Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dabacuri – da natureza das coisas 2/6



Zemaria Pinto

no alto da mangueira,

o sanhaço faz seu ninho

– vida renovada

 

manhã de novembro,

aragem primaveril

– promessa de sol

 

à beira do lago,

o lírio branco floresce

– manhã de novembro

 

ploóp... ploóp... ploóp...

no silêncio da manhã,

a rã na piscina

 

Curandeiros e adivinhos: agentes de coesão social



João Bosco Botelho

 

      A história da medicina, em certas circunstâncias, evidencia que alguns diagnósticos e tratamentos não mantiveram nenhuma aderência aos saberes da época. Aquelas sociedades, no passado, e outras, nos dias atuais, validam a crítica de Jannie Carlier: "As fronteiras entre adivinhação e medicina são tão vagas que não nos surpreenderá encontrar num tratado médico um prognóstico aventureiro e, num tratado de adivinhação, um diagnóstico médico pertinente."

      Os grupos de doenças comumente relacionadas com esse contundente pressuposto – curas mágicas ou milagrosas como recurso de tratamento pertinente – são aqueles para os quais a medicina não oferece resultados convincentes: alguns tipos de cânceres, certas síndromes articulares dolorosas, determinados distúrbios de comportamento e a maior parte das doenças imunomoduladas.

      Esse conjunto complexo entre diagnóstico e tratamento competentes está intimamente atado ao ainda não desvendado paradoxo fundamental da medicina: em qual dimensão da matéria o normal se transforma em doença? Se é que existe o normal e a doença como pressupomos.  

      Nessa construção, mesmo utilizando todos os recursos da tecnologia médico-hospitalar da atualidade, incontáveis doentes morrem sem que os respectivos diagnósticos tenham sido reconhecidos.

      Por outro lado, é notório há milhares de anos o reconhecimento coletivo da existência de homens e mulheres reconhecidas com capacidades especiais para curar e adivinhar à margem de todas as leis da Física. Infelizmente, a Ciência continua sem compreender o significado biológico dessa cura.

      Permanece sem resposta a indagação: o curso da vida pode ser modificado por esse dom? De outro modo, as quatro forças (no macrocosmo: gravitacional, eletromagnética; no nível atômico, pequena força e grande força) que constroem as relações entre as matérias vivas e inertes poderiam ser modificadas magicamente, por meio do milagre?

      Enquanto não há outra resposta, continua prevalecendo o sentido bíblico presente em Tg 1, 17: "Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vem do alto e desce do Pai das Luzes".

      Os primeiros registros nos livros sagrados é possível identificar a intrincada relação de dependência entre essas pessoas especiais com os diversos segmentos sociais das comunidades onde atuavam. Esse nó está relacionado ao pro­cesso da ligação humana ao transcendente por meio da experiência religiosa com o sagrado. A constatação ficou clara a partir da melhor compreensão da escrita cuneiforme, dos povos babilônicos, no segundo milênio a. C., esclarecendo que as palavras sortilégio, malefício, pecado, doença e sofrimento embutiam significado semelhante.

      É também possível evidenciar que os curadores e adivinhos, em muitos contextos históricos, exerceram função equivalente na organiza­ção social. É por esta razão que os tratados divinatórios e os prognósticos médicos estão ligados desde os primeiros tempos. A posse do dom de curar doenças e malefícios sempre acrescentou mais poder a quem o possuía, colocando‑o em destaque na comunidade.

      Contudo, a manutenção desse poder nunca se evidenciou uniforme nem permanente. A possibilidade de substituição fora vivenciada, de modo contundente, pelos curadores e adivinhos quando, sob outro po­der político, sofriam as imposições do conquistador. Alguns reis citados no Antigo Testamento, como Baal e Astarte (Jz 2, 13), cultuados na Mesopotâmia, foram identificados pelo judaísmo como curadores e adivinhos ligados ao demônio, pelo fato de não estarem alinhados ao monoteísmo judeu.

