Amigos do Fingidor

sábado, 31 de julho de 2010

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Carta aberta aos estudantes de Letras da UEA

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Caros estudantes,

Como é do conhecimento de muitos, recentes atitudes protestativas de uma parcela do corpo discente do curso de Letras da UEA (Manaus) foram dirigidas a mim, uma vez que no vazio presente na faixa dependurada, nos últimos dias, na praça central da Escola Normal Superior constava inicialmente meu nome. Sou professor desta universidade há dois anos, e esta não foi a primeira vez que vozes anônimas (dado que “assinar” Letras seja, antes de tudo, esconder-se em anonimato) ou pseudônimas têm se queixado de meu rigor como professor – o que teria provocado, segundo o texto da faixa, perda de interesse pela literatura. Evidentemente, a assertiva deve ser entendida apenas em relação àqueles que porventura um dia tenham de fato se interessado pela literatura.

A faixa anônima acima referida foi, na verdade, o mais terno dos gestos com que tenho sido agraciado. O mais comum tem sido o envio de mensagens eletrônicas que oscilam entre o deboche e a ameaça. Emails com assinaturas falsas, como talvez muitos saibam, não são, infelizmente, novidade para mim nem para colegas meus, também ofensivamente citados nessas mensagens. Há alguns semestres, no teor discursivo daqueles textos, reconheciam-se facilmente elementos como o bairrismo, o ressentimento e o asqueroso complexo de vitimização do qual a província ainda não conseguiu se libertar. Assim, em relação a meus colegas professores, o discurso anônimo sublinhava o fato de eles serem de outros lugares do Brasil.

É interessante que algo nesse espírito tenha sido observável recentemente em Manaus, pois, ao ser divulgado o resultado do ENEM, estudantes, por assim dizer, locais protestavam contra a adesão da UFAM ao exame. O “argumento” era a perda de vagas para o alunato de outros estados. Se mentalidade tão estreita vigorasse país afora, inúmeros pesquisadores amazonenses não se teriam titulado; e nesse grupo eu me incluiria. Da mesma forma, estudantes aqui graduados em Letras veriam suas chances de cursar mestrado e doutorado na área reduzidas a quase zero e a zero, respectivamente. É de se notar que os vestibulandos locais descontentes com o ENEM não se organizaram para exigir melhoria na Educação Básica do Amazonas, uma das piores do Brasil.

Em relação àqueles emails, nunca lhes dei muita importância. Nunca respondi a nenhum deles, pois simplesmente não via sentido em fazê-lo. Mesmo quando houve uma ameaça direta ao meu filho de 7 anos de idade, não respondi a quem quer que estivesse por trás da máscara da covardia. Na ocasião a que me refiro, da ameaça a meu filho, encaminhei cópia do email à Direção da faculdade, que por sua vez o encaminhou à Pró-reitoria de Graduação, então sob responsabilidade da Prof.a Ednea Mascarenhas Dias, em cujo despacho me sugeria procurar a polícia. Em outras palavras, a universidade se calava ante a questão. Não levei adiante o problema, em princípio, por não acreditar nas nossas instituições, conforme a falta de atitude da UEA me fez concluir. Além disso, não levei a sério a ameaça ao meu filho especialmente porque a maior ameaça a ele já está em andamento, se observarmos as péssimas condições intelectuais daqueles que hoje figuram potenciais professores de Língua Portuguesa.

Não creio que mensagens ou faixas anônimas constituam meios construtivos para um debate profícuo. Na verdade, já passa da hora de estabelecermos – alunos, dirigentes e professores – os fóruns adequados para que se debatam os temas pendentes (e são muitos) nesta universidade. Não sei se esta carta pode ser um estopim para esse processo; acho difícil que o seja. Mas, ao menos, ter-se-á nela a opinião clara e assinada de um membro pertencente a um dos segmentos interessados nesse debate.


Inicialmente, penso que há uma questão muito profunda na base do problema, que diz respeito ao exercício da docência no Brasil e que se configura num (pseudo) dilema: ou o sujeito aceita logo a modorra geral e a ela se incorpora, ou enfrenta as adversidades que se levantam contra um profissional comprometido. Se o professor vê seu trabalho como uma atividade de intelectual e escolhe desempenhá-lo criticamente, deve se preparar para uma série de contratempos. Uma coisa que gostei de perceber nos emails pseudonímicos é que seu autor (ou autores, conforme penso) parece ter clareza da existência de um problema no microcosmo do curso de Letras da UEA, metonímia da educação brasileira: ler e escrever é, mais que penoso, é matéria de suplício. Sei que isso integra o enorme círculo perverso em que o ensino brasileiro está preso. Mas creio que muitas vezes bastaria que alguém simplesmente fizesse o que deve fazer (i.e., aquilo que se espera que alguém faça, pelo próprio ofício que desempenha) para que esse círculo tremelicasse. Digo “tremelicasse” porque sei que a grande estrutura não sofre nem perto de um abalo quando um professor faz aquilo que deve (prepara-se, fornece material, orienta, dá aulas com embasamento e verifica rigorosamente os resultados); mas no microcosmo que é Letras-UEA nós já sabemos que os abalos têm sido constantes. Infelizmente, a problemática está para muito além do simples fato de alguns alunos não quererem fazer esforço – esses há, mas são a menor parcela. O que ocorre é que muitos alunos, mesmo estudantes de Letras, quando olham para uma página literária, sentem-se como que olhando para um muro muito alto e branco, intransponível e opaco. Onde estarão os mecanismos que fazem um indivíduo começar a ver sentido onde até então ele só vê o nada? É lugar-comum que esses mecanismos sejam dispostos ao sujeito nos primeiros anos de sua vida escolar. Não discordo de que haja bases importantes nesse período, mas não vejo por que condenar alguém ao limbo da ignorância (restrita ou ampla) sob a rubrica do assistencialismo pedagógico.

Em outras palavras, quando a universidade recebe um aluno que teve uma formação pobre e “entende” as suas carências e opta pela complacência, ela, a universidade, comete um duplo erro: 1. ela, cinicamente, retira do aluno talvez a sua última chance de se tornar enfim um leitor; e 2. ela cria um sofisma a que poderíamos chamar (com uma dose de ironia machadiana) equacionamento da defasagem educacional, nivelando por baixo, perpetuando as dimensões reduzidas do campo intelectual desse aluno e empobrecendo a si mesma como universidade. É uma potencialização perversa do antigo laissez-faire, pois do binômio dar recursos para deixar fazer fica o monômio final. Lamentavelmente, como todo bom sofisma, esse também convence a muitos. Como creio que alguns apoiadores da faixa anônima e dos emails pseudonímicos não tenham ficado reprovados em uma disciplina ministrada por mim, isso mostra até onde pode chegar tal convencimento, uma vez que se trate de alunos, por assim dizer, isentos. Eles, como a maioria da ignorante sociedade brasileira, acreditam que rigor seja má-vontade, estudo seja não mais que obtenção de “currículo” e que ensino seja assistencialismo cultural.

Vejo, no entanto, alguns progressos no curso. Há, é claro, alunos que desde o início demonstram grande potencial para docência e pesquisa – e esses têm se aprimorado; prova disso, é que tenho aumentado para eles o grau de exigência conforme percebo esse aprimoramento. Mas o que mais gratifica é ver alunos que têm (a muito custo, creio eu) conseguido avanços aparentemente pequenos, mas proporcionalmente gigantescos.

Como se pode ver, a questão é mais complexa do que uma simples brincadeira via internet ou uma faixa amarela. Há mesmo problemas a serem enfrentados pela coletividade que compõe o curso de Letras da UEA. Quem sabe, estejamos frente a uma oportunidade de reformulação estrutural, seja pedagógica, seja administrativamente. Sou a favor, por exemplo, da extinção do mecanismo que dispensa da Prova Final o aluno que tenha obtido média mínima de 8,0 (oito) entre a avaliação Parcial 1 e 2, pois muitos têm entendido a PF como recuperação (!). Consequência disso tem sido, de um lado, o afrouxamento das exigências por parte de alguns professores e, de outro, a crença que muitos alunos têm de estar sendo injustiçados com nota inferior àquela média, mesmo quando se fez apenas “um plagiozinho”. Há, evidentemente, outros pontos que deveríamos discutir, como a ampliação do curso em mais dois ou três semestres e, até, a criação de um bacharelado em Letras, com complementação pedagógica uma vez concluído o bacharelado.

