Amigos do Fingidor

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domingo, 25 de outubro de 2009

O fogo da labareda da serpente

Neuza Machado*
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Foto raríssima da época da borracha, vendo-se no meio o capitalista Maurice Samuel, avô de Rogel Samuel.

Ainda, repensando a questão pelo prisma foucaultiano, “a problemática da população” e “a arte de governar”, naquelas paragens amazonenses próximas às fronteiras da Bolívia e Peru, nos séculos XVIII e XIX, não se originaram do governo familiar de modelo colonial português, ao contrário, o modelo familiar amazonense, principalmente o da capital do Estado, até os dias de hoje, reflete o modelo familiar francês e uma certa influência alemã, herdada naturalmente do convívio da população citadina e ribeirinha com os padres alemães e prussianos, das congregações católicas que por ali se aclimataram. Influências marcantes, também, poderão ser diagnosticadas, levando-se em consideração as grandes expedições de estudiosos franceses e germânicos da fauna e flora da região amazonense e adjacências, e do domínio centralizador e familiar de muitos desses estrangeiros que se colocavam como donos (e se colocam ainda) de extensões e extensões da Grande Floresta, desmatando-a implacavelmente, além de subjugar a população nativa e os retirantes nordestinos, que para ali se deslocaram, nas épocas das grandes secas, em busca de melhores meios de vida. O próprio romance rogeliano oferece-me pistas reveladoras.

No decorrer do século XX, o capitalismo primitivo, originário da Revolução Industrial do século XVIII, conhecido por “capitalismo selvagem” (dezesseis horas de trabalho por dia, ou mais), foi se modificando gradativamente, e, já nos anos finais do referido século passado, conheceu uma nova forma de ser entendido em termos mundiais. Antes, no Brasil especialmente, era a escravidão explícita ou camuflada do trabalhador assalariado: horas de trabalho além do normal e dívida permanente para com o empregador, uma vez que o “patrão” era também o dono dos postos de venda de mercadorias necessárias à sobrevivência de seus empregados (carne-seca, farinha de mandioca, açúcar, sal etc.).
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Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.

domingo, 13 de setembro de 2009

Sobre Ficções do Ciclo da Borracha
Neuza Machado*
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O livro de Lucilene Gomes Lima, Ficções do Ciclo da Borracha, chamou-me a atenção por vários motivos. O primeiro, pelo fato de um dos romances, entre os três que foram analisados pela autora, pertencer ao que costumo nomear (em sala de aula) como romance Pós-Moderno/Pós-Modernista de Segunda Geração (classificação de minha autoria, até prova em contrário). Pelo meu ponto de vista teórico-crítico, as narrativas da segunda metade do século XX aos dias atuais poderão apresentar-se como pós-modernas, uma vez que transmitem os sinais que, segundo os estudiosos da literatura, assim as caracterizam.

A narrativa O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel, analisada por Lucilene Lima, sem nenhuma dúvida, apresenta as diversas marcas do tempo histórico de seu Criador (tempo “estilhaçado”, alternância de vozes narrativas, comentários, digressões, diálogos com o leitor etc.), características estas próprias dos romances elaborados já no final do século XX, mesmo apresentando aos leitores um fio narrativo localizado no passado. A “superação da percepção maniqueísta”, que de acordo com Lucilene Lima se colocaria em uma terceira fase na abordagem do tema sobre o “ciclo da borracha”, já seria, a meu ver, uma das características que assinalam as narrativas pós-modernas/pós-modernistas. Rogel Samuel, fazendo a reconstituição do espaço narrado “pelo caminho da memória de seu avô”, como afirma a autora, não só supera a “percepção maniqueísta”, como vai além do relato que se vale da memória, “obrigando” os leitores a presenciar os dramas de seus personagens por meio da narrativa de ficção. Assim, a matéria dramática se faz presente na criação ficcional de Rogel Samuel (atenção: Matéria Dramática ≠ Gênero Dramático), demonstrando que o “ato de bem ver” a realidade, no âmbito da ficção, e quando há realmente criatividade, supera o “ato de bem narrar”, marca das narrativas lineares de anteriores estéticas literárias. Então, afirmo: Rogel Samuel não teve “experiência direta” com o problema do Ciclo Econômico da Borracha, causador de tantas tragédias, mas, como “escritor estudioso da literatura”, acrescido do fato de ser amazonense, neto de rico comerciante da borracha, filho de Alberto Samuel, um homem que conheceu em profundidade aqueles “furos” de água da Grande Floresta e a maior parte dos igarapés do Amazonas, repito, este escritor amazonense do final do século XX (mas, naquele momento, já interagindo com as pré-anunciações do século XXI) soube, singularmente, “ver” a realidade que o cercava e, habilmente, transformá-la em ficção pós-moderna sui generis. A “problemática temporal” associada à “estética particular” de Rogel (apropriando-me aqui das expressões de Lucilene) propiciou a criação de uma narrativa ímpar, que vigorará ainda com maior força no futuro. (Sempre costumo lembrar aos meus alunos que a verdadeira arte, em qualquer de suas feições, terá de romper os limites de seu tempo histórico e de suas ideologias, e O Amante das Amazonas já iniciou esse processo de ascensão ao futuro, elevando-se à categoria de grande obra.).

