Amigos do Fingidor

quinta-feira, 26 de março de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 1/5



Zemaria Pinto

I

Chegamos à 10ª edição da medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes. Estive aqui nesta tribuna em 2007, quando o prêmio era entregue pela terceira vez. Naquela ocasião, foram agraciados com a Medalha o empresário Roberto Tadros, hoje nosso confrade, a inesquecível mestra Ivete Ibiapina, a quem minhas filhas aprenderam a chamar de Tia Ivete, e o romancista Milton Hatoum, inventor de algumas das personagens mais marcantes da literatura brasileira dos últimos 25 anos.
Hoje, nos reunimos para celebrar a obra social da Fazenda da Esperança, a arte multifacetada do extraordinário Sergio Cardoso, e a literatura de um dos poucos sujeitos a quem, nos meus 57 anos de vida, nunca tive dúvida em classificar como amigo: o poeta Alcides Werk.
Mas antes, quero dedicar algumas palavras à arte deste que empresta seu nome e sua data natalícia à comenda: Péricles Moraes. Penso que não podemos deixar de relembrá-lo nesta noite que é também dele, todos os anos, abril após abril. E assim como, há sete anos, lembrei seu duplo discurso, por ocasião da instalação da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, antecessora de nossa Academia, na noite de 9 de Janeiro de 1918, hoje falarei brevemente de um ensaio intitulado “Exaltações da poesia tropical”[1], onde o escritor se contrapõe, veladamente, ao nome misógino e machista daquela Sociedade só de homens.
Pelo que se lê no referido ensaio, dedicado à poesia da nossa querida Violeta Branca, a primeira mulher a ocupar uma cadeira nesta Academia, em 1949, a entidade deveria se chamar Sociedade Amazonense de Mulheres e Homens de Letras, exatamente nesta ordem. Se não, vejamos.     
Com a maestria que lhe era peculiar, Péricles Moraes divide o trabalho em três partes: na primeira, introduz a poesia de Violeta Branca, a partir do poema “Minha lenda”, que, não por acaso, é o poema de abertura de Ritmos de inquieta alegria, a obra seminal de Violeta. Sua leitura muito enriquece o poema, tal a profusão de comparações e o uso referencial das mitologias as mais diversas, numa demonstração ímpar de erudição, para explicar e justificar a mitologia cabocla, onde um sincrético Tupã, para castigar a sedutora Iara, castiga-a, transformando-a em mulher.
Na segunda parte do ensaio, Péricles Moraes, a partir do perfil intelectual de Violeta Branca, pinta um panorama da participação da mulher na literatura mundial, com ênfase na Europa – na França, especialmente, mas sem esquecer as brasileiras Carolina Nabuco, Lúcia Miguel-Pereira, Francisca Júlia, Cecília Meirelles e Gilka Machado, entre outras, apontando que:
Se, em verdade, (as mulheres) vão sendo compreendidas e justificadas as suas reivindicações sociais, as suas ambições profissionais, os seus anseios emancipadores, bem ao revés, tudo se tem feito, sistematicamente, odiosamente, para destruir as suas mais legítimas aspirações literárias e científicas. (110-111)
Para deixar bem claro que suas palavras não são gratuitas, mero panegírico, o rigoroso crítico, faz uma ressalva, que, eu diria, ainda é atualíssima:
Não intento aludir, é claro, à farândola desconcertante das versejadoras histéricas e medíocres que, à sombra dos dislates de um falso modernismo, e numa linguagem referta de cacologias, no mesmo passo corrompem e desmoralizam a arte e o idioma. (118)
Concluindo, Péricles retorna aos poemas de Violeta Branca:
Tudo na sua poesia é ansiedade e inquietude. Não aquela inquietude que é ceticismo e ausência de fé, que é insatisfação e tendência para os sofrimentos intelectuais, morais e metafísicos, mas a inquietude estética de que nos fala Daniel Rops, infundindo-nos à alma um sentimento raríssimo e que não encontramos senão nos artistas que trazem consigo “l’ardente blessure du génie”. (119)
Péricles Moraes, o patrono desta Medalha que é a condecoração cultural mais cobiçada de nosso Estado, é um exemplo raro de intelectual que dedicou toda a sua vida aos estudos e a compartilhá-los com generosidade. É imortal, sim, pois seu trabalho extraordinário continua atual – e nós, seus atentos seguidores, abril após abril, continuaremos a reverenciá-lo. 


(Discurso proferido pelo acadêmico Zemaria Pinto, por ocasião da solenidade de entrega da medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, realizada no salão do Pensamento Amazônico, sede da Academia Amazonense de Letras, em 25 de abril de 2014.)




[1] MORAES, Péricles. Os intérpretes da Amazônia. Organização: Tenório Telles. Manaus: Valer e Governo do Amazonas, 2001.

Torquato Tapajós, Sábado na Academia



Busca da materialidade da doença no século 18



João Bosco Botelho

O século 18, reconhecido como o século das luzes, brilhou no esplendor das construções teóricas de Kant reconhecendo a supremacia da razão como instrumento para superar a ignorância. Em certas condições, é possível também entender alguma semelhança entre as ideias sobre a natureza dos homens, defendida pelos autores setecentistas, como o início da generosidade explícita laica, como manifestação da virtude, que os médicos devem adotar no trato com os doentes.

Nesse contexto, dois filósofos se destacaram:

– Denis Diderot (1713-1784), no livro “Carta sobre os cegos para uso por aqueles que vêem”, onde descreve as mudanças no próprio pensamento, das teogonias ao materialismo ateu. A mais importante obra de Diderot, “Enciclopédia”, em 28 volumes, retratou o conhecimento até então publicado. Como ferrenho crítico do clero, declarou: “O homem só será livre quando o último déspota for estrangulado com as estranhas do último padre”.

– Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escreveu na “Enciclopédia” de Diderot, adepto de uma religião natural, recusando os dogmas revelados e propondo que o encontro com Deus poderia ser no próprio coração. No extraordinário livro “Do contrato social”, defendeu a soberania do poder nas mãos do povo.

