Amigos do Fingidor

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Jorge Tufic – poeta e gentleman



Pedro Lucas Lindoso


Quando os amigos se vão, levam com eles parte da gente, de nossa história de vida. Mas ficam na nossa memória afetiva os bons momentos que vivenciamos. Inesquecíveis, portanto, as lembranças dos compartilhamentos de alegrias, afetos e até mesmo tristezas.
Jorge Tufic faleceu em 14 de fevereiro. Neste ano, uma triste quarta-feira de cinzas. Dia em que europeus e americanos comemoram São Valentim. É uma data na qual se celebra a união amorosa entre casais e namorados. Também é o dia de demonstrar afeição entre amigos. E como Jorge era afetuoso com seus amigos! Um gentleman!
Há palavras de difícil tradução. Saudade é uma delas. É tão plena de significados, que só nós brasileiros sabemos o que é saudade. E estamos todos com aquela imensa saudade do Jorge Tufic. Tão grande quanto a abrangência lexical de seu significado.
 Outra difícil de traduzir é “gentleman”. Mas todo mundo sabe o que é. Os falantes do Inglês, claro, e nós também. Jorge foi um “gentleman”, na verdadeira e total acepção da palavra.
Como já disse, quando alguém se vai ficam os bons momentos. Vou relatar alguns que tive com o Jorge.
Há uns seis anos ou mais, numa memorável sexta-feira de chá do Armando, Jorge estava em Manaus e lá compareceu. A conversa era sobre o Hino do Amazonas. Nosso estado carecia de um hino e José Lindoso, quando governou o Amazonas, democraticamente, mandou fazer um concurso público para a escolha do hino. Jorge Tufic foi o vencedor. Ele me disse, sem pedir segredo, que meu pai, José Lindoso, chamou-lhe na Governadoria para uma conversa amigável.
José Lindoso deu os parabéns pelo primeiro lugar e consequente escolha da letra do hino. Disse-me Jorge que o governador, meio sem jeito, perguntou-lhe se importava-se em analisar algumas pequenas sugestões ao seu trabalho. Jorge, na sua humildade, permitiu e o hino ficou com alguns versos modificados pelo governador.
Eu disse a ele, que mesmo respeitando a memória de meu pai, já falecido na ocasião, considerei aquilo abuso de autoridade! Jorge discordou. “Ele não impôs nada”. Disse-me ele. “Apenas sugeriu e ficou bem melhor! Foram só detalhes”. Jorge era mesmo um gentleman. E humilde. Eu mesmo, no lugar dele, não permitiria que mexessem no meu trabalho. Ora, ora!
Estava em Fortaleza a passeio. Era época de carnaval. Fui visitá-lo. Jorge sempre muito afetuoso com os amigos. Deu-me livros de presentes. Levou-nos para passear de carro. Lembro-me que paramos num empório com grande sortimento de bebidas finas. “É aqui que me abasteço”, disse-me ele.  Grande chazista! Vai se encontrar com Armando de Menezes e brindar a grande amizade e companheirismo que sempre mantiveram.
Nosso último encontro foi triste. Faz menos de dois meses. Estava novamente em Fortaleza. Em férias. Fui à missa de sétimo dia de sua esposa, Isabel. Ele estava muito abatido e triste. Dei-lhe três abraços e lhe disse.
Um por mim. Outro pelo Zemaria Pinto e o terceiro pelo Almir Diniz, que mandaram que te abraçasse carinhosamente.
No nosso hino, letra de Tufic, há dois versos que considero fenomenais:
“Aos que sonham, teu canto de lenda,
Aos que lutam, mais vida e riqueza”
Jorge, vamos continuar sonhando e lutando por mais vida e riqueza. Lembranças para o Armando de Menezes. Com certeza tem chá lá no céu!



