Amigos do Fingidor

segunda-feira, 28 de julho de 2014

domingo, 27 de julho de 2014

Manaus, amor e memória CLXX



Reclame ariano da Mercearia Americana.

sábado, 26 de julho de 2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Náufragos




Qual a utilidade de se lançar ao mar uma garrafa com um pedido de socorro, se não sabemos em que ilha viemos parar?


(Zemaria Pinto)

Linguagens decompondo a saúde e a doença




João Bosco Botelho

O conflito gerado na convivência desde tempos remotos no espaço sagrado, onde a doença seria engendrada pela divindade, e no espaço profano, com o predomínio do conhecimento empírico, determinou os rumos escolhidos das culturas sob a influência greco-romana.
A cultura grega antiga, notadamente a da época hipocrático‑platônica, se consolidou com marco divisor da necessidade de distinguir a opinião do conhecimento. Não bastava alguém supor algo de qualquer coisa, era imperativo acrescentar argumentos demonstrativos da linha condutora do evento. Também por essa razão, ficou mais bem delimitada a materialidade do espaço profano, onde iria florir, com maior vigor, os saberes para iniciar o moroso processo tentando desvendar o corpo do poder das divindades.
Com esse suporte, os médicos gregos, particularmente os de Cós e de Knido, começaram a usar a linguagem escrita para decompor a doença e retirá‑la da primazia divina. No livro A Doença Sagrada, escrito no século 4 a.C., atribuído a Hipócrates, esta questão está transparente: "Quanto à doença que chamamos sagrada, eis aqui o que ela é: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que o resto das doenças e por origem as mesmas causas de cada uma delas."
As linguagens entrelaçando os conhecimentos historicamente acumulados se ancoraram na teoria dos quatro elementos do médico Empédocles – terra, água, ar e fogo –, a justificativa das mudanças determinadas pela doença no corpo. Esse também filósofo, natural de Agrigento, na Grécia, pretendendo a renovação da imagem do mundo, fundamentou a sua teoria em concepções mais antigas, que sustentavam, desde a oralidade, a importância do fogo, da terra, do ar e da água, na sobrevivência do homem.
Pouco tempo depois, a teoria dos Quatro Humores, descrita por Políbio, o genro de Hipócrates, refletida nos elementos de Empédocles, concebia o ser humano formado de quatro humores: sanguíneo (ar), fleumático (água), bilioso amarelo (fogo) e bilioso preto (terra). A saúde seria o resultado da perfeita harmonia entre esses humores e a doença apareceria, quando um deles prevalecesse sobre os outros.
         Contrariamente, os jônicos admitiram outros elementos interferindo na saúde e na doença. O autor desconhecido de um dos mais célebres livros desse período "Da natureza do homem", se recusou a crer na regra da teoria dos quatro humores. Contudo, prevaleceu o defendido pelos hipocráticos.
Essa extraordinária construção teórica grega, onde as linguagens iniciaram e mantiveram o processo de conflito explícito entre a medicina e as ideias e crenças religiosas, retirando dos deuses e deusas o poder de decidir sobre a vida e a morte, por meio da teoria dos Quatro Humores, representa o marco da medicina firmada na busca incessante da materialidade da doença.
Um dos médicos mais importantes, do século 1, o romano Cláudio Galeno reconstruiu a teoria dos Quatro Humores por meio da teoria dos Quatro Temperamentos (sanguíneo, linfático, bilioso preto e bilioso amarelo), acrescentando forte componente social: as doenças estariam também ligadas às características comportamentais.

A partir da cristianização do império romano, começando com Constantino, no século 4, os processos teóricos gregos foram integrados à cultura médica romana. As muitas linguagens oriundas dos territórios conquistados pelas legiões romanas se encarregaram de levar os saberes da medicina greco-romana e atravessaram mil anos do medievo europeu. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna (16/06/1927 – 23/07/2014)


Suassuna, por Diogo D'Auriol.

A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.
(Ariano Suassuna)


O cavaleiro andante Suassuna, visto por Davi Sales.

