Amigos do Fingidor

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Medicina na mitologia grega



João Bosco Botelho

As relações entre as práticas de curas e compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. Algumas vezes, é impossível distinguir onde começa uma e termina a outra, compreendendo que a mitologia nasce das relações com o mundo da natureza empírica, mas acima do meramente empírico.
Das primitivas relações do homem com o animal, predominando o sangue como garantia da vida, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o vegetal na busca da saúde e evitando a morte.
O uso do vegetal, indispensável para a sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios sobre a origem primeira e do destino final do ser humano. Evoluíram da epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e Yebá Beló da lenda desana da criação do Sol, indígenas do grupo linguístico tucano, das margens dos rios Tiquié e Papuri, no alto rio Negro.
Os registros do século 6 a.C. descrevendo a Medicina ligada à mitologia grega são, provavelmente, o produto das complexas relações do homem que antecedeu a formação do pensamento grego. É possível estabelecer certo paralelismo entre muitos aspectos das relações médico-míticas das civilizações babilônica, egípcia e indiana com as da Grécia antiga.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros. Posteriormente, identificado como Aplous, aquele que fala verdade. Apolo purificava a alma por meio das lavagens e aspersões e o corpo, com remédios. Por essa razão, o deus que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio recebeu educação do centauro Quiron para ser médico. A escolha do centauro foi feita porque dominava os saberes da música, magia, adivinhação, astronomia e Medicina. Além dessas habilidades, Quiron possuía incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
Para os gregos daquela época, Asclépio divinizou a Medicina. Celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro, data em que até hoje se comemora o dia do médico no Ocidente. Asclépio conquistou uma fama inimaginável, tinha a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doentes que não obtinham cura em outros lugares, procuravam as curas milagrosas desse deus curador. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Com esse imenso poder, ressuscitou alguns mortos. Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, ordenou a morte de Asclépio com os raios das Ciclopes.
A genealogia mítica de Asclépio identifica duas filhas, Hígia e Panaceia; a primeira, celebrada como deusa da saúde perfeita; a segunda, curadora por meio das plantas medicinais. Além delas, dois filhos, Machaon e Podalírio, descritos por Homero como médicos guerreiros, com destaque na guerra de Tróia.

Nos muitos registros de agradecimentos dos doentes para Asclépio, as esculturas produzidas, entre os séculos 6 e 2 a.C., contém a serpente enrolada no bastão. Seja qual tenha sido a razão que levou o homem, no passado, a estabelecer elos entre a serpente e a Medicina, está relacionada às imagens metafóricas da luta pela sobrevivência, entre as quais a mitologia é parte sustentadora.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Lábios que beijei 32


Zemaria Pinto

Alice



Como gerente de banco, eu conheci todo tipo de gente. Alice foi a mais estranha, numa escala de um para mil: ainda hoje tenho pesadelos com ela, um nome sem rosto que me infligiu um estigma na memória... Em uma manhã chuvosa, atendi ao telefone uma moça que buscava informar-se sobre operações ordinárias. Sua voz era rouca, jovial e vivaz, e, de repente, vi-me envolvido em uma conversa que há muito extrapolara o meramente profissional. Trocávamos informações sobre gostos comuns, preferências mútuas. Sugeri que conversássemos mais tarde. Ela não quis me dar seu número, disse que ligaria depois do expediente externo. Era uma situação comum: casada, ou algo parecido, ela mandava no jogo, sem expor-se a riscos. Naquela tarde, entretanto, nada aconteceu. Dias passados, já nem lembrava mais de Alice, ela ligou-me. A conversa estendeu-se por mais de uma hora. Alice era desinibida e talvez até um pouco atrevida em suas posições. Opinava sobre tudo – artes, política, esportes – e era muito firme em suas convicções. Quando eu disse que era casado, ela soltou uma gargalhada: – Até quando? No dia seguinte, ela voltou a ligar, para mais uma longa conversa. Aos poucos, percebi que aquele desembaraço escondia a mais amarga solidão. Mas ela não falava nada sobre sua vida pessoal. Dizia que quando nos encontrássemos eu ficaria sabendo de tudo sobre ela. As ligações continuaram diariamente, durante três semanas, ela sempre se esquivando de um encontro. Nos finais de semana, sentia falta de Alice, de sua voz sensual e moleca. Até que ela cedeu: marcamos um encontro para o anoitecer de sexta-feira. Trocaria o sagrado horário da cerveja com os amigos para conhecer de perto aquela mulher cuja voz me seduzia. Fui até o coreto da Praça da Polícia; esperei cerca de uma hora e meia. Alice não deu o ar de sua graça. Na segunda-feira, minha ânsia foi atendida com o toque do telefone no horário de costume: – Você não falou comigo... – Como, se você não apareceu? Fiquei feito um idiota, no coreto, vendo as pessoas passarem. Nem sequer me olhavam, tão apressadas. Além de mim, só uma moça paraplégica, levada por uma senhora de idade, estava no local. Aliás, eu saí e ela ficou... Nesse momento, percebi um “clic” do outro lado da linha. E nunca mais ouvi a enigmática voz de Alice.

domingo, 19 de outubro de 2014

Manaus, amor e memória CLXXXII


Homenagem ao caro Jacintho Fontenelle, que trazia o cinema no sangue.

sábado, 18 de outubro de 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Adrino Aragão: a grandeza do minimalismo na literatura 3/3


Zemaria Pinto

Caderno do escritor

Falei da árvore e dos frutos maturados. Pouco resta para falar desse fruto novo (novo, mas não verde) que é o livro Caderno do escritor, onde Adrino Aragão exercita, de modo ainda mais radical, o conto minimalista, não importa o nome que damos a ele. São 116 contos, mais um bônus sobre o qual falarei mais adiante.

Espelho meu, dizei-me: qual desses dois sou eu?[1]

Uma frase em uma linha, duas orações e nove palavras. Isto é um nanoconto de Adrino Aragão.

Vamos analisá-lo sumariamente. Em cada uma das orações, Adrino recupera alguns séculos de tradições literárias. “Espelho meu” é a clássica fala da madrasta de Branca de Neve, narrativa originária da tradição oral alemã, provavelmente da Idade Média, e compilada pelos irmãos Grimm na primeira metade do século XIX. A segunda frase – qual desses dois sou eu? – é a expressão profunda da figura literária chamada “duplo”, expressa, para melhor entendimento, pela fórmula “eu = outro”. Ao defrontar-se com o espelho e fazer a pergunta, o narrador-personagem remete-nos a Jorge Luis Borges, uma influência confessa na obra de Adrino Aragão. Mas isso é pouco. Há mais de dois mil e duzentos anos, o romano Plauto já brincava com essa figura em Anfitrião. Mas não nos alonguemos, isto é apenas uma apresentação, não uma tese.

Alguns contos parecem ser a conclusão de uma narrativa mais longa. Cabe ao leitor montar a história anterior. Um exemplo:

Há uma dor ácida de profunda solidão por toda a quitinete, desde que ela me deixou. Acordo (acordo?) no meio da noite, não sei que rumo tomar: você não sabe o que é o amor de um velho apaixonado[2].

Alguns contos não escondem que são poemas, como neste autêntico haicai:

Trégua na mata:
o grito do acauã
esfacela o silêncio[3].

A metalinguagem é tema recorrente, como demonstrado por Joaquim Branco, na obra de Adrino Aragão. E não poderia ser diferente neste livro, onde vários contos são construídos a partir do tensionamento entre o narrador e a narrativa. Este conto de sete palavras poderia ser inserido na parte inicial deste trabalho, onde tentamos definir o conto enquanto gênero literário:

O conto não é ponto final: é interrogação[4].

O bônus a que me referi anteriormente é um conto chamado “Velho Catuxo”, apresentado em três versões. E mais não direi para não estragar a surpresa.

Poderia falar muito mais sobre este pequeno grande livro, que confirma a assertiva de Bachelard: “a miniatura é uma das moradas da grandeza”[5]. Poderia citar exemplos da sensualidade que penetra suavemente vários contos do livro... Poderia falar das personagens do povo, naturalmente anônimas: o homem rico e generoso que foi parar no asilo de velhos desamparados, a menina pobre que deu o golpe do baú, o jogador de futebol vencido pelas drogas, a Nega Charuto no céu... Não. Leiam e releiam e descubram esse universo mínimo de Adrino Aragão, contido nesta casca de noz que é o Caderno do escritor e vão compreender porque o poeta e pintor Fernando Abritta, que ilustrou o livro, dedicou-lhe estas enigmáticas palavras:

Adrino escreve como um menino que, munido de uma atiradeira, vai acertando as lâmpadas acesas que iluminam o cotidiano e, ao quebrar essas certezas, faz com que a gente enxergue um pouco melhor[6].