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Manaus, amor e memória CCCLVI


Cidade Flutuante, uma favela dentro d'água - cerca de 1960.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Soneto ao fingidor


Jorge Tufic


Revejo a praça, o bar, o teatro, a igreja.
A tarde deixa o dia ali na esquina.
Logo chega o Simão, e a noite ensina
que antes do papo venha uma cerveja.

Agora o bar do Armando é uma oficina.
Em cada peito um fingidor lateja...
Zemaria sussurra, alguém troveja,
mas tudo é festa, brinde, serpentina.

Que seria de nós ou da Poesia,
se além da “crise” bar virasse banco,
praça, estacionamento, o que seria

das estrelas, do nimbo e do luar,
se de repente um verso – azul ou branco –
já não tivesse mais onde pousar?



Para ler outros poemas de Jorge Tufic ou a ele dedicados, clique aqui.

Satanismo medieval e as práticas médicas populares 1/2


João Bosco Botelho


É possível identificar mudanças significativas nas práticas médicas, incorporadas junto ao aparecimento das primeiras universidades, a partir da segunda metade do século 14. Simultaneamente, se iniciou luta feroz dos médicos, formados nas universidades, para conquistar a credibilidade junto à população desassistida e superar a presença dos curadores de todos os matizes, inclusive a dos cirurgiões-barbeiros, nas abadias e conventos.
Nesse sentido, uma poderosa rede de calúnias, ligada às interpretações oportunistas da Bíblia, fomentou o descrédito dos benzedores, parteiras e cirurgiões-barbeiros, que passaram a ser identificados como diabos e bruxos e adivinhos malignos.
A parteira, tão antiga quanto útil durante muitos milhares de anos, era, com certeza, a mais importante representante desses curadores populares, simbolizando, por essa razão, o papel de inimigo mais importante da universidade cristã.
É possível que tenha ocorrido relação política entre a perseguição implacável aos agentes da Medicina-empírica, especialmente as parteiras e benzedeiras, e a bula Summis Desiderantes Affectibus contra o satanismo, editada pelo Papa Inocêncio VIII em 1484.
Em consequência, muitas parteiras e outros agentes da medicina empírica foram levados a julgamento nos tribunais da Inquisição e merecerem um capítulo inteiro – “De como parteiras-bruxas cometem os mais horrendos crimes, matando ou dedicando crianças ao diabo da maneira mais amaldiçoada” – , no terrível “Malleus Maleficarum” (“O Martelo da Bruxaria”), escrito pelos priores do Convento de Colônia, (Alemanha), Kramer e Sprenger.
Esse terrível livro, editado pela primeira vez, em 1486, conduziu um dos mais tenebrosos períodos de uma ética, ligada ao poder eclesiástico, com o objetivo de assassinar milhares de resistentes à inflexível autoridade eclesiástica.
Em relação às parteiras, identificadas como bruxas no livro “O Martelo da Bruxaria”, o raciocínio dos priores Kramer e Sprenger era muito simples e eficiente porque colocava a questão do pecado original no centro do conflito com o diabo, como o indutor do mal: “Ora, qual o motivo desse crime infame? Presume-se que as bruxas sejam compelidas a cometê-lo a comando do espírito do mal, às vezes contra sua vontade. Pois o demônio sabe que, por causa do sofrimento da perda – poena damni –, ou do pecado original, essas crianças são privadas de entrar no reino dos céus”.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Jorge Tufic (13/08/1930 – 14/02/2018)


                   III

O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.

O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.

Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.    

                                       (Jorge Tufic)


Luta corporal: o poeta trabalhando. 

Jorge Tufic, por Áureo Mello.


No Pina, em dezembro de 2010, sentido horário: José Maciel, Luiz Bacellar, Mauri Mrq, Jorge Tufic e Zemaria Pinto.   

Jorge Tufic colaborou, e muito, com este blog: veja aqui. 

