Amigos do Fingidor

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sarau na Academia tem ópera, MPB e poesia



exercício nº 10


Zemaria Pinto


Às portas do Encantado me detenho
olhando o chão lavado por silêncios
buscando abismos, marcas de outras lendas
no lânguido rumor do riocorrente

E tu, Náiade minha, guardiã
do negronegro espelho espedaçado
em nenúfares lunares debruçada
feito Ofélia, em orquídeas mergulhada

desarma-te por fim de clava e clave
e assoma-te guerreira à montaria
à pele, à carne e ao fogo dos sentidos

À cabeceira de teu leito jazo
adormecido por noturnas vagas
de gozo e gozo e gozo e gozo e gozo  


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Arte em Tese: a Universidade na Academia



A nova série de palestras da Academia Amazonense de Letras  Arte em Tese  pretende levar ao Salão do Pensamento Amazônico, ao longo do mês de junho, discussões muitas vezes restritas às audiências de apresentação de teses e dissertações. 
Esta série deverá se tornar permanente, sendo reeditada todos os anos.

Casal Agassiz no Sábado na Academia



Desconstruindo ritos de curas



João Bosco Botelho

O corte nos saberes, separando o antes e o depois da Medicina como paidéia, ligando os diagnósticos e as doenças às ideias laicas, afastando dos deuses e deusas, se destaca no livro Das Doenças Sagradas, de autor desconhecido, do século 4 a.C.: “Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras”.
Pela primeira vez, uma doença foi explicitamente assentada no domínio da tékhne, fora do domínio dos deuses e deusas curadoras. Não é demais repetir que também nessa época, na ilha de Cós, ocorreu o ápice da medicina grega. O genial Hipócrates, o principal representante da Escola de Medicina de Cós, foi reconhecido como o marco nos saberes médicos por Platão (Protágoras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Aristóteles (La Politique. Paris. J. Vrin. 1989. p. 484).
Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior legado da Medicina como paidéia: a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico da Medicina. A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, genro de Hipócrates, assenta as doenças e os tratamentos no mundo laico das ideias: “O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que estes elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sente e pela saúde que se goza”.
         A Medicina como paidéia saltou do domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a terapêutica para identificar o excesso ou da falta do humor desequilibrado. Como consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios, sudoreses, diureses, diarréias e sangrias. O prognóstico se materializava na boa ou na ausência de resposta à terapêutica.
         O médico era chamado para recompor a saúde utilizando saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida da saúde. Hipócrates e os médicos da Escola de Cós, na obra Da Medicina Antiga, seguiram esse pressuposto ao afirmarem que o médico não pode saber de Medicina nem tratar os seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “...os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Empédocles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos é constituído”.
A concepção teórica de saúde dos gregos também envolveu a harmonia. Sendo de natureza harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes individuais, a saúde deveria ser procurada neste contexto da compreensão do normal. Sob essa mesma perspectiva, Platão (Fédon, 93e; Leis 773a; Górgias 504c) entendeu a saúde como a ordem do corpo e Aristóteles (Ética a Nicômaco. X 1180b) associou o multiplicidade do comportamento moral às múltiplas dietas prescritas pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.
Platão (República 407b-c-d-e) retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais entre pobres e ricos. O filósofo criticou o modo como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e).
Muito atual e atrelado às queixas dos doentes acerca de alguns médicos que não ouvem os doentes, praticando consultas de poucos minutos, Platão (Banquete, 186-187) reconhece como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade, para que o tratamento seja eficaz.
Em certas circunstâncias, a crítica de Platão à má prática médica, exclusivamente ligada aos doentes pobres, continua válida na atualidade.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fantasy Art - Galeria


The imposter.
Steven Kenny.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Os bonecos são eternos



