloomsday

Pedro Lucas Lindoso

 

O Bloomsday tornou-se uma tradição em várias partes do mundo. Além da Irlanda, claro.  Existe em razão do clássico livro de James JoyceUlysses. O Bloomsday interessa principalmente àqueles que gostam das Letras, Literatura em geral. O halloween, outra manifestação cultural estrangeira, está sendo comemorado efusivamente no mês de outubro, no Brasil e outros países.

As tradições culturais que nos influenciam chegam de modos diversos. Algumas por livros infantis. Outras por livros que se tornaram clássicos da Literatura mundial. Como o Ulysses, obra-prima de James Joyce.

O Brasil, que nunca foi feito de uma só cor, de uma só língua, de uma só memória, costuma receber tudo com curiosidade. Às vezes, com encanto. Às vezes com exagero.

O Bloomsday, por exemplo, é uma dessas tradições estrangeiras que chegam com certo charme discreto. Vem da Irlanda, de James Joyce, de Leopold Bloom caminhando por Dublin em 16 de junho, transformando um dia comum em literatura. Celebrar o Bloomsday é, de algum modo, celebrar a leitura, a cidade, o passeio, a conversa de bar, o pensamento que se perde e se encontra. É uma festa menos barulhenta, talvez por isso mais interessante. Não exige fantasia comprada, não pede susto, não se impõe nas vitrines. Convida. Quem quiser entra. E Manaus já entrou na onda. Sob a batuta do poeta, escritor e editor Nelson Castro.

Já o halloween parece ter vindo mais fantasiado de mercado do que de tradição. Abóboras iluminadas, bruxas de loja e monstros em promoção. O problema é quando a importação vem com apagamento. Somos um país multicultural, contudo, multiculturalidade não é empilhar costumes estrangeiros.  Não é apagar as marcas dos povos originários que foram violentados e silenciados.

Se temos espaço para Leopold Bloom caminhar por nossas ruas, pelo que eu, pessoalmente, sou fascinado, também precisamos abrir passagem para os encantados, os orixás, os caboclos, os mestres de tradição oral, os cantos indígenas, os tambores negros, as festas de terreiro, os maracatus, os congados, os bois, os carimbós, as ladainhas, os mitos, o Gambá, recentemente reconhecido pelo Estado do Amazonas, por meio do COPHAM, Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas, como bem imaterial.

Tradições que não vieram de fora porque já estavam aqui. O Gambá, espécie de tambor, é presente em Maués e na calha do rio Madeira.

Talvez o problema não esteja em celebrar o que vem de longe. O problema está em esquecer o que mora perto. Uma cidade que lê Joyce pode muito bem celebrar Jorge Amado, Machado de Assis, Carolina de Jesus e Cora Coralina, dentre vários outros.

O estrangeiro não precisa ser inimigo. O Bloomsday pode nos lembrar que a literatura é capaz de transformar um dia qualquer em celebração. Porque, no fundo, uma cultura viva é riqueza imaterial a ser preservada. Pode passar um irlandês de chapéu, pode passar uma criança fantasiada de fantasma, pode passar um tambor de Gambá chamando o povo, pode passar um cortejo negro, pode passar uma liderança indígena lembrando que a terra tem memória.

Que venham, então, as tradições estrangeiras que nos ampliem, como o simpático Bloomsday.  Mas que fiquem de pé, no centro da roda, as tradições que nos fundaram.

Quanto ao Bloomsday em Manaus, será comemorado neste 16 de junho, sob a batuta de Nelson Castro. Mas é preciso ler pelo menos alguns trechos de Ulysses, de James Joyce. O que não é coisa fácil.

 

domingo, 14 de junho de 2026

“Garrote” conquista o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes Amazônicos, de Roraima

  

Manaus/Boa Vista, 12 de junho de 2026 – O curta-metragem “Garrote”, dirigido por Bruno Pantoja, foi premiado com o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes Amazônicos 2026. A cerimônia de premiação aconteceu na noite desta sexta-feira (12/06), no Centro Amazônico de Fronteiras (CAF) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista, marcando o encerramento da primeira edição do festival.

