Jorge Bandeira
A incrível imaginação, aliada a uma técnica peculiar no trato de seu objeto artístico fazem de Giger um mestre da arte contemporânea, numa estética que podemos classificar (caso seja possível) como “beleza terrível”, e a cada dia seu círculo de admiradores só cresce, seja em contato com suas exposições em diversas galerias de arte por todos os continentes, no mundo do cinema (os fãs de Alien e do filme Species), no mundo da música (Emerson, Lake & Palmer, Dead Kennedys, Deborah Harry, a vocalista da banda Blondie e a banda de rock Korn buscaram ajuda a Giger para suas realizações visuais), nas artes plásticas onde pululam “cópias” de suas criações, e onde mais o mestre Giger transita em sua rigorosa busca pelo encantamento dos que enxergam a arte como a busca desse infinito possível.
Erotomechanics VII. |
O obra de Giger é uma ejaculação precoce, uma frigidez repercutindo a fragilidade dos corpos frente ao esmagador elemento totalizante das máquinas da sociedade industrial e cibernética.
Não há lirismo possível dentro da imagística sexual de Giger, os corpos são profanados, descarnados, numa união desigual entre a porosidade da pele metálica e metalizada, cor de chumbo, de elemento envelhecido. O que reluz é uma estranha sensação de junção biônica desses corpos, mas que não carrega um símbolo de união perfeita, antes de uma profanação ocasional, numa luta evolutiva entre o metal e a carne perecível. Giger é um artista que aponta na direção do além, de uma arte feita para “contaminar” as retinas através das mais recônditas formas e deformações provocativas que um corpo pode suportar, no aspecto lânguido da sexualidade e da relação sexual entre seres biomecantropomórficos.
Necronom. |
Necronom V. |
As transformações vertiginosas no campo da ciência e da tecnologia são absorvidas e ruminadas pela visão apocalíptica de Giger, num universo particular onde sobrevivem e se toleram seres espectrais e monstruosos, que são interpenetráveis em suas escolhas pela simbiose violenta, e que trilham caminhos siameses neste mar revolto e dantesco de suas ações sexuais. Elimina, o artista, a fronteira entre dor e prazer, entre gozar e sofrer, entre ter e receber. Uma linha tênue do pensamento se vislumbra, causando ao mesmo tempo um vínculo com o humano e o grotesco, fato que leva Giger a ser alcunhado de o “Hyeronymus Bosch do mundo industrial e tecnológico”.
Como um Leonardo da Vinci da pós-modernidade, Giger realiza seus rascunhos de forma obsessiva, buscando o melhor ângulo, a melhor cor, a perspectiva por excelência, a melhor textura, o melhor elemento de composição de sua magnífica obra, e a forma final é determinada por este rigor inconteste sobre suas criações. O artista domina o começo, o meio e o fim de seu trabalho, e não abre concessões para nada e ninguém. Não pode haver dois Giger em seu cataclismo de soluções imaginárias. Sua patafísica é da primazia da individualidade. Caberá ao espectador de sua obra determinar o aparato de utilidade estética, de onde suas sensações o levarão a lugares desconhecidos, pouco prováveis, ou para um recanto de seu conhecimento, mas do qual Giger seria esse porteiro da insanidade que lhe daria as chaves necessárias para aprofundar suas descobertas, a chave de seu inconsciente.
Alguns artistas almejam construir uma arte que se perpetue, que seja uma dignificação da capacidade do ser humano de avistar o horizonte. Giger talvez seja um curioso caso de artista que se perpetua, se eterniza pelo modo contrário, a partir do caos destruidor que não deixa pedra sobre pedra, no caso dele, metais retorcidos e corpos mutilados e mutantes, deformados. O horizonte, neste caso, está feito um anjo terrível encravado nas costas de cada ser humano, um anjo exterminador.
Para saber mais sobre HR Giger: