quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria
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Victoria Frances.
drops de pimenta 38


─ Passar as férias no interior, de novo, não!

─ Não vai me dizer que você quer ir pra Miami, ou Caribe... Pra Grécia, que é mais chique...

─ Você não tá entendendo: Alter do Chão, Salinas, até São Luís... Mas, Autazes, de novo, não!


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os Sertões – uma tragédia brasileira (7/8)

Zemaria Pinto







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FLIFLORESTA Parintins 2009


Parintins recebe o Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), evento realizado em Manaus no ano passado e que, em 2009, ocorreu em também nos municípios de Itacoatiara e Careiro da Várzea.

Com o apoio da Prefeitura de Parintins, nos dias 26, 27 e 28 de novembro, escritores e artistas se dividem em palestras, debates, exposições e apresentações musicais que acontecerão na cidade. Esta edição do Flifloresta leva ao interior do Amazonas o contato com obras e autores da Amazônia e do Brasil. Ao mesmo tempo em que terá como referência a literatura, o Flifloresta patrocinará discussões e debates sobre questões relativas à leitura e a formação de leitores. O evento contará com a participação de grandes escritores brasileiros, como Guilherme Fiuza (autor do livro “Meu nome não é Jhony”), Thiago de Mello, Adriana Lisboa, Márcio Souza, Zemaria Pinto, Wilson Nogueira, Marcos Frederico Krüger, Dori Carvalho, Renato Farias de Carvalho, Jorge Bandeira, Ana Peixoto, Ivânia Vieira, Mazé Mourão, Abrahim Baze, Tenório Telles, dentre outros.

O evento acontecerá no Auditório do Parintins Convention Center, onde ocorrerá o Simpósio de Leitura, Café Literário e Sessão de Autógrafos, com a participação dos escritores convidados e intelectuais de Parintins. Como parte da programação será feita distribuição gratuita de livros na cidade, como forma de incentivar a leitura.

O Flifloresta é um Festival Literário concebido para ser um momento de celebração do livro, promovendo o encontro do autor com os leitores. Tem como meta ser um ponto de convergência e diálogo entre os artistas da palavra da Amazônia, enriquecido com a presença de escritores de outras regiões. O que fundamenta a sua existência é, portanto, a defesa do livro, a promoção da leitura e a luta pela construção de uma nova consciência social, fundamentada no conhecimento, nos valores estéticos e defesa da liberdade como condição para construção de um mundo mais justo e solidário.

Escritores e personalidades ligados à literatura são convidados para participar de mesas temáticas, palestras, debates, lançar e autografar suas obras durante o Festival.
Meditação no Himalaia – pequeno diário de viagem II
Marco Adolfs


Já estou no terceiro dia de intensas meditações através de práticas mântricas também intensivas. Aqui no Tibete a meditação tem um sentido de repetições sonoras que vão da exaustão até o silêncio total. Como se do princípio de tudo, o Big Bang interno, viesse o Universo aparentemente silencioso. Mas, quando tudo isso termina, desço de volta a Lhasa para comprar alguns alimentos e acessar a Internet. Afinal, sou um ocidental ansioso, antes de tudo. Depois, volto-me novamente para dentro de mim, no sentido de desligar-me do mundo exterior e encontrar o meu centro, sabe-se lá onde ele se esconde. Essa técnica, em sânscrito, é chamada dhyana. Tudo isso é obtido pela chamada dharana (concentração). Mas, o que o meu instrutor de olhos puxados, cabeça raspada e veste laranja me ensinou de mais interessante é que “um pensamento começa a partir do mais profundo nível de consciência e eleva-se através da total profundidade da mente, até que finalmente aparece como um pensamento consciente à superfície”. Com essas palavras ditas de forma tão cândida e segura, me senti como um mergulhador nas profundezas do mar. E talvez fosse isso mesmo o que eu enfrentava. Um mar interior, nunca antes navegado. Meu ser. Retirei-me então para a minha cela fria e comecei a meditar.

Lhasa, 15 de novembro de 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

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Carta ao Mestre
Tenório Telles


Vivemos sob um tempo de descrença, desafiador para a vida, especialmente para os homens de boa vontade e para aqueles que conservam, no ser, o fogo da esperança. É nesses momentos, entretanto, que somos postos à prova, que nossos valores e princípios são testados. A verdade é que, nessas travessias, precisamos ser fortes, determinados e não perder o entusiasmo.

Os momentos de crise são oportunidades de aprendizagem e mudança. São situações em que somos sacudidos e provocados a agir... enfrentar o destino e suas circunstâncias. Nesses momentos é que os seres humanos, dotados de capacidade de resistência e realização, florescem e se fazem exemplo. Essas reflexões me surgiram após a leitura de uma carta dedicada, por uma aluna, a seu professor. Fui tomado por forte emoção e a minha fé se reanimou com as palavras dessa jovem: palavras de gratidão ao seu Mestre, pelos ensinamentos e exemplo de força e perseverança. Penso que, nestes dias de sombra e brutalidade, a história desse Mestre e sua discípula é exemplar: a vida não está perdida e fica a certeza de que a educação é o caminho para a redenção social do homem. Por isso, o desejo de partilhar, com você, leitor, essa experiência edificante e transformadora:

“Querido Mestre: Há muito planejo escrever-te para agradecer a linda carta que me enviaste. Agradecer pelas maravilhosas recordações que suas palavras me trouxeram. Não que precisasse delas para relembrar as lições de vida que me ensinaste, mas me fizeram “ouvir” novamente a tua voz, que tantas vezes tocou nossos jovens corações de maneira tão profunda. Não exageraste ao nos dizer que a vida era dura e que não tinha espaço para os fracos. Tu apenas tentaste nos passar as tuas experiências de vida, para que quando chegasse a nossa vez de enfrentar a dura realidade, não viéssemos a sofrer mais do que o necessário.

Lembras de mim como uma jovenzinha estudiosa e responsável... os anos se passaram e graças aos teus ensinamentos, Mestre querido, pude amadurecer trazendo sempre comigo as sementes de força e perseverança que plantaste em minha vida. Alguns poderiam achar que as tuas lições eram duras demais, mas hoje sei que, sem elas, não seria parte do que sou agora, alguém que busca constantemente superar os obstáculos que a vida impõe, e não são poucos, Mestre, não são poucos...

A cada dia, no exercício da magistratura, vejo quão valiosas foram as tuas palavras sobre honestidade e humildade. Não vou deixar que o poder se apodere da minha alma, e, para isso, a melhor forma é exercitando o bem para me tornar uma pessoa melhor... uma pessoa do Bem! Aquelas experiências que vivemos contigo, os recitais, as peças de teatro, as leituras selecionadas por ti em cada aula, as reflexões e debates... Tudo foi tão grandioso e importante para minha formação como ser humano. Não canso de agradecer-te por teres participado tão ativamente da formação e lapidação do meu caráter, que, sem dúvida alguma, é reflexo do teu próprio.

Tenho consciência de que a vida sempre trará novos desafios, mas podes ter certeza de que, ainda que não esteja preparada para algum deles, hei de lutar e vencê-los com a força que aprendi a buscar dentro de mim e na própria vida. Obrigada, Mestre querido, pelos grandiosos valores morais que nos passaste e que absorvi. Se hoje sou um ser melhor, dou graças aos teus ensinamentos, que carregarei comigo para toda vida. Sua aluna, Érika”.

domingo, 22 de novembro de 2009

Suplemento Literário Amazonas, um alternativo oficial
Zemaria Pinto*

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Foi no Suplemento, como nós o simplificávamos, que eu ganhei dinheiro pela primeira vez com a minha escritura. De lá para cá, é bem verdade, a contabilidade avermelhou na casa do sem-jeito. Mas valeu ter esperança.

Publicado de novembro/86 a outubro/88, o Suplemento Literário Amazonas − publicação mensal do Diário Oficial do Estado do Amazonas, como se informava em subtítulo, teve exatamente 24 números. Por dois anos, os abnegados Arthur Engrácio e Alcides Werk, este poeta, aquele ficcionista e crítico, escritores que dispensam apresentação, carregaram, aos trancos, o jornal, que acabou sem avisar o porquê. Nesses dois anos, o presidente da Imprensa Oficial era o poeta Alencar e Silva. Na dança dos nomes da Comissão Editorial, destacavam-se os poetas Jorge Tufic e Max Carphentier, e a professora Socorro Santiago.

Mas se não anunciou a própria morte, mantendo a dignidade de não lamentar o próprio fim, no primeiro número, penas afiadas, o editorial dizia ao que vinha o Suplemento: “(...) Sem qualquer sentimento menor. Nem de grupo. Nem de modéstia. Comprometido, antes, com o propósito maior de espelhar a realidade literária local, projetá-la, com vigor, como convém, no cenário cultural do País. (...) de modo a minimizar a desinformação dos nossos estudantes acerca dos autores amazonenses. (...) um novo tempo começará a correr para os artistas e escritores locais.”

E assim se passaram 10 anos. A “realidade literária local” não se projetou para além dos esforços de uns pouquíssimos. A “desinformação dos nossos estudantes” precisa ser dividida, menos que proporcionalmente, com a dos nossos professores. E quanto ao “novo tempo”, este só se realiza no futuro: é sempre o que há de vir; logo, há esperança, sim. Sempre.

O Suplemento Literário Amazonas foi francamente inspirado no Suplemento Literário Minas Gerais, criado, se não me faltam os neurônios, lá pelos anos 60. Outros suplementos existiam (ainda existem?) à sombra da estrutura que sustentava o Diário Oficial de cada Estado. O Nicolau, do Paraná, era, até uns dois anos atrás, quando dirigido por Wilson Bueno, a grande referência para um jornal literário de qualidade, encarando a Literatura como um problema universal, longe das intrigas paroquianas. Depois que o Bueno saiu, percebe-se a queda na qualidade do papel, além de um doce retorno a um conservadorismo que, longe de negar os avanços da vanguarda, coloca-se à disposição da História, como alternativa. Afinal, é desse vaivém que se faz a Literatura, no entrechoque das gerações. Ainda é o Nicolau.

A trajetória do Suplemento Literário Amazonas ao longo daqueles 24 meses mereceria ser analisada com mais vagar. Voltado inicialmente para o consumo interno, o SLA reúne em seus números iniciais, um bom grupo de consagrados intelectuais da terra, sem desprezar a colaboração dos mais jovens. Além do pessoal “de dentro” do jornal, cujos nomes já estavam no expediente, há colaborações de Mário Ypiranga Monteiro, decano dos historiadores, e dos poetas Elson Farias, Guimarães de Paula, Ernesto Penafort e Antísthenes Pinto, entre tantos.

Quem folheia os velhos exemplares a essa distância, sente falta de um mínimo de esclarecimento sobre alguns autores, prática que só viria a ser adotada lá pelo oitavo número, quando as colaborações começam a chegar pelo correio, dos mais diferentes pontos do Brasil. O SLA trocava sua cor levemente provinciana por um tom algo mais cosmopolita. Mas sem exageros. Capas dedicadas a Borges, Rilke e Huidobro traziam em suas entranhas textos maduros de José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Walmir Ayala e Alcides Buss, entre outros, além da velha prata da casa. Todos muito distantes daqueles oito ou nove escritores “oficiais” do Brasil Grande, com cadeira cativa na Folha, no JB e na Veja. Equívocos, havia muitos. E nem poderia deixar de ser. Provincianos. Poemas muito ruins de uns, textos inúteis e vazios de outros, vagidos patéticos de terceiros, ou, ainda, os arroubos juvenis de um certo José Maria Pinto...

Pelo que me conta Alcides Werk, secretário-timoneiro daquele barco bêbado, as correspondências eram tantas que, da tiragem, que chegava aos três mil exemplares, pouco mais de quinhentos ficavam por aqui, sendo o restante distribuído entre universidades, entidades culturais, jornais e suplementos literários, além de escritores, de nomeada ou não. Quer dizer, por falta de uma tática consistente para atrair o público-alvo inicial, este foi trocado por uma elite, formada de bons leitores, mas que não ajudava em nada no fomento da literatura amazonense. Em compensação, o Brasil descobria o Amazonas. Um Brasil marginal, alternativo ao Brasil da grande imprensa e da televisão, mas Brasil também. Como nós.

Depois do SLA, os zines. Mas esta é uma outra história que a modéstia me impede de contar. Impossível, entretanto, é não fazer um paralelo entre o Suplemento e O Muhra, jornal recém-lançado pela Secretaria Estadual de Cultura. Aprendendo com os erros daquele, este pode recuperar o tempo e o espaço perdidos, em busca de sedimentar esta cultura que se intimida consigo mesma, mas que, subterrânea, submersa, maldita, manifesta-se à margem, como alternativa à mediocridade oficial.

Somos apenas uma parte da cultura brasileira, mas somos o todo da cultura amazonense, e precisamos assumir isso: nenhum ajuntamento, grupo ou sociedade sobrevive sem uma identidade própria. Qual é a nossa?

(*)Publicado, talvez no Amazonas em Tempo, em 1998 (eu acho).

sábado, 21 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria
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Bruce Pennington.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

o pássaro (i)


e o menino, no último esforço, ouviu o canto soturno do pássaro na tarde cinza.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Os poemas são realidades humanas; não basta referir-se a “impressões” para explicá-las. É preciso vivê-las em sua imensidão poética.
(Bachelard, in A poética do espaço)
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Gaston Bachelard (1884-1962).
Uma tela na parede é lançado em Manaus



O escritor Renato Augusto Farias de Carvalho lançará no próximo sábado, dia 21 de novembro, às 10 horas, na Livraria Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro) o livro de memórias romanceadas Uma Tela na Parede.

Irmão do poeta Carlos Farias de Carvalho, integrante do Clube da Madrugada, Renato viveu parte da sua juventude em Manaus. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde formou-se em Letras e construiu a sua carreira literária em Niterói, onde vive há 30 anos. As palavras grafadas por ele neste romance fluem por um ideário semelhante ao proposto por Octavio Paz em relação ao poema simbolista e ao quadro cubista – “o visível revela o invisível”.

Desde as primeiras linhas, as palavras visíveis vão desenhando um invisível mundo de grande sensibilidade: as confissões feitas ao sabor das águas do velho Rio Amazonas, os igarapés de Manaus e personagens verdadeiramente insólitos – Dona Myrtes, Tenâncio, Maria Helena da Chapada e tantos outros... não compõem apenas uma história, mas, ao reverso, dão cor à imaginação, pintando-a com tintas literárias, filosóficas, sociológicas, históricas, geográficas, todas com engenho e arte.

O leitor embarca literalmente num sem-número de viagens – ao Rio de Janeiro, a Lisboa, Berlim, Roma e a muitos universos interiores. Um ir e vir com instantes fantásticos, ao embalo de poemas de Cora Coralina, além de um pouso numa casa mística em Niterói.