Pedro Lucas Lindoso


Quem foi menino em Manaus na década de sessenta, com certeza tem nas lembranças afetivas a figura de dois bonecos emblemáticos e icônicos da cultura popular da cidade de Manaus: Peteleco e Kamélia.
O Peteleco é um boneco criado pelo ventríloquo Oscarino Varjão que foi muito amigo de meu saudoso pai, José Lindoso. Peteleco é um neguinho muito querido, respondão, malcriado e dizia tudo que a gente gostaria de dizer e não podia.  
Naquele tempo, menino era tratado como menino. Tolice era inibida com palmatória e cachuleta. Para quem não sabe o que é cachuleta, trata-se de levar uma forte pancada com o dedo médio na orelha, para ficar esperto e não fazer mais tolice.  Aliás, cachuleta também se chama peteleco, principalmente no sudeste do Brasil.
Posso dizer que o Peteleco foi um dos meus melhores amigos de infância. Toda vez que ele se apresentava no auditório do SESC na rua Henrique Martins, onde morávamos, eu não perdia. Considero o Peteleco como um dos meus diletos companheiros da rua Henrique Martins.
Soube que o Peteleco também faz shows para adultos atualmente. Fico feliz em saber que o Peteleco é um garoto cinquentão como eu.
Há poucos meses, era domingo e eu fui assistir ao Peteleco, na Casa de Música Ivete Ibiapina, na Rua 10 de Julho. Após o show, conversei com Oscarino e ele lembrou-se de meu pai com carinho e deferência.
Disse a ele que conhecia o Peteleco desde menino e ele ficou feliz. Ah! E ainda tive o privilégio de “conversar” com o próprio Peteleco. Foi uma alegria para mim.
O outro boneco, digo boneca, é a Kamélia. Ela sempre chega para a abertura do carnaval de Manaus.
 Durante certo tempo eu tinha medo da Kamélia. Um verdadeiro pavor.  Explico: a boneca foi inspirada na marchinha Jardineira, na qual a Kamélia “caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”. Na minha cabeça de menino medroso, a Kamélia seria uma “visagem”, uma assombração.
Como todo curumim, eu adorava ver avião. Ir ao Aeroporto Ponta Pelada era um passeio irrecusável. Mas quando soube que naquele dia iríamos ao aeroporto para a chegada da Kamélia, o medo tomou conta de mim.
 O fato é que a Kamélia chegava de avião, vindo provavelmente da Bahia, e a população ia “buscá-la” no antigo Aeroporto de Ponta Pelada. Era um acontecimento. Mas e o medo de alma penada?
Foi então que me enchi de coragem e perguntei a Darinha, que morava lá em casa desde sempre: – Darinha, os bonecos morrem? E então ela me disse:
– Não meu filho, bonecos não morrem. Os bichos, as pessoas, as plantas morrem, mas os bonecos não morrem nunca.
Sempre acreditei na Darinha. E lá fui eu, feliz da vida, ao aeroporto de Ponta Pelada receber a Kamélia, vindo diretamente de Salvador para Manaus, vestida de baiana, para alegrar os manauaras.
E todo ano ela chega. Agora, procedente do Rio de Janeiro. E o Peteleco continua por aí.
E não é que é verdade? Darinha tinha razão. Os bonecos não morrem nunca. São eternos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Biografia de um homem comum



Inácio Oliveira

Os Cinco Maiores Sucessos

1_ O dia em que meu avô me deu um triciclo de presente. (Tinha oito anos. Vejo meu avô descendo pela ruazinha da nossa casa com o triciclo nas mãos, então saio correndo para abraçá-lo, louco de felicidade).
2_ A primeira vez que fiz amor com uma mulher. (Tinha quinze anos. Ela desfez o laço que prendia o vestido às costas, então a terra se confundiu com os céus e o espírito de Deus voltou a mover-se sobre a face das águas).
3_ O dia em que saí do interior para a capital. (Tinha dezoito anos. Andei pela praça em frente à igreja, vi a ponte sobre o rio, as estradas de terra e as palmeiras vergadas sob o vento. Havia um enorme sentimento de despedida e libertação em cada coisa).
4_ O dia em que conheci Carmem. (Tinha vinte e cinco anos. Ela estava lendo um livro sobre o balcão, aproximei-me e disse – eu vou me casar com você).
5_ O dia em que meu filho nasceu. (Tinha trinta anos. Eu só precisava de alguém que precisasse de mim, então a enfermeira pôs aquele ser tão frágil em meus braços. Qualquer coisa poderia matá-lo, até mesmo a leve brisa que entrava pela janela).

Os cinco melhores amigos

1_ Zico, bico de pato. (Brincávamos de caçar no quintal de casa).
2_ Bebel. (Um dia eu me apaixonei por ela).
3_ Mário Rodrigues. (Não me deixou passar fome quando os dias eram longos).
4_ Paulão. (Amizade etílica).
5_ Lúcio. (Empurra minha cadeira de rodas e desce as escadas comigo no colo).

Cinco coisas que me arrependo de ter feito

1_ Ter deixado de falar com o meu pai. (Há muito tempo que ele está morto e eu nem lembro qual foi a última coisa que eu lhe disse).
2_ Ter deixado Carmem porque estava apaixonado por outra mulher. (Mas se não tivesse feito isso também estaria arrependido).
3_ Ter matado um homem. (Um animal pode combater longamente com outro da mesma espécie. Seja para assegurar sua liderança, conquistar um território ou uma fêmea, ou simplesmente para demonstrar sua força; mas esse animal dificilmente matará um semelhante seu. Um homem mata o outro num piscar de olhos).

As coisas mais bonitas que vi na vida

1_ A lua nascendo de madrugada de dentro de um rio. (Eu e o meu pai estávamos pescando numa canoa, ele disse que logo a lua nasceria. Eu fiquei sentado na proa da canoa e vi a lua surgir como se brotasse de dentro d’água).
2_ Uma mulher de vestido. (Quando ela tira o vestido).
3_ Uma árvore. (Há uma paisagem. É um descampado com uma árvore solitária no meio. Nas noites de tempestade ela é fustigada pelo vento e isso faz com que suas raízes tornem-se cada vez mais profundas. Era ali que nos amávamos, Carmem e eu.)
4_ Um cavalo no pasto. (Quando estive em Analto fui ao Museu do Musgo, lá eu vi um quadro pintado pelo famoso artista Juan Castel. O cavalo no pasto. Fiquei horas olhando para o quadro. Impressionou-me que o cavalo pintado fosse o mesmo que meu pai montava naquelas tardes na fazenda do meu avô, o riacho ao fundo do quadro e as castanheiras que cresciam ao longe eram as mesmas da nossa terra, até a casa na colina era igual, era como se fosse um espelho).

As piores coisas que já me aconteceram

1_ Quando minha mãe morreu. (Eu tinha doze anos).
2_ Ver meu filho ser criado por outro homem.  
3_ Ter sido preso.
4_ Ter envelhecido.
5_ Ter ficado impotente.
6_ Ter perdido o movimento das pernas.

Quatro objetos

1_ Um triciclo que meu avô me deu quando eu tinha oito anos.
2_ Um isqueiro da marca Cobra Fumando.
3_ Uma caneta Parker.
4_ Um relógio da marca Lucius (Este relógio me acompanha nos último anos, jamais atrasou um segundo. Quando eu morrer seus indiferentes ponteiros continuarão a se mover no meu pulso).

Cinco Livros

1_ Meu pé de laranja lima, de Mauro Vasconcelos. (O primeiro livro que li na vida, descobri que um homem que lê jamais estará sozinho).
2_ O livro de Jó.
3_ Como beber sem ficar porre, de Martin Heine. (Muito útil nas noites sem fim).
4_ Quando o Diabo chorou, de Lucas Sarmento. (Impressionante história sobre um menino que ficou sozinho).
5_ Ulisses, de James Joyce. (Nunca li, mas sempre quis colocá-lo em uma lista).

