Amigos do Fingidor

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Espaço da Palavra: Música e Poesia

 

Assista ao vivo no YouTube ou nas mídias sociais.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Centenário de Thiago de Mello

 

Podcast: Centenário de Thiago de Mello.
Com Neiza Teixeira, Mauri Mrq e Zemaria Pinto.
Clique sobre a figura, para obter acesso.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Folia no Seringal – lançamento

Zemaria Pinto


Começo agradecendo a presença de todos: a família – esposa, filhas, netas e irmãs; os parceiros Mauri Mrq e Tenório Telles; o time da Valer – Isaac Maciel, Neiza Teixeira, Bruna Chagas; amigos velhos, ex-alunos, pessoas que estou conhecendo hoje... E destaco ainda a presença do mestre Marcos Frederico Krüger, e do nosso decano Elson Farias, em cujas personas cumprimento a todos os presentes. Num hipotético país parlamentarista das letras, o Marcos seria o primeiro ministro e o Elson, o presidente.

Vigésimo oitavo livro publicado, ainda não me acostumei com o estresse dos lançamentos, e às portas dos setenta anos, tomo o cuidado de trazer estas breves palavras pré-escritas, para não correr o risco de gaguejar ou de simplesmente esquecer – não só o que ia falar, mas o que estou mesmo fazendo aqui?...

E olha que setenta anos não é pra qualquer um, que o digam os meus amigos Antônio Paulo Graça, Anibal Beça, Sérgio Luiz Pereira... e Torquato Neto, Paulo Leminski, Ana Cristina César... e Glauber Rocha, Raul Seixas, Sergio Sampaio, Cazuza... e Jimi Hendrix, Janis Joplin, Amy Winehouse... Mas, de uma coisa fiquem certos: com a chegada da velhice, nós aprendemos que não sabemos nada do que pensávamos que sabíamos quando jovens. Por favor, não me cancelem, isto não é etarismo; é apenas uma autocrítica. Se não, vejam.

Professora Neiza Teixeira, que conduziu o evento.

Entre os 15 e os 17 anos, estudei o Científico, equivalente ao ensino médio de hoje, no Colégio Estadual (ou simplesmente Estadual). Ficava vendo de longe os componentes do Clube da Madrugada que frequentavam o Café do Pina, na praça em frente – a da Polícia. Moleques, eu e Geraldo dos Anjos ficávamos horas a falar mal dos “funcionários públicos da literatura amazonense”. Estúpidos, nós dois, não demoraria muito para tomarmos consciência dessa estupidez. Mas, a juventude, vocês sabem, não acaba aos 17 anos... É um processo. E de repente vem a artrose, a artrite, a arritmia, a glicose, as viroses a pressão alta, a pressão baixa, a falta de... sezão... E estamos irremediavelmente velhos.

Folia no seringal é um balanço da minha aventura como ensaísta, reunindo doze exemplares da minha produção no gênero, desde “Maranhão Sobrinho, o místico de Satã”, publicado em 1999, como prefácio de Papéis Velhos... roídos pela traça do Símbolo, na histórica Coleção Resgate, coordenada por esse mítico guerreiro das Letras amazônicas, Tenório Telles, até textos escritos nesta década, vinte e tantos anos passados. E tudo tendo como eixo o Clube da Madrugada, fundado em 1954. Com este livro, celebramos os 70 anos do Clube.

Folia no seringal faz um passeio pela trajetória do Clube, que é o caminho traçado pela literatura feita no Amazonas, mostrando que há um antes e um depois do Clube da Madrugada, sendo o durante a própria existência do Clube. Comecemos pelo princípio.

 

Mauri Mrq, músico e compositor.

Antes – o ensaio de abertura, “A paisagem na literatura de viajantes e nativos”, começa com Frei Gaspar de Carvajal, que escreveu, no seu relato, Descobrimento do rio de Orellana, a nossa certidão de nascimento; e faz um breve inventário dos viajantes e nativos que tomaram a paisagem como personagem: Cristóbal de Acuña (Novo descobrimento do grande rio das Amazonas), Henrique João Wilkens, o poeta do genocídio (Muraida), Julio Verne (A jangada, 800 léguas pelo Amazonas), Conan Doyle (O mundo perdido), Raul Pompeia, autor de O Ateneu, escreveu Uma tragédia no Amazonas, com 17 anos; Euclides da Cunha (que estava escrevendo Um paraíso perdido quando foi parado pela bala de um desafeto); Ferreira de Castro (e o superestimado A selva); e os amazonenses Octavio Sarmento (A Uiara) e Violeta Branca (Ritmos de inquieta alegria).

