Amigos do Fingidor

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Lábios que beijei 27


Zemaria Pinto

Ilsa


Ilsa, dos cabelos falsamente louros e pele de abacate passado – dizia que tinha 16 anos, mas o corpo ainda em formação denunciava 13 ou 14 –, era apenas uma entre centenas de prostitutas adolescentes de uma cidade em ruínas: um ano após a desativação do canteiro de obras que deu origem a Brasília, São Luís, sua principal fornecedora, reduzira-se a um lugar de onde os homens desapareceram em busca de um Eldorado qualquer, deixando as mulheres à mercê dos que se dispunham a pagar por elas. A falta de voos diários me obrigava a uma permanência de cinco dias, quando minha missão no banco não me exigia mais que três. Ao final do terceiro dia, levaram-me a um bar, no centro da cidade, onde tocava uma melancólica música latina, falando de traições e vinganças. Ela estava lá, entre tantas outras meninas de aluguel. Não era a mais bonita ou a mais fornida, mas tinha os olhos docemente blues. Levei-a para o hotel, com receio de que não permitissem a sua entrada – fizeram de conta que ela nem existia. Não desgrudamos mais um só instante. E logo deixei de me incomodar com as possíveis críticas ao inusitado casal – o homem branco maduro com a meninaputa pretinha. Foram dois dias de êxtase total: a menininha fazia sexo como poucas mulheres que eu conhecera. Algumas horas antes de ir para o aeroporto, depois de nova sessão de sexo arrasa-quarteirão, senti-me estranhamente sonolento. Acordei no dia seguinte, sem dinheiro e sem o relógio suíço, presente de Cláudia. Como era sábado, tive que ficar mais dois dias em São Luís. Mas não procurei Ilsa. Feitas as contas, até que foi barato.

domingo, 17 de agosto de 2014

Manaus, amor e memória CLXXIII


Certificado de ações da Companhia de Bondes de Manaus. Em libras esterlinas...

sábado, 16 de agosto de 2014

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Dabacuri – memória 2/5


Zemaria Pinto

no Mercado Grande,
a cidade em passarela
– manhã de domingo

chocolate, vinho e carne –
depois da abstinência
a mesa farta

domingo de Páscoa:
a família ora em torno
de um cordeiro assado

morangos maduros
sobre a mesa de domingo
– aroma de ausência

Sábado na Academia: Mário Ypiranga Monteiro Neto palestra sobre o Barão do Rio Branco






O palestrante

Mário Ypiranga Monteiro Neto, ocupante da cadeira 10 da Academia Amazonense de Letras, aos 42 anos, é o mais jovem titular daquela casa de cultura, mas pode-se dizer que, 9 anos depois de sua posse, é dos mais experientes.

Sua carreira jurídica começou em 1998, como promotor público. É também professor universitário e cronista.


O homenageado


José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, é uma das figuras mais populares da história do Brasil: nome de ruas e escolas em muitas cidades brasileiras, inclusive Manaus, ele foi um diplomata, geógrafo e historiador, membro da Academia Brasileira de Letras.

Destacou-se na história do país como o responsável pela consolidação das fronteiras brasileiras.