Adrino, meu velho, aceite o meu abraço fraterno por mais esta façanha.




[1] Obra citada: p. 56.
[2] Obra citada: p. 18.
[3] Obra citada: p. 100.
[4] Obra citada: p. 126.
[5] In: A poética do espaço (São Paulo: Nova Cultural, 1988), p. 210.
[6] 4ª capa do livro Cadernos do escritor.

Os anseios das cunhãs



Aldisio Filgueiras e Leyla Leong debatem a crise do jornalismo cultural



Doutores fritz



João Bosco Botelho
          
           A antropóloga Maria Andréa Loyola após pesquisa realizada em Nova Iguaçu e Santa Rita (RJ), entre 1976 e 1979, estabeleceu importantes relações entre a busca de saúde nos hospitais e ambulatórios púbicos e a dos curadores por ela denominados "especialistas não reconhecidos" (rezadores, padres, freiras, pastores, benzedores, pais e mães de santos) e por mim caracterizados como "doutores fritz".
           Os resultados desse trabalho estão publicados no livro "Médicos e curandeiros: conflito social e saúde", de 1982, onde a pesquisadora esclarece que a procura do tratamento fora das instituições públicas representa reconstruções pessoais e coletivas, para superar a absoluta ausência do Estado, na atenção médica primária, a penúria social, certeza do abandono e, especialmente, o descrédito nos médicos e hospitais. Os "doutores fritz" possibilitam reinserções sociais por meio de outros sistemas de poderes locais relativamente autônomos que permitem aos suplicantes afirmarem as identidades e pensarem ser possível possuir lugares no mundo.
           Existem pontos que podem ser questionados tanto na elaboração quanto na reprodução da liberdade com que os "especialistas não reconhecidos" ou "doutores fritz" se multiplicam e atuam nas igrejas ligadas às muitas tendências religiosas. O início da discussão pode ser a partir do pressuposto de alguns segmentos dos poderes políticos usarem esses curadores como anteparo às pressões coletivas frente às dificuldades do atendimento médico no sistema público. Dito de outro modo, sem esses "especialistas não reconhecidos", a insatisfação popular cresceria gerando conflito e desgaste político.
           Nos anos 1970, apareceu no Rio de Janeiro um "doutor fritz" autodenominado "sete da lira". Esse personagem, durante alguns meses, sem ser importunado pelas autoridades sanitárias, atendeu milhares de pessoas no subúrbio de Campo Grande. Desgastado pelos incontáveis insucessos, esvaziado, restou o enorme patrimônio econômico da "fundação que administrava os dons mágicos do curador."
           Não é adequado rejeitar ou criticar a priori os "doutores fritz". É importante que essa discussão tome maior corpo nas universidades, inclusive na disciplina História da Medicina, para que os pesquisadores sociais, como a antropóloga Maria Andréa Loyola, continuem as análises e divulguem os resultados.
           No livro "Medicina e religião: conflito de competência", 2a. edição, que eu publiquei pela Editora Valer, em 2005, mantive a ideia de a importância mais imediata do sagrado continuar sendo a coisa sagrada, onde o conjunto que encanta e reproduz possui um ou mais objetos de fixação, do culto do corpo santo às relíquias, das imagens às oferendas nas encruzilhadas, gerando consciência e resposta, ajudando os suplicantes a achar e ocupar os lugares no mundo.
           Historicamente, a maioria dos cultos de conjuração é terapêutica, para amenizar a dor da pobreza ou a cólica menstrual. Essa forma de atuar na saúde e na doença, por ser mágica, sem passar por médicos e hospitais desacreditados, é a mais comum e toca fundamentalmente no cerne da existência humana na ambição de recuperar a saúde e evitar a morte precoce.

           Os inaceitáveis indicadores que continuam contribuindo para a reprodução dos "doutores fritz" começam no atual modelo de desenvolvimento, gerador dos enormes desníveis socioculturais e se consolidam na ausência de uma política voltada para a atenção primária da saúde e da infância nos países onde os atendimentos médicos primários são frágeis ou inexistentes.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude


Embora um pequeno-burguês, eu penso como aquele príncipe de Lampedusa: para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.