Quem sabe, em breve, tenhamos discussões no âmbito do curso, com honestidade e sem melindres. Espero que sim. Os ganhos seriam enormes, muito mais que individualmente, pois cada turma fica quatro, cinco anos na UEA, e professores, felizmente, são mortais. Mas é bom lembrarmos que nossas práticas como professores e alunos têm vida para além de nós, indivíduos, repetindo-se nas próximas gerações.


Manaus, 28 de julho de 2010.



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Prof. Dr. Allison Leão

Manaus, amor e memória XVIII

Poderia apostar que é o registro da inauguração do chafariz quase centenário, que hoje hoje está no parque Jefferson Péres. Mas essa praça aí é a do Comércio. Ao fundo, o Café dos Terríveis. Para situá-los, esse espaço hoje é aquele antro ao lado da Catedral, chamado de terminal...
Mais informações, leia o Blog do Coronel, mantido pelo pesquisador Roberto Mendonça.

O valor dos sonhos numa realidade em crise

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Sister of battle.
Leonid Kozienko.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O estranho caso da Vila da Barra – 10

Marco Adolfs


– Ah! esse Mourão... finalmente alguém que acredita. – Comentei. – ...E vamos precisar de potes! – observei.

– Potes?

– Potes de cerâmica para manter a umidade das sementes e protegê-las do ressecamento excessivo – expliquei. – Afinal, elas farão viagem longa – finalizei, pensando com uma certa incerteza sobre essa empreitada absurda na qual havia me metido.

Passei cerca de uma semana descobrindo os meandros daquele obscuro lugarejo. Enquanto passeava, o senhor Lourenço tentava arranjar uma grande canoa para podermos ir em busca daquelas árvores que produziam o látex milagroso. Os potes que precisaríamos para acondicionar as sementes já haviam sido comprados e estavam devidamente escondidos na casa do senhor Lourenço. Era um total de vinte e cinco potes, grandes e compridos, que o português adquirira com a desculpa de que seriam todos quebrados e aproveitados para assoalhar parte de sua casa de terra batida. Eu, portanto, como não tinha mais nada a fazer a não ser esperar, saía a andar por aquelas ruas lamacentas e esburacadas tentando esquecer um pouco essa loucura toda.

O que eu pude observar de mais interessante naquele lugar é que não havia sequer um ordenamento para aqueles trechos quase que tomados pela vegetação e que os habitantes teimavam em chamar de ruas. E, perguntando de um e de outro que encontrava pelo caminho, os nomes daquelas ruas, me foram fornecidas as denominações mais estapafúrdias: rua da Campina, Travessa da Estrela, do Sol, da Lua, rua da Palma, e outras. Um dia, enquanto passeava e indagava sobre o comércio, tomei um caminho paralelo à única praça do local com o objetivo expresso de finalmente atingir a rua Liberal, no bairro de São Vicente de Fora.

(Continua na próxima terça)

domingo, 25 de julho de 2010

IX Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana – presença do Amazonas

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Promovido pela Universidade Federal Fluminense, o congresso Jornadas Andinas de Literatura Latino-Americana – JALLA estará sendo realizado no campus de Gragoatá, em Niterói, de 02 a 06 de agosto. Coordenado pelo professor Allison Leão, da UEA, o simpósio América Latina em desplaziamento: entre a tradução e a tradição literária terá a participação maciça de pesquisadores do Amazonas. Veja abaixo a programação do simpósio.

IX JORNADAS ANDINAS DE LITERATURA LATINO-AMERICANA

SIMPÓSIO: AMÉRICA LATINA EM DESPLAZAMIENTO: ENTRE A TRADUÇÃO E A TRADIÇÃO LITERÁRIA

Coordenador: Allison Leão (UEA)


02/08 – 14h-16h

Mesa 1 – seção 7, sala 210, bloco C

1. CAVALHEIRO, Juciane (UEA). Benengeli, Cervantes, Kafka, Sancho, Borges, Menard... tradutores do Quixote.

2. SOUZA, Fabrício Magalhães de (UEA-Fapeam). Só os deuses mortos são deuses sempre: a alteridade entre si mesmo e si, em Machado e Saramago.

3. MATOS, Maurício (Fapeam). “Me assusta uma espantosa eternidade”: Bento Aranha, tradutor de Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e Luís de Camões.

 
03/08 – 11h-13h

Mesa 2 – Seção 38, sala 210, bloco C

1. MARQUES, Mariana (UEA-Fapeam). A ficção epistolar em Flores Azuis.

2. RAMOS, Kigenes Simas (UFAM-Fapeam). Por uma linguagem de carne: o discurso de violência e a violência do discurso no conto “Rosa de Carne”, de Carlos Gomes.

3. AGUIAR, Adriana (UEA). A Selva: romance e testemunho na Amazônia.

4. SÁ, Juliana Maria Silva de (UEA). Representação do testemunho e proposta contraliterária em Histórias de submundo.


03/08 – 14h30-16h30

Mesa 3 – seção 59, sala 210, bloco C

1. ALBUQUERQUE, Gabriel (UFAM-CNPq). Peixe e prece: leitura de mitos Baniwa.

2. LEÃO, Allison (UEA). Euclides da Cunha e a Amazônia: a ficção como tradução do paradoxo.


04/08 – 11h-13h

Mesa 4 – seção 99, sala 210, bloco C

1. PINTO, Zemaria (UFAM). A cidade expressionista de Augusto dos Anjos: uma leitura de "Os doentes".

2. MOURA, Fadul (UFAM). Na loucura da solidão imaginária (des) constitui-se a identidade.

3. SAMPAIO, Ingrid (UFAM). Escapismos, mortes e águas além-muros.

4. SERAFIM, Yasmim (UFAM). Ver é cair no abismo.


04/-08 – 14h30-16h30

Mesa 5 – seção 117, sala 210, bloco C

1. TEIXEIRA, Karoline (UEA-Fapeam.). A construção de fratrias em Ciranda de Pedra.

2. PINHEIRO, Max de Souza. (UFAM-UFPA). Literatura, memória e oralidade: aparições da cidade Canarana na obra de Milton Hatoum.

3. POLLARI, Larissa (UFAM). O perder-se no exílio e na memória em “Bárbara no Inverno”, de Milton Hatoum.

4. ZUCOLO, Nicia (UFAM). Natureza e cultura: estrangeiridade e identidade como o jogo do outro.


Obs: alterado a 08.08, registrando a ordem de apresentação, e retirando da lista as comunicações que, mesmo aprovadas, não contaram com a presença de seus autores.

sábado, 24 de julho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Death of the Pariah.
Dorian Cleavenger.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O desafio de preservar o Encontro das Águas

Washington Novaes*

Que pensariam norte-americanos e canadenses se, a pretexto de uma crise energética, se resolvesse desviar as águas do rio e, com isso, deixassem de existir as cataratas do Niágara? Que achariam japoneses se, com a descoberta de uma jazida de um metal precioso, se resolvesse implantar um grande projeto de mineração no sopé do Monte Fuji e de suas neves deslumbrantes? O escritor Ernest Hemingway poderia levantar-se indignado do túmulo se, com igual motivo, se decidisse escavar sob o Monte Kilimanjaro, na África, tema de seus escritos. Pois é com indignação que o poeta amazonense Thiago de Mello brada aos ventos contra o projeto de implantação de um terminal portuário ao lado do majestoso Encontro das Águas do rio Negro com as do Solimões, que dá origem ao Rio Amazonas. Já há um forte movimento em Manaus para impedir que o projeto vá em frente (os defensores da obra argumentam com a “importância econômica” e a geração de empregos). E da oposição participa boa parte da comunidade acadêmica, que tem seus argumentos consolidados pelo professor Ademir Ramos, da Universidade Federal do Amazonas – que lembra também a importância histórica e científica dos sítios paleontológicos identificados na área.

O majestoso Encontro das Águas fascina brasileiros e turistas de outros países que vêm conhecê-lo (isso não é “importância econômica”?). O escritor Fernando Sabino escreveu (O Encontro das Águas, Editora Record, 1977): “Tudo aqui parece encerrar um sentido simbólico; os rios, as florestas, os animais e as plantas, os próprios homens. Aqui a natureza nos dá a sensação vertiginosa de que um dia fomos deuses. Aqui a alma se expande até perder-se no vazio onde o espaço e o tempo se confundem, para reencontrar-se numa vida além da vida, em que tudo se harmoniza – tempo e espaço, civilização e natureza, homens e deuses – numa perfeita integração.”

Pois é nas proximidades desse fenômeno e em área de propriedade da União que se quer levar adiante um projeto de R$ 220 milhões, bancado por duas grandes empresas, com forte apoio em áreas políticas locais.

