Amigos do Fingidor

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sábado na Academia: Armando de Menezes fala sobre Araripe Júnior




Academia Amazonense de Letras promove 10ª edição da Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes



Nesta sexta-feira, 25 de abril, às 20h, a Academia Amazonense de Letras estará promovendo, pelo 10º ano consecutivo, a entrega da Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, em homenagem a um de seus fundadores, presidente do sodalício durante muitos anos, e intelectual de renome nacional.
A Medalha do Mérito Cultural contempla três áreas: Letras, Artes e Mecenato. Nos anos anteriores, 27 diversos escritores, artistas, empresários e instituições foram contemplados com a Medalha, como Milton Hatoum, Astrid Cabral, Coral João Gomes Júnior, Nivaldo Santiago, Phelippe Daou, Ivete Ibiapina, Oscar Ramos, Instituto Dirson Costa, entre outros.  
Este ano, a Academia Amazonense de Letras concederá a comenda a:
LETRAS – Alcides Werk, in memoriam. Um dos mais expressivos poetas do Amazonas, nasceu no Mato Grosso do Sul, mas viveu grande parte de sua vida no interior amazonense, notadamente em Maués e Nhamundá. Sua poesia, além de grande força telúrica, é representativa do repúdio ao golpe militar de 1964 e à ditadura que se instalara então. Deixou vários livros de poesia, entre os quais Trilha dágua, Poemas ribeirinhos e Da noite do rio
ARTES – Sergio Cardoso. Artista plástico, fotógrafo, cineasta e dramaturgo, é o mais inquieto artista de sua geração, sempre em busca do novo, sempre desafiando o óbvio. Com uma produtividade impressionante, mantém o ritmo de duas exposições ao ano, sem deixar cair a qualidade. Como dramaturgo, é um dos mais produtivos, com mais de 15 peças encenadas. Está por lançar o livro, já pronto, Teatro urbano das mulheres de Lazone.
MECENATO – Fazenda da Esperança. Uma obra social mantida pela Arquidiocese de Manaus, tendo à frente o bispo auxiliar D. Mario Pasqualotto, foi fundada em 2001. É um centro para recuperação de dependentes químicos, com 100 vagas para o público masculino e 30 vagas para o feminino, além de manter uma unidade em São Gabriel da Cachoeira, também com 30 vagas, para o público masculino. A metodologia empregada, baseada em valores cristãos, assenta-se no tripé “religiosidade, trabalho e convivência, social e familiar”. Trabalho essencialmente voluntário, a Fazenda da Esperança tem contribuído para a recuperação de centenas de jovens, que voltaram ao convívio da família e a tornar-se cidadãos.   

A saudação aos agraciados será proferida pelo acadêmico Zemaria Pinto.

O pajé tupinambá



João Bosco Botelho


         Em maio de 1986, as agências de notícias divulgaram a pajelança do cacique Raoni no pesquisador Augusto Ruschi, gravemente enfermo, com cirrose hepática. O aparecimento da doença foi associado ao veneno de um sapo dendrobata, que teria sido inoculado no ornitólogo durante uma das suas viagens ao Amazonas.
         As imagens da pajelança foram vistas por milhões de pessoas, no mundo, fascinadas com o cacique Raoni soprando fumaça de tabaco sobre o pesquisador e fazendo gestos invocando os espíritos dos mortos, para ajudar na cura do grande naturalista.
         O ritual se prolongou alguns dias e não mudou o curso da enfermidade. O inesquecível Augusto Ruschi morreu algumas semanas depois, num centro de tratamento intensivo, em Vitória do Espírito Santo.
         As sociedades científicas divulgaram notas explicativas sobre certas características das mais de quarenta espécies da família Dendrobatidae: apesar de bem estudada, não existia registro de os venenos serem capazes de determinar cirrose hepática. Esses anfíbios possuem algumas glândulas subcutâneas onde secretam  alcaloides que em contato com a pele humana causam somente pequenas queimaduras na pele.
         Chamou atenção da imprensa internacional o apoio oferecido pelo presidente da república para que o ritual fosse consumado o mais rápido possível, tendo inclusive oferecido o transporte aéreo para levar o pajé até o pesquisador.
         Como ponte para compreender aquele interesse coletivo em torno da pajelança para salvar a vida do ornitólogo, seria bom relembrar a importância do pajé tupinambá no Brasil colônia.
         Existem várias expressões de origem tupi para designar o personagem que exercia durante os primeiros séculos da colonização portuguesa o domínio das práticas de curas entre os tupinambás. Stradelli reconhece o pajé como sinônimo de paié: ''É o médico, o conselheiro da tribo, o padre, o feiticeiro, o depositário autorizado da ciência tradicional. Pajé não é um qualquer. Só os fortes de coração, os que sabem superar as provas de iniciação, que têm o fôlego necessário para ser pajé''. Por outro lado, pagi, pay, payni, paié, paé, piaecé, piaché, pantché são variações de pajé, formadas etimologicamente por pa-yé, aquele que diz o fim ou profeta.
         A relevância social do pajé tupinambá pode ser entendida a partir das várias descrições dos agentes coloniais, entre séculos 16 e 18. A maior parte identificando-os como elementos de resistência à dominação; poucos, elogiando os saberes historicamente acumulados.
         O jesuíta José de Anchieta, um dos primeiros a olhar o pajé como feroz inimigo, escreveu: ''Já não ousas agora servir de teus artifícios, perversos feiticeiros, entre povos que seguem a doutrina de Cristo: já não podes com mãos mentirosas esfregar membros doentes...". Contrariamente, o médico Guilherme Piso, chefe dos Serviços Médicos das Índias Ocidentais, da comitiva de Maurício de Nassau, registrou: “Prescindem de laboratórios, ademais, sempre têm à mão sucos verdes e frescos de ervas. Rejeitam os remédios compostos de vários ingredientes, preferem os mais simples”. Ao retornar para a Holanda, após a expulsão dos holandeses, Piso levou consigo muitos remédios prescritos pelos pajés tupinambás, em especial as que evitavam as amputações dos pés, quase sempre seguidas da penosa morte pela infecção.

