Amigos do Fingidor

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A poesia é necessária?



Acrobata da dor
Cruz e Sousa (1861-1898)


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que, desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

O segredo do pagode chinês



Pedro Lucas Lindoso


Quando a vi no hall de entrada do Teatro Amazonas, não tive dúvidas. Era Antônia, a eterna Miss Borba. Estava entre turistas franceses, vindos para o Festival de Ópera. Antônia nasceu no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio de Borba. O mesmo Santo Antônio de Lisboa, de Pádua e de todos os devotos brasileiros e portugueses. Assim, Antônia só poderia se chamar Antônia. Filha de uma cabocla de Borba, município amazonense às margens do Rio Madeira, e de um empresário descendente de libaneses. O pai de Antônia era casado e durante muitos anos iludiu sua mãe com promessas de desquitar-se para com ela se casar. Nunca cumpriu a promessa. Mas sempre deu para mãe e filha toda assistência financeira e afetiva. Aos doze anos Antônia ficou órfã de mãe. O pai veio buscá-la. De beleza ímpar, desde cedo recebeu educação primorosa e portava-se como verdadeira princesa, como se transportada das Arábias para a Amazônia. O pai decidiu mandá-la para o Rio de Janeiro. Antônia foi interna no Colégio Bennet. Tradicional e centenário, o Bennet é das mais respeitadas instituições educacionais do Rio. Retornou a Manaus, aos 18 anos completos. Fluente em inglês, francês e com curso técnico em secretariado, logo lhe foi oferecido um emprego no Palácio Rio Negro, sede do governo do Amazonas. No seu primeiro dia no Palácio, o assessor direto do governador estava às voltas com um projeto inusitado: apoiar o concurso de Miss Amazonas. O Estado do Amazonas deveria eleger a miss Brasil. E mais, o governador queria a participação de garotas do interior. Como Antônia havia nascido em Borba, de imediato foi escalada para representar o município. Foi assim que Antônia ficou conhecida como a eterna Miss Borba. Eleita Miss Amazonas, classificou-se em terceiro lugar no Miss Brasil. Viajou o país e o mundo. Naquela época, os concursos de miss eram prestigiados e concorridos. A miss era uma celebridade. E como tal, Antonia retorna a Manaus. Um baile acontecia no Palácio Rio Negro. Antônia vestia um conjunto em seda chinesa. Estava deslumbrante. Nos salões do Palácio, toda a sociedade manauara em noite de festa, gala e esplendor amazônico. A orquestra tocava The Platters, – only you, quando Roberto, o assessor do governador, recém desquitado, tirou Antônia para dançar. O rapaz insistia: Preciso falar com você. Urgente. Vamos ao segundo andar do Palácio. Após subir as escadas, vá para o segundo salão à esquerda. Aguardo você lá. Ao entrar no salão, Antônia ficou fascinada por uma linda mobília em estilo oriental. Uma espécie de aparador com prateleiras entalhadas em estilo chinês. A bela mobília tinha simplesmente o formato de um interessante pagode chinês. Aliás, o móvel é chamado, apropriadamente, de pagode chinês. Compõem o conjunto duas cadeiras de balanço, também em estilo oriental. Antônia nunca me disse o que houve naquela noite entre ela e Roberto. Dileto amigo, Roberto faleceu num famoso desastre de avião, chegando à Paris, onde se casaria com Antônia. Voltemos ao hall do teatro. Naquela noite, o Festival Amazonas de Ópera apresentava “Samson et Dalila" de Camille Saint-Saens. O Festival homenageava a França, com seleção de óperas composta de peças francesas. O festival recebe muitos turistas europeus, especialmente franceses e alemães. Ver uma bela ópera e ainda conhecer a Amazônia é sempre um apelo irresistível. Mas a presença de Madame Antônia Carradot, anônima, no hall do teatro Amazonas, era algo que precisa ser esclarecido. Porque não se comunicara comigo, era um mistério. Fui a Paris providenciar o traslado das cinzas de Roberto. Uma tragédia. Dei-lhe todo o carinho, toda a atenção merecida. Sempre muito simpática comigo. Nunca entendi seu silêncio. Antônia recebeu todo o carinho e atenção possível naquele nefasto evento. E agora, retornando anonimamente a Manaus, eu tinha que falar com ela. Me aproximei, sutilmente. Ela me reconheceu e sorriu. Pediu encarecidamente que não contasse a ninguém que estava ali. Só queria um favor meu. Ir ao Palácio Rio Negro, rever o pagode chinês. Perguntou-me se conhecia alguém no governo que pudesse facilitar a visita. Disse-lhe que não precisava. O Palácio agora era um centro cultural aberto ao público. Poderia levá-la na manhã seguinte, antes de sua partida para o aeroporto, de volta à França. Perguntou-me se a intrigante mobília ainda estava no palácio. Disse-lhe que sim, não havendo motivo para não estar lá. Ela sorriu e argumentou que poderia estar numa residência qualquer de um bairro chique. Afinal, saques a bens públicos aconteceram em Manaus, em várias épocas.  Aquele hall do teatro mesmo, dizem que havia esculturas e peças de mobília que não estão mais lá. Eu lhe garanti que o pagode chinês estava no Palácio. No dia seguinte, busquei Madame Antonia Carradot no hotel e fomos direto ao Palácio Rio Negro. Subiu lentamente as escadas. Foi direto à sala onde estava o pagode chinês. Perguntou se podia sentar em uma das cadeiras. Em princípio, é proibido, estávamos num museu. Mas os anjos e demônios que guardam esse Palácio permitiriam que ela se sentasse. Estávamos sós. Antonia sentou-se na cadeira de balanço, olhou para o móvel, pensativa. Duas lágrimas fortes rolaram. Jamais esquecerei aquela cena. Não quis ver mais nada. Saímos do Palácio. Chovia como sempre chove na Amazônia. Antonia entrou no carro. Levei-a ao aeroporto. No caminho contou-me que estava viúva do francês com quem se casara. Sua única filha era médica, formada pela Sorbonne. Tinha quatro netos. Parece que querem repovoar a França. Todos esses detalhes eram interessantes, mas ela não me contou e eu não tive coragem de perguntar que segredos, que juras de amor entre ela e Roberto, que mistérios teria aquele lindo móvel – o pagode chinês – o que teria aquilo por testemunha? Antônia retornou discretamente a Paris, levando consigo esse segredo tropical, que com certeza será debulhado muitas vezes, às margens do Senna. Au revoir, Antonia Carradot.



domingo, 19 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDXXI


Construção da ponte Padre Antônio Plácido de Souza,
ligando os Educandos ao Centro.

sábado, 18 de maio de 2019

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A poesia é necessária?



A canção do africano
Castro Alves (1847-1871)


Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

“Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

“0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

“Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...

“Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro”.

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!


quarta-feira, 15 de maio de 2019

terça-feira, 14 de maio de 2019

Esperando Guaramiranga ou Godot?



Pedro Lucas Lindoso


Estava meditando sobre os destinos da Zona Franca de Manaus e de nosso Polo Industrial. Distraído e olhando para o tempo. De repente, fui interrompido pelo meu velho e dileto amigo Chaguinhas.
– O que fazes? Perguntou-me. Esperando pelo Guaramiranga?
Aprendi que essa expressão é usada desde a época da Segunda Guerra, por amazonenses, quando se aguarda por algo que não chegará nunca. A origem está na frustrada espera de um navio denominado Guaramiranga. Apesar de esperado ansiosamente pela população da cidade, jamais aportou em nosso Porto de Manaus. O qual chamamos carinhosa e historicamente de “roadway”.
Durante a Segunda Grande Guerra a cidade sofria muito com o desabastecimento de gêneros de primeira necessidade. Arroz, feijão, açúcar, carne, leite e derivados. Deveriam chegar pelo Guaramiranga, que nunca chegava.  Tudo faltava. Se até nos dias de hoje faltam produtos na cidade. Imagem em época de guerra mundial, com constantes racionamentos.  Manaus sempre foi muito longe.
Havia filas quando os navios chegavam do sudeste. Alguns até chegaram. Menos o Guaramiranga. Ouviam-se notícias dos conflitos na Europa, pelo rádio ou via telégrafo. A população fazia filas para adquirir os produtos. Meu amigo Chaguinhas, hoje octogenário, era menino de calças curtas. Disse-me que enfrentou várias filas. Esperando pelo Guaramiranga que nunca veio! Guaramiranga sempre ficou no Ceará. É nome de município cearense. O navio até hoje é esperado por aqui!
Lembrei-me da famosa peça de teatro Esperando Godot, de Samuel Beckett. Importante obra para a literatura e o teatro ocidental. Tornou-se um divisor de águas no teatro do século 20. Dois “vagabundos” aguardam infinitamente, num descampado, a vinda do senhor Godot, que nunca aparece. É genial porque quebrou o paradigma de uma época em que o teatro oferecia somente sequências lógicas, com começo meio e fim.
Na atual conjuntura, todos os amazonenses e habitantes de Manaus, desde empregados e empresários até autoridades civis e eclesiásticas, esperam ansiosos por uma definição sobre os destinos da Zona Franca e do polo industrial. 
Será que estamos esperando por Guaramiranga ou por Godot?

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Teatro e Resistência: a História no centro do palco





Zemaria Pinto

Teatro contra o cinismo
O ciclo de leituras dramáticas Teatro e Resistência, promovido pela Cia Vitória Régia em janeiro e fevereiro de 2019, no palco do Sinttel-AM, nasceu da necessidade que o grupo, dirigido por Nonato Tavares, sentiu de mostrar, especialmente aos mais jovens, que houve, sim, uma ditadura no Brasil, que se estendeu por 21 anos – período em que se prendeu, torturou e matou muita gente. Há um movimento do mais deslavado cinismo negando esses fatos que já pertencem à História e procurando transformar notórios torturadores e assassinos em heróis.
Como o grupo lida com o teatro, era elementar trabalhar com a leitura dramática – uma por semana, de modo a produzir uma amostra abrangente – de peças que retratassem a época. Partimos de quinze títulos iniciais, que foram sendo filtrados no decorrer do processo, até chegarmos aos sete títulos trabalhados – todos eles relacionados ao intervalo de tempo que vai de 1964, ano do golpe militar, até 1979 – ano da anistia e início efetivo da “distensão” ou “abertura”, que só se concretizaria em 1985, com a saída dos militares do poder. A exceção foi o emblemático Eles não usam black-tie, encenado pela primeira vez em 1958, mas ainda hoje atualíssimo.

Teatro de Resistência
O termo designa peças e/ou autores que se posicionaram francamente contra o regime instaurado em 1964, denunciando-o e criticando-o. Não foi, a rigor, um movimento, como querem alguns apressados, até porque reunia tendências opostas e inconciliáveis, tanto do ponto de vista político como do estético. Olhando pelo ângulo dos detentores do poder no exercício da censura, eram textos e autores a serviço da “conspiração comunista internacional” contra os “valores da civilização cristã ocidental”, conforme atesta Yan Michalski, no seu clássico O palco amordaçado. Para quem pensa que os donos do poder no Brasil de 2019 estão sendo originais, eles apenas repetem a mesma ladainha de 55 anos atrás, usada para justificar o estrangulamento da democracia. 
Além dos autores com os quais trabalhamos, vistos adiante, destacaram-se como “resistentes” Chico Buarque, Millôr Fernandes, Maria Adelaide do Amaral, Consuelo de Castro, Augusto Boal, João das Neves, Jorge Andrade, Paulo Pontes, entre outros.

Teatro e Resistência
Trabalhamos três noites por sete semanas: na segunda-feira, fazíamos a primeira leitura, com o “elenco” disponível; na quarta, fechávamos o elenco e fazíamos uma segunda leitura, pensando nas marcações de palco; na quinta-feira, era feita a leitura para o público. A dificuldade oferecida pela arquitetura dramática de Patética, a segunda peça lida, nos permitiu um salto de qualidade em relação à leitura de O abajur lilás, que foi extremamente convencional, com as rubricas sendo lidas quase integralmente. A Patética nos fez inventar a figura do “narrador”, que, baseado nas rubricas, situava o público no tempo e no espaço, método utilizado nas três peças seguintes, até que, nas peças finais – Zona Franca, meu amor e Papa Highirte – abolimos também a figura do narrador, fazendo pequenas inserções no próprio texto da peça, de modo a situar o espectador, uma vez que não dispúnhamos dos recursos mais elementares como cenário, figurino e luz. Foi um aprendizado. Deu certo. 
Trabalhamos com os seguintes textos:
O abajur lilás (Plínio Marcos) – partindo de uma base alegórica, uma representação realista do Brasil pós AI-5, três prostitutas, um explorador do lenocínio e seu segurança mostram o absurdo das relações entre o poder e os que a ele são submetidos, levando à tortura, à delação e ao assassinato.
Patética (João Ribeiro Chaves Neto) – A trajetória do jornalista Vladimir Herzog – até seu assassinato, sob tortura, em outubro de 1975 – recriada com engenho e arte.
Eles não usam black-tie (Gianfrancesco Guarnieri) – retrata, em primeiro plano, o movimento sindical-trabalhista da era JK; mas a grande tensão da peça está fundamentada no relacionamento entre o pai Otávio e o filho Tião, muito além de um conflito de gerações: um conflito ideológico, discussão muito atual.
Campeões do mundo (Dias Gomes) – o sequestro de um embaixador, contado em flashback por dois sobreviventes anistiados, é o mote para mostrar os conflitos da guerrilha urbana, a tortura e o assassinato, num período que cobre de 1963 a 1979, discutindo também a condição feminina e o exílio a que muitos foram forçados.
Vejo um vulto na janela, me acudam que sou donzela (Leilah Assumpção) – passa-se entre o final de 1963 e os primeiros dias do golpe militar. Uma comédia de costumes espicaçando o extremo conservadorismo da época; um libelo feminista que escancara e ridiculariza esse conservadorismo.
Zona Franca, meu amor (Márcio Souza) – escrita dez anos antes de ser encenada pela primeira vez, manteve-se, e mantém-se, muito atual, na crítica ácida ao modelo Zona Franca de Manaus.
Papa Highirte (Oduvaldo Vianna Filho) – alegoria sobre a solidão de um ditador latino-americano no exílio, em algum momento entre os anos 1940 e 1960. Personagens infames, caricaturas sub-humanas, humor áspero. Vianinha constrói suas personagens como um demiurgo, cheias de sutilezas, para em seguida destruí-las, furioso, sem nenhuma delicadeza.   

Teatro, território livre
Território do livre pensamento, o teatro é de natureza rebelde, mas não inconsequente: ensina criticando e critica ensinando. Mas não ensina verdades – ensina a vida: questionando as verdades estabelecidas, colocando a dúvida acima de qualquer dogma. Isto é a arte. É provocando abalos que ela se renova. Isto é o teatro, há dois mil e seiscentos anos.
Em síntese, a Cia Vitória Régia escolheu o Teatro para iluminar o passado e denunciar as semelhanças com o presente – uma forma de resistência.

domingo, 12 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDXX


Enchente, vendo-se a entrada do Roadway e a Alfândega.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

A poesia é necessária?



Carta a um jovem poeta
Marco Catalão


Todos os jovens poetas são
ridículos.
Não seriam jovens poetas se não fossem
ridículos.

Também fui em meu tempo um jovem poeta,
como os outros,
ridículo.

Os jovens poetas, se são jovens, e ainda por cima poetas,
têm de ser
ridículos.

Mas, afinal,
só as criaturas que nunca escreveram
versos na juventude
e nunca os publicaram em revistas que nunca duravam mais que três números
é que são
ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
sem dar por isso
poemas exaltados comovidos rebeldes
e ridículos.

A verdade é que hoje
as minhas memórias
desses poemas
é que são
ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
como os sentimentos esdrúxulos,
como os quarentões cheios de escrúpulos,
são naturalmente
ridículas.)

quarta-feira, 8 de maio de 2019

terça-feira, 7 de maio de 2019

Doce vocativo, verdadeiro aposto



Pedro Lucas Lindoso


Aulas de Língua Portuguesa. Quando estudante, erámos obrigados a fazer análise. Fazia-se análise morfológica nas primeiras séries. Depois era exigida análise sintática. Fiz incontáveis provas de Português em que constavam inúmeras análises sintáticas. Orações retiradas de textos de Machado de Assis, Camões e até do Hino Nacional.
Gostava quando os professores nos cobravam redações. Ou dissertações. Ouvi dizer que não se faz mais redação. Os alunos são convidados a fazer produção de textos. Será que ainda ensinam análises em aulas de Português?
Sempre achei interessante os vocativos e apostos. Vocativo é um termo descolado sintaticamente da oração, não pertence nem ao sujeito, nem ao predicado. Ele serve para invocar o receptor da mensagem.  E é sobre vocativos e apostos que quero falar.
Mano velho! Vocativo típico de nossa cultura amazonense. Manazinha! Mano! Mana!
Getúlio Vargas proclamava: Trabalhadores do Brasil! O outro discursava: Brasileiros e brasileiras!
 Filhinho! Vem cá. Pede a mãe. Filho! O que precisas? Pergunta o pai. Amor! Amo-te. Jurou à amada. Ana chamava os amigos de compadre e comadre. Virou comadre Ana. De todos.
Poeta! Alguém assim me chamou! Fiquei feliz, mas foi um susto! Tenho poucas poesias. Gosto de escrever crônicas. Poeta! Um vocativo que além de me assustar, me estremece o coração.
Já o aposto é o termo que, acrescentado a outro termo da oração, explica ou esclarece o sentido de um nome; aparece geralmente separado por vírgulas.
Elson Farias, grande poeta amazonense, me ensinou que crônicas podem ser poesias. Usei um aposto para descrever o Elson. E explicar o espanto do vocativo: Poeta!
Entre vocativos e apostos, vejam esses: Maria Luísa, minha netinha, cheia de charme e simpatia exclama:
– Vovô Pedro! Este o mais doce vocativo. Aquele, o mais verdadeiro aposto. Gostoso de ouvir. Gostoso como pupunha com café.

domingo, 5 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDIX


Vista aérea: Reservatório do Mocó, Praça Chile e Cemitério São João Batista.

sábado, 4 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Nascimento de Oxum.
Harmonia Rosales.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Antunes Filho (12/12/1929 – 2/5/2019)


Antunes Filho, 70 anos dedicados ao teatro.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A poesia é necessária?



O ai do samurai
Arnaldo Garcez


o ai do samurai
não é um grito de dor:
é a precisão do corte,
a velocidade da morte
na defesa da manhã

o ai do samurai
é poder gritar
no fio da lâmina
a lágrima prata
que acende a escuridão

o ai do samurai
é a coragem de resistir
aos covardes
que destroem o prazer
de (r)existir

o ai do samurai
é a liberdade da infância
pintando sua vingança
na cara-pálida do tempo
covarde

o ai do samurai
é o silêncio que povoa
nossa vontade de mudar
a cara desse país:
com arte
porrada
& poesia

o ai do samurai
não silencia!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Iansã ou Oyá.
Autor desconhecido.

terça-feira, 30 de abril de 2019

A vida em cor-de-rosa – com hífen



Pedro Lucas Lindoso


O trágico incêndio ocorrido na Notre Dame de Paris faz com que a cidade seja lembrada e relembrada. E não existe Paris sem as canções de Piaf. Principalmente “La vie en rose”. A vida em cor-de-rosa.
Nada mais polêmico do que o título dessa linda canção. Ou melhor, a palavra cor-de-rosa. A última reforma ortográfica cassou o hífen dos compostos com três palavras ou mais, como pé de moleque, tomara que caia, testa de ferro e mão de obra. Mas a lei que embasou a reforma citou exceções. Entre elas, cor-de-rosa, pé-de-meia e arco-da-velha. E agora? Lei é lei.
Cor-de-rosa é para meninas e azul para meninos? Sem comentários nesse particular. Há um ditado que diz: “o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?” Nos parece um ditado machista. Considerando-se a polêmica em nível nacional, de que azul é para meninos e cor-de-rosa para meninas. O ditado poderia ser; “o que seria do verde se todos gostassem do amarelo”? Assim ficariam de fora as polêmicas cores azul e rosa, representativas de sexo binário.
Não tenho uma cor favorita. Quem gosta do boi Caprichoso gosta do azul. Quem gosta do boi Garantido gosta do vermelho. Eu sou Garantido, mas não compraria um carro vermelho. Tampouco me recuso a usar um terno azul marinho.
Existe outra polêmica com o cor-de-rosa. Há duas espécies de boto na Amazônia. O vermelho e o tucuxi, de cor cinza. Há muitos anos esteve por aqui um francês chamado Jacques Cousteau. Era um misto de biólogo e oceanógrafo. Veio a convite do Governo brasileiro e patrocinado pela Rede Globo. Teria descoberto o boto cor-de-rosa? Reza a lenda que houve na verdade uma confusão linguística. Rouge em francês significa vermelho. A pronúncia seria parecida com róseo, como os amazônidas chamam cor-de-rosa.
Na época eu morava em Brasília. Pensei que o Monsieur Cousteau houvesse descoberto uma terceira espécie de boto. O boto cor-de-rosa.  Ao retornar a Manaus, escrevi um livrinho: O boto cor-de-rosa e o jacaré do rabo cotó. Fui criticado por chamar o boto vermelho de róseo. Fiz um “mea culpa”. Escrevi outro: A visita dos botos vermelhos às Anavilhanas.  Mas os botos vermelhos continuam sendo chamados, eventualmente, de cor-de-rosa. Depois da famosa canção, a vida em cor-de-rosa, a pantera cor-de-rosa, o futuro cor-de-rosa, os sonhos cor-de-rosa, só nos resta nos conformar que os botos vermelhos serão sempre confundidos e chamados de cor-de-rosa. E com hífen!

