segunda-feira, 19 de outubro de 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
Centenário de Thiago de Mello
quarta-feira, 5 de março de 2025
Folia no Seringal – lançamento
Zemaria Pinto
Começo
agradecendo a presença de todos: a família – esposa, filhas, netas e irmãs; os
parceiros Mauri Mrq e Tenório Telles; o time da Valer – Isaac Maciel, Neiza
Teixeira, Bruna Chagas; amigos velhos, ex-alunos, pessoas que estou conhecendo
hoje... E destaco ainda a presença do mestre Marcos Frederico Krüger, e do
nosso decano Elson Farias, em cujas personas cumprimento a todos os presentes.
Num hipotético país parlamentarista das letras, o Marcos seria o primeiro
ministro e o Elson, o presidente.
Vigésimo
oitavo livro publicado, ainda não me acostumei com o estresse dos lançamentos,
e às portas dos setenta anos, tomo o cuidado de trazer estas breves palavras
pré-escritas, para não correr o risco de gaguejar ou de simplesmente esquecer –
não só o que ia falar, mas o que estou mesmo fazendo aqui?...
E olha
que setenta anos não é pra qualquer um, que o digam os meus amigos Antônio
Paulo Graça, Anibal Beça, Sérgio Luiz Pereira... e Torquato Neto, Paulo
Leminski, Ana Cristina César... e Glauber Rocha, Raul Seixas, Sergio Sampaio,
Cazuza... e Jimi Hendrix, Janis Joplin, Amy Winehouse... Mas, de uma coisa
fiquem certos: com a chegada da velhice, nós aprendemos que não sabemos nada do
que pensávamos que sabíamos quando jovens. Por favor, não me cancelem, isto não
é etarismo; é apenas uma autocrítica. Se não, vejam.
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| Professora Neiza Teixeira, que conduziu o evento. |
Entre
os 15 e os 17 anos, estudei o Científico, equivalente ao ensino médio de hoje,
no Colégio Estadual (ou simplesmente Estadual). Ficava vendo de longe os
componentes do Clube da Madrugada que frequentavam o Café do Pina, na praça em
frente – a da Polícia. Moleques, eu e Geraldo dos Anjos ficávamos horas a falar
mal dos “funcionários públicos da literatura amazonense”. Estúpidos, nós dois,
não demoraria muito para tomarmos consciência dessa estupidez. Mas, a juventude,
vocês sabem, não acaba aos 17 anos... É um processo. E de repente vem a
artrose, a artrite, a arritmia, a glicose, as viroses a pressão alta, a pressão
baixa, a falta de... sezão... E estamos irremediavelmente velhos.
Folia
no seringal é um
balanço da minha aventura como ensaísta, reunindo doze exemplares da minha
produção no gênero, desde “Maranhão Sobrinho, o místico de Satã”, publicado em
1999, como prefácio de Papéis Velhos... roídos pela traça do Símbolo, na
histórica Coleção Resgate, coordenada por esse mítico guerreiro das Letras
amazônicas, Tenório Telles, até textos escritos nesta década, vinte e tantos
anos passados. E tudo tendo como eixo o Clube da Madrugada, fundado em 1954.
Com este livro, celebramos os 70 anos do Clube.
Folia
no seringal faz um
passeio pela trajetória do Clube, que é o caminho traçado pela literatura feita
no Amazonas, mostrando que há um antes e um depois do Clube da
Madrugada, sendo o durante a própria existência do Clube. Comecemos pelo
princípio.
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| Mauri Mrq, músico e compositor. |
Antes – o ensaio de abertura, “A paisagem
na literatura de viajantes e nativos”, começa com Frei Gaspar de Carvajal, que
escreveu, no seu relato, Descobrimento
do rio de Orellana, a nossa certidão de nascimento; e faz um breve
inventário dos viajantes e nativos que tomaram a paisagem como personagem:
Cristóbal de Acuña (Novo descobrimento
do grande rio das Amazonas), Henrique João Wilkens, o poeta do genocídio (Muraida), Julio Verne (A jangada, 800 léguas pelo Amazonas),
Conan Doyle (O mundo perdido), Raul
Pompeia, autor de O Ateneu, escreveu Uma tragédia no Amazonas, com 17 anos;
Euclides da Cunha (que estava escrevendo Um
paraíso perdido quando foi parado pela bala de um desafeto); Ferreira de
Castro (e o superestimado A selva);
e os amazonenses Octavio Sarmento (A
Uiara) e Violeta Branca (Ritmos de
inquieta alegria).