   

 

 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Eu e os sofrimentos

                                                                                            Tainá Vieira
"Tome, Dr., esta tesoura, e.. corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração,  depois da morte?!"
Ah, Augusto dos Anjos, perdoe-me! Mas  estes versos foram feitos para mim. Como não tenho coragem, estou a ponto de pedir que cortem minha carne, antes que ela se decomponha e cause danos ao ar. Não desejo ver morrendo aos poucos a minha "singularíssima pessoa". Encontro-me num estado lamentável da vida. Meu organismo já não reage a nenhuma substância. É triste acompanhar o nosso próprio fim.  
A vida é cheia de surpresas mesmo, há quem queira a felicidade para toda vida  e até conseguem e existem outros que só a querem apenas por um instante e jamais conseguem, é o meu caso. Há muito que estou em busca da tão sonhada felicidade e esta sempre escapa pelos meus dedos. Não consigo entender, é difícil demais para entender, eu me sinto um ser estranho no mundo, um ser anormal, parece que certas coisas só acontecem comigo, eu fico achando que tudo sempre está contra mim, tudo em mim chora, sofre e dói. Eu já clamei aos deuses, já pedi que intercedessem por mim, mas não obtive nenhuma resposta, acho que eles nem ouviram o meu clamor. Não sei mesmo o que há comigo. Estou sempre sem respostas, estou sempre em dúvida, estou sempre com o coração ferido.
Eu que detestava remédios, agora sou hipocondríaco, cada parte do meu corpo exige um tipo de remédio, cada célula em mim depende de uma substância química. Alguém que não me conhece e tente conversar comigo, de certo assustar-se-á quando eu começar a falar... falar sobre doenças, sobre os meus males. E o pior é que eu não sou um corpo velho numa alma nova e nem uma alma velha num corpo novo. Eu nasci com defeitos! E os defeitos são tantos que não há como saber a minha idade!
 
 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Saudações



Letícia Cardoso

 

Compras. Ninguém sabe o que isso pode nos trazer até o momento em que nós temos que sair de casa para fazê-las. Pode acontecer que numa dessas idas ao supermercado, você tenha uma crise de timidez. E não digo isso pelo seu possível travamento diante da caixa, que não respondeu à sua saudação, ou então por aqueles 5 minutos que você perde tentando chamar o senhor que trabalha no açougue (e a força que faz para se manter firme em sua missão e não aceitar a primeira carne que ele lhe oferece). Não. Nesse tipo de atividade social, e por que não de sobrevivência, há grandes chances de você encontrar alguém conhecido, surgindo então aquela inquietação sobre como agir diante dessa situação. Pois, para o tímido, acontecimentos desse tipo significam que muita coisa pode dar errada (para ele) como frustações (consigo) e lágrimas por causa de sua (incontrolável) introspecção.

Sabe aquela sensação que dá quando você sente que algo saiu do eixo? Realmente, eu não sei lidar com esse tipo de situação. Você pode estar pensando que eu estou fazendo uma tempestade no copo d’água. Está bem, confesso que é mais ou menos isso que você pensa, meu caro leitor. Mas, se posso ser honesta, detesto quando encontro pessoas fora do ambiente que deveria encontrá-las. Entendeu? Deixe-me explicar melhor.

Estava no supermercado outro dia quando me dei conta que tinha passado os últimos quinze minutos tentando escolher qual marca de extrato de tomate compraria. Bem, isso foi nos cinco minutos iniciais. Nos outros dez minutos eu me dediquei no árduo trabalho de descobrir o porquê de um elefante ser o símbolo de uma marca de extrato de tomate. Elefantes gostam de tomate? Até então eu só imaginava que eles gostassem de amendoins e tivessem pavor de ratos. Ok, perdemos o foco, mas em que momento da minha longa vida como leitora de gibis do Maurício de Sousa eu perdi o Jotalhão dizendo que gosta de tomates?

Por mim, não há problemas, uma vez que amo massas com bastante molho. Se eu soubesse que ele gostava disso também, talvez ele tivesse sido uma espécie de herói para mim. E aí então eu não ficaria com vergonha alheia por todas às vezes que a Rita Najura tentou conquistá-lo. Sério, gente, uma formiga e um elefante? Como? Percebam que mudei de foco outra vez. Se eu estivesse concentrada na minha missão de fazer compras naquela manhã teria percebido as pessoas que andavam em minha direção. Oh, não! Gente conhecida (sorrindo para você) com pessoas não conhecidas a menos de 5m agora: fuja, tímido, fuja!

Que fique claro desde agora: não são as pessoas que encontro que me fazem desconfortáveis. Não, geralmente não. É o embaraço da situação. Estou dando muitas voltas para explicar? Serei objetiva, então. É que eu nunca sei o modo como tenho que me comportar!

