Amigos do Fingidor

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 12/12


Zemaria Pinto
 
 
O Nirvana antes do fim

 

“O meu Nirvana”, um dos últimos poemas de Augusto dos Anjos[1], é o coroamento de toda uma obra, não só como poesia, mas também do ponto de vista da expressão filosófica – o poeta autografa o seu trabalho para a posteridade: 

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero,
Encontrei, afinal, o meu Nirvana! 

Nessa manumissão schopenhaueriana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana! 

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tato – ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias –  

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!
(p. 310) 

 Encontram-se neste poema os dois sustentáculos filosóficos da poesia de Augusto dos Anjos: o budismo e o schopenhauerismo. Sentindo a iminência da morte – “no alheamento da obscura forma humana, / de que, pensando, me desencarcero” – o poeta encontra a liberdade na filosofia, adquirindo a consciência de que a Ideia é a “forma eterna”, imanente à Arte (SCHOPENHAUER, 2005, p. 246). A Arte sobrevive ao homem, à sua dor crônica, ao seu sofrimento sem fim, ao seu tormento incurável. Extintos os combustíveis que alimentam a Vontade de vida – a ganância, a luxúria, a raiva e a ilusão – sobrevêm, para Schopenhauer, o Nada, para o budismo, a libertação. O Nirvana de Augusto dos Anjos tem outro significado: a perenidade de sua poesia.
 

REFERÊNCIAS
 

ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Organização, fixação do texto e notas: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

BARBOSA, Francisco de Assis. Notas biográficas. In: ANJOS, Augusto dos. Eu. 30. ed. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1965. p. 293-324.

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995b. p. 273-342.

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. 3. ed. Tradução: José Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1994.

CAVALCANTI, Cláudia. Em busca do êxtase. In: Poesia expressionista alemã: uma antologia. Organização e tradução: Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000. p. 17-33.

FARIA, José Escobar. A poesia científica de Augusto dos Anjos. In: ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Organização, fixação do texto e notas: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 141-149.

FLEISCHER, Marion. O Expressionismo e a dissolução de valores tradicionais. In: O Expressionismo. Organização: J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 65-81.

FREYRE, Gilberto. Nota sobre Augusto dos Anjos. In: ANJOS, Augusto. Obra completa. Organização, fixação do texto e notas: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 76-81.

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. 2. ed. Tradução: Marise M. Curioni. São Paulo: Duas Cidades, 1991.

HYDE, G. M. A poesia da cidade. In: BRADBURY, Malcolm; McFARLANE, James (Org.). Modernismo: guia geral 1890-1930. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 275-284.

MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. Poesia e vida de Augusto dos Anjos. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1978.

MATTOS, Cláudia Valladão de. Histórico do Expressionismo. In: O Expressionismo. Organização: J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 41-63.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.

PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luís. História da Filosofia. 15. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1990.

PORTELA, Eduardo. Uma poética da confluência. In: MELO FILHO, Murilo (Org.). Augusto dos Anjos: a saga de um poeta. João Pessoa: Governo do Estado da Paraíba, 1994. p. 65-66.

REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977.

ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto I. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. 1º tomo. Tradução: Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

SHEPPARD, Richard. A poesia expressionista alemã. In: BRADBURY, Malcolm; McFARLANE, James (Org.). Modernismo: guia geral 1890-1930. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.  p. 313-320.

SMITH, Huston; NOVAK, Philip. Budismo: uma introdução concisa. Tradução: Claudio Blanck. 3. ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2008.

SOARES, Órris. Elogio de Augusto dos Anjos. In: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 3. ed. Rio de Janeiro: Castilho, 1928. p. VII-XXXVI.

SPENCER, Elbio. Augusto dos Anjos num estudo incolor. In: ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Organização, fixação do texto e notas: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 180-185.

 



[1] Publicado na Gazeta de Leopoldina, no dia 14 de novembro de 1914, dois dias após a morte do autor.
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

As pontes sempre nos levam a algum lugar


David Almeida

 

Muitas pessoas questionaram, e ainda questionam a construção da Ponte Rio Negro. Se ela é uma das mais caras pontes do mundo, em devidas proporções, não sei, o certo é que foi inaugurada. E muita gente passa por ela diariamente, na contramão do seu antigo tempo. O verbo “esperar” não é mais conjugado nessa travessia.      
Foto: David Almeida.
Impoluta, reta, altiva, majestosa, delicada, ostentando os milhões que foram gastos em sua construção, ela atravessa o Rio Negro como mais um colosso amazônico e causa uma visão extraordinária. Há quem diga que é uma ponte, que sai do nada e leva a lugar nenhum. Não acredito! As pontes sempre nos levam a algum lugar. Nenhuma ponte sai do nada para o nada, mesmo que ela seja um sonho. Se existiu uma ponte que saiu do nada caiu por falta de sustentação.

