Amigos do Fingidor

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 5/5



Zemaria Pinto


Uma característica marcante na poesia de Alcides Werk é a presença da noite, realçada na dicotomia claro/escuro[1]. A noite protetora, envolvente, cúmplice do caboclo amazônico. A noite, caminho da antemanhã. A noite, precursora da luz. Ele diz no poema “Da noite do rio”:
Nesta noite sem medidas
eu todo banhado em sombras
fugi de casa, fugi
para o branco desta praia,
como se a aurora que busco
neste rio se afogou.
(p. 36)
Perdido o refúgio, perdido o sonho, o homem renova-se, a partir do rio – o símbolo mesmo da mudança, pois que nunca se repete. Mas o “rio noturno” é   apenas  a  projeção  da  angústia  do   “homem  noturno”: adormecido, cansado de viagens, arauto de mortes.  O homem ensombrecido, impotente pela impotência do rio, encontra-se ilhado: não há como lutar contra a noite que se abate sobre seu mundo.
Esse homem noturno em busca da luz é o lado menos visível da poesia de Alcides Werk, da qual se divulga muito a poesia telúrica, a poesia das pequenas e das grandes coisas amazônicas. Porque se esta expressa o espaço amazônico, aquela poesia noturna é uma reflexão sobre o momento histórico, mas sem nada de panfletário, apenas refletindo a angústia de uma alma sensível, vivendo sob o tacão de uma ditadura que tinha o absoluto repúdio popular.
A noite irreversível e sem fim abate-se sobre o poeta e não apenas o cobre. Toma-o. Doma-o. Internaliza-o. A noite é ele. A poesia se espraia pelo tempo sem retorno e se alonga em ocasos que se repetem de forma tão igual que parecem um só: o ocaso da longa noite que o poeta viveu vagando pelo Médio Amazonas.

Eis-me aqui nesta ausência de mim mesmo
(p. 147)
Este verso, do “Soneto VII”, reúne em suas dez mágicas sílabas toda a força da poesia que explode em angústia e dor. De igual modo o “Soneto VI” refere-se à

                                     ronda inútil
por além dos limites do meu nada
(p. 146)
Como se o alheamento dos acontecimentos nacionais o isolasse ainda mais do mundo físico ao seu redor – assumindo definitivamente a “condição de ilha” a que se refere o poema “Aos meus irmãos solitários”. Da mesma forma, os “Sonetos V” e “VIII” perseguem essa imagem do ser ensombrecido – o homem noturno e vazio. Neste, há algo de loucura dominando a expressão poética:
Silêncio. Sinto apenas o silêncio
em mim. (....)
Busco-me, a medo, e vejo pelos cantos
vozes vazias, sons de antigamente,
projetos inconclusos, teias, nada
e tua linda presença estilhaçada.
(p. 148)
Mas é no “Soneto I” que ele resiste da melhor forma – vivendo o seu ofício, escrevendo:
Na meia-luz da tasca entra uma lua
Que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
Vai caindo um poema sobre a mesa.
(p. 141)
Os doze sonetos de Estudos, a parte que fecha Trilha dágua, trazem alguns do poemas mais belos, significativos e bem arquitetados da nossa literatura. São apenas doze poemas – que valem por toda uma obra. Antológicos.
O “Soneto IX” – o coroamento desses cânticos libertários – é a síntese definitiva da noite que se instaurara no país a 31 de março de 1964. Suas palavras são imagens retiradas a sangue frio de retinas ainda cálidas. Palavras que a boca não dirá jamais. Imagens, apenas.
Fez-se uma curta pausa. E a noite baça
estendeu seus lençóis sobre as cidades.
Ventos frios de morte andavam soltos,
e formas embuçadas destruíam
restos vagos de luz.
(p. 149)
O “Soneto XII” – o último poema de Trilha Dágua – representa a profissão de fé do autor no futuro, futuro que se constrói com o tempo e com o trabalho indispensável da poesia. Futuro que virá – o poeta o sabe – não com a manhã, pois a aurora é apenas a transição entre a noite de terror e a luz do novo dia. O dia que se constrói aos poucos, na indolência dos segundos. Para o poeta é

Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
(p. 152)
Meu caro Alcides, foi muito bom te encontrar, aqui na Academia, nesta bela noite de abril. Amanhã é sábado – e nos últimos tempos sempre nos encontrávamos nas tardes de sábado, lembras? Tu recitavas
Gosto de frequentar esta taberna
onde me sirvo de meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
(p. 141)
Aquele companheiro mudo era eu. Há mais de 10 anos não nos vemos, mas a tua lembrança está sempre comigo, como está sempre com teus amigos, com teus filhos e tua Santina. Foi muito bom relembrar teus poemas e tuas lições – “soneto é coisa séria, rapaz!” – e a tua alegria por reconhecer nos 14 versos que te dediquei, enfim, um soneto – num momento em que estavas triste, mas triste de não ter jeito. Aqui o repito e a ti o consagro, em definitivo:
  
Trago nas mãos a lâmina dos anos
que passaram por mim tragando sonhos:
sementes de um passado sem memória,
inúteis fragmentos de silêncio.