Você me diz agora: Letícia, aja com naturalidade. Você conhece a pessoa e ela está vindo te cumprimentar, qual o problema? A minha grande agitação é: primeiro, não saber como saudar a pessoa: Talvez um “Olá”, pode parecer forçado; um “Oi” pode sair como: “detestei te ver por aqui”; Quem sabe um “Alô”?. Cara, ninguém deve fazer essa saudação desde o fim da década de 50! Segundo, eu não sei se devo abraçar, estender a mão, pior: os beijos! São dois ou apenas um? E por qual lado começa? Eu vou para direita ou para esquerda? E se a pessoa for para o mesmo lado que eu? Jesus, quanta vergonha! Terceiro: se ainda houver crianças e outras pessoas acompanhando o conhecido, o que fazer? Saudá-los com um aceno e beijar a criança? Ou saudar a criança com um sorriso (que, acredite, será incrivelmente assustador devido ao seu estado de espírito-pré-infarto-a-qualquer-momento). Droga! Têm crianças que adoram ser esnobes ou ainda fazer cara de Pit Bull, e mesmo sabendo que são apenas Chihuahuas, você sente medo e desconforto com elas.

É por causa de situações como essas que pessoas como eu são tachadas de antissociais. Mas na verdade não são. Nós somos pessoas boas, acreditem. Nosso único problema é a ansiedade e o nervosismo que nos assolam durante esses momentos sociais. Nós tímidos temos medo de parecer ridículos aos olhos dos outros. É muito fácil nos desestabilizar. Basta um comentário dúbio a respeito, por exemplo, da nossa aparente falta de iniciativa para conversar. Coisas do tipo: “O gato comeu sua língua”, machucam. Você já pensou se um gato realmente tivesse comido? E por que diabos, gatos comeriam línguas? Esse é mais uma daquelas coisas insensatas tais como elefantes que gostam de tomates!

Quando o casal se aproximou de mim e soltou um melódico “Olá, Lelê! Que bom te ver!”, seguido de um abraço, eu até que relaxei, mas como a cara ainda não era das melhores, eles logo perguntaram se eu estava bem. Na verdade, na minha mente passava aquela velha guerra sobre maneiras de saudar as pessoas, sobretudo, aquela vontadezinha de saber como abraçar alguém sem travar durante o processo. Mas essa história eu deixo para próxima.

 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Manaus, amor e memória CXLIV

Clube da Madrugada em 1990. Posse de Evandro Carreira como presidente.
Da esquerda para a direita: Nestor Nascimento, Luiz Bacellar, Evandro Pororoca Carreira, não conheço, Antísthenes Pinto e Max Carphentier.
Na fila de trás: D. Izabel Alaúzo, Jorge Tufic, sei lá quem e Arthur Engrácio.
Mais atrás, as barbas de Anisio Mello.
O Bacellar de bermudas é inédito. Ele estava querendo mandar alguma mensagem para o futuro.
Talvez, "esse clube já não existe mais, tirem por mim..."
Em 1990, o Clube já havia cumprido sua função histórica e era apenas um arremedo do que fora.

sábado, 25 de janeiro de 2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dabacuri – da natureza das coisas 1/6



Zemaria Pinto


notícias do sol – 

os pássaros da manhã

cantam na varanda

 

o pouso silente

da borboleta de seda

celebra a manhã

 

a grama cortada

espalha um perfume novo

no velho jardim

 

lua minguante –

sob o teto da manhã

a passarada canta

 

Do comunismo à droga e, finalmente, o verde como nova ordem social



João Bosco Botelho

 

         Não é necessário ser esperto para concluir que os trezentos bilhões de dólares movimentados anualmente pelo narcotráfico não podem ter sido estruturados da noite para o dia.

         A produção de heroína no Paquistão, em 1986, em torno de 140 toneladas, superou largamente as 40 toneladas de 1984. O preço de algumas drogas chega a rivalizar com o do ouro.  O volume de dinheiro gerado pelo narcotráfico não fica restrito às economias dos países emergentes. A venda de co­caína, em Miami, nos EUA, envolve uma fortuna próxima do faturamento da Philip Morris, um dos maiores produtores de cigarro do mundo.

         As drogas como a maconha, a cocaína e a heroína constituem problema fundamental das autoridades sanitárias, de maneira semelhante ao álcool e ao cigarro. O controle pretendido pelas autoridades policiais fica difícil porque existem particu­laridades específicas do uso e da comercialização de cada uma delas, ao mudarem continuamente com a aquisição de novas alternativas advin­das dos lucros astronômicos.

         A Corporação Rand, da Califórnia, apresentou relatório ao governo americano, em abril de 1990, evidenciando que apesar do esforço administrativo, não houve mudança significativa entre a população que consumia cocaína e heroína.  

