Amigos do Fingidor

quarta-feira, 4 de março de 2015

terça-feira, 3 de março de 2015

Um placebo inusitado



Pedro Lucas Lindoso


José Burana nasceu na Ilha do Gancho, Município de Manicoré, na calha do rio Madeira. Quando menino, chorava feito um bezerro, fazendo o som de bu. Foi apelidado de José Bu. Feito homem, já em Manaus, complementaram o apelido para José Burana. Sabe-se lá o porquê. O fato é que o apelido pegou.
Ao complementar quarenta anos, José Burana começou a sentir dores nas articulações. Foi ao médico de uma dessas UBS – Unidade Básica de Saúde – localizadas na Zona Leste da grande Manaus.
O médico atendeu José Burana, em consulta que durou atenciosos 12 minutos e trinta segundos. O diagnóstico foi reumatismo e a receita um conhecido antiinflamatório.
Segundo Dr. Isidio Calich, médico reumatologista, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o reumatismo pode acometer articulações, músculos, ligamentos e tendões. Mais de 250, 300 doenças diferentes são classificadas como reumatismo. Um dos principais sintomas da doença é a dor. Todavia, dores articulares podem ocorrer por diversas razões. Há cerca de 50 anos, os antiinflamatórios foram introduzidos no tratamento do reumatismo.
Ocorre que José Burana cansou de tomar antiinflamatórios. Estava tendo desagradáveis e intercorrentes efeitos colaterais. Voltou ao médico. Por sorte foi o mesmo que o diagnosticou. As dores nas articulações continuavam. E perguntou ao doutor se havia cura para aquilo. Não aguentava mais tanto anti-inflamatório.
Dessa vez o doutor não foi muito simpático. Disse que reumatismo não tinha cura e que o Zé Burana teria que tomar remédio até a missa de sétimo dia. E que colocassem anti-inflamatório em seu caixão, porque não vendem no céu.
Zé Burana agradeceu ao médico e saiu da UBS determinado a procurar algum tratamento alternativo para seu reumatismo crônico.
Um sábio ribeirinho curandeiro, cheio de saberes tradicionais, advindos de anos de experiências na floresta amazônica, receitou ao Zé Burana banha de cobra. Não tinha nenhuma naquele momento para lhe dar. Era um pouco difícil de achar, mas José Burana deveria tomar. Era tiro e queda.
Em viagem ao vizinho município de Manacapuru, José Burana encontrou uma banca de produtos amazônicos. Por fim, o dono da banca lhe vendeu a tal banha de cobra.
Como o gosto era muito ruim, José Burana aproveitou cápsulas de tetrex, esvaziando-as e colocando a tal banha dentro. A cápsula explodiria no estômago e ele não sentiria o gosto intragável da banha.
E não é que o José Burana melhorou. Quase ficou bom. Foi lá em Manacapuru só para comprar mais banha de cobra.
Foi então que o vendedor confessou:
– José, como eu não tinha banha de cobra, eu te vendi banha de jacaré. Mas não tem problema não, porque o jacaré é mais esperto que a cobra, mais evoluído.
Quando ele me contou a história eu lhe disse que tinha servido como placebo.
E ele me perguntou:
         – Placebo é sebo de que? Sucuri, jacaretinga ou tartaruga?

segunda-feira, 2 de março de 2015

Lábios que beijei 42


Zemaria Pinto
Andrea



Quando penso em Andrea, só me vêm cenários de fantasia, como se ela não tivesse acontecido em minha vida e fosse apenas uma personagem que eu sonhei para preencher o vácuo da minha solidão. Eu ainda não tinha 40 anos e meu segundo casamento naufragava. Casada com um político influente de Recife, era um caso raro de mulher executiva. Nos encontramos pela primeira vez em Maceió, em algum evento do banco. Quando a vi – uma mesa em U, ela sentada exatamente à minha frente – não acreditei que fosse possível: era a mulher mais bela que eu já vira fora das telas de cinema – a pele branca, os cabelos e os olhos negros, o corpo modelado com equilíbrio e rigidez, o sotaque sedutor. Uma grega nordestina. Nos amamos entre um e outro aeroporto, regularmente, fazendo complicados exercícios táticos e logísticos nos hotéis. Nos intervalos entre as viagens, até voltei a escrever uns poemas frouxos que, ela dizia, a deixavam feliz. Muito conversamos sobre um futuro a dois, mas havia uma criança em sua vida. Abandonar o casamento seria abandonar o filho e ser abandonada pela família. Eu não valia o preço. Perdi Andrea. Nos encontramos ainda em algumas ocasiões, pelos acasos de serviço. Na última vez em que estivemos juntos, em São Paulo, já não nos preocupávamos em ser vistos: éramos sobretudo bons amigos. Lembro de Andrea recortada contra o fundo iluminado da cidade, no piano-bar do Terraço Itália. Uma lua pálida entristecia a poesia daquele instante – sem palavras nem gestos, só lágrimas e vinho. 

domingo, 1 de março de 2015

Manaus, amor e memória CCI


Borracha, preparada para embarque, durante a Segunda Guerra.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 5/7




Zemaria Pinto

5. MICROCONTO
Neste ponto, volto a me perguntar qual a diferença entre mini e microconto e, sinceramente, não encontro resposta. Num paralelo com o cinema, as denominações curta, média e longa-metragem são definidas pela duração do filme: até 15 minutos; acima de 15 até 70 minutos e acima de 70 minutos. Nos Estados Unidos, não existe o conceito de média-metragem: até 40 minutos é curta; acima, é longa-metragem. Vou me permitir usar um texto meu, “Maria”, para ilustrar o que quero demonstrar.
Maria era pequena de estatura e grande de lábios. Os lábios de Maria eram maiores que seu corpo. Quando andávamos de mãos dadas pelo centro da velha cidade, era como se tivesse em minhas mãos aquela boca, que me atormentava as madrugadas. Mas eu era apenas um brinquedo de Maria, o seu menino, a sua inocente companhia nas missões interestelares nos arredores da Matriz. Um dia, encontrei Maria feita mulher, o corpo pequenino cheio de sutis reentrâncias – e a boca. Pedi-lhe um beijo. Ela negaceou com graça, girando em semicírculo sobre o eixo de suas pernas curtas e grossas. Naquela noite sonhei-me sendo devorado por Maria. Não, pela boca de Maria. A boca mais linda que eu jamais beijei.
(Lábios que beijei 14)

   A narrativa está centrada em uma recordação – Maria – que puxa outras lembranças episódicas, com traços entre expressionistas e surrealistas, mas com uma conclusão carregada de melancolia e saudosismo, sem punch. É um conto, sem dúvida, e se quisermos adotar uma categoria intermédia, seria um microconto – não pela sua extensão, mas, pela sua concisão, pelo seu jogo de elipses.
E se eu pensar no Kafka de “Diante da lei”, com suas duas pagininhas? É um conto, com princípio, meio e fim – estrutura clássica. Conclusão: não há lugar para o miniconto – a menos que adotemos o critério da extensão, número de linhas etc., o que está fora de cogitação.

Definamos o microconto: narrativa densa, concisa, elíptica, mas com uma conclusão convencional, não impactante.

Para ler outros microcontos de Lábios que beijei, clique aqui.

Corporações na Idade Média: melhoria do atendimento médico



João Bosco Botelho

Desde a baixa Idade Média, existiam organizações dedicadas à guarda e proteção dos interesses de grupo de trabalhadores especializados.

Em Valenciennes, que floresceu entre 1050-1070, a característica era predominantemente laica, enquanto que a de Saint-Omer, ativa entre 1072-1080, era de natureza eclesiástica. Algumas delas já apresentavam estrutura administrativa: o órgão de decisão (capitulum), o líder (decani) e a sede (Guildhus).

As corporações, confrarias e irmandades ofereciam um novo tipo de proteção aos membros, sob a presença dos santos mais importantes ou ligados à tradição religiosa da região. A próspera corporação de lanifício de Florença, com cerca de vinte mil operários e duzentas oficinas, pode representar muito bem esse interesse eclesiástico: a sede dessa rica corporação, o Palácio da Lã, se ligava por meio de uma ponte com a Igreja Orsanmichele.

A inserção das corporações, confrarias e irmandades surgiram fortalecidas em regras protecionistas de solidariedade mútua econômica e social articulada à hierarquia religiosa e laica. A Igreja se manteve muito próxima dessa nova construção social e estimulou novas alianças; especialmente, com a Confraria dos Cirurgiões, já que o êxito do projeto de melhorar a assistência médica dependia dos cirurgiões-barbeiros.

É importante relembrar que o aparecimento desse personagem complexo, o cirurgião-barbeiro, ocorreu como consequência da resposta social à interdição intolerante da Igreja à dissecção do corpo morto, obrigando o fim do estudo da anatomia e o fechamento das escolas de Medicina. Como resultado, os cirurgiões ficaram cada vez mais escassos até o completo desaparecimento na primeira metade do século 9. 

O aumento da circulação de moeda e do comércio pode ter contribuído para forçar, por parte da população mais organizada, o preenchimento do espaço vazio, antes dos antigos cirurgiões desaparecidos. Pode ter sido por aí que as normas das corporações, confrarias e irmandades, respeitando-se as diferenças estruturantes, buscaram outras formas de amparo aos membros e às famílias. 

A maior parte daquelas instituições possuía hospital próprio, como o da rica Confraria de São Leonardo, em Viterbo, Itália, no século 12, capaz de prestar vários tipos de atendimento e amparo à viuvez e aos órfãos.

A ética cristã baseada na caridade, que valorizou à exaustão a recompensa pessoal após a morte, e na obediência aos dogmas eclesiásticos, abandonou os cuidados com a saúde pública, a higiene pessoal, redes de abastecimento de água potável, escoamento dos esgotos e o pagamento pelo serviço profissional médico.

Por essas razões, a maior parte das populações da Europa medieval sofreu na pele o descaso pelas normas essenciais para preservar a saúde coletiva: as cidades eram aglomerações humanas desordenadas, em torno de suntuosas catedrais góticas, sem água potável e esgotos sanitários, em habitações inadequadas, onde, de tempos em tempos, grassavam epidemias de várias doenças infecto-contagiosas, que matavam frequentemente milhares de pessoas em poucas semanas.

Também como resistência ao descaso com a saúde pública e à corrupção tanto laica quanto religiosa, as regras das corporações, confrarias e irmandades reforçavam ajudas mútuas entre os membros e as famílias. Um dos exemplos marcantes foi o estatuto da corporação dos curtidores de couro branco, em Londres, em 1346, rezando no primeiro artigo: o bem-estar de membros era o objetivo maior.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Super-heróis em Manaus



Pedro Lindoso

Há coisas que só conseguimos comprar ou fazer no Centro. É bom que o inefável shopping center possa ser considerado totalmente prescindível. Assim, uma visita ao Centro, sábado pela manhã, pode ser um bom programa. Em termos, porque além de constatar as inúmeras “teratologias arquitetônicas”, no dizer de Adalberto Carim Antônio, pode-se encontrar pessoas não tão teratológicas, mas sem dúvida, bastante pitorescas e até hilárias.
 Ao procurar uma pulseira de couro para um velho relógio de estimação, eis que vejo montado numa moto, circulando entre as ruas da outrora Paris dos trópicos, nada mais nada menos do que o IRON MAN. Vi que um rapaz tirava foto do IRON MAN caboclo e que, não só a mim, mas as pessoas próximas estavam entre chocadas e divertidas com a visita daquele inusitado super-herói ao centro histórico de Manaus. Perguntei ao relojoeiro se o conhecia. Ele me disse que achava que era o Maycon Jackysson Wyllys da Silva, que com todas as letras kwy que tem direito, tornava-se agora o mais autêntico caboclo alienígena, ao incorporar o IRON MAN.
Naquele mesmo sábado, um colega de trabalho teve menos sorte do que eu. O seu filhote de seis anos soube que o HOMEM ARANHA vendia picolé em algum lugar da Cidade Nova. Como o colega é divorciado e dedica-se, quinzenalmente, a agradar seu rebento, fazendo-lhe as vontades, dentro de limites, é claro, houve por bem percorrer a cidade Nova I, II, III e V, além dos Núcleos 4, 11 e 13 indo até os Núcleos 15 e 16, e por fim ao Núcleo 23. Nada do homem-aranha picolezeiro. Devia estar de folga ou em outra missão.
 Corre à boca pequena que uma cabocla, ex-dançarina de boi, estaria pleiteando tornar-se MULHER MARAVILHA e montar uma banca de tacacá no Largo de São Sebastião. Dizem, ainda, que ficou com medo da reação do secretário Robério Braga e desistiu de fazer concorrência ao tacacá da Gizela. Graças ao bom Deus!
O último boato é de que duplas de BATMAN e ROBIN seriam convocadas para fazer segurança na Praia da Ponta Negra. Como seria uma vergonha para a Polícia Militar, a segurança seria privada e precisaria de licitação. Nesse caso, seria melhor convocar o ACQUAMAN para afugentar os jacarés e outros bichos que possam comprometer o lazer dos banhistas. Bem, vamos aguardar a visita do FANTASMA. Ou do LANTERNA VERDE.
Ah, como houve arrastão na virada cultural em São Paulo, seria prudente convocar o Quarteto Fantástico para a nossa virada. Vamos esperar a vinda do TOCHA, do ROCHA, do ELÁSTICO e, claro, da MULHER INVISÍVEL, que sem dúvida fariam muito sucesso na virada cultural de Manaus. Além de obviamente, evitar arrastões, furtos e outros delitos.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cachorros marinheiros


David Almeida

Um dia desses, estava eu andando com minha câmera fotográfica, à procura de algo; uma cena; uma imagem que pudesse gerar uma matéria e ser noticia, quando, de repente, na minha frente, vi cachorros feitos marinheiros, tomando conta de barcos ancorados às margens do Rio Negro, na Manaus Moderna – aquela avenida que começa bem em frente ao mercado Adolpho Lisboa e adentra o Igarapé de Educandos. Os cachorros pareciam estar cumprindo obrigações. Sempre atentos, andavam de um lado para o outro na proa de seus barcos, parecia que suas atitudes eram de extrema preocupação com seus afezeres. Achei aquilo interessante: “Cachorros Marinheiros”. Nunca tinha visto uma cena assim tão perfeita, e por um momento pensei que, sem querer, tinha entrado no mundo de “cachorro gente”, e eu era do mundo de “gente cachorro”. O que me salvou dessa viagem surreal foi a câmera fotográfica que segurava em uma das mãos, me fazendo voltar ao normal, lembrando que o cachorro, além de ser considerado, desde os tempos mais remotos, o melhor amigo do homem, prova também que é bom marinheiro.
Um parecia que inspecionava se o barco do seu dono estava bem amarrado, olhando firmemente para a corda, que enlaçava um toco e prendia a embarcação, enquanto os outros descansavam, após o serviço prestado, mas sempre rosnando a qualquer atitude suspeita. Nenhum desconhecido podia se aproximar da área do seu domínio. Isso sem ter carteira assinada e plano de saúde, tudo só pela amizade, carinho, comida e respeito de seus donos, que é o mais importante.
Em outras instâncias, a vida de cachorro não é de cachorro, pois uns até gozam de um “lar doce lar”, num espaço especial da casa; em cima de almofadas; de tapetes de luxo, comidas de primeira e até salão de beleza; muita mordomia. “Eita”, cachorrada de sorte! Esses são cachorros gente.
Outros, nem tanto assim, ficam numa casinha de nada, nos fundos de um quintal, as vezes, até amarrados, comendo o que sobra da casa, ou o pão que o diabo amassou. Esses vivem, literalmente, a vida de cachorro. Outros, nunca tiveram donos, ou foram abandonados à própria sorte; pirentos, cheios de sarnas, carrapatos, vivendo, por aí, vagando pelos umbrais da vida à procura de carinho e amizade, correndo atrás de carros, latindo nas noites, se algo diferente lhes parece, e, quando a fome aperta, vão procurar comida em terrenos baldios, nos lixões, onde for fonte para matar sua fome. É uma vida de cão.  
Parece absurdo e vergonhoso, mas, às vezes, os comparo com a maioria do povo brasileiro, que não tem dono, nem casa, mas pertence a currais eleitorais de onde elege seus representantes pelo voto da irracionalidade de sua fome e vivem à margem da sociedade: abandonados, despejados, dormindo nas calçadas, procurando comida no lixo, pedindo esmolas nas ruas, sem ter, pelo menos, uma casinha no fundo de um quintal para descansar. É vida de “gente cachorro”.  

No caso dos cachorros marinheiros, um espaçozinho na popa ou na proa de um barco, já lhes é o bastante: dormem embalados pelas ondas.

Jornalismo: glamour ou ralação?




domingo, 22 de fevereiro de 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fantasy Art - Galeria


Larry Elmore.
Winged Guides.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 4/7




Zemaria Pinto

4. O MÁXIMO DE INTENSIDADE, NO MÍNIMO DE ÁREA
Se na subida desta montanha estivéssemos sendo guiados por Ariel, era chegada a hora de “o outro” nos dar a mão, pois começamos a descida. O conto literário, artefato de intenções estéticas, tem, ao longo dos tempos, a ele atreladas, três espécies bem definidas: o apólogo, a fábula e a parábola. De caráter didático ou moralizante, elas se distinguem entre si pela natureza das personagens: no apólogo, objetos inanimados; na fábula, animais irracionais; e na parábola, seres humanos (PINTO, 2011b, p. 82). O que, então, distinguiria o miniconto do microconto e estes do nanoconto?
Livres dos grilhões da extensão, vamos insistir na ideia de maior e menor intensidade. Tomemos dois exemplos extraídos do livro Caderno do escritor, do amazonense Adrino Aragão.
Há uma dor ácida de profunda solidão por toda a quitinete, desde que ela me deixou. Acordo (acordo?) no meio da noite, não sei que rumo tomar: você não sabe o que é o amor de um velho apaixonado. (p. 18)

Aragão é hoje destacado cultor do microconto, como ele prefere nomear, tendo merecido sóbrio estudo do Prof. Joaquim Branco – sua tese de pós-doutorado apresentada à UFRJ, em 2010 – que o classifica, com certo pudor acadêmico, como minimalista. Como regra geral em todo o Caderno do escritor, os títulos são as palavras iniciais dos contos, não ajudando em nada na elucidação do conteúdo. E o que temos no conto acima? Um texto onde a tensão é explicitada em algumas palavras combinadas: “dor ácida”, “profunda solidão”, “desde que ela me deixou”, “não sei que rumo tomar”, até o remate em anticlímax, próximo ao cômico, de onde concluímos que a intensidade não foi suficiente para causar desconforto no leitor. Aqui cabe, com perfeição, a nomenclatura microconto. Mas por que não miniconto? Qual a diferença entre um e outro? Voltamos ao assunto mais adiante. Vejamos agora um outro conto de Aragão, do mesmo livro:
Espelho meu, dizei-me: qual desses dois sou eu?
(p. 56)

Uma frase em uma linha, duas orações e nove palavras. Em cada uma das orações, Adrino recupera alguns séculos de tradições literárias. “Espelho meu” é a clássica fala da madrasta de Branca de Neve, narrativa originária da tradição oral alemã, provavelmente da Idade Média, e compilada pelos irmãos Grimm na primeira metade do século XIX. A segunda frase – “qual desses dois sou eu?” – é a expressão profunda da figura literária chamada “duplo”, expressa, para melhor entendimento, pela fórmula “eu = outro”. Ao defrontar-se com o espelho e fazer a pergunta, o narrador-personagem remete-nos a Jorge Luis Borges, uma influência confessa na obra de Adrino Aragão. Mas isso é pouco. Há mais de dois mil e duzentos anos, o romano Plauto já brincava com essa figura em Anfitrião (PINTO, 2013, p. 197-198).

Quanta informação, quanto tensionamento, quanta energia colocada em uma única frase! Isso é o nanoconto: o máximo de intensidade, no mínimo de área, provocando uma deformação desta: o texto adquire um sentido muito mais amplo que a primeira leitura – literal, denotativa – faz crer. Isso me lembra Octavio Paz e uma aproximação que eu queria evitar: a do nanoconto com o haicai. Nada de “o nanoconto está para o conto como o haicai está para a poesia”, por favor! Sobre o haicai, Paz escreveu: “é uma pequena cápsula carregada de poesia capaz de fazer saltar a realidade aparente” (1980, p. 16-17). O nanoconto é uma cápsula carregada de energia – em forma de ideias, informações, críticas, reflexões e até poesia – capaz de fazer saltar leituras e significados múltiplos.

Para saber mais sobre a obra de Adrino Aragão, clique aqui.

Caridade cristã e a prática médica



João Bosco Botelho

A laicidade da caridade, reafirmando as diretrizes neotestamentárias, compondo Deus que perdoa e sublima o confronto e o contrário, diferente Daquele do Velho Testamento, tem sido reconhecida como um dos mais importantes instrumentos teóricos da cristianização, identificado na afirmação de François-René Chateaubriand: “A caridade, virtude absolutamente cristã e desconhecida dos antigos, nasceu com Jesus Cristo; é essa a virtude que distingue o homem dos outros mortais e foi o selo de renovação da natureza humana”.
Próximo desse conjunto teórico-sacro se destacam as corporações, confrarias e irmandades que ofereciam cuidados médicos diferenciados e amparavam setores específicos de trabalhadoras e as famílias, em várias cidades do medievo europeu, entre os séculos 14 e 15. Outra vez, a plasticidade da Igreja conseguiu manter a presença nessa reconstrução das práticas médicas e das profissões mais rentáveis e com clara importância social no medievo europeu.
As decisões do Concílio de Trento, entre 1545 e 1563, colocando a Igreja em sintonia com os Estados fortes, para superar o avanço das idéias luteranas, estão amalgamadas nessa ética médica cristianizada que motivou os primeiros hospitais também sob a guarda da caridade. Os poderosos das cortes doavam somas vultosas para facilitar o acesso ao perdão dos pecados, sendo uma das opções essas construções insalubres para receberem doentes de todas as naturezas, levados pelas famílias que não os desejavam por perto, e, sob a assistência dos abnegados religiosos sem preparo médico, morriam rapidamente.
De certa forma, o Concílio de Trento moldou as bases na caridade laicizada, como a unção dos enfermos, sacramento e o reconhecimento de leigos na graça santificante. Graças a esse concílio, a autorização eclesiástica foi formalizada para os que exercitassem a caridade cristã, teriam a garantia do acesso ao Reino de Deus. Os homens e as mulheres ricas encontraram na abertura conciliar a argumentação para justificar a postura de amparo aos enfermos e necessitados com a recompensa da ida para o paraíso após a morte.
 Esse pressuposto oferecia a quem fizesse caridade a plácida sensação de estar garantindo a entrada no Reino, sem falar no agradecimento recebido pelo poder temporal, interessado em repassar as tensões sociais agravadas pela peste, a fome e a miséria, que flagelavam a vida dos pobres, a maior parte da população.
A intensificação da caridade como instrumento de controle social conseguiu atenuar o brutal contraste entre os poucos com muito dinheiro com a maioria esmagadora sem nada. Essa última parcela, homens e mulheres sem senhor, constituíam as hordas de mendigos migrantes entre os burgos, que assaltavam e matavam os que viajavam sem a proteção dos cavaleiros dos senhores feudais.
As corporações, confrarias e irmandades, inclusive a Confraria dos Cirurgiões, sob a proteção de São Cosme e São Damião, fundada pelo cirurgião-barbeiro Jean Pitart, representou parte da resistência dos que continuavam na miséria absoluta na alta Idade Média.
O aperfeiçoamento desse processo de resistência contribuiu para o surgimento dos grupos de proteção mútua, nos moldes da “compagnia”, fundada em Gênova em 1099, financiada pelos marítimos. As corporações, confrarias e irmandades amparavam as famílias, construíram estruturas arejadas para tratar os doentes, financiavam os enterramentos dos mortos e protegiam as viúvas e os órfãos.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Teatro no interior



Pedro Lucas Lindoso


Da última vez que estive em Brasília conheci dona Lazinha, esposa do meu amigo Onofre que é funcionário aposentado do Banco do Brasil.
Há muitos anos Onofre e Lazinha moraram num longínquo município do interior do Amazonas. Onofre era gerente do banco por lá.
Na década de 50 havia um movimento da Igreja denominado Ação Católica. Lazinha entrou para o grupo e tornou-se-amiga do vigário.
Como não havia muitas atividades culturais no lugarejo, Lazinha resolveu montar um grupo de teatro amador comunitário.
As peças eram escritas por ela e tinham o objetivo de conscientizar a população para seus problemas, além de diversão.
Claro, aquilo era uma maneira de Lazinha manter-se ocupada. Carioca e acostumada a viver em cidade grande, Lazinha estava lá para acompanhar o marido e ser feliz nos primeiros anos de casada.
Ela mesma redigia os textos. O teatro tornou-se um sucesso. Não só de público. Todos queriam participar. Os menos letrados eram usados como figuração.
Um dos mais empolgados participantes do grupo era o João, conhecido pelo inusitado apelido de João Deixa-que-eu-chuto. Não se sabe bem o motivo da alcunha. Mas ele nunca se importou e acabou sendo conhecido como João Deixa.
Era um sujeito boníssimo. Prestativo. Ajudava Lazinha a fazer os cenários. Era pau para toda obra. Totalmente analfabeto, João Deixa, era um homem bom, mas muito tacanho em conhecimento e linguagem, coitado.
João insistia em participar do teatro. Implorou a Lazinha por um papel em uma peça. Nem que fosse bem pequenino. Uma frase seria o bastante, Era um sonho a ser realizado.
Conhecendo bem o João Deixa, Lazinha sabia que ele não seria capaz de decorar nada. Seria com certeza um desastre. Mas tanto João Deixa insistiu que Lazinha houve por bem realizar o sonho do João.
Lazinha então escreveu um texto em que havia um incêndio.
João Deixa sairia esbaforido do local e diria:
Escapei, milagrosamente.
Lazinha ensaiou o texto com João Deixa, várias vezes. Ele em casa repetia sem descanso, para a esposa e filhos: Escapei, milagrosamente.
Nos dias de ensaio, era o primeiro a chegar e esperava sua fala com grande ansiedade. E dizia glorioso: – Escapei, milagrosamente.
Todos ajudavam o João a memorizar seu texto e diziam, fala João. E ele: Escapei milagrosamente. Escapei milagrosamente.
No dia da estréia, todos foram ver a peça e principalmente ver como o bondoso João iria se sair como ator. Então chegou a hora em que houve o incêndio. Todos na expectativa e lá vem o João Deixa que grita:
Milagrei, escaposamente!
Foi o começo e o fim de uma nem tão promissora carreira de ator.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Lábios que beijei 41


Zemaria Pinto
Conceição


Dona de uma beleza, digamos, pouco convencional – branca, sardenta, lábios grossos, altura acima da média, as carnes fartas e rijas –, Conceição era o sonho de consumo dos moleques. Mas não me comovia. Sua conversa era boba, como haveria de ser boba a conversa de uma menina de 14 anos em plena Segunda Guerra, que a nós todos parecia tão distante. Aceitava os amassos, os toques, os carinhos mais ousados – e de repente começava a falar em filhos, casa, casamento, essas coisas. Não passei dos amassos e toques delicados. Ao afastar-me, entretanto, Conceição passou a me seguir, me vigiar e a insinuar aos amigos em comum que teria havido algo a mais entre nós, tentando forçar um comprometimento. Não lembro mais como tudo terminou: é como uma luz intensa que vai esmaecendo rapidamente até a escuridão total – de onde eu espero surgir Conceição, nua como nunca a vi, resplendente, bela e tola.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Manaus, amor e memória CXCIX


Teatro Amazonas, vista dos fundos.
À esquerda, a igreja de São Sebastião.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tomie Ohtake (21/11/1913 – 12/02/2015)


Tomie Ohtake, vista por Glen.


Cansei de pintar o que via, quis pintar o que vinha de dentro.
(Tomie Ohtake)




Tomie Ohtake, vista por Wal Alves.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 3/7



Zemaria Pinto

3. QUANDO A INTENSÃO SE SOBREPÕE À EXTENSÃO
Tenho em mãos um daqueles caça-níqueis, sempre questionáveis, pois guardam a maldita mania das listas, algo tão pessoal quanto o sabonete de uso diário: Os cem melhores contos brasileiros do século. Na primeira década, os textos têm, no mínimo 6 páginas. Esse padrão vai encolhendo com o passar do tempo: a partir dos anos 1970, passam a ser parte da paisagem os contos de duas páginas. Não temos ainda, entretanto, nada que chegue perto do nosso objeto, mas é um indicativo de que a quantidade de páginas deixava de ser um padrão determinante da qualidade. A história convencional, com princípio, meio e fim – do qual “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado, situado num vago “anos 40/50”, nas suas 18 páginas, é exemplar – passa por um processo de aceleração: a nova forma de narrar é construída de várias elipses sobre uma grande elipse, que é a fábula principal. Ao leitor, cabe montar, se do seu interesse, uma trama que faça sentido – ou não, pois as informações de que ele dispõe devem ser suficientes para ter em mãos uma trama completa.
Vejamos um exemplar de conto onde a intensão se sobrepõe à extensão:
O doente com leucemia:
– Sabe, doutor, o que dói mais? Não é a doença. Não é a dor. Não é a morte em dois meses.
– ...
– É a saudade que desde já sinto da minha putinha.
(2000, p. 103)

Outro, da mesma fonte:
– Nunca tomei um copo d’água sem dar metade pra ela, que no fim me traiu.
(2000, p. 116)

Mais um, metalinguístico:
Dia das mães! Quantos crimes literários, ai, mãe, são cometidos em teu nome!
(2002, p. 51)

Os três textos são de Dalton Trevisan. No primeiro, temos uma love story, com direito a leucemia e tudo. O tratamento aparentemente degradante é, na verdade, carinhoso, padrão Trevisan. O segundo texto deve ter um bolero ou um tango como fundo musical: trata-se de uma história passional, com um possível fim trágico – e aquela frase pode ser a explicação da tragédia. Não precisamos saber mais nada para fazer essas inferências, com a vantagem de que a releitura não nos toma tempo.

O terceiro texto é uma reflexão sobre a enxurrada de bobagens escritas – e publicadas – por ocasião do dia das mães. Todos os anos. E aqui entramos numa outra possibilidade de expressão dessa espécie de conto: a reflexão – mordaz, ferina, esculhambativa.

Trevisan, o Vampiro de Curitiba, por William.

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O cirurgião-barbeiro como símbolo de resistência



João Bosco Botelho

Após o fechamento das escolas de Medicina, a partir do final do século 6, as práticas médicas se aproximaram das abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética, da moral e da caridade cristãs.
Sob a guarda das proibições eclesiásticas impondo nova ordem à ética médica, impedindo as práticas cirúrgicas, mais duramente a partir do século 9, certamente motivadas pelos maus resultados, as necessidades sociais buscaram caminhos alternativos para sanar as dificuldades.
Desde o século 10, na Europa cristianizada, existem muitas referências sobre um personagem estranho e temido, que preencheu os espaços vazios deixados pela proibição eclesiástica da prática cirúrgica: o cirurgião-barbeiro.
Esse personagem, sem formação médica, vínculo institucional ou obrigação ética, como andarilhos percorriam os caminhos entre as cidades medievais, cortando cabelos, barbas e unhas,  e amputando membros gangrenados. Em determinas situações, as práticas agressivas nas pernas e braços infectados, sem nenhum cuidado adicional, causavam mortes, que, no passar dos séculos, salvo exceções, associaram os cirurgiões-barbeiros aos maus resultados, gerando intensos conflitos com a família dos mortos ou com a administração das cidades. Em certas comunidades, quando eles provocavam a morte de alguém com importância social, para evitar o linchamento, eram obrigados a fugir rapidamente da população enfurecida.
Parte significativa do conjunto da Medicina no medievo europeu, regida pela ética atada aos dogmas cristãos, sem hospitais e escolas médicas, migrou para o interior ou proximidades das abadias e conventos, com pouca ligação com a ética e recomendações hipocráticas. Semelhantes aos cirurgiões barbeiros, os padres despreparados provocaram tantos conflitos pela má prática, causando sequelas e mortes, gerando revoltas populares seguidas de destruições de igrejas e monastérios, que motivaram as autoridades cristãs, nos Concílios de Rems (1131) e de Roma (1139), a proibirem os religiosos de exercer a Medicina fora dos muros das instituições religiosas.
Por outro lado, os grandes teóricos do cristianismo como Abelardo, em Paris, Bernard, em Chartre, e Tomas de Aquino, iniciavam o processo de resgate doutrinário das obras de Platão e Aristóteles, que também alcançariam a ética da Medicina.
– Pedro Abelardo, filósofo e teólogo escolástico, como professor da Universidade de Paris, que funcionava junto à catedral Notre Damme, na época, em construção. Esse notável sacerdote defendeu de forma enfática, junto aos seus alunos, filhos de burguesas abastados ou religiosos importantes, outra leitura crítica da Bíblia, renovando a Escolástica na problemática da relação entre a fé e a razão.
– Bernardo de Chartres, reconstruiu segmentos neo-platônicos e aristotélicos. Como Reitor da Escola de Chartres, reforçou os conceitos universais em torno de três categorias da realidade: Deus, matéria e ideia. 
– Tomás de Aquino, filósofo e teólogo, também professor da Universidade de Paris, fundou a síntese do cristianismo sob a visão aristotélica, firmada na revelação, baseada no exercício da razão humana, fundindo a fé e a razão no rumo de Deus. 
A partir da primeira metade do século 14, alguns cirurgiões-barbeiros mais esclarecidos, em aliança com a Igreja, adotaram São Cosme e São Damião como protetores e iniciaram ajustes das práticas médicas cirúrgicas para obter melhores resultados junto aos doentes.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Despojos virtuais



Pedro Lucas Lindoso

O assunto é muito triste. Mas quem ainda não enfrentou tal situação vai enfrentá-la.
O que fazer com o endereço de e-mails de um amigo ou parente querido falecido? Manter na lista de contatos? Deletá-lo? E a página do facebook? O contato no whatsapp? Pior: o número do telefone identificado nos seus contatos do celular.
O que fazer com o e-mail de um grande amigo, lido somente no dia do velório, em que ele indicava a compra da recente antologia de poemas elaborada pelo Ferreira Gullar? E ainda, constatar que o e-mail, equivocadamente enviado ao falecido, retornou com o aviso de “mailbox full” (caixa de correio lotada). De quê, meu Deus? Não seria de pêsames, com certeza. Será lida pela mulher ou por seus filhos? Saberiam eles as senhas?
“Quando a indesejada das gentes chegar”, disse Manuel Bandeira cantando a morte.
Um conhecido, a quem chamaremos de Raul, passou por um sofrido constrangimento no velório de seu pai. Um inesperado e violento infarto ceifou a vida do pai de Raul e coube a ele administrar chamadas vindas do celular de seu pai. Foi dolorido informar as pessoas, que telefonavam para seu pai, do acontecido.
Mais inadequada foi a triste ideia de comunicar a um contato do mesmo celular a morte do proprietário. Quem atendeu foi logo saudando o morto identificado na tela do aparelho. Sentiu-se culpado da besteira que fez, mas estava totalmente atordoado, o que é plenamente desculpável.
Mas o pior ainda estava por vir. Um drama familiar. Durante o velório, Raul começou a receber mensagens do banco, enviadas para o celular do falecido, dando conta da utilização indevida, obviamente, do cartão de crédito/débito do defunto.
Imediatamente entrou em contato com o banco e o cartão de crédito, para sustar todos os cartões em nome do de cujus. Mas o estrago estava feito. O filho mais novo de seu irmão subtraiu o cartão do avô. As senhas estavam todas escritas num papelzinho dentro da mesma carteira dos cartões. Muito fácil para o neto, usuário de drogas e delinquente, fazer a festa.
O mundo muda, as circunstâncias advindas da modernidade estão aí para serem administradas. O que não muda é a dor e a saudade dos que partem, quando a indesejada das gentes chega, como disse o poeta.
O mundo virtual dos banknets, internets, celulares e que tais podem ser bem macabros. Agora, além das terríveis burocracias de um funeral, questões familiares e heranças a serem resolvidas, ainda temos que administrar os despojos virtuais.



domingo, 8 de fevereiro de 2015

sábado, 7 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 2/7




Zemaria Pinto

2. EXPERIÊNCIAS, OBSERVAÇÕES
O meu primeiro estranhamento com narrativas curtíssimas, foi com Kafka, num livrinho das Edições de Ouro, de 45 anos atrás: Contos – A colônia penal e outros, que trazia clássicos como “A metamorfose”, “A sentença”, “Informações para uma academia”, “Um artista da fome” e “Na colônia penal” – de fato, capa e miolo discordavam. Lá estava o magnífico “Diante da lei”, com suas duas pagininhas, que eu encontraria anos depois como o centro irradiador de O processo. Lá estavam também textos de uma página e outros que podiam ser contados em linhas, como este “O desejo de ser pele-vermelha”:
Se alguém pudesse ser um pele-vermelha, sempre alerta, cavalgando sobre um cavalo veloz, através do vento, constantemente sacudido sobre a terra estremecida, até atirar as esporas, porque não fazem falta esporas, até atirar as rédeas, porque não fazem falta rédeas, e apenas visse diante de si que o campo era uma pradaria rasa, teriam desaparecido as crinas e a cabeça do cavalo.
(p. 76)

Falei de minha experiência pessoal, não da história do conto curto. O que são as fábulas de Esopo, se não contos curtíssimos? Há 2.600 anos, Esopo era capaz de relâmpagos como este:
Uma gata, tendo entrado na oficina de um ferreiro, pôs-se a lamber uma lima que ali se encontrava. Aconteceu que, esfregando a língua, saiu muito sangue. Ficou feliz, imaginando que tirava alguma coisa do ferro, até que, finalmente, perdeu a língua.
(p. 51)

Em Kafka temos uma imagem que vai se descontruindo na mesma velocidade do cavalo do pele-vermelha, até se tornar mera paisagem, do ponto de vista do cavaleiro. Mas, sob a perspectiva do leitor, o quadro que se apresentava antes é outro: cavalo e cavaleiro se metamorfoseiam, tornando-se um só: sem esporas, sem rédeas e sem poder ver a própria cabeça. As referências endógenas à obra de Kafka são óbvias: A metamorfose e América – naquela, a transmutação do indivíduo em algo aquém-humano; nesta, o pele-vermelha como alegoria da liberdade de ir e vir. Naquela peça de pouco mais de 50 palavras estaria a gênese desses trabalhos? Se não, pelo menos a manifestação de ideias em estado de latência.
Esopo, imaginado por Velázquez.
Século XVII.
A fábula de Esopo não deixa nenhuma dúvida quanto ao seu objetivo didático, mas nem por isso é menos inventiva, tantos são os símbolos e paradoxos espalhados em tão pouca extensão: gata, representando o estereótipo feminino; lima, um instrumento de desgaste lento, de tortura, talvez; sangue proporcionando felicidade, como se fosse o alimento desejado; e o improvável choque da perda total. Como estamos sob o protocolo da fábula, entretanto, mesmo o improvável é verossimilhante.

Em ambos os casos, a intensão se faz sentir a partir do tensionamento gradativo da narrativa, até a culminância, que se dá na última imagem – desaparecidas as crinas e a cabeça do cavalo, em um, e a perda da língua, no outro – quando a intensidade atinge o seu limite máximo.

Ética da medicina no medievo europeu


João Bosco Botelho

O processo da cristianização de Roma, durante o reinado do Constantino e após, fruto do enfraquecimento das fronteiras romanas pelas invasões dos godos e visigodos, introduziu mudanças no sistema mercantil escravista para o feudal e alcançou a ética da Medicina.

Nesse processo complexo, a Medicina se distanciou dos conceitos gregos jônicos da físis e se aproximou da doença como mal gerando o castigo divino, como nas culturas da Mesopotâmia, Egito, Índia e Grécia homérica, entre os séculos 7 e 5 a.C. Sem pretender simplificar muito, o tratamento mais importante para a doença como mal, seria a força de Deus e de Jesus Cristo, intervindo para promover a cura por meio do milagre.