Dentro desse tom, Renato Augusto, até nas entrelinhas, vai dizendo para o leitor: “Nossos personagens ‘vivem’ onde moram as imagens mais íntimas, resguardadas por uma benevolente estrutura gravada no sólido eu-mesmo de cada um. De repente, a gente tropeça. Um chão se anula. E os personagens se extinguem nas fendas”. Fendas de onde saem, ou entram, vidas e vidas que, por instantes, aspiram à felicidade. Vivos e mortos, seres eternizados, numa tela na parede. Imagens em palavras, palavras em imagens, telas dinâmicas em narrativas que permanecem quando se chega ao colorido verbo do final do livro. Uma tela na parede merece destacado lugar na galeria dos grandes romances.


Sobre o autor

Renato Augusto Farias de Carvalho nasceu em Manaus/AM no dia 30 de junho de 1935. Em sua terra natal, estudou no Colégio Salesiano Dom Bosco. Na cidade do Rio de Janeiro/RJ, para onde se mudou em janeiro de 1952, continuou seus estudos no Colégio Andrews, tendo participado do Grêmio Acadêmico, que ajudou a fundar. No início de 1978, passou a residir em Niterói/RJ. Graduou-se em Letras (Língua e Literatura – Português/Francês) na então Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE). Pós-graduou-se em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas. Exerceu diversas funções e cargos na Previdência Social (Direção Geral – RJ), aposentado-se em 1989. Ocupante da cadeira nº 6 da Academia Niteroiense de Letras, também é membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras e da Associação Niteroiense de Escritores.

Publicou os seguintes livros: Porto de Ocasos (ficção/memórias. 1998. Editora Cromos), Poesia-do-que-eu-quis (poemas. 2002. Editora Cromos) e Vinho e Verso (poemas. 2005. Ed. Valer). Entre as diversas medalhas já recebidas, destacam-se a José Cândido de Carvalho (conferida pela Câmara Municipal de Niterói) e a do Mérito Cultural Belas Artes (conferida pala Associação Fluminense de Belas Artes). Participou, como entrevistado, do projeto “Personalidades de Niterói”, iniciativa da Associação Atlética do Banco do Brasil – AABB/Niterói. Autor dos enredos carnavalescos “Jorge Amado – do País do Carnaval à Tieta do Agreste” (1978) e “E agora malandro? – Você ganhou a loteria!” (1979), desenvolvidos para Escolas de Samba de Niterói, e de monografia sobre o Clube da Madrugada (movimento cultural de escritores amazonenses nos anos 1950). Das muitas palestras proferidas, destacam-se: “Teatros do Brasil” (participação de Beatriz Chacon e Thuany Feu de Carvalho), “Fagundes Varela”, “Cora Coralina e Manoel de Barros (participação de Gracinda Rosa e Lena Jesus Ponte), “Xavier Placer, 50 anos de literatura”, “Adelino Magalhães, e o pré-modernismo”, “Cora Coralina e Florbela Espanca, um encontro tão possível”, “Articulação poética aproximando Luiz Barcellar e Jorge Tufic” e “Lindalva Cruz e suas composições amazônicas”. É autor de contos e crônicas publicados em jornais e revistas e de alguns prefácios. Possui textos em antologias.
Corpo, saúde e doença na filosofia grega

João Bosco Botelho

Medicina hipocrática, até hoje preservada.

As idéias médicas estruturadas na tríade — diagnóstico, tratamento e prognóstico — apareceu com clareza, no pensamento grego, no século 4 a.C., de forma tão bem sedimentada que influenciou, marcadamente, os caminhos tomados pela Medicina ocidental nos vinte séculos seguintes.

Naquela época, o médico assumiu atributos mais amplos, reconhecido como um dos especialistas sociais que poderiam contribuir na edificação do pensamento coletivo, sem dúvida, transpondo as funções históricas somente centradas na cura das doenças, presentes em muitas sociedades, tempos antes da polis grega.

Por essa razão, alguns médicos destacaram-se na busca de explicações sobre aspectos visíveis do funcionamento do corpo, isto é, novos entendimentos da saúde, sem dependência da vontade dos deuses e deusas, sob a égide do entendimento jônico da natureza visível. Um desses homens extraordinários, o medico e filósofo Empédocles, utilizou a clepsidra para ilustrar a teoria da respiração formulada por ele, segundo a qual o corpo transpira por meio dos poros, espalhados na superfície da pele. Esse pressuposto teórico, absolutamente genial, continua válido!

A influência jônica, buscando a materialidade dos fenômenos corporais, mais ou menos visíveis, foi tão intensa que a maior parte da literatura médica da época foi registrada em prosa jônica, apesar de ter sido escrita na ilha de Cós, de população e língua dóricas, onde floresceu a Escola Médica de Hipócrates. Esse fato por si só, retrata a relevância da cultura jônica naquele tempo.

Não há dúvida de que a importância social do médico, na Grécia, como o principal agente na busca da saúde já era reconhecido, coletivamente, desde Homero, que sentenciou no magistral Ilíada: “O médico vale por muitos homens”. A mudança dessa abordagem mítica do médico, ligada ao panteão, especialmente em Apolo e Asclépio, presente tanto nos versos da Ilíada quanto nos da Odisséia, para aquela valorizando os princípios jônicos, contribuiu para consolidar o destaque social do médico sob outra perspectiva: a busca da relação do corpo com a natureza, referida de diferentes modos por Platão (Protágoras 313D, Górgias 450A, 517E, República 298A e Timeu 78B).

Os vínculos da Medicina com a natureza, tão bem assimilados pelos gregos, claramente, ultrapassavam o senso histórico da cura das doenças e fixavam regras no conjunto social, objetivando a melhoria das condições de saúde. Essa afirmação também pode ser comprovada em Sólon, que descreveu a conexão das doenças ao todo social. Baseado nesse pressuposto, Sólon fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiram na qualidade da saúde coletiva.

De modo semelhante, os elos entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante também estão nítidos na introdução do livro Dos Ventos, Águas e Religiões, de autor desconhecido, escrito nesse magnífico período:

Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro luga,r deve ter presente as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais, mas diferem radicalmente quanto à sua essência especifica e quanto às suas mudanças.

Por todas essas razões, parece razoável afirmar que um dos pontos fundamentais da Medicina grega, no século 4 a.C., firmou-se na filosofia jônica da natureza, como meio de explicação da saúde e das doenças, sem a influência das ideias e crenças religiosas.

Parece lógico pressupor que como uma das consequências dessa influência jônica, floresceu a Escola de Cós, que congregou médicos e filósofos, sob a influência de Hipócrates, em quem Platão reconheceu a personificação da Medicina.

Hipócrates foi realmente respeitado como símbolo de uma Medicina corretamente aplicada, essencialmente, voltada ao bem-estar e à recuperação do enfermo, como está claro nas conhecidas passagens de Platão (Prot.313 B-C e Fedro 270 C) e de Aristóteles (Pol. VII, 1326).

O aparecimento de uma literatura médica específica, discursiva na busca das condutas que poderiam melhor ajudar o doente, mostrou-se importante no desenvolvimento e aceitação da importância da Medicina nas relações sociais. Nesse sentido, tornou-se fundamental a interpretação do papel social do médico registrada por Platão (Leis, 857 D e 720 C–D), onde abordou as terríveis diferenças entre as Medicinas praticadas nos escravos e nos homens livres. Com arguta percepção, o magistral filósofo descreveu de modo satírico a conduta dos médicos que tratavam os escravos, correndo de um doente para o outro e oferecendo instruções rápidas sem convencimento, com os que atendiam os homens livres, sempre bem remunerados, com tempo disponível para explicar cada etapa do tratamento preconizado.

O interesse pelo saber das matérias médicas, presentes no homem culto grego, pode ser compreendido na figura do jovem Eutidemo, que Xenofonte descreveu como grande entendido da Medicina sem ser médico, e do historiador Tulcídides, que relatou com incrível minúcia o quadro médico-social da peste que assolou Atenas entre os anos 430 e 427 a.C.

Aristóteles vai longe e chega a distinguir na sua obra Política (I, II, 1282), o médico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar nas suas funções especificas.

Esse conjunto de informações é suficiente para afirmar a existência de uma literatura médica que alcançava os letrados da polis. Nesse conjunto, também é possível perceber a complexa interdependência entre os conceitos produzidos pelos filósofos não médicos e pelos médicos. Algumas vezes, estavam em acordo; em outras, em completa discordância.

A compreensão mútua, perceptível entre médicos e filósofos, de que a saúde era o produto do equilíbrio de várias forças antagônicas no organismo, contribuiu para consolidar outra corrente de pensamento, liderada por Políbio, o genro de Hipócrates, que, sob a influência da idéia dos quatro elementos de Empédocles — fogo, ar, água e a terra — e da noção do justo equilíbrio, proposto por Anaximandro, produziu a teoria dos Quatro Humores — sanguíneo, linfático, bilioso amarelo e bilioso negro — para explicar as causas da saúde e das doenças. A teoria dos Quatro humores, atribuída a Políbio, descrita no livro Da Natureza Antiga:

O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra; que estes elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sentem e pela saúde que se goza. A saúde atinge o seu máximo quando estas coisas estão na devida proporção em relação uma às outras, no que toca a sua composição, força e volume além de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando há excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturada com as outras.

O autor desconhecido do livro Da Natureza Antiga discorda do dogmatismo a priori da filosofia de que todas as doenças são formadas pelo excesso de calor, frio, secura ou humanidade. No Corpus Hipocraticum (cap.XIII), o autor também sem identificação, usando como argumentos teóricos os quatro elementos de Empédocles e a teoria dos Quatro Humores, argumenta sobre o mesmo assunto:

- Que no caso de um doente afetado por uma alimentação cozida, não é possível dizer se a causa foi o calor, se o frio, se a humanidade ou a secura;
- Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou leite quente e a água o vinho e o leite têm propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor.

Em torno dessa discussão dos acordos e desacordos entre filósofos e médicos gregos no século 4 a.C., é possível entender a teoria dos Quatro Humores como o primeiro corte epistemológico da Medicina, antepondo-se frontalmente às práticas médicas, sob a tirânica influência das idéias e crenças religiosas, nas primeiras cidades, margeando os rios Nilo, Indo, Tigre e Eufrates.

A teoria dos Quatro Humores norteou os rumos da Medicina dominando as técnicas dos diagnósticos e das terapêuticas por quase dois mil anos.


Afrescos do séc IV a.C.: retirando os maus humores.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Célio Cruz lança o CD Floresta Minha

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Após quinze anos sem lançar um trabalho solo, o músico Célio Cruz apresenta o CD Floresta Minha - coletânea de canções amazônicas, o segundo álbum de sua carreira. Segundo o artista, esse disco é um trabalho feito à mão, costura a costura, artesanal, com composições em parceria e canções de outros compositores, representando ao todo cinco Estados da Amazônia: pelo Amazonas, Célio Cruz, Sérgio Albuquerque, Torrinho e Luiz Bacellar; pelo Pará, Nilson Chaves e Carlos Correia; pelo Acre, Sérgio Souto e Amaral Maia; pelo Amapá, Enrico di Miceli e Joãozinho Gomes; e por Roraima, Armando de Paula, João Aroma, George Farias e Zeca Preto.
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As músicas do álbum são todas cantadas por Célio Cruz, com a participação especial do compositor e cantor cearense Eudes Fraga. Neste ano, o músico amazonense comemora 25 anos de estrada artística e, de acordo com ele, esse disco "representa também a comemoração da música na minha vida".
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Respondem pelos arranjos os compositores e músicos Minni Paulo Medeiros e Humberto Araújo, com o auxílio luxuoso de músicos destacados de Belém do Pará e do Rio de Janeiro, completando a alma e a intenção de brasilidade da música resultante, apesar do bandolim e do violão de sete serem tocados por um argentino: René Rossano. O engenheiro de som também é argentino: Javier Nasceu.
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Célio afirma que o álbum Floresta Minha contém músicas bem diferentes do que se ouve nas nossas rádios e mergulha na alma de um Brasil ainda desconhecido, amazônico, mas universal: "Tom Jobim disse certa vez que 'quem quiser ser universal que fale sobre o seu quintal'; pois é sobre isso que falo neste novo trabalho - sobre omeu quintal". "O pedaço mais verde do Planeta", como disse e escreveu o poeta Thiago de Mello.
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"Este CD é uma árvore, um rio, um bicho, vistos de dentro, e confessados para corações abertos, e olhos e ouvidos atentos", diz o músico.

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LANÇAMENTO DO CD FLORESTA MINHA, DE CÉLIO CRUZ

DATA: QUINTA-FEIRA, 19/11

HORÁRIO: 19H30

LOCAL: SARAIVA MEGASTORE / MANAUARA SHOPPING

ENTRADA FRANCA

Fantasy Art – Galeria

Robo Bird.
Julie Bell

drops de pimenta 37


─ Mais uma noite de sábado em casa?
─ A gente assiste à TV, toma uma cervejinha...
─ Só se o controle remoto ficar comigo!

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Os Sertões – uma tragédia brasileira (6/8)
Zemaria Pinto







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Meditação no Himalaia – pequeno diário de viagem I
Marco Adolfs


Cheguei ao Himalaia, como estava previsto, para uma série de meditações, com orientação de um guia. Era uma quarta-feira cinza, de nuvens baixas e carregadas, quando entrei no enorme mosteiro Tibetano que mais parecia ser um hotel. Caminhando por um extenso corredor repleto de celas, reparei que nas mesmas havia em seu interior um turista branquelo como eu, com o mesmo intuito de meditar e que também tinha desembolsado alguns milhares de dólares para passar por isso.

Meu corpo sentia a pressão da altitude: um formigamento que me subia pelas pernas com a cabeça começando a doer. Mas não liguei muito para isso, face às novidades daquele mundo fascinante. Recepcionado por um monge, adentrei a minha cela apenas com a minha mochila de roupas e este note-book inseparável, meu único contato com o mundo exterior. Lá fora, eu conseguia divisar uma parte da Cordilheira do Himalaia, a mais alta cadeia montanhosa do mundo. Fiquei sabendo que o nome Himalaia vem do sânscrito e significa "morada da neve". E isso era também preocupante, já que o frio era perturbador e parecia querer entrar nos meus ossos. Pensei então e rapidamente: como é que eu conseguiria meditar em meio às essas paredes geladas e com tanto frio? Liguei este note-book e comecei a escrever, esperando a reunião convocada para daqui a trinta minutos. Não preciso dizer que tremia de frio com as pontas dos dedos enregelados.