A Secretaria do Patrimônio da União, em Brasília, deu parecer contrário, mas a Gerência Regional no Amazonas opinou a favor do empreendimento e com isso liberou a regularização de “faixa de terreno marginal do rio federal” (Amazonas). O Ministério Público Federal conseguiu na Justiça, em Manaus, medida liminar sustando o licenciamento – mas ela foi revogada em Brasília pela Justiça Federal. Agora o Ministério Público estadual tenta reverter o quadro.

Segundo a proposta apresentada, o “cais de flutuantes será composto de 4 flutuantes de 65 metros de comprimento, 30 metros de largura (boca) e 4 metros de altura (pontal) cada um, perfazendo uma extensão total de 260 metros”, à margem frontal ao Encontro das Águas. E tudo isso ocorre num momento em que se afirma universalmente a necessidade de reavaliar enfoques humanos diante de questões como mudanças climáticas, insustentabilidade de padrões de produção e consumo no mundo.

O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) está propondo implantar um novo índice que inclua o valor monetário dos serviços prestados gratuitamente pela natureza (fertilidade natural dos solos, regulação do clima e dos recursos hídricos, importância da biodiversidade para a criação de fármacos etc.). E é com visões dessa natureza que precisam ser confrontados projetos que põem em risco patrimônios naturais e da biodiversidade. Neste momento mesmo estão no meio de polêmicas vários projetos de portos que implicariam esses riscos – em Santarém (PA), no litoral baiano, em Santa Catarina, no litoral norte de São Paulo.

Da mesma forma, o projeto considerado ameaçador para o Encontro das Águas que formam o Amazonas. Neste caso, precisa ser considerado também o patrimônio representado pelas visões da cultura popular amazônida – sempre tão desprezada. Segundo o escritor Márcio de Souza, ela só aparece como folclore “e depois que passa a polícia”.

Mas quem viaja pelos rios da Amazônia vai descobrir de repente – como o autor destas linhas –, no Rio Nhamundá, no Lago da Serra do Espelho da Lua (que nome!), que a lenda das amazonas, para os moradores da região, não é uma lenda. É História, com H maiúsculo: elas habitavam a região, sequestravam homens para ter relações sexuais e a eles entregavam os recém-nascidos, se fossem do sexo masculino; com a aproximação dos colonizadores europeus, “elas foram fugindo para o norte, até depois da última cachoeira, em Roraima”. Poderá descobrir que a “democracia do consenso” de que fala o antropólogo Pierre Clastres está em pleno vigor entre os índios maués, à beira dos Rios Andirá e Marau. A eles devemos, entre outras coisas, a descoberta das propriedades energéticas do guaraná, reveladas por seu herói criador. E muito mais.

É preciso abrir ouvidos aos poetas, aos artistas, que conseguem incorporar a importância dessas culturas. Como o próprio Thiago: “Vem ver comigo o rio e suas leis./ Vem aprender a ciência dos rebojos,/ vem escutar os cânticos noturnos/ no mágico silêncio do igapó /coberto por estrelas de esmeralda” (Outros Poemas, Global Editora, 2007). Porque, diz ele, “de caminho de barcos sabe o mar. Os ventos é que sabem dos destinos”.

Os ventos populares, com certeza, desaconselham a rota que põe em risco o Encontro das Águas. Então, convém ouvir de novo Fernando Sabino, ao visitar esse lugar: “Aqueles que se encontram na fase de industrialização estão correndo constantemente o risco de empobrecerem e de se desnortearem em vários rumos. Talvez amanhã a riqueza de um povo seja medida pelos seus esforços a favor da conservação da Natureza, do seu ambiente natural, ou seja, pela capacidade de conseguir preservar a sua própria alma.” E, como sentencia ele, “não se desafia em vão a natureza”.


(*) O artigo do jornalista Washington Novaes foi publicado nesta sexta-feira (23/7/10) pelo O Estado de S. Paulo
Contato: e-mail wlrnovaes@uol.com.br
Foto: Valter Calheiros

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Manaus, amor e memória XVII

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Li hoje, na imprensa grande e sempre a favor, que a velha Biblioteca Pública será devolvida ao seu público na segunda metade de agosto. Tomara que, depois de 4 anos de inatividade, não seja mais uma mentira.
Foto: Marie Robinson.

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – final

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João Bosco Botelho


As ideias arcaicas, amparando a sobrevivência, foram armazenadas, como parte dos mecanismos cerebrais primários, em algum lugar do cérebro. A capacidade de reproduzir a idéia ficaria por conta das leituras, no sistema nervoso central, identificando a proposta como algo capaz de aprimorar o conforto.

A característica pessoal, única e intransferível, processada pelo córtex cerebral, com a marca biológico molecular nos genes, transmitida com a reprodução sexuada, ficaria dependente da experiência vivida no conjunto social. É como nascem e se reproduzem todos os saberes.

Apesar de a unidade ser mantida, teria traços comuns muito fortes. A dor e o desconforto seriam dois deles. Qualquer variável circunstancial, capaz de ser entendida pelo ser como sensação dolorosa, produziria resposta somático neurológica imediata, buscando, na intimidade da memória acumulada, todos os mecanismos cerebrais para impedir ou atenuar o desconforto.

A dificuldade para moldar o pensamento coletivo, de acordo com a conveniência do poder, reside nessa barreira: é impossível encontrar duas estruturas biológicas exatamente iguais.

Por outro lado, quando o dominante compreende o valor dos registros genéticos, principalmente a subjetividade, nascido na ficção, para suportar o desconforto e a dor, investe na conquista das mentalidades, através das linguagens oral e escrita, seduzindo a partir da valorização deles.

Existe uma inegável dificuldade para se ter acesso ao cérebro humano, não só porque se desconhece onde e como, mas também pelos limites impostos pela ética da pesquisa científica. Contudo, os casos clínicos, de achado acidental, são capazes de levar aos grandes progressos.

Os estudos desenvolvidos na Universidade Western, Ontário, sobre a consciência não manifesta (ou aparente descompasso entre o comportamento manifesto e a memória) são importantes para compreender a hipótese das MSGs.

A doente, estudada pelo grupo de pesquisadores, no Canadá, tinha sofrido dano cerebral por intoxicação de monóxido de carbono. Quando se recuperou, a sequela neurológica ficou localizada próxima ao córtex visual primário. Os testes seguintes mostraram que era incapaz de identificar uma xícara de chá, todavia os movimentos para pegar a mesma xícara e levá la à boca eram normais.

Esse tipo de comportamento alterado reforça a existência de, pelo menos, duas formas diversas do reconhecimento visual: uma dependente da percepção e a outra das funções motoras.

O outro relato significativo foi feito pelo psicólogo suíço Claparède, no início do século. As análises foram concluídas numa paciente, portadora de severo distúrbio para assimilar os fatos recentes. Na entrevista, ao apertar a mão do entrevistador, teve a sua furada, intencionalmente, por um alfinete. No dia seguinte, ela não reconheceu ninguém, porém se recusou a repetir o gesto que provocou desconforto.

A parte ativa da consciência, alerta mesmo em situação psicótica, a lembrança do desconforto da dor, está atada ferozmente aos laços genéticos e é, incomparavelmente, muito mais forte do que a banalidade motora de levantar um objeto.

Todas as tentativas de efetivar o controle social, pelo poder dominador giram nesses dois pontos comuns e antagônicos: oferecer o prazer e a dor, respectivamente, como prêmio e castigo pela obediência.

Qualquer moção lembrando a possibilidade para atenuar a dor histórica e fortalecer a partilha igualitária, sentida pelas sucessivas gerações dos esfomeados de pão e de justiça, terá uma sedução irresistível, ao resgatar os símbolos comuns da MSGC.

As teorias políticas e práticas religiosas para interferir no curso do movimento social utilizaram, em maior ou menor escala, os seguintes pontos, como variáveis dos remédios para sarar as dores e das fórmulas para aumentar o conforto:

– Promessa de prolongar a vida;

– Acesso à sociedade onde o trabalho é ameno, a comida é farta e a prática sexual é liberta das amarras da conduta;

– Inconformidade com a morte antecipada pela doença, pela fome e pela injustiça;

– Espaço sagrado (templo) ou profano (partido político) para defender a causa comum e julgar os resistentes;

– Aumento da proteção individual;

– Melhoria das situações temidas, causadoras de desconforto: a fome e o frio.

Algo muito poderoso se passou na intimidade da memória acumulada na espécie humana. Ainda não podendo afirmar que as ideias são transmitidas de modo semelhante às características físicas, resta nos o êxtase do quanto fascinam os homens e as mulheres alegorias simbólicas que ligam o passado remoto ao presente vivido.