Fantasy Art - Galeria


Lauren K. Cannon.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Lábios que beijei 25



Elza

Prima distante de minha primeira mulher, Elza estava de passagem pela cidade. No jantar, regado a vinho, seus pés procuraram os meus por baixo da mesa. Eram pequeninos, como ela toda era pequenina, mas túmida onde tinha de ser: peitos, coxas, bunda. Pela madrugada, todos dormindo um tanto bêbados, aproximei-me do sofá onde improvisamos uma cama e deslizei a mão por seu corpo. 

(Para continuar a leitura, acesse o blog Poesia na Alcova.)

domingo, 20 de julho de 2014

Manaus, amor e memória CLXIX


Manaus em 1865, segundo Agassiz, diz a legenda.
A verdade é que a expedição Agassiz contava com um desenhista profissional, Jacques Burkhardt,
responsável por ilustrar os textos do casal Louis e Elizabeth. 

sábado, 19 de julho de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro (23/01/1941 – 18/07/2014)


João Ubaldo Ribeiro, por Novaes.

João Ubaldo Ribeiro, por Mário Alberto.
“Não sou muito otimista quanto à humanidade. Somos uma especiezinha muito criticável.”  

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Delicadeza




Se queres delicadeza, volta ao útero de tua mãe.

(Zemaria Pinto)

Linguagens, dor histórica e doenças



João Bosco Botelho
         
É possível compreender a fantástica relação entre as linguagens e o nascer da consciência em si mesmo, diferenciando o cérebro da mente entrelaçando a natureza, o social e a História. Esse conjunto complexo colocou o homem e a mulher numa condição singular e difícil: sobreviver com menos dor e mais prazer – consciência em si – mantendo a diversidade das linguagens.
Após a certeza de poderem desfrutar de vida cada vez mais confortável, homens e mulheres expressam continuamente, a inconformidade com a dor, o desconforto. Sendo mais inteligentes, após a morte não poderiam ter a mesmo destino dos outros animais. Tornou-se imperativo também estruturar o conforto após a morte. Mas, não para todos! Somente para os aliados e os concordantes com a ordem teriam um repouso perfeito depois da vida.
Desde o passado distante, as mudanças operadas no corpo, causando a angústia da deformidade dolorosa, eram as primeiras evitadas. A barriga eviscerada no acidente de caça ou nas disputas pela liderança ligavam a dor e a morte ao mundo temido. Por outro lado, o prazer, capaz de descontrair o músculo enrijecido, trazia sempre a lembrança do evento agradável. A estrutura cerebral se adaptou, continuamente, a essa ordem sócio-genética: polaridade entre prazer e dor, como o caminho mantenedor da vida.
O castigo, necessariamente carregado de sofrimento, imposto pelo homem ou pela divindade, nos espaços sagrado e profano, está ligado à obediência a qualquer preço. O medo, advindo da ameaça ou da dor física, passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados, do permitido e do proibido.
O arcabouço da dor física na herança sócio-genética, transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor histórica. A coesão do grupo atingido é reforçada ao identificar as causas e, assim, orientar, através das linguagens, o caminho para eliminá‑la da ordem social.
A categoria denominada dor histórica é o grito humano pela vida, liberdade, saúde, conforto, dignidade, paz e ruptura das correntes que prendem o homem à tirania dos outros homens e dos deuses. É a razão por que sempre existiu a procura de uma ética na conduta humana, ligada à sobrevivência comum, forçando a melhor atenção à saúde pessoal e coletiva, registrada nos códigos de postura, presente desde o Código de Hammurabi e nos livros sagrados de todas as expressões de religiosidade.
A ficção do sagrado como mecanismo biológico para amenizar a dor, imponderável em si mesma, encontrou unissonância no brado dos espoliados sem território e alimento para sobreviver, sempre mais doentes, morrendo precocemente,
O medo da dor fora de controle e da morte prematura forjou nas mentalidades a permanente atenção à dor histórica, estruturando a consciência da proteção pura, montada na determinação genética. É possível que o gradativo conhecimento da dor histórica tenha se processado na justa medida em que as coisas em si se converteram em coisas para nós, ou seja, o desconhecido passou a ser conhecido com o objetivo de viver mais com menos dor. As doenças, especialmente as das epidemias fora de controle, foram resgatadas da tutela divina e entendidas como parte significativa da dor histórica.

