Amigos do Fingidor

sábado, 13 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

roteiro para depois da minha morte (ii/iv)



Zemaria Pinto

não permita que eu vegete
ou degenere no abismo
da insanidade:
apressa o fim
sem temer a dor
que não irei sentir

Resistência à mecanização do corpo



João Bosco Botelho

As idéias oitocentistas, provavelmente incentivadas pela fisiologia experimental presente nos trabalhos de Claude Bernard, aprumaram a ciência na tarefa de explicar como funcionava o corpo, quase sempre associando aos avanços da técnica. O pleno exagero do mecanismo coube às palavras do pensador La Mettrie, em 1748, que conduziu a mecanização do corpo ao limite máximo.
No início do século 19, essa compreensão se manteve. Ao contrário, com a industrialização impondo as linhas de montagem e a necessidade rápida de mão-de-obra, os corpos tornaram-se complementos das máquinas.
O mecanicismo trouxe um impressionante conjunto metafórico à linguagem: o coração passou a ser a bomba; o pulmão, o fole; o rim, o filtro, e, finalmente, o cérebro, o computador.
 Do mesmo modo, não é demais repetir que os reflexos sobre as mudanças na formação do médico não tardariam. Em 1910, o Relatório Flexner, nos Estados Unidos e na Europa, foi um instrumento para reorganizar as faculdades de Medicina. A metodologia acadêmica em torno dos valores da cura, mais do que nunca na História, valorizaria exclusivamente a Medicina ligada à técnica, aos laboratórios, desprezando os componentes sociais das doenças.
Essa linha metodológica chegou ao apogeu com Talcott Parsons, em 1951, sob a guarda das faculdades de Medicina, de modo semelhante às crenças e às idéias religiosas, ao sustentar que as enfermidades deveriam ser compreendidas como significantes de desvio social. A coesão social só poderia ser alcançada com o controle das doenças, mas sob a estreita supervisão do agente da Medicina – o médico. Essa foi a época do maior prestigio social do médico: agente absoluto da saúde, do bem, do belo!
É evidente que o estudo de Parsons só poderia ser aplicado em alguns segmentos sociais, nos países industrializados, com grandes recursos disponíveis para pagar os serviços de saúde.
Do mesmo modo como a concepção da saúde atada exclusivamente ao social, a aplicação dessa Medicina mecanicista é questionável, na maior parte da população mundial, onde as dificuldades da sobrevivência básica impedem o acesso aos hospitais. Essa imensa parcela populacional desassistida continua recorrendo aos curadores populares para resolver os problemas da saúde.
Desse modo, a prática médica nos países do Terceiro Mundo, desde os anos sessenta, impregnada pelas teorizações de Flexner e Parsons, empurrou os trabalhos acadêmicos para valorizar a doença como fruto da injustiça social, oferecendo a máquina, a tecnologia, como solução para prolongar e empurrar os limites da morte temida.
Mesmo com a maior questão dos saberes médicos não estando resolvida, especialmente o paradoxo fundamental – em qual dimensão da matéria viva a doença substitui o normal? –, os médicos seduzidos pelo tecnicismo exacerbado acreditam, perigosamente, na infalibilidade da Medicina e distanciam-se do doente. As ordens médicas vindas da doutrina flexneriana se portam de maneira impessoal e a demonstração de sentimentos, junto ao leito do enfermo, é interpretada como sinônimo de incompetência.
A busca da cura, ancestralmente presente à cabeceira do doente junto ao médico-amigo, não tem lugar nas propostas de Flexner e Parsons.
A resistência a esse modelo trouxe às universidades outras abordagens dos tratamentos, contrários à tendência mecanicista, com a convicção de nada substituir a relação médico-paciente humanizada.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Um cromo para o ano novo


Pedro Lucas Lindoso


Quando chega o final do ano eu me preocupo logo em conseguir uma agenda para o ano novo. Não sei viver sem elas. Já tentei usar uma eletrônica, mas não supriu minhas necessidades.
Preciso de uma agenda para preencher as minhas responsabilidades diárias. Li em algum lugar que os gregos possuíam duas formas de referência para o tempo. Havia o “crónos”. Pelo “crónos” os gregos marcavam as suas atividades cotidianas. Eram cronometradas. Para isso eu preciso de uma agenda. Para marcar audiências, compromissos, aniversários de pessoas queridas e outras atividades.
Outra forma de marcar o tempo para os gregos era o “kairós”. O “kairós” era o tempo dedicado ao lazer. Minha agenda serve também para o “kairós”. Sábados, domingos, e feriados são preferencialmente dedicados ao “kairós”. Além das noites após as atividades laborativas semanais, em especial a sexta-feira após o expediente.
Mas vejo que há executivos workaholics que não têm contato com o “kairós”. Algumas instituições japonesas exigem que seus empregados façam um relatório de suas atividades de lazer. O descanso, o ócio saudável, é uma necessidade humana. Até Deus descansou após a criação.
Mas penso que devemos nos concentrar no aqui e agora. Por isso uso minha agenda. Bastam as preocupações do dia. Os compromissos futuros ficam lá agendados e evito que minha mente voe para o amanhã. Deixo agendadas coisas que poderei vir a ser, fazer ou conquistar. E me fixo no aqui e agora. Porque o hoje é a grande lição de plenitude.
Quem me chamou atenção para comprar a nova agenda foi tia Idalina. Ligou-me para saber se eu teria um cromo bem bonito para lhe enviar, como fiz ano passado. De fato, ganhei um lindo cromo e o enviei para titia. Ela adorou. Se você não sabe o que é um cromo veja a definição do velho Aurélio, a qual grifamos:

Figura estampada em cores, em geral com relevo, constituindo pequeno impresso recortado para colagem em álbuns, etc., ou imagem maior para pendurar em parede, inclusive como suporte de calendário”.

