Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A poesia é necessária?

 

Totem

Ruy Proença

 

Uma baleia morta sobre a areia

muda o centro de gravidade

de um dia azul de cartão-postal.

 

As ondas perguntam e perguntam

por que se perdeu.

 

Apinhados ao longe

os homens só sabem repetir em alvoroço

o que as ondas perguntam.

 

Um homem se destaca dos demais:

 

19 metros, 40 toneladas –

brutal incerteza que aflora

abalando o centro de um dia azul.



quarta-feira, 29 de abril de 2026

Poesia na Estação Outono


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terça-feira, 28 de abril de 2026

IAPETEC

Pedro Lucas Lindoso

 

Quando eu era um curumim de calças curtas, só havia um edifício aqui em Manaus, o IAPETEC. Pertenceu a um dos vários institutos de aposentados e pensionistas que foram extintos, dando origem ao atual INSS. Fica na esquina da 7 de setembro com a Governador Vitório.

O primeiro arranha-céu da cidade foi orgulho de muitos que desejaram ver nossa cidade “cheia de IAPETECs”. Como no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Como se o progresso, a beleza e a riqueza arquitetônica de uma cidade fossem medidas pela quantidade de prédios altos. Ledo engano. Brasília é linda sem arranha-céu em suas asas. Paris, uma das mais belas cidades do mundo, não tem arranha-céu no seu centro. A cidade cresceu em forma de espiral, com múltiplos pontos centrais.  Paris é dividida em vinte “arrondissements”, que podemos traduzir como distritos, divididos em “cartiers”, que seriam bairros. O arrondissement 1 começa perto do Louvre e por lá não existem prédios altos.

O nosso já não mais tão famoso IAPETEC foi construído no local onde havia o cine teatro Éden. Uma das várias joias da Belle Époque destruídas na vontade desvairada de encher a cidade de “IAPETECs”.

Para alegria de muitos, a Manaus de nossos dias cresceu. Hoje está cheia de “IAPETECS”, na Vila Municipal, Vieiralves e Morada do Sol.

Quando a cidade acordou e resolveu preservar os prédios da “Paris dos Trópicos”, vários “IAPETECs” monstrengos já nos agrediam e descaracterizavam a beleza arquitetônica com origem no auge do Ciclo da Borracha. Maltratando deveras a nossa cidade. O que mais me incomoda é o que substituiu o Palacete Miranda Correa, na Praça do Congresso. Foi erguido um monstruoso “IAPETEC”. O preço pago pela cidade foi a triste demolição de um tesouro arquitetônico construído pela tradicional família Miranda Correa. Demolição imperdoável.   Perto dali há uma modernosa Agência dos Correios, onde um dia foi o Palácio da Secretaria de Saúde. Outro insuportável acinte. Há vários outros.

Uma senhora jogou um fogão velho no igarapé. Questionada pelo fiscal da Prefeitura, confessou o ato abominável, dizendo:

– Tudo que é velho e não presta a água leva.

As águas de nossas chuvas jamais levaram nossos prédios antigos. Que eram belos e prestavam. Os homens, não as águas, foram os que os levaram pela destruição. Como dizem os franceses. Quel dommage! Ou seja, que pena!

IAPETEC - Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Empregados em Empresas de Transportes de Cargas.



 

domingo, 26 de abril de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXII

 

Localizado no bairro de Aparecida, antigo bairro dos Tócos.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Filosofia, música e poesia

 

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

A poesia é necessária?

 

Canção à boca da noite

Ruy Espinheira Filho

 

A cidade é cinza,

da cor da esperança.

(o verde ficou

na antiga criança).

 

É pálida a tarde

como o amor agora.

(ambos já tiveram

as cores da aurora).

 

Mas não há dois tempos,

passado e presente:

tudo é o mesmo conto

que jamais se mente

 

e põe no vazio

da cinza a esperança

dos campos da aurora

de amor e criança,

 

pois nada é presente

e nada é passado.

Tudo é o que é: apenas

real, porque sonhado.



quarta-feira, 22 de abril de 2026

Cenas da Vida Amazônica


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terça-feira, 21 de abril de 2026

Abril azul

Pedro Lucas Lindoso

 

Os meses do ano agora têm cores. Elas fazem alusão a alguma campanha, síndrome ou projetos. O azul de abril é para conscientizar a população sobre o TEA – Transtorno do Espectro Autista.

A palavra espectro refere-se a uma gama contínua de variações, intensidade ou características de um fenômeno, em vez de uma condição única ou fixa. Assim é o autismo, assim é a misteriosa cor azul.

Ernesto Penafort ficou conhecido como o poeta do azul. Usava azul em seus poemas e títulos de livros. Escreveu a tetralogia do azul – Azul geral (1973), A medida do azul (1982), Os limites do azul (1985) e Do verbo azul (1988).

Lenir Feitosa, a quem Penafort chamou de Companheira Azul, explica que o azul que Ernesto usava não era a cor propriamente, O azul era algo ilimitado como o azul do céu.  O azul do céu era o parâmetro para descrever o sentimento dele diante do amor. O autismo, por ser um espectro, também não tem limites definidos.