Desse modo, o século 18 refundando a generosidade virtuosa, fora dos dogmas da Igreja, rapidamente aderiu à Medicina. Também é interessante assinalar que o pressuposto da necessidade absoluta do progresso, estruturante no século das luzes, não se desprendeu dessa generosidade, como está claro na declaração dos Direitos do Homem.

Esse ideário de generosidade, direito e ética se transformou em mensagens de liberdades e acenderam os pavios das revoluções que forçariam, outra vez, a abordagem da ética, sob a ótica do genial Kant. Esse homem extraordinário sem jamais sair de sua cidade natal Kõnigsberg, na antiga Prússia oriental, publica dois livros que mudariam algumas abordagens da ética e da moral. Em 1788, “Crítica da razão prática” e, em 1790, “Crítica da faculdade de julgar”, essencialmente contra o autoritarismo que dominava o mundo político no qual vivia, sob o reinado de Frederico II, rei da Prússia, cujos julgamentos sumários lembravam os realizados pela Inquisição católica, nos quais o réu já entrava no julgamento previamente condenado e só eram permitidas as respostas “sim” ou “não” do próprio réu e das testemunhas. O desfecho contra o vício nos julgamentos viria na introdução do não menos genial “Crítica da razão pura”, onde a categoria metafísica é utilizada para repudiar todos os dogmatismos despóticos, falsas genealogias, as indiferenças quanto às diferentes naturezas dos conhecimentos humanos.

Por outro lado, a presença do pensamento micrológico, inaugurado por Marcelo Malpighi, no Renascimento, atingiu e ocupou a maior parte do ideário da Medicina na busca da materialidade da doença sob as lentes de aumento.

Por outro lado, chegaram os avanços nos saberes em vários aspectos da Medicina. Sem dúvida, a fisiologia ofereceria outra e maior dimensão à anatomia: as academias e sociedades médicas promoviam debates sobre o funcionamento dos órgãos, não bastava só conhecer a anatomia!


Claramente, a ética médica se voltaria aos bons resultados dos tratamentos. Nessa esteira, cirurgiões descreveram técnicas com o objetivo de diminuir as mortes e sequelas nos pós-operatórios e as ações para melhorar o saneamento das cidades se tornou prioridade dos governos.


quarta-feira, 25 de março de 2015

terça-feira, 24 de março de 2015

Pessoa física ou jurídica?



Pedro Lucas Lindoso

O município de Lábrea, no Amazonas, fica na calha do rio Purus, no sul do estado. É por lá que termina a Transamazônica e onde nasceu o Dr. Zequinha. Dr. Zequinha Nassif é neto de árabes. Herdou a lábia do avô e a esperteza do pai. Formado advogado aqui mesmo em Manaus, especializou-se em Direito do Trabalho. Seu escritório é sempre perto do Fórum Trabalhista. Quando o fórum era na Praça 14, lá estava o seu QG. As varas do trabalho mudaram-se para a Djalma Batista. Muda-se também o escritório do Dr. Zequinha. Agora, o fórum está no Centro, na Rua Ferreira Pena. Zequinha Nassif alugou uma sala lá por perto. É mais fácil, diz ele. Evita-se trânsito. Facilita a captação de clientes reclamantes e economiza-se. Zequinha é econômico. Pão duro é um adjetivo muito forte para o respeitável causídico.
Dr. Zequinha contratou o pintor Francisco das Chagas para renovar as paredes do novo escritório. Conhecido por Chaguinhas da Compensa, o pintor foi indicado e bem recomendado por um colega militante na Justiça do Trabalho.
Zequinha explicou ao pintor que quem o estava contratando não era ele, pessoa física, mas a pessoa jurídica – J. NASSSIF ADVOCACIA.
Chaguinhas argumentou que trabalha para pessoa jurídica, pessoa médica, pessoa engenheira e até pessoa empresária, desde que lhe pague.
Nassif riu-se e deu uma pequena aula de Direito explicando a diferença entre pessoa física e pessoa jurídica. Chaguinhas fez cara de que havia aprendido a lição para não perder o serviço. Preço ajustado em R$2.000,00. Mil de entrada e o resto em 30 dias. A sala ficou uma beleza, bem pintada. Dr. Zequinha, satisfeito com o serviço deu ao Chaguinhas os mil reais e disse-lhe que voltasse em trinta dias para receber o resto.
Passado um mês, Chaguinhas retornou ao escritório. Era uma segunda-feira chuvosa. Os reclamantes haviam faltado às audiências e Zequinha Nasssif não entabulou sequer um acordo naquele dia. Pediu ao Chaguinhas que voltasse na quarta-feira. Quem ia lhe pagar não era ele, era a pessoa jurídica. Como já havia lhe explicado.
Na quarta-feira o Chaguinhas foi, novamente, cobrar seu serviço. Dr. Zequinha explicou-lhe, mais uma vez, que a pessoa jurídica não se confunde com a pessoa física.
Chaguinhas foi enfático. Ou a pessoa jurídica me paga ou a pessoa física vai levar uma surra dos meus amigos da FDN – Família do Norte.
Dr. Nassif, pessoa física, deu seu jeito e quitou a dívida. Na mesma hora!



domingo, 22 de março de 2015

sábado, 21 de março de 2015

quinta-feira, 19 de março de 2015

De bubuia no rock



Sílvio Romero é o tema do Sábado na Academia



Renascimento: novos ares na Medicina



João Bosco Botelho

No Renascimento europeu, a Medicina oriunda das jovens universidades ampliava os domínios da compreensão da saúde, aumentando a busca da materialidade da doença sob o estandarte da micrologia.

De modo geral, as práticas médicas retomaram os preceitos hipocráticos, reafirmados pelas Escolas de Medicina de Montpelier e Salermo, ao tempo em que ratificou o projeto teórico que avançaria até hoje: a busca da materialidade da doença nas dimensões da matéria viva invisível aos olhos, só identificável sob as lentes de aumento.

