Amigos do Fingidor

terça-feira, 22 de maio de 2018

Arabu e salame de cupuaçu



Pedro Lucas Lindoso


Conversava com um amigo parlamentar sobre as outorgas de títulos de cidadão amazonense. O assunto é controvertido. Sempre que alguém de quem não se gosta ou se admira recebe o título, há críticas. Outros não se conformam com a profusão de homenagens. Parece que falta assunto para os parlamentares colocarem em pauta.
O nobre deputado aproveitou para saber minha opinião sobre determinado senhor indicado para tornar-se cidadão amazonense. Marcamos um “chopp” no final da tarde de sexta-feira. Era preciso conhecer e conversar com o postulante a tão cobiçado título.
O candidato a nossa cidadania é oriundo de Santarém. Mais do que paraense, o pessoal de lá é tapajoense. Na verdade, desde a Independência do Brasil, a completar 200 anos ainda neste lustro, o povo das margens do Tapajós quer ficar independente politicamente do Pará.
Os habitantes da região do Tapajós são praticamente amazonenses. A cultura é a mesma dos caboclos do baixo Amazonas. Comem peixe, tartarugas e tacacá como nós.
Diferente de alguns dos migrantes do sudeste. Há sulistas que ganham muito dinheiro por aqui. Mas falam mal dos caboclos, reclamam do calor e vão empregar seu dinheiro em Miami ou no sul maravilha. E se dizem manauaras!
Conversando com o rapaz de Santarém e candidato a amazonense, descobri que veio para Manaus ainda bem jovem. Aqui se formou dentista. Faz trabalho junto às comunidades carentes. Toma tacacá com tucupi azedo como nós. E confessou:
– Adoro uma tartarugada! E ainda como arabu! Que é ovo de tartaruga batido e cru! Come-se com farinha e uma pitada de sal ou açúcar.
Perguntei-lhe se ele gostava de nossas frutas, no que ele nos disse:
– Gosto muito de tucumã e x-caboquinho. Como pupunha e aprecio muito o cupuaçu. De todo jeito. Do suco, do doce, do bombom e do salame.
Disse ao meu amigo deputado que o rapaz estava aprovado. É totalmente merecedor do título de cidadão amazonense. Poucos amazonenses das novas gerações ainda conhecem e comem arabu e salame de cupuaçu.

RECEITA DE SALAME DE CUPUAÇU

Coloque numa panela, a polpa de cupuaçu e o açúcar. Leve ao fogo, mexendo sempre, até soltar do fundo. Deixe esfriar e acrescente as castanhas-do-pará torradas e moídas. Enrole, dando o formato de um salame. Depois enrole em papel-alumínio e por cima, em papel celofane.

domingo, 20 de maio de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXIX



Rua Ruy Barbosa, em 1973.
Acervo: Frank Lima.

sábado, 19 de maio de 2018

Fantasy Art - Galeria


Valkyrie Under Construction.
Daniel Miller.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Zona de Guerrilha Franca



Zemaria Pinto


53 – Os paradoxos do neoliberalismo.

54 – Quando Lula era candidato inconteste, liderava as pesquisas em qualquer cenário. O mercado estava uma merda, esperando pela prisão de Lula.

55 – Agora, as pesquisas ignoram Lula e quem toma a frente? O nazifascista bolsonagem, em primeiro, e a marineza, a candidata da incerteza. O mercado está uma merda ao quadrado.

56 – O que, afinal, quer o mercado? Que o The Supremes assuma de vez o controle?

57 – Enquanto isso, o desemprego atinge 27,7 milhões de brasileiros. Significa dizer que nos últimos dois anos (O Brasil voltou 20 anos em 2, eles alardeiam com espantosa estupidez) mais do que dobrou o número de desempregados.

58 – Enquanto isso, o IBGE brinca de fazer licença poética e diz que 4,6 milhões de brasileiros estão em “desalento” – ou seja, desistiram de procurar emprego.

59 – Eu usaria uma outra expressão: estão às portas do suicídio moral e ético. Quando um cidadão desiste de procurar emprego, só resta uma alternativa: (complete, leitor/a).