As pontes são necessárias para a vida, são estratégias para se chegar a um determinado ponto, e, mais importante ainda: para se chegar a um ideal. E quando o homem precisa voar eis que surge a ponte aérea riscando o céu desse planeta ainda azul. As pontes evitam curvas, passam por sobre os lagos, rios, mares, montanhas e pelas pedras dos caminhos; facilitam as nossas idas e vindas. O nosso pensamento, é uma ponte, que ninguém vê, só nós sentimos: invisível; maravilhosa, complicada e perigosa, que às vezes, quando precisamos, nos leva além da vida real, e quando o pensamento é bem construído, nos trás de volta.

As pontes são vias necessárias até para o complicado, e perfeito, sistema do corpo humano, quando o fluxo de sangue é interrompido na veia, a ponte de safena é o caminho para vida.  Dizem os espíritas que existe o “Cordão Prateado”, uma espécie de ponte que liga o espírito à matéria, e quanto há uma ruptura dessa ligação, aí a vida é interrompida e segue outro rumo, até então desconhecido por nós, simples mortais.  

A ponte sobre o Rio Negro não liga Manaus ao Brasil, mas liga às comunidades que estão na outra margem, e isso é importante, fundamental para o desenvolvimento sócio, político e econômico da nossa região. É uma ponte que melhorou, sim, a vida de muita gente. O ir e vir está mais fácil, o transporte de produtos para um lado e para o outro encontrou facilidades, principalmente os alimentos perecíveis que precisam de rapidez na entrega.

Se a ponte vale o quanto custou ou o quanto pesa é uma questão matemática, agora a importância dela para todos, de lá e de cá, é imensurável.

Vamos orar, torcer para que a palavra seja cumprida. O chefe maior desse Estado, disse: “Enquanto eu for governador, não será cobrado pedágio!” Pelo menos dessa vez o povo não precisa pagar nada, porque já pagou tudo. “Né?” Rezemos ao senhor...   

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

'Poesia solta na rua' volta nesta quinta



A programação do Poesia solta na rua desta quinta, 30/08:

Recital poético: Aldisio Filgueiras, Cláudio Fonseca, Rayder Coelho e Michele Pacheco; Participação especial: Amanda Figueiredo, homenageando Anibal Beça

Musical: Zeca Torres (o Torrinho) e Cileno

Sobre os poetas:

Aldisio Filgueiras: a poesia de Aldisio se caracteriza pela crueza, quase brutalidade, com que ele escancara a face da sua musa preferida: a cidade de Manaus;

Cláudio Fonseca: com um só livro publicado, Vitral, a poesia de Cláudio Fonseca tem um tom clássico e uma elegância sóbria, inconfundível;
Rayder Coelho e Michele Pacheco: membros do CLAM, onde participaram da antologia A Quinta Estação, são duas das grandes promessas da nova geração de poetas amazonenses.  


terça-feira, 28 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
 
 
CANTO REAL - Composição poética de FORMA FIXA, certamente oriunda da BALADA, o chant royal francês consta de cinco ESTROFES  e um ENVIO (às vezes apresentado como OFERTA), tendo cada estrofe normalmente onze VERSOS, cinco ou seis o ENVIO; as ESTROFES são UNÍSSONAS, isto é, rimam todas segundo o mesmo esquema, parcialmente repetido no ENVIO, feito de acordo com a parte final delas. Tanto nas ESTROFES como no ENVIO, o último VERSO é sempre o mesmo, a exemplo do que sucede na BALADA (“PEQUENO DICIONÁRIO DE ARTE POÉTICA”, Geir Campos, idem). Só que não pudemos aproveitar, neste lance, o “Canto Real do poeta””, do “Livro Bom”, de Goulart de Andrade, transformado, porém, numa paródia idealizada por um grupo de “alunos”, sob o título “Balada Perdida”:
 

Na sarjeta de um velho povoado,
há um pobre lavrador fitando o céu:
mais parece um rochedo desabado,
ao mundo opondo o triste fardo seu!

Tenta erguer-se, não pode; é fantasia
pensar que alguém lhe ajude, e desafia
ao próprio Deus, com nojo e desamor...
Dá-lhe ódio, inclusive, o fraudador
da Previdência-mãe da Sinecura,
porém, desiludido, lavra a dor,
antes que baixe logo à cova escura.

