Amigos do Fingidor

sábado, 29 de agosto de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

exercício nº 4


Zemaria Pinto


O som do sol se pondo sobre o rio
compõe a melodia-desatino
de negros ecos, negras ressonâncias,
inventando hemoptises na calçada.

Um barco rasga lentamente a água
e uma gaivota faz evoluções
tardias. Pela beira, dois cães magros,
como dois homens, caçam nos monturos.

Aos poucos, desfaz-se a tarde submissa         
à noite, o imenso pássaro sombrio,
sobrepairando azul sobre a cidade,
o hálito morno, as garras afiadas.

Meu peito inda lateja a dor antiga,
tanto cruel quanto serena e amiga.

Evolução histórica dos códigos de ética médica



João Bosco Botelho

Na tese de doutorado defendida em Paris, em 1955, intitulada “A ética médica”, o professor Derrien firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do homem e da mulher. Assim, o entendimento do professor Derrien da virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, estaria ligada ao “bem”, ao “bom”, à praticidade, estreitando os vínculos das ações médicas, de modo geral, ao controle da dor e adiando os limites da vida. Dessa forma, é inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na maior parte das abordagens teóricas referenciais.
Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado que ligam a ética médica à boa prática, entendidas  pelo senso comum como bons resultados profissionais atadas às ações que devem, obrigatoriamente, trazem melhorias à vida pessoal e coletiva.
Parece razoável pressupor que o conhecimento historicamente acumulado, desde os primeiros registros do médico como personagem social, se ajustou na maior inclusão dos curadores (aqui compreendidos tanto os médicos, como representantes da medicina-oficial, aquela amparada pelo poder dominante, quanto os benzedores, erveiros, parteiras, sacerdotes, encantadores e muitos outros) que obtinham melhores resultados nos respectivos procedimentos de curas. Do outro lado, nos mesmos milhares de anos, os curadores que não conseguiam firmar o reconhecimento coletivo em torno da competência na solução dos problemas expostos pelos postulantes, não recebiam o reconhecimento coletivo.
Entre esses dois grupos, as organizações sociais, em diferentes instâncias, ao mesmo tempo em que reconheciam e nominavam a medicina e o médico, inclusive em algumas sociedades, também os especialistas, compondo parte do conjunto das profissões, procuraram refletir, identificar, coibir e punir a má-prática médica. De modo geral, essa má-prática está mais atada ao resultado desfavorável à saúde do doente, seja pessoal ou coletivo. Nenhum procedimento médico, no passado e no presente, tem sido aceito se provoca piora no estado de saúde do doente.
Esse conjunto normativo entre ética e moral culminou, na Grécia, com o aparecimento do conceito de deontologia (do gr. déontos, “o que é obrigatório, necessário” + logia), que evoluiu para “o estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral”.
A palavra deontologia ligada à prática médica, em torno da ética e da moral, apareceu pela primeira vez, em 1845, no Congresso Médico de Paris, no trabalho do médico M. Simon, intitulado “Deontologia médica ou dever e direitos dos médicos no estado atual da civilização”.
De modo geral, os códigos de deontologia médica comportam três fundamentos estruturantes, reafirmando o indivíduo e não o coletivo como o mais importante valor da prática médica, maior parte das vezes, distribuídos entre os artigos:
- O médico deve estar sempre a serviço do indivíduo, respeitando a vida e sua dignidade, e da saúde pública;
- O médico deve exercer a profissão com liberdade de decidir, prescrever e indicar tratamento, ao mesmo tempo em que o doente deve manter a liberdade de escolher o médico para dirigir o tratamento. Essa plena liberdade dos médicos deve estar atada ao conjunto de explicações por meio dos “termos de consentimentos livres e esclarecidos” para que o doente tenha maior conhecimento da doença e do tratamento proposto;
- O médico é responsável pelos seus atos entendidos como valores de competência amparada na ciência.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Panapaná



Pedro Lucas Lindoso

Encontrei-me com Dr. Chaguinhas no Tribunal. Comentávamos com entusiasmado sobre a Semana  Internacional de Museus, cujo dia é comemorado em 18 de maio. Disse a ele que o Dr. Adalberto Karim Antônio, juiz e articulista do Jornal do Commercio, fez excelente palestra sobre museus e sustentabilidade na sede do IGHA – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Naquela manhã, o museu do Instituto recebia um grupo grande de alunos de uma escola pública.
Chaguinhas é um apaixonado por museus. Ao ponto de passar vinte dias de férias em Paris, exclusivamente dedicados a visitação do Louvre.
Chaguinhas não se conforma com o fechamento do Museu de Ciências Naturais da Amazônia, que ficava localizado na Colônia dos Japoneses, aqui em Manaus. Conhecido como Museu do Japonês.
Por lá, havia coleções de animais empalhados e um vasto acervo em taxionomia. Parte da Botânica e da Zoologia que trata da descrição, identificação e classificação, o acervo taxionômico do museu em borboletas, insetos, aranhas e peixes raros da região era significativo e não deveria ser relegado ao abandono e fechamento definitivo.
 Um aquário enorme abrigava pirarucus e tambaquis.  Esses provavelmente já foram objeto de nutrição para humanos, mas onde estariam os insetos, os enormes besouros e as fabulosas aranhas amazônicas?
Chaguinhas já foi um exímio colecionador de borboletas e não se cansa de indagar pelo destino da coleção de borboletas do acervo do Museu de Ciências Naturais.
Perguntei a ele o que o atraia tanto nas borboletas. Chaguinhas me disse que era a metamorfose. A transformação de um ser em outro. A Mudança de forma e de estrutura que ocorre no monstro lagarta ao se transformar na bela borboleta.
– Se você souber onde se encontra aquele maravilhoso panapaná, que estava no Museu do Japonês, me avisa.
– O que é panapaná, Chaguinhas?
– Então você não sabe? É o coletivo de borboletas.


domingo, 23 de agosto de 2015

sábado, 22 de agosto de 2015

Fantasy Art - Galeria


Portrait of a Witch Azurelle.
Anne Pogoda.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

exercício nº 12


Zemaria Pinto


à fronte guarda sombras de outras eras
e um par de olhos tão tristes, que canção
alguma alcança. fixas ancas lançam
o rabo que balança ao som do vento.

a branca estrada sob o ubre úmido
é o caminho da força eclipsada
à meia-lua que se forma em aura
no cósmico avatar da terra farta.

esta a imagem da Vaca, impura e bela.
à tortura ordenada indiferente,
as asas ruflam num ruído surdo
buscando o largo campo do universo:

a Vaca precipita-se no espaço,
o olhar perdido nalgum vão do éter.

Astrid Cabral recebe homenagem no Rio de Janeiro



Historicidade da ética médica



João Bosco Botelho

O alfabeto grego possui duas letras “e” longo = eta e o “e”curto = épsilon. Dessa forma, êthos com a letra eta significa: característica, modo habitual de se comportar; éthos com a letra épsilon: corriqueiro, costume, usual. O processo histórico linguístico impôs semelhança etimológica entre os dois termos: ambos estão vinculados à virtude. Talvez também por essa razão, no cotidiano, a ética tem caminhado ao lado da moral.
A palavra “moral” é de origem latina, “mores” significa “costume”, mas não qualquer costume, e sim estritamente aderido à virtude. Assim, Kant, de modo genial, caracterizou a ação moral plena de virtude e realizada, exclusivamente, por dever legalista, em respeito às leis, em caráter universal.
Em muitas circunstâncias, essa característica universal da ação moral, citada por Kant, isso é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, independente do processo fiscalizador, ultrapassa as relações sociais em si mesmas. Não é impertinência pensar que esse desejo humano, desde um passado impossível de precisar, de valorizar a virtude, como antagonismo ao vicio, seja um processo gerado ao longo da humanização, ligado à sobrevivência do grupo humano.
Sem esforço, torna-se inevitável articular um pensamento teórico voltado à herança genética, para a existência de uma ou mais memórias-sócio-genéticas (MSGs) ligadas à valorização da virtude e o desprezo ao vício, atadas aos mecanismos institucionais para valorizar a virtude e unir os vícios. Esse conjunto organizador social presente nas MSGs, vinculado à sobrevivência – ética-moral –, presente na espécie humana, a única com neocórtex tão desenvolvido, desprezando o vício (aqui compreendido como oposição à virtude) também se manifesta socialmente por meio de outras categorias metamórficas, todas amparando a sobrevivência pessoal e coletiva: linguagem, ser-tempo (pessoas vistas e pensadas), ser-não-tempo (seres pensados impossíveis de serem vistos), relações médico-míticas (associação de deuses e deusas de muitos panteões com a saúde a doença), dor-histórica (presentes nas MSGs, ao contrário da dor pessoal, tratada pelo agente da cura, funciona alerta de um ou mais sofrimentos coletivos que impuseram mudanças socias) e a coesão social.  A ética-moral ampara e mantém as MSGs.
É claro que nos dias atuais ainda não existem mecanismos na engenharia genética capazes de identificar essas MGSs, mas esse fato não invalida essa construção teórica.
É difícil atribuir a atávica busca da virtude somente às relações sociais. Em incontáveis ações humanas, sejam pessoais ou coletivas, em grupos sociais das mais diversas etnias, nos quatro cantos do planeta, existem fortes indicativos de que esse encanto coletivo pela virtude seja motivado por impulsos que transcendem o exclusivamente social.
Desse modo, sob essa perspectiva, os significantes da ética ligada a moral, oriundos da escrita grega, com o “e” longo, o eta, ou com o “e”curto, o épsilon, reproduzem importantes e indispensáveis mecanismos sociogenéticos da sobrevivência da espécie humana, materializados nos códigos de ética de muitas atividades, nas quais a ética médica é um deles.

