Amigos do Fingidor

terça-feira, 28 de junho de 2016

Tempo em que se contratavam os bois



Pedro Lucas Lindoso

O Festival de Parintins tornou-se um espetáculo de proporções grandiosas. Como o carnaval do Rio de Janeiro, o São João do Nordeste e o Natal da Serra Gaúcha, atrai turistas e promove a cultura gerando emprego e renda, além de movimentar a economia local. Mas em tempos de crise, as verbas estão vasqueiras, como diria meu velho pai.
Dizem que as autoridades responsáveis pelo corte de verbas não vão ao festival. Seria medo do Pai Francisco? Quem corta a língua de boi para satisfazer o desejo da mulher grávida, é capaz de qualquer coisa.
Quando eu era menino e morava na Rua Henrique Martins, sempre meu pai ou algum vizinho contratava um boi para dançar na rua, nas festas de São João. Havia o Mina de Ouro, do Boulevard, o Caprichoso da Praça 14, o Garantido da Cachoeirinha, o Tira Prosa do Imboca, e ainda o Pai do Campo, Teimoso e muitos outros.
A lenda retrata a história de Pai Francisco, um escravo que, para saciar o desejo de Catirina, sua esposa grávida, por uma língua de boi, acaba por matar o animal de estimação do senhor da fazenda. Percebendo a morte do boi, o coronel convoca pajés, índios e caboclos para ressuscitar o animal. O boi ressuscita e a alegria é geral com festas e tudo mais.
Naquele tempo o Poder Público não se metia nem dava verbas. E tudo era muito simples. Cada bairro ou comunidade administrava seu boi, dentro das tradições com origem no folclore do Maranhão. E parte dos custos vinha da contribuição das famílias que contratavam os bois para brincar em suas ruas, em frente às casas ou no quintal.
Obviamente não havia o glamour, a grande ópera popular folclórica que temos hoje e que impulsiona a economia principalmente da cidade de Parintins, a Ilha Tupinambarana.
Li na imprensa que as autoridades responsáveis pelo orçamento estão sendo pressionadas diuturnamente por verbas para os bois. E provavelmente sentem saudades de uma época em que as famílias contratavam e pagavam pelo espetáculo dos bumbás. Ninguém lucrava com os bois. Era um movimento folclórico genuíno.
Muitos devem estar pensando:
– Tempo bom aquele em que se contratavam os bois.


domingo, 26 de junho de 2016

sábado, 25 de junho de 2016

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Portugal para principiantes 5


Mercado Municipal de Santarém.

Um entre dezenas de belos azulejos que ornam o Mercado de Santarém.

Muralha de Santarém no Jardim Portas do Sol.

O rio Tejo, sereno como um ancião, visto das Portas do Sol, na milenar e mítica Santarém. 

Ecoando a Ordem dos Templários, o Castelo de Tomar foi construído no século XII.

Vista exterior do Castelo de Tomar.

O Convento de Cristo, numa das alas do Castelo de Tomar, onde os cavaleiros templários penitenciavam-se de seus pecados.

Detalhes interiores do Convento de Cristo.

Detalhes do Convento de Cristo, em Tomar.

Um dos corredores do Claustro do Convento de Cristo.

Janela do Capítulo, no Convento de Cristo.
Em Portugal, diz-se estilo Manuelino, numa referência a D. Manuel I, ao que o resto do mundo chama Gótico. 

Rua característica da pequena Tomar, sem a azáfama dos turistas.

Fotos e texto: Zemaria Pinto.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Qorpo Santo de volta, com a Companhia Vitória Régia


Mais duas oportunidades: sexta e sábado, sempre às 19h30min.