A medicina se ajustando à materialidade do século 17



João Bosco Botelho


O século 17, conhecido como o século da razão, trouxe o encontro da busca da maior liberdade com a ética médica. Esse complexo conjunto sócio-político foi firmemente tocado pelas ideias de Newton, Descartes, Locke, Espinoza, Leibniz, Corneille, Racine, La Rochefoucauld e Molière.
– Isaac Newton (1643-1727), um dos principais precursores do Iluminismo, autor do “Principia”, físico e matemático, trabalhou com Leibniz na elaboração do cálculo infinitesimal, no período em que permaneceu na própria casa porque a Universidade de Cambridge fora fechada por causa do surto da peste negra. Descobriu a lei da gravitação universal e a natureza das cores, que mudariam para sempre os rumos da ciência. 
– René Descartes (1596-1650), advogado, formado na Universidade de Poitiers, nunca exerceu essa profissão, se notabilizou como filósofo e matemático, fundador da filosofia moderna. Na sua principal obra, “Discurso sobre o método”, se consagrou na defesa do método cartesiano, incluindo o célebre “penso, logo existo”.
– John Locke (1632-1704), considerado a base do empirismo e defensor do direito natural, liberal e de tolerância seletiva, explicando que não poderiam ser aplicados ao “homem primitivo”, os índios, comparando-os ao animal, servindo de base ideológica para a tomada das terras e extermínio de populações indígenas. Esse controvertido filósofo defendia atitudes rígidas e coercitivas aos pobres.
– Bento de Espinoza (1632-1677), racionalista da Filosofia moderna, fugiu da inquisição portuguesa. Em 1656, foi excomungado pela Sinagoga de Amsterdam, por defender Deus como mecanismo imanente da natureza e do universo e a Bíblia como obra metafórico-alegórica não expressando a verdade sobre Deus. Após a excomunhão adotou o nome Bento, tradução do original Baruch. Para Espinoza, Deus e natureza eram dois nomes para a mesma realidade. Ao propor o determinismo, também entendia que os acontecimentos ocorrem em razão das necessidades. Dois pontos importantes da filosofia desse extraordinário pensador: defesa de que a razão não poderia dominar a emoção; uma emoção só seria consumada por outra emoção anda maior e inovou a ética ao afirmar que ela não se opõe às emoções; todos deveriam buscar os instrumentos que constroem a felicidade e o bem-estar e recusar os que determinam dor e sofrimento: a ética da alegria, da bem-querença.
– Pierre Corneille (1606-1684), fundador da tragédia francesa, após desgaste amoroso, escreveu peças teatrais que inauguraram a exposição de sentimentos trágicos, em absoluto contraste com o teatro medieval, em especial, rompe com a ordem e critica os políticos que se acham acima das leis.
– Jean Racine (1639-1699), poeta trágico, matemático e historiador francês. As peças escritas por ele inovaram a dramaturgia francesa, longe das âncoras das autoridades da Igreja, que ainda tentavam manter as rédeas da produção literária.
– François de La Rochefoucauld (1613-1680), pessimista e socialmente desencantado, conspirador contra a autoridade real, apesar da herança aristocrata, explicitava que todas as qualidades da nobreza, as falsas virtudes, estão ligadas ao egoísmo e à hipocrisia. Essa crítica posição, com claro enfrentamento à autoridade real, já refletia os novos ares da maior liberdade política que se avizinhava.
– Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, o grande mestre da comédia satírica do teatro francês. Muito crítico à superficialidade do mundanismo, da segunda metade do século 17, na peça “O misantropo”, de consistente valor moral, retrata um personagem que recusa se integrar na sociedade, devido a exigência da sinceridade e absoluta aversão à hipocrisia.
Como nunca no passado, as práticas médicas associadas aos movimentos sociais que saíam das amarras dogmáticas da Igreja, aumentou o valor da materialização da doença. Centenas de descrições de estruturas e sistemas anatômicos, que receberam os nomes dos respectivos autores, foram acrescentadas aos saberes anatômicos.
Sob o impacto dessas profundas mudanças estruturais a ética médica iniciou o processo de afastamento da Igreja e, em alguns aspectos, se identificou com os conceitos de Spinoza, nos seus geniais livros “A ética” e o “Tratado da reforma do entendimento”, ambos valorizando a vida e rejeitando valores negativos da compreensão dos conflitos sociais.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

Tudo pode mudar, menos amor de mãe



Pedro Lucas Lindoso


Zequinha bafo de onça é natural de Itapiroga. O inusitado nome da cidadezinha era motivo de gozação. Ita significa pedra e piroga é uma espécie de canoa. O nome era alusão a um barranco de pedra em forma de canoa.
Mas o que perturbava Zequinha era seu apelido de bafo de onça. O rapaz sofria de severo mau hálito. Halitose, como dizem os médicos e dentistas. Sua dedicada mãezinha, dona Raimundinha, insistia para que Zequinha escovasse os dentes e a língua. Devia manter a boca úmida com limão e comer muitas frutas. Sempre preocupada com o filho. O bullying estava deixando o rapaz triste e macambúzio. Ninguém ousava chamar Zequinha de bafo de onça perto de dona Raimundinha. Muito menos do Dr. Da Silva, o delegado da cidade.
Dona Raimundinha convenceu o marido a mandar o rapaz para a capital. Estudaria por lá e faria um tratamento eficaz. Um dentista especialista no assunto foi o responsável pela cura do Zequinha. Mas o rapaz se recusava a voltar para Itapiroga. Dona Raimundinha visitava sempre o jovem, insistindo para que ele voltasse para casa. Ninguém mais o chamaria de bafo de onça. Zequinha relutava,
Dona Raimundinha dizia que tudo estava diferente. A cidade agora se chamava Canoa de Pedra. O bairro onde moravam denominava-se Pôr do Sol e não mais Baixa do Sol.  A Rua Principal mudou para Dr. Fulano de tal. A Praça das Rosas foi rebatizada com o nome da mãe do prefeito. O Auditório que era José de Alencar recebeu o nome de Machado de Assis. Essa mudança foi a mais enigmática para Zequinha. Havia feito Letras e tornou-se professor de Português. 
Dona Raimundinha insistia para que o filho retornasse a sua cidade. Seu pai não era mais delegado. Havia galgado o cargo de Secretário de Segurança Pública de Canoa de Pedra, antiga Itapiroga.
Até dona Raimundinha mudou de nome. Como esposa do secretário, virou “socialite”. Agora era dona Ray. E Zequinha bafo de onça havia se tornado o Professor José Carlos da Silva.
Segundo domingo de maio. Dia das mães. O professor resolve fazer uma surpresa para sua mãezinha e volta a Canoa de Pedra. Constatou que tudo havia mudado. Foi recebido com todo carinho e desvelo por dona Ray. E concluiu: tudo pode mudar, menos amor de mãe.
Feliz dia das mães para dona Ray, para as mães de Canoa de Pedra, do Brasil e do mundo.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Zona de Guerrilha Franca




Zemaria Pinto


45 – Era preciso que a CIA dissesse o que vítimas e parentes vêm dizendo há mais de 50 anos: os assassinatos cometidos pelo regime militar eram não apenas consentidos, mas autorizados.

46 – 89 pessoas “desapareceram” após a ordem de Geisel a Figueiredo, incluindo o tempo em que este foi o ditador de plantão.

47 – O auge da matança deve ter sido em 1973, sob a ditadura de Médici: 104 mortos e/ou desaparecidos, segundo o mesmo documento da CIA.

48 – Mas Médici esteve com o cutelo na mão desde outubro de 1969. Quantos ele mandou matar nos 3 anos posteriores?

49 – E Costa e Silva? E Castelo Branco?

50 – O coronel Passarinho, para justificar “possíveis excessos”, disse que o enfrentamento ditadura x “subversivos” era uma “guerra suja”.

51 – A Comissão Nacional da Verdade levantou 434 vítimas dessa sujeira, das quais 210 continuam desaparecidas.

52 – O argumento de que o outro lado também teve perdas não se justifica: não estamos falando de mortos numa guerra regular; estamos falando de tortura e execução. E isso é sujo.

domingo, 13 de maio de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXVIII


Vista da área ribeirinha de Manaus, em 1865. Por  Albert Frisch.

sábado, 12 de maio de 2018

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Zona de Guerrilha Franca



Zemaria Pinto


30 – Marielle continua morrendo a cada dia de impunidade de seus assassinos.

31 – Quem acredita que um vereador de merda é o mandante do assassinato de Marielle? É, no máximo, o executor: o mandante está uns três níveis acima na hierarquia da podridão bandalha deste país varonil.

32 – The Supremes derrubou o foro privilegiado, pero no mucho. Todos são iguais perante a lei, mas alguns continuam mais iguais que os outros.

33 – Passou pela cabeça de alguém que o incêndio/desmoronamento daquele edifício em SP, ocupado por sem teto, não foi intencional? Alguém consegue imaginar um meio mais rápido de recuperar o terreno, numa área caríssima da capital do capital?

34 – O Joaquim Barbosa, ex-supreme, infiltrado no glorioso PSB, esfacela de vez a direita: quem ia votar nele não vota no bolsonagem; muito menos no picolé de chuchu; Meirelles? Porta-voz de si mesmo, nem ele mesmo acredita nessa candidatura natimorta (morreu com o Temer).

35 – Eu disse glorioso? Como pode um partido que pede para apoiar o David Almeida ser levado a sério? É servir de escada para o ladrão que quer pular o muro. Vergonhoso PSB, sigla de aluguel.

36 – “Tira a carne; bota ovo.” Os caras que estavam desviando o dinheiro da merenda escolar em São Paulo não são meros ladrões de dinheiro público: são ASSASSINOS GENOCIDAS.

37 – Nossa expertise: O Zé Merenda passou parte da vida fazendo isso e a bandalha das contas “nunca” desconfiou.

38 – Meus 15 segundos para a Globofuck, tendo como paisagem de fundo crianças catando lixo, e disputando-o com ratazanas de dois palmos de comprimento, na rua Barroso, próximo ao Botequim (eu vi, meninos, eu vi! – estava no Curupira, onde a música é bem melhor):

39 – O problema do Brasil não é a corrupção, não é a impunidade, não é a burrice generalizada. O Brasil só tem um problema: a FOME! Deem cinco refeições diárias a essas crianças e todos os índices educacionais dobrarão em dois anos, numa progressão geométrica; isso resultará, em 20 anos, no fim da bandidagem em todos os níveis, incluindo aí a bandidagem política, porque pessoas bem alimentadas, educadas e cultas não toleram bandidos de espécie alguma!

40 – Precisamos voltar a falar sobre FOME.

41 – O Betinho morreu há mais de 20 anos. Muitos programas sociais do governo popular do Partido dos Trabalhadores vieram das ações que ele encabeçou. Com o governo golpista velholiberal, entretanto, a ideia está encolhendo, encolhendo, podendo chegar à inanição.

42 – Precisamos voltar a falar de FOME.

43 – A equação perfeita só tem uma variável: acabar com a FOME. Se o povo se alimenta, melhoram os índices de saúde, os índices educacionais e até os índices culturais.

44 – Em síntese: se o corpo estiver bem, a mente estará melhor.


Libertação da medicina no Renascimento



João Bosco Botelho


Alguns acontecimentos marcaram o Renascimento como um novo tempo na Europa, interferindo diretamente nas práticas médicas oriundas do medievo:
– Publicação mecanizada dos livros;
– Ruptura com as interdições eclesiásticas: dissecção pública de corpos humanos;
– Teatros de anatomia em vários reinos europeus;
– Publicação do livro “De humani corporis fabrica”, de André Vesálio;
– Publicação do livro “A cirurgia”, de Ambroise Paré;
– Publicação do livro “De viscerum structura”, de Marcelo Malpighi, descrevendo o mundo somente visível sob as lentes de aumento, iniciando o pensamento micrológico, que pode ser considerado um dos mais importantes avanço da Medicina: identificação das causas das doenças numa dimensão invisível aos olhos desarmados.
Entre outras singularidades do Renascimento, se destaca a vontade coletiva de retomar os ideários políticos da Grécia platônico-aristotélica. Desse modo, inicia-se outra fase da ética médica sob menor influência dos dogmas do cristianismo medieval:
– Importante e decisiva é a procura da materialidade da doença;
– Retomada das diretrizes teóricas da Medicina greco-romana;
– Diminuição do valor atribuído aos santuários curadores;
– Aumento do número de médicos oriundos das novas universidades;
– Maior participação de médicos laicos no processo formador da Medicina;
– Livros escritos em latim;
– Presença de geniais pintores e escultores, como Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Rembrandt, entre outros, detalhando nas obras de artes o corpo desnudo;
– Maior acesso aos livros produzidos no período greco-romano;
– Maior liberdade para os estudos dos corpos mortos;
– Substituição das confrarias, sob a guarda dos respectivos santos protetores, como a dos cirurgiões sob a proteção de São Cosme e São Damião, pelos Colégios e Academias laicos, como o Royal College of Surgeons, em Londres, e a Sorbonne, em Paris;
– Cirurgia incorporada à Medicina;
– Recuo da compreensão da doença como mal, causada como castigo.
 Os novos saberes proporcionaram novos caminhos à Medicina, mais liberta dos dogmas medievais, ampliando significativamente os domínios da compreensão da saúde, sedimentando a busca da materialidade da doença, no século 18, sob o estandarte da micrologia.
De modo geral, a ética médica retomou os preceitos hipocráticos, reafirmado pelas Escolas de Medicina de Montpelier e Salermo, ao tempo em que ratificou o projeto teórico que avançaria até hoje: a busca da materialidade da doença nas dimensões da matéria viva invisível aos olhos, clareando a identificação das doenças infecciosas temidas, a hanseníase e a peste negra, responsáveis pela morte de dois terços da população europeia.
Talvez um dos mais importantes representantes dessa fase, interligando a Medicina e o Direito, tenha sido Maquiavel, nas obras “Discurso” e “O Príncipe”, em ambos discursando com clara resistência ao mundo espiritual da escatologia cristã, oriundo do Direito canônico, e valorizando a vida vivida.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Fantasy Art - Galeria


Warrior Woman.
Rodrigo A. Branco.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Ticar o peixe



Pedro Lucas Lindoso


Os dicionários explicam que ticar é “dar baixa em, mediante sinal em forma de V, em parágrafo, alínea, palavra, parcela de uma soma etc. Checar.”
O fato é que o pessoal do resto do Brasil não sabe ou não conhece a expressão ticar peixe.
Milton Hatoum, em seu festejado livro Cinzas do Norte, utiliza o verbo ticar: “senti cheiro de limão, alho e pimenta, e vi tia Ramira ticando peixe na cozinha.”
Vem à mente um leitor do sudeste imaginando Ramira com uma caneta ou lápis na mão, conferindo peixes. Como seria isso possível?
Todo amazonense sabe que ticar o peixe é limpar o peixe. Deixá-lo sem espinha. Ticar peixe é uma arte! Tem que ter agilidade e concentração. O ato de ticar peixe é feito com o auxílio de uma faca. Uma pequena peixeira. Outra palavra bem amazônica. A peixeira não é só uma vendedora de peixes. A peixeira é um facão curto e muito cortante. Com auxílio de uma peixeira bem amolada vai-se aplicando vários golpes até o peixe ficar “tratado”. Pronto para ser frito ou cozido. Uma sardinha amazônica frita quando “bem ticada” é uma delícia.
Era domingo e fui ao nosso mercadão Adolpho Lisboa. Observei um peixeiro ticando peixes. Calculo que tenha dado dezenas e dezenas de golpes em cada lado do peixe. Havia um leve cheiro de pitiú no ar.
Explicou-me que aprendeu a ticar peixes com sua mãe, já falecida. E que agora tinha feito um curso para retirar espinhas do pescado. No início foi um pouco difícil. Disse-me que tirar espinha é uma coisa e ticar o peixe é outra. Sempre foi bom em ticar o peixe. Mas tem treinado a retirada das espinhas.
Vai depender do tipo de peixe. O tambaqui, por exemplo, não tem só espinha. Tem costela!
Nosso amigo peixeiro pretende ficar tão bom em retirar espinhas quanto em ticar. Pretende vender o peixe “tratado” para restaurantes e peixarias da cidade. 
Atenção pessoal do sudeste. Pitiú significa cheiro forte característico do peixe. Ticar o peixe não é “checar” o peixe. Coisas diferentes!

domingo, 6 de maio de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXVII


Rua Nhamundá, em 1972. Acervo: Frank Lima.

sábado, 5 de maio de 2018

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Distanciamento da ética médica grega no medievo europeu



João Bosco Botelho



O processo da cristianização de Roma durante o reinado de Constantino e após, fruto do enfraquecimento das fronteiras romanas pelas invasões dos godos e visigodos, introduziu mudanças no sistema mercantil escravista para o feudal e alcançou a ética da Medicina.
Nesse processo complexo, a Medicina se distanciou dos conceitos gregos jônicos da físis e se aproximou da doença como mal gerando o castigo divino, como nas culturas da Mesopotâmia, Egito, Índia e Grécia homérica, entre os séculos 7 e 5 a.C. Sem pretender simplificar muito, o tratamento mais importante para a doença como mal seria a força divina intervindo para promover a cura por meio do milagre.
É possível compreender essa abordagem, que motivou outros conceitos teóricos à ética, alcançando também as práticas médicas, como regressão às conquistas greco-romanas. Essas mudanças também provocariam desconstrução urbana, no medievo cristão europeu, com as administrações das cidades se descuidando da higiene pessoal, ruas estreitas, casas abafadas e sem exposição solar, pouca água potável, retorno do enterramento dos corpos nos limites urbanos e ausência de esgoto sanitário.
Os banhos públicos, usados simultaneamente por homens, mulheres e crianças, entendidos como local de excessiva exposição dos corpos, propiciando maior exacerbação da sexualidade, foram precocemente combatidos pela nova ordem cristã que se empenhou em fechá-los.
Esse fato, associado a outras importantes mudanças no urbanismo das cidades, alcançou o novo mundo cristão em ascensão, inclusive e especialmente a prática médica, fechando as escolas de Medicina e interditando o manuseio do corpo morto para o estudo da anatomia. Esse conjunto fulminou as práticas médicas greco-romanas, sob a égide da ética hipocrática, e introduziu outro processo monolítico ideológico, sob forte fiscalização eclesiástica, reconstruindo outra ética na Medicina, que se estenderia até a baixa Idade Média.
Os serviços profissionais dos médicos, até então entendidas como trabalho profissional remunerado, passam para a categoria dos trabalhos que deveriam seguir o exemplo da evangelização de Jesus Cristo e dos apóstolos, cujos sacerdócios incluíram muitas curas milagrosas. O milagre cristão passou a ser a principal motivação da cura das doenças.
A ética da Medicina absorveu, na Roma cristianizada, o entendimento da doença como consequência da desobediência a Deus, a Jesus Cristo e aos santos, tornando-se sinônimo de castigo. Com as escolas de Medicina fechadas e consequentemente o ciclo da formação de médicos interrompido, o povo sem opções, se intensificaram as peregrinações aos santuários católicos, especialmente, Jerusalém e Santiago de Compostela, na Espanha.
Com o fechamento das escolas de Medicina, a partir do final do século 6, as práticas médicas se aproximaram das abadias e mosteiros, onde padres e freiras prestaram assistência aos doentes sob a égide da ética, moral e caridade cristã.
A partir do século 10, existem muitas referências sobre um personagem estranho e temido, que preencheu os espaços vazios deixados pela proibição eclesiástica da prática cirúrgica: o cirurgião-barbeiro. Sem formação médica, vínculo institucional ou obrigação ética, esses homens andarilhos percorriam os caminhos entre as cidades medievais, cortando cabelos, barbas e unhas, sem qualquer obrigação ética, amputavam membros gangrenados, lancetavam abscessos, quase sempre seguidos de morte dos doentes. Em determinas situações, essas mortes causadas pela prática dos cirurgiões-barbeiros, causavam intensos conflitos com a família dos mortos pela má prática ou com a administração dos burgos. Em certas cidades, quando os cirurgiões-barbeiros provocavam a morte de alguém com importância social, para evitar o linchamento, eram obrigados a fugir rapidamente.
O conjunto da Medicina, atada aos dogmas cristãos, acabaram no interior ou nas proximidades das abadias e conventos, distante das recomendações hipocráticas. Semelhante aos cirurgiões barbeiros, os padres despreparados provocaram tantos conflitos pela má prática, causando sequelas e mortes, gerando revoltas populares com destruição de igrejas e monastérios, que motivaram as autoridades cristãs, nos Concílios de Rems (1131) e de Roma (1139), a proibir que os religiosos exercessem a Medicina fora dos muros de suas instituições.


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Fantasy Art - Galeria


Greek Warrior.
Pablo Fernandez.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Cadeira de balanço




Pedro Lucas Lindoso

Eu, Cadeira de Balanço,
movediço trono e plataforma alada,
pra sempre antiga mesmo quando nova.
                                   (Max Carphentier)