As velhas alegrias disfarçadas
tatuam sombras em meu rosto pálido.
Sorrio amargo, o limo transparente
refletido nos dentes amarelos.

Meus olhos baços já não sonham luzes
sob o cantar monótono do vento:
palavras surdas nos meus lábios cegos.

Antúrios se renovam no meu peito
e de meus braços pendem sensitivas.
Nos pés carrego o peso desses sonhos.[2]

V

Meus caros Dom Mario Pasqualotto, Sérgio Cardoso e Prof. Gláucio Campos Gomes de Matos. Vencemos mais uma etapa de nossa jornada. Daqui a pouco estaremos todos de volta às singularidades de nossas vidas particulares, à azáfama de nossos afazeres cotidianos. Mas esse tempo em que aqui estivemos juntos se estenderá em nossos corações e mentes como uma teia de afeto recíproco – de nós, acadêmicos, para com vocês; de vocês para conosco; e de todos aqui presentes para com a memória de Péricles Moraes.
Muito obrigado!





[1] Zemaria Pinto. Adaptado do ensaio A miragem elaborada, publicado na 4ª edição de Trilha dágua, Manaus: Edições Imprensa Oficial do Amazonas, 1994.
[2] Zemaria Pinto, “Exercício nº 5”, publicado em Fragmentos de silêncio. Manaus: Edua, 1995. p. 51.

Renan Freitas Pinto leva Bernardo Ramos ao Sábado na Academia



Ritos de cura como hierofanias


João Bosco Botelho


Desde tempos ágrafos, homens e mulheres aliaram-se aos panteões lutando para entender, sem aceitar, passivamente, a brevidade da vida frente à natureza circundante. Reagiram se organizando para viver mais e melhor, desafiando a tirânica competência dos deuses e das deusas para controlar a vida, curar as doenças e os infortúnios.
Os ritos de curas como hierofanias (manifestação do sagrado) são muito anteriores se comparados às práticas médicas. Alguns sítios pré-históricos mostram claras comprovações, com mais de 10.000 anos, que membros da espécie homo utilizando artefatos cortantes executaram intervenções deliberadas e repetidas sobre os corpos, como as trepanações de crânios e amputações dos membros.
O aparecimento da palavra “médico” nas linguagens-culturas mesopotâmicas esteve associado ao forte marco identificador dos poderes pessoais desses especialistas sociais — curadores de todos os matizes — para intervir na doença, como pressuposta garantia para aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle.
Curadores e médicos entendidos sob essa perspectiva — agentes sociais oriundos de muitas linguagens-culturas capazes de aumentar os limites da vida e sarar a dor fora de controle —, de lá para cá, como história de longa duração, mantiveram esse entendimento nos cinco continentes.
De lá para cá, quase quatro mil anos, os ritos religiosos de cura inseridos nas ideias e crenças religiosas nunca foram abandonados, mais ou menos valorizado em dependência das linguagens-culturas e dos bons ou maus resultados obtidos nos tratamentos mágicos. Em certos textos mesopotâmicos é difícil distinguir onde começava a prática médica e onde terminavam os ritos de curas.
Por outro lado, fora das análises acadêmicas, a maior parte das pessoas continua valorizando a ausência da dor, do mal, da doença como fruto da obediência às divindades. É possível que a arqueologia desse intricado nó entre as práticas de curas e as religiões esteja assentada nas antigas compreensões do pecado como sinônimo de doença. Entre os claros registros nas tábuas de escrita cuneiforme, achada na biblioteca de Hammurabi, um é particularmente interessante para demonstrar as práticas médicas atadas aos ritos de curas religiosos: assírios e babilônios entendiam o pecador como doente, débil, angustiado, possesso do demônio (utukku). Os termos sortilégio, malefício, pecado, doença, sofrimento aparecem como sinônimos. A libertação desse pecado, a doença, só seria obtida no rito religioso da confissão e da penitência.      
Essa compreensão do pecado ligado à doença como sinônimo do mal está mais claramente presente nas religiões que admitem o pressuposto da violação voluntária do livre arbítrio, contra a ordem divina, gerando culpa ao pecador, punido com a doença. Para apagar o pecado, o mal, a culpa, deve cumprir ritos de expiação: os da consciência, confissão e penitência; e os da obediência ao divino: rezas e sacrifícios.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