Sabedoria médica nos textos vedas



João Bosco Botelho

Durante os dois últimos milênios a.C., as práticas médicas das primeiras cidades mantiveram indissociáveis laços com as ideias e crenças religiosas dominantes, a tal ponto de ser impossível distinguir onde começava uma e terminava a outra.
Na Índia antiga está claro esse processo sociopolítico complexo unindo medicina e as crenças e ideias religiosas. De certo modo, nos dias atuais, permanece vivo em alguns segmentos sociais: os significados dos binômios saúde-doença e vida-morte mantêm marcas profundas da influência dos conceitos védicos contidos no Yajurveda. Por exemplo, o termo yaksma, usado nos textos védicos, com o sentido de debilidade, continua sendo utilizado na atualidade no sentido de caracterizar as doenças crônicas, como a tuberculose, que exaurem cronicamente o organismo.
De acordo com os conceitos védicos, a Medicina teve origem divina. As práticas médicas, com o objetivo de empurrar os limites da morte, teriam sido reveladas por Brahma a Prajapati, o senhor de todas as criaturas, que transmitiu aos Ashvin, os médicos gêmeos; esses, à Indra, o rei dos deuses; e este último, a Divodasa, rei de Kâshi (atual Benares). Finalmente, o rei de Benares as ensinou aos homens mortais, revelando os segredos da medicina aos médicos. Entre eles, estava o lendário médico indiano Sushruta.
É possível que esses personagens míticos tenham existido e contribuído à transmissão dos conhecimentos médicos historicamente acumulados. Um dos exemplos é o personagem Atreya, que é cantado em várias lendas ao longo de milhares de anos.
O médico Sushruta, o último da cadeia da origem mítica da medicina da Índia antiga, escreveu o Sushrutasamhita ou Manual Médico de Sushruta. Esse tratado de Medicina, com novecentas páginas, nas edições modernas, é conhecido como Corpus Sushruta.
O magnífico Sushruta-samhita aborda os diagnósticos e os tratamentos de muitas doenças e descreve minuciosamente as plantas medicinais com as respectivas modalidades de preparo. Está dividido em seis livros que tratam de: clínica; cirurgia; higiene pessoal e coletiva; banhos e massagens; dieta e exercícios; gravidez.
O segundo mais importante livro médico da Índia antiga é atribuído a Charaka. De data posterior ao de Sushruta, se caracteriza pela pouca importância dada à cirurgia como forma de tratamento das doenças.
É provável a influência da medicina grega sobre alguns aspectos da Medicina na Índia antiga e vice-versa. Um dos exemplos da confluência dos conceitos que existiu entre as duas Medicinas é a referência à temperatura dos lugares, às estações do ano, aos períodos das chuvas e ao vento nas obras de Sushruta, Charaka e nas publicações da Escola de Cós.
As semelhanças dos conceitos são grandes para serem somente meras coincidências. No livro “Dos Ventos, Águas e Ares”, atribuído a vários autores, escrito em torno do século 4 a.C., na Grécia, na Escola de Cós, existem passagens muito semelhantes às dos livros indianos, em especial, os de Sushruta e Charaka. 
Em acréscimo às aproximações conceituais, o juramento dos iniciados na Medicina da Índia antiga também guarda notável similaridade ao sermão atribuído a Hipócrates. Os pontos doutrinários de ambos os juramentos são basicamente os mesmos: valorização aos professores que contribuíram na formação médica, dedicação às atividades de curar; origem divina da medicina; resistência frente às tentações da sexualidade; manutenção do segredo profissional; e obediência às normas sociais.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Dom da ubiquidade



