Amigos do Fingidor

terça-feira, 25 de novembro de 2014

domingo, 23 de novembro de 2014

sábado, 22 de novembro de 2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Dabacuri – urbana 3/3



Zemaria Pinto

relógios na mente –
o executivo passeia
sua pressa infinita

riscos incertos –
voando em torno da lâmpada
insetos noturnos

festa de luzes
na praia da Ponta Negra
– lua de verão


lendo à luz de velas,
dou a mão a Zaratustra
– senda luminosa

Construções da ética pré-social



João Bosco Botelho

O fato de que na atualidade ainda não existem mecanismos na engenharia genética capazes de identificar os genes e as respectivas proteínas que ativam as MGSs não invalida a construção teórica da existência da ética pré-social.

É difícil atribuir a milenar busca da virtude somente às relações sociais!

Em incontáveis ações humanas pessoais ou coletivas, nos grupos sociais das muitas etnias, nos quatro cantos do planeta, existem fortes indicativos de que esse encanto coletivo pela virtude, ético-moral voltado ao bem comum, ligando práticas de cura e anseios de justiça, seja motivado por impulsos que transcendem o exclusivamente social.

Sob essa perspectiva, os significantes da ética ligada à moral, oriundos da escrita grega, com o “e” longo, o eta, ou com o “e” curto, o épsilon, reproduzem importantes e indispensáveis mecanismos sócio-genéticos da sobrevivência da espécie humana, materializados nos códigos de ética de muitas atividades, nas quais as éticas da Medicina e do Direito são duas entre outras construções, ao longo da ontogenia, que valorizaram o bem, o bom, o certo, como antagonistas do mau, do ruim, do errado.

Ainda em torno da associação entre o ético-moral gerando o bem, o bom, o certo, antepondo-se ao vicio ligado ao mal, ao mau, ao pior, é interessante assinalar um ensaio teórico para apreender a ética médica integrada à virtude. Na tese de doutorado, defendida em Paris, em 1955, intitulada “A ética médica”, o professor Derrien firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do paciente, isto é, aos bons resultados das práticas médicas.   
 
No entendimento desse conceituado professor, é possível entender a virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, ligada ao “bem”, ao “bom”, no qual o médico controla a dor e adia os limites da vida, sempre festejado pelo doente. Dessa forma, seria inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provocar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos bons resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na historicidade e na maior parte das atuais abordagens teóricas referenciais.

Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado atando a ética médica à boa prática, entendida pelo senso comum como aquela que oferecia bons resultados às demandas da clientela por meio de ações que deveriam, obrigatoriamente, trazer melhorias à vida pessoal e coletiva.

A historicidade dos códigos das éticas das práticas de curas se construiu entendendo os respectivos curadores como especialistas sociais que devem saber controlar a dor e aumentar os limites da vida.  

Historicamente, é possível distinguir três vertentes das práticas de curas:

– Medicina-divina: fortificada nos templos dedicados às muitas divindades, cujos agentes, sacerdotes e sacerdotisas, reconhecidos como intermediários das deusas e deuses curadores, oferecem curas mágicas, sob a vontade das divindades.

– Medicina-empírica: com forte partilha com as ideias e crenças religiosas, os agentes que compreendem parteiras, erveiros, encantadores e benzedores, homens e mulheres sem escolaridade, exercem as práticas fora dos templos. Até hoje, em muitas linguagens-culturas, são respeitados e festejados.


 – Medicina-oficial: muitíssimo mais recente em relações às anteriores, oferece curas por meio de processos de aprendizados amparados pelos poderes dominantes. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Sábado na Academia: a poesia no Clube da Madrugada





Celebrando os 60 anos do Clube da Madrugada, o escritor Zemaria Pinto e o compositor Mauri Mrq se uniram para criar o CD-livro Lira da Madrugada, que deveria ser lançado na Academia Amazonense de Letras na manhã do próximo dia 22 de novembro. Infelizmente, entretanto, a obra, confeccionada em São Paulo, não ficará pronta a tempo. Mas esse contratempo não modificará a programação do Sábado na Academia, dentro da série 60 anos do Clube da Madrugada.