Fantasy Art - Galeria


Star Child.
Selene Regener.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Relações virtuais



Pedro Lucas Lindoso

As relações humanas se apresentam de formas diversas. Há relações de parentesco, relações de amizade, relações sexuais, relações de família, relações de trabalho – e por aí vai.
Mas hoje em dia nos chama a atenção o relacionamento virtual. Não só o relacionamento via as chamadas “redes sociais”. Mas também há relacionamentos virtuais outrora inimagináveis. Há pessoas se relacionando até sexualmente por meios virtuais. Sem mencionar relacionamentos bancários e os de comércio em geral. Há os familiares e entre amigos e conhecidos. O mundo virtual veio para mudar comportamentos, hábitos e relações trabalhistas.
Meu amigo Chaguinhas é consultor de uma empresa no Distrito Industrial. Há um grupo de colaboradores que trabalha em casa. Colegas de trabalho que só se conhecem virtualmente. E pasmem! São recomendados para não se relacionar socialmente. Evitar trocas de e-mails não corporativos. Não devem usar redes sociais entre si.
Os serviços a esses colaboradores são demandados por um “software” que a empresa chama de SOSERV.
Pelo SOSERV os gerentes solicitam demandas administrativas, tais como tabelas, pagamentos, fichas funcionais diversas e outras rotinas administrativas. Não há nenhum contato dos gerentes e dos empregados graduados com esses colaboradores. Consequentemente, diminui a possibilidade de conflitos, fofocas e qualquer tipo de assédio, moral ou sexual.
Há outro grupo que dá suporte de informática aos demais empregados. Atendem por um “call center” interno. São daqui de Manaus, mas atendem às filiais da empresa que ficam em cinco outras cidades do Brasil. Só podem interagir com o usuário dizendo o nome e perguntando qual o problema do micro. Não podem informar nem que falam de Manaus.
Os contatos virtuais, exceto os contatos de relações virtuais trabalhistas, aplacam uma necessidade natural das pessoas em conhecer outras.
Muitos navegam na net para estudar, brincar, para fazer descobertas, ou mesmo iniciar uma amizade sem compromisso. Mas, segundo o Chaguinhas, o pessoal do SOSERV e do “call center” só pode fazer isso nas horas de folga. Se não, perdem o emprego!
Segundo uma moça que trabalha assim, nas horas de folga só quer viver relacionamentos reais. Disse estar cansada das telas, do celular, da TV, do computador. Até da tela do cinema está exaurida. E fala:
 – Na minha folga, só quero coisas reais, nada em tela! Nada virtual!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O carnaval é o ópio do povo!



Carnavalis opium populi!!!



João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos – confundindo, após terminar o estoque de cerveja das redondezas, duas coisas muito antigas: Marx e Latim... 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Manaus, amor e memória CCCLV


Carnaval de rua, em Manaus  1908.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Fantasy Art - Galeria


Primo Acquarello.
Boris Vallejo.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Paisagens Mortas 10/10


As formas vão ficando para trás,
impressas nas retinas fatigadas:
as paisagens mortas estão vivas
– partes da paisagem que pensamos viva.


























Texto e fotos: Zemaria Pinto.

