Amigos do Fingidor

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Eutanásia, distanásia e ortotanásia: buscas da boa morte



           João Bosco Botelho

A construção teórica da eutanásia está inserida no pressuposto de a morte ocorrer com menos sofrimento e constitui conjunto de atitudes com o objetivo de abreviar a vida de um doente reconhecidamente incurável, com incomensurável sofrimento físico e mental, impossíveis de serem controláveis por meio de remédios. 
O Código Penal brasileiro, sob nenhuma hipótese, autoriza a eutanásia. Contudo, em certas circunstâncias, muito especiais, abreviar a vida a pedido do próprio doente portador de doença incurável, em situação terminal, com incalculável sofrimento, poderia ser entendido homicídio privilegiado. Desse modo, em qualquer circunstância a eutanásia se configura conduta ilícita.
O mundo televisivo acompanhou em março de 2005 o drama familiar da doente norte-americana, em coma vegetativo durante quinze anos, após a autorização judicial, em última instância, para interromper a alimentação e hidratação. A paciente morreu treze dias após serem interrompidos os cuidados médicos.
Distanásia representa o conjunto de ações médicas com o objetivo de empurrar os limites da morte, em determinas condições, mantendo o sofrimento.
Ortotanásia pode ser entendida como a chegada da morte no processo natural. Nessa circunstância, a assistência médica não contribui para prolongar artificial e desnecessariamente o processo de morte. É importante assinalar que somente o médico poderá conduzir o processo da ortotanásia, portanto não sendo obrigado legal e eticamente a prolongar a vida contra a expressa vontade do paciente.
O drama da doente americana despertou atenção em vários países no mundo, principalmente aos parentes dos doentes com morte encefálica, sem possibilidade de recuperação, que têm a vida e o sofrimento prolongados pelas ações da Medicina.
Essa discussão pública recebeu a atenção dos teóricos do Direito, da Ética e da Moral, que se manifestaram acaloradamente em torno de concepções da dignidade e autonomia da pessoa humana para morrer.
Poder das instituições hospitalares e do médico para manter a vida artificialmente dos doentes sem qualquer possibilidade de recuperação;
Direito de pedir a própria morte quando o doente lúcido, com muito sofrimento, expressa com lucidez que não quer mais sentir dor fora do controle;
Na impossibilidade de o doente decidir, nas mesmas condições acima citadas, se alguém da família poderia decidir a hora da morte.
De modo geral, as discussões de ordem jurídica, ética e moral, alcançaram diferentes espaços das relações sacras e laicas. Sem unanimidade frente às várias correntes, a discussão acabou restrita aos abusos da tecnologia médico-hospitalar que transformou o doente terminal em mercadoria de valor, seja científico ou monetário.
           Prolongar a vida a qualquer preço, sustentando o sofrimento do doente, estaria em choque com a dignificação da própria vida.
           Esse confronto entre quem possui recursos para receber o melhor tratamento e os que não conseguem o acesso ao serviço público de assistência médica cunhou a categoria denominada mistanásia ou eutanásia social. Em outras palavras, os pobres morrem mais precocemente e com mais sofrimento se comparados aos ricos!

É importante ressaltar que a tendência, inclusive na Igreja, por meio da Bula Evangelium Vitae, de 1995, do papa João Paulo II, é de valorizar a ortotanásia, que além de se opor aos excessos terapêuticos, renuncia aos meios excepcionais e desproporcionais para prolongar a vida. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sábado na Academia, Zemaria Pinto e Tavares Bastos




Tavares Bastos (1839-1875) – foi o grande teórico da monarquia, influenciando com suas ideias a revolução republicana. Tendo vivido apenas 36 anos, deixou uma obra densa, de grande embasamento técnico e filosófico. Liberal clássico, Tavares Bastos foi um dos primeiros a apontar os Estados Unidos, então uma nação em desenvolvimento, como o grande parceiro comercial do Brasil. Era um entusiasta da Amazônia, tendo viajado entre Belém e Manaus, por três meses, em 1865. O fruto dessa viagem foi o livro O vale do Amazonas, onde, com largueza de pensamento, ele dá as diretrizes econômicas e políticas para uma Amazônia que haveria de ser o grande motor do desenvolvimento do Brasil. Tavares Bastos é o patrono da cadeira 27 da Academia Amazonense de Letras e da cadeira 35 da Academia Brasileira de Letras.  


Zemaria Pinto (1957) – autor de 16 livros publicados e uma dezena de inéditos – entre poesia, teatro, ficção infanto-juvenil e ensaios sobre literatura –, é mestre em Estudos Literários e membro, há 10 anos, da Academia Amazonense de Letras, onde ocupa a cadeira 27, de Tavares Bastos. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Lábios que beijei 29


Zemaria Pinto

Elisa


Conheci Elisa num barracão de candomblé, uma oca de terra batida, para onde fui levado pela curiosidade adolescente que cerca o proibido. A frenética música dos tambores não deixava ninguém indiferente. Pelas tantas, uma cabocla roxa, de negros cabelos lisos, regulando uns 15 anos, rodou até o centro do salão e começou a se contorcer no ritmo dos tam-tans. Foi a dança mais sensual que eu veria em toda a minha vida. De início, ela levantava a saia vermelha, mostrando as coxas fortes, os músculos retesados. Na sequência, desabotoou a blusa azul e quando alguém tentou impedi-la de prosseguir, ela arrancou o corpete, fazendo saltar os pequeninos seios, os bicos túmidos, e atirou-o longe – aos meus pés. A ialorixá sinalizou para que a deixassem. Apanhei o corpete e logo senti o forte cheiro de patchuli. Elisa, banhada em suor, continuou sua dança ensandecida, tirando uma a uma as peças – saia, anágua, blusa – até ficar só de calcinha. A dança ainda se estendeu por alguns minutos, até que ela desabou no chão, inerte. Cobriram-na com uma toalha e levaram-na para dentro de casa. Quando ela reapareceu, o semblante refletindo uma estranha calma, devolvi-lhe o corpete. Elisa me abraçou, tocou o ombro contra o meu, em xis, em ambos os lados, me fazendo sentir a fortaleza de seus seios duros, e enfiou a língua na minha boca, com sofreguidão. Sempre nos encontrávamos depois do ritual, no quarto em que ela morava com uma tia entrevada, numa estância próxima. Um dia, Elisa sumiu do barracão – voltou para Faro, alguém comentou com displicência. No ar, aquele cheiro inconfundível, que ainda hoje me faz sonhar seu corpo rijo, úmido, e sua sensual dança sagrada.

domingo, 14 de setembro de 2014

sábado, 13 de setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dupla penitência



Zemaria Pinto


Lesta e contrita, a velha senhora caminha, com o terço na mão.


Repulsa à morte: o grito pela vida



         João Bosco Botelho

A necessidade incontrolável de dar sentido à vida, diferente da dos outros animais, e de minimizar a morte, expressa com transparência na História, contribuiu para materializar, como opostos, a saúde e a doença. A primeira, sinônimo de vida, ficou ligada ao bem, ao bom, ao belo; a segunda, ao mal, porque sinaliza e antecipa a morte, sempre temida.
         A pulsão inata para desvendar as formas visíveis, em especial as do corpo, dotado com propriedades sensíveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor e do desconforto, pode ser considerada como a primeira verdade material. É verdadeira em si mesma, porque dá forma ao viver, num movimento caleidoscópico, composto pela carnalidade da pele quente, realidade dos sentidos, da respiração e do ritmo cardíaco. Atinge e entrelaça o ser no mundo.  
         Quando a morte advém, como antítese da vida, descolora a pele, resfriando-a e tornando-a insensível ao pior dos tormentos: a dor. O movimento respiratório e o coração param. O corpo desfigurado pelo rigor cadavérico enche de sentido a vida dos que choram. É quando o vivo se apercebe da própria existência e rejeita a morte refletida no corpo endurecido do outro, sem movimentos, na pele indolor e fria.
As pessoas para reafirmarem as vidas humanas como fatos permanentes utilizam a ficção, vivificam o corpo inanimado e prolongam a crença do renascimento, com prêmio ou castigado, no após a morte, nos moldes da vida vivida.
É a dialética fundamental entre a vida e a morte, atando com ligadura indissolúvel o ser-tempo (homem vivo) ao ser-não-tempo (homem morto). Ambos são partes da mesma realidade, por isso, essenciais. Contudo, somente um percebe o outro. Por essa razão, é capaz de transfigurar, quando aprouver, o objeto perceptível (ser-não-tempo), pensá-lo vivo, renascido, em outro lugar.
A técnica humana, transformadora da natureza circundante, é o pilar sustentador que aprimora e prolonga os sentidos, marcando a separação do ser-tempo (homem vivo) do objeto (homem morto) dos outros animais. Os saberes historicamente acumulados buscam na repulsa à morte as razões para viver com conforto, sem frio, sem fome.
Os atuais saberes ocidentais, em parte marcados pela influência cultural greco-romana, uniram esse patrimônio, perdido nos confins enigmáticos do tempo indivisível. A pólis, organizada à semelhança do corpo saudável, passou a ser compreendida como um organismo vivo. Ao contrário, o caos social era sinônimo de doença. O administrador competente era aquele que curava a sociedade deficitária.
         O poder de curar pessoas e sociedades e adivinhar os infortúnios, evitando a enfermidade, para melhor organizar um determinado grupo social, oferecendo a saúde e adiando a morte, tem sido historicamente utilizado pelo poder político, como mecanismo de coesão e controle sociais.
         O sofrimento causado pela morte da pessoa amada determina transtornos complexos incomensuráveis, em diferentes níveis do corpo, trazendo sinais físicos de dores, variando em cada pessoa. O pavor à morte, entendida como sensação de perigo iminente, interferindo na vida dos que veem a morte do outro, provoca sofrimento. É lógico pressupor que as atitudes específicas – como pensar na vida após a morte – minorando o sofrimento frente à morte temida, tenham sido valorizadas e continuamente aperfeiçoadas pelas linguagens-culturas pelo fato de ordenar a volta do bem-estar.
        


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A universidade por Millôr


Millôr por J. Bosco.

A universidade é o local onde a ignorância é levada a suas últimas consequências.

(Millôr Fernandes)

domingo, 7 de setembro de 2014

sábado, 6 de setembro de 2014

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Dabacuri – memória 5/5



Zemaria Pinto 

crianças em conflito
no salão em festa
– peidos-de-velha

chuva de prata:
estrelas ao rés do chão
– alumbramento!

artes do delírio:
os espectros dos bravos
passeiam silentes

cavalos noturnos
galopam noites de febre
– delírios senis

Thiago de Mello é candidato à Academia Brasileira de Letras


Thiago de Mello, 88 anos, é candidato à cadeira 32, ocupada até há pouco por Ariano Suassuna.

O poeta amazonense Thiago de Mello é candidato à cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono o poeta e dramaturgo Araújo Porto-Alegre e cujo último ocupante foi Ariano Suassuna.

Thiago jamais pleiteou uma vaga na ABL, embora tenha sido instado por vários amigos que por lá passaram, desde o poeta Manuel Bandeira até o próprio Suassuna. Mas não resistiu ao apelo do amigo de mais de 60 anos Carlos Heitor Cony:

Ó Thiago, eu não quero morrer sem ver você na Academia. Depois eu morro pra você sofrer um pouco.

Cony, que tem a mesma idade de Thiago, continua trabalhando e produzindo regularmente.




O principal adversário de Thiago de Mello é o colunista global Zuenir Ventura, 83 anos, autor de 1968: o ano que não terminou, além de cinco outros títulos. Já não bastava o Merval Pereira...

Aliás, no quesito bibliografia, o caboco suburucu dá um banho de cuia. Confiram.


Bibliografia de Thiago de Mello

POESIA

Silêncio e palavra. Rio de Janeiro: Hipocampo, 1951.
Narciso cego. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952.
A lenda da rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.
O andarilho e a manhã. José Olympio, 1960.
Tenebrosa acqua. José Olympio, 1960.
Toadas de cambaio. José Olympio, 1960.
Vento geral (1951-1960). Rio de Janeiro: José Olympio, 1960. (Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras)
Faz escuro mas eu canto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
A canção do amor armado, 5 ed.. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
Poesia comprometida com a minha e tua vida, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. 5 ed. Civilização Brasileira, 1983.
Os estatutos do homem, edição ilustrada por Aldemir Martins. Martins Fontes, São Paulo, 1977. 3 ed. 1980.
Horóscopo para os que estão vivos. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
Mormaço na floresta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2 ed. 1983.
Vento geral II- Poesia 1951/1981. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
Num campo de margaridas. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986.
De uma vez por todas. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1996. (Prêmio Jabuti de melhor Poesia)
Campo de milagres. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1998. (Prêmio Jabuti de melhor Poesia)
Faz escuro, mas eu canto. Rio de Janeiro: Record e São Paulo: Altaya, 1999. (coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa)
Poemas preferidos pelo autor e seus leitores. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
A floresta vê o homem. Men viem from the forest – Edição bilíngue. Organizado e Tradução de   Sérgio Bath. Manaus: Valer, 2006.
Melhores Poemas: Marcos Frederico Krüger Aleixo (Seleção e prefácio) São Paulo: Global, 2009.
Os Estatutos do Homem. Edição trilíngue .  Versão castelhana de Pablo Neruda. Versão inglesa Robert Marques e Trudy Pax. Vergara y Riba, São Paulo. 2012.
Como sou. São Paulo: Global. 2014

PROSA

Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao rio Amazonas e seus Barrancos. Ministério da Educação, 1957.
A estrela da manhã. Ministério da Educação, 1958.
Arte e ciência de empinar papagaio. Manaus, 1982.
Manaus, amor e memória. Rio de Janeiro, Philobiblion, 1984.
Amazonas, a menina dos olhos do mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
Amazonas, pátria da água. Water Heartland. Edição bilíngue. Fotografia de Luiz Claudio Marigo. São Paulo: Sver & Boccato, 1990 (Prêmio Osvaldo Orico da Academia Brasileira de Letras, em 1989)
O povo sabe o que diz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2. Ed. 1993.
Borges na luz de Borges. São Paulo: Pontes Editores, 1993.
Amazonas águas, pássaros, seres e milagres. Rio de Janeiro: Salamandra, 1998.
Os milagres da palavra. Florianópolis, Museu/ Arquivo da Poesia manuscrita, 1998.
Tradução: arte de recriar. Florianópolis, Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 1999.
Mamirauá, Foto: Luiz Claudio Marigo. Tefé: Sociedade Civil Mamirauá, 2002.
ABC da floresta Amazônica. Com Pollyanna Furtado. Fortaleza: Conhecimento, 2008.
O desafio do exílio. In: Caderno do Refúgio. Brasil: ACNUR, 2007.

Neruda no coração da floresta. Memorial da América Latina: São Paulo, 2008.

Thiago confiou-me um delicado convite recebido da CEPAL - Comissão Econômica para América Latina e Caribe, autorizando sua divulgação. Todo salamaleque é pouco para o autor dos Estatutos do Homem.


Clique sobre a imagem, para ampliá-la.


Se o quesito qualidade da obra fosse o único determinante ele já estaria eleito. Infelizmente, academias têm lá seus achaques e tiques. Desde Richelieu. Nossa torcida para o poeta.

Alguns aspectos do aborto no Brasil



           João Bosco Botelho


No Brasil, o aborto é considerado crime, exceto: gestação como produto de estupro e risco de vida materna e, mais recentemente, quando constatada anomalias fetais incompatíveis com a vida, sendo a anencefalia a mais comum.
Um dos estudos mais importantes identificando o perfil das mulheres que usam o aborto, no Brasil, como método anticoncepcional, foi realizado pela Universidade Federal de Pelotas. Alguns dados são interessantes e mostram a gravidade da questão, claramente entendida como problema de saúde pública:
– Mais frequente entre mulheres com idade entre 20 e 29 anos, em união estável, com até oito anos de estudo, trabalhadoras, católicas e com pelo menos um filho;
 – A maior parte é adolescente;
– O medicamento de venda controlada Misoprostol, indicado  como o principal método abortivo;
– Mais de 1 milhão de gestações foram interrompidas em 2005;
– Cerca de 200 mil mulheres, em 2005, foram hospitalizadas por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) em decorrência de tentativas de aborto;
– Em 2005, 3,7 milhões de brasileiras entre 15 e 49 anos realizaram aborto;
– Até 82% dos abortos são realizados por mulheres entre 20 e 29 anos e 10% são adolescentes;
– A maior parte das mulheres que fizeram aborto se declarou católica. A menor proporção, como evangélica.
           As estatísticas mundiais, notadamente, nos países subdesenvolvidos e nos em desenvolvimento, evidenciam o aumento do número dos abortos provocados. Essa realidade impõe outras construções para melhor entender o aborto como metido anticoncepcional, notadamente, se a mulher que pretende abortar é menor de idade.
           Na França, a permissão do Estado ao aborto alcança os embriões de 14 semanas. Contudo, a entrevista obrigatória com equipe especializada, que antecede o ato médio, nos hospitais públicos, e o apoio governamental no sustento futuro da criança, consegue reverter a decisão em mais da metade dos casos
           A análise dos dados estatísticos continua alimentando as seguintes questões:
– As proibições não conseguiram modificar, em dois mil anos, o comportamento das mulheres quando decididas a utilizar o aborto como método ­anticoncepcional;
– Nas sociedades com problemas de superpopulação, pode ocorrer o estímulo do Estado ao aborto como forma de controle populacional.
Também é importante assinalar que frente ao número de médicos em atividades no Brasil, cerca de 370.000, alguns poucos, contados nos dedos, são denunciados por prática de aborto à margem do artigo 54 do Código de Ética Médica, que impõe restrição ao médico, salvo as exceções referidas no artigo 128 do Código Penal.
Para que um médico, no Brasil, possa realizar o aborto, deverá consultar em conferência dois outros médicos lavrando a ata em três vias. Uma das cópias será enviada ao Conselho Regional de Medicina; outra, ao diretor clínico do hospital ou clínica, pública ou privada; a terceira ficará sob a guarda do médico assistente, responsável pela internação hospitalar da paciente.
O tema aborto, com diferentes enfoques, está presente direta ou indiretamente em pelo menos 21 artigos do Código de Ética Médica. Contudo, os artigos 42 e 43 são mais específicos:
Art. 42 – É vedada ao médico a prática ou indicação de atos desnecessários ou proibidos pela legislação do país;
Art. 43 – É vedado ao médico o descumprimento da legislação específica nos casos de transplantes de órgão ou tecidos, esterilização, fecundação artificial e abortamento.
          


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Lábios que beijei 28


Zemaria Pinto

Cláudia


O que dizer da mulher com quem vivi nove anos, sem sentir por ela nada além de amizade? Da mesma idade que eu, quando nos casamos ainda havia muito a descobrir, o que se esgotou em menos de seis meses, com a primeira gravidez. Após a segunda gravidez, minha vida com Cláudia era apenas uma fachada com os sinais inevitáveis do desgaste que a chuva e o sol provocam em qualquer fachada. Cláudia era a senhora da casa, abdicando de seus estudos e planos de futuro, eu, o provedor – saía às 7 e nunca voltava antes das 21. O casal criança crescia sem pai e com excesso de mãe. Nos fins de semanas, jogos, pescarias, serenatas, cervejadas. Para mim, era o paraíso: tinha todas as mulheres que eu queria, roupa lavada e cama arrumada. Numa madrugada de sábado, bêbado, encontrei na garagem duas malas com minhas roupas e utensílios de uso mais imediato. Com uma calma inesperada e indescritível, Cláudia falou apenas algo como “quando você se organizar, volte para pegar seus discos e livros”. E nada mais. Na sentença de desquite, o juiz determinava que eu podia ver as crianças apenas aos sábados, o que me fez mudar radicalmente meus programas de farras. Aos poucos, no entanto, fui renovando a confiança de Cláudia, e as visitas passaram aos domingos, quando saíamos todos – ela e Safira, inclusive – para almoçar. As crianças cresceram, os almoços foram se esfumando em mera lembrança. Vieram os netos. Cláudia morreu antes de vê-los. Tento lembrar seu jovem rosto redondo, sorridente, mas só me vem à mente a face encovada, pálida, a cabeça sem pelos, a máscara da morte.

domingo, 31 de agosto de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dabacuri – memória 4/5


Zemaria Pinto

sonolento,
um carro de boi atravessa
a praça deserta

flores de jambeiro
espalhadas pelo chão
– caminho de cores

memória desperta –
a bola de cernambi
quica na calçada

vela derretida
em pingos que se combinam
– destino anunciado

Valer Infantojuvenil e Tenório Telles em duplo lançamento



Lançamento: Cantando poetas ibero-americanos



Aborto sob a vigilância laica



          João Bosco Botelho


A ausência de registros laicos proibindo ou punindo sugere que os métodos abortivos utilizados como contraceptivos poderiam ter sido usuais na antiguidade. Não é razoável pressupor a inexistência ou que não eram utilizados na gravidez indesejada. Dois dos mais antigos textos legislando a ação médica, o Código de Hammu­rabi, do século 17 a. C., e as leis de Eshnunna (1825‑1787 a. C.), não fazem referência ao assunto.
          Por outro lado, a leitura do juramento de Hipócrates mostra a clara expressão contra o aborto dos médicos gregos da Escola de Cós: "...Não darei venenos mortais a ninguém, mesmo que seja instado, nem darei a ninguém tal conselho e, igualmente, não darei às mulheres pessário para provo­car aborto". É possível pressupor que essa passagem do juramento de Hipócrates esteja estritamente ligada às interdições de qualquer procedimento médico capaz de provocar a morte, semelhante ao da cirurgia para retirar pedra na bexiga, já que ambos seriam capazes de matar o doente e nesse caso não poderiam ser executados. A essência da estrutura teórica da Escola hipocrática estava assentada na existência da Medicina e dos médicos para manter a vida! Seria impensável aceitar qualquer a ação médica capaz de ocasionar a morte do doente!
No mesmo período, houve certa indulgência em Aristóteles (Política, VII, 4) que aconselhava a interrupção da gravidez frente às necessidades médicas, desde que o embrião não tivesse recebido o sentimento e a vida. Essa posição aristotélica valorizando “o sentimento e a vida” do embrião como limite à prática abortiva serviu de instrumento teórico dos Doutores da Igreja, em diferentes períodos, no medievo cristão, para proibir mais ou menos o aborto. Sob outro argumento, teoricamente, as complicações do aborto provocado são mais graves na medida do avanço da gravidez. Desse modo, não é também possível dissociar a precaução de Aristóteles quanto as possibilidades de o aborto causar a morte da gestante.
 Após a cristianização das práticas médicas, na Europa medieval, é fácil e imediato reconhecer a influência do pensamento cristão nas leis sobre o aborto. No século 6, os visigodos adotaram a pena de morte para quem quer que fornecesse drogas para provocar aborto. A mulher, se fosse escrava, seria punida por meio de castigos físicos; se fosse livre, seria degradada. No século seguinte a pena de morte passou a valer tanto para o vendedor da droga como para o marido da gestante, caso este ordenasse ou consentisse no crime.

Na França, até a Revolução Francesa, os médicos e parteiras que praticassem aborto, quando descobertos, eram condenados à forca. Com o advento da Revolução Francesa esta pena foi reduzida para vinte anos de cadeia.

Depois de quase dois mil anos de limitações impostas pelos poderes laicos, a estimativa do número de abortos ilegais, sob condições precárias de higiene, por ano, no mundo, é impressionante: entre 46 a 55 milhões e 78% realizados em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, como no Brasil, causando milhares de mortes por infecção. Sob esse forte impacto, noventa e sete países, inclusive a Itália, possuem leis que permitem o aborto até três a quatro meses da gestação.

As análises dos dados da Organização Mundial de Saúde permitem assegurar que a diminuição da perigosa prática do aborto como método anticoncepcional caminha ao lado da educação sexual obrigatória nas escolas de ensino médio e da melhoria socioeconômica das populações. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Inspiração



A inspiração é uma deficiência psicológica que ataca artistas amadores.

(Millôr Fernandes)


domingo, 24 de agosto de 2014

Manaus, amor e memória CLXXIV


Há 100 anos (?) as calçadas já eram tomadas do povo...

sábado, 23 de agosto de 2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Dabacuri – memória 3/5


Zemaria Pinto 

mais um velório:
a família se reúne,
mesmo sem querer

Dia dos Pais –
a família reunida,
relembrando

crianças no jardim,
adultos na sala
– visitas

flores sobre o chão
espalhadas pelo vento
– Parque Tarumã

Sábado na Academia: Carmen Novoa e Antônio Brandão de Amorim



O aborto entre o rigor do Didaqué e a teologia de Santo Agostinho



João Bosco Botelho

          A compreensão ético-teológica de Santo Agostinho (354‑430) se afastou da de Tertuliano e se aproximou da de São Jerônimo. Possivelmente para abrandar a interdição intransigente contra o aborto do Didaqué, manual ético‑moral, escrito nos anos 100, a análise agostiniana de modo genial reconstruiu a separação aristotélica etária dos fetos, o que possibilitou amenizar a proibição do aborto em até cinco a seis semanas de gravidez: “Pois uma vez que o grande problema da alma não pode ser decidido apressadamente com julgamentos rápidos e não fundamentados, a LEI não prevê que o ato seja considerado como homicídio, uma vez que não se pode falar de alma viva num corpo privado de sensações, numa carne não formada e, portanto, ainda não dotada de sentidos”.
          Na Idade Média, a Igreja cristianizou algumas comemorações oriundas do politeísmo. A da Natividade do Senhor, uma das primeiras, no fim do século 4, iniciando os atributos sagrados às concepções. Seguida da Natividade da Imaculada Conceição de Maria, celebrada no dia 8 de dezembro, e a da Anunciação, ou festa da concepção de Cristo, respectivamente nos séculos 6 e 7. Essas celebrações também contribuíram para impor maior simbologia sagrada à gestação.
          A dúvida sobre a data do início da anima­ção do feto, oriunda dos conceitos aristotélicos, retomada por Santo Agostinho, atravessou os séculos. O magnífico São Tomás (1225‑1274), mais próximo da teologia agostiniana, sustentou que só o aborto de um feto animado era homicídio. A força da moralidade tomista para a estrutura dogmática da Igreja influenciou decisivamente no afrouxamento da proibição oriunda do Didaqué.
          O papa Gregório XIV, em parte apoiado nas construções teóricas de São Jerônimo, Santo Agostinho e São Tomas de Aquino, revogou a Bula de Xisto V (1588), que punia civil e canonicamente os que praticassem o aborto em qualquer fase do feto.
           O retorno da Igreja, no século 19, ao rigor do Didaqué contra o aborto como método anticoncepcional, tem dois componentes inseparáveis: um teológico e outro político. O primeiro, teológico, promovido pelo papa Pio XI, acabou com a distinção multissecular de feto animado e não animado, oriundo do aristotelismo. O segundo, político, possivelmente relacionado à industrialização crescente do Ocidente junto à necessidade de mão de obra, já que historicamente os abortos atados às complicações, inclusive à morte da grávida, alcançaram muito mais as mulheres oriundas dos estratos sociais mais pobres.
          No famoso discurso dirigido às obstetras, em 1951, O Papa Pio XI se mostrou enfático ao atribuir vida intrauterina plena antes do nascimento e condenar o aborto em todas as formas: “Todo ser humano, até mesmo as criancinhas no seio materno, recebe o direito à vida diretamente de Deus... Não há nenhum homem, nenhuma autoridade humana, nenhuma ciência, nenhuma indicação médica, econômica, social, moral, que possa exibir título jurídico válido para dispor direta e deliberadamente de uma vida humana inocente...visando sua destruição”.

          O documento conciliar Gaudium et Spes, considerado progressista em muitos aspectos da ação social da Igreja, manteve a interdição incondicional muito próxima do Ditaqué: “A vida, uma vez concebida, deve ser tutelada com o máximo de cuidado e o aborto, como o infanticídio, são delitos abomináveis”. 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Lábios que beijei 27


Zemaria Pinto

Ilsa


Ilsa, dos cabelos falsamente louros e pele de abacate passado – dizia que tinha 16 anos, mas o corpo ainda em formação denunciava 13 ou 14 –, era apenas uma entre centenas de prostitutas adolescentes de uma cidade em ruínas: um ano após a desativação do canteiro de obras que deu origem a Brasília, São Luís, sua principal fornecedora, reduzira-se a um lugar de onde os homens desapareceram em busca de um Eldorado qualquer, deixando as mulheres à mercê dos que se dispunham a pagar por elas. A falta de voos diários me obrigava a uma permanência de cinco dias, quando minha missão no banco não me exigia mais que três. Ao final do terceiro dia, levaram-me a um bar, no centro da cidade, onde tocava uma melancólica música latina, falando de traições e vinganças. Ela estava lá, entre tantas outras meninas de aluguel. Não era a mais bonita ou a mais fornida, mas tinha os olhos docemente blues. Levei-a para o hotel, com receio de que não permitissem a sua entrada – fizeram de conta que ela nem existia. Não desgrudamos mais um só instante. E logo deixei de me incomodar com as possíveis críticas ao inusitado casal – o homem branco maduro com a meninaputa pretinha. Foram dois dias de êxtase total: a menininha fazia sexo como poucas mulheres que eu conhecera. Algumas horas antes de ir para o aeroporto, depois de nova sessão de sexo arrasa-quarteirão, senti-me estranhamente sonolento. Acordei no dia seguinte, sem dinheiro e sem o relógio suíço, presente de Cláudia. Como era sábado, tive que ficar mais dois dias em São Luís. Mas não procurei Ilsa. Feitas as contas, até que foi barato.