Fundado nas primeiras horas do dia 22 de novembro de 1954, o Clube da Madrugada estabeleceu-se, com o passar do tempo, como o mais importante movimento artístico do Amazonas. Num momento de estagnação econômica, jovens intelectuais, com interesses os mais diversos, resolveram chacoalhar o marasmo, questionando não apenas a literatura, encastelada na sisuda Academia Amazonense de Letras, mas também as artes plásticas, a filosofia, a economia e a sociologia – de onde se depreende a abrangência dos interesses, convergindo para um movimento político.

Foi, entretanto, na literatura e nas artes plásticas que o Clube da Madrugada deixou as marcas mais profundas – existe, nesses segmentos criativos, um antes e um depois do Clube da Madrugada.

O trabalho de Zemaria Pinto e Mari Mrq foca especialmente “A poesia no Clube da Madrugada” e a apresentação deste sábado será uma aula-show, nos moldes do saudoso Ariano Suassuna: Zemaria Pinto comentará os poemas dos madrugadenses musicados por Mauri Mrq, que mostrará o seu trabalho usando a consagrada estrutura bossanovista: “um banquinho, um violão”. A dupla contará ainda com a presença da poeta Astrid Cabral, que dará um testemunho da sua vivência no Clube da Madrugada.

Projeto: Sábado na Academia
Série: 60 anos do Clube da Madrugada
Quando: 22.11, sábado, às 10h
Participantes: escritores Zemaria Pinto e Astrid Cabral e compositor Mauri Mrq

Endereço: sede da Academia Amazonense de Letras – Casa de Adriano Jorge, Rua Ramos Ferreira, 1009 – Centro

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Lábios que beijei 34


Zemaria Pinto

Ana


Minhas veleidades literárias nunca produziram mais que meia dúzia de sonetos, um deles dedicado a Ana, esposa do gerente do banco onde eu trabalhava e era o responsável pelas operações internacionais, que só existiam na fantasia de um organograma elaborado no Rio de Janeiro. Mas eu frequentava as mesmas rodas, os mesmos bares que os jovens poetas da cidade, todos regulando mais ou menos a minha idade: Jorge, um turco inquieto; Neto, romântico até no falar; Antísthenes, sempre apressado, elétrico; Luiz, um aristocrata arredio; Carlos, histriônico, sempre aprontando – todos eles tocados pela centelha do gênio poético, além de uns tantos que a memória tratou de esquecer junto à má poesia que perpetravam. Ana era uma deusa grega – de mármore: não sorria nunca e tinha os olhos opacos. Parecia estar sempre insatisfeita – saudades da capital federal, de onde fora arrancada para viver em um aglomerado urbano no meio da selva amazônica. O soneto funcionou: pela primeira vez a vi esboçar um leve sorriso, que logo se esvaneceu por trás do nariz empinado e do olhar perdido, longe. Publicado em um jornal local, edição de domingo, dedicado a A, o meu soneto foi o sucesso do dia, valendo-me de Ana um novo meio-sorriso, num encontro casual, na hora do almoço, além de elogios e tapinhas nas costas dos amigos poetas, com exceção do rabugento Luiz, que apenas murmurou algo incompreensível. Disseram que eu tinha futuro e me convidaram para fazer parte de um grupo que eles declarariam fundado, com pompa e circunstância, naquela mesma noite, na praça da Polícia. Foi um fim de semana atípico: o gerente viajara às pressas para resolver uma pendência em Belém e me deixara em seu lugar, para qualquer eventualidade. À noite, já me arrumava para encontrar os amigos, quando recebi um bilhete, assinado apenas A. Vivi naquela noite a mais bela noite que um mortal pode viver ao lado de uma deusa. E vi o seu sorriso escancarado, a gargalhada solta – e o brilho de seus olhos negros faiscando à meia luz do clandestino quarto. Lá fora, chovia uma chuva enjoadinha. Um vespertino do dia seguinte noticiou com riqueza de detalhes que ao amanhecer daquele dia 22 de novembro, plena segunda-feira, fora fundado o Clube da Madrugada. Mas o meu nome não estava lá...