O aborto entre os filósofos e os doutores da igreja




João Bosco Botelho

Os poderes laicos, em diferentes instâncias, ao longo de quatro mil anos, têm adotado diversas atitudes frente ao aborto como método anticoncepcional.  Por outro lado, tanto nos livros sagrados das culturas politeístas, do primeiro milênio a.C., quanto no Antigo Testamento não parece que a interrupção intencional da gravidez, salvo pelo risco de morte materna, causasse tanta repulsa.
O AT e o Novo Testamento, mesmo contendo referências específicas sobre a organização familiar, não citam uma só vez de modo explícito qualquer tipo de condenação ao aborto como método anticoncepcional. É como se o fato, que incontestavelmente deveria ocorrer, não tivesse qualquer importância. A Bíblia não condena nem aprova a interrupção da gravidez por meio do aborto provocado.
É difícil aceitar que a ausência de citação no AT seria porque as sociedades judias não conheciam essa forma de método anticoncepcional. É mencionada a pena do agressor de mulher grávida, se a brutalidade resultasse em aborto. Contudo, o castigo tem sentido indenizatório.
O 2º Livro de Samuel descreve o drama do rei Davi após engravidar a mulher do general Urias. A gravidez próxima de ser descoberta pelo povo, que acreditava o rei acima do pecado, o aborto não fora aventado. Como opção, o rei conquistador determinou a morte do militar, na frente de combate, para que fosse possível casarem-se sem macular as leis judaicas.
        A mais antiga e clara referência cristã antiabortiva está no Didaqué, manual ético‑moral, escrito nos anos 100: "Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida".
      O filósofo cristão Tertuliano (190‑197) também adotou a posição antiabortiva absoluta: "É homicídio antecipar ou impedir alguém de nascer. Pouco importa que se arranque a alma já nascida ou que se faça desaparecer aquela que está ainda por nascer. É já um homem aquele que virá".
     São Jerônimo (331‑420), um dos quatro Doutores da Igreja, na correspondência à Algásia, argumentou se antepondo à restrição absoluta de Tertuliano: "Os sêmens se formam gradualmente no útero e não se pode falar de homicídio antes que os elementos esparsos recebam a sua aparência e seus membros". Contudo, em outra carta, o monge de Belém considerou as mulheres que escondiam a infidelidade conjugal com o aborto como culpadas de triplo crime: adultério, suicídio, assassinato dos filhos. Nesse caso, parece que a restrição ao aborto como método anticoncepcional estaria ligada à crítica à infidelidade.

          

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Domingo à tarde



Inácio Oliveira


Havia aberto a casa, uma réstia de luz entrava pela janela. Era o fim de um domingo como tantos outros. Passou o dedo pela tela luminosa do celular, dezenas de contatos se somavam na tela colorida. Agrupados em ordem alfabética estava todo um círculo de gente que ele conhecia, acessíveis a um toque. Bastaria selecionar o nome da pessoa e pressionar o botão verde no canto inferior da tela para que alguém, em algum lugar do mundo, recebesse uma chamada sua. Ficou olhando para o celular na palma da mão, pensando em quantas coisas incríveis se podia fazer com aquele pequeno aparelho. Séculos de conhecimento e tecnologia na palma da sua mão. Se uma pessoa no século XVIII tomasse conhecimento de um aparelho igual a esse pensaria nisso como fruto de um poderoso sortilégio. Mas ele, sozinho em casa, olhando para a lista de contatos do seu celular não se sente poderoso, ao contrário, de alguma forma tudo isso o oprime e ele se sente ainda mais sozinho.
Observa um a um os ícones no celular que o ligavam às redes sociais, o f feliz e azulado do facebook, o pássaro verde do twitter, o whatsapp e todos os outros aplicativos do celular. Havia um que encontrava os melhores restaurantes e bares num raio de 20 km, mas ele não sente a menor vontade de ir a nenhum bar ou restaurante. Olha novamente os contatos no celular, não há ninguém para quem ele queira ligar, e se ligasse não saberia o que dizer.
Deixa o celular sobre a mesa e fica olhando para ele. A tela esmaece e em seguida fica escura. Ele fica olhando um tempo mais para o celular, gostaria que alguém ligasse para ele, mesmo que fosse engano; principalmente que fosse engano. Por fim ele desiste do celular e liga o computador. Rapidamente a tela do computador fica azul e a janela do Windows se abre fazendo um barulhinho alegre. Abre a página inicial do Google e fica olhando para as letras coloridas do buscador, estranhamente não consegue pensar em nada que queira ver na internet. Isso o deprime porque ele é como alguém que vai a um lugar onde tem tudo, e mesmo assim não consegue se interessar por nada.
Acaba acessando a página do facebook. Na página inicial do seu perfil ele pode ver inúmeras publicações de outros usuários amigos seus. Fotos de animais de estimação, de roupas, de viagem, de aniversários, frases espirituosas e cartões animados que distinguem aqueles que as publicam e compartilham como pessoas inteligentes e felizes. Logo essas publicações o aborrecem. Ele abre a página de amigos, 857 amigos, não sabe se esse número é pouco ou muito para os padrões do facebook, de qualquer maneira 857 amigos não são pouca coisa. Se ele reunisse todos os seus amigos do facebook em um só lugar ocuparia uma área de 170 m2. No entanto, a observar as primeiras pessoas que apareceram na página, nenhuma delas pode se dizer de fato que é sua amiga. Pensou que talvez a palavra amigo nesse contexto houvesse ganhado outro significado. No menu lateral da página ele pode ver dezenas de pontinhos verdes, o que significa que outras pessoas neste momento estão fazendo o mesmo que ele, diante de um computador ou no celular. Sente pena dessas pessoas, sente pena de si mesmo.

