Amigos do Fingidor

domingo, 30 de abril de 2017

Belchior (26/10/1946 - 30/04/2017)


Belchior, por Amarildo, para A Gazeta.

Manaus, amor e memória CCCXIV


Cine Popular, na esquina da Silva Ramos com Barcelos.

sábado, 29 de abril de 2017

sexta-feira, 28 de abril de 2017

exercício nº 20


                                                                  Zemaria Pinto 


os músculos noturnos retesados
são arcos distendidos contra a luz
que o sol desenha em círculos concêntricos
na pele negrazul da altamanhã
o ritmo das asas são tambores
frenéticos rasgando o espaçotempo
relâmpago de hermes rutilante
em ônix e ébano forjado
o assombro em multidão multiplicado
é um frêmito lascivo em cada corpo
e um grito sufocado na garganta
meu peito não resiste ao chamamento
e um urro sai de mim feito uma lança
NAGÔ ZOROBABÉLIA IORUBÁ

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Clisteres e sangrias



João Bosco Botelho

As mudanças iniciadas, o desvendar dos corpos pela anatomia e a posição dos filósofos, mesmo com a condenação de Galileu, em 1633, instigam novas leituras da dor, acompanhadas de inevitáveis rupturas com o passado hipocrático-galênico-cristão. Destacam-se, no século 17, o médico inglês Harvey, em 1628, com a publicação do “Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in anima”, demonstrando os erros de Galeno sobre a circulação do sangue.
De modo genial, Marcelo Malpighi, em 1666, com o livro “De viscerum structura” retirou a doença dos humores de Hipócrates e recolocando-a na microestrutura, estabeleceu o segundo corte epistemológico da Medicina como especialidade social: o pensamento micrológico, que mudaria quase tudo nos selos seguintes até a atualidade.
Ocorreu no século 17 quando a doença foi retirada da macroestrutura corporal dos humores para a microestrutura dos tecidos por meio da micrologia – a dimensão celular –, descrita nos estudos de Marcelo Malpighi (1628-1694), marcando a nova fase dos saberes da Medicina-oficial.
O resultado foi a instituição da mentalidade microscópica, inaugurando o desvendar da multiplicidade das formas e das funções escondidas dos sentidos natos. Pouco a pouco, o estudo da célula dominou os meios acadêmicos. Hoje, é o sustentáculo do atual ensino da Medicina-oficial. Mesmo nos hospitais mais bem equipados, os tratamentos dependem do diagnóstico microscópico quantitativo e qualitativo das células corporais. Isto significa que a estrutura teórica dos saberes médicos, pelo menos no Terceiro Mundo, em pleno final do século 20, ainda está alicerçada sobre os princípios teóricos da patologia celular oriunda do século 17.
A micrologia enfraqueceu as teorias greco-romanas de Hipócrates e Galeno, entendidas como dogmas das universidades, no medievo europeu. Não muito depois, pouco a pouco, os processos teóricos que amparavam a micrologia, a busca da materialidade da doença na microscopia, substituíram as ideias da Escola de Cós.
 Os sistemas teóricos interligados e dependentes de Hipócrates e Galeno, capazes de explicar a saúde, a doença e a expressão do ser no social, mostraram-se tão adequados ao observável que dominaram as regras do diagnóstico, da terapêutica e as bases do ensino da Medicina oficial no Ocidente durante vinte séculos.
Ao lado dessa forte relação em torno das teorias hipocrático-galênicas que atravessou a Idade Média, alguns religiosos, como Miguel Servet, em 1530, estudante da Universidade de Toulouse (nessa universidade, eu tive a imensa honra de receber o título de Doutor Honoris Causa), imbuído da leitura dogmática bíblica, ao procurar explicação para o sopro de ar que deu vida ao primeiro homem, no livro “Christianismi restituio”, descreveu a pequena circulação coração-pulmão.
Contudo foram os estudos de Hipócrates e Galeno que suplantaram todas as outras correntes cientificas. Alcançaram o Brasil Colônia e os médicos da corte portuguesa. Durante vinte e três dias de febre e convulsão que antecederam a sua morte, a Princesa Paula Mariana, filha do primeiro Imperador do Brasil, foi submetida às chupadas de quarenta sanguessugas, onze vesicatórios, oito cataplasmas e sete clisteres, prescritos pela equipe de dez médicos que se revezaram à cabeceira real.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