Destaco,
no já citado “Maranhão Sobrinho, o místico de Satã”, o poeta que, vivendo em
Manaus, na minha Cachoeirinha, e aqui morrendo, foi o autor que logrou maior
reconhecimento nacional na era pré-Madrugada. Nenhuma antologia séria do
Simbolismo brasileiro o ignora.
O
terceiro ensaio, fechando esse grupo, diz ao que veio já no título:
“Romancistas e contistas: a literatura de ficção na Academia Amazonense de
Letras”. Porque sempre tem um incomodado a reclamar que a Academia tem
escritores de menos. E é verdade, mas isso não chega a ser nenhuma catástrofe,
porque os escritores da AAL dominam outros saberes, além da literatura de
ficção. Vejam. Em cem anos de existência, 1918-2018, contam-se 15 ficcionistas,
em um total de 148 acadêmicos; 10%, portanto; o que significa que os outros 90%
dominam outros saberes. E escrevem livros sobre eles.
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| Tenório Telles, escritor e crítico literário. |
Clube
da Madrugada – o
ensaio que abre este capítulo não se isenta de polêmica, em três frentes; duas afirmações
e uma pergunta. Primeira afirmação: o Clube da Madrugada não se constituiu como
um movimento, uma vez que não tinha um programa estético, e sim político. Segunda
afirmação: o Clube da Madrugada não foi o Modernismo no Amazonas. E a pergunta:
até onde vai, cronologicamente, o Clube da Madrugada? Costuma-se dizer, eu
mesmo já o disse várias vezes, que o Clube da Madrugada foi fruto de uma
geração excepcional. Na verdade, foram pelo menos três gerações.
Na
sequência, quatro ensaios sobre quatro autores emblemáticos do Clube: Luiz
Bacellar (Frauta de barro), Astrid
Cabral (Alameda), Elson Farias (Memórias literárias) e Ernesto Penafort
(uma visão geral de sua obra, mostrando que havia muita poesia além do azul).
Esses quatro autores representam as mais de duas dezenas de autores que
gravitaram em torno do Clube.
Eu
lembro que, há exatos 10 anos, em um 9 de março, Eu e o Mauri, juntamente com o
Tenório, o Marcos Frederico, o Alisson, a Nícia e outros amigos, lançávamos na
sede da Academia o livro-objeto Lira da
Madrugada, homenagem aos 60 anos do Clube – aliás, não fomos eu e o Mauri, mas sim o Mauri e eu. O Mauri
cantou, tocou, fotografou, produziu, deu palpite em tudo. Eu só desorganizei as
ideias poéticas, para dar um toque de não sei quê. Parece que faz tanto tempo: até
o conceito de livro-objeto, nestes tempos virtuais, fica difícil de entender.
Vou tentar: eram dois livros e um CD. O CD era um disquinho compacto, um
compact disk... É melhor parar por aqui...
Depois – reunindo três ensaios de autores
que surgiram após o auge do Clube da Madrugada, comenta-se a dramaturgia
amazônica de Marcio Souza – A paixão de
Ajuricaba, Jurupari, a guerra dos
sexos, A maravilhosa história do
Sapo Tarô-Bequê, As Folias do Látex,
Tem piranha no pirarucu e muitas
outras; o romance histórico de Rogel Samuel, O amante das Amazonas; e
três títulos da escritora Márcia Antonelli, que tem a figura de um adulto
portador de nanismo como protagonista e como isso se desenvolve entre o grotesco,
o fantástico e o marginal: são eles O
enterro do anão, O anão do açougue e
O anão trompetista. De novo, quero
deixar bem claro que isso não é capacitismo, até porque os anões de Márcia,
além de protagonistas, são personagens com uma carga trágica muito forte. E foi
isso o que me encantou neles, além da já conhecida capacidade da autora de
engendrar tramas fantásticas. Antonelli representa, no livro, a literatura
produzida no Amazonas neste século 21. É, portanto, o que há de mais novo em
nossa literatura.