(João Sebastiãong  ebastião - a, num surto de cinismo, justificando seu voto em Apoeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos, eleitor do PT desde 1982 –, num acesso de cinismo, justificando seu voto em Aécio Neves)

O verdadeiro caminho


O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser trilhada.


(Franz Kafka)

domingo, 12 de outubro de 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Adrino Aragão: a grandeza do minimalismo na literatura 2/3


Zemaria Pinto

O conto à meia-luz

O professor Joaquim Branco trabalha com três livros de Adrino Aragão: Inquietação de um feto, Tigre no espelho e Conto, não-conto & outras inquietações. Três momentos diferentes do autor, três fases distintas de uma mesma obra: o jovem, o homem maduro, o mestre.

De Inquietação de um feto, Joaquim Branco destaca “o poético na confluência da prosa”[1]: de fato, Adrino Aragão opta pelo afastamento total do realismo que minava a contística amazonense e constrói pequenas narrativas onde a linguagem transita, sem nenhum pudor, entre o mito e o místico: “Voo de Ícaro”, “Invenção”, “Rosa vigiada”, “Filho”, “O afogado”, são contos que, nas palavras de Arthur Engrácio, sabiamente recuperadas por Joaquim Branco, “além de invadirem o terreno do fantástico, do mistério e do absurdo, tocam de perto o poético.”[2] Para ilustrar sua tese, Engrácio transforma os dois parágrafos, de cinco linhas cada, do conto “Filho” em um poema, de duas estrofes, com sete versos cada, “com resultados surpreendentes”:

Tens as vestes esfarrapadas, meu filho.
Teus caminhos são tortuosos.
Teus pés estão feridos e o corpo lanhado de espinhos.
Te perdeste na procura do caminho
onde poucos estiveram.
O cavaleiro da estrada quis punir-te;
foste poupado.

Vem, meu filho.
Vou cobrir a nudez de teu corpo cansado.
Do cordeiro e do leão fiei tuas vestes.
E nas três varas de bambu
sustentarás teu corpo.
Até que a espiga haja crescido viçosa
e teus filhos estejam alimentados[3].
   
Em Tigre no espelho, Joaquim Branco ressalta “o uso da intertextualidade, da metalinguagem e o enfrentamento do ‘outro’, presentes em quase todo o percurso narrativo do livro, preparando o terreno que vai se tornar a própria substância da ficção”[4].

De fato, usando referências que fazem pontes entre Edgar Allan Poe e Franz Kafka, Guimarães Rosa e Ernest Hemingway, Adrino Aragão constrói um labirinto borgeano onde em cada passagem questiona-se o próprio fazer literário, tal como ensinara o onipresente Jorge Luis Borges. Joaquim Branco diz que, valendo-se do entrelaçamento de textos e personagens diversos, e de uma linguagem adstrita ao realismo fantástico, em Adrino “a mímese se realiza predominantemente através de processos metalinguísticos”[5], ao que eu acrescentaria o embate consigo mesmo (o outro, o espelho), usando a literatura para desmistificar a si mesma, como neste fragmento, extraído de “Anotações para um conto”:

Que diabo! Um escritor não pode ficar tanto tempo sem escrever. Por mais que me esforce não consigo escrever nada. Nem um conto sequer. O último trabalho como que me sugou totalmente. Decidi não ficar esperando pela inspiração e tentei desenvolver algumas ideias mas não deu certo. Só consigo escrever impulsionado por uma força interior me sufocando, gritando para sair[6].  

Em 1999, escrevi um breve e despretensioso ensaio sobre Tigre no espelho, onde observo que o tema central do livro é a problematização do ato de criar, de fazer arte[7]. Esse tema está presente em dez dos doze contos do livro – que, por sinal, não se enquadram no escopo restrito da obra de Joaquim Branco: os mini, micro ou nanocontos. Mas é exatamente esse questionamento recorrente que interessa ao crítico, antes de chegar à grandeza das miniaturas de Conto, não-conto & outras inquietações, o cerne de sua pesquisa.

