Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de março de 2017

Nos 91 anos de Thiago de Mello


Repente feito cantiga
para Thiago de Mello
nos seus muito bem vividos
155 anos
de amor e de poesia


 Zemaria Pinto




Noventa anos de vida
treze lustros de ternura
somando, caro Thiago
quinze décadas e meia
muito bem distribuídas
entre a arte de fazer
canções pro povo cantar
cantar pra encantar o povo
e sorrir seu riso franco
no preparo da manhã
sempre vestido de branco
sob a alva cabeleira
ninho de garças selvagens
planando ao sabor do vento.

Noventa anos de vida
treze lustros de ternura.
Como estás velho, meu velho!
Estás mais sábio e mais belo
como a estrela matutina
que a todos nós luminou
através de teus poemas
quando a noite foi mais noite
na escuridão do país
(a manhã mal levantou:
o povo ainda tem fome
de pão, justiça e amor).
Tu cumpres a tua parte:
desde que foste chamado
o povo te tem ao lado.

Noventa anos de vida
treze lustros de ternura.
Já me despeço, poeta
a madrugada vai alta
e os olhos já se enevoam
não de sono (sou noturno)
mas do cansaço dos anos
que me começam pesar
na chegada dos sessenta,
coisa que não te apoquenta
pois voltas a ser menino
na beleza destes dias.

Noventa anos de vida
treze lustros de ternura,
abraça-te comovido
teu amigo Zemaria.


Este poema vem sendo adaptado, de 10 em 10 anos, desde os 70 anos do poeta, que faz, hoje, 30.03.17, 91 anos.





Sarau na Academia homenageia Moacir Andrade



As linguagens e o cérebro


João Bosco Botelho
     

Aceitar o prazer e recusar a dor estruturou o ponto comum de incontestável relevância no projeto da vida humana no planeta. O corpo está adaptado a essa determinante sociogenética! Incontáveis terminações nervosas mantêm as estruturas corporais atentas à dor e ao prazer. Pode-se afirmar, sem receio de estar cometendo um exagero, que a vida humana não teria sido possível sem essa adaptação. Como fruto do processo de humanização, se formou no cérebro o neocórtex, a parte externa cerebral, adicionando ajustes entre o passado remoto e as emoções, atualizadas na temporalidade das relações sociais.
O neocórtex é um conjunto heterogêneo de áreas encefálicas, relacionado com o comportamento emocional e, desta forma, com a capacidade humana de reproduzir o ato ficcional. Entre as suas estruturas mais importantes, estão o tronco encefálico, hipotálamo, tálamo, área pré-frontal e sistema límbico. Desde 1937, graças aos estudos de James Papez, ficou demonstrado que as emoções estão relacionadas ao sistema límbico.
Mesmo com todos os progressos, até hoje, não foi possível separar a linguagem emocional (choro, riso, gestos, postura corporal, mímica do prazer e da dor etc.), de origem predominantemente límbica, da linguagem voluntária.
A cirurgia experimental em cães evidenciou, definitivamente, a importância do sistema límbico nas emoções. Após a retirada cirúrgica, os animais modificaram o comportamento: agressividade substituída pela passividade; comem alimentos antes recusados; incapacidade de reconhecer objetos e animais, como ferro em brasa e o escorpião, capazes de colocar a vida e risco; desordem na atividade sexual procurando o ato sexual em outras espécies e de se masturbarem continuamente.
O hemisfério cerebral direito é o responsável pela apreensão visual e espacial, atividades musicais e reconhecimento da forma fisionômica. Assim, identifica e classifica por meio da forma visível, sem que o nome do objeto, nas linguagens, necessitem ser expressos.
Em alguns macacos, a vocalização organiza-se na face interna do lobo frontal. No rastro da ontogênese (formação do homem), esse controle se torna mais complexo e é possível localizar áreas mais especializadas responsáveis pelas linguagens: convexidade do córtex frontal, mantendo ligações com o nível rinencefálico, reticular peduncular, bulbo e órgãos fonadores.
Graças a essa interligação, entre outras determinantes, os humanos são capazes de reagir, seletivamente, ao sinal emitido pelos semelhantes e reproduzir, pela imitação, a mensagem ouvida. Por exemplo, quando ouvem a palavra “perigo”, em milésimos de segundos, dependendo da ameaça, o corpo se prepara para enfrentar ou correr.
Como sequência, as linguagens oral e escrita guardam nas origens a profunda marca da vida afetiva, onde as emoções da dor ou do prazer, sentidas ou na ficção, são armazenadas numa memória ainda parcialmente escondida da compreensão da ciência. 
Um dos produtos finais da interligação dessas estruturas cerebrais com a vida afetiva é reproduzido na consciência de ser em si mesmo, impondo a incrível condição de depositário e herdeiro das gerações anteriores, transmitida, inicialmente, pela oralidade e, depois, na linguagem escrita. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