Imagina, contudo, deslumbrado,
ser feliz de repente, ter chapéu
novo, roupa nova, e assim, casado
ao sonho azul de simples tabaréu,
vibrar, de passarinho, à luz do dia,
sentir o gozo, inflar-se de alegria,
lutar pela justiça e em seu louvor,
tornar-se da miséria um vingador,
indo além dos limites da loucura...
Porém, dorme de vez o Campeador,
antes que baixe logo à cova escura!

etc. etc. etc.

OFERTA

Pobre, que tanto gastas teu ardor
nesse delírio desesperador,
pega em vez disso em armas; e na dura
competição, redime a tua dor,
antes que baixe logo à cova escura!

domingo, 26 de agosto de 2012

Manaus, amor e memória LXXII

Avenida Eduardo Ribeiro.
Hoje, para cada folha de árvore tem um camelô plantado. 

sábado, 25 de agosto de 2012

Fantasy Art - Galeria

The Drunken Universe.
Matthew Stradling.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 11/12

Zemaria Pinto

Resumindo sem concluir

Fortemente influenciada pela filosofia de Schopenhauer e pelo pensamento budista; percutindo as vibrações inovadoras da poesia de Baudelaire; tomada por uma sede de conhecimento que não obtinha respostas satisfatórias das ciências; obstinada pelo mundo microscópico que só àquela época começava a ser explorado; reflexo, enfim, de um país em transformação, em um mundo em transformação, a poesia de Augusto dos Anjos encontra o seu Zeitgeist, o espírito dionisíaco de seu tempo, em uma expressão inédita na literatura brasileira, que desnorteou, por muito tempo, sua recepção crítica.

Não entramos no mérito da psique do poeta. Antes, partimos do princípio, corroborado por poucos, de que ele era um cidadão comum, levando uma vida dentro dos padrões de normalidade, constituindo família, inclusive. Bacharel em Direito, optou por ser professor, o que talvez lhe desse mais tranquilidade para levar sua obra adiante. Poeta desde a adolescência, seus poemas mais antigos, dos dezesseis anos, já trazem a marca de um eu lírico melancólico, marcado pela solidão e pela reflexão sobre o estar-no-mundo.

A partir de um dado momento, que situamos em meados de 1906, essa melancolia se exacerba e a expressão – marcada por um parnasianismo à Raimundo Correa, e um simbolismo apoiado especialmente em Cruz e Sousa, conforme o demonstra fartamente Magalhães Júnior (1978, p. 49-79) –, a expressão que vinha se tornando cada vez mais áspera, encontra finalmente o seu tom – um tom que não combinava com o pacato professor.

Não era mais o eu lírico que se expressava, mas um desdobramento deste: uma personagem sofrida, misantropa, misógina, que parecia ter uma só finalidade na vida – sofrer. Com a melancolia em crescimento exponencial, aquela personagem – a quem chamamos de máscara lírica – amadurece não apenas a linguagem, mas também as reflexões.

O problema que se colocava era com relação às representações miméticas da realidade, da qual os simbolistas procuravam fugir, mas somente os expressionistas lograram conseguir de forma integral, recriando a realidade, distorcendo-a até deixá-la irreconhecível. Para atingir o nível de linguagem pretendido, subvertendo as noções padronizadas de beleza, o poeta desenvolve o conceito que ele chamaria de “dor estética”, que consiste essencialmente em manifestar a dor com arte – sem precisar senti-la. Essa noção de dor é de Schopenhauer, mas também é budista; em ambos, viver é sofrer; então, se o poeta não sofre, ou não sofre tanto, é preciso inventar a dor, por meio de uma personagem – a máscara lírica.  

“Queixas noturnas” é o poema inaugural dessa nova fase, que daria a maioria dos 58 poemas da edição inicial do Eu. Dois anos mais tarde, Augusto dos Anjos publica o poema seminal “As cismas do destino”, que forneceria motivos a muitos outros poemas, unindo forma e conteúdo num mesmo ideário expressionista. Um desses motivos recorrentes é a utilização de um universo de microrganismos, sempre em contraponto com o universo humano. Aí reside a base do “cientificismo” de Augusto dos Anjos: o antagonismo entre as ideias de evolução e criação. De maneira singela, ele resolve isso, entregando à criação as formas simples de vida (moneras e similares) e creditando todo o resto à evolução. Isso explicaria porque a humanidade chegou a um estágio de total degradação, parasitária, tomada pelo vício e pela corrupção dos costumes.