Destaco, no já citado “Maranhão Sobrinho, o místico de Satã”, o poeta que, vivendo em Manaus, na minha Cachoeirinha, e aqui morrendo, foi o autor que logrou maior reconhecimento nacional na era pré-Madrugada. Nenhuma antologia séria do Simbolismo brasileiro o ignora.

O terceiro ensaio, fechando esse grupo, diz ao que veio já no título: “Romancistas e contistas: a literatura de ficção na Academia Amazonense de Letras”. Porque sempre tem um incomodado a reclamar que a Academia tem escritores de menos. E é verdade, mas isso não chega a ser nenhuma catástrofe, porque os escritores da AAL dominam outros saberes, além da literatura de ficção. Vejam. Em cem anos de existência, 1918-2018, contam-se 15 ficcionistas, em um total de 148 acadêmicos; 10%, portanto; o que significa que os outros 90% dominam outros saberes. E escrevem livros sobre eles.

 

Tenório Telles, escritor e crítico literário.

Clube da Madrugada – o ensaio que abre este capítulo não se isenta de polêmica, em três frentes; duas afirmações e uma pergunta. Primeira afirmação: o Clube da Madrugada não se constituiu como um movimento, uma vez que não tinha um programa estético, e sim político. Segunda afirmação: o Clube da Madrugada não foi o Modernismo no Amazonas. E a pergunta: até onde vai, cronologicamente, o Clube da Madrugada? Costuma-se dizer, eu mesmo já o disse várias vezes, que o Clube da Madrugada foi fruto de uma geração excepcional. Na verdade, foram pelo menos três gerações.

Na sequência, quatro ensaios sobre quatro autores emblemáticos do Clube: Luiz Bacellar (Frauta de barro), Astrid Cabral (Alameda), Elson Farias (Memórias literárias) e Ernesto Penafort (uma visão geral de sua obra, mostrando que havia muita poesia além do azul). Esses quatro autores representam as mais de duas dezenas de autores que gravitaram em torno do Clube.

Eu lembro que, há exatos 10 anos, em um 9 de março, Eu e o Mauri, juntamente com o Tenório, o Marcos Frederico, o Alisson, a Nícia e outros amigos, lançávamos na sede da Academia o livro-objeto Lira da Madrugada, homenagem aos 60 anos do Clube – aliás, não fomos eu e o Mauri, mas sim o Mauri e eu. O Mauri cantou, tocou, fotografou, produziu, deu palpite em tudo. Eu só desorganizei as ideias poéticas, para dar um toque de não sei quê. Parece que faz tanto tempo: até o conceito de livro-objeto, nestes tempos virtuais, fica difícil de entender. Vou tentar: eram dois livros e um CD. O CD era um disquinho compacto, um compact disk... É melhor parar por aqui...

 

Depois – reunindo três ensaios de autores que surgiram após o auge do Clube da Madrugada, comenta-se a dramaturgia amazônica de Marcio Souza – A paixão de Ajuricaba, Jurupari, a guerra dos sexos, A maravilhosa história do Sapo Tarô-Bequê, As Folias do Látex, Tem piranha no pirarucu e muitas outras; o romance histórico de Rogel Samuel, O amante das Amazonas; e três títulos da escritora Márcia Antonelli, que tem a figura de um adulto portador de nanismo como protagonista e como isso se desenvolve entre o grotesco, o fantástico e o marginal: são eles O enterro do anão, O anão do açougue e O anão trompetista. De novo, quero deixar bem claro que isso não é capacitismo, até porque os anões de Márcia, além de protagonistas, são personagens com uma carga trágica muito forte. E foi isso o que me encantou neles, além da já conhecida capacidade da autora de engendrar tramas fantásticas. Antonelli representa, no livro, a literatura produzida no Amazonas neste século 21. É, portanto, o que há de mais novo em nossa literatura.   

Zemaria Pinto.

Fechando o capítulo, um ensaio – “Miniconto, microconto, nanoconto, contos são?” – onde se discute uma tendência minimalista do conto contemporâneo, que chega a usar os muros da cidade como veículos para o texto, lembrando a Poesia de Muro, teorizada pelo poeta madrugadense Jorge Tufic.