Lhasa, 11 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Wilson Nogueira e a Amazônia
Tenório Telles
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O cientista Djalma Batista entendia a Amazônia como uma esfinge a ser decifrada – tarefa que só seria vencida com a elaboração de um saber adequado às especificidades regionais. Defendia, nos anos 70 do século passado, a necessidade de se promover ações educativas capazes de proporcionar o preparo técnico e científico que permitiria o aproveitamento sustentável de sua biodiversidade.

Nesse empreendimento de decifração do universo amazônico, os estudos sobre os processos culturais na região têm ajudado a desvelar a complexidade das manifestações artísticas e o simbolismo da festas populares como fatores fundamentais da constituição da identidade regional. Prova disso são as reflexões de pesquisadores como João de Jesus Paes Loureiro, Benedito Nunes, Márcio Souza, Renan Freitas Pinto, Marilene Corrêa, Edinea Mascarenhas Dias, Neide Gondim.

O livro Festas amazônicas, de Wilson Nogueira, é tributário dessa nova realidade reflexiva sobre a Amazônia, em que o debate sobre a identidade, a cultura e as questões socioeconômicas tem ocupado o foco de estudiosos de diversas áreas do conhecimento. A visão expressa pelo autor desta obra não se encerra na análise unilateral do tema enfocado, mas amplia-se para uma perspectiva que engloba o regional e os desdobramentos do globalismo: “A Amazônia hoje, como natureza, sociedade e cultura, é, também, o resultado do processo histórico de expansão do modo de produção capitalista e das suas formas de intervenção: mercantilismo, colonialismo, imperialismo, internacionalismo e globalismo”.

Wilson Nogueira suscita elementos novos em suas reflexões sobre o processo cultural amazônico, problematizando as festas regionais em suas vinculações com as demandas econômicas, ao mesmo tempo em que “verifica as relações das festas populares com o mercado capitalista na Amazônia”, fundamentando seus argumentos “na confluência da história, da economia, da sociologia, da antropologia e da comunicação social”, associando-os à sua sensibilidade e olhar de “pesquisador participante”.

A pretexto de estudar as manifestações populares mais expressivas da Amazônia, o escritor, na verdade, empreende uma acurada reflexão sobre a complexidade e as contradições decorrentes do choque das demandas impostas pelo capitalismo e o universo simbólico das populações amazônicas, fato que não passou despercebido ao olhar da professora Marilene Corrêa que, ao comentar o trabalho, enfatiza o fato de o autor ter escolhido “olhar a Amazônia por meio de suas festas populares”. O livro de Wilson Nogueira é revelador sobre os processos socioculturais em curso no espaço regional, que ajudam a revelar a esfinge, decifrando-lhe os segredos, enigmas e perspectivas de futuro. Pela seriedade e rigor de seu trabalho reflexivo, com foco na realidade regional, Nogueira constrói sólida reputação intelectual e se destaca como pesquisador comprometido com os problemas e o futuro da Amazônia.

domingo, 15 de novembro de 2009

Apresentação dos livros Só a Educação Transforma os Povos, de Araújo Lima, e Em Memória de Paulo Jacob, de Armando Menezes
Zemaria Pinto*

Armando de Menezes autografando o livro Em Memória de Paulo Jacob.

Começo por agradecer a generosidade de uma das poucas pessoas que conheço que ainda não perderam essa qualidade: o meu irmão Tenório Telles. Eu, que sempre fiz minhas as suas palavras, tenho-o agora falando por mim. Estou certo de que esta breve alocução não provocará nenhum constrangimento no Tenório, pois estaremos, no plural, falando de um livro de Araújo Lima, sobre o qual ele escreveu apaixonada resenha, e de um outro livro do nosso irmão querido Armando de Menezes. Por intermédio da Editora Valer, o Tenório é co-responsável por essas edições, que a nossa Academia dá hoje à luz.

Pois nos reunimos, nesta noite de agosto, para entregar ao povo do Amazonas, aqui representado por essa digna plateia, dois trabalhos produzidos, podemos assim dizer, dentro da Academia Amazonense de Letras: Só a Educação Transforma os Povos, de Araújo Lima, fundador da Cadeira Nº 17 e patrono da Cadeira Nº 25, publicado pela primeira vez há mais de 70 anos, e Em Memória de Paulo Jacob, de Armando de Menezes, titular da Cadeira Nº 30, inédito. Busco mostrar a vocês, de modo breve, o que os espera quando da leitura desses trabalhos.

Só a Educação Transforma os Povos

Escrito em 1932 e publicado no ano seguinte, Só a Educação Transforma os Povos é um livro espantoso pela sua atualidade. Apesar de todos os avanços, a educação básica, até há pouco tempo chamada fundamental, outrora primária, continua sendo, senão o maior problema, um dos grandes problemas deste país. O quadro de setenta anos atrás era muito mais dramático, pois o Estado não se responsabilizava com a educação. Mudou a qualidade do problema, mas não mudou o problema.

Influenciado pelas ideias deterministas e positivistas de Taine e de Comte, Araújo Lima acreditava que o “aperfeiçoamento étnico e social” só seria possível pela via da educação. Modificando o meio, modificava-se a raça. Seu paradigma era o Japão, que, em 60 anos, “transformou-se em uma das grandes potências, emergindo de um feudalismo secular.” Os mais velhos, que não tiverem a devida intimidade com a história do Japão, não compreenderão a profundidade dessa frase. Mas os jovens, atentos às leituras dos moderníssimos mangás, sabem que, até a primeira metade do século XIX, o Japão vivia um período de total obscurantismo, correspondente à alta Idade Média européia. Numa leitura sociológica, os samurais são metáforas do atraso e não do heroísmo do povo japonês, como facilmente se costuma confundir.

Araújo Lima toma Rui Barbosa como ponto de partida para engendrar o seu raciocínio pela causa do ensino dito então primário, mas referido por nós como básico, usando-se a nomenclatura atual. Pois bem, o grande jurista, em 1882, 50 anos antes de Araújo Lima, traçou o plano da instrução básica nacional. O parlamento ignorou o erudito baiano. Fazendo uma analogia com os tempos atuais, podemos dizer que Rui Barbosa, a despeito de ser um intelectual de nomeada e por todos respeitado, perdia a luta política, quase sempre vencida pelos medíocres, que, não tendo vontade própria, deixam-se manipular pelo poder maior das forças inominadas, manipulando, numa cadeia maléfica, a debilitada vontade popular.

Amazônida, Araújo Lima bradava: “é este um país de desertos e de latifúndios.” Ele sabia que “a rarefação demográfica era o mais grave, o mais pesado obstáculo ao alastramento do ensino, por esse Brasil adentro, pelos sertões longínquos.” Com a tecnologia de hoje, meu caro Araújo Lima, não teríamos porque reeditar seu livro. Mas o fazemos porque, a despeito de todo o avanço tecnológico, o atraso mental persiste. E, o que é pior, na qualidade do ensino.

E esse não é um problema do governo L ou do governo F, como não foi do governo I, do C, ou do S. A chave para a solução do problema, o nosso querido Araújo Lima o sabia, era a conscientização popular, capaz de criar uma “mentalidade nova, propícia aos empreendimentos do ensino básico, organizando-se uma propaganda intensiva, tenaz, sugestiva, por todos os meios de publicidade e de divulgação oral; ou seja, pelo jornal, pela revista, pelo livro, pelo rádio, pelo cartaz, pelos avulsos, pelo cinema, pela conferência, pelo discurso, pelo comício, pela pregação em qualquer tribuna.” Para atualizar fala tão atual, só falta acrescentar “pela televisão, pela Internet e pelo telefone celular”...

Araújo Lima escreveu há mais de setenta anos um libelo que, para ser vibrado hoje, só precisaria de alguns poucos retoques. Porque, apesar de todos os avanços, o problema do ensino básico continua a ser tratado sem o merecido respeito.

Em Memória de Paulo Jacob

Não fosse por um claro anacronismo, diria que Sérgio Buarque de Holanda, ao elaborar a sua teoria do “homem cordial”, teria tido como modelo o querido Armando de Menezes. Armando é só coração. E por aí se desenvolve a principal vertente da sua literatura. Porque o memorialista é antes de tudo um amoroso. Não, eu não disse apaixonado. A paixão é violenta e por vezes cruel. Se o amor afasta-se do ódio por uma linha tênue, essa linha é a paixão. É a paixão que separa o amor do ódio, o bem do mal. Para o proustiano Pedro Nava, poeta da memória, “na reconstituição de memórias, nós levamos para o passado um lastro de presente que corrompe a nossa lembrança. Não sou historiador, sou memorialista. Trato de fatos que tenho a liberdade de interpretar, porque fui participante deles.”[1] Armando ergueu o edifício de sua obra em torno de três pilares: a lembrança, o amor e a simplicidade. A lembrança como matéria de trabalho. O amor como base da composição. E a simplicidade como expressão.

Conheci o Armando há pouco mais de um ano. Mas, ele não sabe, há mais de 20 ouço o Thiago falar dele. Eu, que sou por natureza retraído, só depois de conhecer o Armando compreendi a frase que o querido Thiago repete sempre: “a amizade é a mais alta forma de amor.”

Não faz muito tempo, o nosso presidente Elson Farias registrou, a respeito do Armando, que, entre as “inúmeras artes em que é mestre o nosso companheiro de Academia, a arte da amizade é a que ele exerce com a maior destreza e a mais clara sabedoria.”

Lembrança, amor, simplicidade. A matéria de trabalho. A base da composição. A expressão. Essa equação fica muito evidente – e sua comprovação, mais fácil – no livro que Armando nos entrega nesta noite: Em Memória de Paulo Jacob. A começar pelo título, objetivo, direto, simples, mencionando a memória como fio condutor: memória de um amigo, um grande amigo, como constatamos na leitura, que atravessara à outra margem do grande rio. Estas pouco mais de 50 páginas encerram um significado inestimável: uma homenagem póstuma, um ritual marcado, paradoxalmente, pela alegria que o amigo ausente provocava em vida, pela lembrança dos seus feitos e, em especial neste caso, pela lembrança de sua obra. E que obra, senhores! Pois estamos tratando de Paulo Jacob, um dos grandes romancistas brasileiros da segunda metade do século passado.

Armando de Menezes faz o elogio do amigo Paulo Jacob sem jamais cair na tentação das lembranças piegas. Como grande memorialista que é, dá-nos a mão e nos conduz desde a bucólica Parintins dos anos 30, ambos meninos, até o tambaqui dos sábados, no alvorecer do novo século na metrópole em que Manaus se transformou a fórceps, tempo que perdurou a amizade dos dois, sempre enfatizando o caráter observador de exímio criador de Paulo Jacob, capaz de identificar na fala do caboclo verdadeiros poemas, como no delicioso caso do rapaz que procurou o eminente juiz de direito para denunciar que alguém queria lhe tomar as terras, na qual trabalhava há tanto, justificando-se: “pois já tenho até limoeiro solfejando flores, dotô”. A poesia daquela fala tão simples e tão poética não escapou ao juiz nem ao romancista.

Armando de Menezes, com uma insuspeita veia de crítico literário, desvenda o processo criador de Paulo Jacob, cuja vivência no interior do Estado foi fundamental para forjar universo tão peculiar. Onde alguns vêem dificuldade na leitura dos romances de Paulo Jacob, Armando observa que “seus romances baseiam-se em histórias e lendas de origem no meio hinterlandino amazônico, num linguajar simples, igual ao do nosso caboclo, com o objetivo maior de projetar sempre as figuras do pescador, do caçador, do seringueiro, do agricultor, do artesão e, igualmente, da mulher, sem a qual esses bravos e heróicos homens nada conquistariam na vida.”

Ocupante da Cadeira nº 7 desta veneranda Academia Amazonense de Letras, que tem por patrono o poeta Maranhão Sobrinho, Paulo Jacob sucedeu ao lendário Álvaro Maia. Este livro originou-se da homenagem póstuma que a Academia prestou ao romancista então recém-falecido. O livro, que registra não só a conferência de Armando, como também o debate que se lhe seguiu, e muito especialmente as intervenções da Senhora Marilda Jacob, não é apenas a recuperação da memória do ilustre romancista, mas a cristalização de uma figura ímpar, que, já não estando entre nós, vive em nós, por seus livros imortais, e também agora, por esse ensaio-homenagem que lhe faz o amigo Armando.

Senhor Presidente, senhoras e senhores acadêmicos, senhoras e senhores convidados, crianças: nos meus quase cinquentanos, conheci poucas pessoas tão afáveis e sedutoras quanto esse jovem quase octogenário Armando de Menezes. Não seria exagero de minha parte – eu, que sou tão pouco afável – dizer que quando eu crescer, eu quero ser Armando de Menezes...

Muito Obrigado!

[1] Entrevista à revista Veja – edição de 17/04/74.


Capa da mais nova edição de Só a educação transforma os povos, de Araújo Lima.
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*Por estar o autor ausente da cidade, o texto foi lido pelo acadêmico Tenório Telles, numa noite de agosto de 2005, na solenidade de lançamento dos livros.

sábado, 14 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria
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Princesa Leia.
Tsuneo Sanda.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Armando de Menezes lança novo livro

Clique sobre a imagem, para ampliá-la.

Será lançado neste sábado, 14 de novembro, o livro Testemunhos e Memória nº 2, do acadêmico Armando de Menezes, que receberá seus convidados às 10h, no Espaço Cultural Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro).

O autor elabora seu testemunho sobre fatos, pessoas e acontecimentos que compõem os cenários de suas vivências. Este livro é uma evidência de sua preocupação com a existência. A obra é composta de fragmentos de vida, ilustrativa de sua relação com o mundo e seu diálogo com personagens que fazem parte de sua história.

galo de rinha


depois que lhe depenaram o pescoço, floresceu o canto rouco. daí que, agora, o galo das sonoras madrugadas reina, sob o alvoroço dos apostadores, nas manhãs de rinhas manchadas de sangue e esvoaçares de penas.

sua fama de galo brigador tem trazido adversários de muito longe.

temo que num desses dias trágicos o altivo galo não resista à fúria de galos mais novos, com seus esporões de aço e bicadas dilacerantes. e, com isso, a cidade mergulhe novamente no esquecimento.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UEA premiada

Sob a liderança do nosso colaborador, professor Doutor João Bosco Botelho, a equipe da UEA venceu o prêmio de melhor tema livre no 1º Congresso Online de Otorrinolaringologia.
(Clique sobre a imagem, para ampliá-la.)
Medicina na mitologia grega
João Bosco Botelho

Vênus de Milo, modelo grego de beleza - e de saúde.