Por tudo isso, a escrita consolidou, nas mentalidades, o divino e a posse do território como os mais poderosos resultantes da ficção. Os dois ordenaram, no mundo objetivo, de acordo com a conveniência temporal do poder, as duas mais importantes fontes de prazer: a sexualidade e o alimento.

O divino é, intrinsecamente, forte e sem a sua ajuda não teria sido possível manter a atual ordem espacial, prevalente no mundo. Em qualquer hora, seria capaz de impor a dor e modificar a arqueologia do prazer, contra todos os ritmos esperados da natureza. Os mortais, feitos à imagem e semelhança da divindade, são, ao mesmo tempo, os instrumentos e as vítimas. A dádiva ou o castigo divinos não ficam restritos somente à vida; prolongam se após a morte. Dependendo da obediência aos preceitos, o renascimento será confortável ou aflitivo.

O “Livro dos Mortos”, conjunto de textos funerários gravados nas paredes da Pirâmide Real do antigo Egito, com origem no reinado de Unas (2345 a. C.), último rei de V dinastia, é composto de hinos e receitas mágicas para garantir o renascer protegido.

As obras de Platão, interpretando pensamentos muito mais antigos, espelho fiel das angústias existenciais não resolvidas, contribuíram para manter o interesse especulativo, no Ocidente cristianizado, sobre o sentido da vida, partindo do esperado depois da morte.

O cinema, como uma das expressões de arte mais significativas do nosso tempo, continuou o movimento e mostra o quanto é robusta, no inconsciente coletivo, a sedução para continuar vendo os matizes da dualidade prêmio/castigo na vida e na morte.

O controle social, imposto em diferentes momentos do processo de humanização, mesmo utilizando os recursos mais indignos da perseguição, do assassinato e do patrulhamento ideológico, não conseguiu remover das MSGs a resistência à inevitabilidade da morte.

O político, compreendido como o sucessor do intermediário da divindade, travestido dos antigos poderes de curar e adivinhar os males da sociedade, está inserido na coerência genético social. A contínua penetração do seu poder espelha a força da MSCG na ordem social.

O avanço organizado para consolidar o cristianismo como religião universal foi muito bem estruturado em torno da doença como mal pessoal e social, interpretado a partir da leitura da Bíblia judaico cristã. O mundo cristianizado está atado nesse registro arcaico da memória coletiva, alcançando todos, independente da condição sócio econômica.

O cristianismo, ao contrário do rígido monoteísmo judaico, sobreviveu porque continua lembrando a metamorfose do politeísmo. Substituíram os antigos fetiches e amuletos pagãos pela água benta, o sinal da cruz, as velas da Ascensão, as palmas do domingo de Ramos, os rosários, as medalhas, os santinhos colocados no pescoço.

A legitimidade da doença e do sofrimento como instrumentos de castigos e ameaças de dor, aperfeiçoados pela linguagem escrita, está inserida no exercício do poder.

Na crítica da proteção pura, a relatividade do tempo é reafirmada, à medida em evidencia a fantástica coerência existencial entre o visível e o invisível.

O binômio tempo/espaço, fracionado unicamente pelo pensamento, é o começo, o meio e o fim da interação ajustada entre o ser e o objeto através das MSGs. Como unidade indissolúvel e inseparável, abriga e vivifica a diversidade das aspirações humanas arcaicas para viver sem dor e adiar a morte.

A posse do território e a divindade são as mais importantes ficções, trabalhadas ambígua e alternadamente no profano e no sagrado. A ordem social, desde o passado ágrafo, foi montada entre a terra, morada dos homens e das mulheres, e o céu, abrigo dos deuses.

Os sacerdotes e os políticos, travestidos de curadores e adivinhos, como agentes das religiões e das ciências, continuam sendo os instrumentos legítimos, usados pelo poder, para imobilizar o tempo e separar os espaços, com o objetivo de ordenar as mentalidades.

A competência do controle das sociedades está no modo como é tocada nas MSGs. É na entranha do corpo, nos limites desconhecidos da massa com a energia, no interior das células, que o poder aperfeiçoa as ferramentas para moldar a estratégia de sedução, atualizando as projeções mentais muito antigas sobre as novas verdades e estimulando a cooperação.

O conflito das contradições, gerado pelo choque das idéias orais e escritas, é a única alternativa para afrouxar a dominação e o apagamento das MSGs.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

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O estranho caso da Vila da Barra – 9

Marco Adolfs

– Deus meu! Então isso tudo é uma coisa séria – disse o português, ainda impressionado com o que escutara.

– ...E está claro que os portugueses querem vencê-la saindo na frente, e para isso contam com essa nossa ajuda – completei. – E, além disso, eles nos pagarão ainda mais – afirmei.

Neste momento, o português cofiou mais uma vez o espesso bigode e, com um olhar matreiro, virou-se na direção de um criado e começou a falar no que parecia ser um dialeto indígena. Pelo tom de voz e as expressões que usava, inclusive apontando de vez em quando em minha direção, percebi que ele estava relatando a situação toda ao silvícola. No final de sua fala, pareceu então indagar ao índio sobre alguma coisa, no que este prontamente lhe respondeu. Depois, se dirigiu a mim e falou:

– Este índio aqui sabe onde encontrar as árvores da seringa. Ele também disse que há dois tipos dessas árvores que se espalham pelas matas e beiradas do Solimões. Uma é branca e a outra é preta. A branca fica nas beiradas dos rios. Mas a preta – que ele afirma ser a de melhor qualidade – fica mais dentro da floresta. E disse ainda, que, se arranjarmos um barco grande, nos levará a um seringal de um tal Mourão, onde essas árvores estão sendo plantadas em grande quantidade.

(Continua na próxima terça)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

domingo, 18 de julho de 2010

Suzana Vargas na Confraria do Pina

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A Confraria do Pina reuniu-se na última sexta-feira em torno de um supimpa Bacalhau à Portuguesa, com a presença simpaticíssima da escritora gaúcha-carioca Suzana Vargas, coordenadora da Estação das Letras (http://www.estacaodasletras.com.br/).
Em sentido horário: Tenório Telles, Suzana Vargas, Luiz Bacellar, Mauri Marques e Zemaria Pinto. A cadeira vazia era do fotógrafo e chef Francisco Mendes.


Suzana e Bacellar, procurando o passarinho...


O bacalhau, antes da festa.

sábado, 17 de julho de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Indo e vindo

Marco Adolfs


Um dia desses, no qual não se faz muita força para existir, voltei a encontrar o poeta Bacellar, novamente sentado, quieto como um menino manhoso colocado em castigo, em uma daquelas cadeiras laterais que ficam bem perto da porta de entrada da Livraria Valer.

Estava lendo mais um livro emprestado pela vida para passar o seu tempo. Quieto e silencioso como uma abelha-macho pousada em uma flor. Para quem não conhece o Bacellar direito, o homem não passa de um bom velhinho, daqueles inofensivos. Mas, é só se aproximar um pouco mais do bardo e verás que por trás daquele aspecto pacato e aparentemente frágil, se esconde não uma abelha-macho pacificada por uma flor, mas um verdadeiro temporal amazônico, com todas as possibilidades de relâmpagos e trovoadas. E nem tente se oferecer para ajudá-lo a atravessar uma rua.

Me aproximei silenciosamente e sentei a seu lado. E comecei a provocá-lo. No bom sentido, é claro.

– E aí, Bacellar! Tudo bem?

– É... até prova em contrário, está tudo bem.

Lembrei então que mais um dia desses o homem ficou invocado comigo. Disse que eu estava fugindo dele.

Deixa eu explicar melhor: costumo encontrar o Bacellar, cruzando o meu caminho, nas vezes em que vou a uma livraria pesquisar. Ultimamente, sempre o encontro na Livraria Saraiva, do Manauara Shopping. É só eu me dirigir até lá, geralmente nas tardes de sábado ou domingo, e lá vem o Bacellar, se aproximando dos livros também.

Mas, nesse bendito dia, as coincidências do destino apresentaram-se tergiversas e em forma de duas escadas rolantes. Uma subindo, outra descendo. Eis que eu já havia pesquisados os meus livros da Livraria Saraiva e estava descendo a escada rolante para ir embora e o Bacellar estava subindo pela outra. Mesmo inseridos nessa situação, o Bacellar virou-se para mim e ainda disse:

– Estás fugindo de mim!?

Só tive tempo de gritar, enquanto descia.

– Não, Bacellar!... Eu estou indo, e você está vindo!...Estou indo, e você vindo! – repeti.

O homem já estava achando que, por eu estar descendo naquela escada rolante, distanciando-me dele progressivamente, eu já me encontrava em rota de fuga.

Foi cômico. Mas, voltando à Livraria Valer.

