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| An audience of one. Tony Kew. |
quarta-feira, 7 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
Quarta Literária: obras que mudaram o Amazonas
A Quarta Literária é um encontro mensal entre escritores, professores, estudantes e leitores, em que são discutidos temas ligados à literatura, às artes e a cultura em geral, firmando-se como um espaço para geração de novos conhecimentos e diálogo intelectual. Após as discussões há sorteio de livros e é servido o Chá Poético.
Promovida há treze anos pela Livraria e Editora Valer a Quarta Literária de 2012 será especialmente dedicada aos clássicos da literatura regional com o ciclo de palestras intitulado Série Clássicos Regionais: Obras que mudaram o Amazonas. Serão dez palestras ministradas ao longo do ano sempre na primeira quarta-feira de cada mês sobre obras como A Selva, de Ferreira de Castro, Inferno Verde, de Alberto Rangel, Galvez, imperador do Acre, de Márcio Souza, Beiradão, de Álvaro Maia, entre outros. As palestras terão início às 18h30 e a entrada é franca.
Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido, mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura, bem como toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
O primeiro encontro de 2012 acontecerá no dia 07 de março, às 18h30, no Espaço Cultural da Livraria Valer (Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro), com a palestra sobre a obra Muraida, de Henrique João Wilkens, ministrada pelo professor Marcos Frederico Krüger
Sobre a obra Muraida
Muraida, poema épico que aborda a cristianização dos índios muras, de autoria de Henrique João Wilkens, militar português que serviu na Amazônia. Escrito em 1785, com o título Muhuraida, é o primeiro poema épico escrito no Amazonas. Como um bom português, Wilkens escreve o poema em oitava rima camoniana, a narrativa visa informar como ocorreu o processo de rendição, conversão e reconciliação da feroz nação Mura a João Pereira Caldas, Governador e Capitão General, que tinha sido do Pará e então nomeado para o Governo Geral das Capitanias de Mato Grosso e Cuiabá, encarregado da efetiva execução do tratado preliminar de paz e limites entre as Coroas de Portugal e Espanha; nesta ocasião, Wilkens se encontrava na Vila de Ega, no Rio Solimões.
Sobre o palestrante Marcos Frederico Krüger
Possui mestrado em Letras (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1997). Publicou, dentre outros, o livro Amazônia: mito e literatura (2003); Poesia e Poetas do Amazonas (2006); Antologia do Conto do Amazonas (2009), Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo (2010), estes três últimos em parceria com o professor Tenório Telles. Recebeu em 2006 o Prêmio da Prefeitura Municipal de Manaus (categoria ensaio de literatura) com o livro A sensibilidade dos Punhais, que estuda a presença do mar na poesia do Amazonas. Já integrou, junto com outros professores e críticos literários, o júri do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
(Release)
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segunda-feira, 5 de março de 2012
Os passarinhos e outros bichos
Os bichos fazem parte de nossas vidas. O convívio com os animais despertam, em nosso ser, sentimentos de afeto, cuidado e amizade. O escritor Tenório Telles aborda, nas crônicas que compõem seu livro esse tema – sua relação com alguns desses seres do mundo animal. Retrata-os de forma delicada e com profunda humanidade. O autor declara seu amor pelos cachorros, pelos passarinhos (encanta-se por um bem-te-vi atrevido) e até por uma formiguinha que o visita em seu trabalho. Com ilustrações de Humberto Rodrigues, Os passarinhos e outros bichos é uma obra escrita para crianças e jovens como forma de despertar em seus corações o sentimento de respeito pela bicharada. A leitura desta obra é um valioso exercício de afetividade.
A infância de Tenório foi habitada por bichos, plantas e seres imaginários. Foi na beira do rio Solimões, na casa de seu avô Francisco, que despertou para o milagre da vida, aprendeu a amar a natureza: ajudava a cuidar dos bezerros e das galinhas que ciscavam no quintal. Amava as plantas de sua avó – seus canteiros sempre viçosos... As flores coloriam de alegria seu olhar de menino. Mas o que lhe fascinava mesmo eram as histórias encantadas contadas pelos mais velhos: morria de medo do boto, da cobra-grande e do mapinguari. Quando sonhava com esses seres, suas noites eram de tormento. Essas vivências o ajudaram a ver a vida com outros olhos – com mais humanidade e respeito pelos filhos da mãe natureza.
Seu livro é fruto desse querer bem pelos animais, pelas árvores e flores e pelos viventes que habitam o mundo da imaginação. Ele é dedicado às crianças da Creche Escola Bebê Bombom, que pediram ao autor para escrever textos para “gente pequena” também.
(Release da editora)
Dicas! Dicas!
Jorge Tufic
Os fatos acontecidos até àquele momento, através de concentradas audiências com algumas personagens tontas de superstição e romantismo, se enquanto duravam lhe mantinham o sistema nervoso como um lago de peixes marulhantes, passadas carruagens e martírios, seu estado de reflexão voltara a mergulhar no vazio. Como tudo que nasce, cresce e morre. A camada gelatinosa da memória é um tecido de encantos. Portanto, caleidoscópico. À medida que se desmonta com as sutilezas da observação desinteressada nos fundamentos cromáticos, mais suas lâminas reduzem as formas do movimento visual, para que se chegue ao movimento real.
O mesmo resulta com as aparências mais simples. Mas será necessário que se parta da simplicidade que é um título como este – UMA ALMA SEM PAZ, impresso no centro de uma página em branco –, para os múltiplos do cosmo verbal metafísico que elegera seus núcleos de expressão nestas quatro unidades semânticas, sem que esta circunstância, no entanto, impusesse qualquer limite ao tempo de vigência ao objeto “sem paz”, ou, como no caso do romancista de Loudun, às 336 páginas de possessora narrativa.Os fatos que geram a linguagem podem, em contrapartida, gerar novos incidentes por meio de uma linguagem capaz de transformar novos fatos em nova linguagem. Seccionando-lhes a corrida em busca do lógico, torna-se possível desviar o Cavaleiro de Numiers de sua rota, ao servir de fantoche à especulação literária dos psicógrafos, ou desenvolver espaço no sentido de aproveitar as vítimas do arquipélago de Gulag, como elementos de guerrilha contra as ditaduras capitalistas. Não diria o mesmo das mil e uma noites nem das sábias histórias dos derviches, já que a fantasia e a procura da verdade não fazem tão mal quanto transformar a verdade em fantasia.