As cadeiras de balanço em vime estão na memória afetiva da maioria dos amazonenses. Possivelmente, de muitos brasileiros também. Praticamente, em todas as casas da Manaus de antigamente havia cadeiras de balanço. Feitas de vime.
Só mesmo o grande bardo Marx Carphentier descreveria uma cadeira de balanço como “movediço trono e plataforma alada”. Ao ler o poema, exclamei: Meu Deus, a cadeira falante ressuscitou! É a cadeira de minha avó.  Uma das cadeiras de balanço da chácara da Vila Municipal. A cadeira em que minha avó sentava. Um trono! Decerto um verdadeiro trono! De uma carinhosa rainha drusa. Que acalentava netos em seus braços de generosos afagos.
Não tive dúvidas. A cadeira de minha avó ressurgia no poema de Max. “Uma plataforma alada”. Claro, a cadeira que na minha imaginação metamorfoseava-se num simpático Pégaso. Aquele cavalo alado da mitologia, símbolo da imortalidade. Seres mágicos capazes de alimentar-se de nuvens do entardecer e raios de sol. Justamente no entardecer de tardes úmidas e mornas. Pégasos imaginários que traziam do firmamento uma aragem benfazeja para presentear as pessoas. Aragem recolhida nos rios e igarapés que alagam a floresta. Era esse presente que minha avó desfrutava quase todas as tardes, em sua cadeira de balanço. Cuidadosamente posta na calçada, em frente ao grande portão, para o lado da pracinha.
Minha avó fazia várias atividades sentada em sua cadeira de balanço. Sempre gostou de ler enquanto se embalava. Ver televisão. Acarinhar os netos. Conversar com os vizinhos e principalmente desfrutar do suave frescor do lusco-fusco manauara.
As cadeiras de balanço atuais são diferentes daquelas da Manaus dos anos sessenta. Há muitas fabricadas em modelos tradicionais com fios de plástico. Outras são feitas de “junco”, uma fibra sintética.
Meu irmão mais velho, que mora em São Paulo, num rasgo de saudosismo, manifestou a vontade de ter uma cadeira de balanço em vime. Como as de antigamente. Encomendei a cadeira ao seu Ernandes. Um valoroso marceneiro com estabelecimento na esquina da Joaquim Nabuco com a Avenida Getúlio Vargas. Levei a cadeira embalada, normalmente despachada, em voo para São Paulo.  Não preciso dizer que o paulista baré encantou-se com o presente. Mais uma vez, o poeta estava certíssimo. As cadeiras de balanço são sempre antigas, mesmo quando novas.
E eu agradeço ao poeta por ter ressuscitado a cadeira de minha infância. Volto ao presente. Fico na certeza que as cadeiras de balanço já não são mais coisas somente das avós. A cadeira de balanço é um convite para ler, fazer poesia e principalmente relaxar.
Num país tropical como o nosso, a cadeira de balanço, ainda parafraseando Carphentier, é a “torre de vigia das varandas”. “Sempre velhos e jovens contemplam nos meus braços a próxima paisagem e a invisível”.
E eu convoco novamente o Pégaso de minha infância. O eterno comedor de nuvens e raios de sol. Sento-me na cadeira de balanço. Só me resta meditar e relaxar. No balanço das recordações.
PS: O poema “No balanço das recordações”, de Max Carphentier, encontra-se na página 79 do recém lançado livro A palavra de tudo, pela Editora Sejamos Luz.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

sábado, 28 de abril de 2018

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A busca da arqueologia da doença



João Bosco Botelho


A principal diferença entre as práticas médicas oficiais (autorizadas pelos Estados), as empíricas (resultantes do conhecimento historicamente acumulado) e as divinas (estruturadas na fé de todos os matizes, nas quais é crível que a matéria vida pode ser modificada pela ação divina) está assentada no fato de a oficial moldar o diagnóstico, o prognóstico e o tratamento a partir de propostas teóricas.
Esse conjunto histórico apresenta três momentos ou cortes epistemológicos, na linguagem de filósofo francês Gaston Bachelard:
– A teoria dos Quatro Humores elaborada pela Escola Médica de Cós, da Grécia, no século 4 a.C. Naquela época, pela primeira vez, a doença recebeu abordagens fora do domínio das divindades e passou à materialidade do corpo por meio de quatro humores: sanguíneo, fleumático, bilioso preto e bilioso amarelo. A saúde seria a resultante dos humores equilibrados e a doença, o contrário. Durante quase vinte séculos, para equilibrar os humores, as sumidades da medicina faziam sangrias e prescreviam substâncias que provocavam a diarreia e o vômito.
– No século 17, o aperfeiçoamento das lentes de aumento polidas, a partir das publicações de Marcelo Malpighi (1628 1694), deslocou a busca da doença do corpo visível na direção das estruturas invisíveis aos olhos desarmados, iniciando o pensamento micrológico, que diagnostica a infecção, o tumor benigno ou maligno.
– No século 19, os geniais estudos do frade agostiniano Gregor Mendel (1822 1844), não sabendo que mudaria definitivamente a compreensão da matéria viva, impulsionaram a passagem da celular e bacteriana (diagnóstico da infecção e do tumor) à molécula, inaugurando o pensamento molecular, lembrando que existem milhões de moléculas numa única célula e em uma bactéria. O produto final será a completa compreensão dos genes, não só a simples identificação gênica do projeto Genoma, mas a identificação da função de cada gene. Apesar da extraordinária importância, o projeto genoma só mapeou os genes, muito distante da futura compreensão de como eles funcionam inter-relacionados com a diversidade dos seres viventes.
Mesmo com os imensos avanços da ciência da compreensão da arqueologia das doenças, no pequeno intervalo de tempo, o médico percebe mais dúvidas do que certezas, no cotidiano da prática profissional, sem poder evitar o sofrimento fora de controle e a morte prematura. Essa realidade é mais visível em certos cânceres, algumas doenças causadas por vírus e outras compreendidas como distúrbios de comportamentos e imunomoduladas.
Essa é uma das grandes sagas da inteligência humana: continuar empurrando os limites da vida sem compreender completamente a arqueologia da doença, onde o normal se transforma em doença!
Com o conhecimento atual caminhando em direção à estrutura atômica, muito além da molécula, é claro supor que esse será o caminho da busca da arqueologia da doença nos próximos séculos (já lastimo não estar presente): a busca da cura entre os átomos! Representará para a ciência o advento do quarto corte epistemológico da medicina – o pensamento atômico – trazendo novas respostas para continuar empurrando o limite da vida.
Por outro lado, existem questões importantes não resolvidas que interligam as medicinas oficiais e divinas: existiriam pessoas com poderes excepcionais – dom – suficientes para curar pessoas, isto é, mudar a estrutura da matéria viva fora das leis físicas que regem o universo?