terça-feira, 28 de março de 2017

São José e o Equinócio de Outono


Pedro Lucas Lindoso


Os cearenses estão espalhados pelo mundo. Meu saudoso pai, quando senador pelo Amazonas na década de setenta, foi designado para uma Reunião Interparlamentar no Japão. Ele nos contou que foi servido por um garçom cearense no restaurante do hotel em Tóquio. O cearense estava de quimono e tudo!
Desde sempre, os cearenses migram para o mundo e também para o Amazonas. Nossa cultura, nosso falar e muitas de nossas relações familiares estão ligados ao Ceará. Nos feriados e nas férias sempre se encontrará um conhecido de Manaus nas praias de Fortaleza.
 Roncalli Barreto, um jovem e brilhante colega advogado cearense, foi transferido para Manaus. Roncalli é a mais recente contribuição do Ceará para a cultura jurídica do Amazonas.
No mês de março, dia 19 mais precisamente, se celebra São José, que é padroeiro do Ceará. Tanto quanto os cearenses o santo tem enorme devoção entre os católicos daqui.  Normalmente, o Equinócio de Outono no Hemisfério Sul ocorre na época das festividades de São José, por volta de 20 ou 21 de março.
Meu amigo Chaguinhas, filho e neto de cearenses, me contou uma hilariante história envolvendo São José e um tio dele prefeito do interior do Ceará. A seca estava terrível naquele ano. Dizem que é preciso que chova até o dia do santo. Caso contrário, a seca vai ser braba. Aqui chove sempre nessa época. Mas não no sertão do Ceará. A crença popular indica que, se chover no sertão até o dia de São José, o ano será de bom “inverno”, com chuva garantindo a safra e a mesa farta. A fé no santo padroeiro se soma à esperança do agricultor, do vaqueiro, do homem do sertão.
Já se aproximava da festa de São José e nada de chuva na cidade do tio do Chaguinhas. O prefeito resolve se adiantar e ligar para o governador. Antecipava-se na choradeira aos recursos federais e estaduais destinados à seca.
O governador, muito solícito, tranquilizou o prefeito. Que não se preocupasse. A chuva chegaria até o dia de São José. Logo chegaria também o Equinócio e tudo ia ficar bem.
No dia do santo a procissão saiu debaixo de chuva e o povo estava feliz. Por volta do dia 30 de março o prefeito liga novamente para o governador: 
– Excelência, de fato choveu um pouco no dia de São José. Mas o tal do Equinócio não apareceu por aqui até hoje. Ele chega quando?

domingo, 26 de março de 2017

sábado, 25 de março de 2017

IGHA faz 100 anos


Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas
25.03.1917 – 25.03.2017

Fantasy Art - Galeria


James Zar.

sexta-feira, 24 de março de 2017

gênese


Zemaria Pinto 


um poema se projeta
– entre sapos, entre grilos –
recortando a madrugada:

        com o fio da navalha
        costuro as sombras do chão
        – viver é imenso

de pedras teço meu canto
recolhido, emimesmado
num redemoinho de enganos

(canto em arco arquitetado:
 seta que se completa
 no atingimento da meta)

onde ouvi aquelas pedras?
são monolitos de Rosa
ou sussurro minuano?

quinta-feira, 23 de março de 2017

Jazz para rinocerontes



Memórias sociogenéticas



João Bosco Botelho
   

Um dos aspectos mais intrigantes e fascinantes é como ocorreu, no corpo, desde tempos imemoriais, o processo de adaptação que culminou no acervo, guarda e reprodução dos conhecimentos historicamente acumulados por meio das linguagens.
Na realidade, o maior obstáculo do pesquisador continua sendo estabelecer as correlações entre a forma e a função, no sistema nervoso central, em níveis macroscópico (órgão), microscópico (célula) e ultramicroscópico (molécula). Dito de outro modo, se o ser humano é capaz de falar e escrever, se torna obrigatório existirem áreas anatômicas e funcionais, nos níveis acima mencionados, responsáveis pelas linguagens.
Os entraves aumentam na razão direta do avanço dos estudos na direção da menor estrutura. O desconhecimento fica mais denso a partir da molécula.
As transformações sofridas na forma do sistema nervoso central, há milhares de anos, e, consequentemente, o modo como o órgão se mantinha em contato com os ossos do crânio estão também relacionadas com a atual capacidade de falar e de escrever.
Alguns antropólogos, como Calvin Wells, afirmam que as moldagens endocranianas dos Pithecanthropus (Homo erectus que viveu em torno de 300.000 anos) evidenciam as marcas das áreas identificadas como responsáveis pela linguagem falada. Nesse sentido, é razoável pensar que esse antepassado já possuísse algum tipo de fala.
Os atos de falar e de escrever estão unidos em complexa ponte, envolvendo a maior parte do sistema nervoso central com a vida de relação, principalmente certos segmentos do córtex cerebral responsáveis com a capacidade de imaginar e representar a ficção, isto é, a coisa não percebida na materialidade espacial.
Um dos principais alicerces da ponte entre o passado muito antigo, contido no cérebro primitivo, oriundo da filogenia comum, e o cérebro atual, resultante do processo evolutivo, é a insubstituível polaridade entre a dor e o prazer. Fugir da dor e buscar o prazer continua sendo a mais forte das ordens genéticas da espécie humana. E mais, todos os animais se organizam com o objetivo de evitar a dor de qualquer natureza e ativar, sempre que necessário, as fontes naturais produtoras de prazer. Entre as mais importantes estão a sexualidade e o alimentos, ambos acompanhados de incontáveis derivações simbólicas e representações metafóricas.