No “Monólogo de uma sombra”, poema que abre o Eu, após zombar das ciências e bradar contra a permissividade, uma espécie de deus-verme vaticina que somente a Arte pode redimir a Humanidade. Em “Os doentes”, uma alegoria da degradação, a ideia de que a Arte é a única saída para a Humanidade retorna, e o poema termina de forma otimista, “o começo magnífico de um sonho”, “a gestação daquele grande feto, / que vinha substituir a Espécie Humana!” (p. 249). Para Schopenhauer, a arte é a única razão para que o sofrimento seja suportável, ainda que seja representação do sofrimento: 

A fruição do belo, o consolo proporcionado pela arte, o entusiasmo do artista que faz esquecer a penúria da vida, essa vantagem do gênio em face de todos os outros homens, única que o compensa pelo sofrimento que cresce na proporção de sua clarividência e pela erma solidão em meio a uma multidão tão heterogênea – tudo isso se deve ao fato de que o Em-si da vida, a Vontade, a existência mesma, é um sofrimento contínuo, e em parte lamentável, em parte terrível; o qual, todavia, se intuído pura e exclusivamente como representação, ou repetido pela arte, livre de tormentos, apresenta-nos um teatro pleno de significado. Esse lado do mundo conhecido de maneira pura, bem como a repetição dele em alguma arte, é o elemento do artista. (2005, p. 349-350) 

Mas a arte é apenas um consolo, sem poder para fazer cessar o sofrimento imanente ao ser humano. Todavia, o artista faz a sua parte, transformando sua arte em arma de convencimento, buscando colocar a Ideia no proscênio desse “teatro pleno de significado”. Ainda que tudo seja provisório, impermanente.

Poesia solta na rua - programação de hoje



A programação do Poesia solta na rua desta quinta, 23 de agosto:

Recital poético: Renato Augusto Farias de Carvalho e Celdo Braga; Participação especial: Amanda Figueiredo, homenageando Anisio Mello

Musical: Pereira e Célio Cruz

Sobre os poetas:

Renato Augusto Farias de Carvalho: manauense, 77 anos, é o irmão mais novo do poeta Farias de Carvalho, já falecido, um dos fundadores do Clube da Madrugada; tem vários livros publicados, entre poesia e ficção; mora atualmente em Niterói, onde é membro da Academia Niteroiense de Letras; Renato é muito ligado às escolas de samba de Niterói, tendo participado da elaboração de vários enredos.

Celdo Braga: nascido em Benjamin Constant-AM, músico, compositor e poeta, liderou durante mais de 20 anos o grupo Raízes Caboclas; atualmente, trabalha com o Imbaúba, grupo que divulga a música autêntica feita no Amazonas; tem cinco livros de poesia, dos quais o mais recente é Estações.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic


                   Segundo a “retórica tradicional”, há tipos esquemáticos de poemas que o inglês Herbert Read considera “formas abstratas”, em comparação às “formas orgânicas” ditadas pelas necessidades expressivas. Os tipos mais comuns de formas fixas são a Balada, o Canto Real, a Sextina, o Triolé e o Soneto, havendo ainda algumas que se podem considerar semifixas ou estróficas, como o Pantum, a Terça-Rima, a Vilanela e outras (“Dicionário de Arte Poética”, Geir campos, Conquista, s/d). As formas fixas: 

                   BALADA – De origem popular, ligada ao canto e à dança, até o século XV a Balada serviria como simples peça de declamação, evoluindo, a partir daí, para a “balada literária” de Villon, Wordsworth, Oscar Wilde, Coleridge e outros. Há, portanto, uma popular, ESTÍQUICA, ou seja, livre, e uma cortês, obediente à forma fixa ou à estrofação regular: três estrofes e um envio, “tendo as primeiras tantos VERSOS quantas forem as SÍLABAS de cada VERSO e o ENVIO a metade desse número. Tanto as ESTROFES quanto o ENVIO repetem, no fim, o mesmo VERSO. O esquema uníssono de RIMAS varia conforme a extensão estrófica” (“Dicionário de Arte Poética”, Geir campos, idem). O poeta Sílvio Roberto de Oliveira (Pernambuco) compôs e editou um livro inteiro de baladas (“Terrabalada”), encadeando sempre o mesmo tema através de múltiplos recursos poéticos de montagem, simplificação e modernização dessa forma. Tiramos dele “casabalada”:
 

Ave casa,
ser pernalta,
tempo atrasa,
tudo falta,
pau escora,
vento agita,
medo mora:
palafita
mas, sem asa,
faz que salta
da água rasa
na ribalta,
que ela ignora,
mas imita,
mangue afora:
palafita.

Luz de brasa,
febre alta,
sol que arrasa
quem se exalta,
quando chora,
quando grita,
voz que implora:
palafita. 