Traçadas estas linhas gerais, espontaneamente alguns livros desceram das estantes e pousaram no meio da escrivaninha, imitando o deslocamento de objetos por levitação indireta. Ali estavam os três marcos subjetivos que urdiram os primeiros calendários: os egípcios com o reinado de Yokmose, os gregos com as Olimpíadas e os romanos antigos com a fundação de Roma. Em seguida à queda de Roma, inicia-se a Idade Média. Não é mais a leveza de um carro de guerra dos hicsos que ilustra esse longo período de trevas. Em seu lugar é o guerreiro Carlovíngio, que assume a história. A dialética e a astronomia estavam ainda longe de um código de posturas que resguardasse a população dos surtos de epidemia. E, finalmente, a história moderna com os tempos de glória da revolução francesa. Os três quadros dominam, por instantes, a paisagem dos edifícios na moldura da tarde provinciana, quando padre Lactance grita aos ouvidos de Urbano Grandier: “Dicas! Dicas!” Aldous Haxley interfere para esclarecer ao leitor que “o encanto da história e sua lição enigmática consistem em que, de uma época a outra, nada muda, no entanto, tudo é completamente diferente.”Como tudo é diferente! – sugere Tinoco. As velhas torres esquecidas já deixaram de abrigar andorinhas. Nem por isso deixa-se de vê-las como abrigo de alguma coisa, exceto de andorinhas. As guerras continuam, salvo que a morte deixou de ser untada com as lágrimas da ausência. As praças parecem desertas, mas em algum lugar, dentro delas, há bosques e fontes onde o corpo se une ao conteúdo das águas. A escravidão foi abolida, porém as grandes indústrias mantêm-se pela força do trabalho. O balcão de Julieta ostenta luminária de butique européia e seu título é Romeo e Juliet.
Dicas, Urbano Grandier, dicas! Enquanto não há dicas, alguns escritores se pintam de Londun e clamam por uma exorcisão interessada, menos no texto do que nos lucros da venda. Texto? As letras se debulham no abatedouro da crise, como galinhas enfurecidas! O manuscrito capeado de sarnas confunde-se com a pele da noite. E o mistério dos fins retoma as algemas do espírito em sinal de que os princípios é que respondem se uma coisa deve ou não ser entendida.Com isto, adormeceu. Na certeza de que a rotina do seu dia, ligeiramente torcida pelo barlavento, em nada poderia modificar o peso dos átomos sobre a justa engrenagem dos silfos. Muito embora a dança deles seja, como realmente vinha sendo, o espetáculo dos outros.
domingo, 4 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Memorial de Aires ou o Elogio da velhice
Zemaria Pinto
Memorial de Aires, publicado em 1908, foi o último livro de Machado de Assis. Naquele mesmo ano, o mais festejado autor brasileiro viria a falecer.
Machado, que já zombara dos vivos através das memórias póstumas de Brás Cubas, parece, no Memorial de Aires, olhar o mundo com um sorriso terno, embora cético, irônico e pragmático.
O Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, viúvo, vive sozinho, mas tem uma vida social razoavelmente intensa na pequena cidade do Rio de Janeiro do final do século passado. Entrado nos sessenta anos, sua única preocupação parece ser preparar-se com serenidade para o inevitável descanso final. Aires não sofre com isso. Pelo contrário: pelas anotações de seu diário, observamos uma personagem fria, seca, que, sem ser amarga, contempla o mundo com ironia, tomando como seu lema um verso do romântico Shelley: eu não posso dar o que os homens chamam amor.
Aires só se expressa pelo intelecto, jamais pela emoção. Sua faina diária é observar, comparar e analisar, com fino humor, o pequeno universo que o cerca.
O Memorial de Aires é composto pelas anotações, ao longo de dois anos, desse cotidiano doméstico. Se fôssemos extrair-lhe um enredo, poderíamos tomar como centro não a história do Conselheiro, que nada de interessante lhe acontece, mas sim a de um casal seu amigo, Aguiar e Carmo.
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| Machado de Assis, por Baptistão. |
Sem filhos, há muito tempo pegaram para criar um recém-nascido chamado Tristão, filho de uma amiga de D. Carmo. Tristão cresce e é tomado de volta por sua mãe, que o leva a morar em Portugal, deixando de dar notícias. Anos depois, o casal de velhos afeiçoa-se de Fidélia, uma jovem viúva a quem o pai renegara por não concordar com seu casamento. Fidélia torna-se, então, a nova filha do velho casal. A situação complica-se quando Tristão volta ao Brasil para uma breve estada com os padrinhos. Como não poderia deixar de ser, apaixona-se pela bela viúva Fidélia, herdeira de grande fortuna, retornando com ela para Portugal, onde seguirá carreira política. Os velhos Aguiar e Carmo, desolados, depois de conhecerem a felicidade junto aos dois filhos postiços, abandonam-se à sua solidão.
Aires conta essa história quase romântica com tintas pálidas, notas econômicas e uma linguagem despojada de ornamentos, como se a contasse a si mesmo, conversando com o papel em branco. Daí sua simplicidade e espontaneidade.
O Conselheiro Aires já fora personagem de destaque em Esaú e Jacó, o livro anterior de Machado de Assis, o que leva muitos críticos a ver no velho Conselheiro uma projeção do escritor. E talvez seja, pela estatura intelectual refinada e pelo humor tão próximos, além de outras similitudes como a viuvez e o fato de não ter filhos. D. Carmo, entretanto, o próprio Machado de Assis confessou-o a Mário de Alencar, é a sua esposa Carolina, morta quatro anos antes. D. Carmo é forte, bondosa e compreensiva, colocando o amor ao velho companheiro acima de tudo.
Alguém pode observar que a velhice é o ponto de convergência das frustrações humanas. É uma boa frase de efeito, menos para quem, como o Conselheiro Aires, ou como o velho Machado de Assis, souber envelhecer com a consciência de que este é um estágio inevitável, e que se deve chegar até ele vivendo-o plenamente nas suas limitações.
A terceira idade é tempo de novas descobertas, de novos prazeres, de novas paixões, o que é uma maneira de prolongar a vida: afinal, a morte não gosta de gente feliz.
Publicado no Amazonas em tempo, no final do século passado...
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Zemaria Pinto
quinta-feira, 1 de março de 2012
Míssil de língua
João Sebastião
A balbúrdia estava generalizada quando ele apareceu, míope, gago e cardíaco, para emitir a sentença lapidar:
– Eles são adultos, mas se comportam como crianças em férias; são bonitos e inteligentes, mas agem como débeis mentais.
A plateia fulminada sorriu em cinza e amarelo.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Contos de Sagração: Benjamin Sanches e a experimentação estético-formal
Contos de Sagração: Benjamin Sanches e a experimentação estético-formal, de Nicia Petreceli Zucolo, surge após cinco décadas do lançamento de O outro e outros contos (1963), oferecendo a oportunidade de ter uma obra crítica que alia acuidade e detalhamento no trato do único livro da prosa de Benjamin Sanches.