– Tu tens que deixar de ser tão rabugento – disse, esperando a reação.

O Bacellar foi rápido no gatilho.

– É melhor ser rabugento do que ter o rabo nojento!

Comecei a rir, imaginando a que tipo de rábulas ele se referia.

– Vou escrever uma crônica sobre isso – disse. – Posso escrever, citando o que me disseste? – perguntei, pedindo-lhe autorização.

– Pode.

Porém, apesar do mau humor momentâneo e da língua afiada como uma navalha de barbeiro, o poeta merece todas as nossas considerações. Li recentemente um artigo, escrito por um tal de Edigar de Alencar, intelectual cearense, no qual cita o poeta Luíz Bacellar, que ficara conhecendo “como um excelente poeta de Manaus”, por um comentário do emérito escritor cearense Braga Montenegro. Outro bardo radical em seus juízos, que em certos momentos se tornava também ácido e intransigente.

Fiquei então pensando que o mau humor de um poeta, talvez seja uma espécie de poesia ao inverso. Uma espécie absurda de consciência sobre os sentimentos hipócritas dos humanos que não entendem o que significa a palavra “respeito”, para um poeta...

...Dizem que as abelhas-macho só atacam quando provocadas. O fato é que ninguém pode esquecer isso. E que elas também são responsáveis pelo mel. Outro dado a ser, sempre, lembrado.

São fatos. Mesmo fazendo escuro, os poetas sempre encantam.

Mas, o gênio iracundo do poeta das metáforas luminosas é sempre como um temporal amazônico que, ao se formar no horizonte, desaba a qualquer momento.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário – informes

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Enviamos as informações sobre o II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário, que será realizado em Manaus, na Universidade do Estado do Amazonas, de 15 a 17 de setembro deste ano. O evento é uma parceria da UEA com a USP e a Universidade de Bologna, contando com o fomento da Fapeam, Fapesp e Instituto Camões.

Receberemos convidados nacionais e internacionais de peso para uma discussão em torno do tema “Literatura, Interfaces, Fronteiras”. As inscrições estão em fase final e seguem até o dia 30 de julho, quando não haverá prorrogação ou aceite de novas inscrições com comunicações orais. Serão ofertados também 11 minicursos.

Como no I Colóquio, as comunicações serão publicadas em formato de Atas e o livro com palestras e conferências será lançado no decorrer do evento, pela UEA Edições.

Mais informações: http://2coloquiouea.blogspot.com/  ou http://www.pos.uea.edu.br/catedra

A comunicação com a equipe de inscrição pode ser feita pelo email cael.uea@gmail.com 

Contamos com a colaboração de todos para divulgar o II Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário e os esperamos em Manaus, a metrópole no coração da floresta.

(A Coordenação)

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – 6

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João Bosco Botelho


Com esse suporte epistemológico, os médicos gregos, particularmente os das Escolas Médicas de Cós e de Knido, começaram usar a linguagem escrita para decompor a doença e retirá la da primazia divina.

No livro “A doença sagrada”, escrito em torno do século IV a. C, atribuído a Hipócrates, esta questão está transparente: “Quanto à doença que chamamos sagrada, eis aqui o que ela é: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que o resto das doenças e por origem as mesmas causas que cada uma delas”.

A linguagem escrita, como a oral, está entrelaçada no conhecimento historicamente acumulado das MSGs. Por essa razão, os gregos hipocráticos foram buscar, nos elementos de Empédocles – terra, água, ar e fogo – a justificativa das mudanças determinadas pela doença no corpo.

O filósofo de Agrigento, pretendendo a renovação da imagem do mundo, fundamentou a sua teoria em concepções mais antigas, que sustentavam, desde a oralidade, a importância do fogo, da terra, do ar e da água, na sobrevivência do homem.

Como a doença e a morte são as duas instituições mais marcantes do universo cultural, nada mais sedutor do que a tarefa de desvendá las para vencer a vontade divina sobre os corpos.

A teoria dos Quatro Humores, refletida nos elementos empedoclinianos, defendida pela escola de Cós, concebia o ser humano formado de quatro humores: sanguíneo (ar), fleumático (água), bilioso amarelo (fogo) e bilioso preto (terra). A saúde seria o resultado da perfeita harmonia entre eles e a doença apareceria, quando um deles prevalecesse sobre os outros.

Os jônicos, diversamente, admitiram muitos outros elementos interferindo na saúde. Os filósofos, notadamente o autor desconhecido de um dos mais célebres livros da antiguidade clássica, “Da natureza do homem”, recusavam se a crer na esquemática regra da teoria dos quatro humores. Contudo, o mais compreensível, associado com o saber acumulado, defendido pelos hipocráticos, acabou prevalecendo.

Os atos coletivos, empregados para modificar a realidade, têm de estar, obrigatoriamente, assentados em pressupostos teóricos, ligados à MSGC. É no SNC que a forma e a função se completam, dando coerência ao ato apreendido. Quem está vendo a dor da fome, estampada no rosto de penúria dos entes queridos, ou sentindo a ferida não cicatrizada, está sempre pronto para seguir qualquer proposta para finalizar o sofrimento.

O brutal mecanismo de forçar o convencimento pela força, sempre utilizando o castigo doloroso, colocado em prática pelo cristianismo como religião do Estado, a partir de Constantino, no século IV, não foi suficiente para apagar da memória coletiva o mundo sagrado oriundo dos tempos arcaicos. O povo continuava cultuando as festas equinociais e os deuses planetários metamorfoseados com a proposta de salvação cristã.

A alternativa para manter a unidade e seduzir os resistentes foi iniciar um claro movimento em torno do sincretismo, retomar a MSGC, mantendo na linguagem escrita o antigo sob nova roupagem.

Os deuses pagãos e cultos agrários, da Trácia e da Frígia estavam entre os mais solicitados nos altares romanos. Foram os primeiros atingidos pelo lento processo de mudança gradual da imagem para receber outro nome.

As divindades, que até aí contribuíram para explicar a ideia e a morte, oriundas do universo mítico babilônico, egípcio e grego foram, pouco a pouco, sendo substantivadas como antidivindades e aglutinadas no novo espaço, o inferno, adotado pela escatologia cristã, destinado aos transgressores e punidos.

A parte do povo, infelizmente a maioria, desde os tempos remotos, alheia aos determinantes profundos do movimento mítico que fortalece a consciência social, tende a aceitar a verdade sempre do lado do vencedor.

Para o simplório copiador das tabelas dos arquivos, admirador incondicional da história escrita pelo vencedor, e para aqueles que manipulam as leis em benefício próprio, os homens e os deuses vencidos são mentirosos e condenados.

Os livros escritos pelos médicos professos do cristianismo foram adotados pelos doutores da Igreja como a nova verdade oficial. Podiam ser lidos, nunca questionados. A saúde e a doença, a vida e a morte, componentes essenciais do controle social, passaram para as mãos do Deus cristão.

O primeiro e mais importante deles, Cláudio Galeno, foi o continuador das ideias da escola de Cós. Durante toda a Idade Média e uma parte da Moderna, quem ousasse duvidar das teorias de Galeno, mesmo comprovando o disparate entre a afirmação e o observável, era considerado louco varrido. Os ensinamentos galenianos foram repassados, no mundo cristão, como uma verdade religiosa.

A repressão ideológica, patrocinada pela Igreja Católica, para manter e reproduzir os princípios do médico romano, criou uma insanidade coletiva semelhante ao que aconteceu com os escritos de Karl Marx, no Leste europeu, e entre os intelectuais da esquerda latino americana, nas décadas de sessenta e setenta, ao defendê-los como verdades acabadas.

A paixão dos marxismos pós Marx, fruto da leitura das orelhas dos livros de ciência política, ao enveredar pela mesma trilha dogmática, contribuiu para agravar a crise de subjetividade que acelerou a derrubada do Muro de Berlim. Alcançou os limites de insanidade, quando afirmou ser o amor materno pela cria, um dos traços mais claros da filogenia, simples manifestação burguesa.

A primeira mudança de peso na abordagem das relações entre a forma e a função do SNC (um corte epistemológico na linguagem bachelariana) ocorreu vinte séculos depois dos estudos hipocráticos, na ilha de Cós, na Grécia. O estudo da micrologia de Marcelo Malpighi (1628 1694) iniciou o deslocamento da função dos humores hipocrático galênicos para o interior da célula, trazendo a forma e função para o nível celular.

Novas perspectivas foram abertas pelo descortinar da microestrutura celular. A maior parte do ensino e da prática dos saberes da atualidade está estruturada no universo da microscopia.