Ainda em torno das associações entre a ética e a moral, especificamente, na compreensão ética e moral das práticas médicas, existem algumas tentativas para conceituar a ética médica também integrando à virtude, independentes de a primeira estar pressuposta ao coletivo e a segunda, ao indivíduo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Estrogonofe, não!



Pedro Lucas Lindoso

O mês de agosto nos traz muitas saudades de meu inesquecível pai, JOSÉ LINDOSO. Não só pelo dia dos pais e pelo dia do advogado, comemorado em 11 de agosto, mas principalmente pelo dia 21, quando faria 94 anos.
JOSÉ LINDOSO, advogado e professor, foi secretário de educação, deputado federal, senador e governador do Amazonas. Todavia, o mais importante para ele foi ser marido de Amine Daou Lindoso, filho de vovó Zezé e pai de seus sete filhos. Amigo e companheiro dos filhos e idolatrado pelas filhas, surpreendia nossos professores em Brasília ao comparecer às reuniões de pais e mestres. Afinal era senador, líder do governo no Congresso, membro da mesa do Senado.
Antes de governar o Amazonas foi vice-presidente do Congresso Nacional. Mas sempre teve tempo para os filhos. Prezava sua família. Gostava de livros, de estudar, de conversar, dos amigos e principalmente do diálogo com os filhos.
Certo dia, tia Vitória, sua irmã, chegou a casa e perguntou: “Cadê o Zeca?” Achei Zeca muito chinfrim e comecei a chamá-lo de Zecão. Pegou. Até os netos o chamariam de vovô Zecão.
JOSÉ LINDOSO era um homem simples, despojado de vaidades. Gostava de política, no bom sentido. No sentido original da palavra “polis+ética” = política. Coisa rara nos dias de hoje. Em jantares entre políticos, em nossa casa, lembrava aos convivas que o cerimonial que conhecia era o do “Rio Madeira”. O protocolo era o aprendido em Manicoré.
Gostava de ir às livrarias, aos sábados pela manhã. No final da vida voltou a exercer o magistério no Departamento de Direito da UnB. Caminhava diariamente pelas arborizadas quadras de Brasília. Nunca precisou de seguranças. Como bom amazonense, apreciava nossos peixes e a culinária regional. Comia normalmente de tudo. Só não gostava de estrogonofe.

No final dos anos setenta, havia uma propaganda de creme de leite na televisão. A esposa preparava um estrogonofe com o tal creme de leite, quando o marido telefonava informando que levaria um colega para o almoço. E virava-se para o amigo e dizia: Arnaldo, vais comer um estrogonofe! Ao ver a tal propaganda, invariavelmente dizia: Coitado do Arnaldo! Vai comer estrogonofe! A saudade de meu pai é imensa. Se houver festa no céu e servirem a tal iguaria, com certeza vai dizer: “Estrogonofe, não. Obrigado”.

domingo, 16 de agosto de 2015

Manaus, amor e memória CCXXV


Mercado Adolpha Lisboa, o Mercado Grande ou Mercadão.

sábado, 15 de agosto de 2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O primeiro amor de Maranhão Sobrinho



Kissyan Castro
          
Entrar na intimidade de um artista sem divisá-la de sua própria arte é como estar às apalpadelas em intrincado labirinto, sem contar com a ajuda de um fauno. Sobretudo a intimidade de poetas da esteira de um Maranhão Sobrinho. Pois, como bem nos acautela Fernando Pessoa, esses demiurgos da lira costumam celebrar, também, as suas “dores fingidas”. No entanto, valendo-me do que a despeito disso escreveu o poeta Floriano Martins, em Escritura Conquistada, de que “os poetas estamos todos em cada um de nossos versos”, além do relato de testemunhas auriculares, apoiado por documentos oficiais, e do que se pode depreender do que nos deixou em prosa e verso o próprio Maranhão Sobrinho, arrisco-me a falar, ainda que minimamente, desta que talvez tenha sido o primeiro amor do nosso poeta maior. Refiro-me a Honorina Fernandes de Miranda.
Com o passamento do pai, o Capitão Honório Fernandes de Miranda, e vendo abalada a estrutura econômica da família, Manoel Raimundo Nonato de Miranda resolve deixar Cururupu, sua gleba natal, para vir exercer o magistério na então próspera Vila de Santa Cruz da Barra do Corda. A mãe, Dona Rita Maria da Silva Miranda, recusa-se a acompanhá-lo, mas recomenda-lhe a irmã, a pequena Honorina Fernandes de Miranda, que, mesmo tenra, manifestava disposição e vivacidade incomuns, podendo muito bem auxiliá-lo em suas atividades.
Maranhão Sobrinho fora seu mais obstinado aluno, e não escapou às suas recorrentes traquinagens, chegando a botar pimenta moída no seu “torrado”. Hábil educador, Raimundo Nonato conseguiu vislumbrar, por trás da excentricidade peráltica do pequeno Zeca, o gênio invulgar que se tornaria mais tarde. Além da instrução basilar, Maranhão Sobrinho recebeu de seu mestre admiração e sincera amizade. Quantas vezes o poeta não deve ter-lhe visitado para tirar alguma dúvida retida durante a aula formal, ou para ouvir-lhe as exóticas histórias, folhear os livros de sua biblioteca particular, ou simplesmente – e por que não? – para contemplar a jovem Honorina, por quem cedo passou a nutrir especial afeto, e cuja formosura entusiasticamente exalta num poema publicado no jornal cordino O Porvir, em 21 de fevereiro de 1897, época em que supostamente namoravam:

Vês? Teus seios gentis por entre as rendas
Da perfumosa e cândida mantilha,
Cantam baladas e soletram lendas.

Teu rosto tem a palidez de Ofélia,
O perfume das virgens de Sevilha
E a mágica expressão do de Cordélia!

O saudoso escritor Antonio de Oliveira, na separata nº 82 da Revista das Academias de Letras, de 1976, foi quem primeiro trouxe à tona o assunto, ao referir-se a uma entrevista com Olímpio Fialho, amigo de infância de Maranhão Sobrinho, o qual lhe segredou que o autor de Papéis Velhos..., aos 18 anos de idade, tivera uma namorada chamada Honorina de Miranda, a Noca, como era comumente conhecida. Moça que, a julgar pela caligrafia impecável com que assinava os documentos oficiais, possuía esmerada educação.
Eu mesmo não tinha sequer noção do quanto significou essa primeira experiência amorosa para o aedo barra-cordense, até encontrar, em O Guarany, outro antigo periódico cordino, como por acaso, um texto em prosa do poeta, uma crônica que denuncia um Maranhão Sobrinho romântico, a desaguar o coração sem o menor desvelo. Transcrevo aqui um trecho:

Há lá para as bandas da Rua Formosa[1], célebre, muito célebre no canhenho do humilde rabiscador modelo destas linhas, uma celestial senhorita que me cativou docemente o coração. É um mimo da natureza; é a verdadeira coroa da criação...

Refere-se esta “celestial senhorita” a Honorina de Miranda? Provavelmente. Tanto que mais adiante ele indaga:

Conheces a minha bela?

Maranhão Sobrinho emitiu essa crônica ao jornal enquanto passava alguns dias com parentes, provavelmente em Carolina ou Riachão, cidades onde o clã Maranhão possuía presença expressiva. E a julgar pelo temperamento irrequieto do poeta, não é de se estranhar sua tendência andarilha de viajor. No entanto, sua aventura amorosa inaugural chegou ao fim quando numa dessas viagens teve um sonho, não um sonho qualquer, fruto do enfado e ansiedades da vida, mas um sonho premonitório, cujo relato do cumprimento Maranhão Sobrinho deixa registrado em versos, na Revista Elegante, em 23 de março de 1899:

Parti... e tu ficaste! Um só momento
Não pude me esquecer de ti, amada!
Do fundo da minh’alma angustiada
Fugira todo o meu contentamento.

E andei... mas tendo em ti o pensamento,
Nunca olvidei-te. Em meio da jornada,
Sonhei qu’esta minh’alma apaixonada
Tinhas lançado em tredo esquecimento!

Voltei então... julguei achar-te a espera
Minha cantando a doce primavera
Do nosso amor, festiva, palpitante...

Cheguei, enfim... Ó dor! Ó sentimento!
Como sonhei – achei o esquecimento...
E sorrias nos braços d’outro amante!