No topo da página, o facebook lhe pergunta “em que você está pensando?”. “Em que eu estou pensando, essa é boa, em que estou pensando?”. Ele ri sozinho diante do computador, um riso amargo. Anoitece, a sala onde ele ligou o computador está completamente escura. Apenas a luz da tela reflete em seu rosto. Depois de algum tempo diante do computador sua vista começa a cansar; ele desliga a máquina e só então percebe que o sol já se pôs, há muito tempo.

domingo, 10 de agosto de 2014

Manaus, amor e memória CLXXII

De Lagotellerie não era fácil: filiais em Paris, Nova York, Pará (?) e Itacoatiara!

sábado, 9 de agosto de 2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Dabacuri – memória 1/5


Zemaria Pinto


manhã indo a pino,
curumim corre pra beira
– tchibum! some n’água

um cavalo manco
trota pela rua torta
– carga de carvão

pelos corredores,
a algazarra antecipa
o longo feriado


flores amarelas
desabrocham na manhã
– rua ornamentada

Sábado na Academia: Marilene Corrêa fala sobre Joaquim Nabuco


A AAL concederá certificado de participação, com carga horária de até 12 horas,
que podem ser usadas como horas de extensão.

A professora Marilene Corrêa possui graduação em Serviço Social pela Universidade Federal do Amazonas (1975), Mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP (1989) e Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1997), além de Pós-Doutoramento na Université de CAEN e na UNESCO (2001-2002).
Atualmente, é Professora Associada III da Universidade Federal do Amazonas e, desde setembro de 2012, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Sociedade e Cultura na Amazônia, do qual é professora, pesquisadora e orientadora. Atua também no Mestrado em Sociologia da Universidade Federal do Amazonas; e no Mestrado em Agricultura no Trópico Úmido, do INPA.
 Foi presidente da AFIRSE (Associação Francofone Internacional de Pesquisa Científica em Educação) – seção Brasileira, de (2007-2011); Secretária de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas (2003-2007); Reitora da Universidade do Estado do Amazonas (maio de 2007 – março de 2010). Foi membro do Conselho Nacional do Fundo Nacional do Meio Ambiente (2009-2011); É membro por notório saber do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (MCT); Membro do Conselho Diretor da Fundação Oswaldo Cruz; Membro do Conselho Editorial da Jornal Ciência Hoje, publicação da SBPC, desde janeiro de 2013; Membro Eleito do Conselho da SBPC, Área A, Região Norte, período 2011-2015.
Tem vasta experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: Amazônia, políticas públicas, política científica, teoria sociológica e desenvolvimento socioeconômico.
Autora de mais de 60 artigos publicados em periódicos, e quase duas dezenas de capítulos independentes de livros publicados, Marilene Corrêa é autora de 10 livros, entre os quais se destacam: Metamorfoses da Amazônia (2000/2013); O paiz do Amazonas (2012 – 3ª ed.); Imigração Japonesa na Amazônia: contribuição na Agricultura e vínculo com o desenvolvimento (coorganizadora, 2011); Estudos da Amazônia Contemporânea: dimensões da globalização (em parceria com Marcílio de Freitas, 2000) e Diálogos com a Amazônia (também com MF, mais Marcus Barros, 2010).

Membro também do IGHA, Marilene Corrêa sucede Áderson Dutra, desde setembro de 2011, na cadeira n° 24 da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Joaquim Nabuco. 

