Amigos do Fingidor

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Viktoria Lapteva.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?



Aspiração
Violeta Branca (1915-2000)


Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...

Que minha carne tivesse
o reflexo de rosas claras ao clarão do luar.
E assim,
quando chegasses para o calor de meu beijo,
aspirarias no meu hálito o fresco perfume
de um jardim florido.
Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...

Que meus cabelos tivessem a morna fragrância
das relvas tenras.

E assim,
quando cerrasses os olhos
e, sorrindo, afagasses meu corpo ardente e jovem
tuas mãos teriam
a deliciosa volúpia
de acariciarem a primavera...

Eu quisera que meu corpo fosse feito de flores...

E assim,
quando meus braços brancos,
como uma coroa de louros
envolvessem a tua cabeça de deus pagão,
sentirias a sensação embriagante
de seres um fauno novo
perdido numa selva de lírios.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Stier.
H. P. Kolb.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Amazônia – um enigma a decifrar



Pedro Lucas Lindoso


Meu amigo Chaguinhas me relata que um cliente do Sudeste precisava de uma certidão a ser obtida junto a um cartório em Coari. Chaguinhas lhe disse que era impossível obter o documento para o mesmo dia. Não havia voo de Manaus para Coari naquela data. Perguntada a distância entre Manaus e Coari, Chaguinhas disse que não chegava a 400 km. Então, o cliente pediu a Chaguinhas para mandar um carro lá. Despesas por conta dele.
Os amazonenses sabem que não há estrada de Manaus para Coari. Mas o pessoal do Sul desconhece a nossa realidade.
Certo dia, quando ainda havia horário de verão, recebi uma ligação de um call center às 6:00 horas da manhã. Argumentei o inconveniente com a atendente que, em total desconhecimento sobre fusos horários, contra argumentava:
– Mas aqui em São Paulo são oito horas, senhor.
Em recente concurso público de nível federal algumas pessoas perderam a prova. O portão fechou pelo horário de Brasília.
O mundo inteiro fala sobre a biodiversidade da Amazônia. Fala-se muito sobre a riqueza de nosso ecossistema. Mas esquecem que aqui existe uma sociedade. Há indígenas, na floresta e nas cidades, há os ribeirinhos, as sociedades tradicionais. Portanto, não há que se falar somente em biodiversidade. É importante reconhecer a nossa sociobiodiversidade.
Os estatutos da ONU sobre biodiversidade preconizam que a utilização dos recursos naturais deve respeitar a cultura e os costumes das populações locais.
Foi criado um conselho para a Amazônia. Espera-se que sejam ouvidos os povos da região. Os povos da Amazônia construíram relações materiais e espirituais que se entrelaçam com esse maravilhoso ecossistema.
Há saberes, tradições, conhecimentos e uma diversidade cultural que precisa ser respeitada. Mesmo porque acredita-se que esses conhecimentos levam, ou melhor, possibilitam, a manutenção do ecossistema, a sobrevivência da floresta. A manutenção da própria vida como um todo.
 Chaguinhas e eu chegamos à conclusão de que a Amazônia é um enigma para os brasileiros do Sudeste. Eles parecem que não nos conhecem mesmo. Para decifrar esse enigma que é a Amazônia, o conselho deve privilegiar e ouvir verdadeiros amazônidas. Senão, a região continuará sendo desconhecida.  E o enigma, indecifrado.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria

Aurora.
Jia Lu.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?



Das Dores ou sublingual
Grace Cordeiro


Não, não compreendo a minha lida
Sina algoz, feroz, fútil
Não é túnel nem fuzil
Nem fósforo aceso na escuridão
(lembrança de Érico Veríssimo)

Caminha-se só
Caminha-se nó
Na garganta, o som disfarçado de flecha
No pescoço, o alvo da ideia retilínea

E aquela luz é doce e seca e morta
E aquela escuridão é luz morta
Luzes apagadas, afogadas
Luzes que se foram

Por que entender se nada faz sentido
Por que ser, se somos todos um
Anil, anis, anéis

Sei da lima que corta
O ferro velho:
Enferrujado, enrugado, servil
A guilhotina,
Ferro novo:
Mente aberta, cabeça caída

Luz, escuridão, luz
Descansando no caos
Não há motivo óbvio
Para se descansar
– manter coração e razão –

Há sim...Carmim, jasmim, curumim
Há... Sobrevivência, subversão, subvenção

Subir a escada e não cair
Descer carregando a amada
(Ah! Das Dores)
E voltar íntegro, com as lavas
Eternas da inquietude que lambe
O mel da juventude

Sobreviver para sobreviver
Não para amar, odiar, ler
Escrever, apenas sobreviver
O resto, o reto, o gesto são consequências.

