domingo, 4 de janeiro de 2026
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
A poesia é necessária?
Preciso de um poema
Juliana Abdon
Preciso de um poema
Que me esvazie do dia
Mas que também me amanheça
Um poema que me ignore
E que vez em quando
Me reconheça
Preciso de um poema
Abençoado com a rigidez das nuvens
E a maciez do ferro
Um poema selvagem que assente o carinho
E tão dócil que ante o carinho repetido mostre os dentes
Preciso de um poema que me lembre
Mas que também me esqueça
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
José, o justo
Um dos
mais significativos Evangelhos do Advento trata da bela passagem em que Maria,
já prometida a José, aparece grávida. Num primeiro momento, ele a repudiou em
segredo. E evitou que fosse difamada. Depois, o anjo Gabriel aparece em sonho.
Disse-lhe que não deveria temer. Maria estava grávida por obra do Espírito
Santo. Então José a protegeu e a preservou até o nascimento de Jesus.
Muitos
homens sem fé questionam a atitude de José. Para alguns seria difícil se casar
com uma jovem grávida sabendo que o filho não era seu. José, homem justo e de
fé, assumiu Jesus como filho.
O anjo
Gabriel mandou que José lhe desse o nome de Jesus. Pela tradição judaica, ao
dar nome ao filho, o pai o reconhece como tal.
A
concepção de Jesus por Maria é uma promessa de Deus. José era um homem simples
e reto, daqueles que carregam o peso do mundo sem fazer ruído. Vivendo nas ruas
de Nazaré, ele não era famoso nem poderoso, apenas firme naquilo que acreditava
ser correto.
Quando
o anjo Gabriel apareceu em sonho, anunciando que Maria haveria de conceber pelo
poder do Espírito Santo, José não hesitou. Ele sabia que a obediência que nasce
do dever é uma virtude.
Gabriel
o chamou para ser guarda da promessa. José, homem de carpintaria, viu na
notícia não apenas um chamado, mas uma responsabilidade. Haveria de proteger
Maria, cuidar do que viria, sem entender completamente o alcance do que
ocorreria.
José
não questionou os motivos, não exigiu provas. Ele confiou na verdade que se
revelava através da coragem de Maria e da bondade do desconhecido que, de forma
divina, já caminhava entre eles.
E
naquela noite de estrelas apenas começava a grande travessia que encerraria em
uma manjedoura, nos campos de Belém, sob o brilho tímido de uma esperança que
iluminaria o mundo.
O anjo
havia pedido uma confiança que se traduzia em ações, não em palavras
grandiosas. E José respondeu com o que melhor sabia fazer: oferecer abrigo,
proteção e um lar simples, onde o milagre pudesse acontecer sem pressa, sem
pressões.
Que
possamos aprender com José que o verdadeiro heroísmo pode nascer no toque firme
de uma mão que segura outra e no cuidado diário. E que, mesmo quando as
estradas são áridas, a justiça de José ilumine nossos caminhos. Não por poder,
não por reconhecimento, mas pela dignidade de um coração que acolhe, mesmo sem
entender tudo, quem chega com uma promessa de vida. Como chega todo ano o
Menino Deus. É o Natal.
domingo, 28 de dezembro de 2025
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
A poesia é necessária?