domingo, 16 de novembro de 2014

sábado, 15 de novembro de 2014

Fantasy Art - Galeria


The bird seller.
Tony Kew.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Dabacuri – urbana 2/3



Zemaria Pinto
Dia do Trabalho –
a cabeleireira sorri
da fila de espera

restaurante lotado,
garçons em ziguezague
– Dia do Trabalho

almoço findo,
trabalhadores descansam
à sombra da mangueira

Manoel de Barros (19/12/1916 – 13/11/2014)


Manoel de Barros, por Baptistão.



O poema é antes de tudo um inutensílio.


(Manoel de Barros, Arranjos para assobio, 1982)

UEA e UFAM debatem 60 anos do Clube da Madrugada




A UEA (cartaz acima) e a UFAM estarão promovendo na próxima semana debates sobre os 60 anos do Clube da Madrugada, o que a Academia Amazonense de Letras vem fazendo desde o dia 01/11, aos sábados. Clique aqui para saber sobre o Sábado na Academia.

Mais informações nos sites das instituições e redes sociais.

Historicidade da ética como herança genética



João Bosco Botelho
          
É razoável pensar a Medicina e o Direito como partes da organização social da ontogenia, voltados à valorização da vida em torno da ética e da moral, estruturando os bons resultados: os agentes da Medicina controlando a dor e empurrando os limites da vida e os operadores do Direto construindo mecanismos nas linguagens para impor a legalidade, a licitude.  

Nessa longa construção, é importante relembrar que o alfabeto grego possui duas letras “e”, a longa = eta e a curta = épsilon. Dessa forma, êthos com eta significa: característica, modo habitual de se comportar; éthos com épsilon, corriqueiro, costume, usual. O processo histórico linguístico impôs semelhança etimológica entre os dois termos: ambos estão vinculados à virtude. Talvez também por essa razão, no cotidiano, a ética oriunda da tradição grega tem caminhado ao lado da moral.

A etimologia da palavra “moral” parece ser de origem latina: “mores” significa “costume”, mas não qualquer costume, mas o estritamente aderido à virtude. Assim, Kant caracterizou a ação moral, em caráter universal, plena de virtude e realizada, exclusivamente, por dever legalista, em respeito às leis.

Em muitas circunstâncias, essa característica universal da ação moral, citada por Kant, isto é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, independente do processo fiscalizador, ultrapassa as relações sociais em si mesmas.

Não é impertinência pensar que esse desejo humano, a partir de passado impossível de precisar, de concretizar a ética, valorizar a virtude, como antagonismo ao vicio, à desordem, seja processo sócio-genético gerado ao longo da ontogenia, ligado à sobrevivência desde os ancestrais mais distantes, já que não seria possível manter a vida coletiva sem regras e mecanismos para cumpri-las.

Incontáveis culturas, nos quatro cantos do mundo, pelo menos desde os primeiros registros de natureza religiosa e laica, continuam lutando para instrumentalizar as regras valorizando a ética junto à moral, atadas como características insubstituíveis e universais da condição humana, como genialmente Kant descreveu.

Dessa forma, é possível articular um processo teórico entendendo esse conjunto como pré-social, isto é, inserido na herança genética, ao longo da ontogenia, resultando na existência de memórias-sócio-genéticas (MSGs) ligadas à valorização do bem, da virtude, moral e ética como instrumentos para adequar a sobrevivência coletiva e superar a desordem, o mal, imoral, que dissolvem sem reconstruir. Simultaneamente, essas MSGs também interfeririam na manifestação pessoal e coletiva do desprezo ao vício que corrompe e compromete a sobrevivência pessoal e coletiva.