Essas profundas mudanças alcançaram as antigas concepções da ética médica ligadas à escolástica medieval. Talvez um dos mais importantes representantes dessa fase, interligando a Medicina e o Direito, tenha sido Maquiavel, nas obras “Discurso” e “O Príncipe”, em ambos discursando com claro desprezo ao mundo espiritual da escatologia cristã, oriundo do Direito canônico, e valorizando a vida vivida. Dessa forma, também se adicionou às novas reconstruções na busca da materialidade da doença e do delito.  

Em seguimento sereno em torno da doença ligada à coisa material, o século 17 também conhecido como o século da razão trouxe o encontro entre busca da maior liberdade com a ética médica. Esse complexo conjunto sócio-político foi tocado pelas ideias de Newton, Descartes, Espinoza e Molière.

– Isaac Newton (1643-1727), autor do “Principia”, um dos principais precursores do Iluminismo. Quando a Universidade de Cambridge fechou as portas por causa do surto da peste negra, trabalhando na própria casa, descobriu a lei da gravitação universal e a natureza das cores, que mudariam para sempre os rumos da ciência. 

– René Descartes (1596-1650), advogado, formado na Universidade de Poitiers, fundador da filosofia moderna. Na principal obra “Discurso sobre o método”, se consagrou na defesa do método cartesiano incluindo “Penso, logo existo”. Esse genial filósofo expressou pensamentos revolucionários: supremacia da dúvida para alcançar o conhecimento, rejeitando em bloco a estrutura dogmática da Igreja: por essa razão é considerado o “pai do racionalismo”.

– Bento de Espinoza (1632-1677), racionalista da Filosofia moderna, fugiu da Inquisição portuguesa, defendeu o panteísmo. Em 1656, foi excomungado pela Sinagoga de Amsterdam, por defender Deus como mecanismo imanente da natureza e do universo e a Bíblia como obra metafórica e alegórica, não expressando a verdade sobre Deus. Após a excomunhão adotou o nome Bendito, tradução do original Baruch. Dois pontos importantes da filosofia desse extraordinário judeu: 1. Defesa de que a razão não poderia dominar a emoção e uma emoção só seria consumada por outra emoção anda maior; 2. Inovou ao afirmar que a ética não se opõe às emoções e que todos deveriam buscar os instrumentos que constroem a felicidade e o bem-estar e recusar os que determinam dor e sofrimento: a ética da alegria, da bem querença.
Sob o impacto dessas profundas mudanças estruturais as práticas médicas mantiveram o processo de afastamento da Igreja e, em alguns aspectos, se identificaram com os conceitos de Spinoza, nos seus geniais livros “A ética” e o “Tratado da reforma do entendimento”, ambos valorizando a vida e rejeitando valores negativos da compreensão dos conflitos sociais.


Nesse novo contexto, a Medicina reconstruiu caminhos válidos até hoje: reconhecida como partes importantes da construção do bom e da vida e jamais participar de qualquer prática capaz de causar mal e a morte.

quarta-feira, 18 de março de 2015

terça-feira, 17 de março de 2015

O que há no cardápio?



Pedro Lucas Lindoso

Um renomado “chef” já disse que é muito delicado e complicado dar nomes aos pratos, quando se monta um cardápio. Há um restaurante na cidade, inspirado na culinária italiana, que fez homenagens aos papas dando nomes de pontífices a alguns pratos do cardápio. Pena que o papa mais simpático do século 20, o Papa João XXIII, que deu uma forte sacudida em dogmas ultrapassados da Igreja, ficou fora do menu.
Outros restaurantes mais ousados apresentam cardápio que estimulam a sensualidade. Uma doceira aqui em Manaus vende o “orgasmo” e o “beijo na boca”. Há inda as diversas comidas com fama de afrodisíacas. Servem como temas de cardápios mundo afora.
A última vez que fui a Belém experimentei o Frango a carimbo. Estava gostoso. Ainda bem que não veio dançando carimbó, pois poderia ser atropelado. Explico. No dia seguinte, tive a oportunidade de comer frango atropelado. Bem, comer frango a carimbó na terra do carimbó faz sentido, mas frango atropelado? A Explicação que me deram foi que as faixas deixadas pela grelha lembram marcas de pneu, o que inspirou o nome de Frango Atropelado. Antes assim.
Aqui em Manaus é comum as donas de casa trocarem receita de “galinha escandalosa”. Tal especialidade já foi causa de um sério entrevero entre uma senhora do sul e a empregada amazonense. No final não se sabia quem era mais escandalosa; a patroa, a empregada ou a galinha.
Em Brasília, na casa de um parlamentar amazonense, havia pirarucu de casaca e caldeirada de tambaqui. Uma jornalista amiga, que detesta farinha, recusou o pirarucu de casaca, dizendo preferir o peixe cozido, que para ela estava em traje esporte fino.
Muitos amazonenses gostam de comer um bicho de casco. As tartarugadas são tão gostosas quanto proibidas, se a origem das cascudas não for autorizada pelo IBAMA. Para ludibriar os fiscais e a polícia ambiental, muitos donos de restaurante em Manaus resolvem disfarçar o menu, chamando os pratos a base de tartaruga de “bodó”. Faz sentido. O acari, ou acari-bodó, é um peixe cascudo, designação comum aos peixes siluriformes da família Loricariidae. Só que o bodó é vítima de muito preconceito, apesar de ser bastante apreciado na culinária amazônica.
Minha querida tia Idalina sempre conta a história de que, certa feita, num restaurante em Paris, havia um prato “à votre plaisir”. Em francês a expressão significa “a sua escolha’”. Alguém perguntava insistentemente como era esse prato. E o maitre respondia, também, insistentemente, “a votre plaisir”, o tempo todo.
Outra história engraçada de tia Idalina. A empregada nova e inexperiente pergunta a titia o que fazer para o almoço. E ela displicentemente pede que a moça prepare “um bifinho”. Na hora de servir, havia literalmente, um único e singelo bifinho para os quatro comensais do dia.