A menina que roubava folhas de livros



Pedro Lucas Lindoso

Assisti a um filme americano chamado “A menina que roubava livros”. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma jovem garota consegue sobreviver na Alemanha nazista através dos livros que ela rouba. Ajudada por seu pai adotivo ela aprende a ler e partilhar livros com seus amigos, incluindo um homem judeu que vive na clandestinidade em sua casa. O jovem judeu escondia-se para evitar ser morto pelo exército nazista.
A garota desta crônica, Silvia, é amazonense, natural de Anori. Veio para Manaus “deportada”, segunda ela mesma. Seus pais, produtores rurais no interior, queriam evitar o casamento de Silvia com algum rapaz não recomendado. E Silvia, mesmo apaixonada, queria estudar e ser alguém na vida.
As dificuldades de uma garota séria e determinada, vinda do interior e com poucos recursos, dispensam maiores comentários. O fato é que ela trabalhava e estudava com afinco.
Silvia, poetisa e professora aposentada, participa de um projeto da ABEPPA – Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos – que leva livros para bibliotecas do interior. Ao falar sobre o projeto, Silvia se enche de entusiasmo. Percebi que aquilo parecia ser uma espécie de catarse.
A verdade é que Silvia, quando estudante adolescente, não tinha tempo de fazer todas as tarefas de casa. Frequentava a biblioteca pública na hora do almoço. Mas o tempo era curto. Então Silvia arrancava folhas dos livros para terminar as tarefas entre uma aula e outra. No dia seguinte, Silvia diligentemente recolocava as folhas nos livros. Segundo ela, os restauros eram caprichados e o “crime” ficava quase imperceptível.
 A psicanálise talvez explique esse entusiasmo de Silvia pelo projeto da ABEPPA. Sob a óptica da psicanálise, catarse é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, através de uma resolução que se apresente de forma eficaz. Ao colaborar para que estudantes do interior tenham acesso aos livros, Silvia se livra de um sentimento de culpa por ter dilacerado alguns livros didáticos da Biblioteca Pública do Estado.
Disse a Silvia que ela não cometeu crime nenhum. Se a menina alemã que roubava livros foi perdoada, imagine ela que só cometeu pequenos furtos de uso.
Disse a ela que no furto de uso, ocorrem dois requisitos: o objetivo de uso momentâneo ou por curto período da coisa e a devolução espontânea e em sua integralidade do objeto furtado. Disse ainda que o furto de uso não se enquadra no Código Penal. O ato é considerado atípico e não passível de pena na esfera criminal.
O mundo estaria bem melhor com mais pessoas que arriscam tudo para ler e ter acesso a um bom livro.


sábado, 22 de abril de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Aristóteles Alencar toma posse na AAL




Em cerimônia singela e por vezes emocionante, o mais novo membro da Academia Amazonense de Letras, Aristóteles Comte de Alencar Filho, tomou posse ontem, na cadeira n° 39, de Alfredo da Matta, substituindo Mário de Moraes, falecido no ano passado.

Aristóteles Alencar discursa sob o olhar da mesa diretora.

No próximo dia 13 de maio, saberemos quem será o substituto de Moacir Andrade na cadeira n° 2, de Euclides da Cunha. Em breve, deverão ser abertas as inscrições para a cadeira n° 40, de Paulino de Brito, vaga com o falecimento do escritor Francisco Vasconcelos.

Na próxima sexta-feira, 28 de abril, a Casa de Adriano Jorge abre novamente suas portas para a outorga da Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes ao escritor Marcos Frederico Krüger (letras), à Orquestra Barroca do Amazonas (artes) e ao SESC (mecenato). In memoriam, serão homenageados também o cronista Aluísio Sampaio, um dos mais destacados membros do Clube da Madrugada, e o empresário Ildefonso Pinheiro, que se notabilizou pela ajuda a instituições culturais e de ensino, inclusive à própria AAL.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Natal: mágica renovação da fé