Esse conjunto organizador social presente nas MSGs da espécie humana, vinculado à sobrevivência, ajustado ao ético-moral, amparando a vida pessoal e coletiva, claramente desprezando o vício (aqui compreendido como oposição ao ético-moral, à virtude), está em curso, amparando a sobrevivência, por meio da Medicina e do Direito.


Nesse momento, cabe a pergunta: porque esse mecanismo genético de busca da ética, da virtude ainda não conseguiu controlar a agressividade da espécie Homo sapiens sapiens: capaz de matar e trucidar pessoas inocentes; crenças religiosas que geram ódios e matanças? Se comparado ao passado distante, é possível argumentar que o processo genético de mudança está em curso. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Escrever é fácil


Pablo Neruda (1904-1973), por J. Bosco.








Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.


(Pablo Neruda)

domingo, 9 de novembro de 2014

Manaus, amor e memória CLXXXV


Bonde na ponte de ferro da Cachoeirinha.
ou
Ponte de ferro da Cachoeirinha com bonde.

sábado, 8 de novembro de 2014

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dabacuri – urbana 1/3



Zemaria Pinto

flores refletidas
no azulejo do pátio
– quadro de Monet

da alta estante
a corujinha de gesso
observa os homens

caixinha de jóias –
o moleque, no sinal,
vendendo morangos

Sábado na Academia: a ficção no Clube da Madrugada



Ecologia e poder: da foice e do martelo ao arco‑íris



João Bosco Botelho

           Durante muito tempo, no Ocidente, o mito foi equivocadamente compreendido como conjunto das linguagens oral e escrita repro­duzindo a fábula. Ao contrário, em outras sociedades, compreendido como retrato de estória verdadeira, plena de significado religioso e simbólico, relacionada às proteções pessoal e coletiva em torno das divindades e da posse do território.
           As teorizações de Xenofaneso (570‑528 a.C.), da escola eleata, precursor do pensamento em conceitos, investiu contra as representações míticas de Homero e Hesíodo, contribuindo para sedimentar a grande rachadura entre o mito e o logos.
           As construções dos saberes, no Ocidente, nos séculos seguintes, influen­ciadas pela forte herança cultural grega, adotaram o logos como o oposto ao mito. O mito significando a antítese da realidade.
           A atual tendência é a admissão acadêmica de não existir diferença preten­dida entre logos e mito. As duas construções estariam interligadas e dependentes como estados alternados da mesma realidade.
           É reconhecido por alguns historiadores que Karl Marx, em certas ocasiões, utili­zou um dos grandes mitos da escatologia do mundo asiático‑mediterrâneo – o papel do justo sacrificado – entendido pelos marxistas na figura do proletariado, para justificar a mudança ontológica do mundo. Parece existir correlação entre os mitos em torno da posse da terra e a função soteriológica do proletaria­do, proposta por Marx e Engels. De certo modo incorporou parte da ideologia messiânica judaico‑cristã, simulando a luta do bem – o comunismo – atacando impiedosamente para desapa­recer o mal – o capitalismo – da Terra.
           Os diálogos entre os teóricos marxistas, na época da Tercei­ra Internacional, e os filósofos historicistas, evidenciaram o quanto pesou na disputa para tornar exclusivo, na práxis, a objetividade do social pelos primeiros e a subjetivi­dade, na produção das ideias pelos segundos.
           Nos últimos vinte anos, as sociedades estão tendo a rara oportunidade de presenciar outro movi­mento da coesão social: o mal, antes simbolizado pelo comunismo, foi dicotomizado: o lado maléfico – a droga – e o benéfico – o verde.
           É fantástico como os ideólogos do capitalismo não só conse­guiram desmontar o rigor da abordagem política do marxismo, como também deram aos desiludidos marxistas uma opção para continuar falando. Não é demais valorizar Paulo (1Cor 11, 19): "É preciso que haja até mesmo cisões entre vós, a fim de que se tornem manifestos entre vós aqueles que são comprovados.”
           Durante pouco mais de cinco anos, para difundir a nova ideia pela grande mídia arti­culada, facilitando a assimilação do inevitável: a dissolução da URSS. A primeira meta das notícias que dominaram a mídia estava assentada na desmoralização do comunista‑inimigo, acentuando as contradições internas e externas insustentáveis.