Por fim, sempre me têm perguntado “por que Folia no seringal”? Talvez estranhando um súbito relaxamento na sisudez com que se trata a literatura sobre a época. Lembro o amigo Márcio Souza, a quem presto todas as reverências que um discípulo deve ao mestre: a peça As folias do látex, encenada pela primeira vez em 1976, me deu a senha. Então, eu li o lírico romance do amigo Rogel Samuel como se fora um desfile carnavalesco, trocando o circunspecto Bakhtin, teórico da carnavalização, por um glamoroso e feliz Joãosinho Trinta. Evoé!   

O livro é de vocês! 

          

 Fotos: diversos autores; obrigado a todos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

70 anos do Clube da Madrugada (texto de abertura e vídeo)

 Zemaria Pinto


Fundado em 22 de novembro de 1954, mas amadurecido desde cinco anos antes, o Clube da Madrugada germinou da resistência de uma geração, nascida na segunda metade dos anos 1920 e primeira metade dos anos 1930, ao marasmo governamental, que nada de interessante oferecia aos jovens que concluíam os estudos médios, a não ser o curso de Direito. Restava a esses jovens os caminhos do porto e do aeroporto, rumo ao Brasil.

Um grupo deles chegou a realizar duas viagens pelo país, antes da fundação, para descobrir, num tempo de comunicações precárias, o que acontecia de novo no país. Descobriram, por exemplo, o Modernismo dos anos 20, o romance realista dos anos 30 e a chamada Geração de 45, da qual fazia parte o jovem estudante de medicina Thiago de Mello.

Em 1955, comemorando um ano de fundação, o Clube da Madrugada lançou um manifesto, criticando as artes em geral e o pensamento retrógrado da Academia Amazonense de Letras. O item Literatura, que abre a seção crítica do manifesto, é uma verdadeira bomba: Não há literatura no Amazonas. O resto é história.

Influentes nos 30 anos que se seguiram, além da literatura, o Clube ajudou a plasmar a cultura amazonense como a conhecemos hoje, nas artes plásticas, no cinema e na música, e, principalmente, na maneira de pensar a cultura. 70 anos depois, o Clube mostra seu vigor no interesse que desperta nos jovens por estudar sua gênese e seu desenvolvimento, longe ainda de esgotar esses estudos.    

Clique sobre a figura, 
para abrir o vídeo no YouTube.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Lira da Madrugada – Max Carphentier 15/15

Zemaria Pinto

 

 

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Max Carphentier

Nome completo: Max Carphentier Luiz da Costa

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 29 de abril de 1945

 

Obra poética:

·       Quarta esfera (1975)

·       O Sermão da selva (1979)

·       Orfeu do Nazareno (1983)

  • Tiara do verde amor (1988)
  • Nossa Senhora de Manaus (1995)
  • Teresa de Ávila – o êxtase da muralha (2001)
  • Celebração da vida – missa planetária (2003)
  • Sagração do verde (2012)
  • Contemplação das cidades (2012)
  • Teresa de Lisieux – o sorriso da luz (2013)

 

 

DO URUTAU

  

Vivendo de morrer do amor perdido,

a alma da cunhã, presa na lua,

às vezes desce sobre a noite, e canta

com o nome de urutau, ave das sombras,

em que se encarna pra sofrer nos ramos.

É que Tupã um dia a condenara,

por ter sido infiel, a errar nas trevas,

penando como fazem as flautas tristes.

E vem nesse cantar da lua à terra

toda mágoa dos olhos que interrogam

o céu sobre o pesar do amor sozinho,

como o pesar que sofre essa cunhã

        que, se um falaz amor tarde traíra,

        do verdadeiro amor cedo partira.

  

 

A COROA DE ANUNCIAÇÃO XXI

  

A cada pena o amor nos multiplica,

o Senhor, que na fé nos dá repouso.

E como a fé me falta apenas ouso

cantar do que se acaba a luz que fica.

Eu vivo e a selva reina sobre escombros,

e ao nos matarmos desse pó de encantos,

uma ave infinita em nossos ombros

nos ressuscita lázaros de prantos.

Irmãos, a selva salvaremos, quando

nos amarmos primeiro. Eis por que agora,

que de amor falo, acreditais na hora

de amor e selva renascer cantando.

           E porque Deus só por amor nos guia,

           chegas, Amada, e és toda a alegria.