João Bosco Botelho


A cultura material é, sem dúvida, muito mais transformável do que a mentalidade. A primeira, ligada ao conforto (aqui entendido como a fome e a sede saciadas e o abrigo contra as intempéries), tem relação com a natureza, o homem e os produtos. A segunda, muito mais complexa, é fruto do intrincado mecanismo neurobiológico, ainda desconhecido, da relação entre o ser e o objeto: o pensamento.
Parece lógico supor que a força do pensamento, reproduzindo ideias muito antigas, mesmo que sob metamorfoses frente à cultura material, reside exatamente na característica de reprodução: transmitida nas gerações seguintes, sofrendo a influência decisiva do sistema sociocultural, de forma semelhante às qualidades físicas. Assim poderíamos explicar as agruras do poder político para obter mudança revolucionária nas crenças e ideias religiosas. As tentativas conhecidas foram acompanhadas de instransponível oposição coletiva frente à autoridade.
O desmoronamento incrivelmente rápido do comunismo, no Leste europeu, também mostrou de modo insofismável essa assertiva. O arcebispo albanês Simon Jubani, encarcerado durante vinte e dois anos pelo enfrentamento ao ateísmo de Estado decretado pelo ditador comunista Enver Hoxha, celebrou a primeira missa, após o massacre do ditador, na capela do cemitério da cidade de Shkoder, assistido por incontáveis fiéis. Milhares de albaneses, libertos das correntes implacáveis do comunismo-socialismo, retornaram aos templos, antes transformados em viveiros de patos e rãs, com a fé renovada e tornada pública pela segurança física.
É possível imaginar o que representou para as pessoas que viveram em regiões com inverno rigoroso, há milhares de anos atrás, o aparecimento do Sol resplandecente para aquecer os corpos e a terra.
Os acontecimentos seguidos ao sedentarismo dos caçadores coletores, no final do Neolítico, estão contidos no mesmo contexto. O laço anterior com os outros animais foi substituído, pouco a pouco, pela nova intimidade com a terra cultivada. A ocra, pintada nos ossos descarnados, como marca do sangue, símbolo da vida, achada em numerosos esqueletos pré-históricos, foi deslocada pela semente e pelo esperma. A mãe terra, sulcada pelo arado e fertilizada pelos raios solares, continua festejada.
As celebrações religiosas, como a missa cristã, continuam guardando lugar de destaque para as refeições, onde o pão e o vinho, ambos filhos da mãe terra, estão presentes. Os incas do altiplano boliviano, sobreviventes de uma das mais brutais conquistas que o mundo conheceu, continuam rendendo graça à Pachamama, a imemorial mãe terra da cultura andina.
Na cidade de Newgrange, na Irlanda, existe um túmulo que serve de orientação climática para os agricultores da região. Na década de 1960, os astrofísicos da Universidade de Dublin, comprovaram que o local, construído há mais de cinco mil anos, é o mais antigo alinhamento astronômico conhecido. Essa sepultura pré-histórica, construída por um povo agrário desconhecido, contém uma abertura de vinte centímetros no teto, por onde, no solstício do inverno, a luz natural penetra e chega exatamente onde deveria estar repousando o morto celebrado.
É particularmente expressiva a festa do nascimento do Sol Invicto (Dies Solis Invicti Natalis), comemorada em Roma, junto à saturnal. Quando o astro parecia se dirigir ao Norte, os trabalhos eram interrompidos, as casas decoradas com árvores, os parentes trocavam presentes, intensificando o culto ao deus asiático Mitra (Natalis Solis).
Existem evidências de que o cristianismo primitivo foi confundido com o culto solar. Os maniqueístas afirmavam que Jesus Cristo era o próprio Sol. Dois dos mais importantes ideólogos cristãos, Cirilo de Jerusalém e Teodoro, fizeram a mesma associação.
Os doutores da Igreja Católica, durante vários séculos, ficaram preocupados com a data do nascimento de Jesus Cristo. Em 194, Clemente de Alexandria propôs o 19 de novembro do ano 3 a.C., enquanto Epifânio lutou pelo dia 30 de maio. Na realidade, não existe qualquer comprovação de que Cristo tenha nascido neste ou naquele dia.
Dionísio, em 525, encerrou a questão, fixando o advento no dia 25 de dezembro de 754 depois da fundação de Roma (ab urbe condita). A rendição da alta hierarquia romana frente ao simbolismo do solstício do inverno gerou protestos entre os católicos armênios e puritanos ingleses. Ambos, afirmaram ser heresia imperdoável associar o culto de Jesus à adoração pagã.
Importam pouco as construções teóricas para entender a mágica renovação da fé do Natal: Jesus Cristo, o Filho de Deus, está presente no advento do Natal, irradiando bondade entre bilhões de pessoas no planeta.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