           A entrevista do diretor do FBI, durante a passagem por São Paulo, em 1991, foi muito interessante. De acordo com o policial, os comunistas deixaram de ser preocupação do governo americano do norte. A prioridade atual é o combate às drogas. O rápido e, até certo ponto, previsível, desastre social do desmonte da ordem comunista, impôs à ideologia dominante vencedo­ra, o capitalismo transnacional, a necessidade de apressar o movi­mento mítico de coesão social em outra vertente: a droga substitui os comunistas e o arco-íris da vida garantida pelo capitalismo deve preservar o verde das florestas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Não considero mais a felicidade inatingível


Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado.


      (Jorge Luis Borges (1899-1986), aos 71 anos, em Ensaio autobiográfico)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Lábios que beijei 33


Zemaria Pinto

Marcela


Fosse eu um personagem machadiano, diria que Marcela me amou por seis meses e alguns milhões de cruzeiros. Não é apenas uma coincidência de nomes, é uma maldição. Cento e oitenta e oito dias foi o tempo da ventura. O montante é uma abstração monetária: o bastante para instalar apartamento confortável, com tudo do melhor disponível à época. Marcela fazia de mim seu sultão, ela meu harém. Aos 19 anos, Marcela era múltipla e absolutamente talentosa em tudo o que fazia, especialmente em se tratando de sexo. Aliás, tiremos o especialmente, que aqui fica sem função. Resumindo Marcela: com ela eu fiz tudo o que imaginei fazer com uma mulher – e mais alguma coisa que só ela poderia imaginar. Um final de tarde, chegando sem avisar ao apartamento, nos altos de um velho sobrado do centro histórico, vi de longe uma figura conhecida indo na mesma direção que eu. Estanquei o passo. Vi que ele entrou onde eu temia que entrasse. Não podia ter dúvidas. Sentei-me idiotamente no meio-fio, com a esperança de que a visita fosse rápida e houvesse uma desculpa razoável depois. Perdi a noção do tempo. Em meu estômago, a sensação de um soco atingindo fígado e baço, se é que tal golpe é possível. No dia seguinte ela me procurou. Sem dizer uma palavra, devolvi-lhe o soco: olho esquerdo roxo, nariz sangrando, escândalo, denúncia, depoimento, abafa. Paguei mais dois meses de aluguel e risquei Marcela do livro-caixa da minha vida. Contudo, ainda hoje, cinquenta e tantos anos passados, desperto em meio à madrugada escutando sua gargalhada sarcástica. Maldita!

domingo, 2 de novembro de 2014

sábado, 1 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Meio ambiente e linguagem