O Festcine Saberes Amazônicos é o primeiro festival de cinema regional e temático de Roraima e representa a consolidação de um projeto com foco na produção da Região Amazônica e de Roraima.

A Mostra Oficial Saberes Amazônicos reuniu produções de ficção de diferentes estados da Amazônia Legal. “Garrote” competiu ao lado de “Boiúna” (PA) e “No limite do lavrado” (RR) , consolidando a proposta do festival de promover o intercâmbio cultural e a valorização do audiovisual autoral e independente da região.

Organização e premiados.


Sobre o curta “Garrote”

 

Com 25 minutos de duração, o filme se passa em Manaus, em 2021, durante o colapso da crise do oxigênio na pandemia de Covid-19. A trama acompanha João, um músico negacionista, e Maria, uma engenheira pragmática, que enfrentam o desgaste de uma convivência forçada durante o lockdown. A história é inspirada livremente no texto teatral “Cenas da vida banal”, de Zemaria Pinto, que também assina o roteiro.

“É uma história sobre reclusão e revelação. João e Maria representam muitas pessoas, cada um com suas falhas e qualidades, vivenciando uma tragédia particular em meio a uma tragédia coletiva”, explica Bruno Pantoja.

O elenco é composto por Amanda Magaiver e Begê Muniz, e a produção executiva é assinada por Maíra Dessana. O filme aborda temas como negacionismo, masculinidade tóxica, saúde mental e relacionamentos abusivos, tendo sido contemplado pela Lei Paulo Gustavo (2023) Governo Federal e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

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Serviço

· Evento: Festcine Saberes Amazônicos 2026

· Datas: 11 e 12 de junho de 2026

· Local: Centro Amazônico de Fronteiras (CAF) – UFRR, Boa Vista (RR)

· Filme premiado: “Garrote” (curta-metragem)

· Premiação: 3º lugar – Mostra Oficial Saberes Amazônicos

· Direção: Bruno Pantoja

· Elenco principal: Amanda Magaiver, Begê Muniz

 

Informações para a imprensa:

Bacaba Produções

e-mail: bacabaproducoes@gmail.com

Redes sociais: @ciadeartesbacaba  

Manaus, amor e memória DCCLXXIX


Catedral, vista da 7 de Setembro. 
Os carros estacionados sugerem a época da foto.  

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A poesia é necessária?

 

Do velho e do jovem

Conceição Evaristo

 

Na face do velho

as rugas são letras,

palavras escritas na carne,

abecedário do viver.

 

Na face do jovem

o frescor da pele

e o brilho dos olhos

são dúvidas.

 

Nas mãos entrelaçadas

de ambos,

o velho tempo

funde-se ao novo,

e as falas silenciadas

explodem.

 

O que os livros escondem,

as palavras ditas libertam.

E não há quem ponha

um ponto final na história

 

Infinitas são as personagens:

Vovó Kalinda, Tia Mambene,

Primo Sendô, Ya Tapuli,

Menina Meká, Menino Kambi,

Neide do Brás, Cíntia da Lapa,

Piter do Estácio, Cris de Acari,

Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,

E também de Santana e de Belô

e mais e mais, outras e outros…

 

Nos olhos do jovem

também o brilho de muitas histórias.

e não há quem ponha

um ponto final no rap

 

é preciso eternizar as palavras

da liberdade ainda e agora…



terça-feira, 9 de junho de 2026

10 de junho: Camões, Portugal e o Amazonas

 Pedro Lucas Lindoso

 

O 10 de junho representa muito mais do que uma simples data nacional, em Portugal. É uma ocasião para reforçar a identidade cultural, relembrar a história e exaltar a importância da língua portuguesa no mundo. Língua esta que faz Portugal, Camões, Brasil e Amazonas caminharem juntos.  Mesmo porque no dia em que Portugal respira as letras de Camões, o Brasil e o Amazonas parecem também respirar português. Não por imposição, mas por afeto antigo. Afeto que atravessa o Atlântico e chega aos rios amazônicos trazidos pelos ventos, sorrisos e livros.