Na Manaus de minha infância, ninguém falava em calendários. Só em cromos. Lembro-me de meu pai pedir aos seus amigos comerciantes (hoje se diz empresários) que lhe dessem vários cromos de suas lojas. Os eleitores, em especial os do interior, adoram receber cromos nessa época. Inclusive tia Idalina.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Balões vermelhos



                                                                                              Tainá Vieira

Todo final de dia eu levo Maria na área de lazer do condomínio para ela brincar, correr, interagir com outras crianças. Lá tem um parquinho e ela adora escorregar. O condomínio é amplo, tem uma área grande para correr, fazer caminhada etc., temos uma visão linda do céu, do espaço ao nosso lado.  Sei que a visão é bem ampla por causa do desmatamento e isso faz com que seja muito quente no lugar onde moramos. Com o avanço da cidade, as áreas verdes são destruídas e no lugar das árvores há prédios. Umas duas semanas atrás as crianças pararam para olhar um arranjo de balões vermelhos que sobrevoava o céu do condomínio. Esse arranjo de balões vermelhos veio da rua, ou melhor, escapou de alguma criança. Vi a Maria hipnotizada com aquilo, ela ficou observando até o arranjo sumir de nossas vistas, e mesmo depois de ele ter sumido ela ainda ficava olhando e falando e apontando para o lugar onde ele estava.
 Já era a hora de ir para casa, chamei-a e ela não queria ir, chorou muito, coloquei-a no colo e fomos para casa. Ela ainda chorando, sentada no sofá, olhava o céu pela janela da sala, acho que procurava os balões, foi aí que me lembrei que tinha um saco de balão colorido em casa, peguei cinco balões vermelhos, enchi de ar e fiz um arranjo e dei a Maria, ela pegou e soltou, não deu muita confiança para o meu arranjo, peguei do chão e o amarrei na cortina da sala e lá ficou flutuando naquele pequeno espaço. Maria, do sofá fica olhando aqueles balões. Ela não mexe neles, não estourou nenhum ainda. O vento do ventilador toca neles e os faz bailar e Maria sempre de olho no arranjo de balões vermelhos.
Como disse, tenho em casa um saco de balão colorido, então dias depois peguei um balão azul e outro amarelo e os enchi para colocar junto aos vermelhos, para ficar um arranjo colorido e bonito, mas a Maria não deixou, ela pegou os dois balões da minha mão e ficou brincando com eles até que estouraram. Mas o arranjo de balões vermelhos continua lá amarrado na cortina. Confesso que já fiquei muito curiosa e impressionada com essa historia dela com esses balões. Ontem desamarrei o arranjo da cortina e ofereci a ela pra ver se ela brincava com ele, mas ela não quis, apenas riu, falou umas coisas e nada mais. Quando deixei o arranjo no chão ela pediu pra eu colocar na cortina... E quando descemos para brincar, ela olha para o céu. Estou pensando em levar o arranjo que fiz lá para área de brincar, para ela soltar no céu do condomínio, não sei como ela vai reagir. Já tem alguns dias que aquele arranjo de balões vermelhos está lá amarrado na cortina e ela sempre fica observando e eu fico imaginando o que será que se passa na cabecinha de um bebê de um ano e quatro meses. 


domingo, 7 de fevereiro de 2016

sábado, 6 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

roteiro para depois da minha morte (i/iv)


Zemaria Pinto

quando minhas cinzas
se fizerem ao vento
e um soluço amargo
te oprimir o peito
lembra-te do dia
em que este poema
te sangrou as mãos
com o mais obsceno
dos pedidos: perdão!

Mamãe eu quero...



Paulo Sérgio Medeiros

A festa da carne vai começar. Na minha avenida só um bloco a desfilar, o bloco da nostalgia, com seus adereços coloridos de salutar reminiscência. O baile infantil do Nacional Clube com irmãos, pais e colegas não era o meu favorito, mas tinha todo um charme por trás das máscaras das Colombinas que estavam sempre procurando seus Arlequins e eu ali, perenemente de Pierrô. Minha timidez não me permitia arremessar uma serpentina sequer.
Porém, os amores platônicos de carnaval me alimentavam até o carnaval do ano seguinte, quando tudo se repetia. Pierrô a fim da Colombina, Colombina a fim do Arlequim, Arlequim pegando a Colombina. Minha esperança era de um dia a canoa não virar. Bom, quase sempre virava e apareciam uns Zezés se insinuando diante da minha inocência que ficava a se perguntar: Será que ele é? Será que ele é?
Havia também o baile da Kamélia lá no Olímpico Clube, não estou aqui jogando confete não, mas esse sim era o melhor. Aquela negona testemunhou meu primeiro selinho carnavalesco. Já que não aparecia a Colombina, foi com a Margarida caga osso mesmo olê, olê, olá.
Gostava tanto da negona que num desses bailes cheguei a ver duas Kamélias. Tudo por conta de um folião mais animadinho que esfregou um lenço em meu nariz – que, diga-se de passagem, é um senhor nariz – até o tucupi de lança perfume. Estava no meio do trenzinho que costurava o salão. O trem descarrilou. Saí cantando: Ó abre alas que eu quero passar e se essa porra não virar, olê, olê, olá, eu chego lá. E cheguei. A viagem durou uns trinta segundos. Me perdi dos meus colegas e me encontrei nos braços da Maria Sapatão.
Inesquecível também era o carnaval de rua com o povo jogando maizena em quem passava e entrava na brincadeira. Esse negócio de maizena deixou muita nega do cabelo duro. Tudo isso muito diferente das festas de rua atualmente. As bandas trouxeram para as bandas de cá muita violência e incoerência com o carnaval. Cachaça não é água não, meus amigos. Então, Jardineiras, cuidem de suas Camélias para que elas não caiam do galho.
...Os carnavais de outrora.