Max Carphentier tem duas linhas marcantes na sua poesia: a mística, de fundo existencialista e religioso; e a mítica, onde ele trabalha literariamente a paisagem e o imaginário amazônicos. Por vezes, como no seu apreciado poema Sermão da Selva, essas vertentes se imbricam e se tornam uma só, que podemos, por mero reducionismo didático, denominar de “poesia cristã-amazônica”. No âmbito do Clube da Madrugada, a poesia de Carphentier diferencia-se da poesia dos também místicos-existencialistas L. Ruas e Farias de Carvalho exatamente por essa singular e exuberante cor amazônica. Opção consciente, desde os primeiros escritos dados a publicidade, a obra poética de Max Carphentier tem um quê de libertária, sem a preocupação social de Farias de Carvalho, ao mesmo tempo em que mantém o seu caráter místico em alta densidade, sem a angústia que perpassa o trabalho de L. Ruas. Entenda o leitor que não estou comparando os três poetas com a finalidade de estabelecer um juízo de valor, mas unicamente de mostrar que, a despeito da opção por uma mesma direção, os três trilham caminhos diferentes.

O livro Tiara do verde amor, de onde foram extraídos os poemas que analisaremos, dá bem a dimensão dessa poesia que, sendo profundamente cristã, não perde contato com a ancestralidade atemporal e o telurismo amazônico, responsáveis, na obra de Max Carphentier, por livros como Nossa Senhora de Manaus e Nosso Senhor das Águas, poesia e novela, respectivamente. O livro está dividido em três partes: “A Coroa de Anunciação”, “A Coroa Mitológica” e “A Coroa das Águas”. Na primeira, o tema religioso está centrado na chegada de uma mulher – a “Amada” –, alegoria do cristianismo, impondo-se não mais pela violência, como registra a história, mas com a dádiva do amor e da convivência harmoniosa. A segunda parte reporta aos mitos, à “religião” da selva, mas não como algo vivo, contemporâneo: são fragmentos reminiscentes de um tempo remoto, anterior à história, tatuados com os símbolos do novo tempo. A terceira parte renova-se, telúrica e sensual, numa síntese entre os dois mundos, que enfim se moldam num só.

O poema “Do urutau”, que pertence à “Coroa Mitológica”, reproduz uma das muitas histórias que o lendário caboclo preservou acerca da ave de hábitos noturnos e de natural habilidade para a camuflagem, cujo canto lembra “uma gargalhada de dor”, segundo Camara Cascudo anota em seu Dicionário do Folclore Brasileiro.[1] Chamado também de mãe-da-lua, além de outros nomes que parecem variações ou corruptelas do primeiro, o urutau está associado sempre a histórias trágicas e a costumes relacionados à moral sexual feminina. Uma dessas lendas conta que Tupã unira um jovem casal, reservando-lhes para o futuro uma missão de muita gravidade. A jovem esposa, porém, apaixona-se por um marinheiro branco e foge com ele, provocando a ira do deus. Como castigo, Tupã condena-a a ter sua alma presa na lua, permitindo-lhe voltar à terra à noite, sob a forma de um pássaro de canto triste e aterrador. A essa ave o povo tupi chamou de urutau, que quer dizer “pássaro fantasma”.

Carphentier, ao compor o poema, foi fiel à narrativa popular, cuidando para que a linguagem poética reproduzisse de maneira clara, mas sem concessões, toda a dor transmitida pelo pássaro. Observe, desde o primeiro verso, construído sobre um belo oximoro – vivendo de morrer –, como essa linguagem se estrutura, em decassílabos brancos. Há pouco a esclarecer. A expressão “flautas tristes”, por exemplo, pode ter duas leituras: são metáforas para as almas condenadas por Tupã, que andam a assombrar, pela noite; ou são as flautas noturnas de Jurupari, cada som com um significado diferente, todos, invariavelmente, melancólicos.

Mas o canto lúgubre do pássaro, sendo mais que um lamento, é um desafio a quem o condenou a uma pena maior que o crime que a jovem cometera. Para dar ideia da extensão dessa dor, o poeta se refere a “esse cantar da lua à terra”; e os olhos do pássaro “interrogam o céu” sobre o castigo do “amor sozinho”, como o sofrimento da moça-urutau,

que, se um falaz amor tarde traíra,

do verdadeiro amor cedo partira.

 

Pela infidelidade a um amor que não desejara, que lhe fora imposto pelo deus – ou, quem sabe, por seus pais –, ela foi condenada a viver eternamente sem amor.

O poema seguinte, da “Coroa de Anunciação”, trata, complementarmente, de assunto similar, mas vário: o amor místico que, a despeito do sofrimento cotidiano, tende a crescer, tendo por suporte a fé. Mas o poeta, inseguro da própria condição de crente, compromete-se apenas a cantar “do que se acaba a luz que fica”, eternizando o que lhe vem aos olhos. Do quinto ao oitavo verso, o poeta vê-se morto entre os escombros, mas o milagre do retorno à vida – “lázaros de prantos” – se dá na presença da “ave infinita”, metáfora da interferência divina.