Portanto, queremos que o 10 de junho seja uma ponte entre Lisboa e Manaus, entre o açafrão das ruas de Alfama e o cheiro de tempero dos peixes amazônicos. O português é um idioma que não conhece fronteiras, apenas laços. Camões, ao escrever os sonetos que dançam na memória dos portugueses, brasileiros e amazonenses, deixou gravado que a beleza do português está na sua capacidade de caber na boca de qualquer um que o pronuncie com cuidado. E é exatamente isso que sentimos quando atravessamos o Atlântico e chegamos à Amazônia com o mesmo poema nos lábios. A   língua é barco, é casa, é encontro, não só das águas, mas de gente, de cultura. De miscigenação, de superação, de amizade e interação.

No Amazonas, onde o chão é uma memória de floresta e o céu abriga mil histórias, lendas e mistérios, o português não é apenas idioma da burocracia, dos jornais ou de sala de aula. É a voz que descreve o vento que embala as palafitas. É o canto que acompanha o trabalho dos ribeirinhos, descrevendo a sua lida. Assim como as frutas e seres das matas, os bichos e lendas. É ainda o riso do caboclo que surge quando a chuva decide dançar nos rios.  E quando o vento faz banzeiro assustando os canoeiros. A língua portuguesa, nesse cenário, não se limita a ser uma norma. Ela se faz ponte entre comunidades ribeirinhas e as cidades amazônicas que celebram a diversidade com a mesma fé com que celebram o nascer do sol sobre o Rio Negro. Enquanto os portugueses apreciam navios que descem o Tejo em direção ao Brasil e ao mundo.

Ao celebrarmos Camões celebramos a coragem de quem escreve a história sem medo de ser poético. Camões, que mergulha nas águas da vida para extrair a essência da condição humana, seria, hoje, feliz em ver que a paixão pela língua continua a ensinar o valor da clareza, da musicalidade, da dignidade de cada palavra. E o Amazonas, com suas pequenas comunidades do interior e das cidades que sentem o calor do dia e o frescor da noite, se reconhecem nesse maravilhoso, poético e perfeito idioma. Reconhecendo, ainda, que somos filhos de uma língua que nos convoca a sonhar grande, mesmo quando o mundo parece caber dentro de um tapiri, de uma casinha ou mesmo de um pequeno apartamento de um conjunto habitacional em Manaus ou Belém.

Vamos fazer esse 10 de junho transformar-se em celebração dupla. A de Portugal e de Camões, que nos lembram que a palavra pode ser herança. E a nossa aqui da Amazónia onde a lusofonia não é apenas herança linguística.  Mas uma experiência de valores próprios e únicos.

Navegar pelos nossos rios e florestas. Sempre lembrando que cada voz tem o direito de ser ouvida, de cada rio ter uma história, que matas e lendas podem nos chamar para ouvir. Que a data sirva, então, para reforçar a identidade cultural que nos une. E para exaltar a beleza da língua portuguesa, que não é apenas norma gramatical, mas casa de encontros. Além de encontro das águas, encontros de maneira, de ouvido, de coração.

Que, neste 10 de junho, a gente possa ver Camões como uma estrela, para muitos amazônidas ainda desconhecida. Mas que aponta para o caminho de quem ousa falar com o mundo, com o Brasil, com o Amazonas, com a memória de todos nós que falamos o mesmo idioma e sonhamos juntos, com o português que não é apenas língua. Mas é abraço que atravessa mares, rios, florestas e várzeas.