Santuários dos milagres cristãos


João Bosco Botelho

O golpe mais forte recebido pela teorização cristã do sinal foi sustentado pelo agnosticismo kantiano, firmado contra o determinismo absoluto. Seria incognoscível porque é muito difícil distinguir as formas variáveis e extraordinárias de agir da natureza. De acordo com Kant, não existem leis fixas e constantes, porque a estável provém, exclusivamente, do nosso aspecto subjetivo para conhecê-las. A religião não seria mais nada que o conjunto das obrigações vistas como determinismo para facilitar a ordem de um poder transcendente. A resistência kantiana, refutando a natureza divina do dom, contribuiu para o milagre perder o valor ontológico e argumento apologético, conservando o exclusivo aspecto simbólico da fé.
Com o intuito de reforçar o conjunto do debate, cabe lembrar a imutabilidade das leis matemáticas, regendo a essência da coisa visível, expressando o modo de ser. Assim, em nenhuma hipótese, nem no milagre, o triângulo poderá deixar de ter os três ângulos internos. De modo semelhante, ao considerar-se a veracidade das leis que regem as relações físicas entre as coisas, hoje compreendidas nas quatro forças (gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e nuclear forte), as ações situadas fora delas estariam, obrigatoriamente, contidas em outra manifestação, desconhecida, da natureza invisível.
Assim, se o fogo não queimar, o homem morto voltar à vida ou o enfermo incurável recuperar a saúde numa fração de segundo, tais fatos podem estar somente evidenciando os aspectos não desvendados da matéria, em nível imperceptível aos sentidos.
No Ocidente cristão medieval, os santuários curadores e proféticos de Compostela e Jerusalém viveram vários séculos de glória, recebendo peregrinos de toda a cristandade. Nos últimos anos, os de Fátima e os de Lourdes são muito procurados. Mais recentemente surgiu o de Medjugorje, na Iugoslávia; o de Fátima notabilizou-se pelas curas de doentes. Como o número excedeu os limites do bom senso, foi criada, em 1882, uma comissão de médicos e religiosos, para analisar a veracidade dos fatos. A Igreja anunciou, em 1990, o 65º milagre. Trata-se de jovem siciliana, portadora de forma incurável de câncer ósseo no joelho. Em 1976, a moça permaneceu uma semana próxima ao santuário e, um ano depois, houve o completo desaparecimento do tumor.  
A crença nos poderes extraordinários, oriundos da aparição da Virgem, em Medjugorje, pequena cidade no interior da Iugoslávia, começou em 1981. Um grupo de adolescentes, quatro moças e dois rapazes, relataram ter visto uma mulher bonita que afirmava ser a Virgem Maria. O padre Slavko Barbarich, da igreja local, não tem dúvida da autenticidade das mensagens.
No Brasil, nos estratos sociais privilegiados, de tradição cristã, são mais enfocadas as procuras de Lourdes, Fátima e Medjugorje. Porém, existem outros locais de súplicas, como a basílica de Aparecida e a estátua do Padre Cícero, sem citar os altares de milhares de igrejas.
Nos últimos trinta anos, no Brasil, os ritos de algumas igrejas protestantes ao utilizarem os milagres embutidos nas práticas de curas de doenças obtiveram maior sedução em todos os segmentos sociais, deslocando milhares de fiéis das igrejas católicas.
De modo geral é possível teorizar que a crença no milagre excede a religião organizada. A fé que forma e guarda o milagre ajusta a sedução na eficiência simbólica envolvendo palavras, gestos e objetos, metamorfoseados na temporalidade dos processos de organização social.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Milagrezão