Aceitar o prazer e recusar a dor alicerçou o projeto da vida humana no planeta. Todo o corpo foi adaptado a essa determinante sociogenética. Incontáveis terminações nervosas livres mantêm todas as estruturas corporais atentas à dor e ao prazer. Pode se afirmar, sem receio de estar cometendo um exagero, que a vida humana não teria sido possível, sem essa adaptação. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Me tira dessa lista



Pedro Lucas Lindoso

A lista de aprovados em universidades federais talvez seja aquela mais ansiosamente esperada por pais, amigos e familiares dos estudantes vestibulandos. Já para os craques de futebol é a lista de convocados para a seleção brasileira. Principalmente, em época de Copa do Mundo.
Há vários tipos de listas: lista negra, lista telefônica, que caiu em desuso, lista de material escolar, lista do supermercado.
Temos a palavra rol, sinônimo de lista, com origem no Inglês “roll”. Usada muito frequentemente ao se fazer o rol de roupas para a lavanderia. A “roll call” é a conhecida lista de chamadas. Na minha época de ginásio, quando “bullying” só existia na prática e não havia teorias a respeito, os meninos temiam cair no número 24.
Em Inglês, usa-se também a palavra “list”. Há o famoso filme Schindler's List. A lista de Schindler. O filme se passa na Segunda Guerra com os alemães iniciando a relocação dos judeus poloneses para o Gueto de Cracóvia. Schindler monta uma fábrica cujos trabalhadores recebem permissão para sair do Gueto. São judeus considerados “essenciais” para o esforço de guerra da Alemanha Nazista. Essa providência os salva de serem transportados para campos de concentração. “A Lista de Schindler” compreendia esses judeus considerados trabalhadores “especializados”.
Nesses tempos de Operação Lava Jato, nenhuma lista provocou tanto rebuliço no Brasil como a LISTA DE JANOT. O procurador-geral pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de 83 inquéritos contra políticos de todos os partidos e de todas as matizes ideológicas. Foram delatados pelos funcionários da Odebrecht. Janot também pediu a quebra de sigilo dos depoimentos, mas quem decidirá sobre isso é o ministro Edson Fachin, responsável pela Lava Jato no STF. Não se sabe quanto tempo ele demorará para julgar as petições.
Diferente dos judeus que foram salvos pela lista de Schindler, nenhum político quer estar nessa abominável lista, obviamente.
Meu irmão mais velho resolveu listar os netos sexagenários de meus avós paternos, por ordem de idade. Postou essa horripilante lista da geração mais velha dos netos no grupo de WhatsApp da família. Eu imediatamente postei de volta: me tira dessa lista! É mais sinistra que a do Janot!


domingo, 19 de março de 2017

sábado, 18 de março de 2017

sexta-feira, 17 de março de 2017

o fingidor opus zero


Zemaria Pinto


fingere. a dor esculpida em riso ou siso: el dolor de ya no ser. essências & medulas. medo. de não sentir o que se sente quando se pensa que. eu, não, eu. autofagia. devora-me ou. eu não sabia, eu só queria te conhecer. mas, o que pode, o que pensa, o que quer? tudo – e mais alguma coisa: absoluto. eu, resoluto, explodo em estilhaços de. eu profundo, quantos eus? quando, eu? nonada, bosticatoa – quer saber? poder & desprezo: domínio/abandono. língua & linguagem, loucas papilas unem bocas & axilas. pó, água, barro: homem. vem comigo, forma inexata, tapete púrpura, jambo, deitar. derrame o sol seus cristais. nos meus umbrais canta um bem-te-vi vadio, a repetir, a repetir, ah! tua cara de lua reflete a luz do lampião. fachear. manhã nascida do verso feito carne – gozo & fogo. ravina perpassa vento, ventania. demência. mente alada, fingimento, alegria, dor, rebeldia. ainda & sempre. criar: mesmo à revelia. do sono, do saldo, da sarna. cita da citação: é sempre o homem, mesmo que seja o boi. berro. arrancam-me os olhos, mas posso ver-te. paisagem queima-me a pele. eu retorcido, cauim. beleza inútil, poesia? palavra, lavra lavada – anoiteço, desamanheço de mim. obscuro. canto & muro. tristezas não pagam patos. desmantelo o improviso assobiando tercetos. cateretê. desarme-se/desatrele-se. sorris, mas eu te quero ainda. ao sol, todos os gatos são fardos. magia. na linha do soco, se agache. rito. beijo na boca, hortelã & caju. diz que me ama, mas não fala. guarda aladas palavras como palomas nas torres da catedral. rubi na boca. troféu. batalha vencida. tempo: litania. jogo: um lance de dedos. liame de corpos jogados ao léu. revelação, forma & substância: encontro. imagem, música. logos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Morte rejeitada: busca da vida