Curandeiros e adivinhos 2/2


 João Bosco Botelho


Alguns personagens citados no Antigo Testamento, como Baal e sua filha Astarte (Jz 2, 13), cultuados na Mesopotâmia, foram identificados pelo judaísmo como curadores e adivinhos inimigos. Nos templos, os sacerdotes organizaram forte resistência contra Israel.
O processo de substituição cultural nunca se dá em linha reta. É efetuado em dois momentos distintos: a desmoralização do antigo e a substituição pelo novo. É somente no segundo instante que a conquista se consolida, quando aparecer o herói mítico de salvação, sempre um curador e adivinho poderoso – para satisfazer as aspirações coletivas imediatas.
Com a mesma abordagem, é possível enfocar alguns aspectos do processo colonizador brasileiro, onde o sincretismo religioso se fez muito forte em todos os estratos sociais.
A força dos núcleos de resistência à substituição cultural imposta pelo colonizador cristão, no Brasil, em diferentes épocas, obedeceu às tendências das três tradições religiosas, com os respectivos representantes presentes como curandeiros e adivinhos: o pajé, o pai-de-santo e o padre.
O pajé, esteio da coesão tribal, apesar de ter sido brutalmente desmoralizado pelo elemento colonizador, continua resistindo nos confins das florestas amazônicas. O padre salesiano Alcionílio Bruzzi, depois de conviver durante mais de duas décadas num povoado da tribo Tukano, é testemunha dessa resistência: “É talvez o maior sacrifício que a catequese católica impõe aos indígenas cristãos, a renúncia à crença no poder do pajé. Em alguns casos, só o consegue parcialmente”.
A Igreja, ao combater sistematicamente os curadores e adivinhos nascidos das tensões sociais e sem compreendê-los como agentes de coesão social, no Brasil, não está conseguindo processar uma linguagem sedutora capaz de satisfazer os desejos nascidos nas contradições das periferias urbanas.
Essa dissociação entre a hierarquia eclesiástica e a concepção do sagrado, das massas populares, em parte responsável pelo esvaziamento das paróquias e a diminuição gradativa da confissão da fé cristã católica, está clara no discurso disciplinador do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio de Araújo Sales, um dos mais ilustres representantes do clero: “...os assuntos abordados foram os desvios graves da piedade popular, desde as práticas da macumba, candomblé, umbanda até o espiritismo e outros do tipo pentecostal. Está incluído também o recurso à superstição e à exposição incompleta da Doutrina genuína.”
Do outro lado, as novas igrejas divulgam mensagens sedutoras de curas e adivinhações, sob os cânticos de louvor, entoados por milhares de fiéis. Com essa estratégia, ocupam os espaços sócio-políticos nascidos do desencanto, da insatisfação e da miséria.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Fantasy Art - Galeria

The cage of nine banestones.
John Howe.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Made in China


Pedro Lucas Lindoso


Há alguns anos, falar palavrão era passível de punição por parte de nossos pais e professores. Hoje, falam-se palavras de baixo calão com tanta frequência que não se sabe se tal expressão é ou não um xingamento.
Lembro-me que se usava “Vai-te pra China”. Isso era ou foi um xingamento. Não se usa mais. A China, que já foi um lugar tão longínquo, parece que ficou bem próxima de nós.
A garotinha Giovana, conhecida por Gigi, não tem boa impressão da China. Ou melhor, dos produtos chineses.
Gigi é apaixonada pelas bonecas LOL. A nova mania das crianças. Vem num invólucro oval em forma de surpresa. São miniaturas que encantam as meninas que as colecionam avidamente. É a febre do momento.
Gigi ganhou de presente de sua madrinha uma LOL proveniente da China. Adquirida num famoso site de compras, a encomenda demorou a chegar. Ao invés de LOL, foram enviadas da China duas bonecas “LQL”. Obviamente sem as características importantes das originais. Gigi chamou-as de falsianes.
A trilha sonora do filme Branca de Neve e os sete anões, de Walt Disney, foi a primeira trilha sonora a ser comercializada. Bastante premiada desde seu lançamento na primeira metade do século passado. E desde então foi expandida e relançada diversas vezes em várias línguas.
Já o filme Frozen – uma aventura congelante, é relativamente recente. Pois bem. Uma boneca chinesa, tão falsiane quanto as LOL de Gigi, apresenta gravações em que canta as músicas “Você Quer Brincar Na Neve?”, “Livre Estou”, “Let It Go”. Só que apresentada na figura de Branca de Neve.
Os chineses confundiram a Rainha Elsa de Arendelle, ou a Rainha da Neve, com a Branca de Neve. Para Gigi tudo isso e indesculpável e decretou:
– Não quero mais nada da China!
Gigi por um momento esqueceu-se que seu restaurante favorito é de comida chinesa.
E emendou:
– Da China mesmo só presta a comida!