O estudo que Antonio Paulo Graça escreveu como introdução à segunda edição de O outro e outros contos, em 1998, lança bases importantes para quaisquer estudos posteriores acerca dos contos de Sanches, algumas das quais Nicia Zucolo retoma e aprofunda. Destas, a mais importante, porque nela a autora rearranja o foco, talvez seja a representação da loucura. Enquanto Paulo Graça entende essa representação concentrada na imanência do texto, num campo de ação entre narrador e personagens, a autora redimensiona o problema associando àquela textualidade questões de recepção, estas de inegável importância para a compreensão de uma escrita tão provocadora como é a de Benjamin Sanches.
Inicialmente, a autora faz um apurado trabalho de mineração naquilo que podemos chamar de camadas poéticas dos contos de Sanches. Publicado em 1963, O outro e outros contos leva para a prosa os ganhos obtidos a partir do Concretismo. Nicia soube explorar muito bem esse viés da escrita do autor, pormenorizando os elementos e os processos da criação literária de Sanches. Sendo a palavra e seus arranjos a própria estampa do autor, Benjamin Sanches, por suas peculiares práticas formais e estéticas, mereceu da autora uma meticulosa análise daquilo que é mais patente, sem deixar de ser complexo – a forma, que, observada em sua complexidade, deve agora ser entendida como Poética.
Nicia Zucolo demonstra ter consciência de que se viviam novos tempos e paradigmas literários quando da publicação de O outro e outros contos. A maneira de fazer essa consciência tomar forma no interior do estudo é mais claramente perceptível na segunda metade do trabalho, quando a autora analisa com vagar seis contos do livro. Nesse passo, o texto de Nicia Zucolo, com o mais elevado apuro crítico, demonstra como, num contexto em que o experimentalismo literário começava a ser praticado das mais diversas e ocas maneiras, a prosa de Benjamin Sanches equilibra perfeitamente forma e conteúdo, a partir de algo que podemos chamar de uma personalidade literária singularíssima.
O professor e escritor Marcos Frederico Krüger, autor do livro Amazônia – mito e literatura, ao longo de sua atuação como professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Amazonas, procurou construir, através dos alunos que orientou, uma bibliografia crítica sobre a literatura produzida no Amazonas. A intenção era a de suprir a carência de estudos efetivos e profundos sobre os escritores da região, estudos que ultrapassassem as meras súmulas biobibliográficas. Fruto disto é o trabalho que Nicia Zucolo apresenta sobre o mais enigmático contista do Clube da Madrugada, Benjamin Sanches, que escreveu fazendo experiências com a arte narrativa.
A dificuldade de penetrar na ficção criada por Sanches está parcialmente sanada com esta obra de Nicia Petreceli Zucolo. Isso significa dizer que a pesquisadora realizou um excelente trabalho de exegese, que conseguiu responder a alguns dos enigmas que a esfinge Benjamin propõe aos leitores. Detendo-se sobre o estudo de seis contos do autor, ela conseguiu dar uma efetiva contribuição aos estudos literários. Agora, quem quiser falar sobre Benjamin Sanches não poderá deixar de recorrer ao texto de Contos de Sagração.
No estudo dos contos selecionados, nos quais Nicia, com grande sutileza crítica, percebeu uma unidade, observam-se, além das propostas interpretativas, os cortes verticais e profundos sobre a experimentação formal e estética, bem como as relações com o contexto da época. Seu objetivo é claro: dada a grandeza da ficção do autor que estudou, demonstrada através de incisiva argumentação, considera injusta a sua não inclusão no rol dos grandes escritores brasileiros.
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| Nicia Zucolo e sua obra. Foto de foto de Giovana Consentini. |
Sobre a autora
Nicia Petreceli Zucolo, radicada no Amazonas desde 1997, é graduada em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (1995), e mestre pelo programa Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (2005), com dissertação sobre O outro e outros contos. É professora de Literatura na UFAM. Atualmente, cursa o doutorado em Literatura Portuguesa, na Universidade de São Paulo (USP), com bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).
(Release da Editora)
Evento: lançamento do livro Contos de Sagração
Autora: Nicia Petreceli Zucolo
Editora: Valer
Páginas: 160
Valor: R$ 25,00
Data: 29 de fevereiro de 2012
Horário: 19h
Local: Altos da Livraria Valer (Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro)
Contatos: Valer: (92) 3635-1245
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
As noites e os dias
Jorge Tufic
Para quem lê contos, para quantos que ainda mantêm, à cabeceira, os livros fundamentais desse gênero da literatura, o que pode representar “Os Dias e as Noites”, do médico e ficcionista Ronaldo Correia de Brito? Pois logo vos digo que o livro deste autor representa o que de melhor já foi escrito, até hoje, pelos mais consagrados escritores brasileiros, quer hajam estes inovado a técnica do conto, quer tenham ficado na linha tradicional da narrativa curta, por absoluta necessidade de enfatizar os temas de uma região tão forte como o Nordeste, ou tão desconhecida como a nossa Amazônia.
Não é fácil, portanto, explorar o regional, o poder da imagem, sem cair nas armadilhas do terrorismo psicológico, nas malhas comuns daqueles dramas que respeitam a todos os viventes do planeta, compondo, assim, um texto ausente de Eufrásia Menezes, ali onde “os homens são o sol abrasante, vistos de dia, ocultos de noite”. Todavia, em Ronaldo Correia de Brito não há propriamente regionalismo no sentido Blaus Nunes, símbolo da oralidade, alter ego do grande Simões Lopes Neto, tampouco se confunde com a narrativa grosseira de fatos pitorescos, históricos ou sociais referentes a este ou àquele lugar, fazenda ou vilarejo. Ele vai muito além disso, através da linguagem, começando seus contos como quem retoma o fio da meada, isto é, sem começo; o que dá, ao meio, as surpresas regentes do clímax que urde as tragédias, desloca o fim para o começo ou fica para o leitor concluir pelo autor, como em certas peças de teatro, anteriores e contemporâneas do metateatro. Seu texto abriga o discurso poético isento da “transparência” assemelhada ao pingue-pongue das ruas, da fala corrente, a que se refere Assis Brasil em seu “Vocabulário Técnico de Literatura” (Edições de Ouro, 1979, pag.65). E vai mais longe: articula o diálogo das personagens sem o recurso barato da transcrição ipsis verbis, do apelo à gíria, mas dando a cada incidente o tom e a síntese medidos pela secura dos hábitos, regulados por muita ação e pouca conversa.O “mastruço”, o “gibão”, a “rapadura”, as léguas percorridas e o eterno conflito entre Deus e o Diabo, com todo um denso repertório de chaves semânticas, a par de uma sintaxe amadurecida no clima das leituras seletivas dos clássicos do romance nordestino, são estes os elementos que fazem o seu estilo pessoal, coerente e despojado, oposto ao modo dos primeiros rapsodos, sempre atento aos mínimos objetos e detalhes que se incorporam à legenda, à matéria que faz deste livro um ser vivo, como quer Mário Hélio.