Pedro Lucas Lindoso

Santo Antônio é um dos santos mais queridos do Brasil. Em 13 de junho é celebrado festivamente em Lisboa, onde nasceu.  Aqui no Amazonas, a cidade de Borba o tem como padroeiro e a festa é considerada uma das maiores do Brasil.
Minha avó materna, dona Brigitta Daou, era natural de Borba e devota de Santo Antônio.
– Se milagres tu procuras, pede-os logo a Santo Antônio, dizia ela.
O santo acalmava o raivoso mar enfrentado pelos portugueses em direção ao Brasil. Faz achar coisas perdidas e dá saúde aos doentes. Mas a grande fama de Santo Antônio tem sido como santo casamenteiro.
Quando Marinete*, conhecida senhora manauara, fez vinte e um anos, uma de suas primas, maldosamente, praguejou:
– Vinte e um é o primeiro tiro da macaca! Vai ficar solteirona.
Em passeio a Portugal, Marinete comprou em Lisboa uma linda imagem de Santo Antônio. No ano seguinte, ao dar o segundo tiro da macaca, resolveu ir à festa de Santo Antônio de Borba, aqui no Amazonas. Levou a imagem portuguesa.
Conversando com uma cabocla borbense, a qual, cobiçando sua imagem portuguesa, vaticinou:
– Essa imagem você comprou. Só serve se for roubada. E você tem que maltratar o santo. Põe ele de cabeça para baixo. Ele vai te arrumar um marido.
Marinete deu-lhe a imagem portuguesa de presente. Aproveitou para furtar o Santo Antônio da borbense, displicentemente esquecido na saleta de visitas.
E começou sua saga de maus tratos e xingamentos ao santo casamenteiro. Pendurava-o de cabeça para baixo. Chamava-o de careca feioso. Ameaçava afogar o santo numa bacia de água fria. Dizia que ia prendê-lo num garrafão até ficar sufocado na sua batina fedorenta. Chegou ao cúmulo da heresia ao chamar o santo de nojento.
Antes do terceiro tiro da macaca Marinete conheceu um jovem e talentoso advogado que a desposou, com todas as pompas e circunstâncias.
Esse ano foi agradecer ao santo Antônio de Borba. Ao confessar seus pecados e heresias feitas ao santo, ouviu do padre:
– Minha filha, santo Antônio não merece. É doutor da Igreja. Tinha o dom da ubiquidade. Podia estar em dois lugres ao mesmo tempo.
Marinete respondeu:
– Me desculpe padre, não sabia desse dom e nem o que é ubiquidade. O que eu queria mesmo era me casar.
*Nome fictício.


sábado, 18 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Portugal para principiantes 4


Construído no lugar de um mosteiro, o Castelo da Pena não poderia prescindir de uma capela.
O altar-mor, ao contrário do padrão, de iconografia individualizada,
mostra várias cenas da mitologia cristã. 

Móvel em madeira no interior do Castelo.

Detalhe do Salão Nobre.

Uma das muitas obras de arte que iluminam o Castelo da Pena,
com motivos da mitologia greco-romana.

Aqui, o mito parece evocar uma cena histórica: observem o barbudo, no alto,
à esquerda; não é a cara de D. Pedro I, quer dizer, Pedro IV?

A cozinha real, conservada tal como era (ou devia ser) à época de suas majestades.

Ainda em Sintra, o Castelo dos Mouros, visto do Parque da Pena.
Dois castelos num só dia era demais...

Cabo da Roca, a “ponta mais ocidental do continente”, 
ainda no Concelho (com c, mesmo) de Sintra. 
Camões escreveu que ali “a terra se acaba e o mar começa”. 
Tem-se a mesma sensação da Ponta do Seixas, em João Pessoa, 
a parte mais oriental do continente americano: absolutamente nada!

O Farol do Cabo da Roca.

Paisagem do Cabo da Roca.

A solar Cascais em dia de muita nuvem.

Cascais com frio.


Fotos e texto: Zemaria Pinto.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Curas nos livros sagrados da Índia