Zemaria Pinto

Começo fazendo uma crítica ao título do evento: Workshop ecológico. A utilização de palavras alienígenas é inevitável na formação de qualquer idioma, em qualquer tempo. Elas geralmente são adotadas quando não há uma palavra correspondente. A língua portuguesa é cheia de palavras “importadas”, cuja origem nem nos lembramos mais, a não ser quando compulsamos os manuais especializados. Mas não essa “workshop”, substituindo a belaoficina”, que, aliás, é uma palavra pura, castiça, vinda diretamente do latim. E que qualquer criança sabe o que significa. 
Como a literatura pode contribuir, de forma densa e profunda, na formação de uma consciência ecológica? A linguagem, acho que foi Heidegger quem disse, é a casa do Ser. Todo ser, ou coisa, existe de fato se nomeado. Dar nomes, essa função primordial, é uma função da linguagem. Isso está em todas as literaturas primitivas. Dar nomes é um atributo divino, por isso, a linguagem é a morada do Ser, da vida.
A poesia, por outro lado, é a primeira manifestação artística da linguagem. É o momento em que os nomes extrapolam o dicionário e funcionam de forma conotativa, isto é, passam a representar o que não são, tomam vida nova, se expandem, se multiplicam em significados. Ensinar poesia a crianças é ensiná-las a amar a linguagem, a casa da vida.
O haicai é um tipo de poema desenvolvido no Japão, desde o século XII, mas que encontrou verdadeiro reconhecimento literário no século XVII, quando viveu o maior de todos os haijins, Matsuo Bashô. Compõe-se de três versos e, à parte a técnica, dedica-se à observação da natureza. Ensinar haicais a crianças e adolescentes (sem excluir os adultos, é claro) pode ser uma forma de fazê-los vivenciar a consciência ecológica, na observação da natureza e no amadurecimento deles mesmos enquanto seres humanos.
O haicai não tem nada a ver com seitas, religiões, ou sistemas de pensamento. O haicai não é zen, não é budista, mas é, com certeza, uma forma de ver o mundo e de se posicionar nele. A sua técnica, muito simples, ensina-nos, também, a organizar nossa linguagem. O haicai trabalha com o transitório, com o sensorial, é observação transformada em poesia.
São três versos espreitando a natureza, sem interferir nela. Os mestres do haicai ortodoxo dividem-no por kigos, que são as estações do ano, e, dentro destas, classificam-no por Tempo, Fenômenos Atmosféricos, Geografia, Fauna, Flora e Datas Festivas ou Vivenciais. Você pode, então, me perguntar: onde está o homem, senhor poeta, defensor da humana ecologia? O homem? Está colhendo, está plantando. Ou está fazendo poesia. Porque, ao contrário do que falsamente se propala, o haicai não é alienado. Mas também não se presta a filosofices. É a forma ideal, eu acredito, de ensinar poesia, e, de quebra, ecologia.


Comunicação apresentada em um “Workshop ecológico”, no CAUA, em outubro de 1977.


O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone



Políticas de saúde frente a pior das doenças: a fome



João Bosco Botelho

           Como todas as especialidades sociais, a Medicina deve ser compreendida no contexto da totalidade social do homem, evitando a restrição da ação individual imposta pela relação médico‑paciente. Essa atitude política impõe dificuldades crescentes porque alarga o espectro de representação e obriga a participação do médico, como agente oficial da medicina, nos destinos da sociedade.
           Há muito tempo existe o tácito reconhecimento de diferentes práticas médicas entre ricos e pobres. Platão (República, 406, d) observou as diferentes consultas: enquan­to o abastado dispunha de tempo e dinheiro para pagar regiamente o médico, o pobre sem temo e dinheiro, não recebia atenção semelhante.  
           A situação mudou pouco na atualidade. As análises das com­plicações ocorridas nos serviços de emergência mostram que certas pessoas recebem tratamento diferenciado. Na hora de decidir, o médico acaba levando em consideração outros fatores além dos supostamente técnicos. Mesmo nos ambulatórios, onde habitualmente não existe risco de vida, quando o paciente se mostra mais esclarecido o profissional de saúde presta mais atenção no curso da consulta.  
           Apesar de essas situações serem conhecidas, não existe no momento qualquer perspectiva para modificá‑las, especialmente nos países onde predomina a fome quantitativa ou quantitativa na maior parcela da população.
           É certo que a crueldade da fome alcança a maior parte do planeta. Embora a produção de alimentos tenha aumentado considera­velmente nos últimos trinta anos, cerca de 2 bilhões de pessoas, no mundo, estão diariamente privadas do alimento mínimo para viver com menos doença. Como as crianças não comem o mínimo necessário, o sofrimento da fome se arrasta durante os primeiros anos de vida, gerando a desnutrição e o conjunto de doenças incapacitantes ou que aumentam a mortalidade. Também é importante assinalar que as crianças nascidas de mães também subnutridas, jamais poderão desenvolver adequadamente as funções motoras e de aprendizado. É uma verdadeira fábrica de deficientes físicos e mentais.  
           No Brasil, o problema é de magnitude semelhante. Apesar de ostentar a sétima economia mundial, algumas parcelas da população, as mais pobres, têm a mesma expectativa de vida que os da Etiópia, Birmânia e El Salvador. É exatamente por essa razão que fica difícil falar de medi­cina no Brasil sem lembrar que, dois mil e duzentos anos depois, Platão registrou a existência de Medicinas desiguais.
           A maior parte das enfermarias dos hospitais públicos brasileiros (os quem têm maior poder aquisitivo, raramente ocupam esses leitos) está preenchida por pessoas e crianças portadoras de doenças causadas direta ou indiretamente pela subnutrição crônica.  
           Os estudantes de medicina, todos os dias, vêm os pequenos doentes que conseguem sair vivos da diarreia da ameba para retornarem, poucos meses depois, com a pneumonia fatal. É realidade absolutamente inaceitável, resultante de um processo econômico e social injusto e desumano, na medida em que marginaliza, nos limites da miséria absoluta, parte significativa da população.