Linguagens, prêmios e castigos



João Bosco Botelho
           
A dificuldade para moldar o pensamento coletivo, de acordo com a conveniência do poder, reside na impossibilidade de encontrar duas estruturas biológicas exatamente iguais, incluindo duas pessoas que pensem semelhantes. Sob essa barreira, as estruturas de poder se desdobram para engendrar mecanismos sociais e políticos de convencimento, na maior parte das vezes esmagando os limites éticos, sugerindo que são competentes para atenuar as dores pessoais e, simultaneamente, aumentar o prazer. Nesse sentido, por meio das linguagens de diferentes matizes, o poder que oferece pão e circo está claramente inserido nesse pressuposto teórico.
Apesar dos avanços na genética e nas imagens do corpo, continuam os entraves ao acesso do cérebro humano. Contudo, os casos clínicos acidentais são capazes de levar aos grandes progressos. Um desses, na Universidade Western, Ontário, refez conceitos em torno da consciência não manifesta (ou aparente descompasso entre o comportamento manifesto e a memória) com uma doente com dano cerebral por intoxicação de monóxido de carbono. Quando ela se recuperou, era incapaz de identificar a xícara de chá, todavia os movimentos para segurá-la e levá‑la à boca eram normais.
Esse tipo de comportamento alterado reforça a existência de, pelo menos, duas formas diversas do reconhecimento visual: uma dependente da percepção e a outra das funções motoras.
O outro relato significativo, identificado pelo suíço Édouard Claparède (1873-1940), um dos mais influentes da escola da psicologia funcionalista, descreveu a paciente portadora de distúrbio para assimilar fatos recentes. Na consulta inicial, ao cumprimentar o entrevistador, ela teve a mão levemente furada de modo intencional por um alfinete. No dia seguinte, não reconheceu ninguém, porém se recusou a repetir o gesto que provocou dor.
Esse fato sugere natureza física ao conhecimento historicamente acumulado em torno do controle social girando em pontos antagônicos: oferecer o prazer pela obediência e a dor como castigo à indisciplina. Como chamamento, as linguagens laica e religiosa oferecem: promessa de prolongar a vida, trabalho ameno, comida farta, maior liberdade sexual, espaço sagrado (templo) ou profano (partido político, tribunal) para defender a causa comum e julgar os resistentes, aumento da proteção individual e coletiva e melhoria das situações temidas, causadoras de desconforto: a fome e o frio.
Algo muito poderoso se passou na intimidade da memória acumulada na espécie humana. Apesar de ainda não ser possível ver as ideias (elétrons também não são visíveis, mas existem), resta o êxtase do quanto fascinam os homens e as mulheres alegorias simbólicas que ligam o passado remoto ao presente vivido: prazer aos que obedecem e dor aos desobedientes!
As linguagens religiosas e laicas consolidaram nas mentalidades o processo pendular entre dor e prazer como marcos do processo humano de sobrevivência pessoal e coletivo.

As linguagens divinas mais poderosas porque convencem ser capazes de impor a dor tanto durante a vida quanto após a morte. A dádiva e o castigo divinos não ficam restritos à vida; se prolongam na morte. Dependendo da obediência, o renascimento será confortável ou aflitivo. As linguagens laicas repetem sem cessar os anseios genéticos que possibilitaram a sobrevivência humana: posse e controle do território para garantir o alimento, em todas as variantes metafóricas, e maior liberdade sexual.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Parente, estamos num beco sem saída



