Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 18 de junho de 2020

A poesia é necessária?




O poeta lava louça
Donaldo Mello
Eu queria mostrar a mais secreta das suspeitas humanas – a da sua inutilidade.
(Julio Cortázar)

Lava a alma:
da ação do isolamento, um animal ocupado no exercício da mastigação

De viver no mundo:
da razão na “sociedade do cansaço”, vivendo o tédio profundo

No ninho do descanso, polindo
o repouso do pássaro onírico
Quando tece mas não se fia todo dia ...

Até porque, a última espuma breve, já ida, escorria feito a Vida!



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Miniconto, microconto, nanoconto, contos são? 1/7



Zemaria Pinto*


INTRODUÇÃO
A definição mais simplória de conto é “narrativa de curta extensão”. Não há métrica, entretanto, para calcular essa dimensão espacial e classificá-la como mais ou menos curta. Os clássicos – e aqui estou com a cabeça no século XIX – escreviam contos de 40, 50, 60 páginas. Machado de Assis, confundindo gênero com forma, escreveu na “Advertência” a Papéis Avulsos, livro que abre com “O alienista”, que “quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil”.  Ironizando, Mário de Andrade achou de escrever que conto era tudo aquilo que ele, autor, chamasse de conto: tem gente bo(b)a que o leva a sério ainda hoje (PINTO, 2011a, p. 7-9).
O conto clássico confunde-se muitas vezes com a novela, que tem pelo menos duas acepções contraditórias, o que acaba enrolando o romance no quiproquó. Mas uma definição simples e universalmente aceita é: fábula bem definida, poucos personagens, tempo e ação muito concentrados, passados num só ambiente (PINTO, 2011b, p. 82-83). 
O nosso escopo de trabalho é definir o que é, afinal, miniconto, microconto e nanoconto, nomenclaturas que andam soltas por aí, sem o necessário lastro teórico. Necessário para quem? Para o leitor é que não. Este não precisa de teorias, precisa, sim, de obras que o agradem. E pela repercussão, e por alguma idiossincrasia que ainda não identificamos, os contos minis, micros e nanos têm sido bastante apreciados. Há séculos.

1. INTENSÃO, TENSÃO, INTENSIDADE
Os minis, micros e nanocontos são identificados ordinariamente pela sua, digamos, curtíssima extensão, mas, como não temos o instrumental para medir com precisão o tamanho ou a área de cada um, deixemos de lado o problema da extensão. Mas não nos esqueçamos de que o miniconto, o microconto e o nanoconto podem variar entre uma página em branco e um texto pouco maior que isto – a página em branco. E aqui nos deparamos com o nosso conceito-chave: intensão – força, vigor, veemência, energia, aumento de tensão, tensionamento; numa palavra: intensidade. No embate extensão X intensão, portanto, nossa torcida está com esta.
Desçamos um pouco mais nessa gruta escura. Aos poucos, nossos olhos se acostumarão com a pouca luz. Intensão é o ato de intensar, tornar algo mais intenso, senti-lo em toda a sua força e vigor. A intensidade vem a ser a qualidade do que é intenso. Ainda que não saibamos o que temos pela frente, a intensidade será a sua medida. A intensão é também, por metonímia, o aumento de tensão – estado do que é ou está tenso. Invertendo as variáveis da equação, podemos afirmar que tenso é todo corpo sob tensão, e que esta varia de acordo com a intensidade dirigida ao corpo sob observação. Sintetizando: tensão é uma força que age sobre um corpo, por unidade de área – de parte do corpo ao todo dele –, provocando-lhe alterações. Por exemplo: um soco na cara. O sujeito 1 usa a força do seu punho (que, na verdade é parte de um sistema: o seu corpo), para, com intensidade, atingir o sujeito 2, deformando-o na área atingida.


A intensão é a carga de tensão – medida pela intensidade – que o sujeito 1 usou para atingir o rosto do sujeito 2. Tomando emprestado um conceito elementar da física, quanto maior a intensidade maior o fluxo de energia na área de abrangência. E para concluir nossa incursão pela metáfora da porrada, nunca é demais lembrar Cortázar, referindo-se ao conto moderno, para quem o romance ganha por pontos; o conto por nocaute. Valia para o boxe, vale para o MMA, acrescentando-se ao nocaute a finalização, de preferência com um mata-leão.
Voltando ao nosso objeto de estudo, temos a extensão do conto como a área a ser atingida. Portanto, quanto menor a extensão, mais fácil será obter a intensidade para o conto ter, verdadeiramente, intensão. Ou, de maneira inversa, quanto maior a extensão, maior deve ser o tensionamento, o esforço, para o conto ser considerado intenso. Em um caso e outro, tensão é a palavra de toque. (**)

(*) Comunicação apresentada no Simpósio Nacional do GEPELIP, realizado na UFAM, na tarde de 05 de junho de 2014. Publicado na revista Valer Cultural no. 12, de ago/set 2014, p. 82-89.
(**) Este texto será publicado em sete partes, sempre nas noites de quinta-feira.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Clube da Serpente em Manaus

Marco Adolfs



Tenho uma sala comercial no Millennium Center onde costumo meditar, escrever e pintar quando me dá na veneta. Um dia desses, ao entrar na tal sala, logo que abri a porta, tomei um susto enorme ao ver as costas de um homem sentado na cadeira da minha escrivaninha.

– Que é isto!? – gritei. – Quem é você!? – continuei, preparando-me para lutar.