terça-feira, 21 de abril de 2015

Pescaria em Silves



Pedro Lucas Lindoso

Silves é uma cidadezinha do interior muito simpática, limpa. Na verdade é uma ilha. Silves fica no lago Saracá. Trata-se de belíssima região com predominância de diversos lagos amazônicos. O Lago Canaçari por si só é uma atração. A paisagem é deslumbrante. As várzeas e igapós da região de Silves têm uma extraordinária abundância de peixes e uma rica diversidade aquática. Ultimamente, Silves tem ficado famosa pelas piranhas. Pela pesca da piranha, melhor explicando. O mais ilustre cidadão silvense que conheci foi o saudoso Agobar Garcia. Ele fez muito por Silves e amava sua terra como ninguém. Faleceu há poucos meses e deixou viúva uma das senhoras mais queridas da sociedade de Manaus – Ilsa Garcia. O casal morava há anos num prédio na Av. Getúlio Vargas. Felipe, um simpático garotinho morador do edifício, perguntou pelo vovozinho Agobar, que andava sumido. Disseram ao garoto que vovozinho Agobar virou uma estrelinha. Agobar adorava pescar nos lagos de Silves, desde muito moço. Será que lá no céu tem lagos tão bonitos quanto os de Silves? Pode até ter, mas acho que no céu não tem piranhas, que se possa fazer um caldinho gostoso. Vai ter pesca da piranha agora em agosto, lá em Silves. Uma amiga me mandou uma receita de caldinho. Ela chama piranha de palometa. Vejam só:
Ingredientes: 1 kg de palometa - Suco de limão - uma cebola picada - dois dentes de alho picados -1 maço de cheiro-verde picado. Óleo, sal e pimenta do reino - dois pimentões picados - três tomates picados sem pele e sem sementes - 2 litros de água.
Modo de Preparo: Limpe as palometas, deixe-as com a cabeça e tempere com limão, cebola, alho, cheiro-verde, sal e pimenta. Deixe repousar por uma hora. Esquente o óleo, frite as palometas por alguns minutos com todos os temperos. Adicione o pimentão, o tomate e a água. Tampe a panela e deixe cozinhar em fogo baixo. Após uma hora, verifique o sal. Coe numa peneira grossa. É gostoso bebê-lo bem apimentado. Há também quem goste de engrossar o caldo com farinha.

Vovozinho Agobar iria adorar pescar piranhas em Silves, agora em agosto. Que pena. Saudades do vovozinho.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Lábios que beijei 46


Zemaria Pinto

Madalena e Conceição



Minha querida amiga Nana divertia-se a valer quando eu lembrava a história de Madalena e Conceição, duas belíssimas moças que alumiaram minha imaginação de menino. Elas eram o paradigma da elegância feminina caminhando por aquelas ruas de barro até o asfalto, onde passavam coletivos, praças e caronas. Madalena, branca, o cabelo negro chanel, lábios finos, caminhava com vagar, em estado de permanente meditação. Conceição, a tez de bronze, os louros cabelos curtos mas altos, lábios carnudos, parecia sempre apressada. Se as duas passavam juntas, caminhava à frente, parando de vez em quando. Quando as via adivinhava o perfume que delas emanava, como de um jardim no inverno. Sonhei muito com Madalena e Conceição – dormindo e acordado, poluções e orações sacrílegas de Onan. Nas minhas fantasias, reunia as duas e as submetia à minha luxúria juvenil. – E o que você pensava que elas eram? Putas, claro! A gargalhada de Nana ecoava por toda a orla de Parintins, onde nos encontráramos; eu, em missão do banco; ela, em projetos especiais de educação. Madalena era professora de uma escola tradicional e severa, enquanto Conceição – numa época em que as mulheres só podiam ser professoras, freiras ou donas de casa – trabalhava em um banco estatal. Nana estudara com as duas primas e mantivera desde então a amizade. A fantasia só foi desfeita mais de 30 anos depois. Melhor dizendo, esclarecida; porque ainda hoje sinto o perfume de Madalena e Conceição, o sedoso de suas peles, o frutado de seus lábios, a música de seus sussurros e a docilidade da submissão de ambas à concupiscência do fauno moleque.