![]() |
| Zemaria Pinto. |
Fechando
o capítulo, um ensaio – “Miniconto, microconto, nanoconto, contos são?” – onde
se discute uma tendência minimalista do conto contemporâneo, que chega a usar os
muros da cidade como veículos para o texto, lembrando a Poesia de Muro, teorizada
pelo poeta madrugadense Jorge Tufic.
Por
fim, sempre me têm perguntado “por que Folia no seringal”? Talvez
estranhando um súbito relaxamento na sisudez com que se trata a literatura
sobre a época. Lembro o amigo Márcio Souza, a quem presto todas as reverências
que um discípulo deve ao mestre: a peça As folias do látex, encenada
pela primeira vez em 1976, me deu a senha. Então, eu li o lírico romance do
amigo Rogel Samuel como se fora um desfile carnavalesco, trocando o circunspecto
Bakhtin, teórico da carnavalização, por um glamoroso e feliz Joãosinho Trinta.
Evoé!
O livro é de vocês!
Fotos: diversos autores; obrigado a todos.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
70 anos do Clube da Madrugada (texto de abertura e vídeo)
Zemaria Pinto
Fundado em 22 de novembro de 1954, mas
amadurecido desde cinco anos antes, o Clube da Madrugada germinou da resistência
de uma geração, nascida na segunda metade dos anos 1920 e primeira metade dos
anos 1930, ao marasmo governamental, que nada de interessante oferecia aos
jovens que concluíam os estudos médios, a não ser o curso de Direito. Restava a
esses jovens os caminhos do porto e do aeroporto, rumo ao Brasil.
Um grupo deles chegou a realizar duas viagens
pelo país, antes da fundação, para descobrir, num tempo de comunicações
precárias, o que acontecia de novo no país. Descobriram, por exemplo, o
Modernismo dos anos 20, o romance realista dos anos 30 e a chamada Geração de
45, da qual fazia parte o jovem estudante de medicina Thiago de Mello.
Em 1955, comemorando um ano de fundação, o
Clube da Madrugada lançou um manifesto, criticando as artes em geral e o
pensamento retrógrado da Academia Amazonense de Letras. O item Literatura, que
abre a seção crítica do manifesto, é uma verdadeira bomba: Não há literatura
no Amazonas. O resto é história.
Influentes nos 30 anos que se seguiram, além da
literatura, o Clube ajudou a plasmar a cultura amazonense como a conhecemos
hoje, nas artes plásticas, no cinema e na música, e, principalmente, na maneira
de pensar a cultura. 70 anos depois, o Clube mostra seu vigor no interesse que
desperta nos jovens por estudar sua gênese e seu desenvolvimento, longe ainda
de esgotar esses estudos.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2024
Lira da Madrugada – Max Carphentier 15/15
Zemaria Pinto
Ficha biobibliográfica
Autor: Max
Carphentier
Nome completo: Max Carphentier Luiz da Costa
Naturalidade: Manaus – AM
Nascimento: 29 de abril de 1945
Obra poética:
· Quarta esfera
(1975)
· O Sermão da selva (1979)
· Orfeu do Nazareno (1983)
- Tiara do verde amor (1988)
- Nossa Senhora de Manaus (1995)
- Teresa de Ávila – o êxtase da
muralha (2001)
- Celebração da vida – missa
planetária (2003)
- Sagração do verde (2012)
- Contemplação das cidades (2012)
- Teresa de Lisieux – o sorriso da
luz (2013)
DO URUTAU
Vivendo de morrer do amor perdido,
a alma da cunhã, presa na lua,
às vezes desce sobre a noite, e canta
com o nome de urutau, ave das
sombras,
em que se encarna pra sofrer nos
ramos.
