Amigos do Fingidor

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Prosa & Panela – 5




                                                                                                          Tainá Vieira


Desde o primeiro instante até o último momento de vida temos relação com a comida. Tem gente que morre desnutrida assim como tem gente que morre por comer demais. Há comida em todos os momentos de nossas vidas, sempre há comida por perto, mesmo que esta não nos pertença naquele momento. É comum em filmes e novelas ver cena de alguém pobre e com fome olhando para vitrines de padarias, aqueles bolos tão bonitos e deliciosos convidando-os a comê-los e a pessoa sem nada para comprar. Mas não é só na ficção que existe isso, na vida real é o que mais se vê. Certa feita, quando eu era adolescente e estava lanchando na rua, mais precisamente numa praça, estava sozinha e comendo um sanduiche e segurando uma garrafinha de refrigerante, apareceu uma senhora, acho que era moradora de rua, ela roubou-me o lanche das mãos e saiu caminhando calmamente, eu fiquei sem ação, apenas fiquei olhando ela ir embora com o meu lanche. Ela precisava mais do que eu.
 Comer o mesmo alimento todos os dias é nauseante, mas quando este falta sentimos saudade. Os ribeirinhos, pessoas que moram às margem dos rios, praticamente só se alimentam de peixe e farinha. Pelo menos do lugar de onde vim é assim, não é todo dia isso, mas com certeza dos sete dias da semana cinco são o peixe e a farinha que reinam na mesa. No entanto, quando vão para a cidade ou a seca mata os peixes e passam a ingerir outros alimentos, essas pessoas sentem a falta, ou melhor, sentem necessidade do peixe e da farinha. Pelo menos esse é o meu caso. Na verdade, nunca estamos 100% satisfeitos com o que comemos. Acontece de comermos algo e desejarmos outro. Outro dia aprendi a fazer um sanduiche sem pão: coloca-se a carne; o tomate; o queijo e o molho na folha de alface, feito isso é só fechar os olhos e comer imaginando que a folha de alface é o pão. Come-se bem, sem precisar sair da dieta.
Quando eu estava na faculdade, li um livro chamado Seara Vermelha, do baiano Jorge Amado, cujo enredo conta a saga de uma família de retirantes expulsa de terras nordestinas, essa família toma o rumo de São Paulo, a pé. A viagem é cheia de aflições, morte e fome, muita fome. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma cena em que depois de muito padecer na viagem com sede, fome, finalmente conseguem chegar a uma cidade onde precisam pegar o navio para atravessar o rio São Francisco e depois pegar o trem para São Paulo, os retirantes passam a comer o peixe oferecido na embarcação. Conta o livro: Após a seca e a racionada comida da caatinga, charque assado e pirão de farinha, a comida de bordo, peixe abundante e gorduroso, parecia um sonho. Era à vontade. Homens comiam dois e três pratos de pirarucu, lambiam os beiços, esticavam-se na madeira do navio de barriga para cima, acalentando o sol como as jiboias no sertão depois de devorarem um bezerro ou um cabrito. De tanto comer o peixe gordo, os retirantes tiveram disenteria, passaram mal, adoeceram e algumas crianças até morreram.  Quando a comida é pouca maltrata, quando é farta mata.
 Não há vida sem comida, por isso, quando uma pessoa está no hospital quase morrendo, ainda lhe enfiam comida goela a baixo, e, mesmo que o individuo não consiga comer devido a complicações ou falta de apetite, colocam-lhe uma sonda de alimentação na barriga ou pelo nariz. É um alimento liquido, como se fosse um leite, não passa pela boca, a pessoa não sente o gosto, mas pelo menos não sente fome. E também pode passar por essa sonda chá, água e até suco.  Matem-me, por favor, quando eu não puder mais sentir o gosto de um delicioso café. Pensando bem, mais vale a sonda de alimentação do que a comida de hospital. Não existe comida pior do que a de hospital, ela tem gosto e cheiro de doença. Por mais que eu ame cozinhar, jamais conseguiria cozinhar numa cozinha de hospital.  Não, nem água consigo beber, ela tem gosto de soro fisiológico e olha que nunca senti o gosto de soro. Minhas pequenas doenças curo em casa com receitas deixadas por minhas ancestrais. Para gripe: chá de limão com alho e mel; canja; pau de canela para cheirar e desentupir o nariz. É o suficiente para curar gripe. Para cólica basta tomar chá de limão. Para dores do coração ou da alma, mingau de mucilon de arroz resolve.

 O fato é que os alimentos são partes de nós e até são mais importantes que muita coisa. Que nos falte amor, sexo, religião, sonhos, mas não nos falte comida, que não falte leite materno para o bebê e nem a dieta que passa pela sonda de alimentação de uma pessoa hospitalizada. Morrer pelas garras da fome é trágico, cruel e doloroso. Morrer de barriga cheia é como se fosse uma forma de recompensa, ainda que esquisita e inexplicável. A primeira coisa que fazemos quando nascemos é comer, que seja também a ultima coisa a fazer, seria belo se assim fosse. Eu até fico me imaginando aos 76 de anos idade morrendo logo após o meu café da manhã.

domingo, 29 de novembro de 2015

sábado, 28 de novembro de 2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Bloomsday, 16 de junho de 2015, Manaus





Ao que escreve de Anjos e Medeias.

De Meninos-Peixes que “avoam” por rios plúmbeos.

Musicista de Surdos que escutam além.

Se o Texto é Nu, a alma é armadura de letras

vivas pela tua verve.