Assim, é possível compreender por que a partir do momento em que determinada sociedade sente o rigor insuportável imposto pela dor histórica, comprometendo a sobrevivência dos membros, se reorganiza para enfrentar e modificar os fatores determinantes. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Filhos



A primeira metade de nossas vidas é arruinada por nossos pais. A segunda, por nossos filhos.


(Clarence Darrow) 

domingo, 13 de julho de 2014

sábado, 12 de julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pra não dizer que não falei de espinhos



Zemaria Pinto


A diferença entre 1950 e 2014


A história se repete: a primeira vez como tragédia; a segunda, como farsa.
(Karl Marx)

Barbosa – morreu estigmatizado por não fazer o milagre de pegar esta bola.


David Luiz, herói burlesco de uma ópera-bufa.

Se Nelson Rodrigues fosse chamado a explicar o papelão do Brasil diante da Alemanha, diria com sua voz áspera: “o escrete foi tomado por um complexo de vira-lata”.

Bufão com complexo de vira-lata?

Certo estava Garrincha, quando avisado, em 58, que o próximo jogo, com a Suécia, definiria o campeão: “campeonatozinho mixuruca; não tem nem segundo turno!”

Os brasileiros não vão esquecer. Os alemães, entretanto, logo esquecerão. Ou alguém lembra que, em 1950, a seleção brasileira derrotou a Espanha por 6x1 e a Suécia por 7x1, no quadrangular final? 7x1!!! E o goleiro? Barbosa!

Barbosa, herói épico, derrotado em uma batalha inglória.

Enfim, alguém já disse que o futebol é a coisa mais importante das coisas desimportantes. Não. O futebol é apenas um item a mais na indústria do entretenimento, assim como a música e o cinema, o MMA e o boi-bumbá: sujeito a manipulações, a corrupção em todos os níveis, não é exatamente um esporte – é apenas espetáculo, nada mais. As copas de 78 e de 98 serão sempre lembradas como exemplo do que estou falando. E de 20 em 20 anos, em 2018 será na Rússia, um dos países mais corruptos entre os que integram a corrupta FIFA.

Torcer por um time de futebol, brigar por ele, matar e morrer por ele – é um índice de estupidez. Flamenguistas e vascaínos, uni-vos contra a leseira geral!


Atualizando Marx: o futebol é o crack do povo! 


Linguagens compreendendo o visível e o invisível



João Bosco Botelho
         

As maneiras de articular as palavras, formando frases e ideias ficcionais são infinitas. Cada ser humano possui, como produto da interação genético‑social, a própria marca na linguagem utilizada. Apesar de a gramática ser finita, a língua gerada por ela é incomensurável.
O produto final das linguagens modula nas mentalidades os vetores para desvendar os componentes extrínsecos das relações socais (a natureza, o social e a história) e os intrínsecos (sócio-genéticos herdados na reprodução sexuada), ajustando tudo e todos para viver casa vez mais, mesmo que seja na linguagem ficcional, após a morte.  
O estudo das sociedades, em diferentes períodos, mostra o repetir coletivo, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala ontogenética, atrás dos anseios fundamentais, ditados por uma categoria nominada nesse ensaio de memória-sócio‑genética (MSG). É traduzida na vida de relação na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto físico e emocional, aqui compreendido como a liberdade de falar, explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio, nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.
Todos fogem da dor e procuram o prazer! A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentidos no corpo, são as chaves acionadoras da MSG. Todas as relações interpessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da técnica, que resultem prazerosas, são acatadas, sem esforço, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limitá‑las, ocorre resistência. A rebeldia contra o sexo limitado e reconstruções metafóricas, em todas as variáveis, o alimento escasso e a incrível sedução pelas drogas proibidas são partes importantes do mesmo universo.
A constância transmitida aos descendentes dos pontos comuns das memórias sócio‑genéticas pessoais, forma a memória sócio‑genética coletiva (MSGC), possivelmente oriunda nas transformações do cérebro primitivo.
As mensagens escritas ou orais, estruturadas na ambiguidade realidade-ficção ou, sob certas leituras, do sagrado‑profano, trazendo a esperança (não é necessária a certeza, basta o leve indicativo da possibilidade) de amenizar a dor e o sofrimento, são sempre bem aceitas e festejadas pela MSGC. Nenhum poder ordenador amparado pela força explícita conseguiu conter, mesmo por meio da repressão de todos os matizes, a expressão clara da MSGC, oriunda dos tempos arcaicos, ativada pelo choque das ideias na busca do prazer.
A busca pela liberdade sempre é semelhante ao ocorrido, na Albânia, entre os anos 1960 e 1980, após vinte anos de ditadura sanguinária, do ensandecido comunista Enver Hoxha, incluindo o banimento religioso, milhares de brutais assassinatos sumários e fechamento de igrejas e sinagogas. A revolta popular para encerrar a loucura comunista reuniu milhares de católicos albaneses e celebraram com missa pública a morte do ditador.
Em Cuba, não tem sido diferente da Albânia. A ditadura familiar dos irmãos Castro continua perseguindo as diversidades das linguagens, a grande vítima da intolerância. Os discordantes são perseguidos pela implacável caça ao dissidente. Não perseguem, promovem mais assassinatos, porque não podem! Como os albaneses, acharão o caminho da liberdade.

