Amigos do Fingidor

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Só vou se for pela VARIG


Pedro Lucas Lindoso

            Na última vez que fui ao Rio de Janeiro, visitei Tia Idalina. Vaidosa ao extremo, pinta os cabelos de preto graúna e as unhas de vermelho paixão, combinando com batom vermelho tango. Fez 85 anos outro dia.  Mas para todos diz que completou 72. Ela mesma se trai. Alguém que diz aos quatro ventos que quando menina vestia-se igual à Shirley Temple. E chama comercial de TV de ”reclame”! Essa pessoa não pode ter menos de 80 anos.de idade.
           Tia Idalina gosta de fazer palavras cruzadas e poemas. Escreve-os à mão. Até hoje não enfrentou o computador. Quando cheguei a sua casa havia terminado um soneto cujo tema era vaidade. Elogiei o texto. Tecnicamente perfeito, mas um pouco sem graça.  Ela então pediu a sua neta Tina:
            – Minha filha, bata este poema. Um original e duas cópias, por favor.
            Traduzindo para linguagem do século XXI, Tina foi solicitada a digitar e imprimir três cópias do poema.
            Tia Idalina mora em Copacabana. Diz ela que há mais amazonenses e seus descendentes em Copacabana do que em Manaus. Um exagero. Mas explica que antigamente todas as pessoas de bem tinham apartamento no Rio de Janeiro. Agora muitos vão para São Paulo e Fortaleza. Compram imóveis por lá. Tia Idalina tem saudades de Manaus, mas diz que não volta mais.
            – Todos morreram e o casarão do centro foi destruído.
            Eu disse a ela que Manaus estava muito bonita, com vários shopping centers. Ela rebateu:
            – Detesto shoppings. Gostava mesmo do Mercado Adolpho Lisboa. Mas dizem que não existe mais.
            Expliquei-lhe que o Mercadão estava fechado para restauro, mas que iria reabrir em breve. Perguntei-lhe se fazia muitos anos que não visitava Manaus. Ela me disse que quando foi por lá não havia festivais de ópera.  Lembrou-se da última vez em que esteve no Teatro Amazonas. Foi assistir a Dercy Gonçalves.
            – Falava tanto palavrão que o lustre do Teatro tremia. Até os fantasmas gargalhavam. Um horror. Que Deus a tenha.
            Então eu lhe disse que ela devia visitar novamente a cidade. O Mercadão vai reabrir. A Praça da Polícia estava uma beleza. O antigo quartel estava transformado em Palacete Provincial. Derrubaram aquele prédio modernoso que ficava em frente ao Rio Negro Clube. A Praça da Saudade estava toda restaurada. Uma maravilha. Então, ela disse:
            – É mesmo? Então, vou voltar! Tina, amanhã vamos a uma loja da VARIG comprar as passagens.
            Expliquei-lhe que não havia mais loja da VARIG. Passagens se compram pela internet. E que a VARIG não voa mais para Manaus. Ela, bastante decepcionada, me disse:
            – Já decidi. Não volto mais, então! Do Rio para Manaus, só vou se for pela VARIG. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

sábado, 24 de janeiro de 2015

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 7/7


Zemaria Pinto


longa travessia,
repousa o corpo em silêncio
– porto-calmaria

ondas cavalgadas
nos limites do infinito
– relâmpago sob o sol

Áureo Mello (15/06/1924-22/01/2015)



Medicina e direito sob a égide laica



João Bosco Botelho

Nas culturas que se desenvolveram mais intensamente durante o segundo milênio a. C., no Oriente, as práticas médicas também estavam claramente dependentes das idéias e crenças religiosas por meio de muitos deusas e deuses taumaturgos. Não existia um processo teórico para explicar a saúde, a doença e os delitos fora das idéias e crenças religiosas.

O primeiro a reconhecer e legislar a prática médica e os julgadores, atribuindo claramente deveres e direitos aos médicos e aos julgadores, além de estabelecer o valor do pagamento pelos serviços e penalidades pela má prática médica, foi o rei Hammurabi (1728-1686 a.C), da Babilônia, autor do código de Hammurabi. Em outras palavras, estava iniciado o julgamento laico da má prática do médico ligada ao mau resultado, que prejudicava o doente e gerando indenização ao paciente ou à família.

Apesar de o código de Hammurabi não ter sido a primeira tentativa de legislar os conflitos envolvendo médicos e julgadores, fora das crenças e idéias religiosas, sem dúvida, foi pioneiro para reconhecer o trabalho do médico arbitrado pelo julgador como capaz de administrar os conflitos sociais suficientemente fortes para provocar resposta disciplinadora da autoridade dominante.