         A esperança de curar o imortal ornitólogo Augusto Ruschi com o sopro da pajelança estava justificada numa história de longa duração.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

O mau-humor no tempo da ópera




As pessoas se enganam quando dizem que a ópera já não é a mesma. Ela é a mesma – e este é o problema.
(Noël Coward)


Não quero saber em que língua a ópera será cantada – desde que seja numa língua que eu não entenda.
(Wilson Mizner)


O cúmulo da estupidez é o sujeito dar um dó de peito com um punhal cravado no dito cujo.
(Luiz Bacellar)


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Lábios que beijei 18



Zemaria Pinto
Emiliana

 

A história da família de Emiliana emprestava-lhe uma aura trágica: traições, vinganças, assassinatos. Mas Emiliana era uma flor silvestre colhida nos ermos daquela cidadezinha do interior. Era de uma brancura extrema, um cor-de-rosa tênue, que se intensificava no contraste com os cabelos negros, encrespados, curtos. A visão das pernas de Emiliana era arrebatadora: na minha lembrança, elas estão sempre envolvidas em uma indefinível luz. Sabendo-se desejada, era generosa, sempre vestida em leves peças coloridas e um tanto transparentes. Em certa ocasião, não lembro exatamente por qual motivo, pois ela vivia cercada de gente, atraída pela sua beleza e pelas fábulas do seu entorno, vi-me sozinho com Emiliana. Conversávamos banalidades, coisas de escola, sentados no chão. Era um sofrimento desviar os olhos das pernas de Emiliana. Percebendo meu desconforto, ela chegou mais perto, tomou minha mão direita e estendeu-a sobre a carne rija de sua coxa de sonho. Na boca de Emiliana, o aroma das flores do campo, a doce doçura da língua de Emiliana e uma vertigem que ainda hoje me toma, quando relembro aquela cena. Nunca mais, nunca mais fiquei sozinho com Emiliana.

domingo, 20 de abril de 2014

Manaus, amor e memória CLVI


Panorâmica do porto de Manaus.
Ao fundo, à esquerda, o Teatro Amazonas, São Sebastião e a Matriz.

sábado, 19 de abril de 2014

Fantasy Art - Galeria

 
Andrômeda.
Boris Vallejo.
 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2007 – 1/7



Zemaria Pinto

I

Em sua terceira edição, a medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes ainda suscita algumas dúvidas curiosas. Quais os critérios para a escolha dos nomes? Por que um mecenas entre dois artistas? Quem foi mesmo esse Péricles Moraes? Este ano, me perguntaram se a Ivete homenageada era filha daquela quenome à Casa Ivete Ibiapina, na 10 de Julho... Também me perguntaram se o Milton Hatoum era mesmo amazonense...
À primeira pergunta, com relação aos critérios, tenho respondido que, além de ser amazonense ou aqui militar em sua área, a Academia leva em consideração para a escolha dos homenageados o conjunto da obra. Hoje temos aqui três amazonenses, manauaras, de sucesso: um empresário que aposta nos artistas locais, uma pianista que fez história como professora de várias gerações e um romancista consagração pela crítica e pelo público.
À pergunta sobre o mecenas, digo que acho que deveríamos homenagear não um, mas dois, pois assim talvez estimulássemos o aparecimento de outros, pois os artistas e a arte precisam deles.
Sobre o velho Péricles Moraes, respondo que eu mesmo atépouco tempo, ignorante, não o conhecia. Esta festa anual em sua memória tem o objetivo de tornar sua lembrança perene entre nós, pois, não à toa, os mais antigos metaforizam a Academia como a “casa de Péricles Moraes” – aqui ele esteve por 48 anos, tendo sido um de seus fundadores e, além do presidente Adriano Jorge, o único a discursarduplamente, inclusive – na memorável noite de 09 de janeiro de 1918, quando se deu a instalação da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, da qual esta Academia é legítima sucessora. Naquela ocasião, Péricles Moraes fez a apologia do seu patrono, o romancista e ensaísta Gonzaga Duque, tecendo um breve estudo crítico de sua obra e salientando as características de sua arte, conforme noticiou um jornal da época.[1] Gonzaga Duque, autor de Mocidade Morta, era o profeta daquela religião que tinha deuses franceses e um mártir brasileiro, jamais canonizado, dito João da Cruz e Sousa, também chamado de Cisne Negro e Dante de Ébano.
Na sequência, o orador discorreu sobre “O Tolstoismo e a verdadeira concepção da beleza”. O mesmo jornal arremata que “no desenvolvimento da tese que constituiu a parte mais importante de sua conferência, o orador foi imaginoso e fecundo, fazendo a longa e torturada psicologia artística de Tolstoi, o incomparável solitário de Yosnaia Poliana, misto de demagogo e de artista, cujo nome atravessou as fronteiras da Rússia e causou a admiração do mundo, como o filósofo mais singular do seu tempo.” É claro que o sentido que o jornal dava para a palavra demagogo não era o mesmo que damos hoje para classificar certos tipos públicos.
Parece-me que aquela jornada dupla do bom Péricles, na noite de 09 de janeiro de 1918, falando em nome dos 30 fundadores da nossa Academia, inoculou-nos para sempre esse pendor pelos discursos acadêmicos