         Enquanto o combate ao traficante é obrigação do Estado moderno por meio do organismo policial, o ato noticioso da complexa malha social está inserido no trabalho da imprensa. Entretanto, é necessário unir as forças com os profissionais de saúde para conter o enfoque demoníaco, frequentemente, ligado aos dependentes. Os usuários devem ser entendidos como pessoas que necessitam de cuidados médicos com o objetivo de romper a dependência química.

         Na atualidade, o mundo está tendo a rara oportunidade de presenciar o movi­mento da coesão social para manter a posse do território. O mal, antes simbolizado pelo comunismo, foi dicotomizado: o maléfico, a droga; o benéfico, o verde.

         O rápido processo de busca do elo aglutinador, do comunismo à droga, foi precocemente percebido, em 1989, pelo ditador Fidel Castro. A capi­tal Havana foi coberta de amplos cartazes contendo a bandeira nacional e os dizeres “sabremos lavar ejemplarmente esse ultraje”, contra os oficiais do exército envolvidos com o tráfico de drogas, sumariamente julgados em tribunal militar, condenados à morte e fuzilados.

          Depois que o comunismo deixou de representar perigo aos valores capitalistas, rapidamente, se identificou o novo inimigo comum – a droga – e o mais forte aliado – o verde. Ao mesmo tempo, em série de declarações sincronizadas, as principais autoridades mundiais deslocaram a atenção para os riscos ecológicos da industrialização. A integridade do verde planetário foi embutida no ideário capitalista.

         A mídia azeitada para readaptar o pensamento coletivo ao politicamente correto é extraordinariamente competente! O jornalismo científico e a arte, sensíveis às mudanças, estão enga­jadas na nova ordem estética. O verde deslocou as ligações incômodas, associadas aos exces­sos do capitalismo, sem mudar absolutamente nada na essência ideológica.

         Os países emergentes, débeis nas respostas frente às dominações, curvaram-se ante a pressão e aderiram, sem esforço, à nova ordem mundial: a droga substituindo o comunismo e o verde como nova ordem de coesão social.

          

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Engels Medeiros (21.05.1954 – 21.01.2014)




Silêncio
                    
                     Engels Medeiros


Psiiiuuu
o silêncio
é a noite no cio
que invade a alma
do quarentão solitário
e o transforma
em lobo vadio
psiiiuuu
o silêncio
é o dia vazio
que vaga de quarto em quarto
como um escarro
que dá arrepio
psiiiuuu
o silêncio
é o homem arredio
que corta a madrugada
a frio
e se torna dinamite
sem pavio

psiiiuuu

Os homens e eu



Tainá Vieira

 

Não sei exatamente o porquê, mas eu tenho muita afinidade com o sexo oposto. E vocês, leitores, me dirão, é obvio que isso é natural. Mas não estou falando da afinidade carnal, daquela que voluptuosamente une os corpos debaixo dos lençóis. Não, não é disso que falo. É algo que vai além dos corpos, ultrapassa a alma. E eu já tentei deveras entender isso, pois acho estranho, aí cheguei à conclusão de que eu fui homem em outra vida. Tenho quase certeza disso.

Os meus heróis são todos homens, óbvio, quero dizer que não tenho nenhuma mulher como espelho. Meu pai, um homem simples, rude e de coração gigante, é meu ídolo favorito, um pedaço de mim, eu seria capaz de morrer por ele. E se ele morrer antes de mim, eu morro em seguida.  Meus irmãos acho-os tão indefesos, tão inocentes neste mundo perverso. Eu com 12 anos de idade já enfrentava monstros e meus irmãos nessa mesma idade, ainda mamavam o leite de minha mãe. Eu não gosto de ver um homem sofrer, isso me dói a alma, eu sou capaz de sentir essa dor, eu consigo sofrer até mesmo quando vejo um homem-bandido ser preso e torturado, mesmo que esse mau elemento tenha assassinado alguém, ainda sim eu sofro por ele. Outro dia, eu presenciei um homem ser executado friamente, ele fugia dos policiais, e, em certo momento da perseguição, segundo testemunhas, ele parou a motocicleta e ia se entregar, pois sabia que não tinha mais como fugir, parou para a morte, recebeu vários tiros e ficou como um animal que é abatido por caçadores ferozes, ficou agonizando até o ultimo suspiro. Eu estava do outro lado da rua e vi o corpo, aquela cena me deu calafrios e dor e eu chorei, chorei por aquele homem, não soube do seu crime e nem o seu nome ou a sua idade, mas chorei por ele.