Três coisas que eu odiava em Carmem

1_ Fazia amor em silêncio. (Nada pior que uma mulher que faz amor em silêncio).
2_ Mantinha os cabelos sempre presos.
3_ Sabia quando eu estava mentindo.

Um cheiro

1_ Café sendo torrado domingo à tarde. (Nós colhíamos o café e minha vó deixava ele secar por uma semana no sol, quando chegava domingo ela acendia o fogão à lenha e torrava o café em uma folha-de-flandres. O cheiro de café torrado tomava conta da tarde).  

Uma comida

1_ Canja de galinha. (Feita pela minha mãe com arroz pilado no pilão).

Três desejos

1_ Uma dentadura nova.
2_ Viver até maio quando os jambeiros começam florir e o pátio fica colorido das flores vermelhas que caem.
3_ Que meu filho viesse me ver aqui neste asilo.

Uma esperança

1_ Morrer sem dor.


domingo, 24 de maio de 2015

sábado, 23 de maio de 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

30 notas sobre a má poesia, à margem da despoesia de Franciná Lira



Zemaria Pinto

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
(Carlos Drummond de Andrade, em “A flor e a náusea”)

1.               Serei acusado de desagregador e intolerante pelos corporativos, que se escondem atrás de coletivos para mascarar a mediocridade individual. Serei denunciado e processado por escrever ofensas morais a pessoas de caráter ilibado e comportamento inatacável, conforme manda o figurino das folhas sociais. Algum subacadêmico parnasiano, que se masturba lambendo adjetivos e advérbios, me acusará de virulência verbivocovisual, sem ter a mínima ideia do que seja isso. Vão me chamar de arrogante, soberbo e presunçoso. Serei tratado como um leproso, cuja visão repulsiva nauseia os sentidos acostumados a panoramas paradisíacos, perfumes exóticos e sons celestiais – ainda que o paraíso não passe de uma sórdida favela, as flores podres estejam misturadas às fezes dos porcos e o som seja um mix de forró e funk.
2.               Mas não poderão me acusar de desonestidade ou mistificação: cumpro minha missão de professor e de crítico.
3.               A poesia que se produz nesta cidade por menininhas tolinhas patinando no ensino médio, universitárias temporãs que não sabem a diferença entre poesia e poema, senhoras quarentonas solitárias que se descobriram tardiamente poetisas ou senhores de todas as idades com o miolo amolecido pelo calor equatorial e pelo excesso de guaraná em pó, é motivo de riso. “Poetas” e “poetisas” acreditam-se ungidos pelos deuses porque têm seus trabalhos escolhidos para participar de alguma “antologia nacional”, em “regime cooperativo”. Desconhecem a maldição que recai sobre os verdadeiros poetas.
4.               A poesia de verdade não fala de amor, só de ódio. Não toca em sexo, mas em tortura. Não trata de abandonos, fixa-se em assassinatos. Não fede a rosa, mas cheira a pus. A verdadeira poesia não dá desconto nos hotéis vagabundos do Centro.
5.               A poesia é um estado do ser, contemplação mí(s)tica, o i/logismo a serviço do ir/racional: a poesia é.
6.               Poesia é arte, não é masturbação.
7.               Eu já disse que há uma enorme carga de poesia em Grande Sertão: Veredas, em A Paixão Segundo GH. Há poesia num quadro de Van Gogh, num filme de Herzog, num pôr-do-sol no rio Negro, num fim de tarde em São Paulo, num passo de contradança, e, com o perdão da má palavra, também se encontra poesia num sorriso de criança. Especialmente, quando ela está morrendo de fome.
8.               Conclusão: a poesia não precisa do poeta, porque a poesia pode estar em qualquer lugar. É ter sentidos para sentir – olhos para ouvir, nariz para escutar, ouvidos para cheirar, mãos para ver e língua para tatear.