Em Brasília tem mais



Pedro Lucas Lindoso

Dia 19 de abril. Dia do Índio. É um chavão e letra de música. Mas é sempre bom repetir: “Todo dia era dia de índio”. A verdade é que falta respeito aos que aqui já estavam quando as caravelas chegaram.
Não vou falar sobre reservas, aldeias e tribos nômades aqui da Amazônia. Nem sobre os privilegiados índios isolados. Preocupam-me os índios urbanos esquecidos na periferia de nossa Manaus.
A FUNAI foi recentemente reestruturada. Em governo neoliberal deve ter sido enxugada e quiçá esteja em extinção. E os indígenas eternamente desassistidos. Principalmente, os que estão nas cidades. Em Manaus, onde se encontra uma das maiores populações de índios urbanos no Brasil, a presença indígena é, quase sempre, ocultada.
Há ainda os que, sendo netos ou descendentes diretos de etnias importantes da região, não se reconhecem como índios. Reconhecem-se como amazonenses ou “caboclo aqui da terra”.
Há muitos, todavia, que se reconhecem indígenas. Eles entendem que vieram morar aqui e que ajudaram a construir Manaus. Têm consciência, e com razão, que sua história está também inscrita neste território. Estão por aqui os Baré, Tukano, Desana, Baniwa, dentre outros originários da região do alto e médio rio Negro. E vinculam-se socialmente e economicamente pelos casamentos e outros aspectos. 
O certo é que continuam fazendo parte deste espaço urbano e selvagem. Mas selvagem em outra conotação. Selva de pedra, asfalto esburacado, sem saneamento, mobilidade precária. Inseridos nesse caos urbano de dois milhões de habitantes. Na maioria das vezes, na condição de marginalizados. Moram na periferia, principalmente nas Zonas Leste e Norte de Manaus.
Quando morei em Brasília, a FUNAI se localizava no início das quadras 700. Há casas nessa área e muitas se transformaram em pensão ou pequenos hotéis. Houve época em que o órgão abrigava índios do sudeste e centro-oeste que vinham à FUNAI tratar dos interesses das suas aldeias. Há uma praça por lá. Certa feita ouvi conversa de dois adolescentes. Um dizia que o pai havia servido no Exército, em Manaus. O jovem gostara muito daqui. O outro perguntou se havia muitos índios na nossa cidade. Vendo um grupo de pataxós da Bahia, conversando na praça respondeu: Aqui em Brasília tem mais.
Galdino Jesus dos Santos, um líder da etnia pataxó, foi queimado vivo enquanto dormia em um abrigo de ônibus nessa área. O crime foi praticado por cinco jovens brasilienses. Ironia: era 19 de abril de 1997. Dia do Índio.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Fênix - nas sombras da arte


Exposição aberta, de segunda a sexta, até 5 de maio.
Das 8 às 12h e das 14 às 17h.

domingo, 16 de abril de 2017

Manaus, amor e memória CCCXII


DERAM - Depto de Estradas de Rodagem, na Cachoeirinha.
Hoje, Faculdade de Medicina da UEA.

sábado, 15 de abril de 2017

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sobre a verdade



CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ. João, 8:32 – A verdade não existe. É uma abstração criada por algum filho da puta mentiroso.

Só a dúvida liberta!!!


(João Sebastião)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Linguagens, vogais e consoantes