É que Tupã um dia a condenara,
por ter sido infiel, a errar nas
trevas,
penando como fazem as flautas
tristes.
E vem nesse cantar da lua à terra
toda mágoa dos olhos que interrogam
o céu sobre o pesar do amor sozinho,
como o pesar que sofre essa cunhã
que, se um falaz amor tarde traíra,
do verdadeiro amor cedo partira.
A COROA DE ANUNCIAÇÃO XXI
A cada pena o amor nos multiplica,
o Senhor, que na fé nos dá repouso.
E como a fé me falta apenas ouso
cantar do que se acaba a luz que
fica.
Eu vivo e a selva reina sobre
escombros,
e ao nos matarmos desse pó de
encantos,
uma ave infinita em nossos ombros
nos ressuscita lázaros de prantos.
Irmãos, a selva salvaremos, quando
nos amarmos primeiro. Eis por que
agora,
que de amor falo, acreditais na hora
de amor e selva renascer cantando.
E porque Deus só por amor nos guia,
chegas, Amada, e és toda a alegria.
Max Carphentier tem duas
linhas marcantes na sua poesia: a mística, de fundo existencialista e
religioso; e a mítica, onde ele trabalha literariamente a paisagem e o
imaginário amazônicos. Por vezes, como no seu apreciado poema Sermão da Selva, essas vertentes se
imbricam e se tornam uma só, que podemos, por mero reducionismo didático,
denominar de “poesia cristã-amazônica”. No âmbito do Clube da Madrugada, a
poesia de Carphentier diferencia-se da poesia dos também
místicos-existencialistas L. Ruas e Farias de Carvalho exatamente por essa
singular e exuberante cor amazônica. Opção consciente, desde os primeiros
escritos dados a publicidade, a obra poética de Max Carphentier tem um quê de
libertária, sem a preocupação social de Farias de Carvalho, ao mesmo tempo em
que mantém o seu caráter místico em alta densidade, sem a angústia que perpassa
o trabalho de L. Ruas. Entenda o leitor que não estou comparando os três poetas
com a finalidade de estabelecer um juízo de valor, mas unicamente de mostrar
que, a despeito da opção por uma mesma direção, os três trilham caminhos
diferentes.
O livro Tiara do verde amor, de onde foram
extraídos os poemas que analisaremos, dá bem a dimensão dessa poesia que, sendo
profundamente cristã, não perde contato com a ancestralidade atemporal e o
telurismo amazônico, responsáveis, na obra de Max Carphentier, por livros como Nossa Senhora de Manaus e Nosso Senhor das Águas, poesia e novela,
respectivamente. O livro está dividido em três partes: “A Coroa de Anunciação”,
“A Coroa Mitológica” e “A Coroa das Águas”. Na primeira, o tema religioso está
centrado na chegada de uma mulher – a “Amada” –, alegoria do cristianismo,
impondo-se não mais pela violência, como registra a história, mas com a dádiva
do amor e da convivência harmoniosa. A segunda parte reporta aos mitos, à
“religião” da selva, mas não como algo vivo, contemporâneo: são fragmentos
reminiscentes de um tempo remoto, anterior à história, tatuados com os símbolos
do novo tempo. A terceira parte renova-se, telúrica e sensual, numa síntese
entre os dois mundos, que enfim se moldam num só.
O poema “Do urutau”, que
pertence à “Coroa Mitológica”, reproduz uma das muitas histórias que o lendário
caboclo preservou acerca da ave de hábitos noturnos e de natural habilidade
para a camuflagem, cujo canto lembra “uma gargalhada de dor”, segundo Camara
Cascudo anota em seu Dicionário do
Folclore Brasileiro.[1] Chamado
também de mãe-da-lua, além de outros nomes que parecem variações ou corruptelas
do primeiro, o urutau está associado sempre a histórias trágicas e a costumes
relacionados à moral sexual feminina. Uma dessas lendas conta que Tupã unira um
jovem casal, reservando-lhes para o futuro uma missão de muita gravidade. A
jovem esposa, porém, apaixona-se por um marinheiro branco e foge com ele,
provocando a ira do deus. Como castigo, Tupã condena-a a ter sua alma presa na
lua, permitindo-lhe voltar à terra à noite, sob a forma de um pássaro de canto
triste e aterrador. A essa ave o povo tupi chamou de urutau, que quer dizer
“pássaro fantasma”.