Numa visão moderna, os contos de “As Noites e os Dias” remontam ao século XIX, quando predomina, no Ocidente, o chamado “conto rústico”, o qual, embora voltado para uma tendência realista, conserva ainda um forte sentimento romântico e idealização da realidade. Isto quanto às influências do progresso (entre aspas) que esmaga e tenta sobrepujar as delícias da vida campestre ou rural. Inclina-se, neste mesmo raciocínio, para o lado dos “humilhados e ofendidos”. Valoriza, portanto, o rural, no caso da Europa, as aldeias, em contraste com os danos da civilização industrial e das cidades modernas, surto que nos daria as obras pioneiras de autores americanos, franceses, russos e portugueses. Quem não se lembra das “Novelas do Minho”, de Camilo Castelo Branco, do “Tartarim de Tarascon”, de Alphonse Daudet, ou, ainda, de “A Fortuna de Roaring”, de But Harte?“As Noites e os Dias”, contudo, poetizam, nas linhas e nas entrelinhas, com a melhor técnica do “realismo mágico” (melhor porque espontâneo, nunca forçado), e o que, de resto, parece absurdo, nele deflui com a naturalidade dos sonhos. Se não, vejamos: na postura convencional, porém ambígua, é Lourenço Estevão que, “depois de vinte anos de morto, voltava para se vingar”. Numa outra dimensão, como parte de um comportamento que soma deveras com as raízes que interligam a história com a geografia, as personagens do livro aparecem imunes à surpresa e aos acontecimentos que urdem a tragédia, como se, acostumados aos rigores da sorte, já estivessem na pele daqueles que se foram. A fé, que remove montanhas, acompanha, sem hesitação, o áspero ritmo das alparcatas sobre o pedregulho dos caminhos, enquanto a face dos mártires anônimos toca as estrelas.
São doze contos, como doze são as horas do dia, como doze, também, são as horas da noite. De sua leitura, a ressonância dos fatos descritos, o látego intenso das frases saídas da terra, como a correia sai do couro: “Amarelo, tremendo de malária, uma crosta de grude no corpo que não largou nem raspada com telha velha” (“O dia em que Otacílio Mendes viu o sol”, pag.12). Em “Rabo-de-Burro”, a mulher perseguida pelo falso lobisomem “sentia seu corpo triturado pelos olhos dos homens” (pag.21). “Dolorida” é um monólogo dramático, com rasgos assim: “Agora tudo é longe. Tá escuro sem ser noite. E este morto aqui marca meu tempo. O que foi que eu deixei de ver?”(pag.30). No conto “Inácia Leandro”, tenso e absorvente até a última linha, a presença de Lourenço Estevão “com cinco balas no corpo e o seu riso de menino”, como que se repete: “Aquele desconhecido, naquela noite, tinha a face de um destino”. ”A Faca” é um achado e uma encruzilhada de sombras, em torno de um crime: “O vaqueiro guardou, até o fim da vida, o brilho nos olhos, aquele pássaro de asas prateadas escapulindo da morte”. “Eufrázia Menezes” concentra o melhor na difícil técnica do solilóquio, e tudo, neste conto, pode ser destacado como “pedra de toque”, sem muita escolha. Por exemplo: “Estamos os dois neste universo de ausências: ele dormindo e eu acordada. Atrás de nós, uma casa nos ata a este mundo. É imensa, caiada de branco, com portas e janelas ocupando o cansaço de um dia em abri-las e fechá-las. Fechada, ela lacra a alegria dos seus antigos donos, seus retratos nas paredes, celas gastas, metais azinhavrados, telhado alto que a pucumã vestiu”.E daí por diante. Ronaldo Correia de Brito sabe, como ele só, que o gesso do conto não recusa a experiência do teatro, nem as audácias inovadores da linguagem, que induzem à poesia. São estes, portanto, os valores da escrita basicamente ligados ao material da pesquisa, aos lastros da memória e ao discernimento sociológico na observação direta dos fatos com que ele esmurra a consciência de seus contemporâneos. A realidade destes contos, dosados pelo fantástico, darão às realidades a que estamos habituados qualquer coisa semelhante a um passo a mais, em direção a nós mesmos. Trata-se, sem dúvida, de um verdadeiro livro-monumento.
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domingo, 26 de fevereiro de 2012
Manaus, amor e memória XLVII
sábado, 25 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Apresentando Machado de Assis
Zemaria Pinto
Machado de Assis é, de longe, o mais popular escritor brasileiro. E é também o mais vendido. Quantidade nem sempre guarda proporção com qualidade. Mas é esse o caso de Machado de Assis, que, a par disso tudo, é o mais importante escritor brasileiro de todos os tempos.
Os seus romances estão em catálogo permanente, e seus contos, quando não encontráveis conforme as edições originais, estão dispersos em inevitáveis coletâneas estudantis. Agora mesmo, a Editora Globo coloca em milhares de bancas a obra completa do bruxo do Cosme Velho, em 32 volumes semanais.
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| Machado, por Nássara - minimalista do traço. |
De origem humilde e formação autodidata, Machado é um herói nacional, daqueles que devem ter dia comemorativo, com direito a feriado, gincana cultural, banda de música, discursos apologéticos etc. O Dia de Machado de Assis seria também o dia do orgulho nacional. Porque ninguém traduziu com tanta lucidez o comportamento do homem brasileiro. Ninguém pensou melhor o Brasil.
Ele morreu há 89 anos, mas ainda é muito jovem para que possa ser avaliado à luz da História. Sua importância para a nossa cultura daqui a 400 anos deverá ser ainda maior porque em seus livros as pequenas observações são, na verdade, apuradas reflexões sobre a humanidade.
Machado foi um minimalista, um artista do detalhe, que não produziu grandes painéis, como os românticos ou os realistas, mas pequenos e delicados afrescos das estruturas sociais e do comportamento de seu tempo, a transição da monarquia para a república.
Mas que interesse ele ainda desperta hoje? Bentinho, Rubião, Brás Cubas, Simão Bacamarte, o Conselheiro Aires são personagens que transitam entre o mítico e o histórico, inseridos na realidade de seu tempo, mas sem qualquer compromisso com ela, a não ser o de pensá-la com o sarcasmo próprio dos que fazem do riso uma arma letal. Porque o humor é o traço essencial do estilo machadiano, além dos caracteres urbanos e da linguagem autorreflexiva, que viria a ser, décadas depois de sua morte, traço fundamental do Modernismo.
Machado de Assis transitou com desenvoltura de gênio em todas as formas de expressão literária: escreveu poesia, crônica, ensaio e crítica, além de comédias para o teatro e traduções diversas. Mas ele realizou-se mesmo foi no conto e no romance. Inicialmente seduzido pelo Romantismo, Machado escapa das armadilhas do Realismo e constrói uma obra madura de classificação imprecisa, onde o fantástico e o mítico, tendo a história como pano de fundo, decompõem com precisão cirúrgica o universo pequeno-burguês do Rio de Janeiro do final do século.