domingo, 19 de abril de 2015

sábado, 18 de abril de 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 4/5



Zemaria Pinto


IV

Conheci Alcides Werk no início dos anos 1980. Autodidata, Alcides ensinou-me muita coisa que os livros não ensinam. Teve a paciência – que eu não tenho com os jovens que me procuram – de corrigir meus textos imaturos, justificando cada crítica. E hoje eu digo, com paradoxal orgulho, que tive a humildade – que os jovens que me procuram quase nunca têm – de aceitar suas críticas.
Quando, ao final daquela década, fiz uma especialização em Literatura Brasileira, sob a orientação do mestre Marcos Frederico Krüger, o tema da minha dissertação não poderia ser outro senão o livro que eu aprendera a amar como sendo a própria identidade amazônica em poesia: Trilha dágua. Mais amadurecido, eu discutia com Alcides cada ponto do meu trabalho, antes de mostrá-lo ao meu orientador. Muitas vezes discordamos e algumas vezes eu mantive meu ponto de vista, mas ele não perdia o bom humor: “discute isso com o Marcos; se ele concordar contigo, tudo bem: 2 a 1 pra vocês.”
Alcides Werk Gomes de Matos nasceu em Aquidauana – hoje, no Mato Grosso do Sul – em 20 de dezembro de 1934. Filho de pai pernambucano e mãe gaúcha, neto de imigrantes alemães, Alcides dizia não se lembrar de passar um ano numa mesma localidade. Tendo perdido a mãe aos 10 anos, em Caracaraí, aos 14, separou-se do pai em Conceição do Araguaia, onde fez um curso de telegrafia, indo trabalhar em um posto de atração de índios Gaviões, no Tocantins, próximo de onde hoje está Tucuruí. Aos 17 anos, sentou praça em Belém. Aos 20, veio para Manaus, mas aqui não ficou muito tempo, embrenhando-se pelo interior, desde o Alto Solimões até o Baixo Amazonas. E como ele mesmo escreveu,
aventurando-me pelos altos rios, pelos paranás, pelos lagos distantes, abeberando-me do que ainda resta da cultura aborígine, do nosso ameríndio, do caboclo, aprendendo a viver com simplicidade.[1]
Em 1964, funcionário de carreira do Departamento de Correios e Telégrafos, foi para Recife, mas de lá retornou um ano depois, internando-se no Médio Amazonas – Maués, Nhamundá e áreas circunvizinhas –, onde viveu por 8 anos, longe dos desmandos da ditadura.
Aos 40 anos, o poeta nômade já estabelecido em Manaus como funcionário do DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações, lançou seu primeiro livro: Da noite do rio, embrião daquele que viria a ser seu livro mais representativo, Trilha dágua, lançado em 1980. Quatro edições, sempre revistas e ampliadas, muitas antologias, e dois livros independentes depois – In natura, poemas para a juventude (1999) e Cantos ribeirinhos (2002), ambos com poemas de Trilha dágua e inéditos –, Alcides começou a organizar o seu livro definitivo, sua poesia completa, intitulado A Amazônia de Alcides Werk, que ele não chegou a revisar. O poeta faleceu pouco mais de um mês antes de completar 69 anos, em 13 de novembro de 2003.
Trilha dágua[2] e, por extensão, a poesia de Alcides Werk, é um livro onde a vida pulsa a cada poema, porque a “obra de arte é uma coisa viva”, já nos ensinou o poeta. Da sua vivência no interior do Amazonas, Alcides foi buscar a matéria prima para a sua poesia. Assim é que o livro, dividido em quatro partes mais um glossário, abre com o poema “Opção”, uma espécie de poética de Alcides, onde a relação “o homem e a terra”, título dessa primeira parte, é explorada num processo de sobreposição de imagens, que se vão toldando, até o arremate:
– Eu canto para o homem.
(p. 27-28)
Ao conceito de terra cansada, contrapõe-se a imagem do homem cansado, marginalizado. Ali estava feita a opção, que se desdobra em muitos outros poemas, como “Do homem”, onde o poeta define a abrangência, a intensidade e a profundidade de seu canto, revelando:
E toda lembrança
que trago comigo
é o Homem nascendo
é o Homem cantando
é o Homem caindo
é o Homem se erguendo
é o Homem domando
é o Homem tecendo
o imenso milagre
da aurora que vem.
(p. 30)
O ritmo amazônico vem embalado em versos curtos, de 5 sílabas, mesmo quando dissimulado em versos livres:
O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
(p. 38)
São registros de vida que se sucedem, como se captados por uma câmera:
As águas do lago
no início da noite
são como um espelho
que o casco estilhaça
com a força do remo.
(p. 50)



[1] Alcides Werk, “Traços autobiográficos”, na antologia Marupiara. Manaus: Edições Governo do Estado, 1988. 
[2] WERK, Alcides. Trilha dágua. 5ª ed. Manaus: Valer/Governo do Amazonas, 2000.

