Amigos do Fingidor

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

A poesia é necessária?

 

Madrepérola

Nelson Castro

 

Para Isley Ramalho

 

 

Nos interlúdios de silêncio

sempre me busco

com o olhar em paralaxe.

Comove-me a gravidez

de um átomo.

O centro de gravidade

de todo ser

em forma e conteúdo.

 

Há um significado,

entre uma palavra e outra,

que é preciso desvendar o sentido,

o não aprendido,

o não dito digno de louvor.

É preciso aprender com a concha

a ouvir o canto do mar.

Aprender com o gesto

contido no incomum

da madrepérola.

 

[...]

 

É preciso sentir a natureza.

Aprender com a ostra

a transformar os resíduos

em signo de beleza.

 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Entre flores e decretos: a sinfonia de Mee e Lindoso

 Pedro Lucas Lindoso

 

Numa terra onde a natureza se desdobra em infinitas cores e formas, Margaret Mee, com seu pincel delicado, capturou a essência da Amazônia brasileira. Suas pinturas da flora tropical, detalhadas e vivas, transcendem a mera arte, tornando-se documentos de uma biodiversidade sem par.

Paralelamente, no mesmo solo brasileiro, mas em esferas distintas, José Lindoso orquestrava seu governo no estado do Amazonas. Sua gestão, marcada por desafios e controvérsias, intercalava-se entre o progresso, a preservação e o desenvolvimento econômico.

Conheci Margaret Mee numa manhã de domingo na residência governamental do Parque das Laranjeiras. Avessa à holofotes e autoridades, atendeu ao pedido do governador em conhecê-la pessoalmente. Retornava de uma de suas expedições na área de Novo Airão. Pediu discrição e foi amável e reservada como são os ingleses em geral.

Eis que os caminhos de Mee e Lindoso, embora distintos, entrelaçam-se na crônica amazônica. Margaret, com seus pincéis e tintas, captava a alma da floresta, suas orquídeas raras, suas bromélias reluzentes. Lindoso, por sua vez, enfrentava o desafio de governar um estado cuja maior riqueza e maior desafio era justamente essa natureza exuberante.

Margaret Mee (1909-1988).

As expedições noturnas de Mee para capturar a beleza da flor da lua, uma raridade que só floresce à noite, simbolizam a tenacidade e a dedicação à causa ambiental. Lindoso, em contrapartida, navegava nas águas turvas da política, onde cada decisão poderia significar um passo a mais na preservação ou na degradação. Seu governo, como um barco em águas amazônicas, buscava um caminho que reconciliasse o progresso com a preservação, uma tarefa nada fácil.

Em um ponto, porém, os destinos de Mee e Lindoso se encontram: na paixão pela Amazônia. Para Margaret, era a tela viva de sua arte; para Lindoso, o cenário complexo de sua governança. Ambos, a seu modo, deixaram marcas nesse território mágico.

Hoje, as pinturas de Mee adornam museus e galerias, lembrando-nos da fragilidade e da beleza daquela floresta distante. E as decisões de Lindoso, por sua vez, permanecem como parte integrante da história política do Amazonas.

Assim, entre pinceladas e decretos, entre flores e políticas, a sinfonia de Margaret Mee e José Lindoso ecoa, lembrando-nos da eterna dança entre o homem e a natureza, entre a arte e o poder.

 

domingo, 26 de novembro de 2023

Manaus, amor e memória DCXLVI


Arthur Engrácio, Aluísio Sampaio e Jorge Tufic, na posse deste na AAL, em 22/08/1969.


 

sábado, 25 de novembro de 2023

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Lira da Madrugada – Antísthenes Pinto 6/15

 Zemaria Pinto

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Antísthenes Pinto

Nome completo: Antísthenes de Oliveira Pinto

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 28 de novembro de 1929

Falecimento: 3 de dezembro de 2000

 

Obra poética:

·       Sombra e asfalto (1957)

·       Ossuário (1963)

·       Angústia numeral (1976)

·       A rebelião dos bichos (1977)

·       Curvas do tempo (1984)

·       Poesia reunida (1987)


NOTURNO

                               

um luar azul percorrendo o meu corpo.