Antes de Hammurabi, outros dirigentes legislaram, no Oriente Antigo, as relações sociais do homem. Os mais conhecidos foram: o código do rei Ur-Nammu (2050-2030 a.C.), a coleção de leis de Urukagima, de Lagas, da mesma época, o código do rei Bilalama, de Eshnuma, (1825-1787 a.C.) e o de Lipit-istar, de Isin, (1875-1865 a.C).

O Código de Hammurabi permite entender certos critérios, sempre em torno dos bons resultados, das leis que regiam a ação médica, na Babilônia, governada pelo rei Hammurabi. Se pensarmos que as leis também exercem função de evitar conflitos, os artigos penalizando ou premiando o médico, por estarem na mesma coluna daquela regulamentando as profissões dos barbeiros, pedreiros e barqueiros, é possível pressupor um elo comum: se tratavam de categorias envolvidas em conflitos inquietantes à administração. Dessa forma, somente a ação do julgador, ligado ao poder dominador, estaria suficientemente organizada para mediar os conflitos geradores de conflito.

A regulamentação da ação médica contida no código de Hamurabi cita a inequívoca relação da ética do médico ligada aos bons resultados do trabalho médico, onde o julgador é o árbitro absoluto. No parágrafo duzentos e quinze e nos seguintes consta:
-       215: Se um médico fez em um awilum uma incisão difícil com uma faca de bronze e curou o awilum ou se abriu a nakkaptum (supercílio) de um awilum com uma faca de bronze e curou o olho do awilum: ele tomará dez sicios de prata.
-       216: Se foi o filho de um muskenum: tomará cinco sicios de prata.
-       217: Se foi o escravo de um awilum: o dono do escravo dará ao médico dois cicios de prata.

Após quase quatro mil anos de o Código de Hammurabi ter sido elaborado, existem diversos pontos naquelas leis que merecem reflexão: início do julgamento laico, monetarização do trabalho médico, os médicos remunerados de acordo com a complexidade do trabalho e o sucesso alcançado pelo tratamento e camada social do doente. A penalidade muito mais severa se a má prática fosse realizada em alguém com destaque social. Esse ajuste sócio-político do julgador também é importante sinal da historicidade do Direito atado ao poder dominador.


É necessário repetir como as leis também surgem a partir das necessidades sociais, é admissível supor que as leis babilônicas, no Código de Hammurabi, foram feitas para coibir o grande número de maus resultados que geravam conflito social. Dessa forma, o Direito e a Medicina, nesse ponto, inauguraram níveis de conflitos que continuam se reconstruindo até os dias atuais, isto é, o julgador se interpõe favorecendo os interesses pessoais e coletivos frente a algumas práticas médicas consideradas desajustadas à ética e à moral.  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Só compro no bate palmas



Pedro Lucas Lindoso


O Jurídico de uma grande empresa do PIM (Polo Industrial de Manaus) mudou significativamente sua rotina com a chegada dos novos estagiários.

Um deles, um jovem e garboso aficionado em sites de compra, chamado Dartagnan.

O jovem estagiário, fluente em francês e lutador de artes marciais, fez a cabeça do Seu William, para adquirir produtos chineses via internet.

William é um quarentão carioca, radicado há anos em Manaus. Trabalha como assistente administrativo do Jurídico. È torcedor fanático do boi caprichoso. Casado com amazonense, gosta de tomar tacacá. Come pupunha com café e já se considera um típico manauara.

Ocorre que nosso amigo William jamais havia comprado algo pela internet. Mas foi na onda do Dartagnan. O tal site de que Dartagnan tanto fala, oferece vários produtos: – lingerie, bijus, relógios, camisas, sapatos etc. Tudo devidamente cotado em dólares americanos.

William se encantou com uma estilosa blusa de US$6.00 (seis dólares americanos), frete incluído.  A tal blusa, branca, de mangas compridas e detalhes nos punhos, parecia uma verdadeira pechincha. A foto no site era realmente inspiradora.

No sul do Brasil, blusa é um componente primordialmente do vestuário feminino. No Amazonas blusa e camisa é a mesma coisa. È como farda e uniforme. No sudeste farda é só para militares. Aqui em Manaus as crianças vão para as escolas fardadas.