(Jorge Bandeira, de improviso, para Zemaria Pinto)





Mundo de vidraças



Paulo Sérgio Medeiros

Na noite em que pingos de espírito natalino encharcam corações de altruísmo, Floriano com seus cabelos pretos e bigode alvo mergulha no fundo da solidão. Criado pela madrinha, cujo senso de família ficou arraigado em tenra idade, ele era o próprio compêndio de uma aridez emocional. Teve a chance de pontilhar as letras castrada pela dura cartilha de uma criança que tinha o pedido de benção guardado no bolso do abandono desde os primeiros cueiros. Logo amadureceu e a perene ojeriza pelas relações familiares era o cume de um legado degenerativo. Experiente, aos dezenove anos ganhava pouco dinheiro com muito trabalho para a madrinha – pois, ele não via um único centavo do salário – singrando as águas do Solimões e as do Negro como ajudante de bordo do motor de linha Seledom. Carregar fardos de feijão, farinha, engradados de cerveja era bem mais leve que o fardo do desamparo. A ausência da figura paterna pesava como uma cruz em cada braço. Seu Luís, proprietário do Seledom, tentava em vão assumir o papel de educador com receio de vê-lo totalmente perdido. Num recreio carnavalesco, lá pelos rincões do Careiro da Várzea, Floriano encontra o fim dos dias solitários nos olhos de Graça. Foi amor à primeira vista. Aquela carioca de cabelos na altura dos ombros e olhos arredondados lhe caiu como uma tábua de salvação. E incentivado por ela e corroborado pelos conselhos de seu Luís largou a vida de marítimo para trabalhar por conta própria e logo a prosperidade bateu-lhe à porta e o matrimônio pousou-lhe sobre os ombros oito meses depois de muitos encontros às escondidas. A união foi o visto para a liberdade. O casulo matrimonial de muitos é a carta de alforria de outros. Já no primeiro Natal, o primeiro em família com direito a ceia e estouro de champanhe, deixou a esposa em casa com a desculpa de ir ao açougue apanhar sua capanga com a renda do dia e viu o romper da aurora no puteiro Maria das Patas. O sereno boêmio da Manaus dos anos setenta lhe caíra como um véu. O brilho da primeira estrela no céu era o convite da metáfora do prazer àquele notívago outrora reprimido. As noites no Maria das Patas – reduto dos açougueiros e taxistas – roubaram aquele homem renegado pelo pai dos braços daquela que seria capaz de cortar os pulsos por ele. Todas as noites Graça esquentava a janta, arrumava a mesa e apostava que com a chegada da primeira filha a gandaia juvenil se esvairia. Mero engano, com as rugas marcando a passagem do tempo em sua face, Graça, doméstica não letrada, resolutamente embrulhara a esperança num papel de conformismo. Os filhos foram nascendo um atrás do outro, todavia o sangue farrista do pai ausente lavava as veias de Floriano não o permitindo largar o osso da velhacaria. A leviandade o prendia naquele mundo sujo. Com o aumento da prole e a concorrência de algumas amantes disfarçadas de sobrinhas da madrinha, os negócios empacaram. Por conta da escassez do dinheiro, o ritmo frenético de suas farras e a presença constante dos amigos foi se desvanecendo. Os arranca-rabos se hospedaram na casa metade de madeira, metade de alvenaria. A casa era a própria síntese do casal. Sem mais as porções de ilusões proporcionadas pelos rabos de saia Floriano queria, em plena véspera de Natal, encontrar o pai como se sua benção o libertasse da solidão...



Poesia e prosa de ficção no Amazonas: 1954 a 2010



Comitês de ética em pesquisa



João Bosco Botelho

Após os horrores nos campos de concentração nazistas e em algumas pesquisas médicas realizadas nos Estados Unidos, nos anos 1960 (inoculação do bacilo da sífilis em pessoas de pele preta, no Mississipi, deixando-as sem tratamento, para registrar o avanço da doença, quando a penicilina já estava em uso corrente), os códigos de ética médica, ajustados às mudanças sociais e tecnológicas, se seguiram, com pontos comuns: a Medicina e os médicos devem sempre manter e defender a completa proteção do doente, promovendo a saúde e o bem estar da sociedade. Na maior parte, retornaram ao ideário ético grego hipocrático.
Os resultados das reuniões de Helsinki I, Helsinki III e de Tóquio estavam norteados com o indicativo para a criação dos Comitês de Ética em Pesquisa, em todas as instituições que realizassem pesquisas, com as seguintes recomendações:
– Manter estrutura administrativa independente para investigar projetos que envolvam seres humanos, direta ou indiretamente;
– Aprovar ou desaprovar projetos de pesquisas;
– Supervisionar e acompanhar os projetos de pesquisas aprovados;
Organismos como Associação Médica Mundial (AMM), Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceram metas para ampliar os Comitês de Ética em todo o mundo em três etapas:
– Período da criação;
– Período de expansão;
– Período de estabilização.
De modo geral, os comitês de ética em alguns países europeus e nos estados Unidos da América já estão na terceira fase, em outros, se encontram na primeira ou segunda fases.
Esses comitês de ética deveriam se organizar para manter permanente vigilância nos padrões éticos das pesquisas médicas acompanhando os movimentos de transformações nas praticas médicas, ajustando-as aos avanços tecnológicos e ao aumento da longevidade, em blocos de debates, acrescidos de outros, de acordo com o movimento social e os avanços tecnológicos.
Por outro lado, e concomitantemente, os Conselhos de Medicina, no Brasil e em outros países vinculados à ONU, UNESCO, OMS, se adaptaram às novas exigências sociais e tecnológicas e continuam discutindo deveres e direitos dos médicos e instituições médicas públicas e privadas, em bloco dinâmico de discussões temáticas que são acrescidas de outras, de acordo com a aquisição de novas tecnologias nas áreas: psiquiatria, biotecnologia, cirurgias estéticas, fertilização fora do útero e escolhas para viver e morrer nos doentes com imenso sofrimento e sem possibilidade de cura.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Gastou o “h” à toa