           O combate à fome, evitando as doenças infecciosas responsáveis pela elevada mortalidade infantil, não passa somente pelos auxílios financeiros na forma de "bolsas", devem incluir necessariamente ao direito à educação de boa qualidade em horário integral, para ajuste da alimentação e atenção primaria à saúde. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A busca da verdade


Darcy Ribeiro, por J. Bosco.
Anísio Teixeira me ensinou a duvidar e a pensar. Ele dizia de si mesmo que não tinha compromisso com suas ideias, o que me escandalizava, tão cheio eu estava de certezas. Custei a compreender que a lealdade que devemos é à busca da verdade, sem nos apegarmos a nenhuma delas.

(Darcy Ribeiro, em Confissões)


domingo, 26 de outubro de 2014

Manaus, amor e memória CLXXXIII


Prospecto da Fortaleza do Rio Negro, que daria origem à vila de São José da Barra do Rio Negro, depois Manaus.


sábado, 25 de outubro de 2014

Fantasy Art - Galeria


Garden of Eve.
Todd F. Jerde.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ecologia humana?



Zemaria Pinto

um paradoxo comum nas discussões a respeito do equilíbrio ecológico: quando se privilegia a discussão das influências negativas sobre o meio ambiente, o Homem, motivação principal da discussão, acaba sempre relegado a segundo plano. É claro que um planeta saudável favorecerá a vida humana. A discussão que eu proponho, entretanto, caminha em outra direção que a da relação homem x natureza: é preciso discutir a relação homem x homem.
um evidente desequilíbrio no “meio ambiente pessoal” do homem moderno. Se olharmos ao nosso redor, veremos uma situação caótica no nosso dia-a-dia, decorrente da deficiência no atendimento às nossas necessidades mais elementares: saúde, educação, justiça, água, energia elétrica... E o que falar do caos no trânsito? E da violência gratuita, que se pratica como diversão? E da corrupção generalizada? E da absoluta falta de confiança em nossos representantes políticos, o que ameaça, mesmo, o próprio sistema político?
Você parou para contar quantas horas tem de verdadeiro lazer por dia? A competitividade exacerbada criou um mutante, o trabalhador compulsivo, chamado pelos pedantes de workaholic, que tem no trabalho seu maior divertimento. Falsa ilusão. O compulsivo administra mal sua libido: é um estressado, um infeliz, e sério candidato ao infarto.
É preciso repensar a própria trajetória humana. Os valores mais caros da humanidade parecem relegados a um plano inferior. Justiça social? Oportunidade igual para todos? A globalização da economia impõe um paradoxo terrível ao homem que a vive, na medida em que a lei mais elementar da economia pressupõe o equilíbrio entre a oferta de bens, por um lado, e a capacidade de adquirir esses bens, por outro. O avanço da tecnologia aumenta o desemprego, diminui salários e, consequentemente, desequilibra a relação econômica. Posicionarmo-nos contra a tecnologia, entretanto, seria não apenas temerário como também infantil e ridículo. A evolução da espécie tem passado obrigatoriamente pela evolução tecnológica, desde a pedra lascada.
Soluções? Talvez um caminho seja melhorar o nosso humor e, parafraseando Sartre, incutir em nossas mentes que o “ecologismo é um humanismo”. Nenhum sistema filosófico e nenhuma religião pressupõem o aniquilamento do homem, mas é a isso que assistimos diariamente: o homem é uma espécie em extinção. A consciência ecológica deve passar obrigatoriamente pela discussão da desumanização do homem. E não adianta argumentar que vivemos uma fase de transição: o homem e as relações humanas estão em permanente mutação, de forma irreversível. Temos que aprender a conviver com o acelerado avanço tecnológico, na medida em que este facilita nossas vidas e aumenta nosso conforto, melhorando nossa qualidade de vida, mas temos que nos insurgir com veemência contra o caos – o caos urbano, o caos do campo, o caos que não nos dá nenhuma garantia de que amanhã ainda estaremos vivos.