Mas voltemos à aquisição da blusa chinesa pelo William. Paga através de cartão de crédito internacional, a  encomenda foi ansiosamente rastreada.

Saiu da cidade chinesa de NingBo, passando por CiXi, Hai Yan, até chegar a PingHu. De PingHu foi rastreada até FengXian, passando por NanHui finalmente chegou à grande e famosa cidade de Xangai. De lá, foi despachada para Hong Kong e enviada diretamente para o Rio de Janeiro. Chegou a Manaus após longo 47 dias de ansiosa espera. Mas chegou!

William usa camisa número quatro. Mas o seu assessor para assuntos de compras internacionais chinesas, o nosso já conhecido Dartagnan, recomendou-o a escolher o tamanho extra-large. Ou XL, que no Brasil seria o GG. Ora, William usa quatro, que seria tamanho médio para grande. “Mas chinês é pequenino”, gitinho, como se diz em Manaus.

Com a chegada da blusa, a grande decepção. Apesar da etiqueta XL, a blusa era muito gitinha para o William. O material não era tão bom quanto aparentava na foto do site. E a estampa era o suprassumo do tradicional material “shing ling”. Que mico!

A Dra. Mariana de Lisieux, uma jovem e intrépida advogada, ofereceu a módica quantia de R$10,00 (dez reais) pela tal blusa. Todavia, William recusou a oferta de imediato.

Atenta a toda aquela confusão, dona Lucinda, a contadora, muito sabiamente, comentou:


– É por essas e outras, que eu só compro roupas, seja “shing ling” ou não, na Rua do bate palmas, conhecida como Marechal Deodoro. Eu hein!!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Lábios que beijei 39


Zemaria Pinto
Menina de olhos verdes


É um sonho recorrente: estou em um palácio, no andar mais baixo; quando olho para cima, vejo, no ponto mais alto, os olhos verdes da menina, em mim fixados. Essa cena se repetiu por muitos meses – anos, talvez –, no pátio interior do Pedro II. Jamais trocamos uma palavra. Sequer sorríamos. Apenas nos olhávamos. Seus olhos verdes incrustados na pele acobreada, cercados pelos cabelos negros à altura do ombro, pareciam um enigma infinito. Hoje sei que ele vai durar apenas até o derradeiro momento da minha consciência.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Manaus, amor e memória CXCV


Ângulo inusitado do velho Colégio Estadual, na esquina da 7 com a Rui Barbosa.

sábado, 17 de janeiro de 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 6/7


Zemaria Pinto


contas amendoadas
veludo lilás na pele
– faróis de naufrágios

vale natural
universo em movimento
– essências e mel

colinas que se erguem
num poema de Neruda
– rochedos de sonho

3a. Reunião Brasil-França – História da Medicina



Medicina e direito na busca do justo, do bom, do belo


João Bosco Botelho


Historicamente, a Medicina e o Direito construíram, ao longo de milhares de anos, a estrutura sustentadora da credibilidade coletiva para nortear o bom, o certo, o belo. Dessa forma, não é inconveniência argumentar que o desejo coletivo de administrar os conflitos, que certamente estavam presentes tanto nos ancestrais muito distantes de caçadores-coletores quanto nos mais próximos, após o sedentarismo, moldaram pensamentos e comportamentos pessoais e coletivos inseridos nas memórias-sócio-genéticas (MSG).
Parece razoável pressupor que o conhecimento historicamente acumulado, desde os primeiros registros do médico e do julgador como personagens sociais, se ajustou na maior inclusão dos curadores e dos julgadores, aqui, compreendidos:
– Agentes das práticas curadoras: tanto dos curadores laicos quanto dos benzedores, erveiros, parteiras, sacerdotes, encantadores e muitos outros agentes da Medicina-divina e da Medicina-empírica.
– Agentes das práticas julgadoras: tanto os ligados ao poder dominador quanto os que intermediavam os incontáveis conflitos que nunca chegavam à administração laica, de certo modo semelhante na atualidade de muitas culturas-linguagens-sociedades.
Nos mesmos milhares de anos, os curadores e julgadores que não conseguiram firmar o reconhecimento coletivo em torno da competência na solução dos problemas expostos pelos postulantes, não recebiam o reconhecimento coletivo.
Entre esses dois grupos — aquele obtendo bons resultados e os que não satisfaziam as demandas pessoais e coletivas —, as organizações sociais, em diferentes instâncias, ao mesmo tempo em que reconheciam e nominavam o médico e o julgador, compondo parte do conjunto das profissões que conviviam em conflito e reconstruindo, procuraram refletir, identificar, coibir e punir as más práticas e estabelecendo fortes critérios na edificação da historicidade da ética do médico e do julgador.
De modo geral, a má prática esteve e continua mais ligada ao resultado desfavorável na Medicina e no Direito, o fracasso na busca da cura pelo doente e a sentença considerada injusta. Nenhum procedimento, na Medicina e no Direito, no passado e no presente, tem sido aceito se provoca, respectivamente, piora de qualquer natureza no enfermo ou a suspeição de não ter sido justa.
Esse esboço normativo ético-moral voltado aos bons resultados, no movimento de secularização das práticas da Medicina e do Direito, claramente exposto no Código de Hammurabi, no século 16 a.C., culminou com o aparecimento na Grécia, no século 4 a.C., do conceito de deontologia (do gr. déontos, “o que é obrigatório, necessário” + logia), que evoluiu para “o estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral”.
A palavra deontologia, em torno do conjunto ético-moral, alcançou a maior parte das especialidades sociais. Na Medicina, apareceu pela primeira vez, em 1845, no Congresso Médico de Paris, no trabalho do médico M. Simon intitulado “Deontologia médica ou dever e direitos dos médicos no estado atual da civilização”. No Direito, por meio dos escritos do filósofo inglês Jeremy Benthan, considerado fundador do Utilitarismo.
De modo interessante, os códigos de ética do médico e do julgador comportam fundamentos estruturantes deontológicos semelhantes:
– O médico e o julgador devem estar sempre a serviço do indivíduo, respeitando a vida e sua dignidade;
– O médico e o julgador devem exercer a profissão com liberdade de decidir.




quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Quem nasce para ruelo...



Pedro Lucas Lindoso


Em viagem pelo interior do Amazonas conheci seu Francisco, também conhecido carinhosamente como Seu Chiquinho. Órfão de mãe aos 10 anos de idade, Chiquinho foi criado por uma tia índia velha, que pouco falava. Diziam que era muda porque esqueceu a língua da tribo e nunca aprendeu o Português.

 Chiquinho é o típico ribeirinho da Amazônia e vive da pesca. Mora no interior do interior. Mas vem sempre à sede do município. Participa ativamente de uma associação de pescadores.

 Chiquinho estava conversando comigo quando chegou um moço falante, com muita conversa, se dizendo candidato à presidência da associação dos pescadores. Falou muito e não disse nada. Seu Chiquinho é analfabeto, mas não é bobo. Explicou-me que novembro estava chegando e vinha então o defeso.

 Seu Chiquinho contou que Matrinxã, Pacu, Sardinha, Pirapitinga, Aruanã, Mapará, Tambaqui e Pirarucu devem ser os peixes escolhidos para serem protegidos pelo Defeso. Esse moço nem pescador é. Tá querendo se aproveitar. Eu conheço essa conversa. Papo de aracuã, sapateado de catita. Dança de rato.

 Vão começar a habilitação dos pescadores.Esse caboco quer fazer maracutaia. Mas aqui ele não se cria. Depois que a confusão tá feita, ele some e nos deixa na mão.

 A Superintendência Regional do Trabalho realiza o cadastro e a habilitação. Aí o cara se diz presidente da associação e cadastra gente que nem sabe pescar.

Sabe-se que o Seguro Desemprego do Pescador Artesanal é um beneficio correspondente a quatro salários mínimos pagos mensalmente, o que facilita a composição da renda familiar para o pescador na época mais difícil que é a do defeso. Esse valor é pago nas agências da Caixa Econômica Federal ou nas casas lotéricas através do Cartão Cidadão para os pescadores que são habilitados.

Perguntei ao Seu Chiquinho se ele podia me explicar melhor esse negócio de defeso. Ele me disse que o período do defeso é uma época em que muitas espécies sobem o rio em direção à nascente, para fazer a desova. Os peixes ficam mais frágeis e, às vezes, se consegue pegá-los com as mãos quando encontram obstáculo para subir.


 Chiquinho é analfabeto, mas é um caboclo consciente e tem espírito de cidadania. Não vai permitir que esse moço, recém chegado na cidade, prejudique os seus colegas pescadores. Eu perguntei se o rapaz ia conseguir se eleger presidente da associação dos pescadores. Seu Chiquinho então me ensinou a lição: Quem nasce para ruelo nunca chega a ser tambaqui.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Contribuição



Se agir sempre com dignidade e probidade, você pode não melhorar em nada o mundo – mas haverá na Terra um canalha a menos.