Todas as aves brancas construíram ninhos no meu coração

e seus cânticos são de uma tristeza inenarrável.

 

Vou absorvendo o orvalho noturno

com a mesma quietude da árvore curvada no barranco.

Meu maior alimento é o silêncio

e o deslizar do rio comumente tranquilo.

 

A outra metade de mim vive no espelho

que deforma a minha paz. Tantas ruas

cruzam-se em meus pés, tumultuosas, salpicadas de pranto

e seios de todas as cores e vícios e viços.

 

As auroras e os crepúsculos das cidades,

o ar plúmbeo, cinzento das cidades

arrancaram todo o humor que eu tinha pelos homens.

(No entanto o sangue corre nas minhas veias frias).

 

Ah se a memória se limitasse ao presente,

todavia, o passado me inunda a alma

e cicatrizes das mais torpes

se espalham nos meus ossos, nos meus nervos,

na minha sombra espectral, estática sombra roxa.

 

Meu maior alimento é o silêncio

e o deslizar do rio, comumente tranquilo. 


A poesia de Antísthenes Pinto é a que melhor reflete o desejo de mudança dos poetas ligados à primeira geração do Clube da Madrugada. Do surrealismo ao concretismo, Antísthenes ousou sempre buscar o novo numa forma nova. Poeta, romancista e contista, além de exercitar a crônica jornalística e a crítica literária, Antísthenes morou durante muito tempo no Rio de Janeiro, onde publicou regularmente no lendário Suplemento Literário do Jornal do Brasil, dirigido por Mário Faustino, onde se veiculava o que se fazia de mais atual na literatura brasileira, entre os anos 50 e 60 do século passado. Sua poesiaaustera, áspera, sem concessões ao agradável – é herdeira de uma tradição recente, que começa com a modernidade: Whitman, Maiakovski, Fernando Pessoa, Mário de Andrade. Antísthenes Pinto, no Rio de Janeiro ou em Manaus, ecoa os seus contemporâneos Roberto Piva e Allen Ginsberg.

O poemaNoturnopertence ao seu primeiro livro, Sombra e asfalto, de 1957. Aos 28 anos, Antísthenes dá um passo à frente em relação aos poetas do Clube da Madrugada, que estavam muito ligados à chamada Geração de 45, e produz uma poesia livre de quaisquer amarras formais, repleta de signos que se entrecruzam num movimento assimétrico e incessante, desconcertando o leitor. Essa característica é uma constante na poesia de Antísthenes, tanto em relação aos poemas descarnados de Ossuário quanto ao delirante Angústia numeral e mesmo ao seu canto do cisne Curvas do tempo.

Comecemos pelo título, “Noturno”, tão simples e tão impregnado de significados, que vão desde a liturgia medieval, onde se cantam os salmos, até as diversas variantes de composições musicais, afluentes do pensamento romântico. Estas, por contiguidade, influenciam a literatura, sendo comum nominar-se “noturno” a poemas líricos impregnados de melancolia. Observe logo na primeira estrofe, como a justificar o título, as referências à noite (“luar azul”), à música e à tristeza (“e seus cânticos são de uma tristeza inenarrável”). Combinando essa estrofe com a segunda, vamos observar o quadro descrito: a voz emissora do poema, o eu lírico, descreve-se estático sob o “luar azul”, “absorvendo o orvalho noturno”, “com a mesma quietude da árvore curvada no barranco”. No segundo verso, a palavra ave poderia levar a várias interpretações, masaves brancas” é uma referência direta às aves noturnas, ditas de “mau agouro”, que se estabelecem em definitivo no coração do poetapois ninhos são metáforas de refúgio e também de fortaleza –, com seus cânticos “de uma tristeza inenarrável”. Não resta ao poeta senão alimentar-se do silêncio e do “deslizar do rio, comumente tranquilo” – isto é, da mais absoluta solidão.