Paulino de Brito e Francisco Vasconcelos, no Sábado na Academia



A genética igualando pessoas com cores diferentes de pele



João Bosco Botelho

O século 20 está profundamente marcado pela aproximação entre a Medicina e o Direito, ambos procurando por meio da ciência e da tecnologia, controlar a dor, empurrar os limites da vida e evitar as injustiças.
 Ao aceitarmos a pós-modernidade, como sugere Jean‑François Lyotard, moldada no desencanto aos metarrelatos universalistas, será inevitável o repensar o enquadramento metafísi­co de palavras‑sentimentos: “razão”, “sujeito”, “totalida­de”, “verdade” e “progresso”.  Por essa razão, se torna cada vez mais difícil existir lugares para os super-heróis com as superpropostas.
Se as sociedades continuarem seguindo o mesmo curso na ciência e na tecnologia, as relações de conhecimento, incluindo, especialmente, as éticas, ficarão entre o antagonismo entre dois outros mundos: o desenvolvido e os em desenvolvimento, separados pela produção tecnológica oriunda do trabalho sistemati­zado nos laboratórios de pesquisa.
 Se abordarmos a pós-modernidade da Medicina sob esse enfoque técnico‑científico, veremos com transparência que o pilar sustentador está fincado na aquisição de um saber que está substituindo os anteriores, a engenharia genética, vendido ou negado pelos países em desenvolvimento, de acordo com as conveniências político‑econômicas.
 Nesse complexo conjunto, a Medicina dos países desenvolvidos se afastou da classificação morfológica das doenças e está utilizando a engenharia genética na busca de soluções para os problemas de saúde, entre outras, câncer, doenças degenerativas e o envelhecimento.
 A Medicina dos subdesenvolvimentos ainda continua empenha­da no estudo da morfologia celular, sempre alte­rada pela desnutrição crônica e pelas doenças infecciosas que matam precocemente milhões de crianças por ano.
  A Medicina é na atualidade o trem caminhando veloz­mente em direção dos laboratórios de estudo do genoma humano, com a saúde e a doença sendo conduzidas à intimidade da estrutura molecular dos genes.
 As notícias sobre a engenharia genética são cada vez mais frequentes fazendo com que entre nas casas como o anúncio de qualquer outro produto de consumo. A mídia mostra com grande destaque uma grande colheita de grãos ou a cura de certa doença, antes não imaginadas, tudo graças às pesquisas reveladoras dos segredos dos genes.
 Hoje, mais do que nunca, é imperativo o repensar dos pressupostos teóricos da Medicina nesse novo contexto, mais especificamente depois da publicação dos trabalhos do pesquisador Susumu Tonegawa, Nobel de Medicina de 1987, esclarecendo muitas dúvidas de como se efetiva a defesa interna do corpo frente às bactérias. Ficou demonstrado que segmentos do material genético, componente a defesa inata, podem gerar novas sequências, capazes de iniciar a luta contra muitas doenças.
 Desse modo, é possível afirmar que parte da estrutura genética humana é plástica, capaz de desenvolver muitas combinações gênicas adaptativas às necessidades da vida. A partir desse pressuposto, ficou fácil demonstrar o que já faz parte do conhecimento historicamente acumulado: as pessoas subnutridas ja­mais terão defesa imunológica suficiente para enfrentar muitas doenças.

  A partir dessa abordagem pós‑moderna na Medicina caíram todos os pressupostos étnicos racistas, diferenciando grupos sociais mais inteligentes e mais fortes do que outros. Desse modo, a espécie humana é espetacularmente semelhante, independente da cor da pele e olhos, se alimentada com a quantidade necessária de proteínas. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

Eduardo Galeano (03/09/1940 – 13/04/2015)