David Almeida


Em que lugar vamos parar, “parentada” com esse ritual de violência generalizada? Todo dia ao ler um jornal, ligar uma televisão, rádio, ou ter contato com qualquer meio de comunicação, a violência está estampada de todas as formas em todos os segmentos da sociedade, fomentada pela miséria, espelhada e espalhada pela má distribuição de renda, causando a famigerada desigualdade social, distanciando cada vez mais o cidadão de sua cidadania, e a perda total da sua identidade.
Os políticos, nossos representantes “legais” – quase sem exceção –, continuam com o mesmo discurso: que vai tudo bem; o novo projeto de segurança está dando certo; mais escolas foram construídas; hospitais funcionando a todo vapor; o interior está mais assistido do que antes, é papo para convencer, emocionar o mais duro coração de pedra. Mas, na realidade continua tudo como era antes. As coisas vão se acumulando, só mudando de embalagem, para enganar os “eleitrouxas”, que tem as bênçãos do “Deus” do candidato “Fulano de Tal”. Estamos acuados, Parente!   
O que temos que fazer é acordar, olhar em nossa volta para ter a consciência do que somos e representamos pra eles, porque nós os elegemos como nossos fiéis representantes. Não precisamos estar cercados por tudo o quanto é amargo e negro da vida, neste Planeta ainda Azul. Porque ainda há esperança de mudarmos tudo a partir de nós mesmos, para não sermos enganados mais.
Só eles têm o direito de viver bem neste País, são os acumuladores de riquezas, que inescrupulosamente, subtraem dos cofres públicos. Tendo em seu “Deus” a fortaleza maior, estão imunes a qualquer atropelo e constroem os seus Paraísos aqui mesmo, Parente!
O impressionante é que, quanto mais suas fortunas crescem, mais seu “Deus” os protegem, e, o povo, mais empobrecido se agiganta na sua fé; se agarra, se amarra, seguindo, se alongando nas procissões, nas caminhadas sob orações, trôpego, entorpecido, à espera de um milagre, por menor que seja, para amenizar seu sofrimento. Estamos encurralados, Parente!
– Parente, eu sei, estamos num beco sem saída.
– Estamos sim, Parente, e só existe uma saída: pra cima.
– Mas, Parente, como vamos sair por cima, se não temos asas?
– Aí é que está, Parente... Quem sabe com muita reza, num acontece um milagrezinho e a gente cria asas? Afinal de contas, dizem que Deus é brasileiro...
– É mesmo, Parente... Olha, formiga que é formiga, que nem sabe rezar, cria asas, imagine a gente.
– Mas, Parente, a gente de asas vai ficar que nem duas borboletas, num é? A nossa situação é difícil; se correr, o bicho pega, e se ficar, o bicho come. Acho melhor esperar o bicho, e esquecer esse negócio de asas, né?
– É, vamos torcer, Parente, quem sabe aquele balão que trouxe uma vez o boi Garantido pra dentro da arena num aparece e tira a gente dessa enrascada. Eu sou Garantido, e tu?
– Sou Caprichoso, Parente, mas eu acho que nessa condição vou virar a casaca.

Portanto, “parentada”, vamos virar a casaca, a mesa, a urna, o que for preciso: sem medo, porque a força está nas nossas mãos. Só assim poderemos vislumbrar um futuro melhor para o beco sem saída.        


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Lábios que beijei 26


Zemaria Pinto
Sara


Uma negra baiana sob o sol amazônico, Sara cheirava a chuva, terra molhada, folha de mato. Pura entrega, Sara nada me pedia além de carinho. E neste ponto era muito exigente. Clandestinos, não tínhamos lugar certo para nos amar, mas sempre terminávamos no quarto do segundo piso de sua casa – bêbados. Mais velha que eu, Sara transbordava sensualidade, com um recheio de vasta vivência. Uma ocasião, duas da manhã, entramos em uma casa de strip no centro da cidade. Pedimos dois uísques e ficamos nos divertindo com o estranhamento causado: a mulherada amuada, pela concorrência desleal; os homens me fulminando de inveja. Começamos a nos abraçar e beijar, até que o gerente ou algo parecido nos chamou a atenção, dizendo que aquele comportamento não era adequado para aquela casa. E Sara: – mas isto não é um puteiro?! De volta à Bahia, trocamos promessas de um breve reencontro que jamais aconteceu. Quando casei pela segunda vez, recebi uma cartinha bem-humorada e carinhosa, desejando-me felicidades. E nunca mais soube da negra Sara.

domingo, 3 de agosto de 2014

Manaus, amor e memória CLXXI



Teatro Amazonas, em época de muito movimento.

sábado, 2 de agosto de 2014

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Viver morrer





– Viver é muito perigoso?