 

domingo, 7 de junho de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXVIII

 

Ponte Benjamin Constant ou Ponte de Ferro, em reforma.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A poesia é necessária?

 

Janela tridimensional

Leila Míccolis

 

Quem é vivo sempre aparece;

mas dependendo do morto

ocorre o mesmo processo:

os poetas que eu mais amo

entram sempre em minha casa

pela porta dos seus versos.



terça-feira, 2 de junho de 2026

O Estoril


Pedro Lucas Lindoso

 

Havia um bar em Ceilândia, no Distrito Federal, cujos donos eram um simpático casal de portugueses. Arminda e Manuel serviam o melhor bolinho de bacalhau de Brasília. E eram cuidadosos para que a cerveja e os refrigerantes estivessem sempre estupidamente gelados.

Manuel faleceu aos cinquenta anos de infarto. Arminda, com as duas filhas jovens universitárias, decidiu continuar o negócio.

O bar com o impactante nome de Estoril, abria para refeições rápidas no almoço. Pela noite, Manuel entrava em cena. A clientela vinha ávida pelo bolinho de bacalhau. Fabricados por Arminda e filhas. Eram congelados e devidamente acondicionados. Cabia ao Manuel e um assistente fritá-los e vendê-los, com aquela cervejinha, noite adentro, ao som de fados e outros ritmos portugueses.

Com a morte do marido e tendo que assumir o período noturno, Arminda impôs algumas regras que acabaram por causar o afastamento de muitos fregueses e a consequente falência do negócio.

Arminda colocou um inusitado cartaz com os seguintes dizeres. “Proibido algazarras e palavras de baixo calão” Instada a explicar o que eram palavras de baixo calão, Arminda não deixava por menos. Dotada de conhecida verborragia, começa com extensas explicações.

Palavras de baixo calão são termos ou expressões consideradas indecentes, grosseiras, insultuosas ou ofensivas. Essas palavras geralmente têm conteúdo sexual explícito. E ainda podem conter ameaças, ofensas diretas ou linguagem vulgar. E não quero, não aceito e não preciso de brigas e discussões aqui no meu estabelecimento. Trata-se de uma casa portuguesa, com certeza. Exijo respeito. Sou viúva e tenho duas filhas moças. Ora pois, pois.

Arminda poderia simplesmente explicar que o termo “calão” significa linguagem indecente, insultante ou vulgar. Quando eu era menino usava-se a expressão “nome feio”. Hoje se diz simplesmente “palavrão”.

O fato é que o cartaz, as cansativas explicações e as regras de Arminda constrangiam e acabaram por afugentar a clientela. E o Estoril fechou as portas. A única coisa que ficou foi a receita do bolinho de bacalhau. Após muita insistência, uma das filhas do casal repassou-a aos colegas do Curso de Letras da UnB. Eis a receita:

Ingredientes: 1 xícara (chá) de salsinha. 1 xícara (chá) de cebolinha. 800 g de bacalhau. 1 kg de batata cozida.1 colher (café) de pimenta-do-reino. 1 colher (café) de sal. 5 ovos. Preparo: 1. Esprema as batatas. 2. Misture o sal nas batatas quando ainda estiverem quentes. 3. Acrescente o bacalhau, a salsa, a cebolinha e a pimenta. 4. Misture bem. 5. Adicione as gemas. 6. Misture novamente. 7. Bata as claras em neve. 8. Misture bem. 9. Modele os bolinhos. 10. Deixe descansar na geladeira por, pelo menos, 30 minutos. 11. Frite.


domingo, 31 de maio de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXVII

 

Eduardo Ribeiro com Sete de Setembro, em 1938.
Mais informações no site No Amazonas era assim.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A poesia é necessária?

 

Amar em aparelhos

Alex Polari

 

Era uma coisa louca

trepar naquele quarto

com a cama suspensa

por quatro latas

com o fino lençol

todo ele impresso

pelo valor de teu corpo

e a tinta do mimeógrafo.