(Millôr Fernandes)

domingo, 11 de janeiro de 2015

sábado, 10 de janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 5/7



Zemaria Pinto


chuva na vidraça,
nossos corpos aquecidos
em abraçosbeijos

teus lábios roçando
minha barba por fazer
– aragem noturna

invento lembranças
de tormentas e mães-d´água
– a brisa traz um beijo


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Wolinski assassinado!


Os quatro cartunistas do Charlie Hebdo, assassinados com mais 8 pessoas por terroristas muçulmanos fundamentalistas.
Da esquerda para a direita: Wolinski, Cabu, Charb e Tignous.

Wolinski: só o humor liberta!

Wolinski parodiando Manet: o pior do futuro.

Toda paixão é estúpida! Mas quando se misturam a paixão política e a paixão religiosa quem paga a pena é a liberdade.

(João Sebastião  poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos , puto com o assassinato de um de seus maiores ídolos)





Fantasy Art - Galeria


Julie Bell.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Próspero mingauzeiro



Pedro Lucas Lindoso


Maria de Nazareth, com th, conhecida como dona Naná, ou simplesmente Naná, mas só para os muito íntimos, é uma cabocla balzaquiana de bem com a vida. Ex-moradora do Igarapé do 40, hoje tem uma habitação digna e respeitável em um dos novos conjuntos no centro da cidade.

Ultimamente, Naná só fala sobre a abertura do Mercadão. Depois de anos em processo de restauro, finalmente o nosso mercado Municipal Adolpho Lisboa vai ser reaberto ao público, em outubro próximo. Naná tem um sentimento atávico e familiar com o Mercadão. Seu pai e seu avô foram comerciantes no local.

Naná está ansiosa para ver como ficaram os  "novos" pavilhões. Sabe-se que a estrutra do mercado é formada por beirais abertos, encimados por arcos de ferro, os quais são sustentados por colunas, também em ferro. Nas duas fachadas principais, fechando os arcos, há gradis de ferro com ornatos decorados, acompanhados por vidros coloridos. O Mercadão vai ficar uma beleza, segundo um amigo de Naná que trabalha na municipalidade. Amigo esse que está providenciando uma colocação para o Zé Mugunzá, atual marido de Naná, que sonha em trabalhar por lá.

Apesar de seus quase quarenta anos, Naná é casada atualmente com o Zè Mugunzá, um cabocão forte e bem apessoado, de vinte anos de idade, que está monopolizando o comércio de mingau no centro da cidade.

Naná, não trabalha, nunca trabalhou e jamais vai trabalhar. É dona de casa. Tem quatro filhos, dois de cada casamento anterior ao atual, com Zé Mugunzá. Além das pensões que recebe dos ex-maridos, é teúda e manteuda pelo Zé Mugunzá, que, como já dito, produz e vende, por conta própria, mingau nas ruas do centro de Manaus.

Vaidosa, Naná alega absoluta falta de tempo para o trabalho. Afinal, tem que cuidar dos filhos, da casa, do marido. E,  claro, das unhas, dos cabelos e da pele. No último domingo foi vista na Praia do Açutuba sendo literalmente pincelada dos pés a cabeça por Zé Mugunzá, com uma substância branca aquosa, vinda de uma tijelinha, com o objetivo de clarear os pelinhos do corpo e suavisar a pele.

Uma amiga, também ex-moradora do Igarapé do 40, pergunta a Naná se ela vai ajudar o marido no comércio de mingau, quando o Mercadão reabrir. Nana foi enfática: Nem pensar! Sou dona de casa. E nem preciso, meu marido é um próspero mingauzeiro.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Lábios que beijei 38


 Zemaria Pinto
Neuzinha


Neuzinha era miúda, magra, sem encantos. Mas tinha apenas 16 anos. Era filha de uma colega de trabalho e estudava em um colégio do Centro, o que a tornava parte da humana paisagem cotidiana. Um dia, aproximou-se de mim e chamou-me pelo meu nome – e não tio, como me acostumara. Disse que queria ajuda em alguma matéria que a mãe não dominava. Marcamos no sábado, em um hotel discreto. Eu chegaria antes, preparando o ambiente. Nua, Neuzinha era um encanto. Especialmente, porque só tinha 16 anos. Seios salientes, bunda abaulada, lábios fartos, Neuzinha aprendia rápido. Meu caso com Neuzinha foi um flerte com a tragédia. Impossível evitar a publicidade na província. Escândalos doméstico e funcional. Inquérito administrativo. Ameaças de morte. Tudo porque ela só tinha 16 anos. A última vez que a vi foi em Brasília. Ela fora admitida no banco e estava noiva de um barnabé do senado. Fizemos uma festinha de despedida no Hotel Nacional, recém-inaugurado, relembrando os velhos tempos. Estava mais bonita: plena de carnes, os seios abaulados, a bunda farta, os lábios salientes. Mas já contava 22 anos.  