João Bosco Botelho


A necessidade incontrolável de dar sentido à vida, diferente da dos outros animais, e minimizar a dor determinada pela morte de entes queridos, está expressa com transparência em todas as culturas, materializando como opostos a saúde e a doença. A primeira, sinônimo de vida, ficou ligada ao bem, ao bom, ao belo; a segunda, compreendida como mal, ruim, feio, antecipando o falecer temido.
A pulsão inata para desvendar a forma visível, em especial a do corpo, sadio ou doente, dotado com propriedades sensíveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor, pode ser considerada como a arqueologia que materializa a vontade atávica para viver! É verdadeira em si mesma, porque dá forma ao viver, num movimento metafórico, composto pela presença da carnalidade da pele quente, pela realidade dos sentidos, da respiração e do ritmo cardíaco.
Atinge e entrelaça o ser no mundo por meio de reconstruções. O novo surge dessas reconstruções, em muitas circunstâncias, oferecendo consistência ao pensamento que transforma e consolida a consciência-de-si do corpo sadio ou do corpo doente.
O conjunto sociocultural, presente na memória, adquirida e transmitida, geração após geração, desempenhou papel de extrema importância nas mentalidades. Os atuais saberes ocidentais, em parte marcados pela influência cultural greco-romana, uniram e solidificaram esse patrimônio, perdido nos confins enigmáticos do tempo indivisível. A pólis, organizada à semelhança do corpo saudável, passou a ser compreendida como organismo vivo. Ao contrário, o caos social era sinônimo de doença. O político competente era aquele que curava a sociedade doente. No mesmo patamar, o juízo de valor das condutas fora estabelecido utilizando as emoções humanas como parâmetro.              
No mundo das ideias e crenças religiosas, a passagem de um para o outro lado, da saúde à doença, envolvendo mudanças nas coisas e nos acontecimentos, implicando riscos à saúde e à vida, funcionando como polos opostos, tem sido comunicada às sociedades pelo sacerdote, o representante da divindade. De modo geral, esses especialistas do sagrado, apesar de não negarem o conhecimento empírico da natureza circundante, confessam serem incapazes de compreender a vontade divina, limitando-se a obedecer e implorar a misericórdia, por meio dos ritos específicos para abrandar a ira transcendente.   
O poder de curar pessoas e sociedades e adivinhar com antecedência os infortúnios, evitando as doenças, para melhor organizar determinado grupo social, oferecendo a saúde e adiando a morte, tem sido historicamente utilizado pelo poder político, como mecanismo ora de coesão, ora de dissolução sociais.     
O sofrer e a morte da pessoa amada determinam transtornos complicados, em diferentes níveis do corpo, trazendo incontáveis sinais físicos de desconforto, variando em cada pessoa. Os sistemas nervosos, central e periférico, liberam substâncias que alteram o ritmo biológico e estabelecem a baixa global da defesa imunológica.        
A ansiedade, entendida como sensação de perigo iminente, interferindo na sociabilidade das pessoas, provoca complexas mudanças nos ciclos do sono, da fome, da sede, da libido e da afeição, ainda pouco compreendidas.    
O lento avançar da medicina molecular identificou a substância conhecida como GABA (ácido gama-aminobutírico), como o principal neurotransmissor, inibitório do sistema nervoso central. A maior parte das milhares de trocas químicas específicas processadas, em cada instante, nos tecidos, estão voltadas para manter o ser vivo e embotar, temporária ou perenemente, as sensações desagradáveis e perturbadoras. 
Parece lógico pressupor que as atitudes específicas, usadas no enfrentar da adversidade temida, minorando o sofrimento do homem e da mulher, tenham sido valorizadas e, continuamente, aperfeiçoadas pela ordem social, por trazerem resposta de bem-estar, para manter a vida, sempre!


quarta-feira, 15 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Foi jogar futebol...