9.               Por que, então, esses poetaços infestam o planeta com papel borrado pelas suas banalíssimas dores de corno, suas rimas infinitivas, seus malditos adjetivos, sua falta de ritmo, sua métrica atravessada, sua ignorância da tradição?
10.           O prefixo des- denota oposição, negação ou falta, caracterizando-se ainda por reforçar a intensidade negativa do que se quer exprimir. Despoesia, portanto, é ausência de poesia. É a negação do estado poético. É não-poesia.
11.           É despoesia, pois, o que os poetastros fazem.
12.           E o que a “poetisa” Franciná Lira tem a ver com tudo isso? Ela reservou para si um lugar na crônica cômica do Amazonas ao escrever o mais ridículo de todos os livros da poesia amazonense desde a Muhuraida. A concorrência é grande, é verdade, mas a “poetisa” ganha fácil. A começar pelo título tautológico: A rosa e o beija-flor – beija-flor e outros poemas.
13.           As orelhas trazem um poema cada, e a quarta capa, um terceiro poema. Para o leitor de prateleira, deveria bastar o título do primeiro: “Amar é”. Além do cacófato explícito, o plágio descarado da fórmula desgastada há mais de 30 anos do casal de olhar maconhado, dizendo coisas infames, do tipo: “amar é... viver um dia de cada vez.”; ou “amar é... deixar ele ficar com o controle remoto.” Para a “poetisa” Lira (essa lira deve ser uma evocação da moeda, não do instrumento milenar), entre outras sandices, “amar é querer você sempre ao meu lado”.
14.           Indo direto para o miolo do livro, dividido em três partes: “A rosa e o beija-flor” (transcreva a expressão no Google e veja quanta originalidade...); “Fileo” (poemas dedicados, como o título tolo, de cultura de almanaque, sugere); e “Diário” (diz-que sob influência de Drummond; e agora, José?).
15.           Diabéticos mantenham-se longe da primeira parte do livro: “Quando o amor acontece / o banco da praça adormece”; para não ver a sacanagem, talvez...; “Na loucura do amor / beijo-te sem demora”; “Amo. / simplesmente amo”; “O doce sabor do desejo está em teus beijos”[1]; e por aí vai: desperdício de papel e tinta...
16.           As imagens são até engraçadas, de tão pueris: “Crepúsculo sombrio, multicor.” Se é sombrio, como pode ser multicor? “Universo solitário, sem calor.” Se universo é um conceito totalizante, como pode ser só? E que importância tem a temperatura? “Solidão que sozinha passo”[2] – é uma espécie de refrão, quatro vezes repetido no “poema”: de novo, a miserável tautologia – solidão sozinha... Ora, bolas!
17.           A recorrência rosa/beija-flor, de óbvia conotação sexual, espalhada em todo o livro, tem seu coroamento na tentativa de poema “Primavera”: “A primavera chegou! / O sol está surgindo... / A natureza está em festa! / Meu jardim está florido. / É primavera!” Nada poderia ser pior!
18.           Mas claro que poderia! “Crajiru, o que fazes aqui? / Vivo verde que desinflama, / Peço-te que cures o meu coração / Que, no asfalto, desfalecida estou!” (“Refúgio”). Sério, é a “isso” que Franciná Lira chama de poesia influenciada por Carlos Drummond de Andrade!!! PQP!!! Todo mundo em coro, de novo: PQP!!!   
19.           É desnecessário dizer que a “poetisa” não tem nenhuma noção da técnica poética. Ela não sabe o que é ritmo, não sabe extrair música do poema. Por isso, a maioria de seus pretensos textos não passam da mais reles prosa, como neste “Angelo”, da segunda parte: “Existem sonhos que levamos anos para realizá-los / outros que em toda existência não realizamos...” Já sabemos que não há música, tampouco imagens, então vamos ao nível das ideias: tente entender a complexidade da relação “sonhos x tempo” – tem a profundidade de um vaso...!
20.           No capítulo recorrência tautológica: “O relógio do tempo não para” (“Cais”). Bolas, ora! Há clichê mais estúpido que “relógio do tempo”? Nem “luar de prata” ou “aurora da vida”... “Emana a escuridão sombria” (“Helena”); escuridão sombria? Qual seria o tom dessa escuridão? Violeta, marrom, verde-musgo, amarelo-bosta?