Nesse livro, Joaquim Branco anota que “se concentra a maior força criativa do autor, que consegue em poucas linhas, descobrir – no sentido de abrir, levantar o véu – um universo de sugestões e vias para o leitor. Ali são demonstradas as relações entre o trágico e o cotidiano, remontando ao mitológico grego”[8]

Eu diria mais, pois Adrino Aragão, neste livro mais que em qualquer outro, assume um lado regionalista – mas não aquele ligado ao realismo-naturalismo: um regionalismo anterior, mítico, essencialmente amazônida. Aliás, nunca é demais repetir: “poucas literaturas têm uma retaguarda mitológica tão expressiva como a literatura amazonense; poucas literaturas têm o luxo de uma mitologia própria, cujas origens confundem-se com as várias etapas do desenvolvimento da humanidade”[9]. Como exemplo, o próprio Joaquim Branco cita o miniconto “encantamento”:

a canoa solitária descia de bubuia as águas barrentas do solimões. ao redor de chapéus de palha que flutuavam ao sabor da correnteza, o festim dos botos anunciava o encantamento de duas cunhãs do vilarejo[10].




[1] Obra citada: p. 62.
[2] Obra citada: p. 68.
[3] Obra citada, p. 68-69.
[4] Obra citada: p. 51.
[5] Obra citada: p. 53
[6] Tigre no espelho, p. 75.
[7] “Tigre no espelho”, in: Análise Literária das Obras do Vestibular 2000 (Manaus: EDUA, 1999).
[8] Obra citada: p. 80.
[9] Frases pinçadas do meu livro O conto no Amazonas (Manaus: Valer, 2011. p. 19).
[10] Obra citada: p. 75. 

A identidade geográfica da Amazônia



A medicina grega e a filosofia jônica


João Bosco Botelho


A Medicina apareceu com clareza na estrutura do pensamento grego, no final do século 5 e nos dois seguintes, de forma tão bem sedimentada, influenciando, marcadamente, os caminhos das práticas médicas no Ocidente, que perduram até os dias atuais.
O mais notável desenvolvimento da Medicina grega ocorreu após as guerras médicas (490-479). A partir daquela época, o médico aparece como agente público intermediando a formação social e edificando o pensamento coletivo, indo além da busca da saúde.
Empédocles, médico e filósofo do século 5, utilizou a clepsidra para ilustrar a própria teoria da respiração, segundo a qual o corpo transpira através dos poros espalhados por toda a superfície da pele.
A construção da Medicina ligada à filosofia grega está inserida nas concepções jônicas da natureza. A influência jônica foi tão grande que toda a literatura médica daquela época que chegou até nós foi registrada em prosa jônica, apesar de escrita em Cós, ilha de população e língua dórica. Este fato só pode ser explicado pelo avanço da cultura e da ciência jônica naquele tempo.
A importância social do médico como agente na busca da saúde já era reconhecido desde Homero: O médico vale por muitos homens. Porém, a consolidação dessa posição foi alcançada a partir da busca da relação do corpo com a natureza, referida de diferentes modos por Platão (Prot. 313 D,Gorg. 450 A, 517 E, Rep.298 A e Timeu 78B), onde o médico é fixado em posição social definida.
Os vínculos da Medicina com a natureza jônica, que tão bem assimilaram na Escola de Cós, sob a liderança de Hipócrates, atingia fortemente as relações sociais, reafirmados em Sólon, que descreveu a conexão das doenças com a administração da pólis. Baseado nesse pressuposto, Sólon fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiram na qualidade da saúde coletiva.
Os elos entre o binômio saúde-doença com a natureza jônica estão nitidamente presentes na introdução do livro Dos Ventos, Águas e Religiões, de autor desconhecido, do século V a.C.: Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presente as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua essência especifica e quanto as sua mudanças.
O ponto fundamental da Medicina grega, dos séculos 4 e 5,  está marcada nessa forte união entre a filosofia jônica e o conceito de saúde e de doença.
Nessa mesma época, entre os séculos 5 e 4, a Escola de Cós, que congregou médicos e filósofos, sob a influência de Hipócrates, recebeu sinais de Platão, que reconheceu a personificação da Medicina em (Prot.313 B-C e Fedro 270 C). Esse genial filósofo também criticou a diferença entre os tratamentos recebidos pelos ricos e escravos (Leis, 857 D e 720 C–D). De modo satírico, explica que os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas e sem falar com os doentes.
O interesse do homem culto grego pela Medicina pode ser compreendido na figura do jovem Eutidemo, que Xenofonte  descreveu como grande entendido da Medicina sem ser médico, e do historiador Tulcídides, que relatou com incrível minúcia o quadro médico social da peste que assolou Atenas entre os anos 430 e 427 a.C.