David Almeida


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Valei-me Nossa Senhora. Epa rei, Iansã! Nossa! Gente, como é difícil ser santo nessa terra. Ó, foi muito dinheiro, muita ralação para elevar a categoria dos santos o frei Galvão. Muita reza; fé, peregrinação dos fiéis e muitos anos de batalha, para finalmente chegar à canonização do frei. Agora, a batalha vai ser travada para conseguir que a beatíssima Irmã Dulce da Bahia também seja mais uma santa verde-amarela, a compor o santuário espiritual celeste, mas, quem sabe, o nosso bondoso Papa Francisco possa baratear o negócio e abreviar a tramitação das papeladas, cunhando o diploma dessa, que viveu para dar guarida aos necessitados: a Santa Irmã Dulce da Bahia. Axé! Dizem que milagre ela tem de sobra.
Bom, mas o negócio é serio, meu povo; lucrativo – lucrativo para o Vaticano – e demorado. Veja bem: pro sujeito ser santo tem que provar que os seus milagres aconteceram mesmo, e não tem “mutreta”, porque a bronca do Vaticano é com o homem lá de cima. Aí, depois, com os milagres em mãos é que a parada vai começar. Tipo assim: pega todos os milagres, bota dentro de um saco ou mala, malote, onde der pra colocar – menos na cueca, porque aí já é pecado, e a coisa endurece, pega mal, para quem quer ser santo, mas, dependendo do tamanho, você embala bem a mercadoria e com as bênçãos do futuro santo, manda seguir caminho. E se for um “milagrezinho”? Ah, se for um “milagrezinho”, nem mande. Não chega lá. Tem que ser um “milagrezão”, algo de muito impacto – tipo aquelas obras de fachadas que os governos fazem para impressionar eleitores – ou, por exemplo, ressuscitar a Petrobras, acabar com a corrupção no Brasil; tirar da Presidência da Câmara Federal o Eduardo Cunha, acabar com a microcefalia dos brasileiros na hora de votar, enfim, uma coisa sobrenatural.
Em seu tempo, segundo as escrituras sagradas, Jesus cristo – esse sim fez um grande milagre, e ficou bacana com sua galera – ressuscitou um homem do leito da morte dizendo “levanta-te Lázaro”, e se duvidar o lazarento tá vivo até hoje.
Depois de embalar todos os “milagrezões” – hermeticamente fechados, para não escaparem, mandar via SEDEX. Caso aconteça algum extravio, aquele recebedor de propina dos correios, Marinho, quem sabe, ainda possa fazer um milagre e pagar o pato.
Quando chega ao Vaticano é que a coisa complica, meus caros leitores: os milagres vão ser examinados, vistoriados, comprovados e verificados, certificados tintim por tintim. A procedência, também é importante, não pode ser “made in Paraguai” – no caso, se o “milagrezão” tiver uma passagem pela Zona Franca de Manaus.
 Depois de lavados e enxaguados, com água benta “Perrier” vão para uma balança especial, digital, da marca “Fillizola”, para ver o peso da mercadoria. Isso leva tempo e dinheiro. Gente, é muita “grana” para ser santo. Você gasta o que não tem.
Com toda a certeza, segundo o homem lá de cima, pobre pode ter o reino dos céus, mas aqui embaixo, não tem condições de ser promovido a santo, apesar da sua milagrosa existência. Já o corrupto, principalmente se for político (não são todos, claro) é santo em qualquer lugar deste País, abençoado por Deus e bonito por natureza. Não precisa de canonização, pois tem poder e faz milagre e tem uma fonte inesgotável de força, que é o erário publico: é o “são corrupto”. Por outro lado, nós só tínhamos o tão falado “jeitinho brasileiro”; agora, temos um santo totalmente verde e amarelo e outro na agulha. As coisas vão melhorar “manuzinho”! Já pensou? “O jeitinho brasileiro + um santo é = a?”
Creio que só falta um anjinho pra gente estar próximo ao paraíso. Quem sabe esse anjo pode sair de um “milagrezão” de uma CPI, lá em Brasília? “Vamo ter fé, né, Zé”? A fé remove montanhas.

Em questão das multinacionais da fé, o que vale é fé de mais, e não fé de menos, ou então, fé de tudo. Amém! 

Fantasy Art - Galeria


Guangjian Huang.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Ano bissexto



Pedro Lucas Lindoso

2016. Ano bissexto. Olimpíadas no Rio de Janeiro.
O ano tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Quem me ensinou isso foi minha inesquecível professora de Geografia, dona Amélia Matsunaga.
Paulista, filha de japoneses, seus pais chegaram crianças no navio Kasato Maru, no Porto de Santos, em 1908. Foram parar numa colônia no interior de São Paulo. Dona Amélia nos contou que sempre quis entender porque no Japão era noite enquanto no Brasil era dia. O Planeta Terra deveria ser grande e misterioso. Queria estudar para compreender a Terra e seus fenômenos. Saiu da colônia, foi para a capital e formou-se em Estudos Sociais pela Universidade de São Paulo, com especialização em Geografia.
Mudou-se para Brasília, a nova capital do Brasil que estava sendo construída no Planalto Central. Era uma professora exigente, severa, mas muito dedicada e carinhosa com os alunos. Sempre carregava o globo terrestre e mapas, muitos mapas.
O movimento de rotação explicava porque era noite no Japão e dia no Brasil. A Terra gira em torno dela mesma em 24 horas. Temos o dia. Já a Terra demora 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos, para dar uma volta completa ao redor do Sol. É o movimento de translação que explica o ano-calendário de 365 dias solares. Sobram, portanto, aproximadamente 5h48m46 a cada ano trópico. As horas excedentes são somadas e adicionadas ao calendário na forma inteira de um dia (4 x 6h = 1 dia). Aí temos o ano bissexto a cada quatro anos e tem coincidido com as olimpíadas.
Muita gente sabe disso. Mas poucos sabem que existem os falsos bissextos. Seria ótimo se o ano realmente tivesse 365 dias e 6 horas. Mas esse valor arredondado é cerca de 11 minutos maior que o correto. A cada 400 anos, ficamos um dia à frente do calendário. A solução foi considerar os múltiplos de 100 como não bissextos (exceto os múltiplos de 400). Em 1900 não foi bissexto, mas já teve a segunda Olimpíada Moderna. Foi em Paris. Em 2.000 foi bissexto porque múltiplo de 400. As Olimpíadas foram em Sydney, muitos se lembram.

O próximo falso bissexto será em 2100. Daqui a mais de 80 anos. Quem sabe as Olimpíadas de 2100 não serão na grande metrópole localizada no pulmão da terra, a nossa querida Manaus? Será um falso bissexto, mas com certeza teremos as Olimpíadas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Lábios que beijei 55



Zemaria Pinto
Adja



Uma mulata esculpida com requintes de perversidade, bem mais alta que eu (os saltos eram determinantes), de cabelos crespos recém-saídos do banho (pareciam estar sempre molhados), as pernas em permanente exposição – de provocadores shortinhos a vestidos longos vazados, mostrando mais que o conveniente, quase sempre amarelos – aparecer em público com Adja era uma das minhas provocações favoritas. O rosto em elipse, os olhos desmedidos, os dentes cintilantes, a voz de contralto – Adja era de uma beleza irreal, dengosa e faceira. Mas não era apenas a beleza física que enfeitiçava. Adja cheirava a mato, flores silvestres, terra molhada. Eu, sempre tão suscetível a perfumes, sentia um vivo entusiasmo com aquela mescla agreste de odores. Pela manhã, os aromas de Adja eram potencializados. Mesmo horas depois que ela saía, a sua fragrância ficava, impregnando o pequeno apartamento com sua presença absurda. Os fins de semana com Adja eram só alegria: pássaros nos pés, o ruflar das asas marcados pelos tamborins, por vezes ela parecia flutuar, enquanto recebia aplausos de puro encantamento. Amávamos com uma suavidade selvagem: ela, a senhora dominadora – dona, domina. Dormia inebriado pelo seu cheiro ancestral. Somente muitos anos depois que perdi Adja de vista, mais maduro e menos estúpido, compreendi: Oxum dormiu na minha cama, fez amor comigo, foi minha mulher.