Pouco mais de duzentos anos se passaram, desde o corte malpighiano, para que as relações entre a forma e a função alcançassem a estrutura molecular do genoma, no núcleo da célula (nível molecular).

As pioneiras publicações do frade dominicano Gregor Mendel (1822 1884), demonstrando a importância das características genéticas de certos vegetais, foram aplicadas na nova busca da origem do pensamento, nas moléculas do ADN.

Hoje, a crítica do observável mostra a inoperância das três teorias – humoral, celular e molecular. São frágeis e inconsistentes para explicar as dúvidas que persistem, tanto no pensamento lógico quanto no ficcional expresso nas linguagens.

Na distonia entre o visível e o lido nos compêndios, está o pólo central das contradições do ato de escrever. A fraqueza do saber, avolumando as dúvidas nas dimensões extremas da matéria, oferece o suporte para a teoria das memórias sócio genéticas.

Os anseios dos homens e das mulheres, presentes na memória sócio genética coletiva (MSGC), para reforçar o conforto, é um dos fatores que provocam o movimento social. Quando as ideias são desarmônicas com o anelo, nem mesmo os mais brutais meios de repressão conseguem mantê lo ativo.

A História recente evidencia, com transparência, um desses momentos marcantes da resistência: o desmoronamento da ordem socialista, no leste da Europa. Aqueles povos demonstraram que a insatisfação com os limites da ideia não é obstruída pela oferta generosa do trabalho, da moradia e da comida. A necessidade atávica para buscar o conforto está além, muito além, da fome contida. É mais um indício da extraordinária ordem em que se processa o pensamento coletivo, quando se trata da sobrevivência comum.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

AAL tem concorrência acirrada para a cadeira 15

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Encerraram-se ontem as inscrições para a cadeira de número 15 da Academia Amazonense de Letras, que tem por patrono Graça Aranha e foi ocupada por Narciso Lobo, Mendonça de Souza e Huascar de Figueiredo.

Três candidatos habilitaram-se: Almino Affonso, José Roberto Tadros e Roberto Mendonça. Pelos nomes, prevê-se fortíssima concorrência.

O estranho caso da Vila da Barra – 8

Marco Adolfs


– Infelizmente, eles não me informaram – disse. – Mas estão ansiosos por essas sementes – continuei. Parece-me que construíram um viveiro de mudas numa ilhota perdida do Pacífico. E de lá, quando as mudas estiverem fortes seguirão viagem até sabe-se lá qual lugar. O fato é este, senhor Lourenço – concluí.

– Mas isso é roubo! Se os vereadores e o governador do Grão-Pará descobrirem, haverá uma confusão dos diabos – rosnou o senhor Lourenço. – E para um português como eu o momento não está nem para abrir a boca – completou, com os olhos arregalados.

– Ora, seu Lourenço, o império ainda passa por um processo de normalização política e não tem total controle sobre esse imenso país. – disse. Os brasileiros estão atentos a outras coisas e ninguém vai perceber nada neste mundo de selva fechada – finalizei, convencendo o português.

– Mas onde pegaríamos essas tais sementes e como faríamos o transporte e a saída delas, do país? – perguntou o português.

– Onde pegar é com o senhor – fiz observar, enfático. – E temos que encontrar logo – continuei. Não se pode perder tanto tempo com dúvidas, senhor Lourenço. Existem fortes indícios de que a Inglaterra, através de uma missão científica autorizada, já esteja com um carregamento dessas sementes pronto para zarpar pelo Solimões indo em direção ao Peru e, de lá, saindo por terra, finalmente atingindo o Pacífico.

– Nossa! Cruz credo! – exclamou o português, estupefato. – Esses ingleses estão sempre envolvidos com tudo – observou.

– Mas os homens da companhia estão providenciando que essa expedição dos ingleses malogre – disse. – Parece que os ingleses estão querendo plantar essas sementes na Malásia e assim dominar o mercado mundial, a partir dali.


(Continua na próxima terça)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

Brigam Espanha e Holanda

Leila Diniz

Brigam Espanha e Holanda
pelos direitos do mar
o mar é das gaivotas
que nele sabem voar

Brigam Espanha e Holanda
pelos direitos do mar

Brigam Espanha e Holanda
porque não sabem que o mar
é de quem o sabe amar
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Leila Diniz (1945-1972), na capa dO Pasquim. O jornalismo brasileiro nunca mais foi o mesmo.

Ideia: Mauri Marques.

sábado, 10 de julho de 2010

Fezinha Anzoategui (15/08/1947-10/07/2010)

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Feleceu no final da tarde de hoje a radialista Fezinha Anzoategui, apresentadora do programa “Nossos Momentos”, da rádio Difusora.

Fantasy Art – Galeria

Angel.
Dorian Cleavenger.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

30 anos sem Vinicius

Vinicius de Moraes (19/10/1913-09/07/1980), no traço de Paffaro.

Leia poemas de Vinicius nO Fingidor.
Ilustração: Adam. 

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – 5

João Bosco Botelho


A consciência da vida confortável atingida trouxe a inconformidade com o desprazer. Sendo mais inteligente, não poderia ter a mesma importância das bestas. Logo, é inaceitável uma morte nos moldes da dos outros animais. Tornou se imperativo ficcionar o conforto também após a morte. Mas, não para todos. Somente os aliados e os concordantes com a ordem teriam um repouso perfeito depois da vida.

Nos tempos primordiais, as mudanças operadas no corpo, causando a angústia da deformidade dolorosa, eram as primeiras evitadas. A barriga eviscerada no acidente de caça ou nas disputas pela liderança, ligava o consciente à dor e à morte e era parte do mundo temido.

O prazer, capaz de descontrair o músculo enrijecido, trazia sempre a lembrança do evento agradável. A estrutura dos neurônios foi continuamente adaptada para identificar, na MSG, a polaridade entre prazer e dor, como o caminho mantenedor da vida.

O castigo, necessariamente carregado de sofrimento doloroso, era imposto pelo homem ou pela divindade, nos espaços sagrado e profano, para gerar obediência. O medo, advindo da ameaça ou da dor física, passou a ser o limite de cada pessoa, expresso no alarma dos sentidos violentados, do permitido e do proibido.

O arcabouço da dor física na MSG, transposto para o sofrimento coletivo, moldou a dor histórica na MSGC. A coesão do grupo atingido é reforçada ao identificar as causas e, assim, orientar, através das linguagens, o caminho para eliminá la da ordem social.

A categoria denominada dor histórica é o grito humano pela vida, pela liberdade, pela saúde, pelo conforto, pela dignidade, pela paz e pela ruptura das correntes que prendem o homem à tirania dos outros homens e dos deuses.

É a razão por que sempre existiu a procura de uma ética na conduta humana, ligada à sobrevivência comum, registrada nos códigos de postura, presente no Código de Hammurabi e nos livros sagrados de todas as expressões de religiosidade.

O sagrado ficcionado como mecanismo biológico moldando a forma com a função para compensar a dor, imponderável por si mesma, encontrou unissonância no brado dos espoliados em nome do território e do alimento negados.

Não é intenção simplificar processo de tamanha complexidade. A partir de determinada referência, impõe se a crença numa memorização lenta e gradual, onde as necessidades básicas para sobreviver desempenharam um papel fundamental.

A bioquímica da memória é um dos pontos mais angustiantes do saber acumulado, abriga a quase completa ignorância de como funciona o sistema nervoso humano. Contudo, as informações articuladas com o movimento social mostram a fascinante anatomia funcional no cérebro. A procura das soluções, há mais de quinhentos mil anos, para os problemas enfrentados pelos nossos ancestrais, fez se em etapas.

Os instrumentos foram aparecendo, ao mesmo tempo em que ocorriam mudanças significativas no cérebro, identificadas nos crânios fósseis. Todavia, o avanço foi descontínuo. A arqueologia não deixa dúvida da coexistência entre formas diferentes de artenasato num mesmo período, ajudando a superar as novas dificuldades, impostas pelo aumento gradual das trocas com o meio circundante.

As primeiras evidências do surgimento das idéias estéticas e religiosas são encontradas no Paleolítico Superior. Apesar da impossibilidade de rastrear os sistemas religiosos na pré história, antes de 10.000 anos, tudo indica que o homem, no Neolítico, se comportava como o atual: dominava os mais fracos, modificava a natureza para obter o alimento, fugia da dor e da morte.

Inicialmente foram atribuídos à divindade os anseios da vida. Como a escolha não satisfez as exigências da crítica e não ressoava no observável, iniciou se a longa caminhada de conflitos para achar outras vertentes, capazes de responder às indagações.