Carphentier, ao compor o
poema, foi fiel à narrativa popular, cuidando para que a linguagem poética
reproduzisse de maneira clara, mas sem concessões, toda a dor transmitida pelo
pássaro. Observe, desde o primeiro verso, construído sobre um belo oximoro – vivendo de morrer –, como essa linguagem
se estrutura, em decassílabos brancos. Há pouco a esclarecer. A expressão
“flautas tristes”, por exemplo, pode ter duas leituras: são metáforas para as
almas condenadas por Tupã, que andam a assombrar, pela noite; ou são as flautas
noturnas de Jurupari, cada som com um significado diferente, todos,
invariavelmente, melancólicos.
Mas o canto lúgubre do
pássaro, sendo mais que um lamento, é um desafio a quem o condenou a uma pena
maior que o crime que a jovem cometera. Para dar ideia da extensão dessa dor, o
poeta se refere a “esse cantar da lua à terra”; e os olhos do pássaro
“interrogam o céu” sobre o castigo do “amor sozinho”, como o sofrimento da
moça-urutau,
que, se um falaz amor tarde traíra,
do verdadeiro amor cedo partira.
Pela infidelidade a um
amor que não desejara, que lhe fora imposto pelo deus – ou, quem sabe, por seus
pais –, ela foi condenada a viver eternamente sem amor.
O poema seguinte, da
“Coroa de Anunciação”, trata, complementarmente, de assunto similar, mas vário:
o amor místico que, a despeito do sofrimento cotidiano, tende a crescer, tendo
por suporte a fé. Mas o poeta, inseguro da própria condição de crente,
compromete-se apenas a cantar “do que se acaba a luz que fica”, eternizando o
que lhe vem aos olhos. Do quinto ao oitavo verso, o poeta vê-se morto entre os
escombros, mas o milagre do retorno à vida – “lázaros de prantos” – se dá na
presença da “ave infinita”, metáfora da interferência divina.
Os versos seguintes
repetem o coro do amor necessário à salvação da selva, alegoria da própria
humanidade. O dístico final não poderia ser mais otimista: o prêmio de amor que
o amor de Deus dá ao crente é personificado na chegada da “Amada”, símbolo da felicidade
e da cessação de todo o sofrimento.
A poesia de fundo
religioso faz parte da tradição poética em todas as línguas. O espanhol San
Juan de la Cruz e a mexicana Sóror Juana Inés de la Cruz, além do inglês John
Donne, são alguns dos nomes mais notáveis. Em português, desde o pioneiro
Anchieta, passando pelo injustamente mal-afamado Gregório de Matos, até os
recentes Jorge de Lima e Murilo Mendes, manteve-se a tradição. A literatura
amazonense tem em Max Carphentier um representante desse legado, tornando a
crença em beleza e a fé em poesia.
1.
Subsídios para uma apresentação da
poesia amazonense: o
GARCIA, Etelvina. Zona Franca de Manaus: história, conquistas
e desafios. Manaus: Norma, Suframa, 2004.
LOUREIRO, Antônio. Síntese da História do Amazonas. Manaus:
Imprensa Oficial, 1978.
RAMA, Ángel. Literatura e Cultura na América Latina. Org. de Flávio Aguiar e
Sandra Guardini T. Vasconcelos, Trad. de Raquel la Corte dos Santos e Elza
Gasparotto, São Paulo: Edusp, 2001.
TUFIC, Jorge. Clube da Madrugada – 30 anos. Manaus: Imprensa Oficial, 1984.
__________ (org.). Pequena Antologia Madrugada. Manaus:
Sérgio Cardoso, 1958.
Obs: Por
justiça, devo citar também as conversas-entrevistas com os escritores Luiz
Bacellar, Anísio Mello, Almir Diniz e Armando de Menezes, que me passaram sua
visão e sua experiência pessoal sobre o assunto.