domingo, 31 de janeiro de 2016

sábado, 30 de janeiro de 2016

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

elegia temporal


Zemaria Pinto


o sangue que me vem quente
e lento
do ventre me recorda
tua ausência

e flui feito o choro
represado
há tanto tempo
desenhando impressões vermelhas
na frialdade branca do vaso

(a meus pés
um longo fio de cabelo
desenha
um possível ponto de interrogação)

Foi um Chico que passou em minha vida...



Paulo Sérgio Medeiros

Nosso primeiro contato foi selado com um forte aperto de mãos, daqueles típicos de um cearense cabra macho. Confesso que me intimidei tanto com aquela saudação sisuda, que no estalar dos ossos quase ouvi um sonoro “O que tu queres com minha filha?”
Na verdade aquele forte encontro de palmas foi um forte encontro de almas e não uma intimidação como havia deduzido lá no jurássico ano de 1991. Chico Branco era uma pessoa de alma grande e logo percebi que por baixo daqueles cabelos pratas existia um coração de ouro. 
Ele gostava de prosear e a nossa prosa dominical era sempre muito agradável, ainda que ele estivesse em estado de felicidade etílica. A conversa fluía e o cara conversava absurdamente sobre tudo apesar do pouco tempo de estudos formais o que não o impediu de diplomar os sete filhos. A sabedoria estava impregnada em sua pele.
Os anos foram se passando e os filhos foram se casando. Vieram então os filhos dos filhos. Por que usei a expressão filhos dos filhos e não netos? Porque seu Chico tratava todos como verdadeiros filhos. Essa era outra grande qualidade dele, olhar para o próximo sem distinção de cor, credo e conta bancária, o que me causava até uma certa inveja branca. Porém, com o meu filho havia uma relação muito além de avô e neto. Uma relação admirável. Então, meus amigos, como diz o ditado popular “quem meu filho beija, minha boca adoça”. Se eu já gostava do velho, passei a admirá-lo ainda mais.
Recebi a notícia do seu falecimento no trânsito. Meu filho estava do meu lado e com a voz embargada sussurrei pra ele: Júnior, ele acabou de falecer. Afaguei sua cabeça e continuei: Perdeu o teu avô. Ele, num choro represado, falou: Perdi um amigo. Foi muito duro ouvir isso. E o coração ficou ainda mais dilacerado ao ouvir da Larissa, aos prantos, minha filha de nove anos, a seguinte frase: Não é fácil perder um avô. E pra mim... Pra mim era a perda de um segundo pai.
Bom, acho que isso que acabei de relatar sintetiza muito bem quem foi seu Chico. Ele pode muito bem agora, lá no Reino dos Céus, parafrasear o personagem de um filme e bater no peito e cravar: Missão dada é missão cumprida!
Fica aqui registrado no plano terrestre o seu legado de honestidade, generosidade, companheirismo e solidariedade. Dizem por aí que enquanto a pessoa permanece viva em nossos corações ela não morre. Sendo assim, ele continuará perenemente vivo em nossas vidas.
Foi um Chico que passou em minha vida...

Evolucionismo como escolha na medicina



João Bosco Botelho

A genialidade da teoria de Darwin, na época da publicação, desvinculada dos saberes da genética, embutia o pressuposto de as mudanças impostas ao corpo, ditadas pela adaptação ao meio e à sobrevivência dos seres, serem repassadas à descendência.
De certa forma, as idéias de Darwin fomentaram a leitura evolucionista de Jean Baptiste Lamarck. Esse notável botânico francês negou a imobilidade dos seres vivos e os organizou como numa escada rolante, das formas menores e mais simples às maiores e mais complexas. Também acreditou que a mudança dos corpos era regida pelas necessidades de cada ser vivente, por meio do uso e do desuso das funções orgânicas e dos sentidos natos e que essas transformações seriam herdadas pelas novas gerações.
Contrariamente ao pensamento corrente, Darwin não descreveu a teoria evolucionista. O maior mérito desse cientista foi enfatizar um modelo particular de seleção natural, para explicar a transformação das espécies. Esse modelo, dito seletivo, compreende certo período de tempo, durante o qual podem ocorrer variações morfológicas, produzidas aleatoriamente entre os seres vivos.
Ao contrário, o modelo de Lamarck tem dois componentes: o primeiro, voltado ao organismo em si mesmo, no qual todos os organismos vivos possuem a tendência de evoluir do menos para o mais complexo; o segundo, relacionado ao meio ambiente, no qual todos os seres vivos sofrem a influência da natureza circundante e graças a essa interação ocorre a diversidade das espécies.
O exemplo da girafa pode, perfeitamente, contribuir para diferenciar os dois modelos. 
No de Darwin, seletivo, em todos os animais podem ocorrer variações em todos os sentidos, sem interferência da natureza circundante. Assim, somente as girafas com o pescoço mais longo poderão alimentar-se de forma mais adequada e, consequentemente, se reproduzir;
No de Lamarck, pressupõe-se a relação entre a necessidade da sobrevivência-reprodução e a mudança da forma do corpo.
Para a biologia molecular, os seres vivos são constituídos por dois tipos principais de moléculas: os ácidos nucleicos (AND e ARN) e as proteínas. Cada proteína é elaborada a partir de um gene. Esse gene é, inicialmente, recopiado em ARN (transcriptação), para, em seguida, a partir da cópia, estruturar a síntese da proteína (tradução). Dessa forma, a biologia molecular está estruturada sob esse dogma fundamental que sustenta como sendo unidirecional na elaboração das proteínas, isto é, só o gene determina a síntese das proteínas e nunca o contrário. Contudo, é possível que esse mecanismo não esteja engessado e, contrariamente, possua certa plasticidade. 
Considerando a infinita complexidade dos seres vivos, é mais possível que a relação entre gene e proteína seja regida pela plasticidade e não imobilizada pelo determinismo genético; isto é, os humanos seriam produtos das relações entre a natureza circundante X os corpos X as moléculas.
É desnecessário repetir a resistência às novas idéias evolucionistas darwinianas, contudo a ruptura com o imobilismo do Gênese bíblico estava claramente iniciada. Darwin trouxe à baila as variáveis da seleção natural frente à capacidade de sobrevivência do animal, ligadas às fontes de alimentos, em ambiente específico, como o ponto fundamental das transformações biológicas. Na dependência da comida disponível, os mais adaptados ao meio viverão e os outros, menos aptos, serão eliminados pela seleção natural.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sachê de ketchup e mostarda