Não gosto de ver homem sofrer, quando eu ando por aí, eu sempre observo os homens, o ônibus é o lugar mais comum para se encontrar homens sofredores, é fácil de identificá-los. Eu observo os velhinhos, que entram pela porta da frente sem pagar, a entrada para eles é liberada, de longe dá para vê-los, com suas mãos cansadas eles acenam para que o motorista pare e levam minutos até conseguir entrar, quando entram, dão um sorriso imenso de agradecimento e sorriem mais ainda, quando os lugares reservados a eles, estão vazios. Aquilo é um prêmio. Acomodam-se e ficam a pensar na vida, nas suas medíocres vidas, nas doenças que tomam conta de seus corpos e corroem seus corações, nos remédios que precisam comprar e na aposentadoria que mal dá para isso. Pensam nos filhos que, como os pássaros, criaram assas e voaram, pensam nos netos que não os visitam e têm vergonha de andar com eles, pensam nas mulheres que morreram cedo e os deixaram sozinhos ou pensam nas ex-mulheres que o trocaram por outro, e pensam até nos filhos que não tiveram, pensam na solidão da vida, pensam na morte... Eu sei que pensam tudo isso, eu sou capaz de sentir e ouvir seus pensamentos.

Meus heróis, pelo menos, pelas estórias que contam sobre suas vidas, também sofreram e foram homens solitários. Dante Alighieri que é considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana sofreu pelo amor de uma mulher, Beatriz Portinari, sua musa, e sofreu por outras causas também. Luiz Vaz de Camões teve várias decepções amorosas, ele se apaixonou por mulheres de classe muito superior à sua e jamais foi correspondido, e sofreu por isso. Machado de Assis também, apesar de ter amado e sido amado por Carolina, também sofreu, este sofreu muito, creio eu.  Sofreu quando perdeu a mãe e depois o pai, sofreu pela sua condição social, por doenças etc. Luiz Bacellar, o mais solitário de todos, sofria porque era tímido demais. E tantos outros meus heróis que aqui não caberiam, sofreram, choraram, e eu sofro com eles. Homem não merece sofrer. E agora me dirijo somente às leitoras, ainda que um homem lhe fale mal e ou lhe magoe profundamente, o perdoe, pois ele não soube o que fez, o perdoe e não faça jamais um homem sofrer, você carregará esse peso na consciência para o resto da vida. Na verdade, não quero mais entender o porquê do meu sofrimento ou da minha afinidade para com o sexo oposto: eu não seria a mesma se descobrisse.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Lábios que beijei 11



Zemaria Pinto
Nazaré

Nazaré trazia a noite nos lábios fartos e na língua que voava livre pelo céu da minha boca – ave encantada, enigma e magia. A menina de negros cabelos curtos, gestos bruscos e cheiro de flores silvestres foi a primeira mulher a despertar em mim mais que pensamentos idealizados: vontades sofreadas a custo, desejos de morrer e de matar. Foram apenas alguns dias, mas tatuou-me a carne para sempre: Nazaré, que tinha na pele a soma de todas as cores, plantou em mim a paixão da cor, reproduzida em tantas mulheres que amei – como não tive tempo de amar Nazaré.    

domingo, 19 de janeiro de 2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O caos em construção 2/2



(um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages) 

Zemaria Pinto

 

A exposição, distribuída em vários segmentos, salienta a relação com a cidade de Manaus. No texto de apresentação, o artista destaca: “as pinturas abstracionam ruas e os planos codificados dos trânsitos e moradias. Os rios passam no meio e os pontos indicam as vidas expressas”. Lazone, cidade mítica da dramaturgia de Sergio Cardoso, aparece aqui ressignificada nos conjuntos Mhanauscartas, Ethereoplanoviario, Kosmopólismao, Sethembrosete, entre outros. Manaus feia, suja, doente. Grotesca.

Não há como olhar esta exposição com olhos de ver. Não à toa, Fellini pode ser encontrado logo à entrada, anunciando o caos e o delírio. Antes, ela pede uma mirada além do que os olhos que apodrecem podem compreender. Uma visada mental, para além das imagens, debulhando as ideias e, ficcionando-as, friccionando-as para delas extrair o sumo que os olhos não conseguem perceber: expressum dolorem nostrum.

Oh City – Stages é uma exposição em movimento, cinética, ou como escreveria Glauber, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade, reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.

Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco é o foco. Em Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros. A cidade atravessada pelo rio, em Khaopolinow. O rio figurado em serpente adormecida sob a cidade. Guardiã e carcereira: armado o bote.

Duas câmeras fixas registram a sandice do trânsito de automóveis na barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registra o vai e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda, lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do eterno retorno: não precisamos de luz.