domingo, 28 de abril de 2019

Marcos Frederico Krüger foi eleito para a cadeira 30 da Academia Amazonense de Letras




Ontem, em assembleia que contou com a participação de 35 dos atuais 38 membros do sodalício, o Professor Marcos Frederico Krüger, 70 anos, foi eleito para a cadeira de número 30, que tem como patrono Araripe Júnior e último ocupante Armando de Menezes.
  


Marcos Frederico Krüger Aleixo, amazonense de Manaus, onde nasceu em 7 de abril de 1949, graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Amazonas em 1971. Em 1978, concluiu o curso de especialização em Fundamentos da Literatura Brasileira, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1982, obteve o grau de Mestre em Literatura Brasileira, na UFRJ, com a dissertação Introdução à Poesia no Amazonas. Em 1997, obteve o grau de Doutor, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com a tese Recriando a criação: natureza e cultura em mitos amazônicos.

Foi professor da UFAM por 30 anos, tendo se aposentado como Professor Adjunto IV. Nesse período, foi chefe do Departamento de Língua e Literatura Portuguesa, Coordenador do Curso de Letras e Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras. Atualmente, atua no curso de Letras da Universidade do Estado do Amazonas, onde é Professor Adjunto A.



Tem dezessete livros publicados, todos de análise e/ou história literária, entre os quais destacamos Amazônia: mito e literatura (sua tese de doutorado, retrabalhada; 2003; 2009, em 3ª edição); e A sensibilidade dos punhais (2007; 2011, em 2ª edição). Organizou para a Editora Global, de São Paulo, o livro Melhores poemas de Thiago de Mello (2009), que inclui um estudo crítico sobre o poeta. Para a UEA, em parceria com Allison Leão, organizou a obra O mostrador da derrota: estudos sobre o teatro e a ficção de Márcio Souza (2013), que inclui uma análise da obra do romancista e dramaturgo amazonense.



Seu livro A sensibilidade dos punhais, um estudo sobre os poetas Violeta Branca, Sebastião Norões e Luiz Bacellar, ganhou o Prêmio L. Ruas, de 2006, concedido pela Prefeitura de Manaus para o melhor livro inédito de ensaios. Recebeu a Medalha do Mérito Educacional, outorgada pelo Conselho Estadual de Educação, em 2011. A Academia Amazonense de Letras o distinguiu com a Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, em 2017.



Manaus, amor e memória CDXVIII



sábado, 27 de abril de 2019

Fantasy Art - Galeria


To tell the truth.
Tim Okamura.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A poesia é necessária?



A Nova República
Farias de Carvalho (1930-1997)


Vou começar a construir meu mundo.
Este, que não suporto, me asfixia.
Os olhos já se cansam de assistir
à mecânica dança dos bonecos.

Um botão, e o sorriso encomendado
rasga a máscara fria do fantoche.
Outros botões, e seguem-se outros gestos
na estúpida intenção preconcebida.