Pedro Lucas Lindoso

Meu amigo Chaguinhas vai ser avô pela primeira vez, em breve. Comprometeu-se de imediato a dar de presente o carrinho de bebê da garotinha. Dr. Chaguinhas já foi informado de que é uma princesinha que está a caminho e ficou todo prosa.
As especificações do tal carrinho levantadas pelos pais da neném e o preço do produto no Brasil levaram Chaguinhas a concluir que seria uma espécie de Carrinho-Ferrari.
Todos sabem que adquirir carros no Brasil é muito mais caro do que nos Estados Unidos. Isso vale também para carrinhos de bebê. Automóveis custam uma fortuna para se importar. Mas um carrinho pode ser comprado por lá por um preço bem aquém do nacional. Especialmente um carrinho “top” do tipo Ferrari, Mercedes ou Lamborghini. E pode caber na cota de quinhentos dólares da Receita Federal.
Uma passagem para Miami, partindo de Manaus, na promoção, é bem mais barato que ir ao Rio de Janeiro, ou ao Nordeste. Mesmo com a alta do dólar, ainda vale a pena arriscar. O feriado de Finados foi a oportunidade para Chaguinhas ir a Flórida a fim de comprar o tal supercarrinho. Afinal, a netinha merece.
Aproveitou para conhecer o Centro Espacial John Kennedy, da NASA, local onde são lançados os foguetes e ônibus espaciais. Chaguinhas gostou do passeio e avisa que estão selecionando astronautas para missão em Marte. Pensou em sugerir a inscrição de alguns de seus poucos desafetos, mas seria um desserviço à Ciência Espacial e à Humanidade. Mas avisa que quem quer ser astronauta e tiver perfil a oportunidade é agora.
Meu amigo não gosta de “fast food". Mas gosta de cachorro quente. Não aprecia muito o nosso kikão. Gosta do tradicional “hot dog”. Ou seja, pão quentinho de massa fina com salsicha, ketchup e mostarda. E só. Ficou encantado com a experiência.
Nada deixou Chaguinhas mais admirado. Nem as estradas, a organização, a beleza dos prédios, as calçadas que não temos, as ruas sem buracos, o meio-fio das avenidas. Nada superou a experiência de, ao comer um “hot dog”, abrir um sachê de ketchup e mostrada, usando os próprios dedos. As falangetas. Aqui se precisa de uma tesourinha ou usar os dentes.
E concluiu: a diferença entre o estágio de desenvolvimento do Brasil e dos Estados Unidos está na proporção inversa da facilidade em se abrir com uso de dedos e falangetas, um simples sachê de ketchup, mostarda ou maionese.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Livros para brincar