A história das mentalidades assinala que a relação entre a Medicina e a compreensão mítica da realidade se perde no tempo. É impossível separar os muitos mitos relacionados ao entendimento que as pessoas fazem da saúde e da doença. É possível que esse pressuposto esteja vinculado ao apoio oferecido pelos mitos para apaziguar a angústia pessoal e coletiva nas sociedades que ainda não conseguem explicar de outra forma as contradições da vida e da morte.

É importante assinalar que os mitos com as respectivas metamorfoses nascem da relação com o mundo da natureza empírica, mas acima do meramente empírico.

As primitivas relações míticas do homem com outros animais, na pré-história, resultaram na valorização do sangue como o mais importante elemento simbólico. Posteriormente, depois do sedentarismo dos caçadores-coletores, o sangue foi substituído pelas novas relações com a terra cultivada, quando ocorreu o deslocamento dos mitos de origem em direção aos valores dos frutos da terra.

A lenda do guaraná dos índios maués, no Amazonas, tratando a fruta como remédio para todos os males, é um entre muitos exemplos de como os mitos de origem podem se relacionar com as mentalidades, sustentando, durante centenas de anos, explicações pontuais da saúde e da doença, da vida e da morte.

Nesse sentido específico, a construção dos mitos junto à terra cultivada contribuiu para fortalecer o uso das plantas na busca da saúde.

Muitos traços dessa mitologia passando do sangue à terra cultivada, como elementos essenciais à sobrevivência dos homens e das mulheres, evoluíram da Epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à gênese judaico-cristã, passando pela Yebá beló, a lenda dessana da criação do Sol.

Apesar da melhor compreensão da transformação do pensamento mítico e das incontáveis metamorfoses, a dificuldade da interpretação aumenta na proporção do tempo passado.

No Ocidente, a partir do século VI a.C., na Grécia, é possível construir, com alguma segurança, um perfil mítico da Medicina, em torno de metamorfoses que perduram até os dias atuais.

Na mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros; depois, foi identificado como Aplous, aquele que fala verdade. Esse deus curava as pessoas purificando a alma por meio de lavagens e aspersões e remédios obtidos das plantas medicinais. Por essa razão, Apolo era considerado como o deus que lavava e libertava o mal.

Um dos seus filhos, Asclépio recebeu educação do centauro Quíron para ser médico. A escolha do centauro não foi por acaso; ocorreu porque dominava os saberes da música, magia, adivinhações, astronomia e Medicina. Além dessas habilidades, Quíron possuía incomparável destreza: manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.

Nos muitos templos espalhados nos territórios sob influência grega, Asclépio, o deus da Medicina grega, era celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro.

Asclépio conquistou fama inimaginável: demonstrava a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Os doentes que não obtinham a cura em outros oráculos procuravam os milagres desse deus taumaturgo. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por ordem de Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, foi morto com os raios dos Ciclopes.

Asclépio deixou duas filhas e dois filhos. As filhas: Hígia, celebrada como a deusa da saúde perfeita; Panaceia, como vínculo das relações míticas com os frutos da terra cultivada, curava todas as doenças por meio das plantas medicinais. Os filhos, Machaon e Podalírio, os famosos médicos guerreiros, descritos por Homero, se destacaram recuperando a saúde dos guerreiros feridos na guerra de Troia.

Coube a Panaceia continuar a linhagem de médicos, fazendo do seu filho Hipocoonte, um médico famoso e ancestral de Hipócrates.

Existem muitas comprovações arqueológicas das dádivas de agradecimentos dos doentes para Asclépio. Especialmente, na ilha de Cós, onde floresceu a Escola Médica de Hipócrates, na Grécia, foram encontradas várias esculturas com o nome do doente a descrição da doença e da cura obtida. Outras esculturas contendo o nome de Asclépio, produzidas entre os séculos 6 e 2 a.C., contêm a serpente enrolada num bastão.

O simbolismo mítico da serpente ligado à Medicina já estava presente na civilização babilônica, dez séculos antes da formação da polis grega. Existe no Museu do Louvre, em Paris, um vaso de cerâmica encontrado na região de Lagash, representando o deus da cura babilônico – Ningishida – duas serpentes entrelaçadas.

De modo geral, os mitos que envolvem a serpente ligam-se à transcendência da morte. Entre as mais conhecidas explicações para entender a relação da Medicina com a serpente se destacam: a serpente pode viver em cima e embaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos, e a capacidade da serpente para mudar a pele de tempos em tempos, encenando o renascimento. Esta última interpretação está relatada no Rig Veda (1.79,1), no qual os Adityas são descritos como os descendentes das serpentes, que, ao perderem a pele velha, venceram a morte e adquiriram a imortalidade.

Após a conquista romana da Grécia, Asclépio foi latinizado como Esculápio e as festas de celebração desse deus curador foram mantidas no dia 18 de outubro.

Com a cristianização de Roma, a partir de Constantino, no século 4, as festas populares comemorando o poder curador de Asclépio, no dia 18 de outubro, continuaram e se espalharam na Europa cristã.

O poder eclesiástico romano, sem força para interromper essa festa greco-romana, decidiu que o dia 18 de outubro, marcado pelas celebrações de Asclépio e Esculápio, fosse associado ao nascimento de São Lucas, o Evangelista médico.

A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sincretismos da história da humanidade. A primeira, símbolo da imortalidade embaixo da terra; a cruz, como a representação do inatingível acima da terra, fecham o ciclo mítico pendular entre o desconhecido situado acima da cabeça e abaixo dos pés do homem.

É possível que alguns dos médicos que se reúnem, nos dias atuais, para festejar a Medicina no dia 18 de outubro, desconheçam que continuam celebrando Asclépio.
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Asclépio, com a serpente, e os filhos Hígia, Panaceia, Machaon e Podalírio.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Boris Vallejo.
drops de pimenta 36


─ Ah, não; mais uma sexta-feira com aqueles...
─ Aqueles?...
─ Aqueles “porres” é redundância, né?

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os Sertões – uma tragédia brasileira (5/8)
Zemaria Pinto













segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vinte anos da derrubada do muro de Berlim:
a busca da liberdade
João Bosco Botelho

A gente não quer só comida.
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida.
A gente quer bebida, diversão, balé.
(Fragmento da música “Comida”, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito)

A histórica noite de 09 de novembro de 1989.

Para compreender os múltiplos fatores que culminaram com a queda do muro de Berlim, construído sob a ordem de Nikita Khrushchev, o presidente do poderoso partido comunista da extinta União dos Estados Socialistas Soviéticos (URSS), em 1961, é indispensável relembrar que o pressuposto socialista-comunista, nos anos cinquenta e sessenta, como chamamento coletivo em direção a uma sociedade mais justa, contrapondo o horror nazista-fascista, encantou incontáveis pessoas plenas de vontade para diminuir as diferenças e injustiças sociais. Particularmente, na América latina, onde a miséria e a exploração dos trabalhadores atingiam níveis desumanos, ocorreu maior resposta.

Os fatos mostraram que a propaganda socialista-comunista, prometendo comida, educação e moradia para todos, tendo à frente o simbolismo da bandeira vermelha com a foice e o martelo, estava muito distante da realidade vividas pelos povos da Europa do leste.

Os sinais do fracasso socialista-comunista
O processo da ruína da ordem socialista-marxista, no leste da Europa, foi claramente mostrado ao mundo, em especial, aos que possuíam informações suficientes para interpretar os fatos, em dois momentos distintos:
– O levante, em 1956, contra o presidente do partido comunista húngaro Matias Rikosi;
– A revolta da primavera de Praga, no dia 20 de agosto de 1968, quando os tanques soviéticos entraram na capital da Tchecoslováquia para impedir as propostas reformistas do dirigente Alexander Dubcek.

O muro
Entre as muitas consequências da derrota do nazi-fascismo, destacou-se a divisão político-territorial da Alemanha em dois segmentos: a parte oriental ficou sob a guarda russa e a ocidental na custódia da Inglaterra, França e EUA.

Nos primeiros anos após a divisão territorial não havia dificuldade para cruzar as fronteiras. Os empecilhos foram aumentando a partir da revolta popular, em 1953, na Alemanha Oriental, contra o partido comunista. Com a gradativa perda das liberdades pessoais, a moradia, a comida e a escolaridade garantidas perderam o sentido.

Sob a égide de que casa, comida e escola não eram tudo o que todos desejavam, até 1960, ocorreu a fuga de quatro milhões de pessoas para o lado alemão ocidental, incluindo os milhares de cientistas, pesquisadores e técnicos especializados.

No dia 13 de agosto de 1961, para tentar conter o maior esvaziamento populacional da Alemanha Oriental, o Partido Comunista da URSS ordenou a construção do muro de Berlim. Em poucos meses ergueu-se a gigantesca barreira de três metros de altura, com 160 quilômetros de extensão, rodeada por área em torno de 200 metros quadrados, equipada com detectores eletrônicos de calor, minas e arame farpado.

O muro conteve parcialmente a fuga na busca da liberdade. Mesmo após o término da edificação, 188.000 pessoas ainda conseguiram escapar. Os métodos usados foram belos e surpreendentes: balão artesanal confeccionado durante três longos anos, túneis cavados na calada da noite, asilo político nas embaixadas estrangeiras e, simplesmente, enfrentamento das metralhadoras ao escalarem o muro da vergonha.

Desgraçadamente, 187 pessoas foram metralhadas e mortas ao tentarem buscar, a qualquer preço, mais liberdade do outro lado do muro. O alucinado ditador Eric Honecker, presidente do Partido Comunista da Alemanha Oriental, autor da célebre frase “O muro vai durar um século!”, foi responsabilizado pela ordem para matar, sem vacilação, os que tentaram viver longe dos comunistas.

Homenagem aos mortos do muro.

Vendo de perto a ausência da liberdade
Nas férias do verão de 1981, durante o doutoramento em Paris, estive com a minha família na Alemanha Ocidental, junto ao muro. Ao chegarmos, presenciamos uma cena que permanece viva até hoje: sobre uma plataforma de madeira, um homem jovem, fortemente abraçado pela esposa, levantando sobre a cabeça uma criança de poucas semanas, por meio de gritos e gestos enfurecidos, ambos chorando convulsivamente, gritavam: “Esse é o seu neto! Seu neto! Um dia, Deus permitirá nosso reencontro longe desses assassinos!”

A queda do muro de Berlim
Em junho de 1989, ocorreu um novo e espontâneo movimento de fuga da Alemanha Oriental. Milhares de homens e mulheres cruzaram as fronteiras austríacas e húngaras, menos vigiadas. Cinco meses depois, o muro foi derrubado com a força descomunal das picaretas de milhares de pessoas que gritavam a esperança de mais liberdade.

Como na queda da Bastilha, em 1789, não houve resistência. As contradições internas do sistema socialista-comunista alcançaram um ponto insuportável. Nas palavras de Egon Krenz, presidente do partido comunista alemão, a quem coube concretizar o desmanche do regime: “Aprendemos uma lição que não vamos esquecer!”

A ruína do positivismo marxista
No Leste da Europa, o resto veio mais rapidamente do que todos os historiadores poderiam esperar: dissolução dos Partidos Comunistas, as muitas universidades do socialismo-comunismo fecharam as portas, derrocada da gerontocracia comunista, os tanques soviéticos partiram de Praga, os julgamentos “éticos” alimentados pela calúnia obsequiosa foram tornados públicos, os restos mortais dos que resistiram ao stalinismo foram exumados como heróis, restaurada a liberdade de consciência e religião e os dissidentes tchecos e húngaros deixaram de ser loucos.

Finalmente, os registros da KGB (polícia política da URSS) indicaram mais de 4 milhões de assassinatos e como a Stasi (polícia política da Alemanha Oriental) fabricou o escândalo homossexual do general Kiessling, do Alto Comando da OTAN.

Novos muros
A frase do historiador alemão Smyser, no livro From Yalta to Berlim, ajudará as futuras gerações a não esquecer: “A queda do muro é desses eventos que dividem épocas. Talvez os historiadores escolham aquela noite como o fim da Idade Contemporânea.”

Infelizmente, a lição da queda do muro Berlim não foi suficiente aos governos. Sob novos pressupostos políticos e ideológicos, também desumanos, outros muros foram construídos em várias fronteiras, restringindo as liberdades:
– Entre os Estados Unidos e o México, para conter o fluxo de imigrantes ilegais;
– Em Ceuta e Malilla, cercas metálicas com holofotes potentes e sensores, separando a Espanha do Marrocos;
– Entre Israel e a Palestina, para restringir o acesso de palestinos aos territórios em conflito militar;
– Entre as duas Coreias.

Todos os muros que cerceiam as liberdades são frágeis! Mais cedo ou mais tarde, cairão como castelos de cartas!

O muro da vergonha.

O novo acordo ortográfico
Tenório Telles


A vida é feita e se faz pelas mudanças. Sem as transformações a existência se cristalizaria, as relações sociais se tornariam exaustivas e as ideias repetitivas e vazias de sua força e significados. O poema “Moto contínuo”, de Zemaria Pinto, é expressivo da inconstância que caracteriza as coisas, o fazer humano e nossa percepção sobre o mundo: “Tudo muda, tudo passa,/ tudo está em movimento/ sobre a terra e sob o céu,/ inclusive o pensamento”.

A língua, como fenômeno humano e social, não está imune a esse processo. Prova disso são as alterações que a língua portuguesa sofreu ao longo de sua evolução. O ano de 2009 entra para a história do idioma como o marco de uma ação política para aproximar, por meio de um acordo ortográfico, os falantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O documento foi aprovado em Lisboa, em 12 de outubro de 1990, pela Academia de Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações dos demais países que têm como língua oficial o Português. Segundo o que estabelece o documento, o ato foi “um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”.

Não é a primeira mudança vivida pela “última flor do Lácio”, como se referia Olavo Bilac ao idioma: em 1911, na primeira Reforma Ortográfica, Portugal tomou a iniciativa de uniformizar e simplificar a escrita de certas formas gráficas. Com essa reforma desapareceu o “ph”, usado em palavras como “pharmacia”. Quatro anos após, a Academia Brasileira de Letras realizou a unificação da ortografia brasileira com a portuguesa, experiência que não se consolidou.

Em 1931, foi aprovado o primeiro Acordo Ortográfico entre Brasil e Portugal, em que se pretendia abolir as diferenças e unificar a língua portuguesa. No ano de 1943 ocorreu a Convenção Ortográfica entre Brasil e Portugal que resultou na elaboração do Formulário Ortográfico, que, em 1945, tornou-se lei na pátria de Camões, situação que só foi corrigida no Brasil, em 1971, com a promulgação das alterações na ortografia, o que contribuiu para reduzir as divergências ortográficas em relação a Portugal. Essas iniciativas convergiram para o entendimento entre os governos dos países de fala portuguesa e resultaram no Acordo que entrou em vigor no início deste ano. O prazo de adequação é até 31 de dezembro de 2012.