Pedro Lucas Lindoso

Dizem que há duas grandes torcidas no Brasil. A torcida do Flamengo e a dos antiflamenguistas. Seu Nonato, vascaíno fervoroso, fazia parte desta última. Além de vascaíno fanático, era um conhecido e assumido antiflamengo.
Raimundo Nonato de Souza Matos, seu Nonato, faleceu recentemente, deixando condoídos e saudosos os advogados, juízes e servidores do Fórum Trabalhista de Manaus.
Conhecia seu Nonato há mais de uma década. Desde que retornei à Manaus. Uma figura, seu Nonato. Vendeu cafezinho pelos andares do fórum por décadas. Um privilégio renovado constantemente. Seu acesso ao fórum foi sempre assegurado e defendido a unhas e dentes, não sei se pela Associação dos Advogados Trabalhistas ou pela Associação dos Juízes Trabalhistas. Provavelmente por ambas. O fato é que nenhuma administração do fórum, nesses anos todos, ousou proibir a entrada de seu Nonato. Ele sempre portando sua trinca de robustas garrafas térmicas. Nonato foi responsável por décadas por um dos cafezinhos mais prestigiados da Justiça amazonense. 
Penso que por muito tempo, provavelmente desde o século passado, pagava-se R$0,50 pelo copinho. Foi reajustado há cerca de dois anos para R$1,00. Ninguém reclamou ou boicotou o seu Nonato. Um reajuste de 100%, era verdade. Mas o preço ficara congelado anos e anos, até por uma questão de troco. Atitude sábia não observada pela Prefeitura que recentemente aumentou o preço do ônibus abrindo uma polêmica sem fim pelos vinte centavos quebrados.
Seu Nonato não vendia fiado. Abria-se uma conta e ele anotava o saldo numa exatidão tão ou mais precisa que o balancete do Clube das Mães de Educandos. Todos confiavam sem embargos. E que café gostoso! Café brasileiro. Café bom. Feito no coador de pano.
Quando ele me dizia: “esse é o último, doutor”. Imediatamente renovava meu crédito. R$10,00 reais valiam vinte cafezinhos, depois somente dez. Um aumento mais que justo, justíssimo.
Nonato gostava muito de futebol. Estava geralmente com a camisa do Vasco. Mas vestia camisa de outros times. Menos a do Flamengo. Jamais. ”Do urubu, não”. Dizia ele. Os advogados presenteavam seu Nonato com camisas de times. Eu mesmo dei a ele uma do Brasiliense.
Poucos sabem, mas Nonato foi jogador profissional no Recife. Era pernambucano. Na década de sessenta foi titular do Santa Cruz.
É certo que não existe justiça trabalhista no céu. Mas com certeza tem futebol. Não tem mais cafezinho gostoso no Fórum Trabalhista de Manaus.
Nonato foi jogar futebol no céu.


domingo, 12 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

quinta-feira, 9 de março de 2017

Augusto dos Anjos no Projeto Jariqui



Retirando dos deuses a primazia das curas




João Bosco Botelho

A grande mudança das práticas médicas no Ocidente ocorreu na consolidação da cultura grega ligada à cidade-estado – polis. Nesse conjunto, sobressaiu-se Hipócrates, na ilha de Cós, no século 4 a.C.
Nesse período, Políbio, o genro de Hipócrates, baseado nos quatro elementos de Empédocles (terra, fogo, ar, água), descreveu o primeiro processo teórico capaz de compreender os binômios saúde-doença fora dos domínios dos panteões das divindades protetoras e vingadoras: a teoria dos Quatro Humores, preconizando a saúde como resultado do equilibro de quatro humores – bilioso preto, bilioso amarelo, sanguíneo, fleumático:
“Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras”.
Sem que até hoje saibamos, exatamente, o que representavam os humores, a idéia revolucionária dos médicos gregos da Escola Médica, na ilha de Cós, representados por Hipócrates, ficou conhecida como teoria dos Quatro Humores. Sob essa formidável concepção teórica, que dominou completamente as práticas da Medicina-oficial até o século 17, o corpo humano seria constituído de quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile preta.
O equilíbrio entre a quantidade e qualidade dos humores seria o responsável pela saúde. Ao contrário, os desequilíbrios entre eles provocavam as doenças. Como consequência imediata, esse sistema teórico permitiu aos médicos hipocráticos explicar a origem das doenças e, pela primeira vez, iniciar o conflito de competência com a religião. A epilepsia, tida como doença de natureza divina, foi arrancada do domínio dos deuses.
Para tratar qualquer doença, bastaria forçar o equilíbrio dos humores por meio de atitudes induzidas para eliminar os líquidos e excreções corpóreos. Os métodos de tratamentos da Medicina-oficial passaram a utilizar a sangria e as substâncias provocadoras do vômito, da diurese, do suor e da diarreia.
         Entre os muitos ensinamentos hipocráticos, sempre reforçando a determinação de aumentar a materialidade e diminuir a abstração para compreender a doença e o doente, é possível destacar como atuais os conceitos de diagnóstico, prognóstico e tratamento, distinção entre sinal e sintoma. Esses conceitos, apesar de terem sofrido aperfeiçoamento ao longo dos séculos, continuam válidos e utilizados, mesmo com toda a tecnologia da moderna Medicina.