O meu amigo ensaísta e romancista Antônio Paulo Graça diz que é preciso repetir o nome de Machado de Assis com o mesmo fervor com que os ingleses repetem o nome de Shakespeare: é preciso que a marca de Machado de Assis entranhe-se na memória, na pele, na alma de cada cidadão brasileiro.
Obs1: publicado no Amazonas em tempo, em algum dia de 1997.
Obs2: o meu amigo Paulo Graça já não diz mais nada, desde 08 de junho de 1998; em meio a tanta mediocridade, resta a saudade...
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Arte no Chá
| Armando de Menezes, memorialista, patrono do Chá. |
| Almir Diniz, poeta e contista, o segundo na hierarquia do Chá. |
O chá é o Chá do Armando, claro. E as caricaturas são do Miguel Angel Arce Peña, um peruano pra lá de talentoso.
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Contos de Sagração
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
O fogo que anda
Jorge Tufic
Depois das primeiras camadas removidas pelo vento, a terra admite solidez para os caminhos; as montanhas são limpas de arestas perigosas e o vale se adoça para a contemplação e o repouso.
Com estas frases, Surin, o paciente exorcista de Aldous Huxley, decidiu extraviar-se, sem que fosse percebido, de todas as penas que lhe foram infligidas no decurso de seus dias em Annecy, mais precisamente naquela passagem do livro em que ele “começava a estudar, com certa minúcia, os objetos que ali estavam, coisa que, em razão de uma extrema debilidade dos nervos, não pudera fazer por quinze anos.”
Os objetos estudados por Surin lhe atraem a descer os cinco ou seis degraus que davam para o jardim da casa, em seguida para o gramado, as margaridas de São Miguel, as cores do dia, o dourado do sol. Foi por isto que o monge, cuja santidade lhe conferia estar onde quisesse, e havendo descoberto, através da natureza livre, algo melhor do que o sadismo de seus contemporâneos, em vez de trocar de morada terrestre, trocara simplesmente de corpo físico com o primeiro indivíduo da localidade, disposto a receber as honras póstumas devidas ao santo. Logo após esse terrível encontro, ainda cambaleante pela ressaca dos intermináveis jejuns oferecidos à Virgem Maria, o novo archote embebido pelos ares da montanha caminhou em direção oposta às vilas e aos mosteiros.
Levantando os olhos fatigados para o céu da manhã completa de ruídos estranhos, já que diferentes daqueles que povoaram seus anos de látegos, preces, gemidos de dor e sussurros neuróticos de beatas arrependidas por algum mal-entendido, Surin considerou a distância entre os dogmas fechados nas brochuras góticas e o panorama vivo que se desdobrava diante de si, como um tapete de mágicas. Veio-lhe então à mente o que tinha sido. Um texto empoeirado, um palimpsesto cobrindo-se e apagando-se até que as letras pudessem também cobrir-se de sangue e as próprias artérias se convertessem na palha dos presépios. Agora, Surin podia olhar-se no verde, sentir-se na pedra molhada de chuva, lavar-se nos córregos.
Julgara, assim, que tudo aquilo era parte de sua última viagem, não exatamente a seguir do instante em que tomara o corpo do anônimo tentado pela inanição gloriosa de seu fardo humano petrificado na cela do convento, mas desde que se fora realmente, crendo que só a morte teria o poder de revelar o contrário da existência comum. Dúvidas, sempre as dúvidas! Ainda que Surin participasse de uma saúde digna de um pastor de ovelhas! Uma coisa, porém, já deixara de sentir pelos hábitos da tradição: o interesse doentio pelas ruínas das torres e castelos encontrados em seu percurso cheio de surpresas bucólicas, embora se lembrasse vagamente dos dias em que peregrinava através de suas muralhas e tantas vezes se fizera escoltar, nas eras difíceis da guerra.
As conclusões de Huxley parecem suficientemente claras para negar-se a Surin o direito de ascender a um estado de loucura semelhante ao de Jeanne dès Anges, a quem o jesuíta libertara dos terríveis demônios que infestavam Loudun, e culminaram com o espetáculo público da morte de Grandier. É qualidade inata do misticismo a conquista do objeto perseguido através das práticas que o possam igualar ao perseguidor. Plotino: para encarar o sol, o órgão da visão deverá antes habituar-se à intensidade da luz. Para a ignorância da época, Surin preparava-se com todas as minguadas energias, para alcançar a eternidade. Não imaginava ele talvez que a eternidade já tinha vindo ao seu encontro, pois, quando, na primavera de 1665, a morte o surpreendeu, não havia, como disse Jacob, nenhuma necessidade de ir para algum lugar: já estava ali.
Dedicando-se inteiramente ao trabalho das letras e das almas, Surin havia tocado a essência do divino com a lucidez parcial dos santos exorcistas; restava-lhe então seguir em busca de sua outra metade, sem a qual a função de estar é negativa de ser, e todo alcance, por mais definitivo, só coincide com a morte para aqueles que ainda estagiam no plano de simples testemunhas, não lhes cabendo, tanto quanto a ele, dar conta do fim ou do começo de cada tarefa. As labaredas são ventos azuis que expungem do lodo e restituem a vontade. Se Grandier necessitava delas no próprio corpo, Surin transformou a si próprio no difícil fogo que caminha.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Originalidade e permanência em Ernesto Nazareth
Zemaria Pinto
No princípio era o cateretê. Mas aí vieram os jesuítas, com seu insípido cantochão, abafando o som tupi. Depois vieram os negros africanos, e com eles, a raiz mais profunda da música brasileira: o lundu. O poeta barroco Gregório de Matos, no século XVII, fez os primeiros registros daquela dança no Brasil. “Batuque negro, extremamente sensual e insinuante”, o lundu foi absorvido, dois séculos mais tarde, pela aristocracia, sob a forma de lundu-canção. A libidinosa umbigada dançada nas ruas por negros, mulatos, ladinos e boçais dava lugar a uma coreografia europeia que iria desaguar na modinha, casamento entre melodias comportadas e poemas de – nem sempre – realçado valor literário, como na Espanha e no Portugal medievais...
O troco popular não tardou. Em meados do século XIX, o Rio de Janeiro recebia inúmeras companhias europeias de teatro musicado. A polca, de origem eslava, e a habanera, de raízes cubanas, tomam, então, as ruas da cidade, reinventando o lundu sob a forma de maxixe. Todo o estigma que durante séculos acompanhou o lundu volta-se agora para o maxixe, que domina as gafieiras com a força lúdica do querer popular. Saltando algumas décadas, chegamos a 1917: o primeiro samba gravado, o lendário Pelo Telefone, não passa de um maxixe. Aí veio o samba-canção, a bossa-nova... Mas essa é uma outra história.