O maior desejo



Pedro Lucas Lindoso

Meu amigo Chaguinhas, como bom manauara, gosta de três coisas nessa vida: mulher, boi e futebol.
Casado com dona Chiquinha há mais de cinquenta anos, está com os filhos criados e netos saudáveis. Às vezes, agora muito raramente, Chaguinhas arruma umas namoradas. Dona Chiquinha não sabe, nunca soube e nunca saberá. Põe a mão no fogo pelo marido. E nunca, jamais se queimou.
Chaguinhas anda meio macambúzio com duas de suas paixões. O Caprichoso, que perdeu o festival e anda envolto em brigas de diretoria. E o Vasco, rebaixado da primeira divisão do campeonato brasileiro.
Mas a grande paixão do Chaguinhas é o Atlético Rio Negro Clube. Barriga preta convicto, Chaguinhas começou a namorar dona Francisca num dos famosos bailes do Rio Negro. “Ela estava linda, toda de branco. Eu usava smoking. Bons tempos”, me disse, todo nostálgico.
Chaguinhas não aguenta mais a chateação dos seus amigos flamenguistas. Ainda mais agora que o Flamengo foi tricampeão da Copa do Brasil. A maioria desses flamenguistas daqui de Manaus foram ou são torcedores do Nacional. O  principal rival do Rio Negro no futebol é o Nacional.
Rio Negro e Nacional é o maior clássico do futebol amazonense. E umas das maiores rivalidades do norte brasileiro.
Uma das grandes alegrias do Chaguinhas foi a derrubada do prédio modernoso que enfeiava a Praça da Saudade, em frente ao clube. Chaguinhas e Francisquinha namoraram muito na Praça da Saudade. “Havia uns caramanchões. A praça sempre foi bonita. Fiquei contente com a restauração”, me disse ele, com os olhos cheios d’água.
Chaguinhas morava em Aparecida e Chiquinha num casarão da Ferreira Pena. Hoje o casal mora num grande condomínio no Parque das Laranjeiras. Casa com piscina. Chaguinhas ainda dá suas braçadas. Foi campeão de natação pelo Rio Negro e nadou muitas vezes no Parque Aquático do clube.
O Rio Negro sempre foi um grande clube. A eterna Miss Amazonas e Miss Brasil Terezinha Morango representou o Rio Negro, Manaus  o Amazonas e o Brasil.
Chaguinhas sabe tudo do clube. Disse-me que o Rio Negro possui 18 títulos do Campeonato Amazonense. Não se esqueça, meu amigo, o galo da Praça da Saudade foi tetracampeão entre 1987 e 1990.
É um dos três clubes do futebol local que já participou da principal divisão do Campeonato Brasileiro, em seis edições. Participou ainda por seis vezes da Copa do Brasil.

Sabe qual é o meu maior desejo? Ver o Rio Negro de volta na primeira divisão do brasileirão. Série A. Não posso morrer sem essa alegria. Salve o Chaguinhas! E o Rio Negro!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Linguagem em foco: Consultoria em Língua Portuguesa








O que é?
Consultoria em Língua Portuguesa. Oferecemos aulas particulares de reforço a vestibulandos, alunos do ensino fundamental (6º ao 9º ano), ensino médio, graduandos interessados em aprender o conteúdo de Língua Portuguesa, a saber: gramática; análise e produção textual e literatura brasileira. Atendemos também a empresas que tenham interesse em oficinas de textos e novo acordo ortográfico. Além disso, fazemos revisão de trabalhos científicos.

Como funciona?
O interessado entra em contato conosco e a partir do seu interesse/necessidade na área de Língua Portuguesa é direcionado a um professor específico desse conteúdo.

Quem somos?
Ana Noelia Nates
(https://www.facebook.com/analya.dias?fref=ts): Licenciada em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Possui experiência com o ensino de literatura brasileira, produção e análise textual.

Letícia Pinto Cardoso
(https://www.facebook.com/leticiapintocardoso): Licenciada em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Possui experiência com revisão e o ensino de gramática, análise e produção textual.


Priscila Amato de Verçosa (https://www.facebook.com/priscilavercosa?fref=ts): Licenciada em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Possui experiência com revisão e o ensino de gramática, análise e produção textual.


domingo, 12 de abril de 2015

Manaus, amor e memória CCVII


O hoje Palacete Provincial visto pelos fundos.