O canto do galo ao meio-dia.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Leaving the World Behind.
Hasani Claxton.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Zemaria Pinto "Manda a Letra"



Existe sim!



Pedro Lucas Lindoso


Outro dia fomos a um novo restaurante cinco estrelas. Muito bonito. Ambiente agradável. Várias pessoas bem vestidas e de comportamento elegante. Todos brancos para o padrão brasileiro. Havia um casal visivelmente homoafetivo. Mas não havia nenhum negro no local.
Lembrei-me de uma parada de manutenção ocorrida há muitos anos na refinaria aqui em Manaus. A empresa baiana responsável pela reformulação dos tanques trouxe vários empregados especializados, da Bahia.
A maioria foi alojada no bairro do Japiim durante os três meses em que durou a parada de manutenção. Os trabalhadores baianos eram todos negros. Durante toda a estadia em Manaus faziam a refeição em determinado restaurante no mesmo bairro do Japiim.
O local era modesto, mas tudo era muito arrumadinho. A comida gostosa e tudo muito limpo. O restaurante havia inaugurado com a chegada dos baianos. O dono gostou daquela invasão repentina de fregueses fiéis e bons pagadores. 
Acabada a parada de manutenção os baianos retornaram a Salvador. O restaurante fechou as portas.
Meu pai tinha um tio que se casou com uma negra. Esse tio-avô teve uma filha chamada Eunice. Essa prima de meu pai se casou com um pracinha da II Guerra. Foram morar em Brasília.
Um dia eu jogava ping-pong com um dos filhos da Eunice, meu primo João, quando fui solicitado a pagar uma conta num banco perto de casa. Era 1968 e não havia internet. João não queria ir ao banco comigo. Mas eu insisti para que fosse.
Entrei normalmente no banco. O João foi barrado. Eu paguei a conta e me encontrei com ele lá fora. Ele então me disse:
– Te falei. Neguinho não pode entrar em todo lugar não, meu primo.
Naquele ano de 1968 assassinaram Martin Luther King, nos Estados Unidos. Alguém comentou:
– Ainda bem que aqui no Brasil não existe preconceito de cor. E eu, com meus onze anos, na qualidade de menino metido e atrevido, discordei e disse:
– Existe sim!

P.S. O Brasil ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960 com “Orfeu Negro”. O filme era de um cineasta francês, mas os diálogos eram em Português. Os atores eram todos brasileiros. O presidente Barack Obama disse que sua mãe viu o filme e se encantou com a beleza dos negros. O resto é História.


domingo, 16 de fevereiro de 2020

Manaus, amor e memória CDLX


Eduardo Ribeiro, com direito a bonde, calhambeque, Teatro Amazonas e São Sebastião,
além de benjaminzeiros à farta.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Tim Okamura.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?

Os anjos de Sodoma

Roberto Piva (1937-2010)

 

Eu vi os anjos de Sodoma escalando

um monte até o céu

E suas asas destruídas pelo fogo

abanavam o ar da tarde

Eu vi os anjos de Sodoma semeando

prodígios para a criação não

perder o ritmo de harpas

Eu vi os anjos de Sodoma lambendo

as feridas dos que morreram sem

alarde, dos suplicantes, dos suicidas

e dos jovens mortos

Eu vi os anjos de Sodoma crescendo

com o fogo e de suas bocas saltavam

medusas cegas

Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e

violentos aniquilando os mercadores,

roubando o sono das virgens,

criando palavras turbulentas

Eu vi os anjos de Sodoma inventando

a loucura e o arrependimento de Deus

 



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Rupchand Kundu.
Nature of Beauty 2.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Manaus lusitana