No então pacato Rio de Janeiro de exatos 130 anos atrás, mais precisamente no humilde Morro do Nheco (hoje, Morro do Pinto), nascia Ernesto Nazareth, o “caso” mais singular da música brasileira. Filho de um funcionário público e uma pianista diletante, o pequeno Ernesto foi iniciado desde muito cedo nos segredos do teclado por sua própria mãe, que, entretanto, deixou-o órfão aos 10 anos de idade. Poderia ter sido interrompida ali a história de um dos mais brilhantes criadores de nossa música, mas o amor pelo instrumento, herdado de D. Carolina, sensibilizou o Sr. Vasco Nazareth, que colocou o menino sob os cuidados de um novo professor, Eduardo Madeira, cuja atividade principal era a de funcionário do Banco do Brasil. Esses pequenos detalhes servem para ilustrar a deficiente formação técnica de Ernesto Nazareth, ao mesmo tempo em que realçam sua extraordinária intuição. Aos 14 anos, Ernesto apresentou ao Prof. Madeira sua primeira peça: a polca-lundu Você Bem Sabe, dedicada ao pai. Entusiasmado, o mestre levou-a ao editor Arthur Napoleão, que não hesitou em publicá-la. Daí em diante, Ernesto Nazareth viveu de música e para a música, compondo, ensinando e tocando – em aniversários, batizados, lojas de música e cinemas.
Sobre o ofício de tocar piano, são necessários alguns esclarecimentos acerca da vida cotidiana do início do século XX. Os cinemas mais requintados ofereciam espetáculos musicais nas suas espaçosas salas de espera, e, pelo preço de um ingresso, poder-se-ia passar a tarde ouvindo, por exemplo, a orquestra do maestro Andreozzi, cujo destaque era um moço violoncelista chamado Heitor Villa-Lobos. Quanto às lojas de música, além de instrumentos, vendiam partituras. Numa época em que não havia ainda o rádio e os discos eram raríssimos, a única maneira de conhecer as novidades musicais era através dos pianistas que as lojas contratavam para promover “demonstrações” das partituras à venda.
Tendo vivido a plenitude do maxixe e dos chorões – conjuntos formados basicamente por flauta, violão e cavaquinho –, Ernesto Nazareth desenvolveu um gênero musical diferente de tudo o que se fazia à época: o tango. E ao piano. É no instrumento, aliás, que começam as divergências entre o caráter popular e/ou erudito da obra de Ernesto Nazareth: exímio pianista, ele transcrevia para o seu instrumento as sonoridades peculiares aos instrumentos dos chorões. Mas, ao contrário destes, não permitia que se dançasse enquanto tocava. Queria ser ouvido. Durante muito tempo falou-se que Ernesto Nazareth escondia sob o rótulo de tango simples maxixes, o que muitos compositores da época faziam para driblar o preconceito que determinava ser o maxixe música própria dos estratos sociais mais baixos. O poeta Mário de Andrade, entretanto, observa que Ernesto imprime aos seus tangos andamento menos vivo que o do maxixe, com uma sutileza chopiniana:
Si é verdade que a harmonização de Ernesto Nazareth segue o modelo geral das modulações cadenciais, esse simplismo popular é disfarçado por um cromatismo saboroso, uma pererequice melódica difícil, em que a todo momento surgem notas alteradas, chofrando na surpresa da gente com o inesperado de inhambu abrindo voo. E então com que ciência habilidosa ele equilibra as sonoridades! As harmonizações, os acordes, as oitavas, os saltos arrevezados, audaciosíssimos até, jamais não desequilibram a ambiência sonora.
Foi Brejeiro, publicado em l893, quando Ernesto contava 30 anos, a primeira obra a enquadrar-se no novo gênero, “uma adaptação nacional da habanera”, segundo palavras do próprio compositor. Aqui se faz necessário novo esclarecimento: o tango brasileiro não tem nada em comum com o homônimo argentino, além da influência da habanera. Esse traço único fica excepcionalmente marcado na audição de Plangente, que Ernesto anotou como “tango brasileiro com estilo de habanera”: um dolente bandoneon como que percorre toda a execução, lembrando a dicção característica do gênero portenho. Ary Vasconcelos, em seu excepcional “Panorama da Música Popular Brasileira na Belle Époque”, anota entre as duzentas e quinze peças deixadas pelo compositor somente um “tango argentino”: Nove de Julho, publicado em l917. O tango brasileiro desenvolvido por Ernesto Nazareth é alegre, viçoso, mordaz, envolvente. Só não é triste. Vejamos alguns títulos esclarecedores: Escorregando, Escovado, Fon-Fon, Batuque, Cutuba, Dengoso, Catapruz, Espalhafatoso, Xangô, Tudo Sobe e tantos, tantos outros. Na verdade, o tango brasileiro teve seu primeiro registro em l871, com a publicação de Olhos Matadores, a obra lançadora do gênero. Ernesto Nazareth reverencia seu criador, em l914, com o tango Mesquitinha, dedicado “à memória do grande Maestro Henrique Alves de Mesquita”.
Mas nem o grande sucesso popular, nem o reconhecimento ainda em vida da excepcional importância de sua obra, lograram dar a Ernesto Nazareth maior conforto material. Da infância no morro a uma vida cheia de atribulações – em certa época passou 8 anos sem um piano próprio –, Ernesto chegou aos 70 anos completamente surdo e vítima de grave perturbação mental. Internado pela segunda vez na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, evadiu-se no dia 1o de fevereiro de l934. Três dias depois foi encontrado na Cachoeira dos Ciganos. Sob a água, o corpo enrijecido projetava os longos braços para a frente, como a procurar um teclado invisível.
Presença obrigatória no repertório dos nossos grandes pianistas, “a verdadeira encarnação da alma musical brasileira”, como avaliava o amigo Villa-Lobos, é também presença constante no repertório dos chorões que ainda resistem por aí.
Por fim, uma deliciosa curiosidade: o tango Topázio Líquido foi editado em Manaus, em l914, por encomenda de Maximino Correa, da Cervejaria Amazonense, a Ernesto Nazareth, sendo oferecido como brinde a seus refinados clientes. XPTO.
(Escrito para um sarau realizado pela Escola de Música Ivete Ibiapina, em 1993)
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| Ernesto Nazareth, aos 70 anos. |
Que é afinal a modéstia senão a fingida humildade por meio da qual, num mundo povoado de inveja, pede-se perdão pelas excelências e méritos próprios àqueles que não os possuem?