Mas o poeta é um ser dividido: ao se olhar no espelho, aquela paz noturna e bucólica se confunde com a azáfama urbana das ruas “salpicadas de pranto”. O tumulto interior se completa com a metonímia dos seios/mulheres, “de todas as cores e vícios e viços”, de todas as raças, costumes e idades. Essa insatisfação com as cidades as faz cinzentas e desoladas, não importa a hora, corrompendo a alegria do poeta, que, no entanto, sabe-se parte da massa humana. Somente na quinta estrofe nos é fornecida a chave do poema: é o passado que estorva o poeta, com as “cicatrizes torpesque se espalham pelos seusossos e nervos” – seu âmago, sua alma –, contaminando até suasombra espectral” de morto em vida. Para enfatizar, então, a condição descrita no início, de solidão sem limites, ele conclui repetindo que se alimenta apenas do silêncio e do deslizar do rio.

Esse eu lírico é um eremita, um ser recolhido em si mesmo, que, a despeito do lugar físico-geográfico onde se encontra, está longe de tudo e de todos: no alvoroço da cidade ou na placidez do campo ele estará sempre sozinho. Entretanto, suas lembranças estão vivas, e isso o machuca ao ponto de querer negar sua essência humana. Como último recurso para expiar suas culpas resta-lhe a solidão e mais nada.

Poesia de cunho existencialista, inquisidora das angústias e perplexidades humanas, supérflua na aparência, na medida em que é voltada para a interioridade do poeta, na verdade, é uma poesia que reflete as dores do mundo, ou melhor, a dor de todo mundo. Daí a sua complexidade. É o tipo de poesia mais fácil de ser encontrado, resultante de qualquer banal dor de cotovelo. Difícil é encontrá-lo com arte. Difícil é convencer ao leitor de que aquela dor, mesmo não sendo a sua, poderia ser sua. Lendo o poema de Antísthenes Pinto, mesmo quem não esteja naquele estado de espírito, reconhecerá a poesia que se projeta a partir das palavras: o homem exilado de si mesmo, tomado pela angústia de, a despeito da condição humana, preferir a solidão dos ermos, onde acalentará os ninhos das aves que habitam seu coração dormente.   

Noturno (Mauri Mrq e Antísthenes Pinto). 


quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A poesia é necessária?

  

Cândida Alves

O que alimenta meus dias

É a fome de vida

que me come

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Carlos Gomes (15/7/1936-8/11/2023)


Carlos Gomes, o Carlito, se foi, em silêncio, que era como ele melhor se expressava.

 

O papa é pop!

Pedro Lucas Lindoso

 

O refeitório de uma empresa de médio porte no Distrito Industrial é acolhedor, limpo e agradável. Os empregados normalmente fazem suas refeições entre 11h30 e 12h30. Por volta das 13h horas, a cozinheira, duas ajudantes e três faxineiros fazem as suas refeições acompanhados de dona Hilda, a chefe de Suprimentos.

Para dona Hilda é importante compartilhar as refeições com os mais necessitados. Não adianta dar cesta básica, entregar sopa e marmita para as pessoas em situação de rua. E depois se sentir livre de culpas. É preciso demonstrar caridade efetivamente.

Dona Hilda segue os passos do Mestre Jesus que nos ensinou: “Quando deres uma festa convida os pobres”. O Papa Francisco tem feito ações pensando nos mais pobres. Alguns conservadores tem restrições ao Papa. É normal. Ninguém conseguiu agradar a todos, nem mesmo o nosso Mestre Jesus.

Padre Júlio Lancelloti tem um projeto grande de ajuda aos necessitados em São Paulo. Ele foi surpreendido com um telefonema do Papa Francisco. O depoimento do padre viralizou na internet. O Papa se identificou e Padre Júlio, totalmente surpreso e feliz com aquela deferência do Pontífice, quase não acreditou!

O Papa começou perguntando se o padre gostaria de falar em Espanhol ou Italiano. Como Lancelloti fala as duas respondeu ao Papa que poderia ser qualquer delas e exclamou: Santitá!

A primeira pergunta que Papa Francisco fez ao padre foi indagá-lo sobre o seu dia. Ele disse a Sua Santidade que começa o dia rezando a Missa e após toma café com o pessoal de situação de rua.

O Papa, feliz, exclamou: Isso! É importante fazer as refeições com os mais pobres.

A preocupação do Papa com os pobres é tão sólida que Sua Santidade criou o Dia Mundial do Pobre. Trata-se de celebração católica comemorada no 33.º domingo do Tempo Comum.