quarta-feira, 8 de março de 2017

A mulher tem a força



David Almeida

 Na atual realidade social, política e econômica do nosso planeta ainda azul, os degraus que a mulher galgou – como dizem “os bambas” no assunto – o foram por pura raça e determinação dela mesma. Pelo menos é assim que eu penso. A mulher que sofreu discriminação, repressão e outros substantivos, durante muito tempo, dentro de uma sociedade por excelência, extremamente machista, conseguiu superar quase todos os paradigmas a ela impostos, mudando o rumo da história.
A luta foi contra tudo e todos, para chegar ao lugar onde se encontra hoje. Se formos analisar ou fazer uma comparação com o passado, a mulher dos dias atuais é quase um paradoxo da outra dos anos idos. Não deixou de ser doméstica, mas deixou de ser submissa, coitadinha, que fazia tudo o que seu mestre homem mandava.
A Amélia, hoje, não seria mais a mulher de verdade, talvez, a Maria, com a lata d’água na cabeça, que sobe o morro e não se cansa, e pela mão leva a criança, teria o seu lugar nestes tempos, pela sua garra de vencer na vida, pela sua superação.     
A mulher, além de tomar conta da casa e da família, assume nos dias de hoje, uma postura profissional, importantíssima, no mercado de trabalho, concorrendo com o homem. E, muitas das vezes, bem mais sucedida. Porque muitos não perceberam essa mudança de comportamento, não evoluíram, e, envoltos nas suas molduras machistas, estão inertes em seus patamares, cheios de arrogâncias, ouvindo o som de uma banda que já passou. 
Existe ainda discriminação, claro, mas o comportamento da mulher vem se impondo de uma forma profundamente salutar dentro da nossa sociedade. A mulher, sem fazer alarde, conseguiu seu espaço de uma forma extremamente sutil e fecunda, dando forma e sentido ao que o ser humano mais precisa para exigir seus direitos e ter suas conquistas pela essência da cidadania.
É interagindo e se integrando de uma maneira inteligente, eficaz e ética que a mulher de hoje envolve toda uma comunidade, e serve de exemplo para quem quer progredir, devido à sua busca, à sua luta pela sobrevivência dentro de um mundo onde só o homem tinha vez.  
Viver em um lugar, fazer parte de um grupo sem deixar de pensar, sem perder o seu individualismo, mas sem deixar, acima de tudo, de ser um todo, faz com que a mulher se diferencie, e tenha credibilidade bastante para assumir, hoje, postos que outrora eram só preenchidos por homens.  
Em certas rodadas machistas comenta-se que as mulheres não são capazes de pegar em um cabo de uma enxada ou uma boca-de-lobo, e que isso é serviço para homem macho. É claro, lógico, evidente, óbvio, se é assim que eles pensam. Mas, se precisar, ela se adapta a qualquer condição, e está provado!
“Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória, mudando como um Deus o curso da história, por causa da Mulher,” é assim que diz na música de Gilberto Gil, mas a “Mulher Maravilha” desses dias achou suspeito esse super-herói, e começou há pouco tempo a restituir a glória, mudando como uma Deusa o curso da sua história. 
Agora, por tudo o que a mulher representa, pela sua condição de gerar uma outra vida, e cuidar dessa vida até aonde sua vida a levar, o homem tem que pegar a enxada, a picareta, a boca-de-lobo e o que mais tiver. Ser macho mesmo, para limpar todos os caminhos por onde a mulher quiser passar. A mulher TEM A FORÇA!      


Fantasy Art - Galeria


Christiane Vleugels.

terça-feira, 7 de março de 2017

Em compensação...



Pedro Lucas Lindoso


Meu grande amigo Raimundo Alcides, quando jovem, foi juiz de futebol. Ele me explicou que, no futebol, reparar um erro, contrabalançar uma marcação malfeita, pode resultar em outro erro. Se determinado juiz anulou um gol indevidamente não deve marcar um pênalti em favor do outro time, como compensação. Vai cometer um segundo erro. É a velha estória: um erro não justifica outro.
Fico pensando se alguma das premiações do Oscar desse ano não foi uma ação modificante ou supletiva da academia ou do próprio “establishment” que é a ordem ideológica, econômica e política que constitui a sociedade americana. Ao premiar o filme iraniano – O apartamento, Hollywood provocou o boicote do diretor iraniano Asghar Farhadi à cerimônia do Oscar. Foi um protesto ao banimento de viajantes de sete países de maioria muçulmana ordenado por Trump.
A compensação visa regular previamente um ou vários aspectos, num sistema qualquer, de forma a contrabalançar fontes conhecidas de erros ou equívocos. Nem sempre dá certo. Muitas vezes provoca outros equívocos. Outros erros. Muitas vezes ocorrem injustiças. Podem ocorrer protestos, como no caso do diretor iraniano.
Fico pensando se o erro do anúncio ao filme vencedor não teria sido uma jogada de marketing. Uma compensação? Afinal o outro favorito La La Land foi o vencedor por alguns segundos.
Teve a cerimônia do Oscar para quem só gosta de cinema e não gosta de carnaval. Em compensação atrapalhou a vida de quem gosta de ambos. A Portela foi campeã. Uma das alas era sobre “Um rio que era doce”. A escola falou da tragédia dos rios, passando também por lendas e religiões.
A conclusão que chego é que os artistas e intelectuais, tanto os ligados ao cinema de Hollywood quanto aos do carnaval do Rio, em suas manifestações, são unânimes em alertar para um grande mal - a intolerância. Seja racial, religiosa ou qualquer outra forma de intransigência. Todos estão certos porque em pleno século 21 não podemos concordar com tanta intolerância, principalmente entre dirigentes políticos.  
Lamentavelmente houve acidentes durante o desfile das escolas Paraíso do Tuiuti e da Unidos da Tijuca. Em compensação, nenhuma escola foi rebaixada para o grupo de acesso por decisão da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Para os psicanalistas a compensação é um mecanismo de defesa que atua inconscientemente, e pelo qual o indivíduo tenta compensar deficiências reais ou imaginárias. Faltou fiscalização. Em compensação... só Freud explica!