Pedro Lucas Lindoso




No sudeste do Brasil não se usa a palavra cruzeta para cabide de roupas. Aqui em Manaus é como chamamos os cabides: cruzetas. Além de significar uma pequena cruz, a palavra cruzeta também é nome para a peça em forma de T, usada por operários para nivelar. Há também a acepção de cruzeta para negócios escusos. Parece que esse é o sentido mais conhecido Brasil afora.
Muitos amazonenses foram constrangidos ou ficaram meio sem graça ao usar a palavra cruzeta para pedir cabides em hotéis pelo Brasil afora.
Para os amazonenses, cruzeta é, definitivamente, cabide para roupas. E também para os portugueses! Já escrevi inclusive uma outra crônica sobre esse assunto: cruzeta é cruzeta. Em Manaus e em Portugal.
A minha alegria foi imensa ao entrar em uma loja em Lisboa e descobrir isso. Cruzeta é também como os lisboetas se referem a cabides. Assim, elegi a palavra cruzeta para comprovar a força da influência lusitana no Amazonas.
Um dos símbolos importantes dessa presença portuguesa no Amazonas, além do Hospital Beneficente Português, é o Luso. Fundado como clube de futebol, ao longo de mais de cem anos ofereceu à sociedade manauara atividades artísticas e culturais.
Uma das mais expressivas e inesquecíveis atividades do Luso de outrora eram as pastorinhas. Autos de Natal em que havia a figura do diabo, enfurecido e amedrontador. Pelo menos para mim, menino de calças curtas.
Os portugueses se destacaram na área do comércio e da indústria. Famílias de ilustres lusitanos fundaram o grupo TV Lar e refrigerantes Magistral, dentre vários outros empreendimentos da cidade. Uma das lojas maçônicas mais antigas do Amazonas, a centenária Aurora Lusitana, foi fundada por portugueses.
Hoje há outras e diversas demonstrações culturais na cidade, advindas de outras nacionalidades e influências culturais diversas. Muitas mudanças. E por falar em mudanças, recordemo-nos do grande Luís de Camões sobre o tema:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Manaus, amor e memória CDLIX


As lavadeiras e o Catalina.


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Paolo Eleuteri.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?



O fazedor de versos
Eliakin Rufino


Hoje chegou na cidade
um poeta fingidor
um fazedor de versos
um cantor.

Escreve versos de amor
para os amantes
escreve versos de adeus
para os distantes.

Versos de esperança
e de carinho
pra quem necessita de luz
em seu caminho.

Verso de todo tamanho
para qualquer situação
verso água-com-açúcar
verso bala de canhão.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Wai Chan.
Jiyeon Ryu.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Na linha do equador



Pedro Lucas Lindoso


Quando se viaja de Manaus para Boa Vista passamos pela linha do equador. A experiência acontece após as terras dos Waimiri-Atroari. Não se passa pela reserva indígena no período noturno. Não se pode parar na estrada nas áreas da reserva.
Houve negociação e acordos entre a União e a tribo após o triste episódio ocorrido nos anos setenta. De um lado morreram cerca de 200 soldados flechados pelos índios que não queriam a estrada. A reação do exército foi dramática e de certa forma cruel. Foram mortos mais de mil indígenas.
Passar pela linha do equador é sempre uma aventura. A paisagem sempre muda. Do nosso lado, ao sul do equador e ainda no estado do Amazonas, a floresta parece ser bem mais densa.
A cidade de Macapá, no distante Amapá, é uma das cidades do mundo em que a famosa linha está presente. Aqui, na América do Sul, além do Brasil, o Equador e a Colômbia têm esse privilégio geográfico. Na África, ela atravessa o Congo, o Gabão e Quênia, antes de chegar à Somália. E aí vai pela Indonésia, considerando-se que a maior parte da linha do equador cruza os oceanos. 
É sabido que pelos poucos países onde ela passa não existem as estações do ano. As temperaturas são constantes durante todo o ano e as chuvas são bastante constantes também.
Meu amigo Chaguinhas quando adolescente foi à Europa de navio. Não esqueceu a experiência de cruzar o equador pelo Atlântico. Houve uma festa a bordo. E deram a ele um certificado.
 Apesar do mar parecer hegemônico. Não é. Chaguinhas me disse que aprendeu lendo um livro de Amir Klink que em função das diferenças de temperatura, as massas de ar e água circulam no sentido sul-norte até a linha do equador, e depois começam a descer pela costa brasileira.
E continuou me explicando;
– Ninguém cruza a linha do equador impunemente. Tudo muda. A água por exemplo, escorre pelo ralo no sentido horário no Hemisfério Sul e pelo sentido anti-horário no Hemisfério Norte. O céu muda. Aqui se vê o Cruzeiro do Sul. No norte a constelação de referência é a Ursa Maior. As estações do ano são invertidas.
Há uma música de Carnaval de Chico Buarque que diz: “não existe pecado do lado debaixo do Equador”. Será?
Chico Buarque se inspirou neste ditado que, segundo os historiadores, corria na Europa desde o século 17. Refere-se, obviamente, à suposta liberdade sexual havida nos tempos coloniais.
O carnaval vem aí. Mas hoje os tempos mudaram. Ou não!

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Manaus, amor e memória CDLVIII


7 de Setembro com Joaquim Nabuco.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Fantasy Art - Galeria


Brian LeBlanc.