 

Era uma loucura

se despedir da coberta

ainda escuro

fazer o café

e a descoberta

de te amar

apesar dos pernilongos

e a consciência

de que a mentira

tem pernas curtas.

 

Não era fácil

fazer o amor

entre tantas metralhadoras

panfletos, bombas

apreensões fatais

e os cinzeiros abarrotados

eternamente com o teu Continental,

preferência nacional.

 

Era tão irracional

gemer de prazer

nas vésperas de nossos crimes

contra a segurança nacional

era duro rimar orgasmo

com guerrilha

e esperar um tiro

na próxima esquina.

 

Era difícil

jurar amor eterno

estando com a cabeça

a prêmio

pois a vida podia terminar

antes do amor.

 

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Nossa Língua Portuguesa

 Pedro Lucas Lindoso

 

A professora Joyce Tino, que nos presenteia semanalmente com sua coluna “Português em gotas”, no Jornal do Comércio, contribui de modo simpático e inteligente, para aprendermos nosso idioma.

Todo mundo tem dúvida, inclusive você, eu e até o mais conceituado professor de Língua Portuguesa. Em sua prestigiada coluna, Joyce Tino nos ajuda a esclarecer muitas facetas da nossa língua que, toda hora, aparecem na nossa vida e povoam o imaginário coletivo.

Todos devemos fazer o melhor possível para escrever certo, acentuar certo, pronunciar certo. É importante também flexionar e pontuar corretamente.

 Aprender português não é uma tarefa fácil. Mas não precisa ser enfadonho. Deve ser um convite diário para usar as palavras com leveza. Celebrar as nuances da nossa língua e rir de si mesmo quando erramos. Porque errar faz parte do aprendizado. E pode até ser engraçado.

Joyce Tino, com suas dicas e comentários, não apenas corrige ou ensina grafias corretas.  Ela sabe que a escolha de uma palavra pode mudar o tom de uma frase e, quem sabe, de uma ideia inteira. E, diante de tantas dúvidas, a ideia é simples.  Escrever certo, pensar bem. E descobrir o prazer de acertar as pontas de nossa competência em Língua Portuguesa.

Na coluna “Português em Gotas”, geralmente publicada às quintas no JC, o leitor é guiado e apresentado a uma comunicação mais precisa, gentil e próxima.

Fortes aplausos para Joyce e para todos os leitores que, diariamente, se preocupam em usar a Língua Portuguesa, de maneira consciente. Como um ato de cuidado com o pensamento, com a comunicação e com o humor.

Que possamos seguir aprendendo com curiosidade, praticando com paciência e mantendo o humor afiado. Se tropeçarmos, que seja para sorrir, corrigir e seguir adiante, celebrando a língua portuguesa como um mundo vasto e belo. E cheio de possibilidades.

Parabéns, mais uma vez, para nossa simpática e inteligente colunista.  E também aos leitores que escolhem aprimorar-se, estudar, compreender e porque não dizer, amar a nossa língua.

Que venham mais textos, dúvidas e descobertas. Aprender é sempre um passo em frente. E “fica a dica”, como diria Joyce.


domingo, 24 de maio de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXVI


Acapulco, ao lado do antigo DETRAN, na velha Recife; hoje, Mário Ypiranga Monteiro.

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A poesia é necessária?

 

Ainda me viro

Alice Ruiz

 

ainda me viro

e me vejo

pronta a te chamar

a te contar

que aprendi hoje

coisas que você soube

 

ainda te vejo

em cada bicho

em cada pensamento

me surpreendo olhando

com teus olhos de pesquisa

e o que vejo

vira beleza

 

ainda te sinto

em tudo que permanece

como se tua pressa

de vida que se extingue

ficasse um pouco em tudo

ainda



quarta-feira, 20 de maio de 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

Metalinguagem: IA por IA

Pedro Lucas Lindoso

 

A "peça dentro da peça" em Hamlet é um recurso metateatral pelo qual Hamlet instrui atores a encenar o assassinato de seu pai para testar a culpa do Rei Cláudio. Este mecanismo, brilhantemente criado por Shakespeare, visa forçar Cláudio a revelar sua consciência culpada. Hamlet busca confirmar a veracidade das informações do fantasma de seu pai, usando o teatro como uma "armadilha" para desmascarar o tio, Cláudio. E dá certo. Cláudio interrompe a peça e deixa o local furioso.