Pedro Lucas Lindoso

Uma das coisas que nos torna diferentes dos animais é a nossa capacidade de dialogar. Tia Idalina, que mora há anos no Rio de Janeiro, diz que quem deixa de conversar, quem não bate papo, está abrindo mão de um privilégio fundamental dado por Deus, aos homens. Quem não se comunica está, na verdade, renunciando a sua condição de ser humano.
Ela tem razão. Sabemos que a falta de comunicação e de diálogo já causou muita tragédia. Muitas vidas poderiam ser poupadas em guerras e conflitos se os políticos e dirigentes dialogassem mais e melhor.
O Papa Francisco tem se comunicado de forma espetacular com os católicos e não católicos de todo o mundo. Afirmou que as mulheres que passaram pela triste experiência do aborto devem merecer o perdão.
Tia Idalina fez um aborto quando jovem e afastou-se da Igreja. Questionou um sacerdote sobre a impossibilidade de ser perdoada e ouviu do mesmo que: “os desígnios de Deus são insondáveis”. Disse-me que naquela época não sabia o que significava “desígnios” e muito menos a palavra “insondável”. Parou de ir à missa.
Recebi uma carta de Tia Idalina, pelos correios, no qual se dizia feliz por ter sido perdoada de um pecado considerado “mortal”. Informava que estava tão feliz que tinha pintado sua bengala de rosa “shock”. E o andador de vermelho. Homenagem ao boi Garantido.
Tia Idalina sempre se comunicou com seus sobrinhos, amigos e parentes, interagindo de forma fantástica com todos que estão à sua volta. Ela diz que dialogar é treino, exercício. Quanto mais se conversa, melhor nos relacionamos. Assim, se constrói uma vida bem mais leve, mais saudável e muito mais plena de felicidade.
Terminou a carta dizendo que, com esse perdão do Papa, já “podia morrer, hora bolas”.
Em nome do diálogo e da boa comunicação, peguei o telefone e liguei para ela. Disse-lhe que não queria ouvi-la falar em morrer e que ora, de ora bolas se escreve sem “h”. No que ela me respondeu:
– Gastei o “h” à toa.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Prosa & Panela – 4



                                                                                 Tainá Vieira


Quando o passarinho ainda não consegue voar para procurar a sua comida, sua mãe vai e traz no bico pra ele.  Uma mãe sempre está disposta a fazer tudo pela sua cria. O ser humano desde o ventre já tem contato com alimento: segundo a ciência é em torno da décima quarta semana de gestação que o paladar do bebê começa a se desenvolver. A placenta captura os nutrientes do sangue da mãe e os transporta para o bebê, este fica imerso no liquido amniótico; esse fluido fica aromatizado pelos alimentos e bebidas que a mãe comeu nas últimas horas. E no último trimestre de gravidez não só o aroma, o bebê passa a ingerir esse liquido também, ou seja, come o que a mãe comer, é por isso que a grávida tem de ter todo cuidado com a sua alimentação.
A gente sempre encontra alguém que vai nos dizer, quando estivermos grávidas, que todo desejo é o bebê que esta pedindo algo e que tudo o que a mãe comer em demasia o bebê, quando estiver do lado de cá, irá comer também. Eu acho que tem um fundo de verdade nisso, no meu caso, eu comia muita tapioca e hoje minha filha é louca por tapioca, come todos os dias. Mas antes de qualquer alimento, o bebê tem de se alimentar exclusivamente, até os seis meses, somente do leite materno; depois dos seis meses pode começar a apresentar frutas, sucos e papinhas de verduras e legumes e ainda deve continuar o aleitamento materno até aos dois anos de idade ou até quando a mãe puder e quiser.  É lindo isso né, quando funciona. Hoje em dia o que mais se vê nas redes sociais são páginas, blogs, comunidades que incentivam, instruem sobre o aleitamento materno. É uma causa nobre que vem ganhando bastante repercussão na mídia, porque envolve muitos fatos importantes. Toda mãe tem o direito de amamentar o seu bebê em qualquer lugar, publico ou privado, a hora que quiser, sem ser constrangida, sim, pois há muitas pessoas que não concordam que as mães amamentem em publico.
Portanto o leite materno é oficialmente o primeiro alimento do bebê, só depois dos seis meses é que ele vai conhecer outros sabores, cores, texturas. A minha filha mamou o meu leite só o primeiro mês de vida, isso ocorreu por inúmeros fatores que não cabem aqui, tomou fórmula e aos quatro meses ela já tinha contato com sucos, frutas e legumes, por isso hoje, com um ano e dois meses, ela tem uma dieta bastante saudável e come de tudo, digo, tudo o que é saudável. Parece tão natural dar alimento a uma criança que todo mundo consegue fazer, mas não é bem assim, não é apenas pegar um alimento qualquer e dar ao bebê, já disse que os alimentos têm vida, sexo, personalidade, eles têm o seu lado bom e o seu lado ruim, como nós seres humanos, por isso quando a criança é bem novinha, ao introduzir alimentos novos tem que dar o mesmo alimento três dias consecutivos, para observar se o bebê não tem reação alérgica. Quando o bebê já puder segurar o alimento como uma fruta e ou até mesmo um pedaço de batata ou cenoura cozida, por exemplo, é bom deixar que ele toque, sinta o alimento. É claro que ele vai amassar, esmagar e sujar tudo antes de comer, mas não tem problema, isso tudo é descoberta, faz parte do processo de desenvolvimento do ser humano. Há casos de crianças cujas mães não deixavam pegar, esmagar, meter a mão mesmo na comida, por conta da sujeira que fica, que cresceram adultos frustrados porque foram privados desse prazer; tocar a comida, acariciar, olhar é prazer, comer é a última coisa que se faz. Tem que sentir prazer não só em comer a comida. Crianças que comem vendo televisão, celular e não prestam atenção no alimento que estão comendo, quando adulto agirão da mesma forma. O ato de comer para essas pessoas é algo mecânico, quase que banal. Pessoas que comem assim fazem parte do grupo dos “comedores velozes”, estão sempre apressadas, não dão importância no que estão comendo, comem qualquer coisa que lhes oferecem e nem se preocupam com o modo que a comida foi preparada. E há o grupo dos “comedores lentos”. Primeiro admiram o prato, sentem o cheiro, tocam e por fim, comem. Segundo o livro A Vida Sexual dos Alimentos, a maneira como uma pessoa come, reflete no modo como ela vive e age. Por exemplo, os comedores velozes e os comedores lentos, são exatamente assim em relação ao sexo. E não é só na cama, mas também no modo como tratam as pessoas ou falam. Temos que ensinar nossos filhos a tratar os alimentos com respeito, pois ninguém vive sem comida, é uma troca.
Quando o passarinho começar a alçar voo e sair à procura do seu próprio alimento, ele pode escolher o que quiser comer, já não tem que aceitar tudo o que a mãe pássaro lhe oferece; no entanto, ele já conhece inúmeros sabores que foram apresentados por sua mãe. Às vezes ele até prefere alimentos que seus pais nem gostam, assim acontece com as crianças também. Minha filha adora melão e morango, eu já não gosto. Ela come bem mais frutas e legumes do que eu. E trata os alimentos com carinho. Minha filha não gostava do meu leite e eu não gostava de amamentar. Já fui julgada por isso, mas não sofro com isso. Descobri há pouco tempo que também não mamei o leite de minha mãe, mas não uso isso como justificativa em relação à minha filha. Insisto em dizer: eu não gostei de amamentar! E também não me culpo por isso, todos os dias eu cozinho para a minha filha e todos os dias ela come a melhor comida do mundo.  