As mudanças geram resistências e polêmicas. Apesar disso, o Acordo Ortográfico entrou em vigor e todos começam a se adaptar às novas regras quanto ao uso da língua. O fato é que, apesar das críticas, o português deixará de ser um idioma com dois cânones oficiais (um europeu, falado em Portugal, e outro brasileiro), o que facilitará o seu aprendizado em outros países, a comunicação e a integração entre os falantes do idioma. O filólogo Antonio Houaiss, defensor histórico do Acordo, ressaltava as inconveniências geradas pelo problema da duplicidade ortográfica: “A existência de duas grafias oficiais acarreta problemas na redação de documentos em tratados internacionais e na publicação de obras de interesse público”.

Como já ocorreu nas mudanças anteriores, os falantes se adaptarão gradativamente e a língua se firmará e ganhará mais espaço na comunidade internacional, sem falar que o intercâmbio de conhecimentos e livros será facilitado, especialmente nos países de língua portuguesa. Além da aproximação entre essas nações, haverá uma ampliação da circulação de livros, potencializando o mercado editorial nos diversos países, com a redução dos custos de produção e adaptação das obras. Desse modo, um livro editado no Brasil poderá circular sem restrições em Moçambique, Angola, Portugal e demais países da Comunidade de Língua Portuguesa.

As mudanças propostas pelo Acordo abrangerão fundamentalmente a ortografia. Os demais aspectos gramaticais e linguísticos, relacionados à pronúncia e às particularidades de significados dos países, não sofrerão alterações. As alterações ortográficas são um bom pretexto para voltarmos à gramática e, quem sabe, nos reencantarmos com a beleza dessa língua que se tornou bela e melodiosa, e legou à civilização algumas das vozes mais belas da literatura universal.

domingo, 8 de novembro de 2009

Oyama Ituassu (21/09/1916-07/11/2009)


Membro da Academia Amazonense de Letras, a qual presidiu de 1990 a 1995, professor de Direito Internacional Público na Universidade Federal do Amazonas, juiz e desembargador, Oyama Ituassu deixou, entre outros títulos: A luta pela formação de uma consciência nacional, Aspectos do Direito, Direito Público Internacional (2 volumes), A escravidão no Amazonas e Histórias das ruas de Manaus. Seu livro mais recente, de 2007, é O colonialismo e a escravidão humana.
Anselmo Duarte (21/04/1920-07/11/2009)

Letícia
II
Allison Leão


Há algumas semanas, num domingo, José chegou da feira. Quase como adivinhação de eventos singulares, teríamos uma iguaria no almoço: tucunaré cozido. Trouxe cebola, cheiro-verde e tomate numa sacola; dois peixes enrolados em folhas de jornal; e um tempero de esquisitices na cara, no qual se podia distinguir a vermelhidão do colorau e o calor da pimenta murupi. Entrou em casa calado, mas falante na expressão. Passou por nós deixando no ar o suspense. E o pitiú, é claro. Seguiu num mergulho eufórico até a cozinha. Fomos lá conferir. Urgente como quem passou muito tempo sem amar, ele abriu o pacote sobre a pia. Com a água da torneira, limpou uma manchete do jornal suja pelo sangue dos tucunarés. E pudemos ler por cima de seus ombros, entre um peixe e outro: “O Corpo de Baile do Teatro Amazonas tem agora em seu quadro uma verdadeira estrela: integrou-se ao grupo a mundialmente aplaudida bailarina Letícia etc. etc. etc.” Os tucunarés, de cara um pro outro, estavam boquiabertos.

Até então, Letícia fora uma caixa de não e nem, enterrada sob a tabatinga. Ordem dada na palavra do silêncio de José. Uma vez, no mormaço cambiante da programação televisiva, José, de repente, estacou num canal que passava uma apresentação de balé. Estávamos apenas os dois na sala, e depois de tantos anos nem atinei que poderia ser Letícia. Talvez nem fosse. Em meu irmão, a lembrança de Letícia talvez doesse mais que Letícia. Agora, uma coisa ou outra ressurgia no meio do domingo, erguia-se do sangue do pescado e dançava o passado na nossa cara. Felizmente, não havia retrato dela no jornal. Senão, quem sabe, até eu teria me apaixonado.


Na sua proposta de mixar tendências contemporâneas de dança com as tradições da cultura amazonense, o Corpo de Baile do Teatro Amazonas não sabia que misturava nisso as sobras do coração de José. Até a estréia de Letícia, duas semanas depois, ele era só a bebedeira da ansiedade. Coçou até o osso a contagem das horas e minutos. Errou troco no ônibus, para mais e para menos. Deu bom dia ao velho Mercedes Benz e ignorou o fiscal da linha. E nós, semanas a pão e ovo. José, que quase não falava desde a remota rejeição ao seu sotaque, agora cantava. Eu não conhecia aquelas canções. Muitas palavras nem as reconhecia. Uns instantes, elas resvalavam no Português, para logo em seguida se afundarem no castelhano e depois voltarem lá do fundo, num idioma desconhecido para mim – uma mistura que me confundia no entendimento, e mesmo assim me acalmava no ouvido. Como ele trouxera de Tabatinga aqueles cânticos, na bagagem? Mas estavam ali, anos de naftalina exalando na voz de meu irmão, a música saindo pela cumeeira e pelas frestas entre as tábuas de nossa casa. Umas vezes José abria as janelas, e a torrente sonora ficava maior. E a vizinhança comentava.

No dia da estréia de Letícia, meu irmão era uma presença que enchia a casa e a rua. Após o almoço, saiu para comprar flores de plástico e toalhinhas de tricô, com as quais enfeitou a TV, o aparelho de som, a geladeira e a mesa da cozinha. Lavou a louça que já estava limpa, varreu a casa, passou pano e depois encerou. Fora da casa, capinou o mato, retirou o lixo da rua numa distância de cinco casas a partir da nossa, para a direita e para a esquerda. Chegou a recolher um gato apodrecido que fora atropelado dois dias antes. Não solicitou nossa ajuda para nada. Não sei se ele sabia que eu acompanhava, curioso, suas ações sentimentais.

No começo da noite foi para o quarto, e pude ouvi-lo revirar os anos de amor e mágoa socados nalgum baú que ele escondesse embaixo da cama. Quando saiu de lá, vestia uma roupa tão antiga e patética, que só chamava menos atenção que o cabelo emplastado de gel fixador, o produto se confundindo com o suor na testa. Agora não sei. Talvez a roupa não fosse tão antiga assim. Quem sabe era meu irmão que estava antigo dentro daquela roupa. Estourando por entre os botões da camisa, não cabia direito nem a barriga nem a expectativa. Passou por mim sem parar. Não lhe interessava saber nem de aprovação nem de rechaço. Mas, antes que a porta se fechasse, pude ouvir: “¡Hasta luego!” E saiu.

Um pouco antes de o sono esmagar minha espera, fui à janela ver a noite. Não tinha luar. Nem brisa suave. Tampouco céu estrelado. Uma noite entre a rotina da anterior e o comum da seguinte. Quente. Até agora, inusitado apenas o hasta luego de meu irmão.

Imaginei José na Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, onde aconteceria o espetáculo de Letícia. Muita gente havia ido à praça aquela noite. “A cultura de portas abertas”, diziam as propagandas do governo. Espetáculos gratuitos. Quando José chega à esquina da 10 de Julho com a Eduardo Ribeiro, percebe que muita gente quer entrar por essa porta hoje à noite. Mas a porta que interessa ao meu irmão é outra. Ao se aproximar, José sente pequenas vibrações dentro do peito. Pensa que é o coração querendo chegar antes dele. Mas não demora a perceber que se trata da percussão da Amazonas Filarmônica.

Muito longe e elevado, o palco. José só pode acompanhar a magistral coreografia por um telão, e de tão próximo que ficou, quase pode tocar a tela. Mas ali, de pertinho, o que enxerga não é propriamente a cena; enxerga apenas os infinitos, diminutos e inconciliáveis pontos do telão. Depois, no entanto, entre com-licenças e empurrões, ganha certa distância e outra perspectiva, até poder encher os olhos com os corpos e a luz e a música. Se fosse eu, eu me perderia em distrações da cabeça: o que vêem os bailarinos e as bailarinas quando olham para o público, lá em baixo? uma cena inteira? pontos? E se descessem do palco e olhassem as pessoas rosto a rosto? Um homem que dorme. Uma criança que chora. Uma mulher que ri. Uma moça que boceja. Um cão que mija. Uma velha que aplaude fora do tempo. Mas a luz é para o palco, não para a platéia. Bailarinos e bailarinas dançam para uma ilusão feita de trevas. Se não o fosse, talvez descessem do palco e se assombrassem porque, enfim, não vendo, veriam meu rosto que não foi à praça, ficou em casa olhando para uma noite que nada prediz, pensando: que será de José e seu coração espremido pelos cotovelos do povo?

Nem a multidão nem o Corpo de Baile do Teatro Amazonas chegaram a ouvir que o peito de meu irmão atravessou o ritmo da Filarmônica quando enfim Letícia pisou no palco.


Caí no sono antes que se encerrasse o primeiro ato de meus pensamentos. De manhã, a ansiedade sacudiu minha rede. Na cozinha, encontrei José Luiz e José Américo. Sorviam o café frio e envelhecido pelo descuido de nosso irmão e mastigavam um debate sobre a natureza de Letícia. Absortos, nem me perceberam. Após ouvir um pouco das considerações que ambos faziam a respeito de Letícia, fui ao quarto de José e de passagem vi que as flores não haviam murchado. (Na hora, nem me toquei que eram de plástico.) Encontrei a cama cheia de todo o vazio que têm as camas arrumadas.

José Américo e José Luiz ainda não chegaram a uma conclusão sobre a natureza de Letícia. Sequer sobre sua presença em nossa casa após a estréia. José Américo diz que ela era uma luz que vinha em ondas visíveis. Que a graça de seu caminhar nem sabia o chão. José Luiz, entretanto, fala que, se viu algo naquela noite, era um buraco negro no meio da escuridão, uma massa densa e obscura. Apenas o silêncio continuado, uma ensurdecedora agulhada nos ouvidos.

Não vejo em mim tendência a fechar com qualquer um dos dois. Não tento analisar o que é Letícia. Talvez um dia o faça, como hoje fazem meus irmãos. Por ora, eu apenas sinto, como se sente uma fome. É algo assim que temos em comum, eu e meus três irmãos, em relação a essa mulher: fome. E como José Luiz e José Américo vivem de ser o contrário um do outro, não pretendo lhes dizer que há algo de muito parecido nas suas noções a respeito de Letícia, pois a fome é ao mesmo tempo, e poderosamente, uma presença e uma ausência.

Em seus debates meus divergentes irmãos não tocam no nome de José, que até onde eu sei não voltou para casa desde aquela noite. Isso foi há semanas. Mas, se ele estivesse aqui, não sei se faria muita diferença. Certamente não me contaria sobre seu encontro (ou desencontro) amoroso. Uma hora dessas, sairia para a rua sem dizer nada. Às vezes cogito que, nessas últimas semanas, ele tenha aparecido aqui em casa. Talvez tenha passado por mim, sem se fazer notar, como de costume. Talvez ainda more aqui, mais discreto que nunca. Mas não sei por que o silêncio de seu castelhano tem ecoado nas tábuas das paredes, retinido no zinco de nossa casa e reverberado na minha cabeça.

sábado, 7 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Daniel dos Santos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A alegria do velho palhaço é ver o circo pegar fogo
Zemaria Pinto

Este não é o Caetano Veloso; é que eu precisava colocar alguma coisa agradável neste post...
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Caetano Veloso já faz parte da história da música popular brasileira (em minúscula, mesmo: MPB é o cacete!). Mas Caetano, antes de ser o cantor excelente e o compositor exemplar, caracteriza-se por ser um polemista de boca cheia: tudo o que ele falou nos últimos 43/44 anos transformou-se em polêmica. A imprensa autofágica serve-se do velho palhaço há mais de quatro décadas para divertir a plebe ignara – que Caetano Veloso, aliás, tanto despreza.

E haja opinião: Caetano já construiu/destruiu mitos (alguns dos quais sequer mereciam beijar-lhe os ossudos pés) e a imprensa canalha, covarde, vil, segue extorquindo do velho palhaço suas opiniões idiotas. Caetano tem opinião formada sobre tudo: seja sobre Woody Allen, que não sabe quem é Caetano, seja sobre Lula, que prefere música sertaneja e forró. Caetano só não tem opinião sobre essa imprensa abjeta, porque ele se alimenta dela (sei do cacófato), como um verme que se alimenta da podridão do seu entorno. Caetano é um parasita desse corpo apodrecido chamado imprensa, que precisa de Caetano para continuar alimentando o zé povim estúpido com polêmicas idiotas, vazias, manipuladoras. É um podre poder.

Certo está a Partimpim: “Vamos comer Caetano!”, mas só quando ele estiver cantando (nem que seja o Peninha!), porque quando ele fala é amargo, azedo, venenoso – podre. Certo estava aquele personagem do Almodóvar (amicíssimo de Caetano), em Hable con ella, que, após ouvir o velho palhaço cantando La Paloma (aquela do “cucurrucucu”), diz, com os olhos marejados: “Ese Caetano me encrespa los pelos del culo.”

O velho palhaço posando para a RS em seu figurino favorito.
Macunaíma e a reforma ontográfica.

O nascimento de Macunaíma, por Carybé (1911-1997).

Como encerramento de suas atividades no ano de 2009, a Cátedra Amazonense de Estudos Literários – CAEL – promoverá palestra com o Prof. Dr. Fernando Scheibe, professor de Literatura na UFAM. Ministrando no Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia uma disciplina a respeito de Macunaíma, principal obra de Mário de Andrade, o Prof. Scheibe centrará nesse livro sua palestra, cujo título é Macunaíma e a reforma ontográfica. Livro fundamental de nossa literatura, Macunaíma tem no seu inesgotável acervo erudito e popular um material para debates constantes, com os quais a UEA agora contribui. Com este evento, a CAEL fecha um ano em que as discussões sobre a literatura no Amazonas tiveram intensa participação dos membros do grupo. Destacou-se em 2009 a realização do I Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário, sediado na UEA, que contou com a participação de pesquisadores de várias procedências do Brasil e do exterior. Das palestras realizadas naquela ocasião, a do Prof. Scheibe, que tratou da obra de Guimarães Rosa, foi uma das que mais se destacaram. Agora o pesquisador visita mais uma vez a UEA, numa nova oportunidade de incrementar os debates literários. Além do Colóquio, destaca-se como atividade da CAEL o aparecimento da revista de estudos literários ContraCorrente, a ser lançada em breve.