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Manaus, amor e memória CCCLIV


Vista geral do Porto de Manaus, por Huebner, cerca de 1890.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Paisagens Mortas 9/10


As paisagens mortas
se fundem com a vida
das terras fertilizadas
pela destruição 
das águas





















Fotos e texto: Zemaria Pinto.

Curandeiros e adivinhos 1/2


 João Bosco Botelho


A história está repleta de dados confirmando a existência, desde tempos imemoriais, dos curadores e adivinhos.
É necessário entender as práticas dos curadores e adivinhos como história de longa evolução, sob o enfoque dinâmico das relações sociais, para que possamos compreendê-los como agentes de coesão social.
Até hoje, discute-se se essas pessoas especializadas em curar e adivinhar têm a qualidade especial, o dom que as distingam das outras. Enquanto a ciência não tiver resposta, continuará prevalecendo o sentido bíblico (Tg 1, 17): “Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vem do alto e desce do Pai das Luzes”, isto é, estritamente expresso na linguagem religiosa.
Essa constatação ficou clara a partir da melhor compreensão da escrita cuneiforme, em algumas tábuas de argila, encontradas nos sítios arqueológicos babilônicos, esclarecendo que as palavras sortilégio, malefício, pecado, doença e sofrimento, são expressas na mesma palavra.
Por outro lado, é possível evidenciar que os curadores e adivinhos, em muitos contextos históricos, exerceram função equivalente na organização social. Talvez por esta razão, os tratados divinatórios e os prognósticos médicos estiveram ligados desde os primeiros registros.
Parece lógico pressupor que a posse do dom, desde as primeiras cidades, acrescentou mais evidência a quem o possuía, colocando-o em destaque na comunidade. Nas práticas, os adivinhos e curadores utilizaram esse poder no trato da doença para manter privilégios e estruturar núcleos de resistência em situação de adversidade, especialmente, após mudanças políticas traumáticas.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Pega a Rede Globo?


Pedro Lucas Lindoso


Tia Idalina adora uma novela. Falta a importantes compromissos sociais para não perder o final da trama. Não atendeu minha ligação porque estava assistindo a atual novela das oito. Era o julgamento da mulher sem nome. Que eu ligasse mais tarde.
Ela se gaba de que foi a única que acertou o final de Vale Tudo, novela dos anos oitenta. O autor Gilberto Braga escreveu cinco finais diferentes para manter suspense. O Brasil queria saber afinal, quem havia matado Odete Roitman. Tia Idalina apostou que tinha sido Leila, interpretada pela Cássia Kiss. A tal Leila descobre que era traída pelo marido, cujo papel era de Reginaldo Farias. Leila seguiu-o até o apartamento de Odete Roitman, brilhantemente interpretada por Beatriz Segall. Por engano, Leila atira e a mata. Mas, só quando viu o corpo de Odete no chão percebeu o erro. Ninguém suspeitava dela, só Idalina!
Idalina diz que sua compulsão por novelas foi herdada de sua mãe, e explica:
– Na década de sessenta, minha mãe chegou a acompanhar quatorze novelas por dia. Com nove filhos, adolescentes ela cuidava da casa. A família morava em Niterói, no Rio de Janeiro. Não tínhamos empregada. Para se distrair, começava o dia ouvindo novelas no rádio. A partir das sete da manhã. Ia mudando de estação e sintonizando nas diversas novelas de cada emissora. Eram cinco novelas de rádio pela manhã, cinco à tarde. Quando anoitecia passava para a televisão. As transmissões começavam às seis da tarde. Eram mais quatro novelas. Duas da extinta TV Tupi e duas da Globo.
Idalina foi convidada para passar o réveillon numa dessas ilhas do Caribe. No hall do hotel só havia uma televisão. Claro que titia chegava mais cedo para sintonizar na Globo Internacional e ver a sua novela. Ela e duas amigas eram os únicos brasileiros hospedados no hotel.
Levou o controle da televisão para o quarto e guardou no cofre. Turistas de várias línguas perguntavam pelo controle da TV. Idalina sentada, com seu olhar blasé, se fazia de desentendida e curtia sua novelinha.
Depois, comentava com as amigas a primeira coisa que procura saber quando vai viajar:
– Pega a Rede Globo?