Mothocity. Pequenos quadros figurativos, expressionistas, onde motocicletas e homens não apenas se juntam, mas se fundem e se confundem, como numa misteriosa banda desenhada pintada, que Sergio me segreda é a aventura de Claude Lévi-Strauss, o personagem onipresente, em plena selva selvagem amazônica. Oh tristes trópicos tropicais!

Kosmo/Khaos. “A cidade será sempre um ser em elaboração”! Um prefeito, por mais covarde que fosse, jamais comungaria verdade tal, sem meter um balaço dundum entre os olhos, logo na cena seguinte. A cidade é uma metamorfose multiplicada, uma potência descontrolada, um nervo exposto supurado – é um câncer ensandecido.

Depois de atravessar os círculos infernais urbanos, o último segmento – Albhum – colocado ao fim do salão, metaforiza o perdão dos pecados e a remissão do Ser. Todas as tormentas se dissipam e o visitante reencontra a paz das fantasias, dos sonhos bons, da infância perdida, nas alusões ao cinema e ao jazz. Os pequenos quadros figurativos de Albhum, expressionistas na forma e amorosos na expressão, conduzem o expectante a uma outra realidade, fora da opressão da cidade em desordem, fora da homicida miséria cotidiana. A paz esteja com todos.

Licença plástico-poética na definição do próprio autor, Oh City – Stages é um jogo de armaramar: a cidade em evolução, em movimento, é uma alegoria do caos em construção – interminável e inevitável, por consequência, inenarrável. Uma abstração em si mesmo, o caos é o primeiro e o último estágio do círculo que encarcera o homem na sua consciente e feliz mediocridade.

Dor e drogas: frágeis fronteiras da morte antecipada


 

João Bosco Botelho

 

 

Uma das características mais intrigantes do processo evolutivo humano é como a dor altera a noção do tempo. Suportar o desconforto doloroso, seja físico ou emocional, por um minuto, é como estar sofrendo na imensidão do infinito.

Durante a manipulação dentária, quando a pequena broca alcança o nervo sensitivo, as sensações cerebrais são indescritíveis. Igualmente, a perda da pessoa amada, do filho querido, a injustiça perpetrada, consome cruelmente no âmago mais profundo. Ao contrário, a hora de prazer corre como um breve instante. Por essa razão, é impossível manter, durante muito tempo, a algia fulgurante de qualquer natureza, seja o pé dilacerado ou a morte precoce do ente querido. De pronto, todos os sentidos natos se atiçam para evitá-la ou os sentidos são apagados, pela inconsciência forçada, para aliviar o desastre biológico: a dor insuportável.

         Qualquer pessoa ou divindade, capaz de interromper o sofrimento, é identificada nas relações sociais com a mais poderosa arma, seja uma divindade ou um curador, contra a morte antecipada. Desse modo, é possível teorizar que a dor fora de controle é espécie de anunciador da morte.   

         As reações corpóreas, tanto dos humanos quanto de outros animais precisam dessas defesas, presentes nos corpos vivos, para continuar vivendo e reproduzindo. A espécie humana elabora substâncias específicas, em vários lugares no sistema nervoso, chamados peptídeos opiáceos, semelhante à morfina, independente da vontade do doente, para sarar a dor. É por essa razão que em certas circunstâncias a dor pode comportar certo relativismo, em função do preparo que sofre. É fato conhecido que alguns ascetas suportam dores que, normalmente, outros não aguentariam. Essa situação de extrema resistência à dor estaria relacionada às possibilidades individuais para secretar as esses moléculas de peptídeos opiáceos.

Do mesmo modo, não basta ao corpo secretar grande quantidade desses opiáceos (espécies de morfinas), as células envolvidas com a modulação da dor (identificadoras da dor) devem possuir os receptores que se unam aos opiáceos, para haver efeito analgésico.

Esse fato explica porque algumas pessoas se viciam (álcool, maconha, cocaína, morfina, e outras drogas alucinógenas) mais rápido do que outras. É possível que a quantidade de receptores seja a explicação: quanto mais receptores mais rápida a dependência.

         A incrível disseminação das drogas proibidas também não é um problema social exclusivo. Não será a repressão policial que fará a mudança para conter o uso e o abuso. Se fosse possível impedir o consumo de drogas pela força policial, os bilhões de dólares gastos pelas administrações norte-americanas teria mudado o perfil de consumo e morte por overdose.