O velho Chacrinha, de saudosa memória, dizia que “quem não se comunica se trumbica”. Daí ser mesmo muito importante dar nomes atrativos aos cardápios, para o sucesso do restaurante. Como é importante se comunicar com a empregada. Para se comer galinha escandalosa ou um bifinho, sem maiores contratempos, o importante é não atropelar a comunicação.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A Academia e seus patronos – 3a série


Serão fornecidos certificados de participação, válidos como horas complementares.


Lábios que beijei 43


Zemaria Pinto
Eneida


Eneida era volumosa de corpo e de alma. Num tempo em que os bandidos, os loucos, as putas e os veados da cidade eram conhecidos pelo nome, Eneida era a bondade personificada, promovendo eventos filantrópicos, arrecadando dinheiro, víveres e medicamentos, tratando aqueles marginais da sociedade como cidadãos, com incursões cotidianas no presídio, no hospício, nos hospitais, nos puteiros e na Cidade Flutuante. Para uns, era apenas uma demagoga, demarcando um espaço político; para outros, a grande maioria, tinha aura de santa. Quando Eneida me procurou no banco, pedindo contribuição para mais uma de suas iniciativas, não pude deixar de reparar em seus seios excessivos, suas coxas colossais e sua bunda desmedida. Superlativa, Eneida era só adjetivos. Não foi difícil ganhar sua estima e confiança: virgem ainda aos 28 anos, a sexualidade represada arrebentou todas as comportas da abissal Eneida. Nos encontrávamos no único prédio de apartamentos da cidade, onde morava sua amiga D. Leandra, que uma cirurgia malsucedida deixara cega de um olho e a catarata cegava progressivamente o outro. Eneida era sua sombra, dia e noite, e ela retribuía com um compreensível silêncio: D. Leandra, quando mais jovem, fora uma cafetina famosa na cidade e ainda sofria com o preconceito. Eneida passou em minha vida como uma chuva fininha na madrugada: lenta, silenciosa e prazerosamente. Jamais brigamos, mesmo quando passava meses sem procurá-la; estava sempre disposta, sorridente e com o tesão à flor da pele. Assisti ao envelhecimento progressivo da vastidão de seu corpo, fonte de alegrias inenarráveis. Quando morreu, pouco antes de completar 50 anos, de um inexplicável mal súbito, a cidade parou para reverenciar Mãe Eneida. Acompanhei o gigantesco e ecumênico cortejo de longe – e me flagrei excitado com a lembrança vertiginosa dos momentos sagrados em que me perdi na imensidão de Eneida.

domingo, 15 de março de 2015

Manaus, amor e memória CCIII


Bonde na rua Municipal, atual 7 de Setembro.

sábado, 14 de março de 2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 7/7




Zemaria Pinto

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O nanômetro é a unidade de comprimento equivalente à bilionésima parte de um metro, ou seja, corresponde a 109. O micrômetro tem três zeros a menos: 106. Não existe uma unidade correspondente a minímetro. Já há nomenclatura para outras unidades bem menores que o nanômetro, mas a nanotecnologia é uma realidade indiscutível, presente no nosso cotidiano. Do ponto de vista prático, a associação que fizemos da literatura com a ciência justifica-se por este viés.
Quando leio hoje um Tchekhov, um Poe, um Maupassant ou um Machado, penso nas transformações que esses autores promoveram em sua época – e no quanto ainda é agradável lê-los. As narrativas que classificamos como microcontos e nanocontos, mesmo existindo há milênios, só agora, como reflexo, talvez, de um tempo de cada vez menor disponibilidade – quando no século XIX a utopia era pela maior disponibilidade de tempo para todos –, começam realmente a tomar foros se espécie independente, como os citados apólogo, fábula e parábola.
Ao cabo, tudo é conto – tenha três palavras ou 60 páginas. 
A discussão não se esgota, pois o melhor da conclusão é dizer que não há conclusão, e que tudo está em movimento, sobre a terra e sob o céu – inclusive o pensamento.     


REFERÊNCIAS
ARAGÃO, Adrino. Caderno do escritor. Cataguases: Jaraqui, 2012.
______. Conto, não-conto & outras inquietações. Brasília: Da anta casa editora, 2006.
BRANCO, Joaquim. O conto à meia-luz: o minimalismo e a obra de Adrino Aragão. Cataguases: Funcec, 2010.
ESOPO. Fábulas completas. Tradução: Neide Smolka. São Paulo: Moderna, 1994.
KAFKA, Franz. Contos – A colônia penal e outros. Tradução: Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1969.
LEÃO, Allison. Pedra mística 8. Página consultada em 24.05.2014, às 15h30min. http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2009/08/pedra-mistica-8-terminada-festa-o-filho.html
______. Romance possível romance XI. Página consultada em 24.05.2014, às 17h45min. http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2009/05/romance-possivel-romance-xi-vinte.html

______. Skabrática 8. Página consultada em 24.05.2014, às 17h45min. http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2009/07/skabratica-8-na-planicie-radioativa-uma.html
MACHADO, Aníbal. Viagem aos seios de Duília. In: MORICONI, Italo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 107-124.
MORICONI, Italo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
PAZ, Octavio. Ensaio. In: O livro dos hai-kais. Tradução: Olga Savary. São Paulo: Massao Ohno / Roswitha Kempf, 1980. p. 13-21.
PINTO, Zemaria. Adrino Aragão: a grandeza do minimalismo na literatura. In: Revista da Academia Amazonense de Letras. Nº 33, Manaus: AAL, 2013. p. 193-199.
______. Domingo à tarde. Página consultada em 24.05.2014, às 17h45min. http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2009/06/domingo-tarde-joao-sebastiao-joao-nao.html
______. Drops de pimenta 55. Página consultada em 24.05.2014, às 15h30min.
______. Lábios que beijei 14. Página consultada em 24.05.2014, às 14h45min. http://palavradofingidor.blogspot.com.br/2014/03/labios-que-beijei-14.html
______. O conto no Amazonas. Manaus: Valer, 2011a.
______. O texto nu – Teoria da Literatura: gênese, conceitos, aplicação. 2ª ed. Manaus: Valer, 2011b.
TREVISAN, Dalton. 99 corruíras nanicas. Porto Alegre: L&PM, 2002.
______. 111 ais. Porto Alegre: L&PM, 2000.