2.
Informações biobibliográficas
DINIZ, Almir. Acadêmicos imortais do Amazonas – Dicionário biográfico. Manaus:
Uirapuru, 2002.
TELLES, Tenório & KRÜGER, Marcos
Frederico (orgs.). Poesia e poetas do
Amazonas. Manaus: Valer, 2006.
3.
Poemas
ANDRADE, Moacir e outros. I antologia poética ASSEAM. Coordenação:
Gaitano Antonaccio. Manaus: 1997.
BACELLAR, Luiz. Sol de feira. 3.ª ed. Manaus: Puxirum, 1985.
CABRAL, Astrid. De déu em déu – poemas reunidos 1979/1994. Rio de Janeiro: Sette
Letras, 1998.
CARPHENTIER, Max. Tiara do verde amor. 2.ª ed. Manaus:
EDUA, 1999.
CARVALHO, Farias de. Pássaro de cinza. 2.ª ed. Manaus:
Valer, Governo do Estado do Amazonas, 2000.
DINIZ, Almir. Caminhos da alma. Manaus: Imprensa Oficial, 1996.
FARIAS, Elson. Romanceiro. Manaus: Puxirum, 1985.
MELLO, Anísio. Kaleidoscópio. Manaus: Valer, 2002.
MELLO, Thiago de. Vento Geral – Poesia 1951/1981. 2.ª ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
PENAFORT, Ernesto. Do verbo azul. Manaus: Governo do Estado
do Amazonas, 1988.
PINTO, Antísthenes. Poesia reunida. Manaus: Puxirum, 1987.
RUAS, L. Poemeu. Manaus: Puxirum, 1985.
SILVA, Alencar e. Solo do outono. Manaus: Valer, 2000.
TUFIC, Jorge. Varanda de pássaros. 2.ª ed. Manaus: Governo do Estado do Amazonas,
1980.
WERK, Alcides. Trilha Dágua. 4.ª ed. Manaus: Imprensa Oficial, 1994.
[1]
CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do
folclore brasileiro. 6.ª ed., Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora
da Universidade de São Paulo, 1988. p. 454.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2024
Lira da Madrugada – Astrid Cabral 14/15
Zemaria Pinto
Ficha biobibliográfica
Autora: Astrid
Cabral
Nome completo: Astrid Cabral Félix de Souza
Naturalidade: Manaus – AM
Nascimento: 25 de setembro de 1936
Obra poética:
· Ponto de cruz
(1979)
· Torna-viagem (1981)
· Visgo da terra
(1986)
· Lição de Alice
(1986)
· Rês desgarrada
(1994)
· De déu em déu – poemas reunidos 1979/1994 (1998)
· Intramuros (1998)
· Rasos d’água
(2003)
· Jaula (2006)
· Ante-sala
(2007)
· Palavra na berlinda (2011)
· Infância em franjas (2014)
ÁGUA DOCE
A água do rio é doce.
Carece de sal, carece de onda.
A água do rio carece
da vândala violência do mar.
A água do rio é mansa
sem a baba de espumas brabas.
A água do rio é mansa
mas também se zanga.
Tem banzeiro, enchente
correnteza e repiquete.
Pressa de corredeira
sobressalto de cachoeira
traição de redemoinho.
A água do rio é mansa
corre em leito estreito.
Mas também transborda e inunda
também é vasta, também é funda
também arrasta, também mata.
Afoga quem não sabe nadar.
Enrola quem não sabe remar.
A água do rio é doce
mas também sabe lutar.
A água doce na pororoca
enfrenta e afronta o mar.
Filha de olho-d’água e de chuva
neta de neve e de nuvem
a água doce é pura
mas também se mistura.
Tem água cor de café
tem água cor de cajá
tem água cor de garapa
tem água que nem guaraná.
A água doce do rio
não tem baleia nem tubarão
tem jacaré, candiru, piranha
poraquê e não sei mais o quê.
A água doce não é tão doce.
Antes fosse.
A
O
A
O
O
Na sequência, Astrid compara
os “






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