sábado, 11 de abril de 2015

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 3/5



Zemaria Pinto


III

Para classificar de maneira clara e objetiva o trabalho de Sergio Cardoso, utilizei, parágrafos atrás, a expressão “arte multifacetada”, que, acredito, substitui com vantagens o surrado clichê do multi-instrumentista, mesmo porque Sergio Cardoso não se vale de múltiplos instrumentos, mas apenas de dois conjuntos deles: os seus olhos e as suas mãos. Os sentidos se amalgamam e se amoldam, deixando que os olhos toquem e as mãos vejam e a criação seja algo para além dos sentidos convencionados pela obviedade cotidiana.
Pintura, fotografia, cinema, teatro – a arte de Sergio Cardoso traduz-se no embate dialético entre imagem e movimento, que tem como resultante sinérgico uma obra de arte de alta expressão.
Amazonense de Manaus, Sergio Cardoso, a par da formação artística, não descuidou de sólida formação profissional. Advogado, é procurador efetivo da Procuradoria Geral do Estado. Administrador cultural, tem várias especializações na área, em programas de formação nacionais e internacionais, consolidadas pela experiência prática em vários cargos públicos, entre os quais o de Superintendente da Televisão Educativa do Amazonas, o de titular da Superintendência Cultural do Estado, diretor do Centro Cultural Cláudio Santoro, de saudosa memória, e do Centro Cultural Palácio Rio Negro. Atualmente, é diretor do Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.
Como artista de múltiplas faces, sua maior característica é a inquietude, exatamente aquela inquietude que Péricles Moraes via em Violeta Branca: a inquietação da busca, da procura constante e, sobretudo, do questionamento permanente. Não satisfeito com a pintura, Sérgio enveredou pela fotoplastia, um conceito ainda não encontrável nos manuais de arte acadêmica. Seus experimentos já foram mostrados em várias exposições e até há poucos dias estavam à vista em Harborligths. Espere a próxima quem perdeu. Harborlights trazia uma série de fotografias, com interferências plásticas e textuais, do lado podre do porto de Manaus, o trecho da antiga Manaus Moderna, tomada por mendigos, bêbados e drogados de todos os matizes. Um delírio magrittiano:
cidade
podre paisagem truculenta transcendente pobreza instalada onde um dia a miséria da cidade flutuante foi transposta aos limites suburbanos da cidade mutante onde um dia a mata foi violada e seu vestido verde incinerado e os meninos curupiras transgrediram a dimensão do sonho e cavalgando alados cavalos da memória foram habitar o palácio esculpido  no rochedo onde um dia um magritte flutuou balões de gente as luas no museu de tudo figurado em melancia a cona escancarada em riso de deboche ó noite ó grafites a fenda no muro o rio aberto em mar os barcos ancorados no horizonte as coxas da cidade ávidas expostas ao membro dissoluto fotografias da cidade desfeita em urina e fezes não não haverá dia não haverá o delírio das cores aquecidas pelo degelo dos andes pelo desejo das ondas onde dantes havia apenas a água transparente do rio negro onde um dia profetas alienados esculpiram versículos definitivos e definidores destinados a eternizar a guerra sob a falsa paz que transcende a cidade anabolizada a pobreza da paisagem podre da cidade[1]

A fotografia e o cinema fizeram o século XX acreditar, durante muito tempo, que a pintura e a escultura e todos os seus derivados haviam se esgotado – a arte morreu! Mas a arte não morre, ela se retempera, se renova e se reinventa. Como em Oh City – Stages, a penúltima exposição de Sérgio Cardoso, onde fotografia, cinema e pintura conviveram pacificamente, desnudando a violência da cidade:
Oh City – Stages foi uma exposição em movimento, cinética, ou como escreveria Glauber, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade, reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.
Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco era o foco. Em Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros.
Duas câmeras fixas registraram a sandice do trânsito de automóveis na Barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registrava o vai e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda, lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do eterno retorno: não precisamos de luz.[2]

Ao marasmo da arte decorativa, o artista inquieto se doa por inteiro e transfunde seu sangue para injetar vida em sua arte porque “uma obra de arte é uma coisa viva; qualquer obra de arte será viva ou não será arte”[3]. Esta frase magistral do poeta Ferreira Gullar justifica porque não nos limitamos a fazer aqui um inventário das exposições de Sergio Cardoso. São tantas dezenas delas, seria cansativo. Prefiro instigá-los a olhar com olhos de pensar, e dizer que, na próxima oportunidade, não se furtem a descobrir a vida que pulsa na arte em movimento de Sérgio Cardoso.
Movimento que se observa sobretudo no teatro, para o qual Sérgio tem sido, ao lado de Márcio Souza, o mais fértil autor amazonense, chegando mesmo a criar um universo próprio – uma cidade, Lazone, à margem do rio das Sombras, com um teatro imponente, galerias subterrâneas, uma cidade flutuante e personagens que transitam de uma peça a outra, num grande painel suprarreal.
Lazone está para Sérgio Cardoso como o condado de Yoknapatawpha está para o norte-americano William Faulkner. Poucos de vocês sabem disso, porque o autor não se deu ao trabalho de divulgá-lo, mas, no ano passado, Sergio Cardoso reuniu dez de suas peças em um livro com mais de 350 páginas, intitulado O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, onde ele
trabalha sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam, em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações criadas, de um humor amargo, aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo alemão.
As mulheres de Lazone reinventam a história da cidade de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas radioativas, mendigos, loucos, socialites, prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas – muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças, dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.
Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy, Mercedita e todas as outras são mais que meras criações da mente inquieta de Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram, com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.[4]
                
               Imagem e movimento, opostos sintetizados na imagem em movimento do cinema ou do teatro, são conceitos realizados plenamente na arte plural de Sergio Cardoso, arte que valoriza, eleva e dignifica o fazer artístico no Amazonas.