domingo, 28 de janeiro de 2018

Manaus, amor e memória CCCLIII


Rua Lima Bacury, cerca de 1890, por Huebner.

sábado, 27 de janeiro de 2018

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Paisagens Mortas 8/10


A morte no centro das paisagens mortas.
A morte, paisagem das paisagens mortas.
A morte, paisagem, apenas.













Texto e fotos: Zemaria Pinto.

Tributo à Ana Zélia - na Casa da Pamonha



Príncipes da igreja na medicina medieval


João Bosco Botelho


Os grandes teóricos do cristianismo, como Abelardo, em Paris, Bernard, em Chartre, e Tomás de Aquino, em Paris, iniciavam o processo de resgate doutrinário das obras de Platão e Aristóteles, ajustando-os aos preceitos cristãos, determinando novas leituras da ética cristã, que alcançaram a ética da Medicina.
– Pedro Abelardo, filósofo e teólogo escolástico, é considerado um dos príncipes intelectuais da igreja, como professor da iniciante Universidade de Paris, semente da futura Sorbonne, que funcionava junto à catedral de Notre Dame, na época, em construção. Esse notável sacerdote defendeu de forma enfática, junto aos seus alunos, filhos de burgueses abastados ou religiosos importantes, outras leituras bíblicas para amenizar alguns dogmas, frutos de equivocadas interpretações bíblicas. Entre as abordagens mais importantes, a leitura crítica da Bíblia, a luz da razão, acabou renovando a Escolástica na problemática da relação entre a fé e a razão.
– Bernardo de Chartres, se dedicou mais aos estudos dos neo-platônicos e Aristóteles, e, como Reitor da Escola de Chartres, reforçou a presença dos conceitos universais, a despeito da fé. Por essa razão, o conjunto teórico que defendia se estruturou em três categorias da realidade: Deus, matéria e ideia. 
– Tomás de Aquino, filósofo e teólogo, também professor da Universidade de Paris, fundou a síntese do cristianismo sob a visão aristotélica, que originou novos rumos da Igreja, contendo uma Teologia firmada na revelação, e uma Filosofia baseada no exercício da razão humana, fundindo a fé e a razão no rumo de Deus, sempre defendendo não haver conflito entre fé e razão. 
 A partir da primeira metade do século 14, para alguns grupos sociais, houve melhores condições para construir outros patamares do poder eclesiástico com o objetivo de ajustar as práticas médicas às novas realidades, especialmente, comerciantes e cirurgiões-barbeiros mais esclarecidos, que desejavam melhores resultados das práticas médicas.
Jean Pitard, um dos mais conhecidos cirurgiões-barbeiros, com fácil trânsito com o poderoso arcebispado de Paris, fundou a Confraria dos Cirurgiões, sob a guarda de São Cosme e São Damião. Pela primeira vez, desde o desmonte das práticas médicas greco-romanas, alguns cirurgiões-barbeiros que aderiram à Confraria, introduzem normas éticas voltadas aos bons resultados, sem esquecer as marcas da caridade cristã. Ao manterem o claro vínculo com o poder eclesiástico, escolheram a sede próxima da catedral de Notre Dame, e vestiram roupas diferenciadas que os distinguiam dos que permaneceram contrários ao novo código ético das confrarias.
A laicização da caridade, reafirmando as diretrizes neo-testamentárias, compondo um Deus que perdoa, foi identificada na afirmação de François-René Chateaubriand: “A caridade, virtude absolutamente cristã e desconhecida dos antigos, nasceu com Jesus Cristo; é essa a virtude que distingue o homem dos outros mortais e foi o selo de renovação da natureza humana”.
As decisões do Concílio de Trento, entre 1545 e 1563, colocando a Igreja em sintonia com os Estados fortes, para superar o avanço das ideias luteranas, moldou as bases na caridade laicizada, como a unção dos enfermos e o reconhecimento de leigos na graça santificante.
A intensificação da caridade como instrumento de controle social conseguiu atenuar o brutal contraste entre os poucos com muito dinheiro e a maioria esmagadora sem nada. Dessa última parcela, constituíam os mendigos itinerantes, que assaltavam e matavam os que viajavam sem a proteção dos cavaleiros dos senhores feudais.
Nessa parcela da população se abateu os rigores da fome após os primeiros surtos da peste negra.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Fantasy Art - Galeria