– Viver é apenas patológico. Morrer, entretanto, é congênito.

(Zemaria Pinto)

Dentro do Sábado na Academia, série A Academia e seus Patronos está de volta


Todos os palestrantes são membros da Academia Amazonense de Letras.

Linguagens intercomunicando saberes



João Bosco Botelho
         
A repressão da Igreja para manter e reproduzir como dogmas as ideias de Hipócrates (sec. 4 a.C.) e Galeno (sec. 1), criou um tipo de insanidade cultural, respeitando-se as devidas proporções, semelhante ao ocorrido com alguns leitores apaixonados de Marx e Engels, no leste da Europa, e entre alguns intelectuais da esquerda latino‑americana, entre os anos 1960 e 1970. A paixão dos marxismos pós‑Marx, fruto da leitura das orelhas dos livros de ciência política, ao enveredar pela mesma trilha dogmática, contribuiu para agravar a crise de subjetividade que acelerou a derrubada do Muro de Berlim.
As primeiras publicações para repensar as teorias greco-romanas ocorreram vinte séculos depois dos estudos hipocráticos, na ilha de Cós, na Grécia. O estudo da micrologia de Marcelo Malpighi (1628‑1694) iniciou o deslocamento da função dos humores hipocrático‑galênicos para o interior da célula, trazendo forma e função para o nível celular. Novas perspectivas foram abertas pelo descortinar da microestrutura celular.
Pouco mais de duzentos anos se passaram a partir da obra de Malpighi, para que as linguagens alcançassem a estrutura molecular do genoma, no núcleo da célula. As pioneiras publicações do frade dominicano Gregor Mendel (1822‑1884), demonstrando a importância das características herdadas no cruzamento de espécies diferentes de ervilhas, foram aplicadas na nova busca da origem da saúde e da doença: as moléculas do ADN.
Hoje, a crítica do observável mostra os grandes limites das três teorias: humoral, celular e molecular. São frágeis e inconsistentes para explicar as dúvidas que persistem tanto no pensamento lógico quanto no ficcional expresso nas linguagens.
Na distonia entre o visível e o lido nos compêndios está o polo central das contradições das linguagens que não conseguem expressar com careza as diferenças entre o visível e o invisível. A fraqueza do saber, avolumando as dúvidas nas dimensões extremas da matéria, oferece o suporte para a busca de novas propostas, como a teoria das memórias sócio‑genéticas.
Os anseios dos homens e das mulheres, presentes na memória sócio‑genética coletiva, para, sempre, o prazer e fugir da dor. As linguagens se ajustam nessa estrutura ontogenética com força suficiente para reprimir, tenazmente, as ideias que se mostram desarmônicas com esse anelo.
A História recente evidencia, com transparência, um desses momentos marcantes da resistência: o desmoronamento da ordem comunista no Leste da Europa. Aqueles povos demonstraram que a insatisfação com os limites das linguagens.
 As respostas coletivas que derrubaram como castelos de cartas as ditaduras socialistas, no leste da Europa, reafirmaram que as linguagens buscam o conforto além, muito além, da fome contida. É mais um indício da extraordinária ordem na qual se processa o pensamento coletivo, quando se trata da sobrevivência comum.

A dor ou a ameaça dolorosa, física ou ficcional, ditam as ordens mentais da sobrevivência. Qualquer variável circunstancial, capaz de ser entendida pelo ser como sensação dolorosa, produz resposta neurológica imediata, para buscar, na intimidade da memória acumulada, todos os mecanismos cerebrais para impedir ou atenuar o desconforto. As linguagens construídas e processadas no cérebro transmitidas com a reprodução sexuada permanecem dependentes das experiências vividas no conjunto social. É como nascem e se reproduzem os saberes.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014

domingo, 27 de julho de 2014

Manaus, amor e memória CLXX



Reclame ariano da Mercearia Americana.

sábado, 26 de julho de 2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Náufragos




Qual a utilidade de se lançar ao mar uma garrafa com um pedido de socorro, se não sabemos em que ilha viemos parar?