domingo, 4 de janeiro de 2015

Manaus, amor e memória CXCIII


Fábrica de Cerveja Miranda Correa.

sábado, 3 de janeiro de 2015

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Dabacuri – da arte de amar 4/7


Zemaria Pinto


caminhos cumpridos,
repousam sobre meu peito
teus pés minerais

chá de capim-santo
descansa em breve infusão
– promessas de sonhos

lua na janela –
teu corpo banhado em luz

pousa entre os lençóis


Top! Top! Top!


Fradim, do Henfil.


Feliz ano novo!!! Afinal, sempre pode ser o último...

(João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos)




quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Possíveis ligações entre o bom resultado e a ética médica



João Bosco Botelho

Ainda em torno da associação entre o ético-moral gerando o bem, o bom, o certo, antepondo-se ao vício ligado ao mal, ao mau, ao pior, é interessante assinalar a compreensão a priori da ética médica integrada à virtude do bom resultado requerido pelo doente.

Na tese de doutorado, defendida em Paris em 1955, intitulada “A ética médica”, o professor Derrien firmou relações conceituais da ética médica voltada ao benefício do paciente, isto é, aos bons resultados. No entendimento desse conceituado professor, é possível entender a virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, ligada ao “bem”, ao “bom”, no qual o médico controla a dor e adia os limites da vida, sempre festejado pelo doente. Dessa forma, seria inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provocar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos bons resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na historicidade e na maior parte das atuais abordagens teóricas referenciais.

Nesse sentido, é possível resgatar relações do conhecimento historicamente acumulado atando a ética médica à boa prática, entendida pelo senso comum como aquela que oferecia bons resultados às demandas da clientela por meio de ações que deveriam, obrigatoriamente, trazer melhorias à vida pessoal e coletiva.

A historicidade dos códigos de éticas das medicinas laicas e religiosas se construiu entendendo os respectivos curadores como especialistas sociais que devem saber controlar a dor e aumentar os limites da vida:

– Medicina-divina: fortificada nos templos dedicados às muitas divindades, cujos agentes, sacerdotes e sacerdotisas, reconhecidos como intermediários de deusas e deuses curadores, com fortes destaques sociais, ofereciam a cura e a adivinhação por meio de rezas e encantamentos.   

– Medicina-empírica: desde o passado distante, nas primeiras cidades, também com forte partilha com as idéias e crenças religiosas, os agentes que compreendem parteiras, erveiros, encantadores e benzedores, homens e mulheres sem escolaridade, exercem as práticas fora dos templos. Até hoje, em muitas linguagens-culturas, são respeitados e festejados. Heródoto, no seu extraordinário livro “História”, descreveu um dia de festa, numa praça, na Mesopotâmia, quando doentes e curadores se encontravam, para buscar as curas das doenças nos exemplos de doentes que tiveram algo semelhante e se curaram fazendo ou bebendo isso ou aquilo. Ao cruzarem com alguém que apresentava sinais e sintomas de alguma doença que sabiam como curar, os curadores paravam para orientar, oferecer o tratamento.


 – Medicina-oficial: amparada, organizada e paga pelo poder dominante, muitíssimo mais recente em relações às anteriores, tanto na Mesopotâmia, quanto em outras culturas que se organizaram e prosperaram, no segundo milênio a.C. até as primeiras universidades, no Ocidente, no século 12, os processos dos aprendizados dos médicos estavam dentro dos templos das divindades curadoras mais importantes. Também por essa razão, é possível compreender, historicamente, certos laços da Medicina-oficial com as ideias e crenças religiosas. É muito importante relembrar que é a única que construiu, desconstruiu e continua reconstruindo propostas teóricas para desvendar as etiologias das doenças nas dimensões cada vez menores da matéria e tem vencido as barreiras para diminuir a abstração e aumentar a materialidade das doenças. 