O exercício do poder dos representantes da divindade, os sacerdotes e as sacerdotisas, mistos de curadores e adivinhos, impondo o castigo doloroso aos resistentes, resultou nos princípios da dinâmica social, onde a coesão e a dissolução, em equilíbrio dinânico, são dependentes, respectivamente, do predomínio do conforto e da dor, em determinado segmento da sociedade.

Os contestadores das autoridades dominadoras, compreendidos como agentes da dissolução ou pecadores, eram punidos com o pior dos castigos: a exclusão pela enfermidade, mensageira do sofrimento e da morte.

Inicialmente, a linguagem oral e, depois, a escrita retiraram a doença do mundo abstrato. Passou a ser nominada e evitada pela obediência obsequiosa.

A parte significativa da MSGC, ligada à sobrevivência comum, aperfeiçoada durante centenas de gerações, foi transcrita na passagem da oralidade para a escrita. Os adivinhos, encarregados de prever os malefícios mandados, como castigo, pelos homens ou pela divindade, assumiram um papel destacado no poder político.

Os livros sagrados, referência maior da ambiguidade sagrado/profana, são claros quanto ao destaque do curador e do adivinho no controle das mentalidades e na ordem do espaço ocupado.

A adivinhação e a cura sempre estiveram associadas ao mesmo universo de ideias. Elas impõem duas vertentes de abordagem: como atitude mental dos usuários, agente e cliente, e como instituição social. Não existem separadas; são associadas e dependentes.

A reprodução de um evento, exigindo conduta específica para mudar o cotidiano, só é consolidada se houver a prévia coerência com os registros memorizados. É exatamente o que acontece com a prática divinatória. Pouco importa a veracidade individual do ato. O peso da representação está no convencimento dos atores, amparados pela aceitação coletiva onde atuam.

De modo semelhante, o cientista, hoje, trabalhando no espaço profano, pode também mitificar a infabilidade da ciência, adotando postura igual, com as mesmas implicações sócio políticas, iguais às operadas no espaço sagrado.

Os mais antigos registros escritos, feitos na Mesopotâmia, são contundentes. Os assírios e babilônicos entendiam o pecador como o rebelde possesso da antidivindade. Nos textos cuneiformes, as palavras sortilégio, malefício, pecado, doença e sofrimento aparecem como sinônimas.

O conflito gerado na convivência dos nossos ancestrais no espaço sagrado, onde a coisa seria engendrada pela divindade, e no espaço profano, com o predomínio do conhecimento empírico, determinou os rumos escolhidos.

A cultura grega antiga, notadamente a da época hipocrático platônica, portou-se como o marco divisor da necessidade de distinguir a opinião do conhecimento. Não bastava mais alguém achar, era imperativo acrescentar os argumentos demonstrativos da linha condutora do evento.

Naquela ocasião, foi mais bem delimitada a materialidade do espaço profano, onde iria florir, com maior vigor, os saberes para iniciar o moroso processo tentando desvendar o corpo e as coisas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Kirk Reinert.

Para a orelha de “Drops de pimenta”


Dori Carvalho

Zemaria Pinto se mostra cada vez mais uma figura surpreendente. Os seus livros de poesia com títulos inusitados – Fragmentos de Silêncio, Música para Surdos – deixam versos-navalhas cortando nossas almas para sempre.

Não satisfeito com isso, como todo poeta poderia ser, continua desafinando o coro dos contentes, passando longe da literatura certinha, bem-comportada, que toma conta da nossa terra. Se nos apresenta (surpresa!) escrevendo peças teatrais hilárias e ferinas como Papai Cumpriu sua Missão, tratando a política como deve ser tratada; Cenas da Vida Banal, brincando com a harmonia reinante entre macho e fêmea; e leva a sério Shakespeare, Eurípides e Kafka, com a solidão de Otelo, a Medéia que há em todos nós e a distância entre nós e a Justiça. Volta ao mundo infantil com a sua Cidade Perdida dos Meninos-Peixes, preocupado com este nosso planetinha tão maltratado. Zemaria trilha um caminho que não é o da facilidade, da mesmice, da produção em larga escala e sem talento, tão costumeira. Talento em seu trabalho, aliás, é o que não falta; risco, muito menos, gesto tão raro em professores de literatura.

Dito isto deste artista universal do Amazonas, vamos ao Drops de Pimenta ou, bem poderia ser, “vida, a arte do desencontro” ou “pimenta no amor dos outros é refresco” ou ainda “nos menores frascos estão os melhores venenos”. São divertidas e displicentes porradas desfechadas contra nosso peito e em nosso pequeno cotidiano amoroso cheio de descaminhos, silêncios e perversidades, nos intervalos da paixão ou nos crimes que cometemos a todo instante contra o ser amado.

Se o(a) leitor(a) não quer cometer nenhum ato tresloucado, tipo fugir de casa, mudar o destino tão previamente traçado, leia apenas um por dia desses pequenos-grandes-contos ou haicontos. A princípio parecem brincadeiras (e são), você vai rir muito, depois, toma conta um certo mal-estar gostoso, um desconforto agradável, desses que fazem a gente rir da própria desgraça e, finalmente, quando você começa a se sentir dentro do livro, uma raiva incontida de si mesmo é inevitável – e vai se perguntar: o que é que eu estou fazendo que não mudo essa droga de vida? Aí vai uma amostra grátis para amantes ou desamados ansiosos e aflitos:

─ Pra ganhar tempo, a gente divide. Eu pego a lataria e os frios. Você, o material de limpeza.

─ Não é possível! Nem no supermercado a gente fica junto?

Mas, como diria o Barão de Itararé, é melhor não levar a vida toda a sério, afinal ninguém sai dela com vida. Drops de Pimenta é mais um presente que Zemaria Pinto nos dá, a todos nós, inconformados, inconstantes, espíritos livres, amantes, apaixonados...

Drops de pimenta, o livro, deveria ter saído na segunda leva dos Valores da Terra, quando ainda era prefeito de Manaus o cabo Pereira. Três alcaides depois, Valores da Terra é um projeto morto e enterrado. Mas o Drops continua vivo.

Ilustração: Tamara de Lempicka (1898-1980), Adão e Eva.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O estranho caso da Vila da Barra – 7

Marco Adolfs


– Será que o senhor ainda não percebeu? – indaguei incisivamente. – Escute!... Deixa eu lhe explicar. O senhor já sabe que a goma elástica está em vias de tornar-se um produto manufaturado, industrial, mais maleável e resistente. Eu tenho informações que... Bem... Neste momento existe uma verdadeira transformação acontecendo nos mercados dos principais países da Europa e nos Estados Unidos da América. Milhares de pessoas estão saindo dos campos para as cidades. Novas invenções! Novas máquinas! Novas necessidades! Percebeu?...A Inglaterra, a Bélgica, a França e a Alemanha querem dominar o mundo novo que está nascendo. E os proprietários da companhia são homens de larga visão. A idéia que eles têm é a de transformar Portugal num desses países de forte determinação fabril da Europa.

– E como isso se daria? – perguntou o português, um pouco incrédulo.

– Eu já disse e repito! – respondi, contrariado. – Com o látex!... Com Portugal plantando as seringueiras e dominando o mercado mundial da goma elástica.

– Mas essa árvore só cresce em florestas – observou o português, abrindo os braços apontando em direção da selva lá fora. – E não me consta que em Portugal exista uma floresta assim como a brasileira – ironizou.

– O que os donos da companhia desejam é levar essas sementes e tentar plantá-las, o mais rápido possível, em algum outro lugar – continuei, um pouco irritado.

– Mas onde? – perguntou o português.

(Continua na próxima terça)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

Manaus, amor e memória XVI

Símbolo máximo do medíocre futebol amazonense, o estádio Vivaldo Lima, 40 anos, está sendo demolido para dar lugar a um bilionário empreendimento, sede de não mais que três joguinhos mixurucas na copa de 2014. Como dizia o poeta, eta vida besta, meu Deus!
Foto: Zemaria Pinto, em 23.06.2010.

sábado, 3 de julho de 2010

Fantasy Art – Galeria

Venus in Scorpio.
Daniel Holeman.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A leitura e o princípio do prazer

Zemaria Pinto*

Não há nada mais chato que ler um livro por obrigação. Espero que não seja este o seu caso. Aliás, tudo o que fazemos forçados é inconvenientemente doloroso. É preciso ter prazer naquilo que se faz.

Com a leitura não é diferente. Além do mais, o tempo dedicado a um livro é relativamente maior que a qualquer outro tipo de fruição intelectual. Aí vem sempre aquela velha desculpa: já não tenho tempo para ler livros. Mas o sujeito tem tempo para ir ao cinema, surfar na Internet, jogar conversa fora com os amigos e outros passatempos que lhe dão prazer.