Comunicação apresentada em um “Workshop ecológico”, no CAUA, em outubro de 1977.


Medicina na mitologia grega



João Bosco Botelho

As relações entre as práticas de curas e compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. Algumas vezes, é impossível distinguir onde começa uma e termina a outra, compreendendo que a mitologia nasce das relações com o mundo da natureza empírica, mas acima do meramente empírico.
Das primitivas relações do homem com o animal, predominando o sangue como garantia da vida, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o vegetal na busca da saúde e evitando a morte.
O uso do vegetal, indispensável para a sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios sobre a origem primeira e do destino final do ser humano. Evoluíram da epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e Yebá Beló da lenda desana da criação do Sol, indígenas do grupo linguístico tucano, das margens dos rios Tiquié e Papuri, no alto rio Negro.
Os registros do século 6 a.C. descrevendo a Medicina ligada à mitologia grega são, provavelmente, o produto das complexas relações do homem que antecedeu a formação do pensamento grego. É possível estabelecer certo paralelismo entre muitos aspectos das relações médico-míticas das civilizações babilônica, egípcia e indiana com as da Grécia antiga.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros. Posteriormente, identificado como Aplous, aquele que fala verdade. Apolo purificava a alma por meio das lavagens e aspersões e o corpo, com remédios. Por essa razão, o deus que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio recebeu educação do centauro Quiron para ser médico. A escolha do centauro foi feita porque dominava os saberes da música, magia, adivinhação, astronomia e Medicina. Além dessas habilidades, Quiron possuía incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
Para os gregos daquela época, Asclépio divinizou a Medicina. Celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro, data em que até hoje se comemora o dia do médico no Ocidente. Asclépio conquistou uma fama inimaginável, tinha a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros lugares, procuravam as curas milagrosas desse deus curador. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Com esse imenso poder, ressuscitou alguns mortos. Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, ordenou a morte de Asclépio com os raios das Ciclopes.
A genealogia mítica de Asclépio identifica duas filhas, Hígia e Panaceia; a primeira, celebrada como deusa da saúde perfeita; a segunda, curadora por meio das plantas medicinais. Além delas, dois filhos, Machaon e Podalírio, descritos por Homero como médicos guerreiros, com destaque na guerra de Tróia.

Nos muitos registros de agradecimentos dos doentes para Asclépio, as esculturas produzidas, entre os séculos 6 e 2 a.C., contém a serpente enrolada no bastão. Seja qual tenha sido a razão que levou o homem, no passado, a estabelecer elos entre a serpente e a Medicina, está relacionada às imagens metafóricas da luta pela sobrevivência, entre as quais a mitologia é parte sustentadora.