Sempre que penso na cor azul, me vem à mente a catedral de Chartres, na França. Os vitrais da famosa igreja têm um tom lendário de azul cobalto profundo. Segundo Erick Matias, amigo e professor de História da Arte, o azul intenso da catedral é característico dos vitrais do século XII e XIII, na França. O azul de Chartres ficou famoso pela sua luminosidade mística. É considerado um segredo medieval da arte gótica, criando a impressão de que a luz divina está presente no espaço. As causas do autismo também ainda são um segredo a ser desvendado pela Medicina.

Existe ainda o “Azul de Portinari”. Trata-se de um tom específico e intenso de azul frequentemente utilizado pelo pintor brasileiro Candido Portinari Esse azul criado por Portinari, diferente do azul de Ernesto Penafort, é uma cor que se tornou marca registrada da obra de Cândido Portinari. Especialmente em temáticas sacras. Quem visita a Catedral de Brasília pode verificar essa tonalidade na via sacra da igreja. Erick me disse que o azul de Portinari, exprime espiritualidade e a busca artística de nosso pintor maior. Essa cor marca o estilo único de Portinari no cenário artístico nacional.

Erick além de professor de História da Arte, também é pintor. Mostrou-me, em seu atelier, exemplos variados de tons dessa intrigante cor. O azul claro e pastel está no azul-bebê; azul-celeste; azul Hortênsia; azul etéreo/porcelana e azul-turquesa. Mostrou-me também tons de azul escuro e profundo, como azul-marinho; azul petróleo; azul-da-Prússia e azul noite. Há ainda tons de azul vibrantes e intensos como o azul-cobalto; azul-royal e azul-ultramar. Este último, um azul bastante profundo e intenso, tradicional na pintura. Por fim, Erick falou-me de tons de azul acinzentados, aqueles que misturam o azul com cinza, ideais para destaque. Como o azul Strauss, que é uma variação de azul clássico.

Assim como meu amigo Erick Matias é capaz de diferenciar e conhecer essas diversas tonalidades de azul, minha esposa Vera Lindoso, psicóloga clínica, reconhece as diferentes “tonalidades” do comportamento de crianças autistas. De fato, há “diversos tons de azul”, no autismo. Existe uma ampla diversidade de sinais, sintomas e níveis de suporte, do leve ao mais intenso. Eles se manifestam de forma única em cada indivíduo. Assim como são únicos o azul de Chartres, o Azul de Portinari e o “Azul da cor do mar”, aquela música linda do Tim Maia.


domingo, 19 de abril de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXI

Av. Eduardo Ribeiro, com o Roadway e o rio Negro ao fundo. 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A poesia é necessária?

 

o não dito e o não visto

Rodrigo Tadeu Gonçalves

 

o não dito e o não visto

exploram os recantos

vastos

do intervalo

 

em que se entende o que não

se fala

pois falar é mais

do que se pede

 

então cala

ouve o silêncio

ele te leva pro infinito


terça-feira, 14 de abril de 2026

Como queres que te chame?

    Pedro Lucas Lindoso


O Reino Unido é uma monarquia constitucional. Há nobres por lá. Com diversos e variados títulos. Quando se tornam amigos, é comum que perguntem: Devo chamá-la informalmente de Princess Catherine ou somente Katy? Preciso chamá-lo de Lord Robert ou Bob?

Aqui não temos monarquia nem tampouco títulos nobiliárquicos. Mas, diferente dos ingleses, que costumam perguntar, no dia a dia, qual o tratamento que a pessoa deseja, não temos esse saudável hábito. O que pode gerar constrangimentos.

Há pessoas que não gostam que adolescentes e jovens adultos fora de seu círculo familiar lhes chamem de tio ou tia.

Há amigos de infância de meus filhos, os quais conheci criança. Hoje são adultos e têm filhos. E continuam me chamando de tio. Acho natural e respeitoso. Mas um adulto, o qual já conheci barbudo, quase de minha idade, chamar-me de tio, me parece deboche.

Um Jovem adulto veio me perguntar como deveria chamar sua sogra. Tia ou pelo nome? Eu lhe disse que vejo muitos jovens chamarem seus sogros de tio e tia. Eu chamava meus sogros, quando vivos, de professor Araújo e dona Ruth. O jovem me disse que a futura sogra era médica. Disse-lhe que podia chamá-la de doutora ou dona fulana. Nunca somente pelo primeiro nome. Acho desrespeitoso. Mas, se sentisse à vontade, poderia chama-la de tia. Médicas geralmente são vaidosas. Magistradas também. Aconselho a chamar sua sogra por senhora.

Em inglês, pai é “father-in-law”, ao pé da letra, pai por lei, e “mother-in-law”, mãe por lei. Para nós soa estranho.  Muitos americanos chamam seus sogros de “mom” e “dad”. Mãe e pai. Ou então Sr. e Sra. Smith. Usa-se o sobrenome.