Os versos seguintes repetem o coro do amor necessário à salvação da selva, alegoria da própria humanidade. O dístico final não poderia ser mais otimista: o prêmio de amor que o amor de Deus dá ao crente é personificado na chegada da “Amada”, símbolo da felicidade e da cessação de todo o sofrimento.

A poesia de fundo religioso faz parte da tradição poética em todas as línguas. O espanhol San Juan de la Cruz e a mexicana Sóror Juana Inés de la Cruz, além do inglês John Donne, são alguns dos nomes mais notáveis. Em português, desde o pioneiro Anchieta, passando pelo injustamente mal-afamado Gregório de Matos, até os recentes Jorge de Lima e Murilo Mendes, manteve-se a tradição. A literatura amazonense tem em Max Carphentier um representante desse legado, tornando a crença em beleza e a fé em poesia.

Do urutau - A coroa de Anunciação XXI
(Mauri Mrq - Max Carphentier)


 Bibliografia Geral

1.    Subsídios para uma apresentação da poesia amazonense: o Clube da Madrugada

GARCIA, Etelvina. Zona Franca de Manaus: história, conquistas e desafios. Manaus: Norma, Suframa, 2004.

LOUREIRO, Antônio. Síntese da História do Amazonas. Manaus: Imprensa Oficial, 1978.

RAMA, Ángel. Literatura e Cultura na América Latina. Org. de Flávio Aguiar e Sandra Guardini T. Vasconcelos, Trad. de Raquel la Corte dos Santos e Elza Gasparotto, São Paulo: Edusp, 2001.

TUFIC, Jorge. Clube da Madrugada – 30 anos. Manaus: Imprensa Oficial, 1984.

__________ (org.). Pequena Antologia Madrugada. Manaus: Sérgio Cardoso, 1958.

Obs: Por justiça, devo citar também as conversas-entrevistas com os escritores Luiz Bacellar, Anísio Mello, Almir Diniz e Armando de Menezes, que me passaram sua visão e sua experiência pessoal sobre o assunto.

 

2.    Informações biobibliográficas

DINIZ, Almir. Acadêmicos imortais do Amazonas – Dicionário biográfico. Manaus: Uirapuru, 2002.

TELLES, Tenório & KRÜGER, Marcos Frederico (orgs.). Poesia e poetas do Amazonas. Manaus: Valer, 2006.

 

3.    Poemas

ANDRADE, Moacir e outros. I antologia poética ASSEAM. Coordenação: Gaitano Antonaccio. Manaus: 1997.

BACELLAR, Luiz. Sol de feira. 3.ª ed. Manaus: Puxirum, 1985.

CABRAL, Astrid. De déu em déu – poemas reunidos 1979/1994. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998.

CARPHENTIER, Max. Tiara do verde amor. 2.ª ed. Manaus: EDUA, 1999.

CARVALHO, Farias de. Pássaro de cinza. 2.ª ed. Manaus: Valer, Governo do Estado do Amazonas, 2000.

DINIZ, Almir. Caminhos da alma. Manaus: Imprensa Oficial, 1996.

FARIAS, Elson. Romanceiro. Manaus: Puxirum, 1985.

MELLO, Anísio. Kaleidoscópio. Manaus: Valer, 2002.

MELLO, Thiago de. Vento Geral – Poesia 1951/1981. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.

PENAFORT, Ernesto. Do verbo azul. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1988.

PINTO, Antísthenes. Poesia reunida. Manaus: Puxirum, 1987.

RUAS, L. Poemeu. Manaus: Puxirum, 1985.

SILVA, Alencar e. Solo do outono. Manaus: Valer, 2000.

TUFIC, Jorge. Varanda de pássaros. 2.ª ed. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1980.

WERK, Alcides. Trilha Dágua. 4.ª ed. Manaus: Imprensa Oficial, 1994.