Obs: Discurso proferido pelo acadêmico Zemaria Pinto, por ocasião da solenidade de entrega da medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, realizada na sala do Pensamento Amazônico, sede da Academia Amazonense de Letras, a 28 de abril de 2007.





[1] A CAPITAL. Manaus: 11 de janeiro de 1918. Arquivo do IGHA. Não temos elementos para afirmar com precisão, mas no livro de Péricles Moraes Intérpretes da Amazônia (Manaus, Valer, 2001) há um ensaio intitulado “Pela glória de Gonzaga Duque”, que poderia ser o mesmo texto de 1918.  

Gabriel Garcia Márquez (06-03-1927 / 17-04-2014)

Gabriel Garcia Márquez, por Toscano.

Práticas de curas no cristianismo primitivo



João Bosco Botelho

         As ideias e crenças religiosas continuam explicando aspectos da natureza circundante e, ao mesmo tempo, são usadas em certos controles sociais. As teogonias (nascimento dos deuses e deusas relacionados à formação do mundo) e a cosmogonia (narrativa, doutrina ou teoria que explica a origem do mundo e do Universo) estão ligadas aos ciclos naturais visíveis como à chuva, fecundação do solo, seca e às pestes.
         As regras garantindo a saúde e evitando a morte, no Antigo e no Novo Testamento, são suficientes para estabelecer vínculo entre o processo histórico da consolidação da medicina como instrumento social voltado à compreensão e cura das doenças, entre os séculos 1 a.C. e o 1 d.C.,  e o cristianismo primitivo.
         Tanto naquele tempo quanto nos dias atuais é facilmente identificável a grande distância entre a medicina dos ricos e a dos pobres. Parece-nos ser importante partir desse pressuposto: as práticas médicas oferecidas aos cidadãos romanos e os próximos da corte eram melhores que a recebida pelos escravos e oprimidos pela ordem dos imperadores.
         O cristianismo surgiu em condições sociopolíticas sob o regime escravista do Império Romano. Nessa época, as massas populares, parte delas de origem judia, que continuavam fugindo após a diáspora, tiveram um papel fundamental na construção do pensamento cristão. É possível que a medicina praticada por esse povo, habitante nova no espaço geográfico aonde se formaria o cristianismo, fosse impregnada dos preceitos médicos do Antigo Testamento.
         De acordo com os exegetas as fontes cristãs que remontam às origens do cristianismo não são muitas. Apesar das controvérsias uma das tendência acredita que a mais antiga seja o Apocalipse de São João, do ano 68; seguido das Epístolas, da metade do século 2; dos Evangelhos, da segunda metade do mesmo século, e a mais recente de todas as fontes históricas cristãs, o Ato dos Apóstolos. Isto quer dizer que não foi encontrado documento cristão produzido no século 1.
         Por essas razões é razoável pressupor que a medicina praticada pelos cristãos dos primeiros séculos estivesse mais próxima das práticas médicas judaicas. Possivelmente, por essa razão, o cristianismo primitivo pode ter incorporado o conceito da doença como castigo pelos pecados cometidos, existente séculos antes, entre os judeus da diáspora. Na realidade, essa interpretação da doença, sob a exclusiva interpretação das ideias e crenças religiosas, compreensão do sagrado, está presente desde os primeiros registros, na Mesopotâmia, Egito e Índia, nos respectivos livros sagrados dessas respectivas culturas.
         Afora o sentido sagrado neotestamentário, de inigualável senso religioso, os Apóstolos também entenderam Jesus Cristo como profeta (Mt 16,14; Lc 7,16; Jo 4,19 e 9,17) capaz de provocar milagres.
         Estabelecendo o juízo de valor, o grande Thomás de Aquino dividiu os milagres em absolutos ou de primeira ordem e relativos ou de segunda ordem. O milagre apologético, sempre de primeira ordem, serve de louvor. Deve ser perceptível e confirmar a origem divina da revelação. Tem particular interesse o aspecto físico porque é observável nos corpos. Logo, a cura de uma doença, considerada fatal e irreversível, pode ser entendida como milagrosa e um sinal de Deus.