Foi quando ele virou-se em minha direção e reconheci vagamente o rosto barbudo e o olhar esgarçado por entre aqueles óculos de aro grosso.

– Não estás lembrado de mim? – ele perguntou em espanhol, sorrindo na minha direção.

– Sim, sim...– comecei a balbuciar, aliviado do possível perigo.

– Sou o Julio – ele completou, timidamente. E continuou mais firme: – Julio Cortázar!

– Ah! Claro! – exclamei, abrindo um sorriso de alívio. Disse isso sem sequer pensar no absurdo todo daquele acontecimento.

– Como entrastes aqui? – perguntei-lhe, não querendo acreditar que ele era um fantasma.

– A casa de nosso pai tem várias entradas – respondeu, ainda sorridente. – Aquele que sempre percebe esse fato, torna-se um escritor capaz de estar em todos os lugares, viajando no tempo e no espaço – continuou.

– E você? Que fazes? – perguntou-me de supetão, acordando-me da minha letargia momentânea.

– Buscava justamente o bestiário – respondi, na hora, o que me viera à cabeça.

Sorrimos.

– E você? – perguntei de volta.

– Vim aqui para lhe dizer que pretendo reativar, nesta cidade quente e úmida chamada Manaus, o Clube da Serpente – disse Cortázar.

Engoli a seco.

– Mas achas que é possível existir aqui uma reunião de escritores malditos, com suas formas atravancadas de existir e fazer – desafiei.

– Perfeitamente possível – reafirmou Cortázar –, já que a forma de escrever está precisando dessas sacudidelas absurdas e malditas. – Não é mais possível uma literatura comportada e excessivamente clássica ou acadêmica em tempos de Internet, blogs – finalizou. Hoje o que prevalece é a não-linearidade das produções. Seja de que tipo for.

Cortázar falava de forma incisiva e eu resolvi sentar-me para enxugar o suor.

– Mas porque o Clube da Serpente logo aqui, em Manaus? – indaguei face ao absurdo da proposta.

– Morelli – lembra do Morelli?

Balancei a cabeça, lembrando. Cortázar continuou.

– Conversou comigo um dia desses e me disse que aqui, nesta cidade, o espírito parisiense de seus artistas é muito forte.

Ao relembrar de seu personagem Morelli, sorri e disse brincando.

– Ele não quis dizer espírito parintinense!? – tergiversei, brincando.

Cortázar ficou em dúvida.

– Como é que é? – perguntou, após alguns minutos de dúvida.

– Espírito de ilha! De Parintins!

Cortázar não sabia o que dizer. Com um olhar espantado, sua imagem foi desaparecendo, desvanecendo-se, lentamente do meu escritório. Desvanecendo-se como um fantasma que era.

Quando ele finalmente se foi pude raciocinar melhor sobre aquele acontecimento fortuito em uma das torres do Millennium Center, às quinze horas de uma tarde de sol.

De acordo com Cortázar, o ser humano, busca sempre o diferente. Uma criação aparentemente desordenada com notas dissonantes. A possibilidade concreta de conceber mundos paralelos onde tudo possa acontecer para justificar o fazer literário como um jogo. Tanto ele acreditou nisso que em seu livro Histórias de cronópios e de famas, dividiu o leitor em dois tipos: os "famas", aqueles que precisavam se ajustar às regras fixas de uma vida convencional, e os "cronópios" que gostam de uma forma livre e espontânea de viver. Rayuela, seu mais fenomenal romance, foi realizado para os cronópios.

Neste fabuloso romance quebra-cabeças, ele colocou em xeque a literatura e sua relação com a realidade. Um romance que se divide em três partes: a do lado de “lá”, a do lado de “cá” e, por fim, os “outros lados”, com Cortázar demonstrando a desintegração da cultura e da moralidade. Rayuela, ou O jogo da amarelinha, é a história de um personagem com o nome sugestivo de Oliveira e que, em determinado momento, deixa a riqueza de uma herança e a vida na América, por Paris. Um lugar que para ele representa o ócio criativo, a novidade artística e histórica, as festas eternas e a cultura em geral. Mas Oliveira não sai impune desse contato, pois descobre na Europa que tudo é em vão, já que tudo conduz ao nada. Para Cortázar, as coisas estão sempre por se fazer. Como deixa bem claro em seu A ilha ao meio-dia, sempre desejamos estar dentro de um avião quando em terra, e sempre desejamos a terra quando estamos dentro de um avião. Escrevendo na solidão de seu cárcere e produzindo seus livros quase confessionais, Cortázar finalmente publica em 1967 A volta ao dia em oitenta mundos, um livro insólito sobre a vida cotidiana de um escritor.

A vida de um escritor, que se vê inserido em um jogo ou labirinto, é sempre um romance interessante para um leitor cronopiano. E para este leitor nada é mais interessante que caminhar por uma literatura que apresente caminhos que se bifurcam. Caminhos que buscam uma solução, tanto para o livro, como para o escritor e mesmo para o possível e impossível leitor.

Quando terminei de escrever, puxei a persiana da sala, apaguei a luz, tranquei a porta e desci pelo elevador até o andar das lojas. Encontrei o Bacellar em uma mesa do café e tomei um com ele. Quando nos despedimos, após dar-lhe uma carona até o centro, voltei para a minha residência, acreditando que talvez o Cortázar pudesse gerenciar a literatura amazonense, influenciando, do além, para que existissem mais cronópios e menos famas, no meio.

Caricatura de Julio Cortázar: Baptistão.