Aristóteles distinguiu na sua magistral obra Política (I, II, 1282), o médico do homem culto em Medicina atada à natureza, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar para melhorar a saúde coletiva. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Editora Valer terá programação especial na Feira do Livro de Manaus


(Divulgação)


A Editora Valer preparou uma programação especial para a segunda edição da Feira do Livro de Manaus. Durante o evento, que acontecerá de 8 a 12 de outubro no Studio 5, a editora realizará vários lançamentos. 


Para começar, no dia 8, às 18h, tem a apresentação do livro Regime das Águas, de Francisco Vasconcelos, que chega à quarta edição. A obra dá expressão ao pensamento caboclo.  O autor faz um registro do homem amazônico e de sua vida, do seu dia a dia cheio de esperanças e de desenganos; mas as inquietudes, preocupações e condicionamentos do caboclo são próprios de qualquer homem, de qualquer lugar. 

No dia 9, quinta-feira, às 18h, Zemaria Pinto lançará o infantojuvenil Viagens na casa do meu avô. Na obra, o autor conta as aventuras de Luna pelos cômodos da casa do avô: a gaveta embutida que se transforma num barquinho, o sofá que vira escorregador e a escalada a montanha de livros que existe na biblioteca. De acordo com o escritor Tenório Telles, a obra é “uma história sobre o processo de compreensão do mundo”.  

Soldados da borracha – Das vivências do passado às lutas contemporâneas, de Frederico Alexandre de Oliveira Lima, é o lançamento do dia 10, também às 18h. O livro recusa os marcos tradicionais que insistiram em ver a saga dos soldados da borracha encerrada no passado. O autor reivindica a atenção dos poderes públicos e o direito de reinserção na história.   


No sábado, dia 11, acontecerão dois lançamentos. Às 16h30, Wilson Nogueira apresentará Boi-Bumbá – Imaginário e espetáculo na Amazônia.  O livro nos ajuda a entender melhor o caldeirão cultural que é o Festival de Parintins. O autor mostra os vários aspectos do evento e situa o Boi-bumbá como manifestação cultural da Amazônia que é o desaguadouro do imaginário amazônico para o espetáculo midiático.  

Às 17h30, Cleber Sanches lançará Amazônia Mitos e Lendas – Seres encantados da floresta. A obra mostra como os seres mitológicos que habitam a selva amazônica defendem seu bem mais precioso, a vida selvagem. É uma bandeira de preservação da natureza, denotando a luta pelo equilíbrio natural do meio ambiente, contida no imaginário popular. Após os autógrafos, o autor participará de um bate-papo com o público.


Para finalizar, no domingo (12), Dia das Crianças, às 16h, Ana Celia Ossame lançará O planeta azul. A obra é uma narrativa sensível e humana em que as personagens Lelê e Carol se divertem com suas descobertas sobre a vida e o planeta em que vivemos.


Viagens na casa do meu avô, de Zemaria Pinto




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Lábios que beijei 31



Zemaria Pinto
Verônica

Vivendo com um sujeito desquitado, Verônica sofria com o preconceito de parte das demais colegas – casadas, noivas, namoradas. Isso, de certa forma, deixava-a à vontade para trair o companheiro. Mas ela dizia que quando viesse o divórcio e eles se casassem formalmente ela não o trairia mais. Enquanto isso, eu aproveitava a sua disponibilidade...

(Para continuar a leitura, acesse o blog Poesia na Alcova.)

domingo, 5 de outubro de 2014

Manaus, amor e memória CLXXX


Bonde "descendo" (pelo menos é o que parece) para o Centro, pela atual 7 de Setembro.

sábado, 4 de outubro de 2014

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Adrino Aragão: a grandeza do minimalismo na literatura 1/3


Zemaria Pinto[1]


Fui incumbido de nesta manhã falar do mais novo livro de Adrino Aragão: Caderno do escritor. E também sobre o mais novo – e talvez o mais completo – estudo realizado sobre a obra deste autor: O conto à meia-luz, resultado de um estudo intitulado Marcas ficcionais no discurso mimético e minimalista de Adrino Aragão, do escritor e professor Joaquim Branco, mineiro de Cataguases, que o apresentou em 2010 no curso de Pós-Doutorado da Faculdade de Letras da UFRJ[2].