(Schopenhauer)
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| Schopenhauer, por Morales de los Ríos. |
(Fonte: O mundo como vontade e como representação. Tradução: Jair Barboza, Editora Unesp, 2005, p. 311)
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
90 anos da Semana de Arte Moderna
Zemaria Pinto
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| Uma estudante, de Anita Malfatti, apresentado na exposição de 1917. |
A bem da verdade, tudo começou em dezembro de 1917, com a "Exposição de Arte Moderna Anita Malfatti", covardemente execrada por Monteiro Lobato, um intelectual que fez escola e influencia autores amazonenses até hoje: achava-se o dono da verdade. Aliás, esse tipo se acha a própria Verdade personificada – verdadeiros mitos vivos.
Anita estudara na Alemanha e nos Estados Unidos. Sua pintura sofreu forte influência expressionista. Mário de Andrade, que fazia uns poeminhas parnasianos à época apaixonou-se pela pintura da moça. Oswald de Andrade, que não sabia fazer muita coisa mas era um grande agitador, começou a organizar o grupo.
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| Reclame do primeiro dia da Semana. Reparem que não havia nenhum apoio oficial. Antes, o ingresso era pago. |
A Semana de Arte Moderna teve três dias:
– Dia 13 de fevereiro, uma segunda-feira, como hoje, apresentou conferências de Graça Aranha e Ronald de Carvalho, centradas no tema geral A pintura e a escultura. Villa-Lobos deu uma canja.
– Dia 15 de fevereiro, sob o tema A literatura e a poesia, palestras e recitais. A canja musical ficou por conta da pianista Guimar Novais.
– Dia 17 de fevereiro, duas conferências: A filosofia moderna no Brasil e A música de Villa-Lobos. Para encerrar, um concerto do próprio Villa.
O público participou ativamente, com vaias, assobios e pateadas – tudo de acordo com o roteiro previamente traçado pelos organizadores, que não queriam outra coisa a não ser barulho, muito barulho.
(Fonte: Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira, de Celso Pedro Luft, 3a. ed., 1987)
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| Alguns dos participantes da Semana de Arte Moderna, com Oswald de Andrade, literalmente, à frente. |
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O Retorno da Aura
Jorge Tufic
Luís Augusto Cassa pertence a uma das mais recentes gerações de poetas maranhenses. Autor de quatro livros de poesia, “A República dos Becos”, “A Paixão segundo Alcântara”, “Rosebud” e “ O Retorno da Aura”, é deste último, no entanto, que iremos nos ocupar.
Para início de conversa, não se trata, aqui, de um livro comum. Elegendo uma temática espiritualista, que passa pela mandala e joga búzios com os mestres derwiches da Idade Média, nem por isso o autor deste livro abdica de sua natural coloquialidade ou senso de humor, atributos estes que dão às suas obras aquele traço característico do que veio para ficar. Deste modo e por extensão “O Retorno da Aura” veio para ficar. Ele é parte de um todo, sendo, ao mesmo tempo, a orquestra inteira e a pausa que deixa fluir o mistério da partitura.Diria, talvez, com um certo pessimismo, que ele segue, por este exato motivo, a pouco gloriosa trajetória daqueles raros que nascem, respiram momentaneamente o oxigênio do noticiário, mas logo desaparecem das nossas livrarias. Ou seja, deixam de ser reeditados. Submetem-se, paradoxalmente, ao destino obscuro dos incontáveis milheiros de papéis impressos destinados ao paralelo da gula quantitativa, ao limbo implacável e, quando muito, ao sebo das curiosidades peripatéticas. Esse “confronto” se estabelece, frequentes vezes, ao depararmos com títulos que já fizeram nossa cabeça, mergulhados agora entre centenas daqueles outros, alguns deles considerados verdadeiros best sellers.
Quando afirmamos, entretanto, que “O Retorno da Aura” veio para ficar, não queríamos com isso e por mera comodidade repetir uma simples frase comumente utilizada nas orelhas de livros de poesia, quer pertençam estes à categoria dos singulares, quer venham unicamente com a função de impulsionar, pela quantidade, o aparecimento nunca espontâneo de obras primas realmente notáveis. Luís Augusto Cassas, antecipando-se, todavia, a uma possível arenga sobre temas polêmicos ou modos de enfrentá-los ao nível da linguagem, logo tratou de evitar que os primeiros dominassem os segundos, outorgando à Poesia, em última análise, o encargo sublime de pô-los em ordem sob o rígido esquema do mago e os recursos extremamente hábeis do poeta. Altos e baixos porventura encontrados não devem, assim, creditar-se ao fato de que a iniciação do filósofo ainda guarda uma certa distância da coloquialidade original do poeta. Essa distância é falsa ou aparente, posto que não deve ter sido fácil a recusa dos termos peculiares ao satori no entramado afetivo e essencial da metáfora, tão peculiar à natureza do poema.Quem serve a quem, afinal de contas, nesse encontro estelar da verdade com a poesia? Acreditamos, isto sim, que a verdade ou a busca da verdade é que serve à poesia, como a luz do sol, projetando-se no satélite da Terra, refina e transcende os raios luminosos através do luar. Reprisando o óbvio, a linguagem indireta refina e transcende, da mesma forma, a espessura das vestes prosaicas inerentes à lógica e ao conhecimento racional. Neste aspecto, Luis Augusto Cassas, poeta dos becos de São Luis, navega com a bússola de Deus e o signo da iluminação poética.
O que diz ele e o que dizem dele, porém, seus críticos e prefaciadores? Para Francisco José Bittencourt Araujo, “o livro de LAC é uma chispa luminosa”. J. A. Rosa afirma que LAC, “ao expandir os limites de sua visão do mundo, expandiu infinitamente as possibilidades de sua poesia”. Explica, por sua vez, Luís Augusto Cassas, que a expressão “retorno da aura” contrapõe-se à idéia formulada por Karl Marx de “perda da aura”, no século passado. “A visão de Marx se apoiava na convicção de que o capitalismo tenderia a destruir a idéia do sagrado, do numinoso em nós – “Tudo que é sagrado é profanado”. Contudo, conforme observa Marshall Berman, Marx divisaria as virtudes da perda do halo em nossas cabeças, com o despertar da igualdade espiritual em todos os homens. Todos teriam igualdade. Os humildes herdariam a terra. Mas o autor deste livro reivindica, sobretudo, o retorno da aura sem o ranço dualístico da “construção do homem econômico”, materialista por excelência por qualquer ângulo ideológico que se apresente, porquanto “dissociado da antiga herança espiritual e, portanto, desprovido de cosmovisão solar.”Estes, em suma, os princípios que alicerçam a “mensagem” do livro. Mas o que transmite, em realidade, o texto do poeta?