segunda-feira, 6 de março de 2017

Lábios que beijei 68


Zemaria Pinto
Janaína entre aspas

Meu centauro, a primeira vez que falaste que mais cedo ou mais tarde eu te deixaria, chorei muito. Foi a primeira vez que fui embora, pois não admitia que me julgasses tão óbvia e linear. Tu me convenceste a voltar, não porque precisasses de mim, mas porque sabias que eu precisava de ti. Estivemos juntos durante 12 anos. Tu te mudaste de unicórnio azul em centauro e eu, de ninfa em mulher madura, ciente do que quero para o que ainda me resta de futuro: mudar. Mudar de rotina, mudar de país, mudar de mundo. Mudar. Foi muito difícil tomar esta decisão, ponderada há meses. Por isso, saio sem deixar rastro, para que não me procures e me convenças de novo a voltar para a tua sombra benfazeja. Te amei muito, mas preciso me amar mais. Te beijo todo. Tua índia Janaína.


domingo, 5 de março de 2017

Manaus, amor e memória CCCVI


Palais Royal - Livraria, tipografia e pautação...

sábado, 4 de março de 2017

sexta-feira, 3 de março de 2017

exercício nº 3



Zemaria Pinto

É madrugada. O ritual dos parvos
faz-se preciso e lento. Peregrino,
meu corpo vertical é um fantoche
cambaleando em cordas invisíveis.

Já não sei quem sou. Naves de papel            
num circunscrito céu circunvoluem
entre as amarras de concreto gris
e bandos vira-latas de mendigos.

De repente, uma pomba rasga o ar
num pardacento feixe de luz. Não,                
nenhum olho fixou aquele instante,
preciso instante feito de lampejos.          

De mim desperto, silencio o grito 
que se formara exausto no meu peito:


quinta-feira, 2 de março de 2017

Ovoide



Mauri Mrq

Ela o transformou em um ovoide. Sua dominação insistente e a prostração de seus órgãos, paralisavam o movimento humano de um marido corneado. Não tinha pena, resvalava um semblante de condenação quando Rony atuava em qualquer situação que ela não aprovava. Todos sabiam da dominação exercida por Cida, desde o casamento com Rony. Na verdade, ela pensava que era tudo um Rio Negro espelhado, e que as posses de Rony facilitariam o desejo de libertação artística, principalmente a condição que vivia de poder desfrutar do conforto e atuar como bailarina no Corpo de Dança da cidade.
Ainda lembro subindo a ladeira da Japurá, o movimento do braço, da mão, do tapa desferido por Cida pela ciumeira de namorados. No início da paixão, já vislumbrávamos  um destino avizinhado, a saga que Rony iria percorrer, transmudando sua existência, dependente de um ser lindo que amava cegamente, suportando sua condição de casados que iriam se tornar.  Sempre vai ressoar em minha memória aquele tapa na Japurá.
Rony era um bom amigo, mas submisso por uma paixão juvenil amadurecida na dependência psicológica de uma fêmea  com um charme que toda possessiva tem. O fato é que ele estava definhando, seu inferno de convivência e submissão de longos anos o fizeram tomar atitudes, mas sempre impedido por sua consciência obsidiada de Cida. Até no meretrício foi, mas as ofertas da Itamaracá o tornaram um nauseabundo. Apesar de tudo, Rony a sabujava  na esperança do seu compadecimento, mas Cida tinha o espirito ressequido. Foi quando procurou um vidente próximo à Livraria Valer, lhe receitando uma mandinga que quase a matou de disenteria. A sorte foi conseguir concluir o espetáculo que tinha no dia seguinte, mesmo suando frio, fazendo com que seu partner tivesse dificuldades para segurá-la em um pas de deux. O Browns Special que havia comido com as colegas do ballet em uma festinha, foi o débito das chicotadas na esmaltada ao bolo viajante.
Certo dia, a facticidade ecoou no Teatro Amazonas. A energia corporal que a dança provoca em movimentos de brincadeira entre duas bailarinas, Cida fugindo da perseguição alvissareira da manja, atravessa de costas o pano de boca do palco do teatro, e sem perceber que o fosso está baixado, cai em cima do piano de cauda da Orquestra Sinfônica, fraturando a coluna. O pescoço foi perfurado na quina de uma estante de partitura de ferro após o impacto no piano. Ficou paralitica, mexendo somente cabeça e braços, e a voz, quando na emissão das palavras, sai junto a esgares, o que a deixava constrangida, a ponto de ter se tornado praticamente uma muda.
Dizem que um pianista que iria fazer um concerto à noite, ao saber do trágico acidente, a única coisa que comentou foi se o piano estaria afinado para a sua apresentação.
Rony ficou cuidando de Cida, que mal se locomovia numa cadeira de rodas. É incrível que depois de ter se tornado um pestilencial no seu casamento, consiga se manter dedicado cuidando carinhosamente da esposa. O fato é que ele passou a viver seu casamento como achava que deveria ser. Possuía  Cida carnalmente,  mesmo sentido sua insatisfação. Na verdade, Cida odiava. Costuma levá-la ao Teatro Amazonas e a empurrava pelo palco. Obviamente que não gostava, mas Rony vivia agora a seu modo, e como a conheceu no Corpo de Dança, sofria um romantismo retardado.
Certa feita, nos costumeiros passeios ao Teatro Amazonas, Cida, que tinha sido deixada num canto do Palco após Rony dar voltas com ela, observa que nos adereços do Balé Folclórico encostados, havia uma flecha grande e pontuda, e planejou açoitá-lo quando retornasse. E foi o que aconteceu ao voltar. Cravou a flecha no pulmão de Rony quando este a abraçou, evitando assim que gritasse. Em seguida, retirou a lâmina rapidamente para esvair o sangue, e foi definhando dos braços de Cida, escorregando entre as suas pernas mortas, acomodadas na cadeira de rodas.
Em razão do seu estado, prendê-la não foi necessário, seu irmão que morava em São Paulo entrega Cida a uma curandeira amiga de sua mãe. Mas, Da. Naza foi sentindo ao longo do tempo, que o peso daquele espirito de Cida para suportar não era nada fácil, e já com 70 anos apesar de ter curado muita gente com suas ervas, só queria paz e não ter ninguém para se incomodar, e decidiu agir. Certo dia com um dardo, lançou um curare amazônico em seu pescoço. O deliramento para a morte foi imediato, Da. Naza agiu sem remorso.
Pessoas controladas são capazes de explosões. 