21.           O prêmio de “poema” mais ridículo do livro, uma escolha dificílima, vai, pela soma dos vetores, para o que homenageia o patrocinador da edição, o refrigerante Guaraná Tuchaua. Vou me poupar de citá-lo na íntegra, pois não conseguiria conter o vômito, vai apenas a quadra final: “Sou caboclo / sabor guaraná. / Na Amazônia, / sou Tuchaua!”
22.           Pausa para uma pergunta indiscreta: de onde o vomífico xarope busca recursos para suas investidas pseudoculturais? Dos cofres públicos, certamente: é o meu, o seu, o nosso dinheiro usado para espalhar lixo irreciclável na superfície do planeta doente.
23.           Não vou falar dos erros de digitação e pontuação, que devem ser creditados à tosca edição, afinal o negócio dos caras é vender água suja com açúcar, não fazer livros. Mas não resisto a registrar a ousadia da “poetisa” ao forjar palavras: “frenetismo das ondas”, por exemplo, usado duas vezes (“Cais” e “Naiá”). Alguém aí do outro lado sabe o que é frenetismo? Nem eu. Mas no capítulo palavras doidas, leva o prêmio “mantenho-me sangrante”, em “T.P.M” (sic): é fácil adivinhar o que a “poetisa” quis transmitir...
24.           Inventar palavras sem querer é ignorância, usá-las mal, entretanto, é apenas lambança, porque as imagens não se realizam: “coração latente” (“Pictórica”), por exemplo, é claro que a infeliz autora quis dizer latejante... “Céu, terra, água e mar / gotejam em arco-íris” (“Pictórica”): de que será que ela pensa que o mar é feito, senão de água?; “Sou a aurora dos teus sonhos, / A sinestesia da existência tua” (“Cavalete”). Eu garanto que essa senhora, que não sabe usar nem os seus cinco sentidos, jamais entenderá o conceito de sinestesia – para ela, deve ser apenas uma palavra bonitinha, que ela quer tornar ordinária...
25.           Às vezes, o humor é involuntário, vejam: “Eu não quero ser prefeita.” (“Ser ou não ser”). No mesmo “poema”, mais adiante, ela afirma que quer “Sobreviver ao capitalismo. / Sobreviver ao socialismo insocial, / Sobreviver ao modernismo imoral!”. Parece pavulagem, mas é apenas parvoíce! Como diria aquele conhecido e folclórico ex-prefeito, que tanto mal fez a esta cidade, “Então, morra!”
26.           Agora, falando sério. “Monossilábico” é o “poema” que traduz com perfeição a “poesia” da “poetisa” Franciná Lira: “Muito ouço, / Nada falo. / Quando muito falo / Nada digo...” Sem comentários, é autoexplicativo.  
27.           Alguém percebeu onde entra a influência de Drummond, que, ela diz, começou aos 14 anos? Pura mistificação... Dando “palestras” a jovens desavisados, orientados por professores que mal leram Casimiro de Abreu, a “poetisa” cria para si um falso passado. Porque se em 30 anos isso foi tudo o que ela aprendeu com Drummond, trata-se de um caso perdido: a primeira coisa a aprender com Drummond é a ter autocrítica, palavra que a “poetisa” desconhece...
28.           O saudoso Anibal Beça, que vivia repetindo o bordão de Américo Antony – “ou é muita poesia ou muita porrada!” –, dizia, sempre muito sério, que não havia poeta tão ruim que não cometesse pelo menos um bom poema, ou pelo menos uma boa estrofe – na pior das hipóteses, um verso pelo menos razoável. E citava, de memória, exemplos que comprovavam sua tese, do estrelado J. G. de Araújo Jorge até obscuros e pretensos poetas de nosso amazônico e provinciano convívio.
29.           Não viveu bastante o grande Anibal para conhecer Franciná Lira, a negação definitiva de sua generosa tese.
30.           E para não dizer que só falei de fezes, transcrevo um poema de Gregório de Matos (1636-1695), com o mesmo tema da indigitada “poetisa”:

Se Pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
mas resta agora saber,
se no nome que me dais,
meteis a flor, que guardais
no passarinho melhor!
Se me dais este favor,
sendo só de mim o Pica,
e o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica-flor.


Para conhecer melhor a “poetisa” Franciná Lira, leia a crônica de João Sebastião:






[1] Títulos: “Quando o amor acontece”, “Desejo”, “Amo” e “O sabor do desejo”.
[2] Títulos: “Noite” e “Solidão”.

Sábado na Academia: A Amazônia na visão dos viajantes



Separando a medicina dos ritos de cura



João Bosco Botelho

Em contraponto à cura mágica da doença entendida como forma de castigo aos pecadores, as práticas médicas laicas constroem e reconstroem a busca da materialidade da doença. Desde o século 4 a.C., na Escola Medica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, a teoria dos Quatros Humores, idealizada por Políbio, iniciou o processo para retirar dos deuses e deusas a primazia da saúde e da doença. Por essa razão, usando a linguagem de Bachelard, eu a entendo como primeiro corte epistemológico na busca da materialidade da doença.
         A associação entre as idéias da Escola Médica de Cós e a filosofia jônica possibilitou avanço gigantesco ­— a Medicina como Paideia — estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca laica da causa das doenças.
A Medicina como Paideia abriu o caminho ao avanço da medicina oriunda das universidades. É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis, da estrutura teórica jônica, embutidos na Medicina como Paideia:
­— Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: ”...a physis comum de todas as coisas, da physis própria de cada coisa”;
­— Como princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: “A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina”).
­— Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz harmonia;
­— Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia; a ciência na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;
­— Como divindade: a physis é em si mesma divina.
Esse é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4 a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, ao deus Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões, de autor desconhecido, escrito no século 4 a.C. (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855. p. 1050):
Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto à sua essência especificada e quanto às suas mudanças. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida, deve determinar, antes de mais nada o que se refere às águas e à qualidade do solo, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima”.

Não é demais repetir que Platão (Político, 296a-b-c) sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e a do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam, sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhoras.


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fantasy Art - Galeria


Contemplation.
Tony Kew.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Perde e sai


Pedro Lucas Lindoso


Hillary Kathyanne anda deveras atarefada desde o início do Peladão.
O campeonato existe há mais de 40 anos. Hillary é diretora de um dos 737 times inscritos neste ano.
Além de mostrar qual o melhor time de futebol amador de Manaus, o Peladão vai eleger a musa mais bonita das equipes. Portanto, não basta ser só bom de bola. O time precisa de uma garota bonita e disciplinada para se tornar a Rainha do Peladão e virar celebridade.
Hillary já foi musa de seu time. Só uma vez, por insistência da galera. Ela diz que não é sua praia. Gosta mesmo é dos bastidores.
Como diretora financeira, já organizou inúmeras feijoadas para angariar verba para o time. Todas animadíssimas. A única feijoada de triste memória foi no ano de 2010. Hillary namorava um tão de Chicão que, com ciúmes do centro avante Robert Masterson, quase acaba com a festança.
Mas durante o campeonato não conte com Hillary para nada a partir de sexta-feira. Os jogos acontecem sábado à tarde e domingo pela manhã. Mas já na sexta começam as estratégias de apoio ao time.
Um jornal local patrocinador do evento publica, toda sexta-feira, um encarte com o horário dos jogos, classificação, fotos das meninas e notícias gerais do campeonato.
Sábado pela manhã tudo tem que estar organizado. É preciso providenciar água, gelo, laranja e banana para os jogadores.
Hillary tem a função de fazer os cartões de falta, de cores amarelo e vermelho. Não existe juiz fixo no Peladão. Os árbitros e assistentes são indicados pela comissão organizadora, geralmente dentre outros times que disputam o peladão.
Esse ano Hillary conseguiu, além do patrocínio de uma loja de material de construção, o apoio de um lanche famoso do bairro. Pode finalmente mandar fazer camisas para toda a torcida.
O time já passou pela primeira fase e também conseguiu sair-se bem na segunda. Está entre os 100 melhores. O que já é uma vitória.
Mas a coisa não é fácil. Às vezes falta jogador e o pessoal tem que correr atrás do caboclo faltoso. Ou o cara está bêbado ou simplesmente sumiu. È uma agonia.
Domingo passado foi triste. Passada a primeira e segunda fases, começa o “perde e sai”. E o time de Hillary saiu.
Mesmo assim não faltou cerveja e o pagode de sempre, na casa do presidente. As esperanças para o próximo campeonato se renovam, na confiança do time ser campeão e convencer Hillary a desfilar de biquíni, como musa do peladão.