Por isto eu quero um mundo. Hei de cercá-lo
com a alta tensão da sensibilidade
da Poesia inquilina do meu sangue.

Nele entrarão apenas os eleitos,
os que apanham as estrelas como rosas
e as dependuram, vivas, sobre o peito!


quarta-feira, 24 de abril de 2019

terça-feira, 23 de abril de 2019

“Les Feuilles Mortes”, “La Vie En Rose”, “La Boheme”



Pedro Lucas Lindoso


Enquanto na Europa é primavera, aqui no hemisfério sul estamos no outono. Estação onde predominam as folhas secas. Os franceses chamam essas folhas de folhas mortas. “Les Feuilles Mortes”. Nome de canção de Jacques Prévert, imortalizada na voz de Yves Montand e de Edith Piaf. Essa canção e a famosa “La Vie en rose” são a essência de Paris. Canções significativas da cidade luz para muitos e por todo o mundo afora.
A tragédia que abateu Paris e o mundo nesta Semana Santa de 2019 nos deixa atormentados e melancólicos. Yves Montand e Edith Piaf já não estão entre nós. São personagens do século passado. Mas ainda completamente entranhados na memória dos franceses. Assim como daqueles que admiram a cultura desses teimosos e relutantes gauleses. Desde os tempos imemoriais. Vejam estes versos:
“Naqueles dias, a vida era bela,
E o sol mais quente do que hoje.
As folhas mortas coletadas com a pá.
Você vê, eu não me esqueci...”
E quem pode esquecer Paris? Nem mesmo aqueles que a conhecem só de fotos e filmes.
Meditava na utilidade das folhas. Folhas secas para nós, folhas mortas para os franceses. E aí pensei que aquelas folhas caíram não porque eram inúteis e não prestavam mais. Elas caíram porque tinham dado a vida.
Já os versos de “La vie en rose” são mais românticos e remetem mesmo a uma vida mais cor-de-rosa.
Contudo, não se pode falar de ‘’chansoniers” sem mencionar Charles Aznavour. Falecido em 2018, é o cantor francês mais popular do século 20. Ao longo de seus 80 anos, compôs clássicos como “La Bohème”, “She”, “Hier Encore” e muitas outras músicas!
O que aconteceu em Paris foi uma triste tragédia. A música nos inspira, mas também nos consola. É chavão, mas quem canta seus males espanta.
Estamos na Semana Santa. Acreditamos que Ele nos deu a Sua vida para nos salvar. Temos que acreditar que os valorosos e irredutíveis gauleses vão reconstruir sua bela e majestosa catedral. Já há milhões de euros em doações. A catedral de Notre Dame vai ressurgir das cinzas. Para gáudio de toda a Humanidade.

domingo, 21 de abril de 2019

Manaus, amor e memória CDXVII


Praça do Comércio, em 1933.
À direita, o Roadway e a Alfândega.

sábado, 20 de abril de 2019

Fantasy Art - Galeria


Dance of te moth by moonywolf.
Moony Khoa Le

quinta-feira, 18 de abril de 2019

A poesia é necessária?



Eu não sei
Pollyanna Furtado


Eu não sei, mas deveria saber
que o ser humano pode saber tanto
e que, no entanto, de tudo que sabe,
não sabe o que realmente importa.

Eu não sei, mas deveria saber
que a ignorância é maior
do que o entendimento;
que a dúvida é sempre uma dádiva
quando a certeza absoluta nos cega.

Eu não sei, mas deveria saber
que a realidade não se resume
ao meu estreito conhecimento;
que se existe tanta divergência
é porque às vezes posso estar enganado.

Eu não sei, mas deveria saber
que eu não sou a medida de todos
e que, portanto, o que vale para mim
pode não valer para tantos outros.

Eu não sei, mas deveria saber
que se eu não sou medida dos outros,
também os outros não me são medida,
mas isso não significa desprezar
o princípio essencial que nos liga.

Eu não sei, mas deveria saber
que o meu ódio é o meu veneno;
que, com ele, mato supostos inimigos
e, pouco a pouco, também mato a mim mesmo.

Eu não sei, mas deveria saber
que se existe um Deus, esse Deus é Amor
e que o Amor é luz e comunhão divina
e nada nesta nossa vida, nada justifica
essa ânsia de ceifar outras vidas.