Quem teria sido esse “outro amante” em cujos braços o poeta flagrou sua amada Honorina? Em minhas pesquisas, acabei descobrindo que se tratava de Políbio Martins Jorge, filho do capitão Caetano Martins Jorge e Ana Martins da Cunha, influente família nesta cidade. Esse pérfido ato teria deixado profundas e indeléveis marcas em sua alma de poeta.
Este assunto seria irrelevante não fossem as implicações que viriam a ter tanto na poesia de Maranhão Sobrinho, quanto, talvez, nas motivações que lhe fizeram deixar Barra do Corda. A propósito, o que teria mesmo motivado o nosso aedo a deixar sua família, amigos, seu torrão natal, para nunca mais voltar a vê-los? A versão oficial reza que Barra do Corda tornara-se pequena demais para ele, e, à maneira de Rimbaud, exaurira todas as possibilidades de aquisição do conhecimento que sua aldeia poderia oferecer. Concordo. Mas parece uma versão cômoda demais. Teria sido apenas isso? Não buscava o nosso poeta destaque, posição social? Não. Ou não teria abandonado o curso normal em São Luís só por se ter indisposto com um dos professores. Ou teria procurado amparo em outra entidade afim, o que não fez. O que o levou daqui não teria sido a ambição por “metais preciosos”? Definitivamente, não. Pois, como nos diz Antônio Lobo em Os Novos Atenienses, Maranhão Sobrinho “possuía pelas coisas materiais da vida a mais soberba das indiferenças”. Poderíamos atribuir o seu êxodo talvez a uma frustração política, por causa da prevalescência do republicanismo local? Ou mesmo por suas inclinações nomadistas, próprias do seu temperamento erradio? Vale ressaltar que O Guarany, de 26 de fevereiro de 1899, trazia estampada na primeira página a seguinte manchete: “O Fim do Mundo em 13 de Novembro deste Ano”. Teria esta charlatanesca mensagem fustigado o nosso poeta, que para não enfrentar o Juízo Final por aqui mesmo, saíra às pressas apenas três meses antes?  Seria trágico, não fosse cômico. Por fim, não poderíamos atrelar a essas hipóteses também a sua frustração amorosa?
Creio que nos esquecemos de relacionar dois detalhes importantes: a mudança de Maranhão Sobrinho para São Luís, em 15 de agosto de 1899, com o casamento de Políbio Martins Jorge e Honorina Fernandes de Miranda, ocorrido em 27 de maio de 1899. Terá sido mera coincidência o nosso aedo ter deixado Barra do Corda, definitivamente, a menos de três meses do casamento do seu primeiro e grande amor? Junte a isso a tendência escapista do poeta e já não teremos uma hipótese que se possa descartar.
Dizem os antigos que jamais nos esquecemos do primeiro encontro, do primeiro beijo, da primeira intimidade, enfim, do primeiro amor.  Verdade ou não, deixemos que o próprio Maranhão Sobrinho nos conte em versos a sua experiência, num dos primeiros poemas que publicou ao chegar em São Luís:

E tu passas mimosa,
Ó casta e meiga flor da minha aldeia!
Gravando com os pezinhos cor de rosa
Estrofes raras na suave areia...

Maranhão Sobrinho de fato não a esqueceu. Sua imagem foi sendo mistificada, e verso a verso expurgada até a sublimação arquetípica da perfeição feminina, até que enfim estivesse pronta para reencontrá-lo, não mais em carne e osso, e correr o risco de perdê-la novamente, mas no âmbito do poema, onde a aguarda em sua turris ebúrnea, “longe dos homens e das casas”, onde só há lugar para dois, onde a eternidade é descartável, e apenas “dois brancos pares de travessas asas” ruflam uníssonas na imensidão azul do Sonho.




[1] Atual Frederico Figueira.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Bioética: fiscalização da pesquisa médica



João Bosco Botelho

A bioética compõe parte importante das novas exigências do movimento social em torno das aquisições da ciência e da tecnologia, a partir da segunda metade do século 20, que introduziu no cotidiano científico as mudanças impostas pelos estudos e aplicações da genética dos seres vivos, especialmente, dos humanos. Do ponto de vista pedagógico, a bioética pode ser considerada subárea da filosofia.
As mudanças na ciência e na tecnologia com aplicação imediata dos produtos da genética em caráter pessoal, coletivo e industrial chegou simultaneamente às transformações sociopolíticas que alcançaram o indivíduo, a família e o mercado consumidor.
Parte da estrutura teórica da bioética está ligada ao livro “Bioética: uma ponte para o futuro”, do médico cancerologista Van Rensselaer Potter, de 1971. Para esse autor, o termo “bioética” por ele proposto estaria vinculado em dois alicerces: os saberes biológicos associados aos valores humanos da ética e da moral.
É possível resgatar eventos degradantes, tanto durante a II Guerra Mundial quanto nos anos 1950 e 1960, nos Estados Unidos e outros países, relacionados às pesquisas médicas causando malefícios ou morte às pessoas:
- Os horrores nos campos de concentração nazistas;
- Estudos experimentais em seres humanos, não autorizados, da transmissão e complicações da sífilis, em homens negros, após uso da penicilina;
- Abandono intencional do tratamento com penicilina em pacientes portadores de infecções para o estudo das complicações;
- Injeção de células cancerosas vivas em doentes idosos;
- Injeção do vírus da hepatite B em crianças em um hospital de Nova Iorque;
- Um comitê de ética médica, o Comitê de Seattle, como ficou conhecido, decidia quem iria para a hemodiálise, isto é, quem iria viver ou morrer, já que existiam mais doentes necessitados do que máquinas disponíveis;
- Publicação do médico anestesista Henry Beecher, relacionando pesquisas médicas envolvendo seres humanos, chamados de “segunda classe”, hospitalizados em hospitais de caridade, adultos com distúrbios mentais, crianças com graves retardos mentais, idosos e presidiários, todos sem possibilidade de assumir postura ativa de questionamento junto ao pesquisador.