domingo, 22 de novembro de 2015

Manaus, amor e memória CCXXXIX


Em segundo plano: Tenório Cavalcante, Andrea e Jorge Bandeira.
Em primeiro plano: Rebelo Jr, Koia Refkalefsky e Théo Correa.
O teatro amazonense em movimento: equipe da peça Essa tal de natureza, de Leyla Leong.
Jornal A Crítica. Caderno Criação. 02.03.1993.

sábado, 21 de novembro de 2015

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Marcileudas 7/7



Prisioneira em seu castelo,
a princesa conta os dias
para um príncipe encantado
em cururu transformado
vir resgatá-la dali.

No castelo o que não falta
é cururu dando sopa:
de tanto beijar os sapos,
a princesa agora ostenta
a flor de um câncer na boca...

(Zemaria Pinto)

Não perder a esperança



Poesia e prosa de ficção no Amazonas: 1954 a 2010



Por uma Manaus+Verde vale até missa



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O vigia que dormia



Pedro Lucas Lindoso


Quando aquela família se mudou para o Vieiralves, há mais de trinta anos, o conjunto era tranquilo. Não havia comércio e Manaus não apresentava esses altos índices de violência de nossos dias.
A casa ficou bonita e grande, ocupando dois terrenos. A família então contratou Juscenildo para ser o vigia noturno da propriedade. Tio da cozinheira da casa, que o indicou para o serviço, Juscenildo conquistou a família pela sua pontualidade, assiduidade e discrição. Apesar de surdo-mudo, Juscenildo ficava atento quando os patrões chegavam, abrindo a porta da garagem com solicitude e um sorriso nos lábios. Vestia sempre uma farda cinza, comprada por dona Dejanira, a matriarca.
A família tinha um casal de filhos adolescentes que rapidamente tornaram-se adultos. A moça da casa casou-se e a recepção foi na própria residência da noiva. Antigamente era assim. Não havia essas festas performáticas nos buffets e clubes. Juscenildo foi o segurança da festa, vestido num paletó preto, comprado especialmente para a ocasião.
Os anos se passavam. Certo dia o rapaz da casa chegou tarde e flagrou Juscenildo dormindo. O bairro já dava sinais de violência. O moço manteve segredo e sugeriu a aquisição de uma cerca elétrica. Dona Dejanira foi contra. Afinal, tinham o Juscenildo. Mas segurança nunca é demais. Instalou-se a tal cerca.
O jovem rapaz da casa se casou e dona Dejanira ficou viúva. Os filhos então sugeriram que ela se mudasse para um apartamento. O conjunto estava cada dia mais violento. Ela recusou. Foi então que os filhos abriram o jogo:
– Mamãe, o Juscenildo dorme. No que ela respondeu:
– Eu sei que ele dorme. Eu sei que ele é surdo-mudo. Mas aqui na rua tem outro vigia que também dorme que eu já vi. O vigia da Tereza, minha amiga também dorme. Mas nunca, jamais entrou ladrão em nossas casas.
Dona Dejanira detesta apartamento. Ouviu falar do ladrão Homem Aranha que sobe nos prédios. Não se mudaria de sua casa nunca. Detesta elevador.
Morreu bastante idosa, dormindo e em sua casa. Nunca foi roubada. Lá fora tinha o vigia, o Juscenildo, que também dormia.




segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Prosa & Panela – 3



Tainá Vieira

Quase todo mundo tem uma receita de família, aquela que vai passando de geração a geração. Geralmente, a pessoa que tem interesse pela culinária recebeu influência de alguém da família, ou foi da mãe ou do pai, às vezes aprendeu a cozinhar com a avó e até mesmo se inspirou em alguma tia mestre-cuca, enfim, sempre herda o livro de receitas. Não é o meu caso, não conheço nenhum parente que saiba ser tão bom na cozinha e principalmente que tenha uma receita maravilhosa para passar a alguém. Sei que todas as mulheres da minha família cozinham, mas é o trivial, nada de divino ou espetacular. Agora de onde vem essa minha paixão pela culinária, esse meu lado cozinheira? Aprendi por aí, li livros de receitas, pesquisei receitas na internet.  E continuo aprendendo, a cada comida que preparo.
Lembro-me bem do dia em que eu fiz a minha primeira comida para o almoço. Meu pai pediu que eu preparasse feijão, arroz e ovo; não sabia como preparar o feijão, mas sempre observava como minha mãe cozinhava, então fui lembrando e tentando fazer. O arroz foi fácil. Até consegui fazer o feijão e quando meu pai viu que já estava pronto, ele disse que íamos comer com ovo. Eu jamais podia imaginar que o ovo seria frito, eu querendo agradar papai, mostrando que já sabia cozinhar, não perdi tempo, quebrei os ovos e os coloquei na panela com o feijão. Ficou algo bem estranho e a minha comida virou motivo de piada.  Para meus pais eu jamais aprenderia a cozinhar, e olha que eles nem são exigentes. Minha mãe me brigava todas as vezes que mandava fazer café; nunca saía do jeito dela; acho que por isso fiquei tão exigente em relação ao café, não é qualquer café que me agrada.
É difícil encontrar por aí um bom café, mas procurando bem se pode encontrar, até porque a vida é curta demais para tomar café ruim. Eu desteto aqueles cafés solúveis, é café de gente preguiçosa, não tomo café feito em cafeteira elétrica, acho sem gosto. E nem gosto daqueles cafés cheio de coisas como cremes, canela, chocolate, chantilly e tantas outras misturas que colocam no café. Eu ainda sou muito primitiva em relação ao café, prefiro meu café feito com água fervida no fogão, coado no filtro de papel e adoçado antes de colocar na garrafa. O café que bebo é feito desse jeito, e a garrafa tem de ficar sobre a mesa da sala de estar, às minhas vistas, para eu tomar a hora que quiser: isso significa mais de quatro vezes ao dia. O mundo seria um tédio sem livros e café. Um livro sempre pede a companhia de um café e vice-versa.  
Mas eu falava sobre o meu lado cozinheira, de onde vem essa paixão pela culinária. Quando eu cozinho, ou melhor, quando eu preparo uma boa comida, eu me sinto útil. Ter contato com os alimentos é uma maneira de se socializar com várias culturas, pois ninguém vive apenas com a comida do seu lugar de origem e não dividir os pratos típicos da sua região ou país é egoísmo. E não é só uma questão cultural, mas também religiosa, filosófica, histórica etc. Enfim, uma pizza não é só uma pizza que veio da Itália (aliás, a pizza surgiu há mais de 5. 000 anos com os babilônios, hebreus e egípcios que já misturavam o trigo, amido e a água e assavam em fornos rústicos; essa massa era chamada de pão de Abraão, era muito parecida com os pães árabes atuais e recebia o nome de piscea). Uma paella, não é só uma paella da culinária espanhola. Uma feijoada não é só uma feijoada inventada pelos escravos no Brasil. Uma feijoada assim como a pizza e a paella são muito mais que pratos típicos, eles trazem historia e envolvem mais que aspectos culturais de uma determinada região. Para cada prato típico de um país, há milhões de pessoas com uma história para contar. Ou seja, não é só um prato, uma receita, é a própria vida de um povo. Quando eu cozinho, quando eu consigo executar uma receita da minha região ou de outra, eu me realizo.  Acabo de concluir que cozinhar não é paixão, é um ato de amor. E o amor não precisa ser herdado de alguém ou ensinado por alguém, o amor simplesmente nasce em nós quando menos esperamos e vive dentro de nós, nos sustentando a cada dia.

domingo, 15 de novembro de 2015

Manaus, amor e memória CCXXXVIII


Ponte sobre o igarapé da Cachoeira Grande.

sábado, 14 de novembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Marcileudas 6/7



Xana, xibiu, xoxota
xereca, concha, xavasca
priquito, racha, tabaca
vulva, vagina, vaso
borboletinha, buceta
cona, crica, bacurinha...


São nomes que identificam
a fonte do mel da vida.
Entre todos eu prefiro
o que melhor qualifica:
me devora, perseguida!

(Zemaria Pinto)

A gulosa



Paulo Sérgio Medeiros
          

LOIRA FAMINTA, boca aveludada e bumbum G. Realizo seus desejos completos. Carinhosa e não sou careta. Quer conferir? Fone: 7823-1180. Cada anúncio naquela folha de classificados era como lotes de terra batida de luxúria. Metro quadrado de sussurros e gemidos vendido a preços populares. O prazer da carne nu e cru oferecendo o profano pincelado de sagrado por aquelas gêmeas de Eva. Meus olhos sobrevoavam aquele latifúndio do amor fácil e aquelas palavras maquiadas do pecado da gula incharam minha libido a ponto de tufar tanto dentro do meu saco da tentação que minha vida monogâmica foi tornando-se flácida. Syleuza deslizava de uma extremidade a outra na cama, remexia, gemia e gemia enquanto descansava seus duzentos e oito ossos fraturados de mordidas. Ela hibernava em desejos reprimidos. Pensei em acordá-la para serenar os ânimos e acabar com seus sonhos calientes e os meus indecentes, porém impermeabilizada estava ela. Amarrotei o jornal e o larguei ao lado da cama, desliguei o abajur e deitei meu corpo em labaredas. Queria a luz do dia invadindo a janela do quarto para, enfim, apagar aquele fogo. Insistentemente, boca aveludada... Desejos completos... Bumbum G. ... Carinhosa... Latejavam em minha cabeça. Levantei-me e desembrulhei aquele cataclismo de desejos. A transgressão me lambia a pele. Ligo ou não ligo? Era a pergunta que não queria emudecer. Ainda que roído pelas traças do tempo, o respeito, órgão vital em um relacionamento pulsava forte em meu crânio calvo, apesar do cárcere privado que se tornara meus mergulhos em límpidos aquários. Na geografia da Syleuza tinha eu migrado de porto seguro para porto velho. Ela é carinhosa e não é careta. Bom, mas por que ela não colocou a idade? E se for uma velha e gorda? Careta? Se for para ir ao inferno, é melhor que seja acompanhado de uma mulher jovem e bonita. Então, como um bom professor de linguística, fiz uma breve análise do discurso. Careta é uma palavra anacrônica. Essa loira deve ter seus quarenta e cinco anos. Puta velha... Poderia ligar para outra terceirizada, era assim que encararia aquele encontro, no entanto caros leitores, a palavra tem poder e faminta foi a que despertou meu interesse e abriu meu apetite. Syleuza continuava a gemer e a rolar na cama de meus pesadelos. Os ponteiros do relógio na parede refletiam o meu instinto e protagonizavam o meu futuro ali na horizontal um em cima do outro. Vesti-me de coragem e liguei fragmentando a fala. Uma voz lânguida invade meu ouvido. – Olá, boa noite. – Loira... Loira fam... Faminta? – Loira glutona! – Qu... quanto... cu... custa? – Cento e dez reais por uma hora e meia. Pronto. Juntei a sede com a vontade de comer. Detalhes acertados, com a testa beijada deixei Syleuza em meio a devaneios impudicos e desgarrei-me dos braços do espantalho da solidão rumo ao breu daquele encontro às escuras. A tentação arreganhara de vez seus dentes em minha direção. Cheguei a casa 171 na Rua Belo Horizonte ciceroneado pelo medo e através da campainha anunciei minha chegada. A porta abre-se rangendo no silêncio palpitante daquele momento e vejo a dois passos de mim cento e dez quilos de uma loira faminta... Engoli a seco as imagens do meu pensamento e extraí, testemunhado pela lua minguante, as presas afiadas da tentação.