         A extraordinária beleza descritiva apostólica dos milagres operados por Jesus Cristo, inclusiva na prática médica dos primeiros tempos cristãos, envolve a essência da medicina como prática social: a generosidade que cativou o mundo e consolidou a Nova Aliança. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sobre versejadoras histéricas e medíocres



Não intento aludir, é claro, à farândola desconcertante das versejadoras histéricas e medíocres que, à sombra dos dislates de um falso modernismo, e numa linguagem referta de cacologias, no mesmo passo corrompem e desmoralizam a arte e o idioma.

Péricles Moraes (1882-1956),

no ensaio “Exaltações da poesia tropical”, onde ele analisa a poesia de Violeta Branca, tirando o corpo e a pena fora da poesia rola-bosta.

Quanta atualidade!

domingo, 13 de abril de 2014

Manaus, amor e memória CLV


Chegada de um navio no porto de Manaus, antes da construção do Roadway.
O desembarque era feito em pequenos barcos, pois os navios de grande calado não podiam atracar.
Ao fundo, a matriz da Conceição.

sábado, 12 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Otelo Solo na Aparecida


Otelo Solo - de Zemaria Pinto, dirigido por Nereide Santiago, com o ator Arnoldo Chaves -
será apresentado sábado, dia 12 de abril, às 19h,
no Teatro Comandante Ventura - Centro de Convivência do Idoso,
no bairro de Aparecida.  

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Caravana Literária – gênese e apocalipse



Zemaria Pinto

No princípio era a palavra. E a palavra vestiu-se de música. E a palavra se fez canção. No princípio era a canção.  E a canção fez-se poema. E do poema brotou a poesia. No princípio era a poesia. Assim nasceu a poesia. Porque o poema e a canção nasceram da mesma semente e mesclaram-se e fundiram-se e viraram-se pelo avesso, feito dois amantes enlouquecidos, confundindo pernas e braços e peitos e línguas – os olhos fechados fitando o infinito.

O que é poesia?, pergunta a menininha, com um brilho estranho nos olhos: ela sabe que essa pergunta não tem resposta. Poesia não se define, garota. Poesia é emoção? Não, a gente faz poesia pra não sofrer do coração. Poesia é confissão? Não, poesia é ficção e fricção. Poesia é comunhão? Não! Poesia é fratura exposta. Poesia é rompimento, fragmentação. Poesia é (revire os olhinhos) “exercício de linguagem”? Não! Poesia é imaginação. “Um boi e um homem são levados ao matadouro. O primeiro a berrar é o homem. Mesmo que seja o boi.”

O que é poesia, então?, pergunta o garotinho, com um sorriso igualzinho ao do Chuck. Poesia não se define, menino, não enche. Poesia é luz? É escuridão! Poesia é sonho? É a realidade da vida banal! Poesia é sentimento? Não, poesia é alegria, alegoria, fantasia. Poesia é carnaval!

Antes mambembes, agora somos profissionais. Mas não tente tirar a máscara da nossa face. Nãomáscara, somos assim mesmos... A Caravana Literária, de fevereiro a fevereiro, saúda o distinto público e pede passagem. Evoé!

Manaus, Fevereiro de 2006

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A Caravana Literária começou a atuar nas escolas públicas em 2004, como uma forma de divulgar a produção poética dos participantes e incentivar alunos e professores a apreciar a literatura que se faz no Amazonas. A partir de meados do ano seguinte, o grupo estruturou-se em torno dos poetas Aldisio Filgueiras, Davi Ranciaro, Dori Carvalho e Zemaria Pinto, com a participação do grupo Jiquitaia, que, tendo à frente o compositor Mauri Marques, tem um trabalho voltado para, por meio da música, divulgar a poesia amazonense.

Sábado na Academia, Abrahim Baze e Estelita Tapajós

 