Lira da madrugada



Transição da ética médica: da alta idade média ao renascimento



João Bosco Botelho

As abadias de Salerno e Montpelier, dois dos núcleos mais importantes das futuras universidades, se distinguiriam por retomarem antigos conceitos éticos gregos da Escola de Cós: “Em primeiro lugar, não façam mal”.

No medievo europeu, as conjunções políticas determinadas pelos conflitos e contradições entre a administração laica e a Igreja, determinou a desconstrução de grande parte da conjunção da Medicina e do Direito. Nesse conjunto, o Direito visigótico, em determinados momentos, se ajustou ao Direito canônico, que nem sempre valorizou as recompensas após a morte em detrimento da vida vivida.
A idéia da ordem universal, defendida de modo violento por algumas variantes do Direito canônico, diminuindo grandemente a importância do indivíduo, freando o movimento social, interferiu de modo brutal na busca da materialidade, tanto da doença quanto do delito.

Nesse conjunto muito complexo de fricções sócio-políticas, se destacou a obra de Guilherme de Ockham (Opus nanaginta dierum), de 1332, associando o Direito ao poder, em torno de duas realidades confluentes: a primeira, inteligível e inserida na realidade observável, sem natureza jurídica; a segunda, de natureza jurídica, atada ao poder. Essa importante construção teórica associando Direito e poder servirá para a retomada das idéias greco-romanas no Renascimento que se avizinhava.

Alguns acontecimentos marcaram o Renascimento como um novo tempo na Europa, interferindo diretamente na ética médica oriunda do medievo: publicação mecanizada dos livros,  ruptura com as interdições eclesiásticas: dissecção pública de corpos humanos; publicação dos livros “De humani corporis fabrica” de André Vesálio, “A cirurgia”, de Ambroise Paré, “Christianismno restitutio”, de Miguel Servet, confrontando a veracidade da Trindade Cristã. Entre tantas produções, se destacou o livro “De viscerum structura”, de Marcelo Malpighi, descrevendo o mundo somente visível sob as lentes de aumento, iniciando o pensamento micrológico, que pode ser considerado o segundo corte epistemológico da Medicina.

Entre outras singularidades do Renascimento se destaca a vontade coletiva de retomar os ideários políticos da Grécia platônico-aristotélica. Desse modo, inicia-se outra fase da ética médica com menos influência dos dogmas do cristianismo medieval: retomada das diretrizes teóricas da Medicina greco-romana, atenuação do valor atribuído aos santuários curadores, aumento do número de médicos oriundos das novas universidades, maior participação de médicos laicos no processo formador da Medicina e a presença de geniais pintores e escultores, como Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Rembrandt, entre outros, detalhando nas obras de artes o corpo desnudo.

No andar desmontando certos dogmas cristãos em torno da saúde e da doença as confrarias e irmandades que cuidavam dos doentes, sob a guarda dos respectivos santos protetores, como a dos cirurgiões sob a proteção de São Cosme e São Damião, pelos Colégios e Academias laicos, como o Royal College of Surgeons, em Londres, e a Sorbonne, em Paris.


O Renascimento também desmancha certas obscuridades do poder papal. Entre as muitas mudanças nas relações sociais e políticas, na Europa central, desponta a cirurgia apagada das práticas médicas, durante mil anos, por conta das interdições sob a ameaça do castigo infernal: as práticas cirúrgicas não são mais compreendidas como obras dos demônios, sendo incorporadas à Medicina.

quarta-feira, 11 de março de 2015

terça-feira, 10 de março de 2015

Tartarugada em Copacabana



Pedro Lucas Lindoso



Tia Idalina mora em Copacabana no Rio de janeiro. Morre de saudades de Manaus como morre de medo de avião. Só voltaria para Manaus se fosse pela Varig. Na juventude frequentou o cine Odeon, o Politheama e o cine Avenida, o de dona Iaiá. Assistiu aos shows da Ângela Maria na Maloca dos Barés. Uma saudosista. Tia Idalina tem vários sobrinhos espalhados por Manaus, Rio de Janeiro e Brasília. E é queridíssima de todos. Dos amazonenses, sempre pede encomendas do mercadão Adolfo Lisboa: farinha do uarini, sebo de Holanda, pimenta murupi, peixe, tucumã e pupunha. De vez em quando insinua que adoraria comer uma tartarugada. Mas como levar uma tartaruga viva de Manaus para o Rio de Janeiro. De avião? Impossível. Quem conseguiria burlar o Instituto Chico Mendes, O IBAMA a ANVISA e a Polícia Federal? Alguém sugeriu que se comprasse uma tartaruga do mar. Tia Idalina protestou. Não quero, só serve se for Podocnemis Expansa também conhecida como Tartaruga-da-Amazônia. E ponto final. Adoraria fazer uma grande tartarugada, com sarapatel e tudo. Mas teria que ter uma tartaruga viva. Aproveitaria a estadia de Marieta no Rio de Janeiro. Marieta é empregada da família há mais de vinte anos. Cabocla esperta de Nhamundá, cozinha como ninguém. Sabe todos os segredos de como tratar uma tartaruga e fazer todos os pratos que compõem uma tartarugada completa. Inclusive farofa do casco, que não pode faltar. Tia Idalina fez 80 anos dia 21 de abril. Paulinho, um dos sobrinhos queridos de Idalina, que mora em Brasília, foi o responsável pela grande surpresa. Paulinho nos contou a sua epopeia. Descobriu que a empregada de sua sogra, Rosilene, era de Formoso do Araguaia, sul do Tocantins. Cidadezinha com 20 mil habitantes, distante 600 km de Brasília. Rosilene disse que na sua cidadezinha havia uma grande quantidade de tartarugas que estavam em um lugar conhecido como Lagoão, onde deságua o rio Formoso, afluente do Araguaia. Lá tem muita tartaruga. Paulinho foi com Rosilene até Formoso, comprou a bichona e retornou a Brasília no bate volta. Dia seguinte rumou com a namorada para o Rio de Janeiro. Marieta já estava escalada para preparar a tartarugada. A festa seria na segunda-feira mesmo, dia do aniversário da tia Idalina. Paulinho chegou ao Rio no sábado, antevéspera da festa. Estava combinada uma “mentira branca”. A tartaruga teria sido adquirida na rampa do Mercado, em Manaus A cascuda sobreviveu milagrosamente. Estava em ótimo estado, segundo a própria Marieta, “expert” em tartarugada. O parecer de Marieta é de que a tartaruga era amazonense. Todos poderiam ficar tranquilos. Ela tinha certeza que não era de mar. A tartaruga é da Amazônia. De fato era uma Podocnemis Expansa, ratificado pela própria Tia Idalina Colocaram a bichona no banheiro de empregada do apartamento da titia. Os vizinhos ficaram sabendo. Havia fila para ver a tartaruga. Um dos vizinhos, para azar de tudo e de todos, era fiscal do IBAMA. E não é que o cara queria confiscar a tartaruga? Mas tia Idalina é uma “lady”. Perguntou ao moço se ele já tinha comido uma tartarugada amazonense. Ele disse que sim. Achou tudo uma delícia. Então tia Idalina o convidou para a festança. Ele aceitou o convite e ficaram todos conversados. A Alegria de tia Idalina era comovente. Marieta preparou uma enorme travessa de sarapatel. Fez aquele guisado para ninguém botar defeito. O picadinho ficou delicioso. Tudo servido com arroz branco, pimenta murupi e farinha ovinha. E ainda teve a farofa feita no casco. Dizem que o cheiro da famosa iguaria exalou por toda a orla de Copacabana até o posto Seis. Muito anos de vida a tia Idalina!