Eternidade líquida
Marília Kubota
no futuro
serei uma autora esquecida
como hoje sou esquecida
para apagar a luz do banheiro
ou pagar a conta de luz
para anotar endereços
no smartphone
ou me candidatar
como aspone do poeta de vanguarda
no futuro
serei uma autora esquecida
como hoje sou esquecida
abram a página 48
e leiam o poema como um jogo
não como algo a ser lembrado
séculos e séculos
tatuado no rabo da lagartixa
que nem tal se você é cânone
ser esquecida é igual a esquecer
embora poeta não seja igual a poetisa
tente vir-a-ser neste mundo líquido
seu poema será pintado em shopping
você receberá diploma de bom poeta
será aplaudida em aniversários
nestes eventos fantásticos
agradecerá gesticulando sem parar
pedindo pelo amor quero ser esquecida
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
A tardor, o outono em Barcelona
Pedro Lucas Lindoso
Idalina
sempre viaja para Europa, quando acaba o verão por lá. Os meses de setembro e
outubro são ótimos para curtir o velho continente. Desta vez, decidiu ficar
quinze dias em Barcelona, cidade em que uma amiga de infância a esperava como
uma antiga jazz music em meio às
pedras da Ladeira de Sant Felip Neri. Depois seguiria para Paris e Lisboa,
antes de retornar ao Brasil. Idalina quis aproveitar o outono, em catalão,
chamado “a tardor”.
A
palavra tardor carrega consigo uma doçura que parece respirada de uma vitrola
antiga. Não é apenas a estação. É a pausa que o corpo faz para ouvir o
tique-taque das folhas que se rendem ao chão. Em Barcelona, a tardor não vem de
supetão. Chega devagar, com brisa deliciosa e com o perfume de castanhas
assadas que invadem o ar das praças. Os dias de tardor chegam com uma paleta
que parece ter sido escolhida por um pintor que gosta de segurar a respiração.
O dourado das folhas, o rubor suave das sombras sobre as fachadas. Idalina
caminha pela cidade como quem lê um poema antigo. Cada esquina revela um
recorte de tempo. A luz baixa que se derrama sobre o mar, os telhados de
terracota, que lembram vinhos envelhecidos, as sombras de Gaudí, que parecem
ouvir a conversa das árvores.
Idalina
e sua amiga passeiam nas habituais rotas entre o Bairro Gótico e El Born, onde
cada mural conta uma história de amor, cada esquina abriga uma lembrança de
quem já vivenciou a cidade com o coração aberto.
A amiga
de infância a recebeu com um abraço que sabe da juventude que um dia foi, e que
retorna, porém mais sábia, para partilhar a tarde na beira da praia de
Barceloneta. Elas conversam sobre o tempo, sobre as escolhas que as levaram a
caminhos diferentes, e sobre a alegria de encontrar-se novamente em uma cidade
que parece sempre nova, mesmo quando já se fez parte do seu mapa pessoal.
A
Sagrada Família, que, sob a luz suave da tardor, revela detalhes ocultos em
roxo e ocre, como se o tempo estivesse trabalhando em um vitral de paciência.
As ruas de Eixample, onde as fachadas de granito guardam histórias de outras
eras, enquanto a tarde se coloca de modo poético entre os telhados. Ao
entardecer, Idalina ouve a melodia de artistas de rua que tocam violões e
saxofones.
O
jantar é simples: pão com tomate, azeite, uma taça de vinho e uma risada que se
transforma em promessa para o dia seguinte.
Quando
a tardor chegar ao fim, com a última folha a ser levada pela brisa, Idalina
guarda na mala não apenas lembranças, mas também uma nova maneira de perceber o
tempo. Barcelona, em quinze dias, ensinou-lhe que o outono não é apenas uma
estação, é uma forma de olhar o mundo.
Com pausas, com amizades antigas e importantes, com a certeza de que as
belezas da vida resistem ao passar dos dias.
Ao
retornar ao Brasil, levará consigo o perfume das tardes de tardor, o calor de
uma amizade que acolheu a infância, e a alegria de ter vivido, por um breve
instante, sob o encanto de uma cidade que sabe transformar o cotidiano em
poesia. E, quem sabe, ao descrever essas férias de tardor em Barcelona, possa
ainda inspirar seu dileto sobrinho cronista a fazer mais uma de suas crônicas
semanais.
domingo, 21 de dezembro de 2025
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
A poesia é necessária?