Entretanto, quero assinalar aqui os outros motivos que me fizeram ler com atenção o livro de Lucilene Lima. O assunto do Ciclo da Borracha sempre despertou a minha atenção. O relato de Ferreira de Castro, em A Selva, narrativa que propiciou o surgimento (antes de Gaibéus, de Alves Redol) do neorrealismo em Portugal, tornou-se presença obrigatória em meus cursos de Literatura Portuguesa. A dissertação de Lucilene apresentou-me novos caminhos de apreensão do universo ficcional de Ferreira de Castro. Passei a relê-lo com outros olhos, reorganizando o meu ponto de vista sobre o assunto. É bem verdade que o problema do Ciclo Econômico da Borracha, nesta narrativa de Ferreira de Castro, foi visto pela ótica do estrangeiro, como diz Lucilene Lima, mas esse “estrangeiro” sofreu em seu próprio corpo e, por que não dizer, na própria alma, as vicissitudes por ele recriadas ficcionalmente. Aquele personagem estrangeiro, tão jovem e já sofrendo nas mãos dos seringalistas como qualquer trabalhador nordestino/brasileiro, tornou-se para sempre (ultrapassando as barreiras de seu tempo e espaço) o alter ego do escritor Ferreira de Castro, ao evolar-se das linhas de sua narrativa a “tendência epigônica”, como Euclides da Cunha, no dizer de Lucilene Lima em sua lúcida escrita.

O terceiro motivo, que me fez ler com atenção a tese de Lucilene Lima, foi o fato de eu mesma ter vivido em Manaus, durante o ano de 1996 (de janeiro a dezembro), como professora de Teoria Literária e Literatura Brasileira, na Universidade Federal do Amazonas. Naquele ano, principiei o meu convívio intelectual com a cultura e a literatura amazonenses e, desde então, as notícias que se referem ao Amazonas e ao seu povo tornaram-se partes de meus interesses intelectuais. A obra de Lucilene Lima, por exemplo, veio ao encontro de minhas indagações sobre a cultura relacionada com o Ciclo Econômico que propiciou uma das fases mais ricas da História Cultural do Brasil. Aquele ano de 1996 marcou-me, e por tal razão, os problemas e/ou os sucessos culturais do Amazonas passaram a ser significativos em meus projetos.

Por último, retomo o tema de O Amante dos Amazonas, assinalando o fato de me considerar “madrinha” desta diferenciada narrativa pós-moderna de Rogel Samuel. O que quero revelar, nestas linhas informais e finais de minha leitura da obra de Lucilene Gomes Lima, é que tive a honra de ser a primeira a ler esta singular obra ficcional. Antes mesmo de sua publicação (1ª edição), por intermédio de um copião de páginas datilografadas, eu já interagia com os diversos episódios que envolvem o narrador Ribamar, a cidade de Manaus, os Numas, Paxiúba, Frei Lothar, a Rua das Flores e todo aquele universo ficcional revelado pelo poderoso imaginário-em-aberto de Rogel Samuel, meu grande Mestre e, para meu particular engrandecimento, cordialíssimo Amigo. Assim, fechando as minhas inferências sobre este bem elaborado estudo da Professora Lucilene, sobre o Ciclo da Borracha no Amazonas e as três narrativas por ela realçadas, posso afirmar que o seu livro logo terá repercussão positiva nas Universidades de Letras do Brasil e do Exterior.


*Neuza Machado é Doutora em Letras; escreveu O narrador toma a vez, Criação literária: tema e reflexão, Do pensamento contínuo à transcendência formal. É profª da UCB-Rio, e trabalhou, como professora contratada, na UERJ e na UFAM.
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Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.