Quem te explora
não visita
Vida-espora:
palafita. 

Do mesmo autor, “balada da noite lama”:

A noite está no chão.
Molhada, diluída.
Pastosa espessa trama
concentrada, de argila.
Caiu das nebulosas,
retraço de infinito.
Agora é terra morta,
parada, apodrecida. 

De rodear o mundo
e de assistir, passiva,
aos sons do seu rumo
por serras e por ilhas,
prendeu-se nas escarpas
corais dos arrecifes,
e se estendeu, farrapos,
na lama anoitecida. 

A noite está deitada
na cama desse rio,
no forro de retalhos
das restingas baldias,
borrando mãos e pernas
de quem lhe busca os filhos
pra distrair a treva
da fome do seu dia.


OFERTA


A noite está no mangue
por onde (inversa) abisma.
No firmamento lama,
constelação vazia.

domingo, 19 de agosto de 2012

Manaus, amor e memória LXXI

Mercado Adolpho Lisboa, o Mercado Grande, que hoje disputa com a Biblioteca Pública
o recorde de tempo (e de preço) em reforma.
Eh, gentinha ruim...  

sábado, 18 de agosto de 2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 10/12

Zemaria Pinto
Sob a máscara



Mais de 70% dos poemas publicados na edição original do Eu são constituídos de sonetos. Dos poemas posteriores ao livro, publicados sob a chancela Outras Poesias, esse número se eleva para quase 90%. Juntando os dois números, temos, na obra consagrada de Augusto dos Anjos, um total de 80% sob a forma soneto. Estes números nos falam com eloquência da importância que a forma representava para o poeta. A característica mais marcante do soneto de Augusto dos Anjos é a reflexão a que ele se entrega, sempre com aquela ideia schopenhaueriana de que o poeta é o espelho da humanidade. Mas, tão antiga quanto a poesia é a ideia de que o poema é o espelho do poeta. Assim, corroborando tudo o que falamos a respeito da máscara lírica, há um soneto do Eu – “A um mascarado” – em que a máscara se coloca diante do espelho e vê refletido não o seu rosto – talvez informe, talvez disforme –, mas o próprio rosto do poeta: 

Rasga esta máscara ótima de seda
E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos...
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda! 

Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda! 

A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo... 

E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
(p. 258) 

O demonstrativo “esta” no primeiro verso aproxima em definitivo a figura da voz emissora, mesclando-a com a figura do interlocutor, tornando-os uma só pessoa.  A máscara ordena ao poeta que atire sua máscara no depósito de palimpsestos, escritos novos que se sobrepõem aos antigos. A máscara do poeta irá se confundir com os poemas que ele guarda. E como é bem do seu feitio, convida-o a escândalos e incestos, cedendo ao seu vil instinto humano. Sem emitir protestos, o poeta engolirá a ofensa e verá reduzir-se em caos larvar o seu sonho de uma humanidade transformada, pesadelo recorrente da máscara lírica. Não restará ao poeta, no meio da podridão, senão persistir na vontade de continuar vivo.

Assunto recorrente, a dor mereceu de Augusto dos Anjos, depois da publicação do Eu, um poema específico, apropriadamente intitulado “Hino à dor”[i] (p. 326), uma justificativa schopenhaueriana à “dor estética” formulada no “Monólogo de uma sombra”. 

Para Schopenhauer, “em essência, toda vida é sofrimento” (2005, p. 400). O filósofo alemão ecoa o Eclesiastes: “porque em muita sabedoria há muito desgosto; aumentando a ciência, aumenta o sofrimento” (1:18, p. 788). Para cantar o paradoxo da alegria da dor, o poeta põe a máscara lírica expressionista de lado e faz um exercício formal parnasiano, onde não falta mesmo o toque erótico: “Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.” De resto, a Dor é prenhe de positividades: saúde, riqueza, tesouro, alegria, ancoradouro, sol, ouro etc. – até a ironia final: a posse, física, “de tuas claridades absolutas!”. O domínio da dor, a dor estética, a dor arquitetada com finalidade artística. Para justificar que o homem de gênio é o que mais sofre e que o conhecimento é fonte de dor, o poeta constrói a sua forma de dor particular, iluminada.