João Bosco Botelho

É provável que a medicina, na Índia antiga, estivesse sistematizada séculos antes da invasão pelos arianos vedas, em torno do ano 2.000 a.C. Os estudos arqueológicos na cidade Mohenjo-Daro, no noroeste da Índia, nas margens do rio Indo, mostram que os seguimentos aluvionais, com até 6.000 anos, oferecem-lhe a primazia de estar entre as cidades mais antigas do mundo. As escavações arqueológicas mostram ruas bem traçadas, rede de esgotos, canalização para água e banhos públicos. Esses achados reafirmam ideias precisas dos cuidados de saúde pública na profilaxia das doenças.
A primeira sistematização da medicina na Índia antiga está contida no Ayurveda, escritos originalmente em sânscrito e pleno de forte religiosidade. Esses textos podem ser entendidos como a compreensão do corpo ligado ao mundo circundante, donde Veda (conhecimento, saber) e Ayur ou Ayu (corpo vivente religado ao mundo pelos cinco sentidos). Dessa forma, também é aceitável compreender a palavra Ayurveda como o conhecimento da vida humana ou a ciência da vida humana.
O Ayurveda significa veda da longa vida e constitui a base teórica da medicina tradicional da Índia. O texto original é constituído de mil capítulos divididos em cem mil versículos ou Shlokas, por sua vez, subdivididos em Ashtânga, palavra até hoje entendida, na Índia, como sinônimo de Medicina.
Os oito capítulos do Ayurveda tratam de temas médicos específicos:
Shalya: cirurgia para retirada de corpo estanho, feto morto retido intra-uterino, drenagem de ferida com pus e a utilização de instrumental cirúrgico;
Shalakya: cirurgia dos olhos, nariz, orelhas e garganta;
Kayacikitsã: tratamentos clínicos com mais de oitocentos diferentes tipos de plantas medicinais;
Bhutavidya: ensinamentos de como se comunicar com os espíritos dos mortos, demônios e doentes possuídos pelos deuses causadores de doenças;
Kaumarabhritya: cuidados dos recém-nascidos e das mulheres grávidas;
Agadatantra: toxicologia, os venenos e os antídotos;
Rasayana ou Jarâ: plantas do rejuvenescimento e os afrodisíacos que contribuem para a manutenção da saúde;
Vajikarana ou Vrisha: descreve as propriedades dos afrodisíacos.
As práticas médicas indianas estavam diferenciadas em relação às do Egito e a assírio-mesopotâmica porque possuía estrutura teórica para explicar a saúde e a doença, que aconteciam, respectivamente, pelo equilíbrio ou desequilíbrio dos cinco elementos fundamentais: dhatu: éter ou vazio; vayu: vento; agni: fogo; jata: água; bhumi: a terra.
A alimentação inadequada seria o determinante mais significativo da desarmonia entre os cinco elementos que regiam a vida. Como consequência, a dieta e a higiene desempenhavam papel crucial no tratamento contido no Ayurveda.
Ainda hoje, essas terapêuticas distinguem os remédios que fortalecem o corpo dos que curam. Os primeiros eram os afrodisíacos e os segundos eram os vegetais com propriedades medicinais, que deveriam ser tomados segundo as normas rituais contidas nos Vedas.
É importante ressaltar que o Ayurveda entende três tipos de doenças: curáveis (sadhya), melhoráveis (yapya) e incuráveis (pratyakhyeya), consequências de culpas das vidas anteriores (karmaja) e para curá-las é indispensável fazer a penitência (prayashcitta).
Esse livro magistral descreve mais de setentas espécies de vegetais, alguns utilizados nos dias atuais pelo curador andarilho – shivaista – que, cantando hinos védicos, os administra aos doentes.
Não há dúvida: os ensinamentos do Ayurveda ainda são extraordinárias fontes de saberes.  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

terça-feira, 14 de junho de 2016

Ninguém entendeu o sermão


Pedro Lucas Lindoso

Quem se chama Pedro não escapa de ser chamado Peter pelos professores de inglês. Nem de Pierre se resolver também estudar francês. Conheci um caboclo chamado Guilherme que ficou altamente feliz quando descobriu que seu nome equivalia a William em Inglês. Nome de rei!
Seu Guigui, como é conhecido, tem muito dinheiro e pouca instrução. Mas é boa praça. Viaja muito e, claro, vive passando vexame mundo afora. Mas conta seus contratempos para todos e ri de si mesmo.
Sonhava em conhecer Florença, na Itália. Somente quando a excursão retornou a Roma é que seu Guigui descobriu que Firenze era Florença. Disse que tinha que voltar lá porque na cabeça dele não tinha conhecido Florença e sim Firenze. Desde então quando se refere a uma cidade do exterior coloca a tradução em parêntesis.
Estava no avião em voo que saiu de New York (Nova Iorque) com destino a London (Londres). Ao amanhecer a comissária lhe ofereceu aquela toalhinha branca, enroladinha e levemente aquecida. Guigui achava que era tapioquinha e pôs na boca. E conta o fora para todo mundo. Sem constrangimentos.
Da mesma forma que relata o dia que quase brigou com a esposa em Paris. Ela queria ir ao Champs Elisée e Guigui aos Campos Elísios. Quando descobriram que era o mesmo lugar, quase se acabaram de tanto rir.
Na última vez que esteve na Europa pegou uma excursão de ônibus saindo de Lisboa até Paris. A guia, uma senhorinha portuguesa se referia à rainha Elizabeth II, como Isabel II da Inglaterra. Guigui falou à esposa:
– Essa portuguesa quer me confundir, disse ele.
E confundiu. Guigui sabia que iria passar por Bordeaux, no sul da França. Ouviu falar dos vinhos e da cidade.  A portuguesa só chamava a cidade de Bordéus. Quase acontece o mesmo que aconteceu em Florença.
Ao ouvir as estórias do Guigui, lembrei-me de Frei Donald, pároco americano da Igreja de Santo Antônio, em Brasília. Ele aprendeu que os brasileiros chamavam Martin Luther, o protestante tradutor da bíblia para o Alemão, de Martinho Lutero. Só não avisaram que o Martin Luther King, o negro americano expoente dos direitos civis, que foi assassinado, não era Martinho Lutero King.
Ninguém entendeu o sermão naquele domingo.