Agradeço, caro Adrino, a confiança em mim depositada.


Um pouco de teoria

Antes de falar dos livros, entretanto, discorrerei sobre este gênero literário muitas vezes incompreendido: o conto[3].

Definir o conto sempre foi questão controversa, desde que o Romantismo o consagrou como forma, embora sua gênese se estenda às narrativas mitológicas, na madrugada dos tempos. Para ficarmos num exemplo bem próximo, na apresentação de Papéis avulsos (1882), Machado de Assis escreveu: “Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil.” Eram narrativas curtas, contos típicos, com exceção de um, que se dividia em 13 capítulos: O alienista. Sem dúvida, as desventuras de Simão Bacamarte foram responsáveis por aquelas palavras de hesitação do mestre.

Uma frase de Mário de Andrade, no esquecido livro O empalhador de passarinhos (1944), tem sido usada à toa, para justificar equívocos: “Em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto.”[4] Bobagem. O conto pode sim ser definido, desde que nos permitamos alguma abstração.

A palavra “conto” tem origem no vocábulo latino computus – cálculo, cômputo –, derivado do verbo computare, que, com o passar do tempo, adquiriu o sentido de “enumerar detalhes”, “contar detalhes”, evoluindo, a partir do século XVI, para o significado que hoje utilizamos: relatar, narrar. Mas o conto enquanto gênero é muito anterior, escondido em inúmeros nomes-disfarces: mito, lenda, fábula, caso, apólogo, parábola...

Apropriadamente chamado em inglês de short story, ou história curta, podemos definir o conto de forma muito simples, pois é a estrutura da imensa maioria das narrativas assim classificadas: o conto tem uma história bem definida, poucos personagens, tempo e ação muito concentrados, passados num só ambiente. Isso nos remete à tríplice unidade pretendida por Aristóteles: que a história narrada tenha uma ação bem definida, um só episódio, com poucas personagens; passe-se num tempo curto, fácil de mensurar; e que se passe num só ambiente ou lugar.

Algumas palavras precisam ser ditas sobre a linguagem do conto – e aqui estamos pensando nos contos desenvolvidos a partir do movimento romântico, no século XIX: narrativa concisa; ausência de digressões; economia de descrições; uso do diálogo, visando objetivar a narrativa. E ponto de vista único – narrativa em primeira pessoa ou por narrador onisciente ou observador.

Mais recentemente, uma nova modalidade de conto surgiu, a partir do conceito de minimalismo – redução ao mínimo dos recursos utilizados –, empregado mais usualmente nas artes plásticas e na música. Chamado de miniconto, microconto ou nanoconto, condensa de tal forma a expressão, que pode ser enunciado numa única frase. Esse radicalismo é uma alegoria do próprio desenvolvimento do conto ao longo dos séculos, em busca da síntese absoluta – ou da batida perfeita.

No meu blog Palavra do Fingidor publiquei dois livros de nanocontos integralmente: o meu Drops de pimenta e Conto, não-conto & outras inquietações, de Adrino Aragão, além de experiências de Allison Leão, com quem escrevi uma teoria do nanoconto, da qual vou poupá-los, por ser um tanto extensa. Relembro aqui apenas seu desfecho, citando Cortázar:

O romance ganha por pontos; o conto, por nocaute; o nanoconto é um tiro de bala dundum na mente do leitor incauto[5].




[1] Apresentação realizada na manhã de 23 de março de 2013, no Salão do Pensamento Amazônico, na Academia Amazonense de Letras. Publicado no n° 33 da Revista da AAL, em dezembro do mesmo ano.
[2] Apresentação dos livros Caderno do Escritor (Cataguases: Jaraqui, 2012) e O conto à meia luz (Cataguases: FUNCEC, 2010), feita na Academia Amazonense de Letras, na manhã do dia 23/03/2013.
[3] Utilizei trechos do meu livro O conto no Amazonas (Manaus: Valer, 2011. p. 7-13).
[4] Citado por Ênio Tavares, em Teoria Literária: 11ª ed., Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vila Rica Editoras Reunidas, 1996.