Prisca Agustoni
lendo Bertolt Brecht
em noite de chuva
O poeta vive em estado de exílio
– dentro e fora do perímetro
inexato do verso, em perene risco
de infarto
– sempre tendo seu inimigo
preso numa coleira
como cão ao seu encalço
o poeta carrega sua floresta,
a Schwarzwald da infância
na maleta negra,
junto aos manuscritos,
junto aos poucos objetos:
um rádio de seis válvulas,
sua segunda caixa torácica
:boca habitada por outros
com a qual respira
e conspira outra fuga
über die Grenze, noch einmal
nach Norden
:Praga, Svendborg, Lidingö
itinerário de uma queda
infinita rumo ao norte
a floresta segue ao seu flanco
cada dia mais dura
cada dia mais branca
e de lá subir mais, e subindo
in extremis no último vagão
da noite para Vladivostok,
o poeta faz da própria vida
seu maior palco, aberto
à práxis e à ira dos cupins
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Tradição natalina catalã: fica a dica
Pedro Lucas Lindoso
A cada
final de ano, o cronista enfrenta o dilema de escrever uma crônica de Natal que
seja original. Os melhores cronistas brasileiros já esgotaram todas as
possibilidades. E ainda há os jornalistas, articulistas, autoridades
constituídas, pessoas do clero, professores e alunos. Muitos viram cronistas
inspirados numa época em que todos parecem ficar com o coração amolecido. E
então surgem inspirações e ideias para saudar as pessoas e o mundo pelo Natal.
Ninguém
esquece o coitado do peru, não o país, mas a ave. Antes, morria de véspera. Com
o advento do congelamento, morre meses antes. O peru já serviu de personagem
para muitas crônicas natalinas. O Papai Noel nem se fala. A maioria esquece o
aniversariante do dia. Ele que veio Menino para nos salvar.
Quando
procuro inspiração vou para a varanda, olho para o céu, respiro fundo e volto
para o quarto, deito e começo a matutar. Abro o facebook e vejo mais uma do
Professor de português Marcos Neves. Ele sempre aborda curiosidades do
Português, origem de palavras e constantemente adentra em aspectos culturais.
Mesmo porque língua e cultura são conceitos inseparáveis e que se agregam.
Foi
então que fiquei sabendo do “caganer”. Daria uma boa crônica, pensei. Mas
fiquei apreensivo. Pode ser desrespeitoso e até herético. Mas, ante a busca por
originalidade, resolvi apostar. Depois que a miss Brasil se vestiu do Nossa
Senhora e não houve protesto da Igreja, tudo é possível.
O
Caganer é um bonequinho típico de Barcelona, na Espanha. É figura tradicional de
Natal. Trata-se de um boneco camponês agachado, com calças abaixadas, defecando
no presépio, simbolizando boa sorte, fertilidade e prosperidade para o ano
seguinte. Como fazemos na Semana Santa com o judas, enforcando uma celebridade
ou um político, o caganer pode “homenagear” alguém. Uma figura pop, um político
de destaque ou qualquer celebridade do momento.
O
presépio catalão reúne os personagens comuns em qualquer presépio tradicional.
Lá estão Maria e José, o menino Jesus na manjedoura. Há os animais e alguns
pastores. Mas você irá encontrar um pequeno boneco escondido entre os
personagens tradicionais com as calças arriadas, fazendo discretamente suas
necessidades. O caganer geralmente se veste com calças pretas, camisa branca e
o clássico boné catalão vermelho chamado de barretina. Às vezes, ele aparece
fumando um cachimbo e lendo um jornal. É a parte engraçada de algo que deveria
ser muito sério, explica o povo de Barcelona. Uma cidade alegre, cosmopolita e
irreverente. O boneco é tão popular que conta com a sua própria sociedade, a
Associação dos Amigos do Caganer. Alguém aí se arrisca a colocar um caganer em
seu presépio? Fica a dica!
domingo, 14 de dezembro de 2025
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
A poesia é necessária?
Vórtex
Anna Apolinário
Com audácia, manejar
os gumes da fala.
Em êxtase,
no deserto da lauda
exaurir o sangue,
signos em agudo auge.