(Zemaria Pinto)

Linguagens decompondo a saúde e a doença




João Bosco Botelho

O conflito gerado na convivência desde tempos remotos no espaço sagrado, onde a doença seria engendrada pela divindade, e no espaço profano, com o predomínio do conhecimento empírico, determinou os rumos escolhidos das culturas sob a influência greco-romana.
A cultura grega antiga, notadamente a da época hipocrático‑platônica, se consolidou com marco divisor da necessidade de distinguir a opinião do conhecimento. Não bastava alguém supor algo de qualquer coisa, era imperativo acrescentar argumentos demonstrativos da linha condutora do evento. Também por essa razão, ficou mais bem delimitada a materialidade do espaço profano, onde iria florir, com maior vigor, os saberes para iniciar o moroso processo tentando desvendar o corpo do poder das divindades.
Com esse suporte, os médicos gregos, particularmente os de Cós e de Knido, começaram a usar a linguagem escrita para decompor a doença e retirá‑la da primazia divina. No livro A Doença Sagrada, escrito no século 4 a.C., atribuído a Hipócrates, esta questão está transparente: "Quanto à doença que chamamos sagrada, eis aqui o que ela é: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que o resto das doenças e por origem as mesmas causas de cada uma delas."
As linguagens entrelaçando os conhecimentos historicamente acumulados se ancoraram na teoria dos quatro elementos do médico Empédocles – terra, água, ar e fogo –, a justificativa das mudanças determinadas pela doença no corpo. Esse também filósofo, natural de Agrigento, na Grécia, pretendendo a renovação da imagem do mundo, fundamentou a sua teoria em concepções mais antigas, que sustentavam, desde a oralidade, a importância do fogo, da terra, do ar e da água, na sobrevivência do homem.
Pouco tempo depois, a teoria dos Quatro Humores, descrita por Políbio, o genro de Hipócrates, refletida nos elementos de Empédocles, concebia o ser humano formado de quatro humores: sanguíneo (ar), fleumático (água), bilioso amarelo (fogo) e bilioso preto (terra). A saúde seria o resultado da perfeita harmonia entre esses humores e a doença apareceria, quando um deles prevalecesse sobre os outros.
         Contrariamente, os jônicos admitiram outros elementos interferindo na saúde e na doença. O autor desconhecido de um dos mais célebres livros desse período "Da natureza do homem", se recusou a crer na regra da teoria dos quatro humores. Contudo, prevaleceu o defendido pelos hipocráticos.
Essa extraordinária construção teórica grega, onde as linguagens iniciaram e mantiveram o processo de conflito explícito entre a medicina e as ideias e crenças religiosas, retirando dos deuses e deusas o poder de decidir sobre a vida e a morte, por meio da teoria dos Quatro Humores, representa o marco da medicina firmada na busca incessante da materialidade da doença.
Um dos médicos mais importantes, do século 1, o romano Cláudio Galeno reconstruiu a teoria dos Quatro Humores por meio da teoria dos Quatro Temperamentos (sanguíneo, linfático, bilioso preto e bilioso amarelo), acrescentando forte componente social: as doenças estariam também ligadas às características comportamentais.

A partir da cristianização do império romano, começando com Constantino, no século 4, os processos teóricos gregos foram integrados à cultura médica romana. As muitas linguagens oriundas dos territórios conquistados pelas legiões romanas se encarregaram de levar os saberes da medicina greco-romana e atravessaram mil anos do medievo europeu. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna (16/06/1927 – 23/07/2014)


Suassuna, por Diogo D'Auriol.

A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.
(Ariano Suassuna)


O cavaleiro andante Suassuna, visto por Davi Sales.

Fantasy Art - Galeria


Lauren K. Cannon.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Lábios que beijei 25



Elza

Prima distante de minha primeira mulher, Elza estava de passagem pela cidade. No jantar, regado a vinho, seus pés procuraram os meus por baixo da mesa. Eram pequeninos, como ela toda era pequenina, mas túmida onde tinha de ser: peitos, coxas, bunda. Pela madrugada, todos dormindo um tanto bêbados, aproximei-me do sofá onde improvisamos uma cama e deslizei a mão por seu corpo. 