Em 1974, nos Estados Unidos, a “Comissão nacional para a proteção de sujeitos humanos na pesquisa biomédica e comportamental” gerou o Relatório Belmont com o objetivo de resguardar a ética e a moral nas pesquisas envolvendo seres humanos, ancorado em três âncoras pétreas: respeito às pessoas, justiça e beneficência.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

É sempre primavera



Pedro Lucas Lindoso


Estive visitando um sítio de amigos lá pelas bandas do Tarumã. Paulinho, um garoto esperto e inteligente de 10 anos de idade, é filho do caseiro. Disse-me que estudava em escola rural e fazia o quinto ano. Pedalava sua bicicleta por quase uma hora até chegar à escolinha. A professora, dona Vanessa, ia de moto.
Paulinho me contou que estava estudando as estações do ano. Entendeu o que era inverno e verão. Mas não compreende bem o que era a tal primavera e o outono.
Disse a ele que o nosso planeta terra divide-se em zonas temperadas, equatorial e os polos. Na verdade, a primavera só é bem definida nas zonas temperadas, como no sul do Brasil. Nós moramos na Zona Equatorial.
Para nós, que vivemos na Amazônia, o importante mesmo é o regime das águas. O rio sobe de dezembro a junho e a vazante de julho até novembro. Como na vazante chove menos, aí ocorre o nosso verão. Os dias são mais quentes ainda!
 A professora disse que outono é estação das frutas e as folhas caem. Paulinho argumentou que tem fruta o ano todo. E deu exemplos:
– De janeiro a maio dá muito araçá-boi. De julho a dezembro a gente colhe açaí. De novembro até março é época de pupunha e camu-camu.
Dadas essas explicações Paulinho foi me mostrar os jardins da propriedade. As flores estão sob os cuidados da mãe dele. Paulinho e os irmãos também ajudam no cultivo. O sítio produz muitas flores que são vendidas em Manaus.
 Dona Vanessa havia ensinado que a primavera é a estação das flores.
Paulinho mostrou-me um canteiro com lindas açucenas e malvinas. Havia também antúrios, cambraias e flor de janeiro.
– Aquela é conhecida como oxum amarela, explicou-me.
Finalmente o curumim sabido me levou perto de árvores frondosas e me disse:
– Olhe só: nessas árvores tem bromélia, pingo do céu e sininho.
Aqui no sítio é sempre primavera.




segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Carta aberta ao presidente da Academia Amazonense de Letras




Manaus, 10 de agosto de 2015

Caro Armando,

Ao longo de 19 meses, trabalhamos para colocar a quase centenária AAL no centro dos debates e realizações culturais de Manaus. Os planos eram muitos, mas as limitações foram maiores. Além de lançamentos de livros e eventos do calendário ordinário, conseguimos emplacar o Sábado na Academia, com as séries sobre os Patronos (17 palestras); Augusto dos Anjos em dois tempos (2 palestras); Márcio Souza, o mostrador da derrota (4 palestras); O pensamento amazônico (3 palestras); 60 anos do Clube da madrugada (3 palestras); A Amazônia na visão dos viajantes (5 palestras); e Arte em tese (4 palestras). A partir de maio deste ano, com a doação pelas famílias Benchimol/Minev de um piano, promovemos o Sarau na Academia, que bateu recordes de público nas suas três edições, sendo que à mais recente, realizada no último 5 de agosto, compareceram mais de 140 pessoas.

Tudo isso foi feito, meu caro, sem que a Academia tivesse qualquer dispêndio. Para tal, contamos com a colaboração de acadêmicos, escritores, professores da UFAM, da UEA e da Uninorte, além de artistas ligados à música, ao canto lírico e ao teatro. Todos, profissionais da mais alta qualificação.

Por esse motivo, causou-me espanto e profunda decepção ver estampado no folder da 4ª série dos patronos as logomarcas da SEC e da ManausCult – acompanhadas da informação de que todos os eventos da Academia deverão, de ora em diante, estampar as referidas logos.

As subvenções que a AAL recebe desses órgãos destinam-se ao custeio da instituição. Associar essas subvenções a eventos onde os profissionais participam de forma voluntária é tripudiar sobre os eventos e sobre os profissionais, que, ao aceitarem nossos convites, o fazem para a Academia e não para aqueles órgãos, que promovem megaeventos, pagando muito bem por eles.

Lembro que no dia 31 de março do ano passado, organizamos, em conjunto com a ManausCult, um debate memorável intitulado 50 anos do golpe militar. Coube ao citado órgão, devidamente referenciado no folder de divulgação, organizar o coquetel.

Assim, meu caro, sem colocar em jogo nossa amizade que já se estende por mais de uma década, e pelo respeito que tenho a você, por sua trajetória de vida, sirvo-me desta para desligar-me, em caráter definitivo e irrevogável, da função de Diretor de Eventos, que exerço pela segunda vez e que muito me honra.

Desejo sucesso na continuidade dos eventos, colocando-me à disposição para colaborar no que for possível.