Incansável navalha,
na retina, exato entalhe.
Tensionar a entranha,
instaurar o arremate.
Dar de comer ao verbo
a própria carne,
o corpo doado
a tudo o que for delírio,
demolição.
Este talento obscuro,
infernal júbilo,
labuta e consumição.
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Diversidade linguística
Pedro Lucas Lindoso
O
Brasil é um país continental. A língua oficial é o Português. Mas há outros idiomas falados por
brasileiros. Diversas tribos indígenas espalhadas pelo Brasil conservam seus
idiomas nativos. O interessante também é que estados e regiões, além do sotaque
característico, há palavras e expressões próprias. Em Minas temos o “uai”. Na
Bahia e grande parte do Nordeste usa-se muito “oxente”. No Pará e Amapá é comum
a interjeição “égua!”. E “pai d'égua!”.
O
paranaense fala muito “dai". Daí. No Amazonas, a corruptela de "tu és
leso" virou “teleso”. “Bá!” “Tche!”. Exclamam os gaúchos. “É capaz”,
responde o catarinense. Esses são poucos exemplos, a diversidade é grande.
O
Brasil não é apenas extensão de mapa. O país é um mosaico de vozes. Cada região
carrega um timbre próprio, que revela memórias, calor humano e formas distintas
de perceber o mundo.
Em
Minas, o “uai” não é apenas uma palavra, é um ritmo de esperar, duvidar e,
principalmente, de exercer aquilo que os mineiros chamam de mineiridade.
Para o
nordestino raiz, o “oxente” acena como um alarme suave: é quando a surpresa se
encontra com a resistência. Oxente não é dúvida só: é celebração da
persistência, é rir do tropeço enquanto se segue em frente.
Na
nossa Amazônia, a fé na palavra é tão forte quanto o rio. Interjeições como “égua”
e “pai d'égua” atravessam a conversa como flechas de humor, lembrando que a
expressão pode ser ferramenta de afeto, de provocação ou de proteção.
No
Paraná, se diz “dai” quase como um abrir de portas E também de fechá-las, daí.
Então, vamos além do imediato, daí. Quando a fala se abre o caminho. Entre
araucárias, rios, e entre nuvens de terra e memória. Daí, dando ênfase ao final
de frases.
Enquanto
aqui no nosso Amazonas, o falar ganha o som da floresta: tu és leso se
transforma em “teleso”; “tu é doido”. Reflete o espanto ou indignação. Coisas
que perduram na garganta dos amazonenses. No nosso Amazonas, as palavras
escapam e se entrelaçam na riqueza de uma diversidade linguística própria. Como
é nossa diversidade de frutas e plantas. Entre samaúmas e cipós. E como o vento que bate nas sapopemas,
carregando histórias de quem vive nos beiradões dos rios ou na Manaus urbana de
todas as gentes e cores.
O
gaúcho exclama palavras e expressões, como quem monta a frase sob o céu aberto.
O paulista costura a vida com palavras e gírias de megalópole. Enquanto os
cariocas exportam e amplificam o português gostoso das novelas.
Essas
expressões não são apenas curiosidades. São redes de memória, identidade e
pertencimento. A língua é um mapa de gente, que nos mostra que no Brasil não
existe um falar único. Mas uma sinfonia de vozes que se conversam, às vezes se
desafiam, mas quase sempre se reconhecem como parte do mesmo chão. Que possamos
ouvir mais, rir mais, aprender com o outro sem perder o próprio timbre. Porque
é na convivência entre sotaques que o país revela sua riqueza: não apenas no
que dizemos, mas no modo como dizemos.
domingo, 7 de dezembro de 2025
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
A poesia é necessária?
Alma corsária
Claudia Roquette-Pinto
De tanto sono me baixa uma lucidez estranha
em que a amendoeira pousa, luminosa, rara,
sob o fundo escuro da noite meio baça
(cilíndrica, roliça, bizarra)
seu vulto verde acocorado sobre a água
da piscina que não tem um pensamento.