sábado, 11 de junho de 2016

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Portugal para principiantes 3




Jardim em frente ao Mosteiro dos Jerônimos, em Belém, na Grande Lisboa.
Da praia em frente, chamada a praia do Restelo, partiram as naves de Vasco da Gama e de Cabral.
Quem leu Os Lusíadas deve lembrar-se do Velho do Restelo.  

Claustro, no interior do Mosteiro.
Como se observa, o claustro não era assim tão claustrofóbico.

O modernoso túmulo de Fernando Pessoa, no Mosteiro.
O poeta descansa em pé?

Deitadinho, como manda o figurino clássico, o poeta Luís Vaz de Camões.

Detalhe do Portal Principal do Mosteiro dos Jerônimos.

O colorido e multiestiloso Castelo da Pena, mandado construir 
no topo da serra de Sintra, na primeira metade do século XIX.
A vila de Sintra, na Grande Lisboa, é paisagem recorrente na obra de Eça de Queirós.

Entrada do Castelo da Pena, em estilo mourisco, lembrando o invasor árabe.

Detalhe do Castelo da Pena, em estilo medieval.

Uma das entradas para o Castelo, que foi residência dos reis de Portugal.

Detalhe mostrando a variedade de estilos do Castelo da Pena.

Detalhe do Castelo da Pena, cujo interior ainda conserva o 
fausto dos tempos imperiais.

Ainda no Castelo da Pena, o Pórtico do Tritão, em estilo gótico.


Fotos e texto: Zemaria Pinto.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Influência da astrologia na medicina