A palestra de Fernando Scheibe será realizada na Escola Normal Superior, dia 13 de novembro, às 10h.

na trilha do eterno


por três vezes
subiu a montanha.
por três vezes
contemplou a lua cheia
banhando de ouro o templo.
por toda a eternidade
dissemina a essência do
belo.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da selva de pedra à selva amazônica


Será no sábado, às 10h, o lançamento de Da Selva de Pedra à Selva Amazônica, um livro que mistura ficção e realidade. Com o intuito de narrar sua aventura, Jurandir de Souza Macedo nos leva a viver momentos doces da infância e nos leva de encontro aos mais cruéis problemas sociais de nosso país, envolvendo o leitor pela imaginação, exaltando os belos lugares que visitou e as realidades que conheceu.

A obra chega a ser um guia com opções turísticas pra qualquer aventureiro e amante da natureza. Mais do que registrar as belas paisagens que contemplou em viagens e as arriscadas aventuras que viveu, percorrendo a metade do território brasileiro, em meio à poeira, atoleiros e vários outros obstáculos, Macedo convida o leitor para uma viagem diferente, onde o transporte é a mente e os destinos são as mais importantes lembranças, agradáveis ou não. O medo do desconhecido, o pavor de não completar a jornada, dão lugar a coisas bonitas, onde o verde encanta a visão dos mais exigentes e ainda a sensação de pioneirismo, como se fosse os conquistadores da fabulosa Amazônia.

Ao narrar as fases de sua viagem, o autor relembra sua infância. Os costumes, valores familiares e culturais daquela época são passados de forma descontraída, instigando o leitor a uma avaliação sobre as transformações sociais ocorridas no Brasil, com a mudança da família do interior para a cidade grande, nos anos 50.

O Autor
Jurandir de Souza Macedo, nascido em Santarém-PA, veio para Manaus em 1956. Residiu no Rio de Janeiro de 1966 a 1978, onde prestou serviços ao Exército brasileiro e teve oportunidade de mostrar a arte cabocla através de suas pinturas. Desde tenra idade, começou suas atividades artísticas pintando e desenhando paisagens amazônicas e figuras da sociedade. É formado em Educação Artística pela UFAM. Em 1964, realizou uma exposição de pintura e desenho sob o patrocínio do Governo do Amazonas e do Jornal do Comércio.


Evento: Lançamento de livro
Título: Da Selva de Pedra à Selva Amazônica
Autor: Jurandir de Souza Macedo
Páginas: 164
Valor do livro: R$ 30,00
Data: 7 de novembro de 2009 (sábado)
Horário: 10h
Local: Livraria Valer – Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro
Contatos: 3635-1324 (Editora Valer)
Medicina nas primeiras cidades: Egito e Mesopotâmia
João Bosco Botelho

Sitala, a deusa da varíola.

Com a consolidação do sedentarismo, nas margens dos rios piscosos, em torno de 5.000 anos, no Norte da África — Egito e Mesopotâmia — e algumas áreas da Ásia — Índia —, importantes modificações foram se processando nos antigos grupos nômades de caçadores-coletores. Entre as mais significativas, que mudariam para sempre as relações sociais humanas anteriores, se destacaram: a construção das elites dominantes laicas e religiosas, as práticas agrícolas, os ajustes e a defesa da territorialidade e os panteões.

Como fruto dessas mudanças, as sociedades francamente hierarquizadas acolheram regras destinadas às propriedades privadas, moldando os assentamentos mais duradouros.

Os aldeamentos foram substituídos pelas primeiras cidades e, no milênio seguinte, as civilizações regionais se consolidaram e assimilaram diferentes formas de poderes, predominando o teocrático e o mercantil-escravista. As guerras contínuas pela posse do território ofereciam escravos e terras, fortalecendo a escravidão e a propriedade privada.

Muitas mudanças provocadas pelo sedentarismo contribuíram para fortalecer a figura social do médico. De modo geral, os registros disponíveis, no Egito (Novo Império, XVIII a XX dinastias, 1.540 a 1.069 a.C.), Mesopotâmia (Babilônia, no período de Hammurabi, 1792-1750 a.C.) e Índia (Mohenjo-Daro, 2.500 a.C.), indicam que apesar de poucos, os médicos já eram personagens sociais reconhecidos e com nominação própria, instruídos na arte de curar por meio de remédios e cirurgias.

Os médicos dessas cidades sem um processo teórico que explicasse a saúde e a doença, apesar de terem iniciado a Medicina como uma especialidade social, ficavam atados às crenças e idéias religiosas, onde a vontade dos deuses e deusas era mais poderosa que os remédios e as cirurgias.

Por outro lado, mesmo com a comprovação histórica da estreita ligação dos médicos ao panteão — Medicina divina — em ensaios de acertos e erros, compondo o conhecimento historicamente acumulado, houve a busca de novos saberes da natureza circundante para curar as doenças — Medicina empírica. É possível que a proximidade entre essas duas práticas médicas, em especial as praticadas nos templos pelos representantes dos deuses e deusas, os sacerdotes e as sacerdotisas, tenha promovido a semente que levaria à construção da Medicina oficial, amparada pelo poder dominante.

De certo modo, mutatis mutandis, nos quatro cantos do planeta, continuamos comprovando a existência dessas três Medicinas.

ÍNDIA: MOHENJO-DARO
Em algumas áreas geográficas da atual Índia, especialmente, numa das mais antigas cidades do mundo, Mohenjo-Daro, floresceram práticas médicas também ligadas aos deuses e deusas, mas com impressionante número de livros que tratavam de questões médicas ainda hoje pouco compreendidas.

A principal característica dessa Medicina, em relação às do Egito e da Mesopotâmia, é o fato de cada doença ter sido tratada como certa categoria. Dessa forma, não havia a compreensão da nosologia em grupos de moléstias causadas pela mesma origem. Como consequência, gerou um enorme edifício de identidades dissociadas.

As rígidas regras religiosas, antes do período bramânico, interditaram o acesso à anatomia e fortaleceram as fórmulas mágicas contra demônios e os representantes humanos, com registros do Atharvaveda, o Veda da longa vida.

A Medicina divina estava nas mãos dos brâmanes, que transmitiam os saberes de Brama, e a Medicina empírica nas dos práticos, Vaidya, fora dos templos.

O deus principal ligado à Medicina, uma divindade menor, Dhanvantari ou o médico dos deuses. Apesar de não ser citado nos Vedas, aparece com especial realce nos Puranos. O principal texto da Medicina da Índia antiga, o Susruta Samhita (I, II, 12, 16), identifica-o como médico divino que recebeu de Brama o Ayurveda.

É interessante assinalar que, se comparada com outras divindades dos muitos panteões que povoaram as ideias e crenças religiosas, o deus Dhanvantari perdeu gradativamente a importância: retirado da posição divina para a de avatar de Vihnu, assumiu a forma humana, rei e médico, que morreu da mordida de uma cobra.

No período bramânico, iniciaram-se os esboços do estudo da anatomia. No livro o Susruta Samhita (III, 5), o corpo humano teria 300 ossos, 90 tendões, 210 articulações, 500 músculos, 70 vasos sanguíneos, 3 humores, 3 espécies de secreções e 9 órgãos dos sentidos. Trata-se de grande avanço na construção das ideias medicais, porque esse entendimento materializou partes do corpo fora do panteão.

Como acréscimo à materialização, ao largo do domínio dos deuses e deusas, a saúde e as doenças eram compreendidas, respectivamente, pelo equilíbrio e desequilíbrio de três humores ou partes vitais, essenciais, do corpo: o espírito, a bile e a fleuma.

Essa interessante estruturação de novas categorias, absolutamente originais, para materializar as moléstias seria retomada e ampliada na Escola de Cós, na Grécia do século 4 a.C., por Políbio, o genro de Hipócrates.

Como na Mesopotâmia, as primeiras culturas da Índia antiga, igualmente assentadas em áreas de várzea, nas margens do Rio Indo, com mosquitos proliferando na beira-rio fértil, a febre era a mais importante de todas as doenças, dividida em sete tipos diferentes; de acordo com o intervalo entre as exacerbações, era associada à cólera do deus Siva.

A varíola, claramente descrita com todas as complicações, inclusive causando a morte, era associada à deusa Sitala, nome que também designava a doença.

Um dos aspectos mais espetaculares dessas práticas médicas foi tecido em torno da cirurgia com descrições de técnicas cirúrgicas, como o retalho indiano, até hoje utilizado na reconstrução do nariz ou rinoplastias, regras para os curativos pós-operatórios e instrumentos específicos para facilitar a execução cirúrgica, como os vinte tipos de objetos cortantes, afastadores e as agulhas curvas de diferentes tamanhos.

As rinoplastias tornaram-se uma das cirurgias mais comuns por que a mutilação nasal era imposta como castigo em vários delitos, entre eles o adultério, descrito nas Leis de Manu.

Esse mesmo código de leis e procedimentos determinava importantes regras de higiene pessoal e coletiva: limpeza diária do corpo, lavagem da boca após as refeições, e retirar de dentro da casa as água servidas, fezes e urina.
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Rua de Mohenjo Daro.
Os Sertões – uma tragédia brasileira (4/8)
Zemaria Pinto
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria
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Fenestre.
Luis Royo.
drops de pimenta 35


─ Eu sei de casos... Eu não falo pra você...
─ Segredo comigo?
─ Não é segredo; é discrição.
─ ...
─ Tem dois da nossa turma que só funcionam com Viagra...

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As safadinhas encantadas de nossa velha infância
Simão Pessoa

Se você tem mais de 40 anos, teve uma boa infância e gostava de HQs, é quase impossível que em algum dia de sua vida não tenha se deparado com a coleção “Clássicos Disney em Quadrinhos”, uma série de contos de fadas famosos (“Branca de Neve”, “Cinderela”, “Peter Pan”, “A Espada era a lei”, “A Bela adormecida” etc.) ricamente ilustrados pelos lendários desenhistas do estúdio Disney.

E se você era verdadeiramente espada-matador desde a primeira infância, também é quase impossível que não tenha tido sonhos molhados recorrentes com, digamos, a Sininho e aquele seu indescritível (e delicioso) saiote verde musgo. Sim, éramos docemente pervertidos desde pequenos, fazer o quê?

Pois agora você já pode extrapolar seus desejos mais secretos com essa coletânea de quadros criadas por J-Scott-Campbell e coloridas por Bakanekonei, a cargo do estúdio Deviant Art. Pra ficar com mais tesão, clique nas imagens.

Sininho.

Little Miss Muffet.

Cachinhos de Ouro.

Branca de Neve e amiguinhas.

Branca de Neve.

Alice Maravilhosa.

A Pequena Sereia.

A Madrasta boazuda.

A Bela e a Fera.

A Bela Adormecida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Quarta Literária: Os contos de Milton Hatoum


Realizada sempre na primeira quarta-feira de cada mês, a Quarta Literária do mês de novembro acontecerá no próximo dia 4, tendo como tema Os contos de Milton Hatoum. A palestra, ministrada pela professora Nícia Zucolo, tomará como base o conto “A natureza ri da cultura”, texto que traz o viajante, o estrangeiro, a memória, a sobreposição de narrativas – entre outros aspectos recorrentes do livro – para movimentar-se no universo recriado pelo autor. Antes da palestra será exibido o filme Nas asas do condor, de Cristiane Garcia, baseado no conto de Milton Hatoum. No filme, de 20 minutos de duração, Milton é um menino de saúde frágil que encontra nas asas de uma velha aeronave, a cura para uma grave crise respiratória.

A cidade ilhada, lançado em fevereiro deste ano pela Companhia das Letras, traz 8 contos reescritos e já publicados em revistas nacionais e internacionais, além de 6 inéditos. Nesses contos, encontramos seres em trânsito, seja no espaço, seja no tempo, tentando reconstruir a própria existência, a partir de alguma madeleine que lhes desencadeie lembranças tangíveis. São essas memórias insuladas em um universo peculiar, buscando caminhos para aflorarem, que conferem a unidade que um bom livro de contos deveria ter. Trabalhando com temas aparentemente comuns e tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros, Hatoum constrói contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo e retribuindo com conflitos profundos e universais.

Milton Hatoum nasceu em Manaus 1952 e formou-se em arquitetura. Ensinou literatura brasileira na Universidade Federal do Amazonas e na Universidade da Califórnia, em Berley. Morou em Brasília, na Espanha, na França e nos Estados Unidos. Reside desde 1999 em São Paulo. É autor, pela Companhia das Letras, de Relato de um certo Oriente (1989), vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano; Dois irmãos (2000), também vencedor do prêmio Jabuti e traduzido para oito idiomas; Cinzas do Norte (2005), vencedor dos prêmios Jabuti, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2008 publicou Órfãos do Eldorado, com o qual foi contemplado com o segundo lugar no prêmio Jabuti. A Cidade Ilhada (2009) é a sua primeira coletânea de contos. Atualmente, é colunista do Estado de São Paulo e do Terra Magazine.

A palestrante
Nicia Petreceli Zucolo, radicada no Amazonas desde 1997, é graduada em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (1995), e mestre pelo programa Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (2005), com dissertação sobre O outro e outros contos, livro de Benjamin Sanches. Atualmente, é professora de Literatura na UFAM, onde coordena um grupo de pesquisadores em um projeto chamado Conto Amazonense em Perspectiva, no qual, entre outros livros estudados, encontra-se o de Milton Hatoum.


Evento: Quarta Literária
Tema: Os contos de Milton Hatoum
Palestrante: Nícia Zucolo
Data: 4 de novembro de 2009
Horário: 18h30
Promoção: Livraria e Editora Valer
Local: Espaço Cultural Valer – Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro
Quanto: Entrada franca
Contatos: Valer – 3635-1324;
A formiguinha
Tenório Telles


A amizade é coisa rara neste tempo de solidão e desconfiança entre as pessoas. Fazemos parte da comunidade humana e não fomos capazes de construir um mundo fundado em relações verdadeiramente fraternas. Vivemos sob o reinado da mentira e da esperteza. Somos milhões convivendo no mesmo espaço e entre nós reina a distância e a indiferença. Os gestos de carinho e amizade são olhados com desconfiança.

Como conseguimos viver sem carinho e bondade? O que aconteceu com os sentimentos e nossa capacidade de amar e querer bem? São perguntas que rumino sem encontrar uma resposta. Creio, entretanto, que lá no fundo, escondidinho no coração, o amor jaz como uma brasa, encoberta de cinzas, à espera do sopro e do gesto capaz de reacendê-lo. Talvez seja por isso que as pessoas têm adotado os animais como companheiros: cada dia mais solitários, buscamos a companhia de cachorros, gatos e passarinhos. Alguns, desejosos de amizades mais exóticas, fazem-se amigos de sapos, lagartos e até cobras.