quarta-feira, 25 de abril de 2018

terça-feira, 24 de abril de 2018

Índio quer apito, futebol e respeito



Pedro Lucas Lindoso


Dia 19 de abril. Dia do índio. Todo dia era dia de índio, reza a famosa canção. 19 de abril de 1997. Galdino Jesus dos Santos, líder indígena da etnia pataxó, participa em Brasília de manifestações pelo dia do índio. Na madrugada seguinte, foi queimado vivo enquanto dormia em um abrigo de um ponto de ônibus da capital. O crime foi praticado por cinco jovens. 19 de abril é um triste dia para os pataxós.
Há muito pouco o que comemorar entre as outras etnias espalhadas pelo Brasil. Segundo o IBGE, existem 305 etnias e 274 idiomas. Os indígenas autodeclarados representam menos de 1% dos habitantes do país.
Estava curioso em saber o que desejam os jovens índios de nossos dias. Fui conversar com meu amigo Paulinho Dessana. Soube que o grande desejo de muitos jovens indígenas é igual a de muitos outros jovens brasileiros. Principalmente em época de Copa do Mundo. Tornar-se um Neymar. Um craque da bola.
Para as lideranças indígenas o futebol é uma excelente ferramenta de inclusão social. Por outro lado, como diz Paulinho, as falcatruas dos cartolas são incompatíveis com os valores dos povos indígenas.
Aqui no Amazonas temos o Campeonato Peladão.  A maior competição de futebol amador do país. Dentre as várias modalidades –  sênior, infantil e feminina – temos a indígena. A participação dos índios no campeonato é importante para eles. É uma autoafirmação. Os indígenas querem dizer para os não indígenas que podem ser iguais a eles. O futebol é uma forma de quebrar paradigmas e o isolamento.
Paulinho conta que um dos grandes goleadores de um time indígena costumava entrar em campo usando cocar e pinturas características de sua tribo. Um olheiro levou-o para um time profissional da cidade. Infelizmente, para que os times possam prosperar é preciso intensificar o intercâmbio com os brancos. Nem sempre isso é harmonioso e traz vantagens para os times indígenas. Há o choque cultural. Proibiram o cocar e as pinturas.
Meu amigo Paulinho é árbitro de um time de índios urbanos, aqui em Manaus. Um grupo de amigos fez uma vaquinha. Compramos uma caixa de apito FOX PEARL. Uma das melhores marcas de apito para árbitros. Foi nosso presente para o Paulinho, pelo 19 de abril, dia do Índio. 
Os índios continuam querendo apito, futebol e, principalmente, respeito.

domingo, 22 de abril de 2018

sábado, 21 de abril de 2018

Fantasy Art - Galeria


Reader of bones.
Mitch Foust.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Poe/ /Mao



Zemaria Pinto


poeira
a cidade retalhada em fotoquadros
papers online papiros de sobrenada
pairando submersos insondáveis   

poente
en la noche todos los grelos son pastos
na escuridão indelével indecifrável
da submissa cidade sublevada

poema
um canto negro ao poeta
o andar trôpego o morrer nos olhos
como se não ouvisse a manhã