João Bosco Botelho

Na Mesopotâmia dos anos 1700 a.C., existiu forte presença de práticas de adivinhação, descritas nas tábuas de argila, com escrita cuneiforme, o que acontece em várias passagens do Antigo Testamento. De modo geral, os adivinhos atuavam em duas vertentes: a astrologia e a hepatoscopia (aspecto do fígado) dos carneiros sacrificados.
A astrologia mesopotâmica pretendeu estabelecer a relação entre os movimentos dos astros e as doenças. A aceitação coletiva gerou formidável exército de especialistas, capazes de interpretar os movimentos dos astros como sinais de diagnóstico e prognóstico.          
É possível que a hepatoscopia estivesse atada às primitivas relações pré-históricas com o sangue. O fígado, como o mais sanguíneo dos órgãos, era identificado como o centro da vida. Assim, quem pudesse interpretar as mensagens contidas no fígado dos animais sacrificados, estaria mais próximo de saber onde, quando e como as doenças acometeriam as pessoas.
Parece que o mais antigo deus protetor da Medicina, na Mesopotâmia, foi representado pela Lua, com o nome de Sin. Essa divindade noturna governava o crescimento das ervas medicinais, por esse motivo, não poderiam ser expostas aos raios do sol.
Entre os mais poderosos deuses do panteão mesopotâmico, protetores dos adivinhos e dos médicos, capazes de provocar doença e garantir a saúde se destacam: Marduk, o grande deus curador; Ninib, filho de Enlil, deus protetor; Nabu, deus das ciências e da arte de curar; Ninchursag, deus ligado a oito divindades, cada uma com poder de curar uma doença específica; Ninurta, deus dos médicos; Gula, mulher de Ninurta; Ningischzida, filho de Ninurta, representado pelas duas serpentes enroladas no bastão; Sachan, a deusa-serpente; Ishtar, a deusa da graça, da fecundação e criadora da libido no homem e na mulher.
Além desses deuses e deusas, os demônios responsáveis pela dor e doenças: Nergal, da febre; Ashakku, do pulmão; Tiu, dor de cabeça; Namtaru, da boca, do nariz e das orelhas.
Os adivinhos, valorizados e bem pagos, se construíram junto ao convencimento coletivo da capacidade de empurrarem os limites da morte. Por outro lado, a medicina mesopotâmia se aderia à astrologia, onde a presença de deuses e demônios era entendida como fator importante à obtenção da cura.
Alguns deuses, influenciados pelo movimento dos astros, poderiam se postar a favor ou contra certa doença, dependendo do ato cometido pelo doente: Marduk e Gula são os principais exemplos.
A relação da medicina mesopotâmica com a adivinhação, tanto por meio da astrologia quanto pela hepatoscopia, está descrita nas tábuas de argila onde é possível identificar dois tipos de médicos: Ashipu, do diagnóstico quase sempre obtido com a ajuda dos deuses, e Asu, do tratamento com plantas medicinais usadas em determinadas confluências dos astros.
Mantendo-se as obrigatórias margens históricas, sem pretender comparar, professores e alunos da Universidade Federal do Amazonas, entre 1982 e 1984, no trabalho de extensão, que eu tive a honra de coordenar, no município do Coari, nas comunidades ao longo do rio Copeá, comprovou o quanto é forte a relação das pessoas com os astros e a crença coletiva de terem poder de causar doenças mortais. 
Em uma dessas pequenas comunidades, no alto Copeá, vimos os hansenianos com as imagens de São Lázaro atadas no pescoço e ouvimos a benzedeira explicar porque algumas plantas medicinais não curam: colhidas na má influência da lua ou do sol. E repetiu enfática: só cura quem conhece o céu!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

Feliz foi Adão...



Pedro Lucas Lindoso

Certo dia chuvoso do mês de abril encontro-me com meu amigo Dr. Chaguinhas, no corredor do fórum. Alguém comenta que 28 de abril é dia da sogra. Chaguinhas lamenta-se de sua sogra. Diz que faz ingerências terríveis em sua casa. Deseduca seus filhos. Não se dá bem com sua mãe. É um relacionamento complicado. Já de minha parte, nada a reclamar. Minha sogra é gentil. Jamais interferiu em nossa vida. Principalmente agora que moramos em cidades distintas.
Chaguinhas então se lembrou de um cliente, um próspero caminhoneiro, hoje dono de uma pequena transportadora.  O rapaz também tinha sérios problemas com a sogra. Procurou Dr. Chaguinhas para uma inusitada consulta e aconselhamento jurídico.
– Foi no início do ano passado, me disse Chaguinhas. O sujeito marcou hora com minha secretária. Era um assunto ligado ao direito de Família.
Pensei que o cliente queria se divorciar. Mas que nada. Ele queria uma ordem judicial para impedir que sua sogra, vamos chamá-la de dona Olga, a entrar em seu domicílio. Dizia-me que as visitas da mãe de sua esposa poderiam acarretar a dissolução de sua vida conjugal ou mesmo um possível crime.
É fato que algumas sogras se sentem no direito de visitar a casa da filha sem perceber que podem estar invadindo a privacidade de marido e mulher.
Chaguinhas aconselhou ao cliente que era preciso impor limites. Para tanto é necessário contar com a conivência, parceria e colaboração da esposa.
O cliente caminhoneiro argumentou que dona Olga aparece em sua casa sem aviso prévio. Opina em tudo na vida do casal. Como caminhoneiro, transporta mercadorias de Manaus a Boa Vista e vice-versa. Aproveita suas ausências em viagens de trabalho para manter com a filha uma conexão paralela de informações, com ingerências na administração de sua casa, excluindo-o de fatos importantes de seus filhos e de sua família.
Finalmente, Chaguinhas disse que não poderia ajudá-lo. Que procurasse um psicólogo. Ele e a esposa.
Quanto à proibição de sua sogra em visitas, Dr. Chaguinhas disse que aquilo era legalmente impossível. Ela é avó. Os avós tem todo o direito de visitar os netos.
Ao se despedir do cliente caminhoneiro, Chaguinhas notou o adesivo colado no automóvel: 
– Feliz foi Adão que não teve sogra nem caminhão.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Lábios que beijei 59