Como as relações se tornaram impessoais, há dias que sentimos falta do convívio afetivo dos amigos, de ser ouvido e estar próximo, protegido pelo cuidado e aconchego. Nesta sociedade, em que prevalecem sempre os interesses e as conveniências, ter um amigo de verdade é coisa rara. Há mais de dois mil anos, o comediógrafo grego Menandro já chamava a atenção para o fato: “Feliz daquele que encontrou um amigo digno desse nome”. Note, leitor, que o conteúdo da frase está no singular: “um amigo”. Se foste premiado com este presente, trate de cuidar, porque a amizade é um remédio para os males da alma.

Quando falo de amizade não me refiro apenas em relação ao ser humano. Pode ser por um cão ou por um passarinho. Esses dias, ando afeiçoado por uma formiguinha. Em meio aos papéis, dispostos sobre minha mesa de trabalho, ela anda apressada, como se procurasse o caminho de casa. Escala os livros, pára, cheira as palavras e avança. De vez quando levanta a cabeça, olha para os lados e segue em frente. Para testar sua determinação, coloco lápis e canetas em seu percurso: não recua, vence todos os obstáculos e vai em frente.

Penso que ela se perdeu de sua colônia. Todos os dias ela aparece. Minha mesa é o seu refúgio. Fico imaginando como chegou aqui, tão longe do seu formigueiro e, além do mais, sozinha! Estendo a minha mão e ela pára, mexe as patinhas, cheira e sobe pelos meus dedos. Brinco com ela, coloco a mão para cima, para baixo, não se intimida. Distraio-me e desaparece entre os papéis. Enfastiado pelos afazeres, sinto sua falta e a procuro. Reviro as folhas, removo os objetos, quando menos espero lá aparece minha boa amiga. Recomeçamos o nosso jogo: demonstro que estou alegre com sua presença, sopro-a carinhosamente. Noto que fica aborrecida, levanta as patas como se esperasse um ataque. Calma, segue em sua busca.

O que procura a minha amiguinha? De onde vem? Para onde vai? Preocupado com sua saúde, dou-lhe uns pedacinhos de bolacha. É tão pequenininha que desaparece sob os cubos de “cream cracker”. Encontra um fragmento de biscoito, prende com suas garras e foge apressada. Sigo-a com os olhos até que desaparece na floresta de papel sobre a mesa. Anoitece e vou para casa, receoso de não mais encontrá-la no dia seguinte. Ah, formiguinha, companheira de solidão e resistência neste mundo de brutalidade e vazio, que bom tê-la nestes dias insípidos. Já fazes parte de mim e habitas o meu carinho.

domingo, 1 de novembro de 2009

Letícia
I
Allison Leão


A namorada de meu irmão mais velho. Seu espectro já nos flutua há muito tempo. Para José Américo, meu segundo irmão, ela é um belo sorriso, embora comedido. A aparição de Letícia, para ele, foi esse dá-e-tira. Mas ela estava lá, em presença, disso ele não tem dúvida: aquela noite foi um chute na nossa miséria: mesmo os músculos do seu corpo de bailarina acordam qualquer delicadeza em nossos olhos, foi o que entendi do que disse meu irmão José Américo.

Será de fato assim Letícia?

Esqueço. Penso na descrição que meu terceiro irmão José Luiz faz dela. A Letícia de José Luiz tem a inconsistência de um nada feito pedra fechada. Se para José Américo ela existe na condição de maravilha, de movimento e curva e brilho, para José Luiz ela tem os olhos como um lance de vista a ponto nenhum. É bem possível que houvesse naquela noite uma vontade imensa de saber Letícia por algum contorno, mas só havia essa vontade, e vontade é outro nome para ausência – assim me pareceram as palavras de José Luiz.


Quando ainda morávamos em Tabatinga, ela havia sido o amor-criança de José, meu primeiro irmão. Até aí, José Américo e José Luiz concordavam em relação a ela: isso porque não tinham nenhuma opinião sobre a moça. Concordavam no desconhecê-la. 14 e 13 anos tinham, respectivamente, José Américo e José Luiz. E parece que Letícia era tão qualquer coisa quanto qualquer uma das cunhãs do lugar. (Eles só a teriam notado quando ela dançou uma noite inteira com nosso irmão, na Fiesta de la Confraternidad. Foi quando o casal começou o namoro. Letícia estava com José – que por si só já era bonito no dançar –, dançava melhor que qualquer uma e quando rodopiava eram três quartos de pernas à mostra: não tinha como ignorar.) É que, antes disso, José Américo e José Luiz já tinham aprendido nos livros de História a ver cara de índio tudo igual – embora em casa, no cada-qual-com-seu-focinho, confundissem os aprendidos. Às vezes pediam dinheiro a turistas, juntos, apenas 10 meses e talvez 4cm separando um do outro. Diziam-se gêmeos. Os turistas franziam o cenho, olhavam, desolhavam, tresolhavam. Indiozinhos gêmeos: valia de fato um tostão. Quando nosso irmão lhes descobriu a esperteza, aplicou neles uma surra roxa. E depois que a carne dos curumins acalmou-se, nunca mais foram parecidos um com o outro. Letícia admoestou meu irmão: aquilo era um exagero de correção. Fizesse noves fora, veria que era nada. Mas José devia ter lá suas razões. Eu era muito novo, o caçula da casa. Não sei dos motivos dele.

Letícia, dizia eu. Toda a alegria e toda a tristeza de meu irmão nela contidas. Os namorados tinham lá suas idéias-juntas. José queria descer o Solimões, viajar para Manaus. Ia fazer “curso grande para professor”, dizia que. Em casa e na vizinhança ele já era autoridade escolar. Havia feito viagens longas (até além de umas montanhas de que eu só ouvira falar) e tinha livros na cabeça. Foi ele quem me ensinou a ler e a escrever – e também a todos de minha idade naquelas redondezas. Letícia, porém, era outra terra: não tinha outro sonho senão que meu irmão fosse seu. Como isso já acontecia, Letícia não tinha sonhos. E no entanto foi nesse salto vazio da ausência de sonhos que Letícia voou para longe.

No final do primeiro ano de namoro, ela dançava novamente com meu irmão, na Confraternidad. As pernas ainda mais mulher, Letícia fora escolhida Rainha das Três Fronteiras. Naquele ano, como de costume, visitantes tinham ido ver como o povo da fronteira é diferente. Para nós, era oportunidade de mais uma vez saber como os visitantes eram esquisitos. Talvez eles também fossem de alguma fronteira, longe da nossa. Iam lá para ver tradições tikunas ao vivo. Danças – que os missionários nos ensaiavam. Mas a maior parte de nós não era ticuna desde o nascimento. E se não o éramos, brasileiros ou colombianos ou peruanos também não sei se tanto. Ou será que alguém viajaria a tão longe para ver outro de si? Viajaria? Para nós, era corriqueiro atravessar do Brasil à Colômbia para comprar pão ou cigarro. Uns enchiam a cara no Peru e iam ter ressaca na Colômbia. Uma troca de olhares na Colômbia podia acabar numa cama no Brasil. Ora, quando flutuávamos em nossas canoas, nas águas entre um país e outro, não víamos barreira nenhuma a conter o fluxo do rio.

Nossa familiaridade com a fronteira dos três países e estranheza aos países ficava mais evidente quando turistas do distante Peru, da Colômbia longínqua e do Brasil que nem imaginávamos haver visitavam nossas festas. Olhávamo-nos, nós e eles, com olhar tão estrangeiro que nos sentíamos atravessar pelo desconhecimento mútuo. E naquele ano de 1990 mais ainda, pois alguns deles nos olhavam com o olho do olho de vidro das filmadoras.

Uma equipe da BBC fazia um documentário sobre festas populares no Alto Solimões. Quando as lentes chegaram a Letícia, apaixonaram-se. Demoraram-se nela, Rainha, quadro inteiro, um bom pedaço de tempo. E Letícia correu mundo, primeiro assim, dentro da tela da TV. Depois foi embora com as próprias lindas pernas. A convite do Ballet del Teatro Municipal de Santiago, foi estudar no Chile. Iam ser apenas três meses, “además, una oportunidad como esta no se puede perder”, pensou meu irmão, que sempre foi, afinal de contas, uma pessoa bem esclarecida.

Letícia, de fato, retornou. Mas apenas para entregar a José os cravos-de-defuntos da despedida. “¿Qué?”, desesperou-se, quis compreender meu agora nada esclarecido irmão. E Letícia contou – a um metro e meio de distância de José, com menos de meio metro de sílabas.


Santiago estava reencontrando dias claros e democráticos, sem sequer saber o que estava dizendo, assim dizia Letícia, pois assim ela ouvira. A Plaza de Armas já não tinha tanto peso no nome como poderia ter tido nos anos anteriores. Lá, viu toda a reunião da novidade aos seus olhos: vendedores de livros, malabaristas, vagabundos, pedintes, novos poetas. E soldados ainda vigiando a liberdade e a democracia. Três pessoas juntas, dizia-se, não eram mais encaradas como ameaça à ordem. Letícia não sabia nada sobre a história chilena. Caminhou certamente por ruas em que nalgum distante ano instalaram-se barricadas, ou por outras, onde muitos haviam tombado. Mas Letícia não deu fé do passado sob seus pés. O passado sob os pés; o presente à altura dos olhos: havia sempre as luzes dos importados abarrotando prateleiras, sons de brinquedos ou eletroeletrônicos que falavam inglês, cuja incompreensão tornava-os ainda mais atraentes. Seus companheiros na escola de dança, muitos vindo de outros países da América Latina, assemelhavam-se a ela na ignorância e na fascinação. E os amigos chilenos repetiam empolgações aos visitantes, acolhidos pela caridade que pode haver entre os pobres.

A Plaza de Armas era excelente para entusiasmos. Foi lá que Letícia conheceu Johnny Hernández, um não sei quem que fazia não sei quê. Sei que conquistava. Johnny foi ligeiro na investida. Ao som de um flautim que alguém por perto tocava, já chegou chegando. Ensinou à bailarina como é que se baila. A primeira dança etérea de Letícia, seus pés acarinhando o ar. E, com um olhar inapelável, liquidou: “¿Es verdad o solamente un producto de mi locura?”


Locura foi meu irmão. Mas qual loucura? Viu Letícia sair da nossa porta para a carreira internacional sem chamá-la de volta. Não era o grande amor da sua vida? Era. Mas José tinha seus modos. Dentro dele crescia, em silêncio, um ricochete desse grande amor. E crescia igualmente grande, e movimentado, como a dança com Letícia na Fiesta de la Confraternidad. Mas muito dentro. Ribombava no coração magoado, sacudia-se no estômago, estremecia nos intestinos e explodia na privada. Seu jeito de desabafar. Meu irmão gestante daquele amor, mas ao avesso – ele, José, dentro da cápsula –, desde que viu Letícia ir embora.


Alguns meses ainda permanecemos em Tabatinga, a vida passando como rio, água após água. Meus outros irmãos quiseram perguntar sobre qualquer andamento, mas José era de um silêncio conservado. Quando ia cozinhar, demorava-se catando o feijão, encalacrado. Fazia um monte com os brocados, separava os gorgulhos, as pedrinhas e todo tipo de fiapos e sujeiras, e outro com os grãos sadios, de lisa perfeição. Depois, com o indicador, conferia ambos os montes, catava tudo de novo. E foi assim, grão por grão, que um dia, um pouco antes de irmos dormir, ele virou a panela dos pensamentos sobre nós: “¡Mañana!” No dia seguinte, estávamos rumo a Manaus.

Daí em diante, a vida passou no encompridamento dos dias. Quer dizer, no rasteiro de cada dia, separado dos outros, a vida tinha a morosidade de uma lagarta-de-fogo, tanto lenta quanto ardida. Às vezes, a vida dava uma volta sobre si mesma; olhava por cima do ombro, buscava o dia anterior e anteriores dias ao anterior. Não via muita coisa além do embaralho ancestral das lembranças de Tabatinga. Via ainda água, barco. Mas logo depois via uma cidade, gente espocando na nossa vista. A seguir, o asfalto quente, o ônibus lotado, o calor e os calos, a mão de José a me guiar, me perder e tornar a encontrar-me. Dias de um calor que vinha de fora, sim, mas também de um frio de olhos arregalados que me comia por dentro. E logo depois um calor que era só pele: vinha da terra seca onde erguemos nosso barraco, numa área devastada e tórrida, nos limites da cidade, sem uma árvore que esfriasse a monotonia escaldante da terra despelada; vinha da chapa de zinco quente da cobertura do 4x6.

No rolo dos anos, porém, foi outra velocidade. Dois anos após termos chegado a Manaus, José pôde dar início ao seu curso grande de professor. Grande mesmo: meu irmão foi estudar à noite no Instituto de Educação do Amazonas, e teve de cumprir dois anos além dos três ordinários do curso, por conta de ter sido reprovado duas vezes. O diploma – antes de encher o estômago e o intelecto das traças – chegou a ficar pendurado na parede, olhando lá do alto para nós, sem se mexer. Seis meses, e nada de José conseguir emprego em escola alguma. Apesar de o documento certificar-lhe o curso grande de professor, era para professor de criança pequena, e foi rejeitado em várias escolhinhas porque não pegava bem. Era o sotaque. Esse jeito de falar, enrolado na compreensão, escorregadio no som e no ritmo... Tudo isso pode atrapalhar as crianças em pleno aprendizado do nosso idioma português, disseram a ele. Que faça vestibular para Letras e se torne professor de espanhol... ou castelhano... o que vem a dar no mesmo, eu acho, alguém ainda buscou lhe encorajar. Fez o vestibular, por quatro vezes, sem sucesso. Tornou-se cobrador de ônibus. E de fato ninguém notava, ao vê-lo calado em tal função, que se tratava de alguém de fala tão esquisita. Acordava o dia antes de o dia se levantar. Quando partia para o trabalho, ainda dormíamos e talvez por isso pegou o costume de não se despedir toda vez que saía, mesmo em dias de folga. Se ele estava ou não em casa, era sempre difícil afirmar. Foi-se sumindo na massa de tempo das horas dos dias e de meses dos anos. Nunca chegou a ser professor de escola, mas manteve-se o chefe em casa. Fazia questão de deixar a comida quase pronta para nós, que já bem podíamos estar um palmo acima de sua autoridade. Devo a ele as primeiras páginas que li e estas que agora escrevo – aquelas porque foi ele meu primeiro professor, como já contei, e estas pelo inusitado dos recentes acontecimentos.