segunda-feira, 18 de maio de 2015

B. B. King (16/9/1925 – 14/5/2015)


B. B. King, por Felizardo.

Um anjo terrível



Inácio Oliveira


Pense em tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi. Pense em quantos mínimos acasos fizeram sua vida tomar um rumo que você jamais escolheria. Pense naquele preciso instante em que você quis partir, mas na última hora decidiu ficar para depois perceber que ter ido era tudo que devia ter feito. Pense nas longas filas nos supermercados, nos bancos e nos cinemas. Pense nas horas desperdiçadas no trânsito das cinco da tarde. Pense nas pessoas que não usam desodorantes dentro dos ônibus lotados às sete da manhã. Pense naqueles que perderam um grande amor por um gesto, uma palavra ou um silêncio. Pense num rapaz que anotou os números que seriam sorteados na mega-sena, mas na hora de comprar o bilhete decidiu comprar ração para o cachorro. Pense num homem que perdeu as melhores horas da sua vida montando celular numa fábrica do Polo Industrial de Manaus. Pense numa torneira pingando a noite toda num quarto esquecido no fim do subúrbio onde alguém morre lentamente por falta de cuidados, amor e antibióticos. Pense na chuva caindo sobre um telhado onde todos estão mortos. Pense naqueles que partiram sabendo que jamais iriam voltar. Pense num louco sentado na praça conversando com a mãe que já morreu. Pense num homem que saiu de casa magoado com sua mulher e seus filhos e que morreu em seguida atropelado na rua. Pense numa pessoa que será enterrada numa vala comum sem direito a nenhuma lágrima. Pense num homem com a mãos sujas do sangue de outro homem. Pense num índio que teve seu corpo queimado numa praça de Brasília. Pense nas mulheres mutiladas, imprestáveis para o amor. Pense na pedofilia. Pense naqueles que sofrem nos hospitais e nos enterros. Pense num homem que deu um tiro dentro da própria boca e não morreu. Pense no câncer em metástase, na peste negra ou na aids.  Pense num homem deitado em posição fetal no chão frio de um cárcere, cujo último desejo é voltar para o útero, qualquer útero. Pense em alguém que foi comido pelas piranhas no fundo escuro de um rio. Pense num jovem que teve os testículos eletrocutados dentro de uma sala do exército em 1964. Pense num longo e terrível dia de fome. Pense na repetição, sempre possível, de Auschwitz. Pense numa tarde remota em Hiroshima onde a paisagem nunca mais foi a mesma. Pense no Estado islâmico. Pense na agonia impensável de uma criança no momento exato em que ela nasce. Agora imagine que um anjo terrível varresse a terra com sua espada de fogo e os homens sacrificados pedissem perdão: Não Peça! Não Peça!