Wizard Glade.
Tim Hildebrandt.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Verbo livrar


Pedro Lucas Lindoso


Sou de uma família de “apaixonados por livros”. Meu pai, José Lindoso, costumava ir frequentemente às livrarias. Principalmente, aos sábados pela manhã. Morávamos na Rua Henrique Martins. As principais livrarias de Manaus ficavam na nossa rua, depois da Avenida Eduardo Ribeiro. Lembro-me especialmente da Livraria Acadêmica.
Meu irmão mais velho foi editor e presidiu a Câmara Brasileira do Livro.
Nossa casa abrigou várias bibliotecas. Mas nunca foram devidamente sistematizadas. Os livros de Direito costumam ficar desatualizados. Entre mudanças, empréstimos, pequenos “furtos” e doações, muitos livros se perderam.
Durante muito tempo, meu quarto abrigou parte da biblioteca de meu pai. Adolescente, convivi com o Tratado de Direito Privado, de Pontes de Miranda, rente à minha cama. José Lindoso foi professor de Direito Civil na Velha Jaqueira, antiga Faculdade de Direito do Amazonas.
Vivi e vivo entre livros. Não seria feliz se tivesse nascido na Idade Média, antes de Gutemberg. Para mim, o maior e mais importante inventor da Humanidade.
Geoffrey Chaucer – magnífico escritor e filósofo inglês do século XIV. Muito lembrado pela sua obra Os Contos de Canterbury (The Canterbury Tales, em inglês). Clássico da literatura inglesa medieval. O personagem Monge, um dos meus preferidos, tinha muito orgulho de sua biblioteca. A maior de todas! Seis livros!
Minha neta Maria Luísa, com dois anos de idade, tem no mínimo o dobro de livros do monge medieval de Chaucer. Sem contar diversos livros de plástico, para leitura no banho e na piscina.
E adora seus livrinhos. E já os identifica. Eu quero o do sapo. O do botinho. O do Jacaré. E pede: vem vovô, vamos livrar!
Maria Luísa criou um neologismo. O verbo livrar. Com apenas dois anos e já contribuiu imensamente com a Língua Portuguesa.
O neologismo é a criação de uma palavra nova. Pode ser fruto de um comportamento espontâneo. Foi assim que Maria Luísa criou o verbo livrar. Espontaneamente. Criar neologismos é uma habilidade inata e própria do ser humano e da linguagem.
 Numa época em que se lê no computador, tabletes e mensagens no celular, precisava-se de um verbo envolvendo o livro físico de papel.
Que maravilha. Temos agora o verbo livrar. Transitivo direto. Significa ler e gostar de livros de papel. Acho que essa garotinha merece o Prêmio Camões de Língua Portuguesa ou o Jabuti!
Verbo livrar! Esse é ótimo! Livrar é mesmo muito bom.


domingo, 21 de janeiro de 2018

Manaus, amor e memória CCCLII


Rua Saldanha Marinho, em 1890, por Huebner.

sábado, 20 de janeiro de 2018

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018