A sedução exercida pelo consumo das drogas alucinógenas é diferente em cada pessoa. Tudo indica que existe um patamar comum na espécie humana, isto é, todos são igualmente susceptíveis ao uso, mas a forte dependência é estritamente ligada à presença desses receptores que existem em algumas células do sistema nervoso central de certas pessoas.

Os estudos retrospectivos sugerem número significativo de dependentes de drogas alucinógenas que desejam parar mas não conseguem.

A tentativa bem intencionada de obter a desintoxicação raramente é bem sucedida. As análises mais atuais alimentam a crença de que o descimento da sedução das drogas só será obtido, objetivando o abandono completo do vício, por meio de mecanismos genéticos capazes de bloquear os efeitos no sistema nervoso central, impedindo a sensação prazerosa.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Um dia de estágio



Tainá Vieira
 

A professora está ali em frente ao quadro branco explicando o conteúdo que copiara. Eu estou ao fundo, na última carteira, fazendo a observação. A sala é mediana, está cheia, a maioria dos alunos são mulheres que, atentamente ouvem tudo o que a professora explica. Eu observo cada uma dessas alunas, e lembro-me que um dia já estive aqui, e não sei se é por coincidência ou acaso, mas é a mesma sala. Estou no fundão agora, outrora sentava na frente, para prestar atenção em tudo, queria aprender muito, eu adorava vir para aula, à tarde era o horário mais importante da minha vida, a escola era o meu território de domínio, onde eu me sentia bem, e era também o lugar que mais eu sonhava. Minhas asas começavam a crescer e eu pretendia voar bem alto. Eu tinha grandes sonhos. 

É o segundo dia de estágio, senti-me comovida ao observar cada uma dessas alunas, o jeito como elas copiam do quadro, como manuseiam seus cadernos com tanto amor, a professora pede para responderem os exercícios do livro e prontamente ficam em silêncio e resolvem todos. Logo em seguida a professora chama à sua mesa, para corrigir os cadernos e as alunas por ordem alfabética esperam a sua vez... Não, não são crianças de quatro ou cinco anos, são jovens e adultas que estão aqui, não estão recuperando o tempo perdido, mas estão fazendo o seu tempo. São mulheres que, como eu, que já estive aqui, tiveram algum contratempo na vida, quem sabe lhes roubaram o direito de aprender quando criança ou adolescente, mas sejam lá quais foram esses contratempos isso não apagou a esperança de aprender, de buscar conhecimento. Eu vejo em cada uma dessas alunas, uma força enorme, vejo nos seus olhos uma luz brilhar bem lá no fundo. É a esperança. Esperança de um futuro bem mais bonito, cheio de oportunidade para plantar e semear. E quem sabe um dia, como eu, colher o fruto e começar a semear também.          

A prática de estágio supervisionado é para todo acadêmico e futuro profissional um período de estudos práticos para aprendizagem e experiência, uma vez que, quando o estagiário passa a conviver com os alunos e o professor regente, ele adquire conhecimento de ambas as partes, aluno e professor. Dos alunos da turma cujo estágio está sendo feito, o estagiário conhece a relação professor/aluno.  Pode observar o que é certo, o que é errado, como poderia melhorar a relação ou se ambos são distantes no que diz respeito à sala de aula.  Se o aluno é atento aos estudos, se cumpre seus deveres e se exerce seus direitos. E ao professor, o método que ele ensina, como ele passa o conhecimento para o aluno, se é correspondido pelo aluno no que diz respeito à sala de aula. Ou seja, o estágio é para o estagiário uma ferramenta de extrema importância na sua formação, porque é a partir daí que o futuro profissional testará seus conhecimentos e habilidades para saber se realmente está apto a seguir na sua escolha.

Como eu disse, é o meu segundo dia de estágio e estou emocionada ao ver essas mulheres vestidas de alunas. Elas me fazem ter uma visão diferente do mundo. Antes eu via um mundo normal, cheio de regras convencionadas por uma sociedade caduca e um povo alienado, hoje eu tenho a minha própria visão de mundo, se eu quiser, eu posso criar o meu próprio mundo. E isso eu devo a essas mulheres-alunas.

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Caminhos



 
Letícia Cardoso

 

– Eu estou lhe deixando agora para voltar para você.

         – Por favor, não vá. Não me deixe sozinha. Eu não vou conseguir sem você.

         São 10h da noite do dia 23 de março. Dormi por 14 horas e estou sem vontade de levantar da cama. Parece coisa do destino, mas lá fora chove. Volto a dormir.

         – Você não entende que faço isso para o nosso bem? Por favor, querida, não chore. Eu estou indo porque precisamos desse tempo.