Há filhos que chamam seus pais de senhor e senhora. Outros de você ou tu. E até pelo nome.  Há muita gente que fica em dúvida de como se dirigir a determinadas pessoas. Na Inglaterra, o problema é prontamente resolvido. Pergunta-se logo como  que a pessoa deseja ser chamada.

No francês há dois tratamentos básicos – vous e tu. Com regras culturais bem definidas.

No Brasil, especificamente no Rio Grande do Sul, usa-se muito o tu, nem sempre na concordância correta. Os gaúchos usam senhor e senhora para quem merece respeito. Perguntei a um gaúcho se usavam o você. Ele me disse que sim. Para qualquer um. Então você pode ser desrespeitoso? Ele me disse que é possível.

Fui professor muitos anos. Por ser advogado me chamam de doutor. Porém o tratamento que mais me deixa feliz é exclusivo de quatro amadas garotinhas. Minhas netas Maria Luísa, Maria Helena, Catarina e Isadora. Vovô Pedro soa como música suave que toca no fundo do coração!


domingo, 12 de abril de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXX

Casas do Óleo - supermercado.
Rua 7 de Setembro, esquina com Joaquim Nabuco.

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A poesia é necessária?

 

Da metafísica

Paulo Henriques Britto

 

Ser parte de alguém ou algo

tão grande que não se entenda:

toda crença, ao fim e ao cabo,

se resume a essa lenda –

 

o mais rematado dislate,

coisa jamais entendida,

que eleva ao sumo quilate

o caco mais reles da vida.


terça-feira, 7 de abril de 2026

“Sitooterie”: no fundinho dos rios

 Pedro Lucas Lindoso

 

O professor Marco Neves é um estudioso da língua portuguesa, filologia, curiosidades linguísticas e as particularidades do português.  Sou seu seguidor na internet. Suas intervenções ou aulas são de muito interesse para mim. Ele e eu gostamos das palavras. As tratamos com amor, curiosidade e deleite. Marco e eu gostamos tanto de palavras que as classificamos como bonitas e feias, engraçadas ou monótonas, dentre outras características ou classificações que não se encontram nas gramaticas tradicionais.

Marco Neves pincelou algumas palavras em outros idiomas, sem uma equivalência precisa em português. A Escócia e um dos países que fazem parte do Reino Unido. A língua scots para muitos é um dialeto, pois se parece muito com o Inglês. Foi no scots que o professor Marco Neves encontrou a palavra SITOOTERIE. Significa um lugar feito ou escolhido por um casal para sentar, namorar, conversar, estar juntos para aquela saborosa intimidade dos apaixonados.

Pode ser uma praça, determinada parte de uma praia, um cantinho escondido numa festa, uma sala com sofá e uma bela paisagem ou até no escurinho do cinema.

Realmente não temos uma palavra que possa traduzir “sitooterie” ao pé da letra. Mas temos uma expressão bem próxima: “ninho de amor”. 

O nosso caboclo ribeirinho constrói sua “sitooterie” numa rede, estendida no seu tapiri, sob o frescor do luar da Amazônia.  Ou na beira de uma praia de rio. No chap-chap da canoa, numa clareira da floresta.

Um casal de colaboradores de certa base petrolífera localizada no seio da floresta, resolveu construir sua “sitooterie” às escondidas. Distante uns 200 metros da base, já em plena selva. A clareira estava bem organizada e acolhedora. Tinha até uma churrasqueira. A administração do polo descobriu a audaciosa e perigosa “sitooterie”.  O casal foi punido. É muito perigoso.  Há onças e outros bichos selvagens na mata 

Não só na mata os animais buscam um lugar gostoso e adequado para namorar. Os aquáticos também precisam de local apropriado para se reproduzir. Além dos botos, outro mamífero aquático muito simpático é o peixe-boi. Eles normalmente precisam que o rio esteja cheio. Um “sitooterie” adequado deve ser em local mais fundo. É que eles precisam e gostam de se abraçar. Se for muito raso, não conseguem. Como estão em extinção, os cientistas queriam reproduzi-los em cativeiro. Mas não acontecia em piscinas rasas. Foram verificar in loco. Notaram que eles conseguiam se abraçar no fundinho do lago ou do rio.

Tem bicho que gosta do escurinho do cinema. Outros, como os manatis, preferem o fundinho dos rios.


domingo, 5 de abril de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXIX

 

Porto de desembarque, antes do Roadway. 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A poesia é necessária?

 

Chiaroscuro

Marco Aurélio de Souza

Para André Cassias

 

Procurei dentro dos livros

Um poema para ti

Um que dissesse do chiaroscuro

De todo homem que nunca se cansa

De desfazer o nó de si mesmo

 

:não o encontrei:

 

Tuas sombras e luzes habitavam tão somente

O ventre viscoso de minha memória

Que gesta agora a carne indelével

Destes versos esquivos com os quais

Lutaremos longamente

Como dois esgrimistas que duelam

Num vazio notívago qualquer



quarta-feira, 1 de abril de 2026