Zemaria Pinto
O homem ocupa o espaço
VIII
Outros poemas, como “Vitória-Régia”, “Ariranha” e “Jaburu”, compilados em Poemas da água e da terra, têm por motivo, ainda, a ocupação do espaço poético pelos seres amazônicos. Nesse mesmo livro – uma edição bilíngue, português/inglês, para consumo ocasional de turistas preocupados com a causa ecológica – os poemas “Calypso” e “Boto cor de rosa” registram a famigerada incursão de Jacques Cousteau pela Amazónia em 1986. Não sem poesia, como nesta passagem de “Calypso”:
A salsugem do teu casco
traz ás minhas narinas
a lembrança de lugares que apenas sonhei
Não sem amarga ironia, como no poema dedicado à farsa criada por Cousteau e vendida como verdade científico-piegas ao mundo:
Boto,
boto cor de rosa,
que em menino aprendi vermelho
No já citado “Facheação”, ausente da antologia bilíngue, prevalece o aprendizado primeiro:
Se o peixe estiver vasqueiro,
convoco o boto vermelho
com dois ou três assobios,
e a noite vira uma festa
É interessante observar que, nessa coletânea, alguns dos poemas inéditos parecem escritos especialmente para ilustrar cantões-postais –“Encontro das águas”, “Boto cor de rosa”, “Calypso”, “Igarapé de Manaus”, “Vitória-Régia”, “Jaburu”, “Ariranha” – talvez por influência dos títulos, muito menos que pela qualidade literária que encerram.
O quinteto “Igarapé de Manaus”, por exemplo, traduz com precisão microscópica o que imagem alguma poderia mostrar:
A água, que é mãe da vida
(antes pura, clara, doce),
passa aí prostituída,
triste, amarga, poluída,
como se mater não fosse.