[i] Em 1905, ele publicara um poema de extração simbolista com o título “A dor”, relacionado entre os poemas esquecidos, que não guarda nenhuma proximidade com este “Hino à dor”.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Astros e estrelas imortalizados pelo cinema

Camelôs, bancas e barracas


David Almeida



Andando nas ruas do centro da nossa cidade, mais especificamente na Sete de Setembro, Marechal Deodoro, Eduardo Ribeiro, pude perceber a poluição visual e sonora; o mau cheiro de urina e fezes; o estresse se materializando nas ruas. Um “vira e mexe” de deixar qualquer indivíduo doido e ir direto para o hospício. E eu me perguntei: onde está você “Paris dos Trópicos”, iluminada pela Bela Época (Belle Époque), que o “Berinho” tenta resgatar a todo custo?

Meu olhar se alongou pelos toldos das barracas, e tentei me responder: talvez sob os pés das bancas e barracas dos camelôs, que corroem os becos e beiras das calçadas, tomando de assalto as ruas da Manaus do século XXI. E tive a certeza: o centro de Manaus é um grande camelódromo, talvez o maior do mundo.  

– Duas caneta por dois real; vamo lá freguesa, tá barato.

– Olha a calcinha, olha a calcinha, é promoção, duas por cinco, leve para sua namorada, sua filha ou sua mãe, é promoção, é promoção, aproveite...

Vende-se de tudo que você possa imaginar; da comida ao remédio para emagrecer. A procedência é discutível, lógico. Mas, e daí? A maioria da população, que fomenta esse comércio, não quer saber se é pirata (que eles chamam de segunda linha) ou original. Se a comida foi feita dentro dos padrões que a higiene exige ou não. Estão com fome e sede de tudo, inclusive de um DVD, pirata – que é mais barato - da Maria Gadú, Restarte ou um filme de sucesso, como Tropa de Elite II. O povo está “subindo pelas paredes”, como diz a música do “Príncipe do Brega”, Nunes Filho.

E por aí vai, e entre gritos, bancas e barracas o povo passa dividindo o espaço que lhe sobra, dessa chamada “economia alternativa”. E cada vez aparece mais. Os pontos de vendas se alastram para todos os lados. Principalmente quando uma eleição se aproxima.

Um voto seguro é mais bancas e barracas oficializadas, nas ruas. 

Eu até já vislumbro ao longo dos “Viadutos do Amazonino, Eduardo, Serafim,” e quem sabe um dia do Omar, fileiras e fileiras de bancas e barracas vendendo tudo, até os nossos famosos “Jaraquis e Bodós” pirateados, assados, vindos do Paraguai.    

Não sou contra essa “tal economia alternativa”, claro! O certo é que esse povo que chega a Manaus precisa trabalhar para ganhar, nem que seja o “pão que o diabo amassou”, a cada dia que passa. Porque, não sobra nada, da farta mesa dos oportunistas, principalmente os da política que se fingem de cristão, mas constroem castelos em cima do suor e sangue de quem trabalha e os elege.

Vamos organizar! Eu sei que a bronca é alta, mas vamos arranjar um lugar para colocar esse povo que veio de longe para trabalhar e sustentar suas famílias, de uma forma mais saudável, digna, tanto para quem vende como para quem compra. Com certeza, o centro de Manaus ficará bem mais visível. E as ruas do centro, melhor para se curtir do pouco que restou dos tempos áureos da borracha. 

Estive em Fortaleza, capital do Ceará, para ver se lá também, as ruas estão cheias de bancas e barracas. Não vi! Existe um “camelódromo” chamado de “Beco da poeira”, o Mercadão, ponto turístico, onde os camelôs vendem de tudo, e várias feiras em determinados dias da semana. Umas ficam o dia todo, outras, até oito horas da manhã. Não existem bancas ou barracas permanentes no centro da cidade. Porque lá não pode!

Mas em Manaus, pode! Manaus é a terra onde todo mundo chega, “finca o pé, põe a banca e arria a barraca.”               

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"Poesia solta na rua" com Almir Diniz, Candinho e Gracinete Felinto




A programação do Poesia solta na rua desta quinta-feira, 16/agosto:

Recital poético: Almir Diniz, Candinho e Gracinete Felinto; Participação especial: Amanda Figueiredo, homenageando Alcides Werk

Musical: Serginho Queiroz

Sobre os poetas:

Almir Diniz: 82 anos, é remanescente da geração que fundou o Clube da Madrugada; tem mais de 3 dezenas de títulos, entre poesia, crônicas e contos; sua poesia caracteriza-se por tratar da vida do caboclo do interior, mas carrega também um forte elemento erótico;

Candinho: um dos compositores mais férteis da música amazonense, apresenta-se, como cantor, sempre em parceria com sua esposa Inês; excelente "letrista", prepara o lançamento de seu primeiro livro de poemas, ainda para este ano;

Gracinete Felinto: poeta da nova geração, participa do grupo de jovens poetas Clam - Clube Literário do Amazonas; prepara seu primeiro livro de poemas, além de um livro voltado para o público infantil, ilustrado pela artista plástica Magdaluce Ribeiro.

