Tainá Vieira
Passei na seleção de
mestrado com um projeto em que eu propunha estudar a violência simbólica no
romance A vida invisível de
Eurídice Gusmão, de Marta Batalha. Por questões relacionadas à
orientação, tive de mudar o foco para o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O tema
da minha pesquisa é gênero, memória e agência feminina; nesse sentido, meu
recorte são as personagens femininas, obviamente.
Pois bem. Acontece
que as pessoas vivem me perguntando: o que é agência? O curioso é que, até
pouco tempo atrás, eu também não sabia responder. Mais curioso ainda é perceber
que todas nós, mulheres, sabemos o que é agência. Aliás, todo mundo sabe, mas
nem sempre conhece esse nome.
Mas o que é agência, afinal?
Sem recorrer aos fundamentos teóricos,
apenas a partir da forma como a compreendi, agência é a capacidade que um
sujeito desenvolve e mobiliza para sair de uma condição de opressão,
subalternização ou marginalização. É a possibilidade de agir sobre a própria
realidade, mesmo quando as circunstâncias parecem determinadas por forças
maiores.
Na minha pesquisa, por exemplo, analiso
as estratégias que as personagens utilizam para conquistar direitos básicos
para uma vida digna: o direito à terra, à moradia, à educação, entre tantos
outros. Mas não é somente isso. A obra suscita temas que nos tocam e nos
atravessam de tal maneira que nos deixam profundamente comovidos ou igualmente
revoltados. Entre as intersecções de gênero, racial e condição socioeconômica,
as personagens exercem, de forma implícita ou explícita, essa capacidade de
transformar a própria existência. Elas lutam para romper o ciclo de servidão em
que nasceram, para que seus filhos e, consequentemente, seus netos não sejam
condenados à mesma vida que marcou seus antepassados.
Dito isso, quero trazer esse
conhecimento adquirido pela pesquisa para minha vida como escritora. Como saber
se estou caminhando amparada pela agência ou simplesmente metendo os pés pelas
mãos?
Desde muito cedo, nós, mulheres filhas
de ribeirinhos, como é o meu caso, aprendemos a lei da sobrevivência. Nossas
mães não nos ensinam por meio de explicações detalhadas ou manuais de
instrução. Elas ensinam vivendo. Ensinam na lida diária, no trabalho árduo, nos
gestos repetidos que sustentam uma casa e uma família. Cabe a nós observar
atentamente cada movimento, cada escolha, cada silêncio. Mais tarde, quando
crescemos e assumimos nossas próprias casas, reproduzimos aquilo que
aprendemos. É um ciclo. É a roda girando. É o conhecimento da terra criando
raízes cada vez mais profundas.
E ainda me perguntarão: o que isso tem a
ver com ser escritora?
Tudo, direi.
Minha escrita nasce exatamente daí: da
lida cotidiana, das imagens que atravessam os dias enquanto a panela está no
fogo, enquanto respondo mensagens no grupo de mães da escola ou tento
destrinchar alguma teoria para um artigo. Ela nasce também nos momentos mais
difíceis, quando surge aquela vontade de desaparecer do mundo. Sim, eu já quis
morrer muitas vezes. Mas, quando sinto que estou quase indo, lembro que ainda
faltam coisas para resolver. Muitas coisas, aliás. Por isso, minha escrita me
custa muito.
Não porque me fira ou me machuque, mas
porque necessito dela e ela necessita de mim. Muitas vezes nossos tempos não
coincidem. Quando ela sopra sua chama sobre mim e eu não estou pronta para
recebê-la, ela espera. Compreende minhas ausências. Por isso não acredito em
inspiração. Acredito em encontro. E quando finalmente me vejo capaz de acolher
aquilo que ela me oferece, ela se entrega inteira. E me salva.
Nem todos os dias sou escritora. Nem
todos os dias quero ser. E isso não acontece por relapso ou irresponsabilidade.
Acontece porque, muitas vezes, estou tão cansada que não me obrigo a carregar
mais esse peso. Um peso bom, é verdade, mas ainda assim um peso. Talvez por
isso a escrita me seja tão cara.
Então, quando alguém me pergunta quem
sou eu, com meus poemas pingando sangue e cheirando a cachimbo de avó, querendo
dar pinta de escritora, não me sinto ofendida nem machucada. Ao contrário.
Sinto-me desafiada. É um chamado para o combate. E eu não me calo. Porque toda
vez que uma mulher silencia, apaga-se um pouco da memória das mulheres que
vieram antes. Apaga-se um pouco dos ensinamentos da mãe, da avó, das ancestrais
que sobreviveram para que ela pudesse existir. Quando isso acontece, ela deixa
de ocupar o lugar de sujeito agente de sua própria história.
E, ao silenciar por causa de alguém, ou
renunciar à própria voz, decreta não apenas uma falência intelectual, mas uma
rendição antecipada. Declara-se vencida antes mesmo de conhecer o calor da
luta, o fervor da resistência e a potência transformadora de permanecer de pé.
Não romantizo o combate, mas também não enxergo esse muro todo me separando do
inimigo, ao contrário, essa fronteira para mim é tão frágil que se eu assoprar
bem forte ela evapora.
Talvez seja justamente isso a agência.
Não um conceito acadêmico encerrado em livros e teorias, mas a decisão
cotidiana de continuar existindo, falando, escrevendo, lutando e desafiando.
Mesmo quando o mundo insiste em nos ensinar o contrário. E ainda bem que temos
os romances e suas protagonistas, porque elas nos lembram que nenhuma forma de
silêncio é definitiva. Em algum momento da vida, fui Eurídice Gusmão, hoje,
porém, reconheço-me em Belonísia: a mulher que teve a língua decepada, mas que,
ao lado da irmã, inventou uma nova linguagem para continuar existindo.
Porque foi isso que fizeram as mulheres
que vieram antes de nós e aquelas que insistimos em ser: quando lhes tiram a
voz, elas transformam o silêncio em outra forma de fala. E enquanto houver uma
mulher escrevendo, lembrando e recusando a rendição, a subordinação, nenhuma de
nós estará verdadeiramente calada.