Práticas médicas nas primeiras cidades



João Bosco Botelho

Os registros apontam não terem ocorrido grandes diferenças entre as ações médicas nas sociedades que se desenvolveram nas margens dos rios Tigre, Eufrates e Nilo, no segundo milênio a.C. Nessas civilizações regionais, apesar dos incríveis avanços, não existia nenhum esboço teórico desvinculado das ideias e crenças religiosas para compreender a saúde e as doenças. Cada moléstia era compreendida como unidade única, com indissolúvel componente abstrato, dependente da vontade de um ou mais deuses ou deusas. Como consequência da divinização da saúde e da doença, só outra ação divina ou humana ajudada pelo deus ou deuses protetores poderia desfazer o nó causador de sofrimento.
Os documentos com preciosas informações médicas no Egito antigo são os papiros de Ebers e o de Edwin-Smith, datando aproximadamente de 2.000 a.C. Nesses registros constam os nomes de dezenas de doenças e seus tratamentos, com extraordinário bom senso.
Apesar desse fato, é mantida com veemência a absoluta dependência dos médicos aos deuses e deusas protetoras.
De modo geral, o conhecimento historicamente acumulado moldando os saberes empíricos da natureza circundante, sob a guarda dos médicos, estava muito presente nas terapêuticas contidas nesses papiros. Mesmo à luz dos conhecimentos atuais, não há como duvidar da extraordinária eficácia, por exemplo, da recomendação para administrar o chá de sementes da papoula aos recém-nascidos com insônia.
Dessa forma, nessas culturas regionais, também está clara a inter-relação de três Medicinas: divina, empírica e oficial, sempre atadas entre si, sem que seja possível estabelecer os limites onde uma começa e a outra termina:
– Medicina-divina: com indissolúvel aliança com deusas e deuses protetores e taumaturgos;
– Medicina-empírica: utilizando os recursos terapêuticos da natureza circundante;
– Medicina-oficial: representada pelas práticas de curas realizadas por médicos, reconhecidos e remunerados pelo poder dominante.
Apesar da utilidade prática dos monumentais conteúdos dos papiros de Ebers e de Edwin-Smith, a prática da Medicina-oficial egípcia estava longe de constituir um sistema organizado. Não é demais repetir a ausência de estrutura teórica para explicar a saúde e a doença fora do domínio das crenças e idéias religiosas.
Por outro lado, as práticas médicas que se desenvolveram nessas cidades-estados, mesmo com a estrita vinculação religiosa, todas apresentam notáveis registros da eficácia dos saberes historicamente acumulados, articulando o uso empírico dos recursos da natureza circundante.
Entre muitos exemplos, a Medicina-divina babilônica considera as doenças como castigo do deus Shamash, que presidia a justiça. Por outro lado, confirmando que, paralelamente, coexistiam a Medicina-empírica e a Medicina-oficial, que utilizavam remédios oriundos de plantas medicinais: a beladona, o anis, o óleo de rícino, o gengibre, a hortelã, a romã e a papoula, que continuam sendo utilizados até hoje, por milhões de pessoas em vários continentes.
Nessa fase, em torno da primeira metade do segundo milênio, as pesquisas arqueológicas nas principais cidades, mostraram importantes mudanças introduzidas para melhorar as condições sanitárias, pelo menos nas partes mais ricas, próximas aos palácios da administração: redes de esgotos, abastecimento de água potável, de fazer inveja às periferias urbanas de muitos países do Terceiro Mundo.
É importante salientar que o progresso na melhoria da condição de vida das pessoas que podiam desfrutar da água potável e do esgoto sanitário, certamente não acessível aos pobres e escravos, não estava estritamente ligado às ideias e crenças religiosas; se tratavam de objetivos concretos, materiais, ligados à saúde e à doença.