João Bosco Botelho
   

As evidências mostram que os elementos formadores das linguagens, nas quais estão incluídas as que tratam da fantástica capacidade de escrever em muitas língua, tanto descrevendo o objeto visível quando na ficção, estão numa dimensão pouco compreendida.
A coisa (ou as coisas) que estruturou as linguagens é física.
Se as áreas cerebrais responsáveis estão danificadas não é possível a expressão das linguagens. Isso significa, sem nenhuma dúvida, que o conjunto formador que gera as linguagens não se dá sobre o nada. As estruturas nervosas responsáveis pela intercomunicação entre a memória, a linguagem, os sentidos e o social se ligam, no cérebro, por meio de bilhões de sinapses (ligações entre as células cerebrais ou neurônios). É a prisão mental de cada um! É a jarra de Pandora que construiu na oralidade e continua brotando, na linguagem escrita, os infortúnios e esperanças da humanidade.
Quando danificados nos traumas cranianos ou pela cirurgia, em animai de experimentação, alguns centros neurológicos específicos relacionados às linguagens alteram o comportamento emocional e emites sons em desacordo com a necessidade daquele momento: expressões de sono, agressividade e medo ou fazer o animal assumir posição de cópula ou de choro. Sob essa comprovação, há de existir algum tipo de coerência funcional em nível celular, ligando o ser ao mundo, transcrito no ato de escrever. Logo, a capacidade individual de sentir e expressar as emoções nas linguagens, inclusive mentiras, nasceram em consequência das relações do ser no mundo.  
Vez por outra, o lento desvendar das complexas estruturas das linguagens avança apoiado no estudo dos achados acidentais. Nesse sentido, foram descritos dois casos clínicos, na literatura especializada, relacionados com os núcleos cerebrais da linguagem, atendidos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do Hospital Maggiore, Bolonha, na Itália.
No primeiro, um homem com 62 anos, depois de sofrer um derrame cerebral (ruptura de artérias ou veias no cérebro lesando maior ou menor quantidade de tecido), não conseguiu mais escrever as vogais; as palavras eram escritas em perfeita simetria com o pensamento expresso oralmente, porém só com as consoantes. O paciente não conseguia simbolizar as cinco letras. Essa publicação impõe a certeza de que a escolha dos caracteres, para compor a linguagem escrita, está contida em segmento específico do cérebro.
O segundo relato diz respeito ao paciente do sexo masculino, 32 anos, norte‑americano, também após isquemia cerebral (ao contrário do derrame, as artérias se contraem, também determinando danos ao tecido encefálico), perdeu a familiaridade com a língua materna, o inglês, e passou a acrescentar vogais às palavras, resultando num sotaque escandinavo. A cura do distúrbio ocorreu na medida da recuperação da área cerebral danificada.
É precisamente nessa convergência, entre o físico presente na estrutura cerebral, oriundo de uma memória sociogenética, que ocorre a maravilhosa materialidade do real e do abstrato, capaz de nominar, desvendar, criar e transformar o objeto.
Por essa razão não existe discurso sem a linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. Nesse contexto, as gramáticas são, na essência, ideológicas, porque expressam tipos diversos de posses do real, onde o uso de vogais e consoantes são partes da relação do ser no mundo.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Fantasy Art - Galeria


Disintegration.
Marta Dahlig.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Gravador metido a besta


Pedro Lucas Lindoso


Sou um homem do século passado e contemplo esses jovens nascidos ou que se tornaram adolescentes no novo milênio com admiração e respeito.
Admiração, porque vejo que eles já nascem conectados e familiarizados com a mais sofisticada high tech. E fazem uso dessas novas tecnologias com a mesma acuidade com que minha geração abria um estojo de lápis e canetas esferográficas para fazer provas em papel almaço.
Respeito, porque não posso prescindir de seus conhecimentos dessas tecnologias para sobreviver. Inclusive, profissionalmente. Os advogados hoje só podem fazer seus protocolos judiciais eletronicamente. Ou virtualmente, como se diz. E mesmo após treinamentos e cursos de peticionamento eletrônico, o sistema precisa de manutenção. Há ajustes a serem feitos eventualmente nos computadores dos usuários.
Quando menino, a coisa mais moderna que tinha em nossa sala de visitas era uma eletrola, que comportava vários LPs a serem tocados sucessivamente. Para quem não sabe, LP ou long play são esses discos de vinil de cor preta que ainda circulam por aí, entre saudosistas e colecionadores.
Vi, admirado, a chegada e a grande utilização do FAX, hoje objeto considerado do tempo dos Flintstones.
Uma celebridade dizia outro dia na TV que no início de carreira dava muitos autógrafos. Hoje só querem “selfies”. E haja fotos! E por falar em TVs, as de antigamente ficavam desajustadas ou sem sintonia na horizontal e na vertical. Usava-se até Bombril para sintonizar melhor! Sintoniza aí a TV, menino! Ouvi muito isso. Para os que não sabem o que é sintonizar, trata-se de ajustar a frequência de ressonância da TV ou do rádio ao comprimento da onda transmitida pela estação emissora. Tive que aprender isso em Física para poder passar no Vestibular, outra coisa que parece não existir mais.
Quando me casei, há mais de trinta anos, um dos presentes mais bem recebidos foi uma secretária eletrônica, comprada na Zona Franca de Manaus.
Um sobrinho adolescente e nascido já no século 21 estava curioso em saber o que era uma secretária eletrônica. E eu lhe disse:
– Era um gravador metido a besta, que atendia as ligações de telefone fixo. Não havia celular! Coisas do século passado!