Deuses gregos curadores: Apolo e Asclépio



João Bosco Botelho

         O contínuo movimento dos homens e mulheres é uma das principais diferenças da cultura grega das anteriores que se desenvolveram nas margens dos rios Indo e Nilo. Ao contrário das pinturas e esculturas, estáticas frontais ou laterais, egípcias e mesopotâmicas, a grega mostrava os corpos em movimentos.
         De maneira semelhante, talvez mantendo laços na construção cultural, a teogonia (nascimento dos deuses e deusas relacionados à formação do mundo) e a cosmogonia gregas (narrativa, doutrina ou teoria que explica a origem do mundo e do Universo) se assentaram na grande mobilidade de deuses e deusas descritos com qualidades e defeitos equiparados aos dos humanos.
         Na complexa construção do panteão (conjunto de deuses e deusas de determinada religião politeísta) grego reproduzindo o nascimento das divindades, como se atavam às agruras humanas e os caminhos míticos das soluções, sem dúvida, receberam destaque os deuses mais competentes para curar doenças temidas.
         Apolo, filho de Zeus e Leto (uma das amantes prediletas de Zeus), adorado na Grécia e nas cidades do Mediterrâneo oriental, como deus da luz do sol, vencia a obscuridade; da purificação, trazia a benção da pureza do belo; da harmonia, vencia os conflitos; e da adivinhação, mostrava aos homens e às mulheres o caminho da cura. Ao mesmo tempo, o povo grego também reconhecia e temia Apolo como cruel vingador quando se sentia contrariado, matava os inimigos com as flechas de ouro certeiras, presentes de Zeus, logo após seu nascimento.    
         Na Grécia, o mito da carruagem trazendo o sol luminoso se ligou a Hélios e seu filho Faetonte.  Após a conquista romana, nas representações artísticas que incluem moedas, pinturas e esculturas de mármore e bronze, Apolo se confunde com Hélios, o deus-sol grego. As imagens metamórficas desse poderoso deus curador penetraram no território romano, sempre ligadas às proteções das doenças, talvez por essa razão, indissoluvelmente atado ao controle do sol radiante.
         Com as qualidades e defeitos humanos, Apolo foi infeliz em algumas paixões, rejeitado e traído em outras. Contudo, gerou descendências de natureza divina, de heróis e de semideuses. Entre as onze mulheres amadas por ele que geraram onze filhos, se destacou a paixão avassaladora com Coronis, filha de Flégia, rei da Tessália. Dessa união plena de dramas e artimanhas nasceu Asclépio, que se tornaria o mais importante deus curador grego, a partir do século 4 a.C., vivamente festejado no dia 12 de outubro em grandes procissões nas ruas.
         Após a conquista da Grécia pelas legiões romanas, Asclépio absorvido na cultura mítica do conquistador, recebeu o nome de Esculápio. As grandes festas públicas que comemoravam Asclépio e Esculápio continuaram com grandeza crescente. O cristianismo em franca ascensão não conseguia conter o culto desses deuses curadores. O sincretismo não tardou, as autoridades eclesiásticas determinaram que 12 de outubro fosse o dia do nascimento de Lucas, o apóstolo médico. Desse modo, na atualidade, muitos médicos continuam comemorando o “Dia do Médico” sem saberem que se trata do “Dia de Asclépio”.

Como no mito de Gilgamesh, do panteão mesopotâmico, no qual o herói presenciou a planta da vida eterna ser comida pela cobra, que imediatamente após, renasceu perdendo a pele, a condição mortal humana está expressa na morte de Asclépio, determinada por Zeus por meio dos raios dos Ciclopes, temendo que a ordem natural do mundo fosse alterada pela ressuscitação os mortos.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

Edifício Marquês de Sade


No livro Edifício Marquês de Sade, o escritor amazonense Tenório Telles estreia no universo dos contos eróticos. Ele é organizador da obra, junto com os paulistas Roberto Fabra e Daniel Vas, e também assina dois textos: “A sétima lua cheia” e “Os peitos de mamãe”. 

A obra é resultado de uma oficina de criação literária que Tenório participou em São Paulo. “O livro é fruto de um trabalho que participei sob orientação do escritor Marcelino Freire que promove anualmente uma oficina de criação literária com ênfase no conto. Uma das atividades práticas foi criar contos com temática erótica. Ao final, nós fizemos uma seleção com os melhores textos e dessa seleção resultou o livro”, comenta.

Conhecido por seu trabalho com a poesia, Tenório conta como foi a experiência nesse novo gênero: “Eu já havia escrito alguns contos como exercício mesmo, mas a minha relação de criação literária é com a poesia. Não tinha pretensão de escrever ficção e, sim, meus ensaios e textos para o teatro. Mas com essa experiência me senti estimulado. Foi  um bom exercício até de sutileza porque ao escrever um conto erótico, você corre o risco, se não souber dosar, de descambar para a vulgaridade, para a pornografia. É um exercício de contenção”, pontua.

O escritor adianta que está escrevendo novos textos do gênero para, em breve, publicar.

“Já penso em publicar um livro só com textos eróticos. Já estou escrevendo. É uma experiência libertadora. As pessoas têm muitos pudores, ficam constrangidas de falar sobre sexualidade. Isso é uma grande bobagem porque a sexualidade é inerente à vida”.

Sobre a obra

Edifício Marquês de Sade (o título já acende a nossa curiosidade) traz, na sua apresentação, o seguinte parágrafo: “Pode entrar. No Edifício Marquês de Sade, são bem-vindos todos os gêneros, credos, medos, arroubos. Venha você de onde for. E parta para onde quiser. Quem chega aqui só não consegue sair igual ao que entrou”

A porta do Edifício encontra-se aberta, aliás, escancarada. O anunciante do convite diz que todos são convidados, mas, pergunto-me: Todos mesmo? Ou somente os de “passos mansos”, os “sem pudor”, os “poucos com maldade”, os “todos sem saciedade”?