Fracassaram todos os modelos políticos para remodelar o mundo suprimindo as lembranças das MSGs com os anseios das fugas da dor porque as linguagens se adaptaram a esse querer coletivo: desvendar o visível e o invisível para aumentar o conforto e afastar a dor. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

terça-feira, 8 de julho de 2014

Família



Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.

(Nelson Rodrigues)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lábios que beijei 24


Zemaria Pinto
Safira

Irmã de minha primeira mulher, Safira foi o arquétipo das cunhadas que vieram depois. Não sei se Nelson Rodrigues pensou nisso, mas o homem deveria casar com a cunhada, nunca com a esposa. O infeliz só percebe isso quando já está preso pelo emaranhado das duas. O primeiro contato sensual com Safira foi justo no dia do casamento: ela meteu a coxa direita entre minhas coxas, ao abraçar-me – na frente de todos. Não sei se alguém percebeu o gesto infame, mas foi aí que comecei a prestar atenção em Safira, em sua bunda empinada, em seus seios pequenos e rijos e sobretudo naquela boca desmedida. Os lábios de Safira eram indecentes: grossos, vermelhos, salientes, ressaltados do rosto magro. Permanentemente entreabertos, deixavam presumir a língua úmida convidando à luxúria. O nosso caso durou enquanto durou o casamento com Cláudia e acabou pelo mesmo motivo: cansaço. Safira sofria junto com Cláudia. Minha mulher jamais desconfiou – ou então fingiu muito bem. Safira chamegava comigo em público e isso era muito natural: a cunhadinha bem-amada... 

domingo, 6 de julho de 2014

Manaus, amor e memória CLXVII



Vila de São José da Barra do Rio Negro,
onde Manaus começou.


sábado, 5 de julho de 2014

Fantasy Art - Galeria


Female pan queen.
Marta Nael.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Ensaios ligeiros saem em livro


O livro Ensaios Ligeiros, de Zemaria Pinto,
foi lançado ontem, na Casa do Livro, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia.
É uma edição fora de mercado, fruto de uma parceria entre a AAL e a SEC.  

Todos os textos deste livro já viram a luz. No Em Cena, da TV Cultura do Amazonas, nos jornais O Muhra e Amazonas em tempo, de Manaus, n’O Pão e no Diário do Nordeste, de Fortaleza, e, pela internet, no Blocos Net, no Jornal de Poesia, e, claro, no Palavra do Fingidor. Alguns vieram à luz como apresentação, outros sob a forma de orelhas. Mas não vou dizer o que é o quê, deixando pelo menos um enigma ao leitor.

Poderiam ser muitos mais. Selecionei apenas os que tinham alguma consistência que o tempo não afetou. Por isso chamei-os – sem vestígios de pudor ou falsa modéstia – de ensaios. Ensaios ligeiros, escritos depois do expediente ou durante o fim de semana, às vezes pretensiosos, quase sempre apaixonados. E provincianamente mal pagos.