domingo, 9 de abril de 2017

Manaus, amor e memória CCCXI


Esquina da Quintino Bocaiuva com Mal. Deodoro.
Há 50 anos, um pouco menos esculhambada que hoje. Mas já esculhambada.

sábado, 8 de abril de 2017

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Bailarina


(para Carol Figueiredo)


um dia eu sonhei que voava
e fiz uma canção
que dediquei a você
e nessa canção eu cantava
a leveza do corpo
bailando nas nuvens
da imaginação

veja você como o tempo destrói
as lembranças
mas os sonhos resistem
e eu vou lhe fazer
uma nova canção
bailarina

ah, bailarina bailarina
hoje quem voa é você

o palco é pequeno pro salto
e o abraço no ar é o poema
que eu nunca escrevi

quinta-feira, 6 de abril de 2017

As linguagens e a consciência em si


João Bosco Botelho

   
Um dos produtos finais da interligação do cérebro à vida afetiva é reproduzido na consciência do ser em si mesmo, impondo a incrível condição de depositário e herdeiro das gerações anteriores, transmitida inicialmente pela oralidade e, depois, pela linguagem escrita.
A maior parte dos pesquisadores concorda que as linguagens se manifestam por meio de estreitas correlações do cérebro, em especial do neocórtex, com o objetivo de manter ativa a percepção do visível, sentido, enfim das emoções vividas na interpretação do ato apreendido.
Na dimensão macroscópica (órgão), os pontos cerebrais em torno dos quais se organizam as linguagens são: área de Broca, a área motora responsável pelo controle fonético da expressão, e a zona de Heschl, de natureza receptiva, onde a mensagem recebida é decodificada.
Os dois hemisférios cerebrais não participam igualmente desse complicado mecanismo. A dominância do esquerdo, como nas atividades manuais, é programada geneticamente. Por outro lado, sabe‑se que o hemisfério cerebral direito não é desprovido de função linguística. Apesar de não ter acesso à palavra, é capaz de manter a informação em torno de frases curtas e pode decifrar a linguagem escrita.
Sem que possamos estabelecer as causas, o hemisfério direito, mesmo anatômico e funcionalmente menos adaptado para exercer o domínio da linguagem, poderá substituir o esquerdo, no caso de uma lesão irreversível, antes da idade de cinco anos.
Talvez essa similitude que pode se expressar a partir da necessidade da linguagem suprimida por causas não congênitas (por exemplo, após um trauma no crânio), esteja relacionada com certos aspectos moduladores do discurso que interagem com os dois hemisférios cerebrais, traduzidos na linguagem escrita, com os advérbios. Do mesmo modo, é razoável pressupor, que a evolução genética determinou modificações, nos níveis celulares e moleculares, capazes de ajustar as funções cerebrais às necessidades sociais.
Essa afirmativa é incontestável em outras partes do corpo. Por exemplo, a diminuição gradativa da arcada dentária em função do menor uso do esforço mastigatório. A partir do uso do fogo, mais ou menos em torno de trezentos mil anos, ocorreu um conjunto de fatores, incluindo o cozimento dos alimentos, tornando‑os mais macios, ocasionando a redução da potência da musculatura mastigatória e, em consequência, do tamanho e número de dentes. Essa seria uma explicação dos terceiros molares ou sisos permanecerem inclusos.
Infelizmente, a maior parte do cérebro permanece desconhecida no nível molecular e dificulta o estudo nos moldes do método experimental.
Não é mais adequado pensar nas linguagens ligadas somente às trocas metabólicas físico‑químicas, no nível biológico‑molecular, ou na exclusiva origem social. É tempo de interagir a natureza, o social e a História à genética. A força mental que impulsiona a repetição e molda a ficção é muito forte para ser exclusivamente sociocultural.
Parece que o conjunto das reações neurológicas ligando o ser ao objeto, construindo a consciência do ser em si, é consolidado nas mentalidades ─ memorizado e reproduzido ─ no ritmo das necessidades pessoais requeridas no processo societário.
O ser é biológico e social: não existem seres sem as relações de trocas, essas não seriam possíveis sem eles. Logo, as ações apreendidas e interferindo na consciência em si, em especial as linguagens, devem estar contidas no mesmo processo.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