segunda-feira, 9 de março de 2015

Lira da madrugada - lançamento




Depois de 15 anos, o que começou como um projeto de união entre poesia e música materializou-se no CD-livro Lira da madrugada, produção conduzida pelo artista e compositor Mauri Mrq, com a colaboração do escritor Zemaria Pinto e mais um time de especialistas, como o maestro Joca Costa e o designer Rômulo Nascimento, além dos músicos envolvidos no projeto e um trabalho gráfico de qualidade superior. Não foi à toa, portanto, que o dia escolhido para o lançamento de Lira da madrugada foi 14 de março, quando se comemora o Dia Nacional da Poesia, marcado pelo 168° aniversário de nascimento do poeta Castro Alves, o cantor da liberdade.
Lira da madrugada é um objeto contendo três produtos: um CD, com 16 canções criadas a partir do trabalho de 15 poetas, todos eles ligados de alguma maneira ao Clube da Madrugada, entidade multicultural criada em 1954; o segundo produto é um livro com a história do projeto e a trajetória de Mauri Mrq, além das cifras das músicas que estão no CD; por fim, um segundo livro, contendo uma análise da formação histórica do Clube da Madrugada, mais a reprodução integral, pela primeira vez em livro, do “Manifesto Madrugada”, de 1955, e uma análise didática, mas sem firulas, dos poemas musicados. O projeto gráfico de Rômulo Nascimento junta os 3 produtos num só objeto.
A escolha dos poemas foi do próprio Mauri Mrq, para quem “cada poema já tem sua música própria, imaginada pelo poeta; cabe ao compositor descobri-la”. Thiago de Mello, que não participou da fundação do Clube, pois já se radicara no Rio de Janeiro, é o mais velho dos poetas enfocados. O mais jovem é Max Carphentier, da terceira geração do Clube, que começa a publicar na década de 1970. Entre eles estão os já falecidos Anísio Mello, Luiz Bacellar, Antísthenes Pinto, Farias de Carvalho, Alencar e Silva, L. Ruas, Alcides Werk e Ernesto Penafort. Dos remanescentes do Clube, além dos dois primeiros citados, estão Moacir Andrade, Almir Diniz, Jorge Tufic, Elson Farias e Astrid Cabral.
Na análise histórica da fundação do Clube da Madrugada, Zemaria Pinto toca num ponto polêmico: ele afirma, com todas as letras, que a motivação da fundação do Clube foi política e não estética. “O Clube da Madrugada foi criado para demonstrar a revolta dos jovens amazonenses com o marasmo que dominava a política amazonense. Tanto que pessoas que não tinham nenhuma atividade artística tiveram papel fundamental na criação e no desenvolvimento do Clube”, diz Zemaria, citando economistas, como os professores Saul Benchimol, Francisco Batista e Teodoro Botinelly, o psicólogo João Bosco Araújo, o jornalista Fernando Collyer, entre outros. Com o tempo, artistas plásticos e escritores foram dominando o Clube, dando a impressão de que o Clube existia em função de suas atividades.
Essa polêmica fica mais fácil de ser compreendida com a leitura do “Manifesto Madrugada”, que fora publicado no único número da Revista Madrugada, em 1955, comemorando um ano da fundação do Clube, que assim começa: “No momento em que o Brasil sofre uma crise total em todas as suas forças intelectivas, morais, educacionais, econômicas e sociais, a mocidade consciente do Amazonas une-se para defender esta herança social inesgotável que herdamos de nossos antepassados”. E segue, analisando a situação de cinco segmentos do conhecimento humano: literatura, artes plásticas, sociologia, economia e filosofia – de um modo geral, concluindo, que esses segmentos eram muito pobres ou simplesmente não existiam no Amazonas.
Um outro ponto polêmico do trabalho de Zemaria Pinto é a afirmativa de que o Clube da Madrugada não é o Modernismo no Amazonas, como se acreditou durante muito tempo, e ainda hoje se repete. Para Zemaria, o Modernismo é uma referência ética, sim, mas não estética, uma vez que, esteticamente, os escritores do Clube ligavam-se à chamada Geração de 45, antagônica aos modernistas, da qual fazia parte, inclusive, o poeta Thiago de Mello. “Seria simplório, diz Zemaria, emular estilos de 30 anos antes, já ultrapassados. O Clube, ao contrário, estava em perfeita sintonia com o que se fazia em arte no Brasil”.
Feita a análise histórica, Zemaria Pinto esmiúça os belos poemas que Mauri Mrq escolheu musicar. E nesse ponto não cabem polêmicas – o professor limita-se a esclarecer ao leitor as metáforas e outras figuras de linguagem dos poemas, tornando-os de fácil leitura e agradável audição.
Lançado poucos meses depois da cidade comemorar, no último dia 22 de novembro, os 60 anos da fundação daquele que foi o movimento cultural mais importante de sua história, Lira da madrugada vem reafirmar a importância do Clube da Madrugada, um marco fundador e um divisor de águas na cultura amazonense.