Fantasy Art - Galeria


Luis Royo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Pirarucu do céu


Pedro Lucas Lindoso



No meio de minhas correspondências, entre faturas de cartão, contas de luz e telefones, havia um envelope. Daqueles de borda verde e amarela, usados antigamente para cartas pessoais. Quando se escreviam cartas pessoais. Envelopes de um tempo em que não havia computador, nem internet, nem e-mails ou WhatsApp. Não tive dúvidas. Pelo cheiro do envelope. Água de colônia 4711. Sim, tia Idalina perfuma suas cartas com essa conhecida fragrância francesa. Abri o envelope com a alegria e curiosidade de sempre. O que estaria a querida tia Idalina precisando daqui de Manaus? Abri o envelope e a carta, escrita em papel pautado, bem fininho, quase translúcido, vindo de um bloco com capa azul e a figura de um avião dos anos setenta. Tia Idalina, amazonense, eterna moradora de Copacabana. Não vem mais a Manaus. Mas morre de saudades. Tia Idalina é fiel cliente da VARIG e da TAP. Agora que há voos regulares da TAP de Lisboa diretamente para Manaus, ela pensa em fazer RIO-LISBOA-LISBOA-MANAUS-MANAUS-LISBOA-LISBOA-RIO. Um absurdo, mas só assim viria a Manaus. Ou então pela VARIG, mas como não mais existe a VARIG, é possível que venha mesmo de TAP, via Lisboa. Pois bem, na carta cheirosa de colônia 4711, titia me pede, encarecidamente, que lhe mande dois quilos de pirarucu seco e um litro de farinha do Uarini. Se possível, devo comprar na banca do Sr. Zagaia, na feira da Japiinlândia. Sua comadre Mariette, que a visita sempre em janeiro e julho, lhe confidenciou que seu filho é freguês da banca de peixe do Zagaia. É confiável, lhe disse. Há muita gente vendendo jacaré como se fosse pirarucu seco. Tia Idalina quase desmaia quando soube que poderia ser enganada. Jamais comeria jacarés como se fosse pirarucu. Assim, me pedia que adquirisse o produto diretamente com o Zagaia. Pediu-me ainda que comprasse um creme facial a base de mulateiro. Era outra dica de Mariette, que estava com a pele ótima e só usava o tal creme de mulateiro. Poderia adquiri-lo no Mercadão ou na feira de domingo da Eduardo Ribeiro. Obedeci fielmente as instruções de tia Idalina. Fiz um pacote com os produtos e dirigi-me ao Terminal de Cargas do Aeroporto Eduardo Gomes para despachar tudo para o Rio de Janeiro. Questionado sobre o que havia no pacote, fui sincero. Disse que se tratava de dois quilos de pirarucu seco e farinha. Hoje tudo passa pelo raios-X e as multas são exorbitantes. Não se brinca com a Receita Federal, IBAMA, ANVISA e similares. Disseram-me que tinha que ter autorização do IBAMA para despachar o tal pirarucu. Liguei para ela explicando-lhe a situação. Inconformada, ela me disse que precisava do pirarucu com urgência. Iria preparar “Pirarucu do céu” para comemorar o aniversário da sua amiga Mariette. Por sorte, consegui um portador amigo que viajava para o Rio de Janeiro na madrugada seguinte. Perguntei-lhe se ela iria fazer pirarucu de casaca. Ela me disse que não. Sua receita era de Pirarucu do céu. E não era a mesma coisa? Claro que não, me disse. Vou lhe mandar minha receita. Tia Idalina é a última amazonense que chama pirarucu de casaca de pirarucu do céu. O portador da encomenda retornou com outra carta perfumada de colônia 4711, com agradecimentos e a tal receita de “pirarucu do céu: ”Assar o pirarucu. Após, tirar as lascas. Fazer um bom refogado com cebola, cebolinha, cheiro-verde, tomate e pimentão. Usar azeite. Usar farinha do Uarini molhada no leite de castanha. Colocar na tigela uma camada de pirarucu, misturada com o refogado. Em seguida uma camada de farinha molhada no leite de castanha. Outra camada de pirarucu, em seguida outra de farinha. Enfeitar com ovo cozido, azeitonas e tomate. Fritar banana comprida para acompanhar.” A receita de pirarucu do céu da tia Idalina parece bem simples. O fato é: pode ser pirarucu do céu, de casaca, esporte ou traje passeio. Sendo feito com farinha do Uarini e banana pacovã fica sempre uma delícia.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Lábios que beijei 37