         Outro dia chuvoso. E aquilo já tem uma semana. Continuei trabalhando, como você pediu. Não nos encontramos mais, nos falamos por telefone apenas. Fiquei feliz quando soube que você conseguiu uma entrevista naquela empresa.

– Estou lhe deixando para voltar para você.

         Continuei com as minhas aulas de dança. Peguei mais uma turma. Eu não queria pensar em mais nada. Sabia que não precisávamos de um tempo. Precisávamos um do outro. Você nunca entendeu que era minha cura. Talvez eu nunca tenha sido o seu remédio.

Estou exausta. São 23h30. Olho a caixa de mensagens do telefone e nada: nenhum recado seu. Foi assim nos últimos dias. Hoje é 23 de abril e completamos um mês separados. Abro um vinho.

– Querida, você viu onde está minha blusa?

         Hoje fui à livraria. Encontrei um casal de amigos. Assim como nós, eles estão casados há 10 anos. Perguntaram-me por você. Respondi que estava bem. Em seguida, eles começaram a discutir por causa da demora no atendimento. Ela saiu, ele ficou.

– Merda de fila.

– Fica calmo. Você sabe como são essas coisas durante o fim de semana.

– Eu só acho que eles poderiam aumentar o número de atendentes. Por que não viemos ontem fazer isso?

         – Porque tive que trabalhar até às 21h.

         – Eu poderia ter feito isso, ontem, sem você.

– Mas você sabe que eu gosto de fazer as compras da casa.

– Você não confia em mim para nada mesmo.

– Por que você está dizendo isso?

– Porque estou desempregado e você não quer...

– Pare com isso! Você está desempregado, mas é passageiro. Logo conseguirá um emprego. – Deu-lhe um selinho – Tenha paciência, meu amor.

         Foram seis meses que você passou desempregado. Durante esse tempo nossas brigas aumentaram, por tudo e qualquer coisa. Você não aceitava que eu sustentasse a casa. Mas eu nunca lhe cobrei nada.

– Não precisava ter comprado esse jogo.

– Eu sabia que você queria assisti-lo.

– Mas eu poderia muito bem ter assistido na casa do Augusto.

– Então por que você não o chama para vir aqui?

– Eu...

– Ok.

          Você tinha vergonha de admitir aos seus amigos que não conseguia trabalho. Você até pediu ajuda a alguns, mas eles não corresponderam às suas expectativas.

– E por que você está descontando sua frustração em mim?

– Eu não estou frustrado e não preciso de sua ajuda. Eu preciso de um emprego. Você o tem?

Eu nunca pude dar adeus completamente. Você me deixou quando saiu por aquela porta. Você me deixou quando disse que voltaria para mim. Mas você sabe? Você nunca poderia realmente voltar. Eu vejo isso agora.

Eu estou lhe deixando agora para voltar para você.

E eu estou aqui, sozinha. Nesta mesma sala que há um ano você deixou. Estou aqui nesse ponto em que nossas mãos se desprenderam. Aqui onde meu coração caiu. Aqui, exatamente aqui, em que tudo foi desfeito.

– Estou lhe deixando agora, mas é para que possa voltar. Não pense que estou indo e isso não me dói. É justamente para evitar mais dores que deixo você agora.

         Será que você não enxergou que a dor da sua partida foi maior do que todas nossas brigas? Meu Deus, por que você desistiu de nós? Por que você tinha que ficar naquela maldita empresa trabalhando até tarde? Por que você reagiu ao assalto? Por que você tentou ser o herói daquela mulher? Por que você não voltou para mim como prometera?

– Meu amor, está é a nossa casa! – Ela mal podia dizer o que sentiu quando ele tirou a venda de seus olhos.

– Minha casa é você! – beijou-lhe – Este é o nosso lar.

Eu estou lhe deixando agora para voltar para você.

         Logo que nos separamos, você conseguiu um emprego. Passaram-se alguns meses e não voltamos. Eu desisti de insistir, mas o nosso lar sempre lhe pertenceria. Eu continuei esperando por você.

– Querida, adoro quando você dança.

         Meu único e grande amor, que há cinco anos reagiu a um assalto depois de deixar, às 2h da manhã, a empresa na qual trabalhava. Quinze minutos depois, conforme a perícia, você tentou salvar uma mulher que lutava contra o bandido. Mas você perdeu a luta, meu amor.

– Dance para mim, por favor.

         Eu estou indo agora para voltar para você.

         A porta foi fechada e dentro de mim eu sabia que você estava indo para nunca mais voltar.