Fantasy Art - Galeria

Cristiane Campos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic

Espécies ou composições poéticas



                   Conhecer, reconhecer, reestudar ou simplesmente recorrer ao que antes denominou-se de normas – pois esse conhecimento ainda não foi de todo ultrapassado –, tem sido uma vantagem a mais para os que se dedicam à poesia. Como já é consabido, Ezra Pound esclarece que a literatura tem sido criada pelas seguintes classes de pessoas: 1. Os inventores: homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo. 2. Os mestres: homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores. 3. Os diluidores: homens que vieram depois das duas primeiras classes e não foram capazes de realizar tão bem o seu trabalho. Assim, conclui-se que o razoável conhecimento das normas pode não levar a nada; mas o total desconhecimento delas, pode levar a um desastre. Isto porque todos, ou quase todos aqueles “processos” de que nos fala o Poeta, dependeram ou serviram de normas para algum outro processo. No ABC da literatura, portanto, as exclusões podem, também, vedar caminhos. 

                   Por conseguinte, o desfile de “palavrões” alusivos às inúmeras espécies de composição poética, desde as mais antigas às mais novas e novíssimas, nos dará, certamente, uma impressão mais estável e mais completa acerca do fazer em poesia, permitindo-nos uma leitura das várias fases da História, durante as quais a Arte Poética fez valer o primado da sensibilidade estética sobre todas as formas e sistemas de poder temporal. A teoria fundamenta as audácias da prática, é nisto que reside, primordialmente, um dos motores que impulsionam a linguagem dos símbolos. 

                   Entre o mais e o menos, fica precisamente em 136 o número de espécies ou composições poéticas, ou sejam: o ABECEDÁRIO, o ACRÓSTICO, a ALBA, o ALVORADA, a BALADA, a BARCAROLA, o BEIRA-MAR, o BESTIALÓGICO, os CALIGRAMAS, a CANÇÃO REDONDA, as CANÇÕES DE GESTA, a CAÇONETA, a CANTATA, as CANTIGAS, a CANTILENA, o CANTO, o CANTO REAL, a CANTORIA, o CENTÃO, a LOA, o LUGAR-COMUM, o MADRIGAL, o MARTELO, a  MESTRIA, o MOIRÃO, o MOTETO, a  MUAXAHA, a NÊNIA, a ODE, o OITEIRO, o OVILEJO, a PALINÓDIA, o PANTUM, a PARÁBOLA, o PARALELISMO, a  PARLENDA, o PARTIMEN, o PASTICHO, a PASTORELA, a PELEJA, o POEMA (tem esse título qualquer composição literária com valor poético), o POEMA-COISA, o POEMA FIGURATIVO, o POEMA PIADA, o POEMA TÍTULO, a CIRCUNSTÂNCIA, a COPLA, a COROA DE SONETOS, o CRONOGRAMA, a DANÇA, o DEBATE, a DÉCIMA, o DESAFIO, o DESCORDO, a DESPEDIDA, o DÍSTICO, o DITIRAMBO, a ÉCLOGA, a ELEGIA, a EMBOLADA, o ENDECHO, o ENGAJADO, as ENSALADAS, o EPICÉDIO, o EPIGRAMA, o EPINÍCIO, o EPITALÂMIO, a EPOPÉIA, o ESONDIG, a ESPARSA, a ESPINELA, a FÁBULA, a FATRASIA, o GABINETE, a GAITA GALEGA, o GALOPE, o GAZAL, o GENETÍLICO, as GESTAS, a GLOSA, a GNÔMICA, os GOLIARDOS, o HAICAI, O HINO, o IDEOGRAMA, o IDÍLIO, o ISOSTRÓFICO, a JANEIRA, o JOCA MONACHORUM, os JOGOS FLORAIS, o JOGUETE D’ARTEIRO, o LAI, o LAMENTO, o LEIXA PREN, as LETRILHAS, o LIED, o PRANTO, a PRECE, o QUADRÃO, a RETRONCHA, o ROMANCE, O RONDEL, o RUBAI, a SÁTIRA, a SEXTINA, a SILVA, o SONETO, a TANCA, o TENÇÃO, a TERÇA RIMA, o TESTAMENTO, a TOADA, o VERS, o VILANCETE, a VILANELA, o VIRELAI, a XÁCARA, o ZÉJEL, e a “tiara de sonetos”, de Max Carpenthier.