Zemaria Pinto
Thaís


Pela boca de Thaís saía música. Sons de flautas, cavaquinhos, violões e violinos: veludosa volúpia da vertigem. Quando sorria, Thaís solfejava beija-flores. Os olhos rasgados na pele acobreada eram faróis castanhos visíveis só na mais completa escuridão. Os seios de Thaís eram caminhos tortuosos, entrâncias e reentrâncias moldadas em minhas mãos. Eu não amei Thaís como se ama um tigre ou um cavalo. Amei sua boca fabulosa, de onde saíam pequenas borboletas azuis a cada pôr-do-sol e de onde peixinhos prateados saltitavam no lusco-fusco do meio-dia. Mas a boca de Thaís, em permanente armistício, não foi feita para a fala, o canto, o sexo: a boca de Thaís era apenas contemplação e delicadeza, pouso de quero-queros e tico-ticos, passagem de sanhaços e arirambas, repouso de uirapurus. Um beijo da boca de Thaís era uma experiência mística, com sabores e cheiros cosmogônicos, evanescendo-se em orgasmos e arco-íris sob o teto de folhas e estrelas nuas, em que o espaço-tempo se fundia em desesperos, mero pé de maravilhas: a língua de Thaís; os dentes de Thaís; os gemidos inaudíveis de Thaís. As marcas de Thaís em minha pele são cicatrizes da memória. A última vez que nos amamos um jorro de luz entrou-me pelos buracos da cara e eu desfaleci na deslembrança de sua boca. Nunca mais, nunca mais, nunca mais...

sábado, 4 de junho de 2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Portugal para principiantes 2


A Baixa Lisboa e parte da Alfama, com destaque para o Castelo de São Jorge  no alto, 
à direita, vistos do miradouro de São Pedro de Alcântara, no Bairro Alto.
 
Funicular, ascensor ou elevador da Glória  gloriosos 3 minutos de subida, da Baixa ao Alto. 
Ah, ele também desce.
Observe, no alto, à esquerda, a palavra de ordem da hora:
Em luta pelas 35 horas já e para todos!

Detalhe de um dos bondinhos da Glória.
Isso não é pichação; é arte de rua.

Entardecer na Praça Luís de Camões, no Chiado.
A noite desce o seu véu sobre o Poeta, ao centro, todo sujo de pombos...

Cena de um 25 de abril: o ultraconservador Fernando Pessoa
é flagrado com dois cravos à mão.
Em tempo, a escultura em bronze, na calçada da Casa Havaneza (???),
pertence à Brasileira do Chiado, boteco frequentado pelo poeta, ao lado. 

Ainda no Chiado, a Livraria Bertrand, fundada em 1732.

Torre de Belém, construída no século XVI, às margens do Tejo, em Belém, na Grande Lisboa. 
À esquerda, a fila para a compra de ingressos: uma hora e meia de espera...
Contente-se em vê-la de fora, de todos os ângulos possíveis. É belíssima.

Porque dentro não há absolutamente nada, além de uma banal loja de souvenires, 
que não parece aqui.

Mas se, depois de uma hora e meia esperando para comprar ingresso,
você entrar, vai ver de perto o que via de longe.

E se, depois de mais uma hora e meia de espera, você encarar cerca de uma centena de degraus para subir ao ponto mais alto da torre, 
tudo o que você vê é isto: a fila do pessoal esperando para subir.
De fora, é o monumento mais emblemático, a cara de Portugal...

Padrão dos Descobrimentos, em Belém, mandado erigir por Salazar (vômito).
Chomsky não vê diferença entre o Realismo Socialista stalinista e o
Neorrealismo dos governos nazifascistas, chamando-os, indistintamente, de Estética Totalitária.
Eis aí um excelente exemplo.

Detalhe da Estética Totalitária, cultivada em Portugal por 41 anos.
Observem a calçada, ideia roubada à praça do nosso santo Tião. Ó raça...

Fotos e texto: Zemaria Pinto