(Para continuar a leitura, acesse o blog Poesia na Alcova.)

domingo, 20 de julho de 2014

Manaus, amor e memória CLXIX


Manaus em 1865, segundo Agassiz, diz a legenda.
A verdade é que a expedição Agassiz contava com um desenhista profissional, Jacques Burkhardt,
responsável por ilustrar os textos do casal Louis e Elizabeth. 

sábado, 19 de julho de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro (23/01/1941 – 18/07/2014)


João Ubaldo Ribeiro, por Novaes.

João Ubaldo Ribeiro, por Mário Alberto.
“Não sou muito otimista quanto à humanidade. Somos uma especiezinha muito criticável.”  

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Delicadeza




Se queres delicadeza, volta ao útero de tua mãe.

(Zemaria Pinto)

Linguagens, dor histórica e doenças



João Bosco Botelho
         
É possível compreender a fantástica relação entre as linguagens e o nascer da consciência em si mesmo, diferenciando o cérebro da mente entrelaçando a natureza, o social e a História. Esse conjunto complexo colocou o homem e a mulher numa condição singular e difícil: sobreviver com menos dor e mais prazer – consciência em si – mantendo a diversidade das linguagens.
Após a certeza de poderem desfrutar de vida cada vez mais confortável, homens e mulheres expressam continuamente, a inconformidade com a dor, o desconforto. Sendo mais inteligentes, após a morte não poderiam ter a mesmo destino dos outros animais. Tornou-se imperativo também estruturar o conforto após a morte. Mas, não para todos! Somente para os aliados e os concordantes com a ordem teriam um repouso perfeito depois da vida.
Desde o passado distante, as mudanças operadas no corpo, causando a angústia da deformidade dolorosa, eram as primeiras evitadas. A barriga eviscerada no acidente de caça ou nas disputas pela liderança ligavam a dor e a morte ao mundo temido. Por outro lado, o prazer, capaz de descontrair o músculo enrijecido, trazia sempre a lembrança do evento agradável. A estrutura cerebral se adaptou, continuamente, a essa ordem sócio-genética: polaridade entre prazer e dor, como o caminho mantenedor da vida.
O castigo, necessariamente carregado de sofrimento, imposto pelo homem ou pela divindade, nos espaços sagrado e profano, está ligado à obediência a qualquer preço. O medo, advindo da ameaça ou da dor física, passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados, do permitido e do proibido.
O arcabouço da dor física na herança sócio-genética, transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor histórica. A coesão do grupo atingido é reforçada ao identificar as causas e, assim, orientar, através das linguagens, o caminho para eliminá‑la da ordem social.
A categoria denominada dor histórica é o grito humano pela vida, liberdade, saúde, conforto, dignidade, paz e ruptura das correntes que prendem o homem à tirania dos outros homens e dos deuses. É a razão por que sempre existiu a procura de uma ética na conduta humana, ligada à sobrevivência comum, forçando a melhor atenção à saúde pessoal e coletiva, registrada nos códigos de postura, presente desde o Código de Hammurabi e nos livros sagrados de todas as expressões de religiosidade.
A ficção do sagrado como mecanismo biológico para amenizar a dor, imponderável em si mesma, encontrou unissonância no brado dos espoliados sem território e alimento para sobreviver, sempre mais doentes, morrendo precocemente,
O medo da dor fora de controle e da morte prematura forjou nas mentalidades a permanente atenção à dor histórica, estruturando a consciência da proteção pura, montada na determinação genética. É possível que o gradativo conhecimento da dor histórica tenha se processado na justa medida em que as coisas em si se converteram em coisas para nós, ou seja, o desconhecido passou a ser conhecido com o objetivo de viver mais com menos dor. As doenças, especialmente as das epidemias fora de controle, foram resgatadas da tutela divina e entendidas como parte significativa da dor histórica.

Assim, é possível compreender por que a partir do momento em que determinada sociedade sente o rigor insuportável imposto pela dor histórica, comprometendo a sobrevivência dos membros, se reorganiza para enfrentar e modificar os fatores determinantes. 

terça-feira, 15 de julho de 2014