A data foi instituída desde 2017. Foi estabelecida pelo Papa Francisco em sua Carta Apostólica Misericordia et Misera para comemorar o fim do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Neste ano de 2023, foi comemorado o último domingo, 19 de novembro. Nesse dia, se viverem no seu bairro pobres que buscam proteção e ajuda, aproxime-se deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Ofereça uma refeição e coma com eles!

Alguns não gostam do Papa em face de suas posições avançadas. Já o chamaram até de comunista. Não é verdade! O Papa é pop.

  

domingo, 19 de novembro de 2023

Manaus, amor e memória DCXLV


Manaus 1865-66.
Publicado no livro Viagem ao Brasil de Elizabeth e Luiz Agassiz.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Lira da Madrugada – Almir Diniz 5/15


Zemaria Pinto

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Almir Diniz

Nome completo: Almir Diniz de Carvalho

Naturalidade: Cambixe, município de Careiro da Várzea – AM

Nascimento: 6 de novembro de 1929

Falecimento: 28 de maio de 2021

 

Obra poética:

·       Encontros com a natureza (1996)

·       Caminhos da alma (1996)

·       Corpo de mulher (1996)

·       Andanças poéticas (1997)

·       Os deuses (1998)

·       O elogio do caboclo (1998)

·       Floradas da alma (2000)

·       Plumas humanas (2000)

·       Algemas de ternura (2001)

·       Floradas do corpo (2001)

·       Corações em chamas (2002)

·       Magia e sedução (2010)

·       Melodia pagã (2011)

·       Minha roça de urtigas (2011)

·       Mulheres (2011)

·       Pétalas e penas (2012)

·       O jardim da minha mãe (2014)


TRISTEZA

 

 

Cavalgo, triste, meu corcel alado

pelas pistas sem fim do pensamento,

de rédea solta, solto meu lamento,

meu protesto, de lágrimas molhado.

 

Galopando sem rumo, e magoado,

carpindo no selim meu sofrimento,

chego a pensar que todo este tormento

é mero sonho, e sonho malfadado...

 

Mas, se passo trotando contra o vento

e ouço um tropel alegre pelo prado,

aperto o arreio... sei... eis-me acordado!

 

Ai, sim, sofro a dor que me vai dentro,

essa dor, que mais dói, sem ferimento,

que as feridas de todo meu passado!

 

É espantosa a concentração de títulos de Almir Diniz, no gênero poético: dezessete, em dezesseis anos. O autor nos explica que essa poesia veio sendo construída, lentamente, desde a juventude, na segunda metade dos anos 1940, até os dias de hoje. É uma poesia em que à simplicidade se alia uma grande precisão técnica, calcada na reflexão sobre o homem amazônico e a exuberante natureza que o cerca, externando o sentimento que lhe vai n’alma, porque “ninguém doma um coração de poeta”, como cantou o grande Augusto, dos anjos e dos demônios.   

A rigor, mesmo pertencendo, do ponto de vista cronológico, à geração Madrugada, Almir Diniz não militou no Clube. E seus livros começaram a vir à luz quando o Clube já não mais existia. Antes disso, apenas publicações esparsas, em jornais e revistas. Mas isso são detalhes que não o excluem de uma apreciação rigorosa da poesia da época.

O poema “Tristeza”, do livro Caminhos da alma, representa uma síntese da poesia de Almir Diniz: entre o telúrico e o urbano, o lúdico e o sentimental, o poeta constrói, sem invencionices, uma poesia que a um só tempo comunica e comove – no sentido mais primitivo desta palavra: promover deslocamento, agitar com força. A poesia de Almir Diniz nos coloca no centro da vida cabocla – seja do caboclo lavrador, campônio e campeiro, seja do caboclo intelectual, afeito às lides da política, do direito e do jornalismo. Almir Diniz, advogado, ex-prefeito, jornalista premiado, fazendeiro – de plantar e de criar –, traz na pele acobreada as marcas dessa vivência múltipla.