Eu sinto inveja dessas águas anuladas
tão plácidas, idênticas ao próprio contorno
enquanto eu mesma nem sei onde começo,
quando acabo
e sofro o assédio de tudo o que me toca.
O mundo ora me engole, ora me vara
e tudo o que aproxima me desterra.
Chorei, ao ver no chão da cela,
o botão arrancado na contenda,
os óculos pisados do escritor judeu.
Tenho um coração que estala
com o peteleco das palavras de Clarice.
Numa vila miserável na Bahia,
um negro lindo, lindo,
dança ao som do corisco
– e só me apaixono por casos
perdidos,
homens com um quê de irremediável.
Mais de uma vez, imóvel, circunspecta,
vi abrir-se a máquina do mundo
sob a luz inclinada de Ipanema,
na Serra da Bocaina, no meio da floresta,
no alto da escada no topo do morro
por onde a moça sequestrada vinha subindo
debaixo das lágrimas do pai.
Mais de uma vez meu coração trincou feito vidro
diante da página impressa,
e sempre que a palavra justa vem tirar seu mel
de dentro da copa do desespero de amor.
Acredito, do fundo das minhas células,
que uma amizade sincera é o único modo de sair da solidão
que um espírito tem no corpo.
Sim, eu acredito no corpo.
Por tudo isso é que eu me perco
em coisas que, nos outros,
são migalhas.
Por isso navego, sóbria, de olho seco,
as madrugadas.
Por isso ando pisando em brasas
até sobre as folhas de relva,
na trilha mais incerta e mais sozinha.
Mas se me perguntarem o que é um poeta
(Eu daria tudo o que era meu por nada),
eu digo.
O poeta é uma deformidade.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Traje atípico
Pedro Lucas Lindoso
Tia
Idalina, como sempre, adora bater um papo via Whatsapp. Eu muitas vezes ligo para titia para saber as
novidades. Ela sempre tem uma opinião sobre fatos, podcasts, notícias de jornal
impresso, programas de TV e outras mídias.
Idalina
assiste a concursos de miss. Disse-lhe que achava esses concursos um tanto démodé.
O charme dos anos sessenta e setenta não existe mais. As moças de hoje ficam
todas muito parecidas, com idade indefinida. Antigamente as misses eram garotas
solteiras, com, no máximo, 24 anos. Hoje há mulheres casadas e algumas quase
balzaquianas, sem querer ser incorreto ou misógino.
Ela
concordou comigo. Mas assiste para ver até onde vai a falta de bom senso e a
ousadia da produção. E o nível de despreparo e cafonice de algumas candidatas.
Então o assunto foi o Concurso de Miss Universo 2025. De acordo com Idalina
este é o mais prestigiado e possivelmente o mais antigo.
Foi no
certame de 1954 que a baiana Martha Rocha ficou em segundo lugar por ter duas
polegadas a mais. Como se sabe, nos Estados Unidos não se usa metro e
centímetros. Ora, uma polegada equivale a 2,54 centímetros. Então Martha Rocha perdeu
por pouco mais que cinco centímetros. Titia me disse que foi na cintura. O
traje típico de Martha Rocha foi, evidentemente, de baiana. Fez sucesso.
O
Amazonas não esquece a sua eterna miss Terezinha Morango. Também ficou em
segundo lugar. O traje típico de Terezinha também foi de baiana. Hoje seria de
cunhã-poranga. Mas naquele longínquo ano de 1957, o traje típico oficial das
brasileiras era de baiana, graças a famosa Carmen Miranda.
Sobre o
assunto traje típico, Idalina me disse que nesse ano a brasileira se superou na
questão de falta de senso, desrespeito, cafonice e quiçá um ato de heresia.