É possível compreender essa abordagem, que motivou outros conceitos teóricos à ética e à moral, alcançando também as práticas médicas, como regressão às conquistas greco-romanas. Essas mudanças também provocariam desconstrução urbana, no medievo cristão europeu, com as administrações das cidades se descuidando da higiene pessoal, ruas estreitas, casas abafadas e sem exposição solar, pouca água potável, retorno do enterramento dos corpos nos limites urbanos e ausência de esgoto sanitário.

Os banhos públicos, usados simultaneamente por homens, mulheres e crianças, entendidos como local de excessiva exposição dos corpos propiciando maior exacerbação da sexualidade, foram precocemente combatidos pela nova ordem cristã que se empenhou em fechar todos.

Esse fato associado às outras importantes mudanças no urbanismo das cidades alcançou o novo mundo cristão em ascensão, inclusive e especialmente a prática médica, fechando as escolas de Medicina e interditando o manuseio do corpo morto para o estudo da anatomia. Esse conjunto fulminou as práticas médicas greco-romanas, sob a égide da ética hipocrática, e introduziu outro processo monolítico ideológico, sob forte fiscalização eclesiástica, reconstruindo outra ética na Medicina, que se estenderia até a baixa Idade Média.

Os serviços profissionais dos agentes da Medicina-divina, Medicina-empírica e Medicina-oficial, até então entendidas como trabalho profissional remunerado, passam para a categoria dos trabalhos que deveriam seguir o exemplo de Jesus Cristo e dos apóstolos, cujos sacerdócios incluíram muitas curas milagrosas. O milagre cristão passou a ser a principal motivação da cura das doenças.

A ética da Medicina absorveu, na Roma cristianizada, o entendimento da doença como consequência da desobediência a Deus, Jesus Cristo e aos santos, e se transformou em sinônimo de castigo. Com as escolas de Medicina fechadas e, consequentemente, o ciclo da formação de médicos interrompido, deixando o povo sem opções, se intensificaram:

– Peregrinações aos santuários católicos, especialmente, Jerusalém e Santiago de Compostela, na Espanha;
– Devoção aos santos com poderes de curar determinadas doenças;
– Edificações de ofertórios dedicados aos santos ou santas relacionados à doença mais temida, nas principais ruas ou praças das cidades.

Com o fechamento das escolas de Medicina, a partir do final do século 6, as práticas médicas se aproximaram dos abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética, moral e caridade cristã.

Sob a guarda das proibições eclesiásticas impondo nova ordem à ética médica, impedindo as práticas cirúrgicas, mais duramente a partir do século 9, a cirurgia foi excluída da Medicina e se tornou atividade não recomendada aos homens de bem.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Salvo pelo nome



Pedro Lucas Lindoso

O namoro dos pais de Waldisney foi embalado pela trilha sonora do desenho da Branca de Neve. Compostas por Frank Churchill, as belas músicas do primeiro desenho de longa metragem Disney, de 1937, venceram, meritoriamente, o Oscar da categoria.
As músicas se tornaram clássicos modernos. O filme foi reprisado nos anos oitenta, quando os apaixonados pais de Waldisney se casaram.
O rebento foi homenagem ao incrível Walt Disney. O pitoresco nome foi sempre motivo de polêmicas e bullying. Por causa disso e para simplificar, Waldisney prefere ser chamado de Ney.
Colegas de trabalho de Ney resolveram formar um grupo para ir a Miami.  Era a chance de conhecer a Disney posto que haviam recebido uma gorda e inesperada PL – participação nos lucros, paga pela empresa onde trabalham, instalada no PIM de Manaus.
 A turma primeiramente foi a Brasília tirar o visto na Embaixada Americana. Lawrence Augusto, líder do grupo, conta que o visto do Waldisney teria sido negado. E que só lhe concederam o almejado visto por causa de seu nome. A funcionária da embaixada teria ficado encantada e carimbou o passaporte de Waldisney para que pudesse, finalmente, conhecer o Mundo Encantado de seu, digamos, homônimo tão querido.
Waldisney não deveria ter colocado no facebook que iria para Miami. O bairro da Compensa todo ficou sabendo e as encomendas não paravam. 
Mary Kateryny, a namorada do Ney, que não foi porque não tinha visto, só liberou se ele lhe trouxesse um celular 4 G, uma chapinha americana nova, um tablet, mais de doze itens de maquiagem, além de um tal aparelho baby lis.
 O dentista da fábrica pediu quatro water pics. Um irmão encomendou um jogo eletrônico, o outro um celular e um notebook. A irmã suspirava por cremes diversos e também o tal do baby lis. A lista da sogra é de arrepiar. Uma tia querida entregou-lhe, constrangida, uma enorme lista de vitaminas e outra de cremes para a pele.
O grupo se divertiu muito na Flórida. Alugaram dois enormes carros. A viagem de Miami para Orlando só teve dois pequenos incidentes: uma multa por excesso de velocidade e um erro estratégico de pagamento de pedágio. Tudo sem maiores consequências.
Divertiram-se muito. Estragaram-se em compras e voltaram felizes e contentes para Manaus.
O que preocupava Waldisney era a vistoria na Alfândega. A turma avisou que cinco tablets e quatro celulares iria chamar muito a atenção.
Dizem que para quem chega durante o dia, a vistoria é ainda mais rigorosa.
Waldisney, nervoso, cedia a vez aos colegas na fila. Saiu e entrou da fila, empurrando e retirando o seu carrinho com duas portentosas malas diversas vezes. Quando alguém era solicitado a abrir a bagagem ele ia para o final da fila. Claro que aquilo chamou a atenção do fiscal. Seria revistado com toda a certeza!
Quando chegou a vez do Waldisney o fiscal, já pronto para a inspeção, viu o nome do Waldisney na declaração e exclamou:
– Você é o Waldisney, colega do meu filho no Colégio Militar?! Bem-vindo de volta a Manaus!

E foi assim que Waldisney escapou das multas alfandegárias. Salvo pelo nome!...