Bioética orientando e fiscalizando os avanços tecnológicos



João Bosco Botelho

O processo teórico estruturante da bioética, iniciado nos anos 1970, tomou melhor forma com a publicação, em 1976, do livro do filósofo Samuel Gorovitz “Problemas morais na Medicina”, e em 1979, o do também filósofo Tom Beauchamp  e do teólogo James Childress “Princípios da ética biomédica”.
Ao livro de Beauchamp e Childress – compreendida como teoria da Principalidade – é acrescido um novo pressuposto à ética e moral da pesquisa médica de modo geral e, especialmente, às que envolvem seres humanos como sujeitos da pesquisa: não-maleficência, de clara influência hipocrática.
Existem críticas na originalidade da teoria da Principalidade, mas não no conteúdo ético e moral. Os autores que duvidaram da originalidade sustentam que a obra de Beauchamp e Childress somente uniu alguns argumentos publicados por outros autores: autonomia, de Kant; beneficência, de John Stuart Mill; não maleficência, de Hipócrates; justiça, de John Rawls.
Seja com ou sem crítica, o certo é que esse contexto de união de esforços teóricos resultou também na salvaguarda para os indivíduos fragilizados na saúde física ou mental e os que não entendem os riscos da pesquisa. Nesse sentido, foi introduzida a obrigatoriedade do “termo de consentimento livre e esclarecido” como alternativa administrativa para proteger os que não podem decidir sobre as vantagens e riscos da pesquisa.
Essa questão ainda não estava clara em 1964, quando os médicos e pesquisadores reunidos na 18ª Assembleia da Associação Médica Mundial editaram a Carta de Helsinki I, anunciando cinco princípios de base, que, como o Código de Nuremberg, não impôs força de lei:
– As pesquisas clínicas devem estar contidas nos princípios morais e científicos, e só deverão ser iniciadas após o sucesso nas experimentações em animais;
– As pesquisas devem ser dirigidas por pessoas cientificamente competentes;
– Todo projeto de pesquisa deverá ser precedido de uma lista detalhada e circunstanciada dos riscos e benefícios esperados.

Outros códigos de ética médica, ajustados às mudanças sociais e tecnológicas, se seguiram, com pontos comuns: a Medicina e os médicos devem sempre manter e defender a completa proteção do doente, promovendo a saúde e o bem-estar da sociedade. Na maior parte, retornaram ao ideário ético grego hipocrático: Congresso de Moral Médica, Paris, 1966; Declaração de Tóquio ou Helsinki II, 1975; Declaração de Manilha ou Hensinki III, 1981; e a Resolução de Madri, 1987.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Théo Correa (09/11/1960 – 11/11/2015)



Théo Correa era ator e diretor de teatro, com larga vivência em grupos de Manaus. Faleceu hoje pela manhã, em São Paulo, onde será cremado. Suas cinzas serão jogadas ao rio Negro.

Não podia ter deixado ele sair




                                                                    Mauri Mrq


Não esqueço aquele dia quando costumeiramente caminhava com uns amigos no Parque do Idoso e avistei aquela bela senhora, que de imediato me chamou a atenção pela vistosa maneira de se portar na atividade física que executava. Desde então, diariamente, a procurava com olhares na esperança de oportunizar um encontro para conhecê-la.

Em uma festa comemorativa nessa instituição que frequentávamos, à noite, um baile acontecia e como a interatividade é a tônica nestes eventos, a troca de casais quando dançávamos se dava de forma harmoniosa, foi quando provoquei nos revezamentos tomá-la como par e bailar ao som da música “Chão de estrelas”. Flutuava com ela em meus braços e seu perfume de rosas em tom suave, me fez sentir o que há muito não sentia desde que perdi minha esposa. Aproveitei o momento para perguntar-lhe seu nome e compassadamente disse: Amália. Em seguida foi compor um outro par e naquele enorme salão não a avistei novamente.

No dia seguinte, caminhando, lançava olhares nos ambientes procurando por Amália com seus cabelos pintados, mesclando o branco com um azul clarinho e não a via. Mas, na semana seguinte, lá estava Amália, tomando o café da manhã. Aproximei-me, dei-lhe bom dia e perguntei se podia sentar à mesa, me confirmando positivamente com a cabeça. Daí em diante nos tornamos amigos e, com o passar do tempo, namorados.

Sentia que Amália tinha resistência em aprofundar nossa intimidade como namorados. Viúva há três anos, mulher em toda a sua vida de um homem só, era compreensível o seu temor, mas procurava mantê-la satisfeita priorizando seus gostos, cultivando sua companhia que me agradava sobremaneira e percebendo que cada vez mais ficava à vontade comigo.

Numa sexta-feira fomos ao Teatro Amazonas e após a bela apresentação da Orquestra Sinfônica, convidei-a para jantar no restaurante giratório de um hotel indiano na avenida Getúlio Vargas, ficando maravilhada com a vista da cidade de Manaus que pôde contemplar em trezentos e sessenta graus. Um bom vinho, a troca de confidências e admiração mútua, permitiu-nos a nossa primeira noite de amor.

No dia seguinte, na costumeira caminhada no Parque do Idoso, não avistei Amália. Telefonei-lhe e vinha mensagem de número inexistente. Mais um dia, nada de Amália, fui a sua casa e sempre a encontrava fechada e ninguém atendia, ela morava sozinha.

Sucederam-se duas semanas e cadê Amália, comecei a perguntar por ela todas as manhãs e ninguém sabia informar, participava de atividades no Parque para me aproximar de algumas senhoras com quem fiz amizade, tentando obter notícias.