É um recurso metateatral. Uma peça dentro da peça. Relendo Hamlet, obra prima de Shakespeare, resolvi aproveitar esse recurso de metalinguagem e fazer uma crônica dentro da crônica. Ou seja, uma metacrônica, se é que isso existe. Pedi a IA para fazer uma pequena crónica, explicando o que é a inteligência artificial. Eis a minicrónica que a tal IA nos fez. Tem título e tudo. Ipsis litteris:

 

Inteligência artificial: uma crônica em miniatura

 

Nem tão “fosforescente” quanto parece, nem tão misteriosa quanto os deuses do Olimpo. A IA é, simplificando, um conjunto de códigos que aprendeu a pensar com a ajuda de muitos exemplos.

Imagine uma biblioteca que não só guarda livros, mas também conversa com eles. A cada pergunta, ela escolhe o capítulo que mais se parece com o que você precisa ouvir, como quem escolhe a cereja certa do singelo sorvete.

Ela não sente, não ri de verdade, não chora quando corta a unha do dedão do pé. E mesmo assim, sabe tanto de fome, de música, de planetas distantes quanto qualquer andarilho curioso.

O truque está no treino: milhões de frases, fotos, músicas misturadas, até receitas de bolo, tudo para que a máquina reconheça padrões. Depois disso, ela tenta construir algo novo a partir dessas referências, como quem remixa uma música antiga sem apagar a sua alma.

Quando você pergunta sobre o tempo, a IA não lê o relógio; ela observa padrões: nuvens, ventos, estações. E responde com probabilidades, não com certezas absolutas. Como quem diz: “provavelmente choverá, leve um guarda-chuva, talvez”.

 

Às vezes faz piadas ruins ou falha com uma resposta boba. Afinal, aprender é errar para acertar, repetidas vezes, até que a linha entre história humana e máquina se estreite o suficiente para parecer conversa entre velhos amigos.

No final das contas, a inteligência artificial é uma ferramenta: poderosa para calcular tarefas repetitivas, criativa quando aprende com dados, útil para quem precisa de uma mão extra na hora de pensar. Mas continua dependendo de quem a usa, dos limites que colocamos e da responsabilidade que exigimos.

E se ela algum dia parecer ter alma, quem sabe? Talvez seja apenas a nossa curiosidade refletida de volta para nós mesmos, perguntando: “o que mais podemos imaginar juntos”?

Há anos Shakespeare, Machado de Assis, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Poe me encantam, surpreendem e me ensinam. E agora veio esta tal de IA. Inteligência Artificial. É isso.

 

domingo, 17 de maio de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXV

 

Escola Estadual Solon de Lucena, na Constantino Nery.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A poesia é necessária?

 

exercício nº 21

Zemaria Pinto

 

soneto  meu, faustino de armação

tramado e arquitetado em vário

desarma-se

em vis desvios vãos

limítrofes

à tinta e ao papel

 

(meu      canto      fraturado

              é um crânio

              morto

 oco       osso

 síntese de nada

              ou

 cousa alguma:

                         crianças & urubus

 canteiros            de         noturnos

                     girassóis)

 

soneto meu de têmpera diversa

forjado em noites

                             sob lamparinas

                             silvos de partidas

                             salvas perdidas

 

a ti revelo-te

                       tua natureza

a ti entrego-te

                       meu braço destro

                       meu sexo

                       meus olhos

                       e meus delírios