1º de abril


Pedro Lucas Lindoso


Comecei o dia da mentira ligando para um colega advogado em Brasília. Disse-lhe que estava chegando para conversarmos sobre uns processos no STJ – Superior Tribunal de Justiça. Ele me disse que se não fosse 1º de abril ele me buscaria no aeroporto. Os meus amigos e familiares já sabem que eu gosto de pegadinhas nesse dia.
Há várias versões sobre a origem dessas brincadeiras. Uma delas diz que o 1º de abril surgiu na França. Lá os trotes são conhecidos como “plaisanteries”.
Os mineiros propagam que o primeiro de abril no Brasil começou a ser difundido em Minas Gerais. Houve uma revista chamada A Mentira, lançada em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de dom Pedro, desmentida no dia seguinte.
Lucinda Dias, professora aposentada de Brasília, é socialista desde o jardim da Infância. Daquelas que tem o retrato do Che Guevara na parede da sala. Lucinda sempre foi apaixonada pelo Fidel Castro. Durante vários anos, no dia 1º de abril, telefonei para Lucinda dizendo que Fidel havia morrido. Ela sempre caia na pegadinha.
Com Fidel morto, pensei em matar o Putin. Não ia ter impacto. Ela não gosta dele. Liguei para Lucinda e disse que tinham prendido o Lula. Ela começou a passar mal. É petista de carteirinha. Logo tive que dizer que era mentira de 1º de abril. Nunca ouvi tanto palavrão. Nem quando eu matava o Fidel.
Achei o trote interessante. E liguei para o Almeidinha. É o oposto de Lucinda. Ainda bem que não se conhecem. Militar reformado e ultraconservador, Almeidinha diz para todo mundo que é de direita e detesta comunista. Odeia o PT, antes mesmo de o partido ser fundado. Eis o diálogo:
– Você viu na televisão? Prenderam o Lula.
– Usaram algemas? Pergunta o Almeidinha.
Eu lhe disse que não. Não houve necessidade. Foi tudo muito discreto. Almeidinha respondeu:
– Não acredito. Deve ser mentira de 1º de abril.
Se nem o Almeidinha acredita que o Lula pode ser preso é porque ele provavelmente não será.
Eu me divirto muito nesse dia. Não deixo de curtir as “plaisanteries”, como dizem os franceses.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Lábios que beijei 69 (final)


Zemaria Pinto
Janaína de todos os nomes


Envelhecer limita-se com apodrecer. Os lapsos de memória, as dores nunca sentidas, as referências perdidas: a vida reduz-se a lembranças improváveis, sem nenhuma ordem, e nos deixamos levar, sem mensurar as perdas, submetidos e submissos. Os nomes se embaralham, as situações também. Celebro o vazio, quando deveria recordar as mulheres que preencheram minha vida, esse oco sem conexão com os fatos, rostos que são apenas uma mancha disforme, mãos que se tornam garras quando delas me acerco, nomes sem sentido. Não há música possível, apenas o choro monocórdio dos corpos lacerados – não há sensualidade no sangue coagulado. Dão-me algo para beber. Lentamente, as ideias se arrumam e as imagens formam algum nexo. O corpo nu à minha frente é o da índia Janaína, exatamente como a vi adormecida milhares de vezes, deitada sobre o braço direito, o esquerdo projetado para a frente, o seio à mostra e a bunda à minha espera. Valda e Vilma, as irmãs ninfomaníacas, me puxam para si e me machucam os testículos. Regina, Vera, Cleide e Márcia me mordem o corpo que já não reage. Fabiana, a cleptomaníaca, Solange, Helen, Catarina – suas mãos em mim não me tocam, passando como névoa pelo meu corpo enrijecido. Os lábios proibidos de Rose roçam meus lábios e seu hálito é gelado. Cida me amassa os músculos das costas, Ane sussurra uma oração sem sentido e Renata me olha com olhos baços. Shirley bate no meu rosto e fala palavrões que não escuto. Janaína flutua ao meu encontro, deita-se com suavidade sobre mim, o seu corpo inteiro me cobre, me protege. Falando numa língua que eu não compreendo, ela me lambe com bondade e afeto – o rosto, o torso, os mamilos – e eu me esqueço de mim.


*Fim de Lábios que beijei*


domingo, 2 de abril de 2017

Manaus, amor e memória CCCX


Edição especial de natal.
Observem que não aparece o nome da cerveja – XPTO, Amazonense, Sublime ou Yankee, entre outras, só da cervejaria.
Mas a ilustração é deliciosamente herética – e pândega.

sábado, 1 de abril de 2017