Um certo dia fazendo caminhada para me obrigar a não ceder a total angústia que começava a ser perceptível em meu semblante, uma senhora andando em cadeira de rodas me acenou, fui ao seu encontro, me perguntou se procurava por Amália, disse-lhe que sim, foi quando disse que Amália tinha ido embora de Manaus e não retornaria, perguntei-lhe o motivo, mas ela não sabia, quis saber se tinha algum telefone para encontrá-la onde quer que fosse. Conheço sua irmã, mora na Joaquim Nabuco, minha vizinha há anos. Vendo minha aflição, a senhora me forneceu o endereço e no dia seguinte fui ao encontro da irmã de Amália, saber do seu paradeiro.
  
Muito simpática, me recebeu com gentileza, e disse-lhe meu nome, Clodoaldo. Sei quem é o senhor, Amália falava muito a seu respeito e do relacionamento de vocês.  Pois é, estou desesperado com o sumiço de Amália, o que aconteceu?  Desista, seu Clodoaldo, Amália não quer mais lhe ver. Mas por quê? É melhor que o senhor não saiba. Insisti muito, e vendo minha aflição, resolveu me falar: Amália foi casada por quarenta e cinco anos tendo ficado viúva há três anos. A única pessoa que vi minha irmã dar importância após sua viuvez foi o senhor, mas, o senhor sabe, todos nós temos nossos problemas e Amália, assim como amava seu marido, aturava suas atitudes orgânicas. Como assim? Rodolfo, esse era o nome do falecido, era muito espontâneo com suas reações orgânicas que incomodavam e criaram um trauma em Amália. Continuo não entendendo nada... Rodolfo era flatulento, expelia gases, balançava a roseira com regularidade, achando normal tal atitude na presença de Amália, e Amália não gostava, mas aturava, fora isso, conviveu muito bem com seu marido não tendo filhos por Rodolfo ser infértil. Quer dizer que ele sabia peidar mas não fazia filho. Me desculpe, minha senhora, mas onde eu entro nessa estória pra ela não me querer mais, e o que tem a ver a flatulência do Rodolfo? Amália me contou que vocês tiveram uma noite de amor e depois que concluíram, o senhor soltou um “pum”, e logo em seguida se desculpou. Exatamente, foi um peido inconsciente, sem querer, eu não sou um velho flatulento e jamais peidaria na frente da Amália de propósito. Pois é, aí é que eu digo que todo mundo tem seus problemas, ela não quis arriscar se relacionando com o senhor, mesmo tendo sido educado após expelir o vento, se desculpando, mas este é o trauma de Amália. Mas eu não sou o Rodolfo. Eu sei, meu senhor, eu tentei convencê-la seria bom pra ela ter uma companhia na velhice, mas foi irredutível. Por favor, perdoe Amália! Não se preocupe, vou sobreviver, obrigado, e até um dia.

Essa não! Que coisa mais estapafúrdia me aconteceu, perdi Amália por soltar um peido.

Não podia ter deixado ele sair.





Fantasy Art - Galeria


Forest demoness.
Andrey Vasilchenko.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Coxinha, mas de macaxeira



Pedro Lucas Lindoso

Não faz muito tempo, a Presidente da República discursou fazendo loas à mandioca. Com razão. Nada mais brasileiro do que a mandioca, a nossa macaxeira. Para o carioca é aipim. Certa feita, presenciei numa mesa de bar em Brasília, um discussão boba sobre o correto nome desse tubérculo, tão apreciado por todos os brasileiros e brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste.
A variedade de produtos derivados da macaxeira é imensa. As farinhas apresentam-se de formas e sabores diversos, dependendo da região brasileira. Aqui, as preferidas são a ovinha, do Uarini e a branca ou amarela fina, para farofa.
Na Bahia, quanto mais fina for a farinha, mais prestígio e melhor preço.
A tapioquinha, feita da goma da mandioca, está altamente prestigiada entre os nutricionistas do Brasil. Não contém glúten ou farinha de trigo, o vilão das dietas modernas. E viva a mandioca!
Temos ainda o nosso delicioso tacacá, com base no tucupi, sumo da macaxeira.
A farinha de mandioca, diferente do sagu, que parece bolinhas, mas é mais duro e consistente, serve para tomar açaí e fazer “bolo podre”, o “pão de queijo” amazonense.
Nada mais brasileiro do que a farofa, nos seus variados sabores e diferentes receitas. O brasileiro típico adora futebol, carnaval, cerveja e farofa. E viva a macaxeira!
Em Manaus, nos lanches de rua, além da bôla e do ovo coberto, tem sempre a coxinha de galinha, feita com massa de macaxeira (no sudeste é sempre de trigo).
Um jovem empresário amazonense, bem sucedido e conservador, foi chamado de “coxinha”, por um sindicalista radical. No que ele respondeu:
– Sou coxinha, sim, mas de macaxeira.
Ideologias e posições políticas à parte, aí vai a receita de coxinha de macaxeira:
Ingredientes para a massa: 2 kg de macaxeira crua, uma xicara de óleo, uma colher de sal, quatro copos de agua fria, uma xicara de trigo. Ingredientes para o recheio: um peito de frango, um tomate picado, uma cebola picada, um cheiro-verde picado, sal a gosto. Ingredientes para empanar a coxinha: um ovo, farinha de rosca. Modo de fazer a massa: descasque a macaxeira, corte em pedaços grandes, coloque para cozinhar com água e sal, por 20 min. Depois amasse a macaxeira com um garfo, adicione o óleo para untar a massa. Deixar descansar por 30 minutos Para o recheio: corte o peito de frango, coloque para cozinhar com água e sal por 30min. Depois, triture o frango com uma faca, adicionando as verduras e os temperos levando ao fogo para refogar por 15min. Para formar a coxinha: Retire uma bola de massa, amasse na mão com trigo. Coloque uma colher de recheio e feche a massa formando uma coxinha. Passe no ovo e na farinha de rosca. Fritar em óleo quente.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Prosa & Panela – 2