domingo, 12 de agosto de 2012

Manaus, amor e memória LXX

Largo da Saudade tem a ver com Praça da Saudade? Não sei. Mas essa foto, mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo... 

sábado, 11 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 9/12

Zemaria Pinto
Epílogo, com final feliz



Sem nunca haver sido publicado antes, “Os doentes”, assim como o “Monólogo de uma sombra”, provavelmente, foi escrito às vésperas da edição do Eu. Os dois poemas se complementam: no “Monólogo”, a máscara lírica já tem o domínio da sua escatologia; em “Os doentes” ela ainda busca entendê-la, levando o seu desespero mascarado ao paroxismo do grotesco. A conclusão do poema, com a afirmação do nascimento de uma nova espécie humana, é o desfecho, o final feliz, da saga vivida, de modo épico, pela máscara. Se o “Monólogo de uma sombra” funciona como prólogo, “Os doentes” poderia ter função de epílogo, com os poemas intermediários funcionando ora como episódios, ora como reflexões.


“As cismas do destino”: centro irradiador

“As cismas do destino” traz de forma concentrada o tema e os motivos da poesia de Augusto dos Anjos, que, em 1908, ainda estava em fase de estruturação – enquanto os poemas citados anteriormente, de 1912, tema e motivos já estavam consolidados. Antes, afirmáramos que o “Monólogo” funciona como um prólogo do Eu. Neste ponto, precisamos rever essa afirmativa, pois “Monólogo de uma sombra” é o coroamento de “As cismas do destino”, que o antecipa – assim como a outros poemas –, funcionando como uma súmula do pensamento e da poesia expressionista de Augusto dos Anjos. A propósito, da primeira à última quadra – do clima noir à alegoria da destruição da natureza, sem esquecer o superlativo discurso do Destino –, Augusto dos Anjos mantém a corda expressionista tensionada ao extremo, tanto do ponto de vista formal, com suas imagens construídas como cenas, distribuídas de modo caótico, a partir de vocábulos os mais inusitados, como do conteúdo: áspero, contundente, antinaturalista.

Não temos como afirmá-lo, porque não há nenhuma documentação a respeito, mas parece-nos que é por essa época, aos 24 anos, que Augusto dos Anjos se deixa “fisgar”, definitivamente, pela filosofia de Schopenhauer. Já não contava mais a dor individual ainda expressa, sob o disfarce da máscara lírica, em poemas como “Queixas noturnas”, “Poema negro”, “Gemidos de arte” e “Tristezas de um quarto minguante”, mas uma dor coletiva, trágica: 

Observe-se aqui algo de suma significação para toda a nossa visão geral de mundo: o objetivo dessa suprema realização poética não é outro senão a exposição do lado terrível da vida, a saber, o inominado sofrimento, a miséria humana, o triunfo da maldade, o império cínico do acaso, a queda inevitável do justo e do inocente. E em tudo isso se encontra uma indicação significativa da índole do mundo e da existência. É o conflito da Vontade consigo mesma, que aqui, desdobrado plenamente no grau mais elevado de sua objetividade, entra em cena de maneira aterrorizante.  (SCHOPENHAUER, 2005, p. 333)


Absorvida a lição de que Ideia é intuição, o poeta lírico se transporta aos palcos da tragédia, para criar personagens como esse Destino ou, mais adiante, a Sombra. Mas a sua grande personagem já estava criada: era a máscara lírica, com a qual ele ousava escrever não apenas a sua história individual, mas a história da Humanidade: 

Reproduzem-se na poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas situações, visto que retornam continuamente, e ali encontram a sua expressão apropriada. [...] O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela o que ela sente e pratica. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 328-329)


Por outro lado, o pensamento de Schopenhauer sobre a imanência do sofrimento no ser humano, enquanto os organismos simples pouco ou nada conhecem dele (SCHOPENHAUER, 2005, p. 399-400), vem ao encontro das ideias de Haeckel e Spencer sobre o monismo e a evolução, que Augusto dos Anjos conhecera ainda adolescente.

Ora, não sendo senão um homem comum, mas ciente de seu potencial como artista, Augusto dos Anjos desenvolve a ideia de “dor estética”, que seria exposta no “Monólogo”, como um subterfúgio a sua incapacidade de criar com expressividade a partir de seu próprio eu. Até aqui, a máscara atuara intuitivamente; agora, ela estava embasada filosoficamente, por uma metafísica ética e por uma metafísica estética, cujo estuário místico seria o budismo.

“As cismas do destino”, pelo que tem de original e de singular, ocupa o centro irradiador das ideias veiculadas no Eu, e na poesia feita depois do livro publicado.