 




[1] CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6.ª ed., Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. p. 454.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Lira da Madrugada – Astrid Cabral 14/15

Zemaria Pinto

 

 

Ficha biobibliográfica

 

Autora: Astrid Cabral

Nome completo: Astrid Cabral Félix de Souza

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 25 de setembro de 1936

 

Obra poética:

·       Ponto de cruz (1979)

·       Torna-viagem (1981)

·       Visgo da terra (1986)

·       Lição de Alice (1986)

·       Rês desgarrada (1994)

·       De déu em déu – poemas reunidos 1979/1994 (1998)

·       Intramuros (1998)

·       Rasos d’água (2003)

·       Jaula (2006)

·       Ante-sala (2007)

·       Palavra na berlinda (2011)

·       Infância em franjas (2014)

 


ÁGUA DOCE

  

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

sem a ameaça constante das vagas

sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho-d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

poraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

 


A poesia de Astrid Cabral tem uma dicção rara, senão única, na poesia brasileira contemporânea, desde Ponto de cruz, seu primeiro livro de poemas, onde a seção “Pequeno mundo” esmiúça rituais do banal cotidiano. Trata-se de uma poesia visceralmente feminina, não necessariamente feminista, o que significa uma postura menos ideológica que estética. Essa poesia feminina consiste em reconhecer no eu lírico, no emissor da mensagem poética, a condição de mulher – com todos os seus signos. A água é um deles.

O líquido amniótico é a primeira forma líquida com a qual temos contato. Assim, a água se liga diretamente com a figura da mãe, sem a qual não existe vida, que, no ser humano, é representada pela movimentação do líquido sanguíneo em nosso corpo. No exterior do ser humano, a água toma forma masculina ao ser o principal fator da fecundação da terra, seja pela chuva, seja pelo movimento das águas dos rios. Na Amazônia, tão cara a Astrid no livro Visgo da terra, onde foi publicado o poema “Água doce”, numa seção não à toa chamada “Água”, essa dicotomia água-macho/terra-fêmea encontra sua integral representação na área de várzea, que metade do ano fica submersa, sendo fecundada, e onde, na outra metade do ano, florescem as mais diversas culturas, que irão alimentar o ribeirinho e o citadino.   

A água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa relação é o premiado livro Rasos d’água: “uma viagem épica pela memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar, os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição. Em Rasos d’água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida, que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca, é também fonte de morte e de destruição.

O poema “Água doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro, enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”.

Como nos mitos gregos, em que os rios eram considerados filhos do Oceano e pais das Ninfas, o rio de Astrid parece dotado de forma humana, pois “também sabe lutar”, e na pororoca “enfrenta e afronta o mar”. O fenômeno da pororoca – perdoe-me o leitor cansado de saber disso – ocorre quando o nível do Atlântico sobe e uma onda de maré, gigantesca, invade os rios que formam o estuário do rio Amazonas, e colide com a massa de água doce fluindo na direção contrária, causando um grande estrondo, arrastando e destruindo tudo o que encontra pela frente.

O poema segue, explicando as distintas cores dos rios, o que lembra a minha primeira viagem de barco pelo rio Negro, aos 9 anos, e o comentário de alguém, acerca da cor da água, agitada com força pelo leme do “Augusto Montenegro”: “parece coca-cola”. A comparação não fazia o menor sentido para mim, pois não sabia que diabos era aquilo, mas ficou-me na memória por muitos anos, até eu compreender que a analogia ouvida era uma ofensa à dignidade do velho Negro.

Na sequência, Astrid compara os “monstros” do mar com os correspondentes do rio. E se usei a palavra monstro para a simpática baleia, pensei em Moby Dick – provável referência, literária, de Astrid. Os monstros do rio são tantos na memória que cabe até um “não sei mais o quê”, para fechar a enumeração. O poema encerra como se unisse as duas pontas do início e do fim: começa afirmado que “a água do rio é doce”, para concluir, depois que as lembranças vieram à tona, que “a água doce não é tão doce. / Antes fosse”. Nesse poema, Astrid não usa apenas a memória, ela se expressa com um eu lírico que tem a idade da sua memória, a idade da infância. Aliás, o Aurélio registra a expressão “poeta de água doce” significando “poeta muito jovem”. As frases curtas, aliadas ao desenvolvimento do poema, que sai de uma certeza (“a água do rio é doce”) para uma decepção (“a água doce não é tão doce”), são típicas de uma idade que não sabe ainda construir um raciocínio complexo. Ela, então, arquiteta uma cadeia de pensamento fundada no contraditório: primeiro em relação ao mar, depois em relação a si mesma, usando sempre a mesma fórmula adversativa (“mas também”), para concluir com nova comparação com o mar. O eu lírico criança descobre a dialética. Se a água do rio fosse mesmo doce não teríamos esse belo poema.

Água doce
(Mauri Mrq - Astrid Cabral)