Tainá Vieira

Eu tenho em casa um bebê de um ano e quatro meses. Mas não é apenas um bebê que brinca, come e dorme. É um bebê leitor. Maria adora brincar. Mas nada diverte tanto a Maria do que os livros. E eu gosto muito de vê-la brincando com os livros. Primeiramente, ela tira todos da estante, deixa-os no chão ou na cama ou no tapetinho dela, e senta ou sobre eles ou ao lado, escolhe um e começa a folhear e ler, sim ela lê e em voz alta ainda, na linguagem dela, claro, mas lê.  Os meus livros que são mais sobre literatura e não tem nenhuma figura, ela apenas lê. Os que ela mais gosta são dois pequenos que têm a capa tipo de camurça e são nada mais nada menos que a Divina Comédia e Os lusíadas, e a Divina Comédia está escrita em italiano, mas mesmo assim ela lê... Acho que ela já os “leu”, cada um, mais de 10 vezes. Mas também ela já leu Grande Sertão: Veredas, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O mundo de Sofia, Maria ama filosofia.
Outro dia pegou o Curso de Linguística Geral, ela passou uns três dias seguidos com ele, sempre que ela ia brincar com os livros, pegava ele e começava a ler. Em um desses dias, ela pediu que eu lesse esse livro, sempre que está cansada ela pede que eu leia para ela, foi aí que eu fiquei quase sem ação. Apesar de ter lido e estudado esse livro, perdoem-me, não gosto dele. Prefiro os romances, os poemas ou teóricos sobre literatura... Mas li umas páginas dele para a Maria, ela ficou ouvindo atenta, não sei se entendeu. Outra coisa que ela gosta muito é de ouvir poemas, acho que as rimas chamam a atenção dela. É recomendável ler poemas para os bebês, na verdade, não apenas poemas, a leitura tem de ser apresentada a criança desde cedo, o quanto antes melhor. Desde o ventre, a Maria já ouvia muitas historias e poemas.  Ela sempre pega o livro que tem a reunião dos livros de Florbela Espanca; Maria está na fase romântica ainda, aquela de encantamento e amor; no futuro lerá, com certeza, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Bacellar etc.
Os livros dela, claro, são diferentes dos meus. Ela já tem uma pequena biblioteca. Os livros dela são mais ilustrações do que textos, ela aponta as figuras, fala algo sobre elas, ri, quando tem alguma coisa que ela já conhece e reconhece, por exemplo, o cachorro e o carro, ela emite o som que os representa. Ela tem um livro que os textos são canções e que ela ouve sempre essas canções e, quando eu leio, ela reconhece a música e começa a cantar, ou pelo menos tenta cantar. Maria gosta também de ouvir música, brinca ouvindo música, toma banho ouvindo música, janta ouvindo musica. Eu já apresentei alguns ritmos para ela, mas ela sempre pede para assistir uns vídeos de uma garotinha que canta ópera divinamente bem. São quatros árias, no entanto a que ela mais gosta de ouvir é O Mio Babbino Caro, quando a música acaba ela pede pra ouvir e ver de novo. Às vezes ela nem quer ver, ela pede pra eu colocar e vai brincar, ela gosta de fazer outras coisas, mas a música tem que ficar lá, pra ela ouvir. Sempre que saímos, eu levo uns dois livrinhos na bolsa, enquanto esperamos a vez dela no pediatra ela fica lendo. Quando vamos para a casa da tia dela e dormimos lá, sempre levamos livros. As leituras noturnas são sagradas, às vezes ela nem deixa que eu leia para ela, pega o livro da minha mão e lê.  Que seja eterno o gosto pela leitura e o amor pelos livros.


domingo, 24 de janeiro de 2016

Manaus, amor e memória CCXLVIII


Vista aérea de Manaus, anos 1970.
Em primeiro plano, abaixo, a Catedral.
Colaboração: Mauri Mrq.

sábado, 23 de janeiro de 2016

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

negra


Zemaria Pinto


na praia eu vi
o sol
na água doce eu bebi
o sal
dos teus seios negros
na praia eu bebi
o sal
na água fria eu queimei
o sol
dos teus seios negros

as civilizações perdidas
o medo
teu corpo negro
no mato
jaz
vivo de amor
candente
terra fecunda
raiz brotando do chão negro

na negrura do horizonte
se reflete teu destino
eu traço o caminho vivo
eu vivo o caminho-espaço
no vazio do teu sonho
eu piso o caminho-vida
e em teu ventre me acalentas

no espaço das tuas pernas
há o último delírio
tua língua vermelha rasga a praia
teu grito afoga o rio

teus olhos vigiam o mundo
                                                                
(1974)      


WhatsApp



Paulo Sérgio Medeiros

São raras as vezes em que uso meu celular para fazer uma ligação. O WhatsApp trouxe no seu bojo a economia tão sonhada por aqueles que ainda têm plano pós-pago, e, por que não, os pré-pagos também? Aliás, acho que sou um dos poucos remanescentes a usar o serviço pós-pago. Pois todas as vezes que tentei mudar meu plano, pela fé!, a OI me dissuadiu da suposta ideia me oferecendo engodos já de meu conhecimento prévio.
Porém, para muitas pessoas, essa economia pode custar caro. O WhatsApp é um cofre sem senha, cujos segredos digitados ali estão a um clique de serem desvendados.  No mundo virtual não há crime perfeito, há print perfeito.
Antigamente os segredos eram revelados, hoje em dia eles são printados. Segundo um amigo meu, o aplicativo está mais para terreno minado do que para terreno de comunicação fácil e rápida. Toda vez que a mulher dele se aproxima do telefone, ele, desesperado, grita: Não toque nisso aí que pode explodir! Homem admirável, não? Quanta preocupação com a integridade física da esposa, ou pelo prisma corporativista, integridade física dele mesmo!
Os mais conservadores acreditam que o WhatsApp é uma zona do baixo meretrício, uma Itamaracá virtual, com muita putaria e tal. Pelo menos, por lá o sexo é seguro, seguro no sentido de não se contrair doenças venéreas ou engravidamentos indesejáveis. Porque quando as conversas clandestinas vazam o estrago é maior do que quando o preservativo fura.
Já os mais religiosos creditam a invenção ao coisa-ruim. É marido deixando mulher de lado, é mulher deixando marido de banda, são famílias inteiras se debandando por conta das tentações WhatsAppianas.  Parafraseando minha vizinha, zapzap é coisa do capeta! Ou seria ele o próprio diabo?
Só sei que para mim o aplicativo tem sido bastante afetivo, desculpem-me, ato falho, quis dizer, bastante efetivo. Uso para fins profissionais e sociais. Uso com moderação, embora minha ex-esposa discorde do meu ponto de vista. Viram? Ex-esposa... Fui vítima do mal tecnológico do século. Nem os bons samaritanos escapam da maldição do aplicativo.
Acho que minha vizinha tem mesmo razão. Zapzap é coisa do capeta!