        
  Tainá Vieira


Outro dia eu fiz uma coisa que não tenho o costume de fazer, embora a maioria das mulheres o façam, digo, as mulheres que cozinham. Eu cozinho. Era o dia de comer feijão; na minha casa come-se feijão uma vez na semana. Preparar o feijão não é uma tarefa fácil como parece. Primeiro antes de lavar os grãos, tem que catar ou escolher, isso significa retirar as impurezas que vêm no saco de feijão. Coloquei os grãos sobre a mesa e comecei a separar o joio do trigo, digo, comecei a separar o bom feijão do feijão estragado. Há vários tipos de feijão, varias cores, tem feijão preto, branco, vermelho e marrom; o meu era marrom. Da cor da terra. Às vezes vem pedra junto ao feijão, pedra tem cor de terra, fica difícil ver, por isso é necessário catar o feijão, antes eu só lavava, jamais havia feito o procedimento de separação do feijão bom do feijão estragado. Pode-se encontrar também milho junto ao feijão. 99% das pessoas já encontraram milho no feijão, e até mesmo outras espécies de grãos. E vem terra, literalmente terra, aquela terra cujo feijão foi semeado, onde ele nasceu, cresceu e depois, já maduro, foi arrancado pelas mãos calejadas do trabalhador ou por maquinas assassinas de grãos.
Ao trabalhador é concedido o perdão por esse ato cruel. Pobre feijão, não queria sair dali, do seu habitat, o pé de feijão. Não queria ir para a panela e depois para o estômago de pessoas insensíveis. Algumas pessoas são tão cruéis no ato de comer. Comem com pressa ou com os olhos fixos na tela da televisão ou do celular. Nem sentem o sabor dos alimentos. Não respeitam os alimentos e, nem agradecem por tê-los à mesa. Essas pessoas são incapazes de pensar em tudo o que os alimentos passaram para chegar até seus pratos e mais, não imaginam o modo como eles foram preparados, muitas vezes, estiveram numa cozinha suja, foram tocados por pessoas mal-humoradas, cheias de sentimentos ruis (o bom ou mau humor de quem prepara a comida, influencia o sabor e a digestão do alimento) e para lhe doer mais a vida, esses alimentos vão ter fim em corpos de pessoas ingratas. Qualquer alimento tem vida, assim como personalidade e sexo. O feijão é masculino. Vejamos o pé de feijão, é fálico e seus grãos são duros, por isso, usa-se a panela de pressão para preparar esse alimento. O principal elemento encontrado nele é o ferro, imprescindível para o sangue.  E quando já está pronto o seu sabor é bem forte, marcante, diria que é um alimento poderoso, como um macho mesmo, (entenda-se macho apenas como oposto de fêmea). Há quem coma somente o feijão numa refeição por ele ser assim, tão forte.  Eu sempre o preferi acompanhado de alimentos brancos que são femininos, mas isso é outra e longa historia. O que eu estou querendo dizer desde o inicio é que antes eu comia feijão uma vez por semana, agora sou defensora desses grãos tão mal-encarados e subjugados por algumas pessoas cruéis sem sentimentos. Apesar de toda sua masculinidade o feijão sofre tanto, dói-me ver homem sofrer.


domingo, 8 de novembro de 2015

Manaus, amor e memória CCXXXVII


Livraria Valer (10/11/1990  08/11/2015)

Valeu!!!

sábado, 7 de novembro de 2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Marcileudas 5/7



O trombadinha na esquina
deixa passar a velhinha
para então, como um felino,
tomar-lhe a bolsa e o cordão.

Na fuga, encontra uma Ronda,
que lhe dispara um balaço,
abrindo um baita buraco
na altura do coração.

O corpo no chão caído,
a velhinha se aproxima,
fazendo o sinal da cruz;
e com o dedo em riste aponta

o polícia matador,
balbuciando este mantra:
era só uma criança...
era só uma criança...

(Zemaria Pinto)

Clonagem nos tratamentos das doenças



João Bosco Botelho

É possível pensar que no futuro as clonagens trarão muitos benefícios. Entre os mais esperados:
– Rejuvenescimento de partes específicas do corpo, danificadas pelo processo de envelhecimento ou por trauma, como nas queimaduras;
– Recuperação de áreas anatômicas por perda ou diminuição de funções vitais, como as determinadas pelo infarto do miocárdio;
– Substituição de genes defeituosos;
– Tratamento de alguns tipos de cânceres;
– Recuperação de segmentos medulares danificados nos traumas.
Por outro lado, como os atuais conhecimentos ainda são limitados, é também possível que a clonagem envolva riscos importantes: perda ou diminuição da multiplicidade genética; envelhecimento precoce em partes do corpo; anomalias desconhecidas; alterações comportamentais.
É possível assinalar as diferenças fundamentais entre a clonagem reprodutiva e clonagem terapêutica:
Clonagem reprodutiva: o núcleo de uma célula adulta é introduzido no óvulo "vazio" e transferido para outro útero, dito de aluguel, com o intuito de gerar um feto geneticamente idêntico ao doador do material genético;
Clonagem terapêutica: o DNA retirado de uma célula adulta do doador é introduzido num óvulo "vazio"; após algumas divisões celulares, as células-tronco resultantes são aproveitadas, para fabricar tecidos idênticos aos do doador, impedindo a rejeição.
É claro que essa especie de acontecimento está contida numa análise teórica, porque as técnicas de clonagem ainda estão em processo de aperfeiçoamento. Por exemplo, para obter o clone da ovelha Dolly, produto do clone de outro animal com 6 anos de idade, por meio de uma célula somática da mama, de onde foi retirado o núcleo e transferido para um óvulo sem núcleo, vitalizada por meio de uma corrente elétrica, implantada no útero de uma terceira ovelha, foram necessários 277 ovos, 30 iniciaram a divisão espontânea, 9 induziram a gravidez e apenas 1 sobreviveu.
Como mecanismo ainda desconhecido, Dolly só sobreviveu seis anos e seis meses,  enquanto as ovelhas vivem entre os 11 e os 12 anos, com manifestações de artrite no quadril e joelho esquerdo, doença próprias do envelhecimento. Mesmo assim, Dolly pariu quatro ovelhas. Esse acontecimento provou que o animal clonado não se torna automaticamente estéril.

Dessa forma, é razoável teorizar em torno dos vetores sócios-genéticos (a colocação do social anterior ao genético não é por acaso) na construção do produto vivo multicelular.