[1] Zemaria Pinto. Texto incluído no folder da exposição Harborlights, que ficou de 27 de março a 23 de abril, no Espaço de Thiago de Mello, da Livraria Saraiva, em Manaus.
[2] Zemaria Pinto. Adaptado de O caos em construção – um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages. In: Revista Valer Cultural. Ano 1, nº 8, dez/jan 2014. Páginas 72-75.
[3] GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. 8ª ed., 1ª reimpressão. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 132.
[4] Zemaria Pinto. Adaptado da apresentação de O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus: Valer, 2013. Páginas 19-20.


Sant'Anna Nery no Sábado na Academia



Maravilhas e tragédias na medicina do século 20



João Bosco Botelho


O século 20 foi marcado por transformações tão profundas e complexas nas práticas da Medicina que se torna difícil compreender como, em pouco mais de cinquenta anos, a longevidade humana, em certos países, aumentou mais de vinte anos.

O maior destaque que dominou, completamente, a segunda metade do século vinte foi a genética. A partir da descoberta da cadeia espiralada do ADN, em 1953, por Watson e Crick, que alcançou direta e indiretamente o estudo do genoma humano, inseminação artificial, antibióticos, métodos anticoncepcionais, métodos terapêuticos experimentais, virologia, imunologia, cancerologia, radioterapia, quimioterapia, vacinas, que forçaram outras mudanças e novas leituras dos códigos de ética médica.

Ao mesmo tempo, é impossível pensar o século 20 sem relembrar os horrores das duas guerras mundiais, as propostas da eugenia e os campos de concentrações dos nazistas.

Em pouco menos de cinco anos, em alguns países, as raízes históricas da ética médica foram destruídas junto às experimentações em seres humanos, a mortalidade proporcionada pelas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, o aumento da quantidade de pessoas em condições de miséria absoluta, e o vertiginoso crescimento industrial, gerando milhões de trabalhadores operando em condições insalubres.

Os vencedores da II Guerra Mundial impactados sob esses horrores praticados pelos vencidos, alemães e japoneses, alguns com a participação de médicos, em novembro de 1946, em Nuremberg, instalaram o Tribunal Militar Internacional, onde a maior parte dos oficiais alemães capturados foi condenada à morte.

 A escolha da cidade de Nuremberg não foi um ato isolado, estava mesclado de grande valor simbólico, já que naquela importante cidade alemã, ocorreram festividades apoteóticas ao nazismo. Nesse contexto nasceu o Código de Nuremberg com a humanidade retomando o caminho da valorização da dignidade humana e da reflexão ética sobre a vida.

Por outro lado, infelizmente, o Código de Nuremberg, único no gênero na história da humanidade, com enorme simbolismo na ética médica, inicialmente, não teve valor de lei. Entre as diretrizes, se destacam:
– O consentimento voluntário do ser humano é absolutamente essencial;
– O experimento deve trazer resultados benéficos à sociedade;
– O experimento deve ser baseado em resultados de experimental animal;
– O experimento não deve causar nenhum tipo de sofrimento ao sujeito da pesquisa;
– Nenhum experimento deve ser mantido se houver suspeição de poder determinar qualquer tipo de invalidez ou a morte no sujeito da pesquisa;
– Devem ser tomados cuidados especiais para proteger o sujeito da pesquisa de qualquer possibilidade, mesmo remota, de dano, invalidez e morte;
– O experimento deverá ser conduzido por pessoas cientificamente qualificadas;
– Durante o curso do experimento, o sujeito da pesquisa deve ter a plena liberdade de se retirar, caso ele sinta que há possibilidade de algum dano;
– Durante o curso do experimento, o pesquisador deve estar preparado para suspender os procedimentos, se ele perceber que a continuidade do experimento poderá causar dano, invalidez ou morte do sujeito da pesquisa.


Antes de ter força de lei, o Código de Nuremberg não impediu que um médico norte-americano dirigisse atrocidades em seres humanos desprotegidos, injetando o treponema da sífilis em negros no Mississipi, para “ver como a sífilis avançava até a morte do doente”, mesmo depois de a penicilina estar em uso.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

Lady Day, 100 anos


Billie Holliday (7/4/1915  17/7/1959), por Vianno Rheim.