Milagres judaico-cristãos rompendo as leis da física


João Bosco Botelho

Ao longo da extraordinária construção da linguagem-cultura judaica, que admitiu o milagre, ligado ao dom, pressupôs-se a possibilidade da fuga do conhecido, do natural, do esperado. Essa ruptura é o motivo da aclamação e do júbilo!
A estrutura da fé na liturgia judaica não é o simples milagre, mas sim a criação como a existência concreta e a estrutura da moral e da ética.
De modo geral, o mundo visível, mensurável, marcando a experiência empírica, e o invisível, contido no espaço ficcional, onde o milagre é identificado, estão presentes na teologia dogmática.  O primeiro, o mensurável, marcado à obediência das quatro forças fundamentais da natureza (gravitacional, eletromagnética, pequena-força, grande-força); o segundo, não mensurável, acima de todas as leis da natureza, por essa razão, milagre.
No Antigo Testamento, Deus Iahweh, estabeleceu o ritmo das estações, dos dias e das noites, para orientar a semeadura, criou e determinou o curso eterno dos astros, a dimensão e o íntimo de todas as coisas, as leis do céu e o poder da descendência. Entretanto, os frutos do saber só seriam concedidos junto à obediência.
A herança do judaísmo observa duas tendências na leitura dos milagres. A primeira admite a Bíblia cheia deles, devendo constituir fonte de reflexão à pequenez do homem. A segunda está relacionada com as interpretações místicas, contidas no Zohar (Livro dos Esplendores, escrito em torno do século XII, na Espanha). Nesta última, os rabinos não aceitaram a necessidade do sinal, porque existe harmonia absoluta entre o Criador e a sua obra.
Os primeiros padres da cristandade fizeram outra fantástica reconstrução teórica dos sinais do AT. Os milagres de Cristo, em particular os das curas, descritos pelos quatro evangelistas, assumiram grande importância na apologética da nova religião.
Séculos depois, o tomismo entendeu a importância do milagre, na fé, como fato extraordinário produzido por Deus. Os anjos bons e os santos poderiam ser agentes na promoção dos acontecimentos situados à margem das leis naturais. Por outro lado, distinguiu o milagre do prodígio. Este último, simples simulacro, não era fruto do poder divino. Fundando o juízo de valor, Thomás de Aquino dividiu os milagres em absolutos ou de primeira ordem e relativos ou de segunda ordem. Só reconheceu os primeiros como verdadeiros porque superaram em si mesmos todas as idéias da natureza criada. Só Deus poderia assumir a autoria. Os relativos seriam determinados mediante as forças do universo sensível, ligadas à antidivindade.
O milagre apologético, sempre de primeira ordem, é aquele que serve de louvor. Deve ser perceptível e confirmar a origem divina da revelação. Tem particular interesse o aspecto físico, porque é observável nos corpos. Logo, a cura de uma doença, considerada fatal e irreversível, pode ser entendida como milagre, um sinal de Deus.
A abordagem tomista foi duramente criticada por diversos filósofos. Voltaire, no Dicionário Filosófico, tomou a argumentação dos físicos para contestar. Afirmava ser falso pensar no milagre como transgressão das leis matemáticas, criadas pela divindade, porque são coerentes e imutáveis.
          Espinoza também recusou a veracidade do milagre. Apoiado na premissa de que era impossível a intervenção extraordinária para mudar o curso da criação transcendente, reafirmou o engano da prática milagrosa.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Transformer



                                                    Mauri Mrq


Nessa vida tem gente pra tudo, deixa ele, ele é desse jeito, o que fazer, as suas razões comandam a velha estória do posso ou não posso, devo ou não devo. O estranho nesse momento foi o susto que tomei com a revelação, o inusitado, pelo menos pra mim, e o fato de tudo ter se dado a contento na sua realização familiar, o que não impede de estarmos estupefatos. Cada momento de suspense, ao se realizar o feito dentro da imprevisibilidade, até me deixou também conformado, mas vamos lá. Espero que ele possa ultrapassar esse período da vida sem muito transtorno, o que acho muito difícil, o preconceito é grande, inclusive o meu. Porque, dizer que estava represado em seu ser uma capa feminina, e o que é pior, sem experiências boiolísticas, com um casamento feliz, filhos lindos, inclusive com um cachorro sorridente que me lembrava sempre o cachorro do Roberto Carlos, sendo que o do Rei sorria latindo e o do Ariovaldo só esboçava um sorriso largo. Se bem que minha mulher dizia que aquilo não era sorriso, porque ela uma vez viu o Loto no fundo do quintal comendo as florezinhas de jambu e ele ficava anestesiado e abobalhado, bem, mas não vem ao caso, com a transmutação do seu dono. O que me deixa encafifado é que, na nossa juventude, ele era o que mais gostava do “Freak le boom boom” da Gretchen. Hoje fico pensando se ele já não pensava em ter aquele rabo pra remexer. Engraçado, a filha da Gretchen virou homem e ele cortou o pau e colocou no lugar uma vulva virgem. Nesse primeiro momento tá tranquilo, os filhos, dessa nova geração, pelo visto não ficarão traumatizados, e a mulher aproveitou o ensejo e tá namorando um porteiro do condomínio deles. Agora, acostumar a chamar o Ariovaldo, a quem chamávamos de Ari, de Valda, e manter a rotina de jantar nos finais de semana sem a ex-mulher dele, que pelo visto vai virar a musa dos porteiros, que todos vão querer comer, vai ficar complicado. A minha mulher está preocupada e quer encerrar esses jantares, porque vai ficar ela e o meu amigo, que agora é amiga; ele era muito tímido e virou uma trans tímida; creio que se fosse uma bicha tímida seria pior, e acha que como o Ari, agora Valda, não é vulgar, vai ter dificuldade em se relacionar no meio em que se inseriu, ou seja, tá difícil. Acho que vou seguir os conselhos da minha mulher para fazermos uma viagem e ficarmos um pouco afastados da Valda – vamos aconselhá-la a procurar uns sites de relacionamento de trans, porque ela, a minha mulher, tem medo que o Ari, a Valda, nesse novo momento, convivendo comigo, acabe querendo estrear seu new periquito comigo – e acho que tem fundamento, confio mais na intuição feminina.