A resposta às questões só poderá ser encontrada se entrarmos no Edifício Marquês de Sade; quando nos ambientamos nos seus quartos ou olhamos para além das suas janelas; quando, na imaginação, construímos a sala, com um piano, diante dele um pianista sem rosto, num restaurante vazio. A ideia do Edifício começa, então, a ser nítida.

No Edifício, vivem-se sentimentos, insinuam-se queixas, lamentos e situações doces e, ao mesmo tempo, caóticas, por serem esperas desesperançadas, por serem, apenas, memórias, coisas do inconsciente, aparentemente sem nexo ou importância. Mas também dores e sentimentos reais: abandono, sofreguidão, esperança e amor.

O Edifício alardeia um fogaréu. É Cecília, a esposa dedicada de um grande investidor, num dos seus atendimentos em horário comercial. E... por aí vai... até os contos finais, que se fecham em “A sétima lua cheia”, que tem Morgana (a fantasia, o júbilo, a artimanha e o ardil) como protagonista. Não seria o Edifício Marquês de Sade se não entrelaçasse a loucura, a fantasia, a virgindade, a prostituição, a beleza e o torpor espelhados pela Sétima Lua Cheia sobre finos lençóis de linho.

 

Evento: Lançamento de livro

Título: Edifício Marquês de Sade

Organizadores: Tenório Telles, Roberto Fabra e Daniel Vas

Data: 12 de abril de 2014 (sábado)

Horário: 10h

Local: Livraria Valer - Avenida Ramos Ferreira, 1195 ─ Centro

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Lábios que beijei 17



Zemaria Pinto
Monga


Nunca lhe soube o nome verdadeiro, mas as duas semanas em que Monga, a mulher-gorila, esteve na cidadezinha à margem do verde rio foram de absoluto êxtase. O espetáculo era tosco. A maquiagem, pré-King Kong – filme que assistíramos no ano anterior, no poeira da cidade, em rolos insuportavelmente picotados. Mas Monga, a atriz – por que não? –, era de uma beleza angelical. Como faziam aquela monstruosidade de mau gosto a uma moça tão bela? Magra, alta (pelo menos, para os meus 12 anos), os cabelos crespos, negros, derramados sobre a pele rosacobreada, o nariz afilado, os olhos negros e a boca – a boca sutilmente desenhada, num matiz carmim. Por trás da tenda onde se dava a metamorfose em duas sessões noturnas, havia um trailer, que funcionava como camarim. Por uma fenda na parede, amei Monga noturnamente, por duas semanas – antes e depois dos espetáculos. O seu corpo, despido do leve vestido cotidiano, cobria-se inteiro com a negra roupa de cena, botas e luvas negras – somente o rosto à mostra.  Passados mais de setenta anos, ainda sonho com Monga, o seu rosto, apenas – os olhos semicerrados –, flutuando assimétrico na escuridão, onde não distingo mais nada, nem mesmo as minhas criminosas mãos.

domingo, 6 de abril de 2014

Manaus, amor e memória CLIV

Vista da Matriz da Conceição, tendo como coadjuvantes,
à direita, o Relógio Municipal, e, ao fundo, o Teatro Amazonas e a igreja de São Sebastião.

sábado, 5 de abril de 2014

Fantasy Art - Galeria


 
I miss you.
Linda Bergkvist.
 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Entrevista ao Jornal do Comércio


Entrevista concedida por Zemaria Pinto ao jornalista  Evaldo Ferreira, publicada no dia 28 de março de 1014, lembrando os 50 anos do poema "Estatutos do Homem", de Thiago de Mello.


1. O que significou o poema Estatutos do Homem para a poesia do Amazonas, do Brasil e até do mundo?
R: O poema “Estatutos do Homem” é um canto de liberdade e um chamado à libertação. Ainda hoje, funciona como uma autêntica lição de cidadania, em qualquer língua, em qualquer parte do mundo. Seja sob Putin ou Maduro. 

2. Que outros poetas fizeram poesias tão contundentes como “Estatutos do Homem” durante aquele período negro acontecido no Brasil?
R: Houve toda uma vertente de poemas de cunho político nos 25 anos de ditadura. João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Sant'Anna, Alex Polari, Paulo Leminski e o pessoal da chamada “geração mimeógrafo”... Entre tantos, são muito expressivos os poemas de Ferreira Gullar, de quem eu destaco “Dentro da noite veloz” e “Poema sujo”. 

3. “Estatutos do Homem” teria sido o ápice da criatividade de Thiago de Mello?
R: Não. Embora isso não o diminua, é interessante notar que “Estatutos...” é um poema de circunstância, escrito no calor da hora: um contraponto ao Ato Institucional No. 1, repleto de ironia e humor. Hoje, nós vemos isso. Naquela época, era uma reação indignada contra o golpe militar. Na minha opinião, os poemas mais expressivos de Thiago de Mello estão no livro De uma vez por todas, de 1996, onde ele faz uma súmula de tudo o que fizera até então – é o livro da maturidade, uma espécie de testamento poético.