Anacronismos há muitos. Abstive-me de atualizar os textos ou informar datas. Isso, me parece, soaria como um ridículo pedido de desculpas ou, pior, seria desonesto com o leitor que está chegando agora.

Quanto à falta de unidade, que dizer? Nestes vinte anos, não me faltou incoerência. E como não pretendo morrer nos próximos cinquenta, este é um trabalho em andamento – work in progress, como dizem os que mal sabem o português.

(ZmP)

Ivan Junqueira (03/11/1934 – 03/07/2014)


Ivan Junqueira: poeta, ensaísta, tradutor.

Linguagens e a crítica da proteção pura



João Bosco Botelho
         
É precisamente na convergência entre o físico presente na estrutura celular e o crivo do sócio-genético, dando forma à função e vice-versa, que ocorre a maravilhosa e intrigante materialidade da ideia invisível, imponderável, mas capaz de nominar, desvendar, criar e transformar o objeto.
Por essa razão não existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. No contexto da multidisciplinaridade, as gramáticas são ideológicas, porque expressam um tipo de posse do real e as características pessoais que marcam profundamente nos corpos os prazeres e as dores sentidos e imaginados.
Por essa razão, a busca da verdade é construída no conflito entre o objetivo e o subjetivo (de certa forma, se confundindo com o sagrado e o profano), refletindo as múltiplas leituras das coisas numa determinada temporalidade. A variante do tempo se impõe por estar contida na essência que torna perceptível a forma e a função do ser vivente.
O objetivo primário da ação, a ideia seguida do movimento do corpo, motivada na mensagem sócio-genética, por si mesmo, ao mais fundamental sentimento mantenedor da sobrevivência: a cooperação unindo todos para fugir da dor e desfrutar do maior prazer. Algo que poderia ser chamado de crítica da proteção pura.
Sem exceção, os seres vivos desejam o abrigo protetor. Não se trata, exclusivamente, do viver. O morrer pode representar, em certos instantes, o ato cooperativo dominante e, nesse caso, a morte representará a proteção pura.
O anseio para compreender as diferenças entre o constatado pelos sentidos (objetivo) e a ficção propiciou interdependência muito forte entre as partes. Em certas etapas do processo, é impossível saber onde começa a realidade e termina a ficção.
Não existiram partidas independentes. A realidade vivida pelos humanos com os outros animais, dividindo o meio ambiente comum, contribuiu para fortalecer profundas imitações simbólicas, presentes como marcas profundas do tempo passado, na consciência coletiva.
Muitos inventos e expressões estéticas, no passado e presente, projetados pelo aprimoramento da técnica, acabam sendo facilmente identificadas no meio comum partilhado.
O ímpeto para reproduzir os elementos visíveis, tirando deles a utilidade para sustentar o conforto (aqui compreendido como a fome e a sede saciadas, o alívio da dor e o abrigo contra o frio e o calor), influenciou as primeiras interações entre pensamento, ação e necessidade social.
O fato de os nossos ancestrais longínquos terem aprimorado as cópias do perceptível na natureza circundante, animais e coisas, nos abrigos das cavernas, há milhares de anos, representa a certeza da profunda coerência entre as formas e as funções nos corpos.
          Apesar de os estudos da anatomia e fisiologia terem desvendado aspectos importantes da forma e da função do cérebro relacionadas às linguagens, estamos longe, muito longe, de compreender a maior parte das dúvidas. A principal barreira é a fantástica multiplicidade das formas, nos seres viventes, gerando funções semelhantes. Apesar de os homens e as mulheres possuírem áreas anatômicas semelhantes, relacionadas às linguagens, jamais se expressam igualmente.
O produto final das linguagens é consequente aos vetores que modulam os componentes extrínsecos (natureza, social e História) e os intrínsecos (padrões sócio-genéticos herdados) e estruturam a crítica da proteção, capaz de impelir os seres de todas as naturezas a fugir da dor e buscar o prazer.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Lábios que beijei 23