Renovando meus votos de consideração e apreço, sou



Zemaria Pinto


  

Maçãs podres



Inácio Oliveira


Quando meu avô estava para morrer ele desejou comer uma maçã. Era difícil encontrar maçãs na nossa cidade; meu pai percorreu todas as feiras naquele domingo sem encontrar nenhum lugar que vendesse maçãs. As maçãs levavam meses para chegar, vinham do sul em caminhões cobertos com lona, quando chegavam já estavam quase estragadas. Nunca vi meu avô comer uma maçã. Quando ele ficou doente era difícil comer qualquer coisa, tomava quase só líquidos, mas assim que soube que ia morrer pediu que meu pai lhe trouxesse uma maçã. Meu avô morreu sem realizar seu último desejo. Ele podia ter desejado comer uma banana, mas queria comer uma maçã. Agora, quando meu pai encontra maçãs na feira ele compra e traz para casa, coloca na fruteira sobre a mesa e não come nenhuma, deixa que elas apodreçam no calor da tarde. Depois de alguns dias as maçãs podres sobre a mesa me parecem uma coisa bela e comovente, um desejo não saciado. 

domingo, 9 de agosto de 2015

Manaus, amor e memória CCXXIV


Pavilhão Universal.
Ao fundo, à direita, a Matriz de Conceição.

sábado, 8 de agosto de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Será que pensar nisso resolve?



Mauri Mrq

Será que pensar nisso resolve?
Quando Hermenina partiu no motor em busca da felicidade, não imaginava tão grande sorte que teria em Manaus.
Hoje, aqui, no mercadão, o cheiro de peixe me lembra do perfume da feira de minha cidade que ficava na beira, bem na beira do rio, deslocando no ano conforme o rio subia com sua vontade. Nessa época já sentia que Hermenina não ia ficar lá, era muita afoita! Ninguém passava a perna nela, acho que herdou a destreza do avô que minha mãe fala. Cada comunidade, cidade ou vilarejo em que parava, fazia negócio ou vendendo ou comprando, vendendo e comprando pra ganhar mais adiante. Chamavam de turco e outros de judeu, mas na verdade era português bastardo que chegou a Manaus pelos favores de um aventureiro que trazia uma máquina de fazer filme, para negociar com os barões da borracha. Acabou virando ajudante de peixeiro sem dar chance de se tornar assistente de filmador, derrubando um filme no rio Negro. Levando peixe na cabeça para os bairros com um bom lucro, conseguiu o pequeno batelão para o regateio. Mas será que pensar nisso resolve?
Até hoje, aqui, minha irmã, a história do meu avô, essa vontade de voltar, a calma de lá, o tempo pra repousar, o almoço vivo ali no rio, a farinha ao vento com o talo caraquento da mandioca, o fogo no tacho e o remo a ondear a farinha, virando ovinha, que hoje pago caro pra enrolar com o peixe pro bucho. Praia, boto, pasmaceira e o cheiro de pão na madrugada exalando do forno da padaria antiga que na bicicleta trazia para o café, pra família.
Não! Tô bem. Descansando. Pensativo, eu? É, pensando na vida. Sei lá. Minha irmã que não vejo e a vontade de voltar pra Maués. Toco daqui há pouco. Na boate da Instalação. Não implica. Levo dinheiro pra patroa. Não dá! Gonorreia! É, prefiro não arriscar. É comida caseira, sem risco. Tá! Vai! Tudo bem! Até! Toco. É de criança? Não! Meu repertório é abolerado. Não!
Não assisto TV. Música da Xuxa? Não sei. É! Compra um disco, ela vai achar melhor. Tá! Tchau.
Cara chato, interrogatório!
Vou sair daqui, circulação aumenta e a paciência diminui.
Vê uma cerveja aí, não muito gelada, pra vê se bate mais rápido, que a noite hoje vai ser longa. Boleros em boleros com fumaça contemplando o ambiente. Até gosto dessa sensação. Mas o tempo, os flertes, os pedidos de música, a embromação do patrão pra pagar, o amanhecer, caminhando ao ponto onde meu motorista de linha ataca para o São Jorge. Chego em casa, patroa dormita e aproveito para me servir do seu afeto, que só as mulheres ofertam, por pena, compromisso ou satisfação para a finalização da leseira.
Oh! Comandante, como vai! Ainda passeando pelas praias do rio Negro com as meninas dando prazer aos comerciantes de Manaus, tendo o Pacu para servir? “Pacu é o apelido do imediato do comandante Araújo”. O comandante é aposentado pela Petrobras como comandante de empurrador de balsa de combustível. Hoje, freta seu batelão em passeios exóticos pelo Amazonas. Melhor que ser tocador de guitarra em puteiro do centro da cidade. Às vezes me convida para ambientar uma música no deserto sonoro de uma embarcação parada numa praia em luar no rio Negro. É divertido e calmante para os sentidos. Mas pensando bem, será que pensar nisso resolve?
Ah! Noite fresca. Também, depois de passar o dia chovendo, só pode estar úmido. O balanço da rede, o dia seguinte do hoje que já vivi. O caldo de peixe, a soneira, o fim, o começo do meio-dia num balneário, a diversão enchendo a lata e novamente o peixe, o tambaqui, a brasa, o cheiro de banho.
Uma vez um sulista, morando em Manaus, estranhava a indagação nos fins de semana, principalmente das cabocas, se ele ia pro banho. Achava estranho quererem saber de sua intimidade, levando em consideração que o sujeito era um pouco aviadado; depois ele entendeu que era ir ao Clube Balneário.
Será que pensar nisso resolve? É muito estranho fugir do que se vai ter que fazer quando não dá pra segurar a evolução da hemorroida. Me assusta ficar em flor para o médico proceder o retorno a botão depois de tantas intervenções.
Chegou o dia, vamos ver se dessa vez resolve, não aguento mais comer peixe sem pimenta murupi.




quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sábado na Academia, de volta



II Festival Alienígena de Artes



Conquistas da Advocacia



A materialidade das emoções



João Bosco Botelho
   
Os avanços da genética já identificaram muitas substâncias que atuam no controle das emoções que envolvem a dor e o prazer. A maior parte das incontáveis reações químicas específicas processadas no corpo, em cada instante, está voltada para manter o ser vivo e embotar, temporária ou perenemente, as sensações desagradáveis e perturbadoras.    
Nesse sentido, para manter a vida, parece lógico pressupor que as atitudes específicas, usadas no enfrentar da adversidade temida, minorando o sofrimento do homem e da mulher, tenham sido valorizadas e, continuamente, aperfeiçoadas pela ordem social, por trazerem resposta de bem-estar, a partir dessas reações químicas. As ações humanas entrelaçadas na ordem social, transformando a natureza para atenuar o desconforto, são imperativas. Estão ligadas direta e indiretamente aos mecanismos neuroquímicos endógenos reguláveis pelas necessidades de cada um.  
As dores, física e mental, determinadas pela ferida, na carne dilacerada no acidente traumático ou na morte da mulher amada, são sempre temidas. Esse imperativo da vida tem sido a inspiração dos poetas e a arma preferida da insanidade para aqueles que exigem o desmemoriar dos sentidos, a fim de limitar, pelo pavor, o confronto das ideias no exercício da livre consciência.  Diversas circunstâncias, do homem chorando a perda do amor ao suplício do torturado pelas ditaduras de todos os matizes, determinam o alerta dos sentidos e modificações significativas em todos os órgãos, em níveis moleculares, hoje inacessíveis.    
Uma das características mais intrigantes é como a dor altera a noção do tempo. Suportar o desconforto doloroso, por um minuto, é como estar sofrendo na imensidão do infinito. Durante a manipulação dentária, quando a pequena broca alcança o nervo sensitivo, as sensações cerebrais são indescritíveis. Ao contrário, a hora de prazer corre como um breve instante.   
Por essa razão, é impossível manter, durante muito tempo, a dor fulgurante. De pronto, todos os sentidos natos atiçam para evitá-la ou os sentidos são apagados, pela inconsciência forçada, para aliviar o desastre biológico. Qualquer pessoa ou construção ficcional capaz de interromper o sofrimento é identificada como amigo, aliado na defesa contra o perigo.         
As reações corpóreas de todos os animais precisam dessas defesas, presentes nas reações químicas regidas pelo genoma, para continuar vivendo e reproduzindo. A espécie humana elabora muitas substâncias específicas, requisitadas pelas trocas sociais e biológicas, independentes da vontade, para modular a dor. Existem moléculas especiais, acopladas às membranas celulares, no sistema nervoso central, capazes de gerar estímulo para secretar substâncias semelhantes ao ópio para conter a dor alucinante e, assim, manter a vida.
A incrível disseminação das drogas proibidas também não é um exclusivo problema social. A sedução exercida pelo consumo ilegal é diferente em cada pessoa. Está contida na individualidade material molecular e é transmitida geneticamente. Não é possível que tantas pessoas, espalhadas no mundo, algumas coagidas por métodos brutais, continuassem desafiando com acinte o controle social, mantendo o vício que coloca a vida em risco, sem coerência biológica.      
As investigações realizadas em animais de laboratório responderam favoravelmente: os animais produzem substâncias para atenuar as dores.
O elo com o complexo universo das ideias e crenças religiosas pode estar inserido no mesmo contexto: as emoções expressas na vida social terem materialidade biológica, minorando o sofrimento cotidiano. Os gritos pessoais e coletivos contra a dor e a injustiça têm encontrado, desde sempre, resposta rápida quando oferece solução imediata às angústias carreadas pelo desconforto da insegurança, notadamente, da doença e da morte. O mundo que envolve e forma a coisa sagrada, como resposta à dor, se materializa nas substâncias químicas fabricadas no sistema nervoso na eficiência simbólica dos ritos, da linguagem e da prece, unindo, em atitude mágica de credulidade, num só corpo, o pedinte e o objeto sagrado.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015