Dolorosa busca da consciência



João Bosco Botelho


A humanidade, caminhando nos espaços sagrados, e profanos tem procurado a natureza da consciência não mensurada, até o momento, imaginada.
No espaço sagrado, consagrando coisas e pessoas, a divindade passou a ser a força motriz de todos os sentimentos. Em consequência, a vontade divina tem sido a dominadora das emoções, restando à humanidade cumprir, fielmente, o determinismo inexorável vindo do invisível, obedecendo às ordens dos representantes na terra do poder transcendente e agradecer, com oferendas e ritos de louvor, a vida vivida.
No espaço profano, buscando a ressonância das ideias na realidade visível e mensurável, homens e mulheres iniciaram a busca para conhecer o próprio corpo escondido atrás da pele e apreender porque chora, ri, ama e odeia.
O esforço para desvendar a consciência tem se mostrado doloroso porque o conjunto teórico está amparado no conflito de competência entre os dois espaços para desfazer as dúvidas e seduzir pelo convencimento.
De um lado, no sagrado, a persuasão tem sido a sagração do corpo e de coisas, transformando-as no centro, para facilitar a comunicação com a divindade. Do outro, no profano, ligado no naturalmente observável e mensurável, tentando legitimar o imaginado.
É história de longa duração!
Os registros em escrita cuneiforme apontam que o fígado era o mais importante, o centro do corpo. É impossível saber a razão exata dessa escolha e não outro órgão como o pulmão e o coração. É possível teorizar em torno da preferência a partir da alta prevalência de doenças hepáticas e febres, provocando icterícias mortais nos habitantes das margens alagadiças dos rios Tigre e Eufrates. Sob esse pressuposto, se alguém pudesse interpretar as variações na forma, na anatomia, do fígado, seria capaz de prever a saúde futura e, por conseguinte, os malefícios e benefícios na vida social. Desse nodo, a adivinhação por meio da hepatoscopia – a interpretação das formas do fígado no carneiro –, para interpretar a vontade da divindade, era prática corriqueira, ao menos entre os que podiam comprar o animal e pagar o adivinho.
O judaísmo, resistindo desde os primeiros tempos à tradição politeísta, deslocou o centro do corpo para o coração, talvez motivado pelas mudanças sentidas no ritmo cardíaco durante as emoções. No Antigo Testamento (AT) existem citações metafóricas do coração como sede da vida física (Ge 18, 5; At 14, 17), da tristeza (Dt 15, 10), da alegria (Dt 28, 47) e do medo (Dt 20, 3).
Confrontando o monoteísmo judaico, os médicos gregos, na Escola de Kós, no século 4 a.C., de modo genial, nos aforismos hipocráticos, aproximaram a consciência do cérebro: “Algumas pessoas dizem que o coração é o órgão com o qual pensamos e que ele sente dor e ansiedade. Porém não é bem assim: os homens precisam saber que é do cérebro e somente do cérebro que se originam os nossos prazeres, alegrias, risos e lágrimas. Por meio dele, fazemos quase tudo: pensamos, vemos, ouvimos e distinguimos o belo do feio, o bem do mal, o agradável do desagradável... O cérebro é o mensageiro da consciência... O cérebro é o intérprete da consciência”.
O cristianismo conservou a interpretação do Antigo Testamento: Deus comunicando-se com os homens por meio do coração (Mc 2, 6 8; Lc 3, 15; 2Co 2, 4). 
O islamismo manteve o coração, entretanto, e foi mais longe: talvez sob influência grega, associou o coração como representante da intuição (“al kashf”, revelação, ato de levantar o véu) e o ponto de identificação (wajd) com o Ser (al wujud). 
O maior desvendar profano do corpo chegou, nos séculos 16 e 17, com os estudos da anatomia e resgatou a maravilhosa percepção dos médicos hipocráticos da Escola de Kós, recolocando a consciência no cérebro. 
A suprema beleza da “Criação do Homem”, pintada por Michelangelo (1475 1564), no teto da Capela Sistina – o homem recebendo de Deus a inteligência, claramente o sistema nervoso central – é a sublime manifestação na arte do deslocamento do coração, como o centro do corpo, para o cérebro, aproximando os espaços sagrados e profanos.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Fantasy Art - Galeria


Nude on blue paper.
Felipe Echevarria.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Verbo enticar – transitivo indireto



Pedro Lucas Lindoso


Logo após o famoso imbróglio entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, ocorrido no plenário do Supremo Tribunal Federal, tia Idalina me liga do Rio de Janeiro.
– Coitada da Carminha! E eu pergunto:
– Mas quem é Carminha, titia?
– A Carmem Lúcia. Conheci Carminha quando participei de um seminário na Sorbonne. Um evento maravilhoso, em Paris. Ficamos amigas. Ela agora tem que ficar administrando entreveros entre esses marmanjos mal-educados. Um horror! O energúmeno do Gilmar Mendes, primeiro enticou com a Carminha. Depois, enticou com esse moço aqui do Rio de Janeiro, o Dr. Luiz Fux. Por último, foi enticar com o ministro Barroso. Levou um merecido carão.
Fazia anos que eu não ouvia o verbo enticar. Como se sabe, significa mexer com alguém, implicar, importunar, aborrecer. E também a palavra carão, no sentido de repreensão, reprimenda. Só mesmo tia Idalina. Palavras que mexem com minha memória afetiva. Minha mãe me dava “carão” se eu ficasse enticando com minhas irmãs menores.
– Não sabia que a senhora era amiga da ministra Carmem Lúcia, disse-lhe.
– Há muito tempo não converso com ela. É uma simpatia. Adoro a Carminha. É de Minas Gerais. Mais mineira que pão de queijo e broa de milho. Esses ministros brigões não conhecem os mineiros. Mineiro toma banana de macaco. Deixa o macaco contente e agradecido. E ainda devendo favor!
Essa definição de mineiro é ótima, disse-lhe. E nós amazonenses gostamos muito de banana. Frita, assada, cozida. Mingau de banana então é uma delícia!
– O amazonense briga com o macaco pelas bananas. Depois acusa o macaco de ser sulista e vir para o Amazonas levar vantagens e tomar as bananas dos amazonenses. Uma coisa!
Mas essa história dos ministros do STF ficarem enticando um com o outro é muito sério e constrangedor para os brasileiros.
– Pois é. O outro já está enticando com a Carmem Lúcia.
– Que outro, tia Idalina?
– Outro é o outro. Sei lá quem é o outro. E desligou.
Tia Idalina, amazonense moradora de Copacabana, sofre da mesma mineirice da ministra. É bom mesmo não enticar com elas.