Zemaria Pinto
Olga


Beleza não era exatamente o forte de Olga, embora feia não fosse. Pequena, roliça, bunda e peitos fartos, cabelos crespos cheios – o que depois chamariam de “black power” –, a janela de Olga ficava bem em frente à minha, separada pelo movimento lento da ensolarada rua de barro. Aos poucos, fomos nos tornando íntimos e acendendo o desejo do encontro dos corpos. A primeira vez deu-se num quarto sórdido, a cama manchada do sangue de Olga. Inexperientes, nossos encontros eram sempre muito tensos, especialmente quando tentávamos reproduzir o que conhecíamos apenas de sugestões.  A lembrança de Olga e sua coma me vem envolta em uma bruma da qual ela emergirá com o sol das tardes de outubro, para me doar sua juventude e me amar sem pressa.

domingo, 29 de junho de 2014

Manaus, amor e memória CLXVI


Huebner, autorretrato.
Puta selfie...
Semana passada, postamos aqui um reclame do fotógrafo alemão George Huebner, e nos lamentamos pelo fato de suas fotos circularem sem a devida identificação de autoria.

Acontece que Huebner, além de fotografar a cidade e pessoas, tem um trabalho etnográfico extraordinário.

Ele colaborou com ninguém menos que Theodor Koch-Grünberg.

Claro que, até então, eu não sabia nada disso. Salvou-me do vexame e forneceu material para este "Manaus, amor e memória" superespecial a querida, amada, idolatrada, salve! salve! Clara Nihil, antropóloga, estudiosa desses alemães malucos que andaram por aqui há mais de cem anos.

Olha o Huebner aí, Clarinha!!!

Huebner com amigos.

Huebner em trabalho de campo.
Se alguém lembrou de outros alemães malucos,
Werner Herzog e seu Fitzcarraldo, está na trilha.
Índia do Pará.
Grupo de bindiapás.
Jovem de tribo não identificada.
Índios macuxis e uapixanas com o tuxaua macuxi Ildefonso.
Jovem bindiapá.
Grupo de pauxianas.
Índia pauxiana.
Chefe macuxi.
Meninas marqueritare.
Jovens carajás.
Traje de dança dos carajás.
Casal de tribo não identificada.
Jovens uapixanas.
Jovens canelas.
Jovens uapixanas.
Jovem macuxi.

(Com exceção das duas primeiras fotos, sobre as quais não há registros, as demais foram tiradas entre 1895 e 1910.)


sábado, 28 de junho de 2014

quinta-feira, 26 de junho de 2014

As mulheres de Sergio Cardoso: cem anos de solidão


Zemaria Pinto



A leitura dos originais de O teatro urbano de mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso, reavivou-me o debate sobre texto teatral ser ou não literatura, tão antigo quanto o teatro e a literatura. Polêmica similar ocorre entre letra de música popular e poesia, outra velha e boa discussão.
É preciso observar que o texto dramático guarda total homologia com a prosa de ficção, mantendo uma estrutura básica, formada por enredo, fábula, personagens, ambiente e tempo. Entretanto, o texto dramático alicerça-se na fala das personagens; sem fala nãotexto dramático, mas pode haver teatro. Dito de outra maneira: um texto dramático formado só de indicações cênicas não é literatura, mas pode ser teatro.
Conclusão: teatro é sobretudo espetáculo, com ou sem falas, mas o texto de teatro, se o há, é, sim, literatura. E mais ainda quando transformado em livro: se no palco ele, o texto, é apenas um dos componentes do espetáculo – e nem sempre o mais importante –, no livro ele é absoluto, transferindo ao leitor as funções de encenador, figurinista, contrarregra, iluminador, ator...
O teatro urbano de mulheres de Lazone reúne 12 textos de Sergio Cardoso, todos, salvo engano, levados ao palco, experimentados no embate com o público. Olhando-os agora, em conjunto, podemos observar o trabalho paciente, quase artesanal, do autor, construindo um universo próprio, a mítica Lazone, à margem direita do rio das Sombras, com seu imponente teatro, suas galerias subterrâneas, sua “cidade flutuante” e seus dramas humanos e sobre-humanos, sempre numa atmosfera suprarreal.
Sergio trabalha sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam, em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações criadas, de um humor amargo (o humor pode ser doce?), aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo alemão. Os fantasmas, aliás, são outra recorrência – ora como um recurso de flashback ora como personagens, interagindo na trama, interferindo em seu curso.    
As mulheres de Lazone, criadas por Sergio Cardoso, reinventam a história da cidade de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas radioativas, mendigos, loucos, socialites, prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas – muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças, dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.

Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy, Mercedita e todas as outras são mais que meras criações da mente inquieta do também artista plástico Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram, com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.

Obs: apresentação do livro O teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus: Valer, 2013. 

Linguagens, vogais e consoantes



João Bosco Botelho
         

As evidências mostram que os elementos formadores das teorias pretendendo desvendar as linguagens, nas quais estão incluídas as que tratam da fantástica capacidade de escrever em muitas linguagens, tanto descrevendo o objeto visível quanto na ficção, estão contidos no cérebro. A coisa (ou as coisas) que estruturou as linguagens é física.
Se as áreas cerebrais responsáveis estão danificadas, não é possível a expressão das linguagens. Isso significa, sem nenhuma dúvida, que o conjunto formador que gera as linguagens não se dá sobre o nada. As estruturas nervosas responsáveis pela intercomunicação entre a memória, a linguagem, os sentidos e o social se ligam, no cérebro, por meio de bilhões de sinapses (ligações entre as células cerebrais ou neurônios). É a prisão mental de cada um! É a jarra de Pandora que construiu na oralidade e continua brotando, na linguagem escrita, os infortúnios e esperanças da humanidade.
Quando danificados nos traumas cranianos ou pela cirurgia, em animai de experimentação, alguns centros neurológicos específicos relacionados às linguagens alteram o comportamento emocional e emitem sons em desacordo com a necessidade daquele momento: expressões de sono, agressividade e medo ou fazer o animal assumir posição de cópula ou de choro. Sob essa comprovação, há de existir algum tipo de coerência funcional em nível celular, ligando o ser ao mundo, transcrito no ato de escrever. Logo, a capacidade individual de sentir e expressar as emoções nas linguagens, inclusive mentiras, nasceram em consequência das relações do ser no mundo.  
Vez por outra, o lento desvendar das complexas estruturas das linguagens avança apoiado no estudo dos achados acidentais. Nesse sentido, foram descritos dois casos clínicos, na literatura especializada, relacionados com os núcleos cerebrais da linguagem, atendidos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do Hospital Maggiore, Bolonha, na Itália.
No primeiro, um homem com 62 anos, depois de sofrer um derrame cerebral (ruptura de artérias ou veias no cérebro lesando maior ou menor quantidade de tecido), não conseguiu mais escrever as vogais; as palavras eram escritas em perfeita simetria com o pensamento expresso oralmente, porém só com as consoantes. O paciente não conseguia simbolizar as cinco letras. Essa publicação impõe a certeza de que a escolha dos caracteres, para compor a linguagem escrita, está contida em segmento específico do cérebro.
O segundo relato diz respeito ao paciente do sexo masculino, 32 anos, norte‑americano, também após isquemia cerebral (ao contrário do derrame, as artérias se contraem, determinando danos ao tecido encefálico), perdeu a familiaridade com a língua materna, o inglês, e passou a acrescentar vogais às palavras, resultando num sotaque escandinavo. A cura do distúrbio ocorreu na medida da recuperação da área cerebral danificada.
É precisamente nessa convergência, entre o físico presente na estrutura cerebral, oriundo de uma memória genético‑social, dando função à função, que ocorre a maravilhosa materialidade do real e do abstrato, capaz de nominar, desvendar, criar e transformar o objeto.

Por essa razão não existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. Nesse contexto, as gramáticas são, na essência, ideológicas, porque expressam tipos diversos de posses do real, onde o uso de vogais e consoantes são partes da relação do ser no mundo. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Nelson Rodrigues e o futebol




Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.


O futebol é passional porque é jogado pelo pobre ser humano.


O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada.


Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.


Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos.



Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto.

domingo, 22 de junho de 2014

Manaus, amor e memória CLXV


George Huebner (1862-1935), alemão de Dresden,
com estúdios no Rio de Janeiro e em Manaus,
não creditadas porque o tempo encarregou-se de apagar sua autoria.

sábado, 21 de junho de 2014