Como assim heresia, perguntei. E ela indignada, estupefata e até certo ponto
nervosa, disparou:
–
Aquela pequena nossa representante teve a audácia de se fantasiar de Nossa
Senhora Aparecida. Quando vi aquilo quase tive um troço. Traje totalmente
inapropriado. A moça errou feio. Em outros tempos poderia ser excomungada. Eu
já vi de tudo nessa vida. Mas esse tipo de heresia é a primeira vez. Não se
brinca nem se desrespeita Nossa Senhora. Vestir-se de Nossa Senhora Aparecida
para desfilar no Miss Universo foi algo inadmissível. Perguntei-lhe onde havia
sido o concurso. Ela me disse que foi em Bangkok na Tailândia. Quem venceu foi
a mexicana. Ora, a brasileira poderia ter ido de baiana! Aquilo não é traje
típico. É traje atípico.
domingo, 30 de novembro de 2025
Manaus, amor e memória DCCLI
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
A poesia é necessária?
Poemas aos homens do nosso tempo
Hilda Hilst (1930-2004)
III
homenagem a
Natalia Gorbanievskaya
Sobre o vosso jazigo
— Homem político —
Nem compaixão, nem flores.
Apenas o escuro grito
Dos homens.
Sobre os vossos filhos
— Homem político —
A desventura
Do vosso nome.
E enquanto estiverdes
À frente da Pátria
Sobre nós, a mordaça.
E sobre as vossas vidas
— Homem político —
Inexoravelmente, nossa morte.
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Casamento, uma coisa!
Pedro
Lucas Lindoso
Tive um
papo muito engraçado com tia Idalina domingo passado. Uma pessoa, já concursada
como funcionária pública federal, que foi ao México assistir à Copa de 70. Com
esticada em Acapulco. Não pode ter só 70 anos. Aliás, por ter ido passear em
Acapulco já denuncia que titia não é mais uma menina. Ninguém vai lá depois de
Cancún.
Mas o
assunto não é esse. No prolongado bate papo via Whatsapp, titia, horrorizada,
descreveu o casamento do sábado anterior. Filha de uma amiga de praia.
Riquíssima. O marido ficou milionário quando ganhou uma licitação para vender
quentinhas para o estado, município e presídios federais. O noivo também ficou
rico de uma hora para outra. Montou uma startup e fez sucesso imediato.
Dinheiro não falta. Mas falta bom senso.
Na
decoração da igreja havia tantas flores que dizer que estava extravagante é
elogio. Um mural verde com flores à esquerda tampava a Imagem de Nossa Senhora.
À direita não se via a imagem do santo padroeiro.
Havia
60 casais de padrinhos. 30 do noivo e 30 da noiva. Um exagero. O noivo entrou
com o Hino do Flamengo. O vestido da noiva, levemente transparente e decotado.
Segundo Idalina, inadequado para um ato religioso. Dois cachorros vestidos de
Flamengo entraram para as alianças. Que na verdade chegou por um drone.
A
recepção foi num enorme salão transformado em Maracanã. Com trave, juiz e tudo.
No placar FLAMENGO 5 VISITANTE 0. Os convidados recebiam a última versão da
camisa oficial do Flamengo. Alguns convidados substituíram o paletó pela
camisa. Outros recebiam o mimo com um leve constrangimento.
Uma
banda liderada por uma cantora habitué do Domingão animou a festa até altas
horas. A única coisa elogiável, de acordo com tia Idalina, foi o buffet. Comida
e bebida farta e gostosa.
O bolo da noiva era tão gigantesco que os
noivos sumiam nas fotos. Aliás. havia uma equipe fotografando e filmando para
os noivos. Mas quatro casais de padrinhos também contrataram equipes de
cinegrafistas. A grande quantidade de
profissionais atrapalhou a celebração e deixou o padre celebrante irritado. A
homilia foi sobre humildade e temperança. Os noivos não entenderam o recado.
Mas alguns convidados sentiram vergonha alheia.
No
final, a cerimonialista desmaiou. Chamaram o SAMU. Como diria a saudosa Danuza
Leão, uma coisa!