4. Como esse tipo de poema funciona contra um ditador já que eles são pessoas tão duras e desprovidas de sentimentos humanos?
R: Não funcionam. A poesia é feita para o povo, não para os ditadores. A poesia é um reflexo do pensamento popular, uma manifestação do anseio popular. O ditador de plantão trabalha para sufocar esse anseio e calar os poetas.

5. Hoje, sem ditadura, que poesia está precisando ser feita, ainda que não seja por Thiago de Mello?
R: A poesia brasileira vive um vazio criativo. O que se vê é muito formalismo tolo e uma dor de cotovelo banalíssima. Reflexo, com certeza, da falta de mobilização popular. Aquele movimento do ano passado arrefeceu. As pessoas preferem ficar em casa, vendo a porcaria do big brother... A poesia política ainda tem vez, entretanto, não contra o ditador, pois vivemos, bem ou mal, numa democracia – mas uma poesia que questione o estar-no-mundo. Nos anos 60/70/80 não havia, como hoje, a consciência ecológica, por exemplo, e as questões de gênero e de preconceito continuam atuais. As minorias continuam minorias. Isso precisa ser questionado, em alto e bom som.   


Barbosa Rodrigues por Almir Diniz, neste Sábado na Academia

Para saber mais sobre o Sábado na Academia, clique aqui.

Cidade organizada e saúde pública



João Bosco Botelho

           

Na sociedade grega, especialmente na do século 4 a.C., políticos compreendiam a necessidade de organizar as cidades à semelhança dos corpos saudáveis, como se fossem organismos vivos. Ao contrário, a desorganização, causando tensões na maior parte da população, gerando ou se aproximando do caos, era considerada sinônimo de doença.

Aos gregos daquele tempo não seria possível administrar a cidade com competência satisfazendo as aspirações coletivas de bem-estar se as doenças de qualquer tipo fossem prevalentes. O administrador, o político competente, estava identificado, de modo obrigatório, naquele que poderia curar os sinais de qualquer desordem no ritmo urbano, capaz de determinar prejuízo às pessoas, impedir o sossego coletivo, as trocas comerciais e as relações com as ideias e crenças religiosas.

Tanto na administração laica do político quanto na dos sacerdotes e sacerdotisas, no mundo mágico da adivinhação oracular, a passagem da ordem (saúde) à desordem (doença), envolvendo mudanças nas coisas e nos acontecimentos, implicando riscos à saúde e à vida, estava claramente em polos opostos.

O poder de curar pessoas e sociedades, evitando a enfermidade e adiando a morte, tem sido historicamente utilizado pelo poder político, como mecanismo de coesão e controle social. Nessa esteira, sem dúvida, exigida pelos cidadãos nos quatro do mundo, obrigam que os administradores e políticos tanto nos macros quanto nos microssistemas, continuamente, como primeira obrigação, ofereçam à cidade médicos, hospitais, ambulatórios resolutivos e de fácil acesso, que são sempre mostrados à população como provas da competência gerencial. Desse modo, como na Grécia do século 4 a.C., hoje, respeitando as devidas proporções, construir hospitais, ambulatórios e contratar médicos continua sendo mostrado aos eleitores como indicativo de que podem confiar nesse ou naquele político.

É possível teorizar que esse elo motivador para a consolidação dessa extraordinária associação entre competentes sistemas de saúde e boa administração pública também esteja relacionado com as compreensões da morte. O sofrer e a morte da pessoa amada determinam transtornos complexos, em diferentes níveis do corpo, trazendo incontáveis sinais físicos de desconforto, variando em cada pessoa. O sistema nervoso central libera substâncias que alteram o ritmo biológico e interferem para amenizar a baixa da defesa imunológica inata. Esse terrível padecer, também entendido como sensação de perigo iminente, provoca mudanças nos ciclos do sono, da fome, da sede, da libido e da afeição. Logo, o político que consegue transmitir a mensagem pública de que consegue amenizar esse sofrimento, por meio da oferta de hospitais, ambulatórios e médicos, invariavelmente, é identificado como confiável.

Continuando a teorização, parece lógico pressupor que as atitudes específicas, usadas no enfrentamento da dor temida, minorando o sofrimento do homem e da mulher, tenham sido valorizadas e, continuamente, aperfeiçoadas pela ordem social. As ações humanas transformando a natureza para atenuar o desconforto, são imperativas! Estão ligadas diretamente aos mecanismos neuroquímicos que modelam e controlam todos os corpos dos seres vivos, em especial, os humanos.  