Os autores
Mauri Mrq – amazonense de Manaus, iniciou a carreira artística aos 19 anos, desenvolvendo ao longo do tempo pesquisa em torno da música instrumental brasileira, fazendo a direção musical de vários espetáculos de diversos  grupos de dança e teatro, entre eles o Dança Viva, Grupo Origem e Cia. Vitória Régia, fundando, posteriormente, o Núcleo de Teatro Jiquitaia, onde continuou a função de Direção Musical e Produção de espetáculos, dentre eles das peças A maldição de Acauã, de Darcy Figueiredo, As filhas da terra, de sua própria autoria, e a Derrota do mito,  de Tenório Telles, com Direção de Theo Correa. Nos últimos 18 anos, tem se dedicado a musicalizar e interpretar poemas de autores amazônicos.
Zemaria Pinto – aos 58 anos, mestre em Estudos Literários e especialista em Literatura Brasileira, Zemaria Pinto tem 18 livros publicados em gêneros diversos: poesia, literatura infantil e juvenil, teatro e ensaios. Tem uma dezena de livros inéditos, inclusive três de contos, gênero ao qual tem se dedicado nos últimos anos. É dramaturgo, com seis peças encenadas e outras tantas inéditas. Desde 2004, é membro da Academia Amazonense de Letras, onde atualmente ocupa a função de diretor de Eventos, promovendo palestras e debates.

Serviço
. Lançamento: CD-livro Lira da madrugada, de Mauri Mrq e Zemaria Pinto;
. Local/hora: Academia Amazonense de Letras – Rua Ramos Ferreira, 1009 (esquina com Tapajós);
. Data/hora: dia 14 de março, às 10h;
. Preço de lançamento: R$ 40,00 (nas livrarias, o livro será vendido por R$ 50,00);

Mauri Mrq, em apresentação recente.

domingo, 8 de março de 2015

sábado, 7 de março de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 6/7



Zemaria Pinto

6. NANOCONTO
A denominação nanoconto me foi sugerida pelo professor Allison Leão. Postamos vários nanocontos, dele e meus, no blog Palavra do Fingidor, e até umas “Notas para uma teoria do nanoconto”, que não reproduzo aqui porque tudo era apenas uma brincadeira, que foi crescendo, crescendo... E aqui estou eu, tentando explicar o que é, afinal, o nanoconto. Os exemplos extraídos de Kafka, Esopo, Trevisan e Aragão, citados anteriormente, adequam-se perfeitamente à ideia que temos do nanoconto. Vejamos dois exemplos do que criamos lá atrás, sem fazer relações históricas, de pura farra:
terminada a festa, o filho pródigo avisa:
pai, isto não é uma visita.
(pedra mística 8)

Joca, eu estou partida. Ao meio. Rachada. Ainda não acredito que você fez isso comigo. Depois de 10 anos, Joca? Como você pode ser tão filho da puta?
(Drops de pimenta 55)

   O primeiro nanoconto é de Allison Leão. O intertexto claro é a parábola bíblica do filho pródigo. O inusitado, no texto de Allison, é que o pai não percebera o sentido do retorno do filho, que precisa avisá-lo de que “aquilo” não é uma simples visita. Uma ironia que subverte o sentido do texto-fonte.
O segundo nanoconto é de minha autoria, faz parte de um livro de contos, ou melhor, de nanocontos, chamado Drops de pimenta, inédito em papel, apesar de premiado em 2003 no projeto “Valores da terra”, da Prefeitura de Manaus, que jamais cumpriu o prometido, a edição do livro. Mas essa é uma outra história. De terror.
A informação que temos, pelo que se depreende do texto: a expressão é de uma mulher, desesperada pela ação de um sujeito chamado Joca. Sua fala fragmentada reflete seu espírito despedaçado. Um caso passional, sem dúvida, embora não saibamos nada de concreto; uma traição, talvez. As palavras são significativas: “estou partida” separada de “ao meio”, para enfatizar o vocábulo seguinte – “rachada”; manifestação de descrença; ênfase no tempo – de convivência?; e finalmente a pergunta fatal, fazendo um juízo de valor.   
Em ambos os casos, a intensidade do que não foi dito, circunscrito nas elipses, enseja uma outra leitura ou leituras do meramente textual.
Adrino Aragão sintetiza essa nossa dúvida em um microconto:
– matou por amor! eis aí um conto em apenas três palavras.
– poderia também ser “viveu por amor”, não poderia?
– talvez até pudesse; mas aí o conto não seria conto, por lhe faltar algo mais, que eu não saberia explicar.
– ué!? (2006, p. 121)

Este conto, “apenas três palavras”, problematiza toda a nossa discussão: “matou por amor” traz em seu cerne a carga da tragédia, a intensidade transformadora; “viveu por amor” não tem pathos, não tem a energia necessária para transformar o textual em algo além das aparências.
O nanoconto, que já dissemos mordaz e ferino, pode ser também uma caricatura – uma imagem distorcida, como este, de Allison Leão:
vinte quilos depois, acabou com o casamento. o diabo é a aliança emperrada no dedo gordinho.
(romance possível romance xi)
Ou visionário, como este, do mesmo autor, que leva a reflexões muito atuais sobre sustentabilidade, armas nucleares, guerras:
na planície radioativa, uma barata sai pelo olho do último crânio humano. limpa uma antena na outra. e segue.
(skabrática 8)