domingo, 17 de agosto de 2014

Manaus, amor e memória CLXXIII


Certificado de ações da Companhia de Bondes de Manaus. Em libras esterlinas...

sábado, 16 de agosto de 2014

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Dabacuri – memória 2/5


Zemaria Pinto

no Mercado Grande,
a cidade em passarela
– manhã de domingo

chocolate, vinho e carne –
depois da abstinência
a mesa farta

domingo de Páscoa:
a família ora em torno
de um cordeiro assado

morangos maduros
sobre a mesa de domingo
– aroma de ausência

Sábado na Academia: Mário Ypiranga Monteiro Neto palestra sobre o Barão do Rio Branco






O palestrante

Mário Ypiranga Monteiro Neto, ocupante da cadeira 10 da Academia Amazonense de Letras, aos 42 anos, é o mais jovem titular daquela casa de cultura, mas pode-se dizer que, 9 anos depois de sua posse, é dos mais experientes.

Sua carreira jurídica começou em 1998, como promotor público. É também professor universitário e cronista.


O homenageado


José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, é uma das figuras mais populares da história do Brasil: nome de ruas e escolas em muitas cidades brasileiras, inclusive Manaus, ele foi um diplomata, geógrafo e historiador, membro da Academia Brasileira de Letras.

Destacou-se na história do país como o responsável pela consolidação das fronteiras brasileiras.


O aborto entre os filósofos e os doutores da igreja




João Bosco Botelho

Os poderes laicos, em diferentes instâncias, ao longo de quatro mil anos, têm adotado diversas atitudes frente ao aborto como método anticoncepcional.  Por outro lado, tanto nos livros sagrados das culturas politeístas, do primeiro milênio a.C., quanto no Antigo Testamento não parece que a interrupção intencional da gravidez, salvo pelo risco de morte materna, causasse tanta repulsa.
O AT e o Novo Testamento, mesmo contendo referências específicas sobre a organização familiar, não citam uma só vez de modo explícito qualquer tipo de condenação ao aborto como método anticoncepcional. É como se o fato, que incontestavelmente deveria ocorrer, não tivesse qualquer importância. A Bíblia não condena nem aprova a interrupção da gravidez por meio do aborto provocado.
É difícil aceitar que a ausência de citação no AT seria porque as sociedades judias não conheciam essa forma de método anticoncepcional. É mencionada a pena do agressor de mulher grávida, se a brutalidade resultasse em aborto. Contudo, o castigo tem sentido indenizatório.
O 2º Livro de Samuel descreve o drama do rei Davi após engravidar a mulher do general Urias. A gravidez próxima de ser descoberta pelo povo, que acreditava o rei acima do pecado, o aborto não fora aventado. Como opção, o rei conquistador determinou a morte do militar, na frente de combate, para que fosse possível casarem-se sem macular as leis judaicas.
        A mais antiga e clara referência cristã antiabortiva está no Didaqué, manual ético‑moral, escrito nos anos 100: "Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida".
      O filósofo cristão Tertuliano (190‑197) também adotou a posição antiabortiva absoluta: "É homicídio antecipar ou impedir alguém de nascer. Pouco importa que se arranque a alma já nascida ou que se faça desaparecer aquela que está ainda por nascer. É já um homem aquele que virá".
     São Jerônimo (331‑420), um dos quatro Doutores da Igreja, na correspondência à Algásia, argumentou se antepondo à restrição absoluta de Tertuliano: "Os sêmens se formam gradualmente no útero e não se pode falar de homicídio antes que os elementos esparsos recebam a sua aparência e seus membros". Contudo, em outra carta, o monge de Belém considerou as mulheres que escondiam a infidelidade conjugal com o aborto como culpadas de triplo crime: adultério, suicídio, assassinato dos filhos. Nesse caso, parece que a restrição ao aborto como método anticoncepcional estaria ligada à crítica à infidelidade.