(conclui no próximo domingo)

sábado, 31 de outubro de 2009

Nem ralouin nem Saci: hoje é o dia do Curupira!
Zemaria Pinto

O Curupira, de Manoel Santiago (1897-1987).

O Palavra do Fingidor lança uma campanha nacional contra a bestificação e a macaquice: ralouin, puma nenhorra, bom mesmo é o Curupira! No verso do quadro acima, do amazonense (eu tenho orgulho...) Manoel Santiago, tem o seguinte texto:


“O Curupira é um dos seres phantásticos que povoam as densas florestas do Amazonas. É uma figura estranha, cheia de astúcias. Tem os pés virados para traz afim de melhor enganar os viandantes. As índias adolescentes, ao doce embalar das redes de tucum, adormecem sonhando com o Curupira. Se alguma d'ellas commeter uma falta e não a puder justificar, logo será acusado o Curupira pelo crime de sedução. Rio de Janeiro – Brasil 1926.”

Meu caro Mouzar Benedito encabeça uma campanha nacional, já há alguns anos, para acabar com a palhaçada do ralouin e instituir o dia nacional do Saci. Mas não está emplacando; deve ser aquele cachimbo politicamente incorreto; ou aquela carapuça ridícula, sei lá. Mas eu tenho o argumento definitivo: o moleque Saci não é nativo. Mestre Cascudo ensina que o romano Petrônio já o cita – entre uma sacanagem e outra do Satyricon. O Curupira, ao contrário, é brasileiríssimo: segundo ainda o inefável mestre, foi o padre Anchieta o primeiro a registrar a presença do nosso herói, em 1560:
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“É coisa sabida e pela boca de todos corre que há certos demônios a que os brasis chamam corupira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os índios deixar em certo caminho, que por ásperas brenhas vai ter ao interior da terra, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras coisas semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando fervorosamente aos corupiras que não lhes façam mal. ”
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Para Ermano Stradelli, o nome Curupira é formado pela contração de “curumi” e “pira”, ou seja “corpo de menino”.
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Então, ficamos assim: na próxima vez que alguém lhe falar de ralouin, lembre ao imbecil que isso é coisa de visagem e que você curte mesmo é o Curupira.
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31 de outubro, dia nacional do Curupira.
Fantasy Art – Galeria
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Maya.
Chris Achilleos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

fábula


muitas luas se passaram, desde que o gavião da montanha desapareceu da planície.

mas, ao ouvir o uivo de chacais, anunciando o sacrifício de mais uma ovelha, ele decidiu seguir o destino que lhe fora revelado em sonho.

pintou o rosto com tinta de tucum, pôs o penacho na cabeça, e subiu a montanha, soprando a flauta de bambu.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Manaus sob duas óticas: La Belle Vitrine e Manaus e Liverpool

A EDUA (Editora da Universidade Federal do Amazonas), a FAPEAM (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, co-financiadora de uma das obras), e o Museu Amazônico, convidam para o lançamento dos livros La Belle Vitrine, de Otoni Mesquita e Manaus e Liverpool, de David Pennington.

Onde: Museu Amazônico, rua Ramos Ferreira, Centro
Quando: 30 de outubro de 2009 (sexta-feira)
Horas: 19 horas


La Belle Vitrine. O mito de Manaus nunca foi explorado como no estudo deste livro de história da cidade. O Teatro Amazonas é apenas um dos marcos desse contexto, ao qual se juntaram novas ruas, novas praças e jardins, o projeto do Palácio dos Governadores, o Palácio da Justiça, o Instituto Benjamin Constant, bem como investimentos no porto de Manaus e nos serviços públicos de iluminação, de abastecimento de água, de comunicação, de transporte. Esse conjunto de intervenções urbanas e arquitetônicas constituíram La Belle Vitrine, a cidade da imagem embelezada.
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Manaus e Liverpool. O livro aborda as relações comerciais e marítimas entre as duas cidades, Manaus e Liverpool, durante o ciclo da borracha. Foram pouco mais de meio século de relações comerciais, em que Manaus se tornou a capital mundial da borracha, com linhas marítimas que a ligavam aos maiores portos europeus. Faz uma prospecção minuciosa dessas relações comerciais, lançando luz sobre um terreno ainda cheio de hipóteses, suposições e fantasias, mostran que os interesses ingleses em Manaus eram amplos e diversificados, mas se evaporaram rapidamente, tão logo o monopólio do látex se esvaiu.
Medicina nas primeiras cidades: Mesopotâmia
João Bosco Botelho

Deus bom, Ningishzida, representado em forma de cobra.

Com a consolidação do sedentarismo, nas margens dos rios piscosos, em torno de 5.000 anos, no Norte da África — Egito e Mesopotâmia — e algumas áreas da Ásia — Índia —, importantes modificações foram se processando nos antigos grupos nômades de caçadores-coletores. Entre as mais significativas, que mudariam para sempre as relações sociais humanas anteriores, se destacaram: a construção das elites dominantes laicas e religiosas, as práticas agrícolas, os ajustes e defesa da territorialidade e os panteões.

Como fruto dessas mudanças, as sociedades francamente hierarquizadas acolheram regras destinadas às propriedades privadas, moldando os assentamentos mais duradouros.

Os aldeamentos foram substituídos pelas primeiras cidades e, no milênio seguinte, as civilizações regionais se consolidaram e assimilaram diferentes formas de poderes, predominando o teocrático e o mercantil-escravista. As guerras contínuas pela posse do território ofereciam escravos e terras, fortalecendo a escravidão e a propriedade privada.

Muitas mudanças provocadas pelo sedentarismo contribuíram para fortalecer a figura social do médico. De modo geral, os registros disponíveis, no Egito (Novo Império, XVIII a XX dinastias, 1.540 a 1.069 a.C.), Mesopotâmia (Babilônia, no período de Hammurabi, 1792-1750 a.C.) e Índia (Mohenjo-Daro, 2.500 a.C.), indicam que, apesar de poucos, os médicos já eram personagens sociais reconhecidos e com nominação própria, instruídos na arte de curar por meio de remédios e cirurgias.

Os médicos dessas cidades, sem um processo teórico que explicassem a saúde e a doença, apesar de terem iniciado a Medicina como uma especialidade social, ficavam atados às crenças e idéias religiosas, onde a vontade dos deuses e deusas era mais poderosa de que os remédios e as cirurgias.

Por outro lado, mesmo com a comprovação histórica da estreita ligação dos médicos ao panteão — Medicina divina — em ensaios de acertos e erros, compondo o conhecimento historicamente acumulado, houve a busca de novos saberes da natureza circundante para curar as doenças — Medicina empírica. É possível que a proximidade entre essas duas práticas médicas, em especial as praticadas nos templos pelos representantes dos deuses e deusas, os sacerdotes e as sacerdotisas, tenha promovido a semente que levaria a construção da Medicina oficial, amparada pelo poder dominante.

De certo modo, mutatis mutandis, nos quatro cantos do planeta, continuamos comprovando a existência dessas três Medicinas.

Deus mau em forma de inseto díptero.
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Mesopotâmia

A atividade médica deveria ser intensa e diferenciada nos vários extratos sociais, no reinado de Hammurabi (1728-1688 a.C.), suficientes para gerar atritos freqüentes, perturbando a ordem social.

Como não se constroem leis proibindo ou punindo o que não se faz, a administração do rei Hamurabi dedicou vários parágrafos do famoso código de leis para disciplinar o exercício da Medicina:
§ 216 Se foi o filho de um muskenum, ele receberá 5 siclos de prata.
§ 217 Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará ao médico dois siclos de prata.
§ 218 Se um médico fez em um awilum uma operação difícil com um escalpelo de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum e destruiu o olho do awilum, eles cortarão a sua mão.
§ 219 Se um médico fez uma operação difícil com um escalpelo de bronze no escravo de um muskenum e causou-lhe a morte, ele deverá restituir um escravo como o escravo morto.
§ 220 Se ele abriu a sua nakkaptum com um escalpelo de bronze e destruiu o seu olho, ele pesará a metade de seu preço.
§ 221 Se um médico restabeleceu o osso quebrado de um awilum ou curou um músculo doente, o paciente dará ao médico 5 siclos de prata.
§ 222 Se foi um muskenum, dará 3 siclos de prata.
§ 223 Se foi o escravo de um awilum, o dono do escravo dará 2 siclos de prata.

Dessa forma, o código de Hammurabi iniciou o processo histórico para estabelecer normas nos dois pontos cruciais da ordem médica: as sanções que devem receber os médicos pela imprudência, imperícia e negligência e os honorários diferenciados pelo tratamento entre pessoas de diversos grupos sociais.

Como no Egito, os tratamentos eram cercados da presença dos deuses e deusas e a doença compreendida:
- Como castigo divino;
- Ofensa específica a um determinado deus;
- Intervenção direta dos deuses maus;
- Abandono do deus protetor;
- Influência do deus mau.

O panteão era povoado por muitos deuses e deusas taumaturgos:
- Gula, mulher de Ninurta;
- Ningischzida, filho de Ninurta, representado pelas duas cobras enroladas no bastão; trata-se da primeira associação entre a cobra e a Medicina;
- Sachan, a deusa-serpente;
- Ishtar, a deusa da fecundação e libido no homem e na mulher;
- Pazuzu, o deus mau em forma de um inseto díptero.

As tábuas de escrita cuneiforme encontradas nas bibliotecas de Assurpanibal, em Nínive, e Hammurabi, em Mari, descreveram os quadros de várias doenças de modo extraordinariamente coerente e preciso: malária, tuberculose pulmonar, distúrbios mentais, alguns tumores benignos e malignos, otite, gastrite, hepatite e asma brônquica, entre muitos outros.

De modo geral, as práticas médicas, nas primeiras cidades, moldaram grande parte da compreensão da profissão, que perdura na atualidade:
- Reconhecimento social do médico;
- Trabalho remunerado;
- Fiscalização da má prática;

Talvez seja interessante refletir sobre dois aspectos significativos da relação da Medicina mesopotâmica com os deuses e deusas.

1. A significância do simbolismo da cobra ligada à cura das doenças: o caminho escolhido pelo imaginário humano na busca da pretendida imortalidade com a participação da cobra está perfeitamente claro em dois fantásticos registros. O primeiro, no Rig Veda, onde os Adityas descri­tos como descendentes da cobra, porque ao perderem a pele velha, vence­ram a morte e adquiriram a imortalidade. O segundo, na Epopéia de Gilgamesh, on­de o herói, depois de inúmeras ações sobre-humanas para obter a planta da vida eterna, cansado, após acordar na beira do rio, presencia o remédio que garantiria a vida eterna ser comido pelo réptil, seguindo-se da imediata mudança da pele, momento em que o herói mítico babilônico se dá conta da morte inevitável.

2. O deus mau Pazuzu em forma de inseto díptero: como os primeiros assentamentos, na Mesopotâmia, foram consolidados em área de várzea, pressupõe-se a existência da maior quantidade de insetos que transmitem a malária. Apesar de nada conhecerem da etiologia dessa doença, é possível que tenham associado o inseto com as febres descritas.

Desse modo, mesmo com a forte dependência das idéias e crenças religiosas para formar juízos de valores das doenças, tanto no Egito quanto na Mesopotâmia, havia a intencionalidade de compreender a doença fora do panteão.
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Diorito preto contendo o código de Hammurabi.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fantasy Art – Galeria
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Battle of the Mermaids.
Julie Bell.
drops de pimenta 34


─ Esses teus amigos são uns cascas!
─ ...
─ Sabe o que o Alfredão falou da Alice, a mu-lher-de-le?!
─ ...
─ Que ela está com o prazo de validade vencido!

(Zemaria Pinto)
Os sertões – uma tragédia brasileira (3/8)
Zemaria Pinto








terça-feira, 27 de outubro de 2009

Entre as sombras, novo livro de João Bosco Botelho


Com a capacitação de sua competência intelectual, traçada em uma formatação de imagens que buscam no passado as bases sobre as quais explicita um poder descritivo que imanta o interesse do leitor, João Bosco Botelho promove através de brilhantes flashes históricos da Manaus ainda mergulhada no auge da riqueza produzida pela economia da borracha, uma descrição do que foi a urbes manauara no desenrolar dos seus instantes de projeção até no exterior, inclusive pela presença de estrangeiros aqui vindos apenas para enriquecer, promovendo ações maléficas, como a do inglês que furtou as sementes da preciosa seringueira, levando-as ao seu país.

João Bosco Botelho traça um painel – confirmado pela história – da existência de uma cidade que viveu dias de esplendor e de decadência e estagnação. É nesse ambiente que o autor fez inserir, de forma aventuresca, porém não menos verdadeira, o existir de pessoas que vivenciaram grande parte de suas existências, trocando experiências e registrando, algumas ainda pelos recursos da memória dos que restam, momentos expressivos da vida cotidiana. O livro apresenta uma família de classe média tradicional da cidade, com um patriarca conservador e integrantes que de certa forma sempre dão um jeito de administrar os conflitos internos.

Entre as sombras, o primeiro romance de João Bosco Botelho, apresenta, na sensibilidade e emoção, a existência de personagens que povoam suas páginas, potencializando, para conhecimento de quem mergulhar em sua leitura, horas de apreensão, mas que foram também de coragem no enfrentar das circunstâncias. É, portanto, um livro destinado a quantos se interessam pelo que Manaus teve de autêntico, num momento crucial da existência do País.

O Autor

Dono de vasta cultura humanística, o professor Dr. João Bosco Botelho é reconhecidamente um dos principais mestres da Universidade Federal do Amazonas, onde atua como orientador do doutorado de biotecnologia. Também é professor do Curso de Medicina da Universidade do Estado do Amazonas e da Universidade Nilton Lins. Membro da Academia Amazonense de Medicina, conquistou seus títulos superiores com sua produtividade médica e científica principalmente como professor convidado da Universidade de Paris 7, na França, uma das mais antigas do mundo. Autor de História da Medicina, para o autor a medicina é um sacerdócio, renúncia, serenidade, bondade, tolerância, compreensão, respeito à vida humana físico e espiritual, competência e ética.

Sua obra literária é erudita e completa. Tem publicadas as obras: Arqueologia do Prazer (1990); Os limites da cura (1998); O Deus genético (2000); História da Medicina: da abstração à materialidade (2004); Medicina e religião (2005); e Epidemias – a humanidade contra o medo da morte (2008).

Evento: Lançamento de livro
Título: Entre as sombras
Autor: João Bosco Botelho
Páginas: 156
Valor do livro: R$ 25,00
Data: 28 de outubro de 2009 (quarta-feira)
Horário: 19h30min
Local: Centro Cultural Palácio da Justiça - Av. Eduardo Ribeiro, 833 – Centro.
Contatos: 3635-1324 (Editora Valer)
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