Zemaria Pinto
Dafne



Quando contei a Dafne a origem de seu nome ela entendeu porque eu busquei me aproximar dela. Era como se eu a procurasse há muito tempo, e ela, perdida, esperasse por esse reconhecimento. Dafne era um modelo de ninfa renascentista: alta, branca, loura e olhos azuis de infinita tristeza, sempre escondidos atrás de severos óculos escuros. Eu, um velho fauno, desaparecia perto dela. Quando começamos a sair, ela gentilmente aboliu os saltos altos, o que nos deixava uma diferença de não mais que uns dez centímetros. Foram apenas alguns meses, até que ela resolvesse reatar com o marido – senhor, talvez, de uma daquelas ilhas que fundavam a Grécia Antiga. A sofrida e meiga Dafne ainda hoje me visita a lembrança, com seu corpo rijo, suas proporções perfeitas e sua mítica melancolia.

domingo, 28 de dezembro de 2014

sábado, 27 de dezembro de 2014

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Dabacuri – da arte de amar 3/7


Zemaria Pinto



colho de meus olhos
girassóis incendiados
e tos ofereço

nas sombras da tarde
o velho casal passeia
– comunhão de sonhos

murucututu
pousada em nosso telhado
– tristeza ou felicidade?

Historicidade da ética e a possibilidade de uma ética pré-social



João Bosco Botelho

É razoável pensar a Medicina e o Direito como partes fundamentais da construção cultural que acompanhou a ontogenia, voltados à valorização da vida em torno da ética e da moral estruturando os bons resultados: os agentes da Medicina controlando a dor e empurrando os limites da vida e os do Direto construindo mecanismos sociais e políticos para evitar a antijuricidade.

O alfabeto grego possui duas letras “e” longo = eta e o “e” curto = epsílon. Dessa forma, êthos com a letra eta significa: característica, modo habitual de se comportar; éthos com a letra épsilon, corriqueiro, costume, usual. O processo histórico linguístico impôs semelhança etimológica entre os dois termos: ambos estão vinculados à virtude. Talvez também por essa razão, no cotidiano, a ética oriunda da tradição grega tem caminhado ao lado da moral.

A palavra “moral” é de origem latina, “mores” significa “costume”, mas não qualquer costume, e sim estritamente aderido à virtude. Assim, Kant de modo genial caracterizou a ação moral, em caráter universal, plena de virtude e realizada, exclusivamente, por dever legalista, em respeito às leis.

Em muitas circunstâncias, essa característica universal da ação moral, citada por Kant, isto é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, independente do processo fiscalizador, ultrapassa as relações sociais em si mesmas. Não é impertinência pensar que esse desejo humano, desde um passado impossível de precisar, de valorizar a virtude como antagonismo ao vicio, seja um processo sócio-genético gerado ao longo da humanização, ligado à sobrevivência desde os ancestrais mais distantes.

Incontáveis culturas, nos quatro cantos do mundo, pelo menos desde os primeiros registros de natureza religiosa e laica, continuam lutando para instrumentalizar regras valorizando a ética junto da moral como características insubstituíveis e universais, como genialmente Kant descreveu, da condição humana.

Dessa forma, é possível articular um pensamento teórico entendendo esse conjunto como pré-social, isto é, inserido na herança genética, ao longo da ontogenia, resultando na existência de uma ou mais memórias-sócio-genéticas (MSGs) ligadas à valorização da virtude, da moral, da ética, como instrumentos para adequar a sobrevivência coletiva e superar os contrários que dissolvem sem reconstruir. Simultaneamente, essas MSGs também interferem na manifestação pessoal e coletiva do desprezo ao vício que corrompe e compromete a sobrevivência.

Esse conjunto organizador social presente nas MSGs da espécie humana, vinculado à sobrevivência, atado ao ajuste ético-moral, amparando a vida pessoal e coletiva claramente desprezando o vício (aqui compreendido como oposição ao ético-moral, à virtude) se manifesta socialmente por meio de categorias metamórficas, presentes nos cinco continentes, entre culturas que nunca mantiveram contato, amparando a sobrevivência pessoal e coletiva, com forte participação da Medicina e do Direito por meio de certas categorias metamórficas que trazem à memória sofrimentos coletivos, cujas repetições poderiam ser evitadas pela ética.

O fato de na atualidade ainda não haver identificação dos genes e das respectivas proteínas que ativam as MGSs, não invalida a construção teórica da existência da ética pré-social.

É difícil atribuir a incrível milenar busca da ética, virtude, do bem, do bom somente às relações sociais!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014