Por isso, se você gosta de ler mas não tem tempo, ou então você, que está começando agora e não consegue encontrar um livro que não seja chato, um conselho: experimente a leitura por duas, três, quatro páginas. Se não lhe der prazer, tesón, como dizem os hispanos, esqueça: esse livro não lhe merece. Ou vice-versa.

Porque um livro só é verdadeiramente um livro quando encontra um leitor. Livros que enfeitam estantes são tão inúteis quanto uma roda quadrada. O leitor deve interagir com o livro, deve vivê-lo plenamente, mas sem esquecer que o tempo de fruição é mais elástico que o de outras atividades.

Literatura não é cinema, que é consumido numa única sessão de, em média, duas horas. A leitura de um bom livro exige muitas horas e vários dias de dedicação. E se o prazer se mantém, se multiplica, quem ganha é o leitor.

Uma das mais interessantes teorias sobre a interpretação da obra literária é a estética da recepção, que procura analisar a obra literária em função dos inúmeros tipos de leitor que ela pode ter. Aliás, a verdadeira obra de arte traz consigo inúmeras possibilidades de interpretação.

Ao contrário da pose passiva que se esperaria de um leitor em contato com o livro – o livro como um repositório de informações, o leitor como destinatário –, cada leitor se posicionará em relação ao livro de maneira ativa, interagindo com ele de acordo com o seu nível de conhecimento – escolaridade, meio social, religião, profissão, enfim, o seu ambiente.

Se dois leitores de dois ambientes diferentes lerem o mesmo livro, sem dúvida nenhuma produzirão pelo menos duas leituras diferentes.

A Bíblia, por exemplo, que é uma verdadeira floresta de símbolos, terá variadas interpretações se lida sob a luz das várias teologias, e outras tantas ainda quando lida pelo homem comum ou por um intelectual ateu.

Livro magnífico que é, a leitura da Bíblia não se esgotará jamais, e as divergências ajudarão a iluminá-la com a serena vela da dúvida e a torturante chama da paixão.

Porque essa é a essência da relação leitor/livro: se cada ser humano é único na imensidão do universo, cada livro será, para cada leitor, uma experiência singular, intransferível.

(*)Material usado em Teoria da Literatura; estimulo, digamos assim, a leitores difíceis.
Ilustração: Gustave Courbet (1819-1877)

Larguem tudo, vamos voar!

Memórias-sócio-genéticas e as linguagens-culturas: construções essenciais da vida – 4

João Bosco Botelho

II. AS MEMÓRIAS SÓCIO-GENÉTICAS


Apesar de os estudos da anátomo fisiologia terem desvendado alguns aspectos importantes da forma e da função do SNC relacionados com as linguagens oral e escrita, estamos longe, muito longe, de compreender a maior parte das dúvidas.

A principal barreira é a fantástica multiplicidade das formas, no ser vivente, gerando funções semelhantes. Apesar de os homens e as mulheres possuírem áreas anátomo funcionais semelhantes, relacionadas com a linguagem, jamais se expressam igualmente.

As maneiras de articular as palavras, formando as frases e as idéias ficcionais são infinitas. Cada ser humano possui, como produto da interação genético social, a própria marca na linguagem utilizada. Apesar de a gramática ser finita, a língua gerada por ela é incomensurável.

O produto final das linguagens oral e escrita é, consequentemente, um dos vetores que modulam os componentes extrínsecos (a natureza, o social e a História) e os intrínsecos (os padrões genéticos herdados na reprodução sexuada).

O estudo das mentalidades, em diferentes períodos, mostra um histérico repetir coletivo, a partir da ordem vinda de um ponto perdido na escala filogenética, atrás dos anseios fundamentais, ditados por uma categoria nominada neste ensaio de memória sócio genética (MSG). É traduzida na vida de relação, desde os tempos imemoriais na liberdade para buscar, mais e mais, o conforto físico e emocional (aqui compreendido como a liberdade de ir e vir, de falar, de explorar e, sobretudo, a sede e a fome saciadas, o abrigo do calor e do frio) nunca resolvidos para a maior parte da humanidade.

Todos fogem da dor e procuram o prazer. A polaridade entre o conforto e o desconforto, sentido no corpo, são as chaves acionadoras da MSG. Todas as relações pessoais e com a natureza, com ou sem ajuda da técnica, que resultem prazerosas são acatadas, sem esforço, pela maioria. Sempre que a ordem social insiste em limitá las, ocorre resistência. A rebeldia contra o sexo limitado e seus símbolos, em todas as variáveis, o alimento escasso e a incrível sedução pelas drogas proibidas são partes importantes do mesmo universo.

A constância transmitida aos descendentes, pela reprodução sexuada, dos pontos comuns das memórias sócio genéticas pessoais, forma a “memória sócio genética coletiva” (MSGC), contida no cérebro primitivo, herança do traço filogenético comum.

Com reserva por ser mais abrangente e estar contida numa base anátomo funcional, a MSGC pode englobar a categoria junguiana do inconsciente coletivo.

As mensagens escritas ou orais, estruturadas na ambiguidade objetivo subjetivo ou, sob certas leituras, do sagrado profano, trazendo a esperança (não é necessária a certeza, basta o leve indicativo da possibilidade) de amenizar a dor e o sofrimento, são sempre bem aceitas e festejadas pela MSGC. Os acontecimentos, no Leste europeu, entre 1989 e 1992, são adequados para avaliar quanto o poder político age, sem obter êxito, sobre a informação consentida, tentando mudar a MSGC.

Nenhum poder ordenador amparado pela força explícita conseguiu conter, apesar da brutal repressão nos porões da intolerância de todos os matizes, a expressão clara da MSGC, oriunda dos tempos arcaicos, ativada pelo choque das idéias.

O estudo dos regimes autoritários, em todos os tempos, mostra a ordem mais forte criando, pela ficcão, alternativas para influenciar e manter, pela coação, o pensamento idêntico.

A diversidade manifestada na linguagem, através da interpretação do subjetivo é a primeira grande vítima. Os discordantes são perseguidos pela implacável caça ao dissidente. Considerados loucos, os corpos perdem o valor de identidade e o confinamento compulsório, sob a guarda do poder, retira os da cena.

Nada mais esclarecedor do que o politicamente correto, guiando a conduta da maioria, modificando a linguagem superficial e as atitudes, convencida da verdade na nova postura.

A capacidade de convencimento, fazendo parte da idéia institucionalizada, assenta se, sobretudo, na história das representações, das ideologias e das mentalidades constituídas a partir do saber acumulado e sobre ele. Por essa razão, continua muito significativo, junto às massas populares, a sedução exercida pelos políticos, prometendo maior conforto.

Os saberes pós industriais, baseados nos pressupostos da racionalidade, aqueles considerados durante longo tempo como garantia de progresso e abandonados depois de Auschwitz, Hiroxima e das denúncias acerca dos porões da intolerância das ditaduras de direita e de esquerda, não são mais capazes de negar o quanto o corpo sofre durante as emoções violentas.

O empenho do poder, ordenado para orientar a mudança, não obtém resultados, quando toca, de modo inadequado, na memória das lembranças historicamente acumuladas. O medo da dor e do desconforto continuam tão fortes quanto os mecanismos subjetivos, criados pela ficção, para atenuá los ou confundi los.

As investidas político ideológicas para remodelar o mundo, tentando suprimir as lembranças das MSGs, fracassaram. A História também mostra que nem a ameaça da morte coletiva é capaz de desestimular a resistência.

O ato de escrever acoplado à transformação tecnológica, adaptou se, continuamente, a esse querer coletivo: aumentar o conforto e afastar a dor.

Mesmo contestados pelas observações corriqueiras, muitos continuam resistindo à idéia da estreita dependência entre o subjetivo emocional (o mundo das ideias) e o objetivo biológico (o corpo).

É possível compreender, nesse ponto, a fantástica relação entre o ato de escrever com o nascer da consciência, diferenciando o cérebro da mente, traduzindo uma etapa significativa da corrente, entrelaçando a natureza, o social e a História nas MSGs.

Ao mesmo tempo, colocou o homem e a mulher numa condição singular e difícil: possuir a inteligência diferenciada e manter as mesmas características biológicas dos outros animais menos inteligentes, ligados no elo comum da filogênese. Enquanto procuram identificar se entre si, baseados nesse pressuposto, têm a plena certeza de que, mesmo fabricando os artefatos mais sofisticados, também precisam eliminar os excrementos pelos orifícios do corpo, exatamente como o símio preso entre grades no zoológico.