Na atualidade, a compreensão da sociedade organizada sem as dores da miséria dos deserdados que clamam por água e comida, como na Grécia antiga, está ligada aos políticos que zelam pelo bem público e buscam solução para curar os sofrimentos.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

Da admiração pelos sábios – Thiago de Melo


                                                                                                                    Tainá Vieira

Admirar, respeitar uma pessoa, seja ela mais velha ou mais nova do que você, é naturalmente normal. Acredito que todo ser humano tem como exemplo muitos ídolos ou espelhos, como preferirem, leitores, para guiar-se, para seguir. Já ouvi muitas pessoas dizerem “quando crescer quero ser como fulano de tal”. Eu muitas vezes já disse isso. Se fosse homem eu queria ser como Luiz Bacellar, como sou mulher, quero ser como Vânia Pimentel. No entanto, é tão difícil ser igual ou parecido como uma outra pessoa, o que nos resta fazer é assimilar os exemplos de cada pessoa querida e tentar formular a nossa própria personalidade, pois é fato que não sobrevivemos sozinhos e quanto mais aprendermos, mais andarmos nas boas companhias, muitos mais ganharemos. Conheço inúmeras pessoas, que os denomino como sábios, com essas pessoas eu sempre aprendo alguma coisa: nada, nem um aperto de mão é em vão.

Imagina se seria em vão uma conversa com Thiago de Melo. Só um louco para dizer isso. Eu já o presenciei falando, declamando, várias vezes, e, até já conversei com ele algumas vezes, e confesso que toda vez que falo com ele, eu me perco, pois não sei como agir, a admiração e o respeito que ele merece é maior do que qualquer palavra. Não é medo que sinto, é uma mistura de coisas, é como se ele fosse inalcançável para uma conversa com um leitor seu. Ele tem o hábito de olhar nos olhos da pessoa com quem está conversando, como se estivesse lendo o pensamento e vendo se essa pessoa está realmente lhe ouvindo, prestando atenção nas suas palavras.

E isso é algo bom, o autor não olha para o seu leitor com inferioridade, não o diminui, ele faz com que a pessoa se sinta maior, mesmo sabendo que ela não é. E eu acredito que o olhar nos olhos das pessoas, do Thiago, seja algo natural. Sim pois, vejamos. Olhar é o que marca, é o que diz tudo sobre uma pessoa, ou tudo sobre o que essa pessoa faz. Ninguém acredita num médico que receita remédios ou exames a um paciente sem examiná-lo. E há muitos desses médicos por aí, basta chegarmos a eles e apenas falarmos o que estamos sentindo e nem sequer nos olha, vai logo fazendo a receita ou prescrevendo o exame.  Isso é fato do cotidiano, isso é uma atrocidade e desrespeito com a vida.

Mas eu falava do poeta Thiago de Melo, que escreveu o Estatutos do Homem e muitos outros poemas que marcaram a vida e a história de milhares de pessoas. Eu falava do poeta de um país chamado Amazônia, que fez dos rios, da fauna, da flora e da vida, inspiração para seus versos mais belos.  Artigo 3, fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Imaginem, esses versos foram escritos há cinquenta anos. Daqui a cem anos eles permanecerão tão atuais como hoje. Porque sempre haverá girassóis para abrir-se; sempre haverá janelas para abrir-se e por toda a eternidade a esperança insistirá em crescer nos corações de muitas e muitas gerações. Thiago é um homem que conhece o coração do homem, que tem um coração de 88 anos de idade, mas que bate com a força de um menino de 8 anos, que tem nos sonhos a vontade de mudar o mundo, que tem na alma a sensibilidade e a ternura que a humanidade perdeu há muito tempo. Ele é como se fosse um menino, daquele que não se diz herói, daquele que não precisa fantasiar-se com roupas de super-heróis, e sim aquele menino que aprendeu desde cedo que o amor ao próximo, ao seu irmão, é mais importante do que qualquer coisa, se ele não tivesse aprendido isso, não cantaria em seus versos para muitas pessoas. É um homem que faz da palavra uma arma contra os dissabores do mundo, pode-se comprovar isso no poema Canção para os fonemas da alegria, é uma prece sobre o ato de ensinar e aprender.  Thiago é um poeta que faz do seu oficio de escrever a maior de todas as artes.

É por isso, que o admiro, que o reverencio como poeta, como homem, como se fosse irmão, pois ele, ao olhar nos olhos das pessoas, permite que nos tornemos seres humanos capazes de lutar não só pela nossa vida, mas pela vida de outras pessoas. E como podemos fazer isso? Perguntam vocês, leitores. E eu lhes digo, certa vez, quando Thiago de Melo foi convidado a falar para alunos de um curso preparatório para o vestibular, e eu era uma dessas alunas, ele disse-nos o que já tinha dito a tantos outros alunos, ele falava de transformar o mundo com poesia, com a palavra.  E sempre os alunos perguntavam como era possível mudar o mundo com isso, e ele sempre respondia que a poesia muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo.  E isso é fato. Tanto é que estou aqui, falando sobre um dos mais brilhantes poetas do universo, e tenho, assim como milhares de pessoas, sua poesia como oração nossa de cada dia.