O nanoconto pode encerrar uma carga poética, tensionando o textual – mais uma vez, peço vênia para mostrar um texto meu:
João não gostava de domingos. Criança, o dia se estendia até após o almoço, quando todos se recolhiam, esperando, morbidamente, pela segunda-feira. Mais tarde, adolescente, o domingo começava e terminava junto com o Fantástico. Só fora diferente enquanto Maria estivera por perto: domingo era dia de festa, acordar com a madrugada e dormir bem tarde. Agora, que Maria foi embora, João contempla o infinito, ouvindo o barulho do sol deslocando-se no céu da tarde de domingo.
(Domingo à tarde)

Observe-se que o texto é montado sobre elipses, com o tempo mostrado em quadros de um filme que é avançado numa velocidade superior à de uma exibição ordinária, até o desfecho poético, ilustrando o absurdo tédio dos domingos, na perspectiva do narrador.
Por fim, o nanoconto pode ser encontrado na rua, pintado em um muro, anônimo:

Mãe, me desculpe por não ser o filho que a senhora sonhou, mas lhe garanto, se ele fosse como a senhora sonhou, o sonho dele era ser como eu sou.  

Há alguns meses, substituíram essa beleza de pichação por uma idiota propaganda de fatfood  comida gordurosa para gente mal-educada.

Este texto, de autoria desconhecida, que eu achei pichado em um muro do bairro onde moro, ilustra o que é o nanoconto: um texto paradoxal, elíptico, poético, denso, intenso. Há uma história que caberia por certo em um romance, atrás dessas 30 palavras. Mas o que temos aqui é um garoto cheio de si, reconhecendo que falhou, na perspectiva de sua mãe, mas que ele, irônico, seguirá em frente, sem culpas ou desculpas. 
Sem outra alternativa, concluo que a diferença entre o microconto e o nanoconto está na carga de tensão que este tem a mais que aquele, seja do ponto de vista dramático, cômico-caricatural ou poético. Mas se não temos como medir a intensidade, confiemos no discernimento do leitor. Será que ele tem interesse em ser o vetor dessa discussão? 

Para ler outros nanocontos de Allison Leão, clique em skabrática, romance, possível romance ou pedra mística.

Sejamos luz - novo livro de Júlio Antonio Lopes



Os poderes laicos e religiosos disputando a caridade milionária



João Bosco Botelho

Os doentes cada vez mais numerosos em consequência do avanço das doenças infecciosas, na primeira metade do século 15, inclusive a peste negra, eram internados em lugares conhecidos como “Xenodochium pauperum, debilium et infirmorum” (Hospital dos pobres, dos fracos e dos enfermos), administrados pela Ordem dos Hospitalários de São João, dos Antoninos e do Espírito Santo.

No medievo europeu, quanto maior a miséria coletiva, maior o chamamento à caridade. Portugal, particularmente castigado pela peste negra, em mais de vinte surtos registrados entre 1188 e 1496, junto às guerras intestinas da nação portuguesa, o quadro desolador se mostrou tão desesperador que o enterro dos mortos se tornou impossível; os cadáveres acumulavam-se por toda parte, dando um aspecto da chegada do fim dos tempos e o cumprimento das previsões apocalípticas.

A lepra, um dos flagelos que assolavam o homem medieval, não distinguia ricos e pobres, poderosos e despossuídos. A desfiguração causada pela doença repugnava o doente e a família, não só pelo aspecto grotesco da deformidade, como também pelo medo de contrair a enfermidade. Os leprosos, desamparados pelos familiares, tornavam-se itinerantes e rumavam munidos de catracas, anunciando a passagem, à procura da ajuda divina nos muitos santuários milagreiros anunciados pela Igreja. A maior parte deles morria da fome ou das complicações da doença, enquanto outros ficavam pelo caminho nas albergarias que os aceitavam.

Por acolherem os leprosos em maior número, esses lugares, com o passar dos anos, ficaram conhecidos como leprosários.

Nenhuma doença poderia simbolizar melhor a atenção que Jesus dedicou aos doentes quanto a lepra. Os leprosos foram escolhidos no Terceiro Concílio de Latrão (1179), sob o pontificado de Alexandre III (1159 -1181), para receberem tratamento especial dos cristãos; ao mesmo tempo, foi reprovado o isolamento a que eles estavam submetidos pela sociedade. A Ordem de São Lázaro foi criada para dar cumprimento às ordens conciliares e o grão-mestre deveria ser sempre um leproso.

Não se deve estranhar que o pano de fundo das caridades patrocinadas, corporações, confrarias e irmandades tenha sido também a obtenção de vantagens pessoais, financeiras e políticas para os envolvidos nas edificações. Essa afirmação ganha suporte no fato de que D. Pedro, em 1420, escreveu ao seu irmão D. Duarte, sugerindo a intervenção real na administração das hospedarias, como alternativa para reabilitar a debilitada economia do reino, cujas reservas foram gastas nas guerras e o pouco arrecadado era consumido pelos fidalgos.

É fácil de compreender o interesse por essas instituições, tanto das ordens religiosas como da corte portuguesa. As ordens religiosas devem ter sido mais ágeis para dirigir o produto monetário da caridade aos cofres eclesiásticos, a ponto de a situação ter ficado insustentável, causando prejuízo à arrecadação do reino. A reação foi imediata. Por ordem de D. Duarte e publicada nas Ordenações Alfonsinas de 1446, foi decretada a interdição real nas albergarias, determinando que todos os legados que fossem doados às irmandades deveriam passar pelas cortes civis e não mais pelos tribunais religiosos.

Essa providência interrompeu, em Portugal, um aspecto rendoso da caridade cristã, porque proporcionava o recebimento de vultosas quantias em doações e heranças dos súditos bem intencionados.