A obra é dividida em três partes: d’A ESTRADA DOURADA, BREVIÁRIO DO AZUL e o RETORNO DA AURA. Um extenso poema iniciático, em seis movimentos, surpreende o leitor ao sair da conexão sugerida pelo autor como um requisito de segurança a ser cumprido antes da viagem através do texto, propriamente dito. Ele diz: “meu coração (em êxtase) se enche de flores/ ao descobrir/ que a quem busco é quem me busca/ e ao som de uma floresta de flautas,/ dou-lhe as boas vindas/ dançando uma dança derwiche”. Ou: “Sou um executivo da alma:/ a pasta de couro carrega/ as 78 Lâminas do Livro de Thot/ fitas de meditação confissões de iluminados/ edições da Bíblia & Alcorão/ tratados de astrologia poemas de Rumi/ roteiro de locais energéticos/ o tapete de orações/ (por isso pendo/ para o lado). “Ou, ainda: “Converso com os demônios interiores/ até torná-los amigos/ e transmutá-los em amor”.Poemas escritos na leveza do encanto disciplinado e feliz, prendem-se eles, contudo, ao discurso teórico e devocional, cujos objetivos serão plenamente atingidos na experiência doutrinária; mas o rastreamento do poético emerge, também, vitorioso, como naquela passagem misteriosa da luta entre Jacob e o anjo, a caminho das tendas enluaradas de suas origens tribais e na decisão final de um pacto secreto com a vida. Deste modo, o poeta exclama: “A Poesia imita a Vida?/ A Vida imita a Poesia? Enquanto os castos discutem a questão/ Exercito o meu Vênus em Escorpião/ retorno à alva cama da Poesia/ e escrevo com a tinta dos desesperados/ no dorso nu de todas as palavras:/ todo dia é dia/ dia de utopia”. Mestre na condução do verso e da palavra – fatos que se constatam, frequentemente, a partir do seu livro de estréia, Luis Augusto Cassas, em o “O Retorno da Aura”, fazendo valer a eficácia do poema composto de versos irregulares, com mais diástole do que sístole, dispensa maiores tentativas de análise. Ele deve ser lido e meditado. A transparência do poeta imita o gesto ritual daqueles seus legítimos parceiros do misterium ineffabile, o merecimento da tigela. Seus Koans batem magistralmente com a assertiva de Suzuki, segundo a qual, “mais do que na filosofia o Zen, naturalmente, encontra sua maior expressão na poesia, porque esta condiz melhor com o sentimento do que com o intelecto (“Introdução ao Zen-Budismo”, C. G. Suzuki, pag.141).
Há nele, portanto, muito mais do que se pode esperar de um livro que, aparentemente, pelos símbolos, títulos e carimbos de suas chacras, se vale da poesia como instrumento de seus protestos, sátiras e afirmações. Qualquer dualidade, entretanto, já por si contrária à essência do Zen e da própria poesia, reduz-se, com a leitura do volume, à estranha sensação de que fizemos, de fato, uma bela viagem em poucos minutos. E a unidade poética absorve, totalmente, os fragmentos da explosão inicial (ou iniciática), meditada, ali, a cada passo do homem, desde o seu primeiro nascimento físico ao toque mágico do satori, a consciência cósmica (ou poética) do encontro marcado.
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Luis Augusto Cassas
domingo, 12 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Uma análise do Eu – 13/13
Zemaria Pinto
Adjetivos – Chama a atenção na poesia de Augusto dos Anjos o uso excessivo dos adjetivos. Qualquer outro autor, que não um mestre, perder-se-ia em meio a tanta adiposidade... Aqui, entretanto, temos, quase sempre, o adjetivo reforçando o significado do substantivo, que, sozinho, não teria a mesma expressão. Vejamos algumas combinações inusitadas:
(...) caos telúrico (...) cósmico segredo (Monólogo de uma sombra)
Brancas bacantes bêbadas o beijam. (idem)
(...) e a hialina lâmpada oca, (As cismas do destino)
Os sanguinolentíssimos chicotes da hemorragia; (idem)
Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo (Sonho de um monista)
Levando apenas na tumbal carcaça (Solitário)
Nas quietudes nirvânicas mais doces (Os doentes)
A ruína vegetal dos lírios secos. (idem)
Licenças poéticas – Outro recurso de que Augusto dos Anjos se vale inúmeras vezes é o deslocamento da sílaba tônica da palavra. O poeta faz isso para conseguir um efeito mais musical. Observe a seguinte estrofe, de Os doentes:
A ruína vinha horrenda e deletéria
Do subsolo infeliz, vinha de dentro
Da matéria em fusão que ainda há no centro,
Para alcançar depois a periféria!
A palavra “periféria”, você sabe, não existe; o correto é “periferia”. Mas se o autor mantivesse a palavra correta, ele teria dois problemas: 1 - perderia a rima com “deletéria”; 2 - teria um verso com onze sílabas poéticas e não com dez. O resultado final seria a perda da musicalidade do poema. A esse procedimento transgressor das normas gramaticais, que a poesia de versos livres e rimas brancas praticamente eliminou, chamamos de “licença poética”.
Eventualmente, o poeta transgride as próprias normas poéticas, buscando o efeito exato. Observe a estrofe abaixo, também transcrita de Os doentes:
Mas, para além, entre oscilantes chamas,
Acordavam os bairros da luxúria...
As prostitutas, doentes de hematúria,
Se extenuavam nas camas.
O poema é todo composto em decassílabos, mas o último verso da estrofe acima é um heptassílabo. Em vez de procurar um verso de dez sílabas que se adequasse à norma, o poeta optou pela concisão e a simplicidade das sete sílabas, sem perder a eufonia. Você pode se exercitar, leitor, descobrindo outras “liberdades”, e são muitas, de Augusto dos Anjos.
É preciso concluir
Nosso trabalho acabou se estendendo muito além das previsões iniciais. Isto se explica: a obra de Augusto dos Anjos é complexa e apaixonante. Muitos ainda se debruçarão sobre ela buscando melhor compreendê-la. Esgotá-la? Falta muito, ainda, principalmente porque boa parte da crítica literária brasileira ainda lhe torce o nariz, apesar do empenho de uns poucos abnegados em mostrar o seu verdadeiro valor.
O público de Augusto dos Anjos que, espontaneamente, fez vir à luz dezenas de edições do Eu, fazendo-o um dos poucos poetas realmente populares do Brasil, começa a ir para as universidades, e busca entender, “cientificamente”, o seu poeta. Não deixa de ser irônico que, numa época em que a poesia brasileira parece viver um impasse, uma absoluta falta de caminhos, o “marginal” Augusto dos Anjos seja dissecado em público, como um personagem de Rembrandt, para que se mostrem as vísceras da verdadeira poesia, e se pensem em novos caminhos.
Alguém já disse que a crítica brasileira não gosta do sucesso. Parece que aquilo que o público entende não precisa do trabalho esclarecedor da crítica. No caso de Augusto dos Anjos, a razão do sucesso (e do consequente desprezo da crítica), parece ser a sua incrível atualidade: 100 anos depois da publicação do Eu, percebemos que a humanidade, a despeito de todos os avanços das ciências, está apenas 100 anos mais doente. Infelizmente.
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