No poema em tela, o corcel alado que o eu lírico cavalga é uma metáfora para um permanente estado de poesia. O eu lírico está possuído pela poesia. Mas, ao contrário do uso que se faz nas religiões afro-brasileiras, onde o cavalo é a pessoa que recebe o espírito, Almir Diniz coloca o poeta a cavalgar o cavalo-poesia, “pelas pistas sem fim do pensamento”, abrindo todas as possibilidades para esse encontro com o cavaleiro-poeta.

A “rédea solta” em plena cavalgada, uma situação de risco, é uma metáfora para o estado de desespero em que o eu lírico de encontra, pontuado pelos substantivos que se lhe seguem – lamento, protesto, lágrimas –, de alguma forma relacionados com a decisão intempestiva de manter a rédea solta, com todos os riscos advindos dessa decisão. Basta-nos esta primeira quadra, para ilustrar o que dissemos da composição como síntese: a metáfora do corcel a cavalgar é telúrica; se o corcel é alado, acrescentamos o elemento lúdico; pistas, substituindo estradas ou mesmo caminhos, ambas de caráter rural, é o elemento urbano que se acrescenta ao poema; por fim, o toque sentimental é dado pela expressão física daquele momento – o lamento-protesto “de lágrimas molhado”. 

Na segunda estrofe, a confusão mental do eu lírico, em função do desespero em que se encontra – “galopando sem rumo” –, o faz pensar que ele vive um pesadelo, um “sonho malfadado”. No terceto que se segue, o eu lírico esclarece a si mesmo – e ao leitor – que seu estado é de plena vigília, contrapondo as imagens de si mesmo “trotando contra o vento” com o sentido atento para um “tropel alegre pelo prado”. Essa superposição do lúdico com o real, do metafórico com o banal cotidiano garante o tensionamento da nota poética: se não houvesse o lúdico, o metafórico, estaríamos diante de um texto prosaico. Não é o caso, absolutamente.

A última estrofe coloca o eu lírico de volta à realidade da qual ele escapara pelas artes da poesia: não mais corcel alado, não mais rédeas soltas, não mais galope sem rumo. Apenas a consciência da dor que dói “sem ferimento”. Essa dor presente que sentimos todos, sempre que pensamos sobre o nosso estar-no-mundo. Como refletiu com sublimidade o filósofo Schopenhauer,

Reproduzem-se na poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas situações, visto que retornam continuamente, e ali encontram a sua expressão apropriada. [...] O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela o que ela sente e pratica.[1]  

 

Esta é apenas uma amostra colhida no universo da poesia de Almir Diniz. Poesia cheia de verdade, mas também vibrante na sua tensão lúdica, pois é disso que se faz o poema – da vida reinventada, amalgamada nos quatro elementos: o fogo fundindo a mistura de barro e de água, resultados do sopro do vento.

Tristeza (Mauri Mrq e Almir Diniz).


[1] SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. 1.º tomo. Tradução: Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 328-329.

 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

A poesia é necessária?

 

Homens-poetas

Gracinete Felinto

 

 

Se todos os homens fossem poetas:

o mundo inteiro seria uma festa!

 

Não haveria nenhuma destruição,

nos nossos olhos só teria canção.

 

Na floresta, os animais viveriam

livres sobre o verde abundante e lírico.

 

Se todos os homens fossem poetas:

o mundo inteiro seria uma festa!

 

O amor, talvez, não teria mais antônimo,

e mendigo, também, não seria anônimo.

 

Fogo? Ficaria retido na vela,

na noite, porta não seria janela.

 

Se todos os homens fossem poetas:

o mundo inteiro seria uma festa!

 

Nossos filhos seriam nossos avós,

nossas histórias sempre teriam voz.

 

Certas pessoas tirariam suas vendas,

agulha da poesia só teceria rendas.

 

Um calendário branco surgiria

para ser o livro real da vida.



terça-feira, 14 de novembro de 2023

Leseira baré

 Pedro Lucas Lindoso


Todos conhecem a famosa canção de Raul Seixas que diz: “Eu nasci há dez mil anos atrás / E não tem nada nesse mundo / Que eu não saiba demais”. Pois bem, a canção não deixa de ser verdadeira. Nem que seja metaforicamente. O fato é que já havia pessoas caçando e pescando nos nossos rios e na nossa floresta há dez mil anos atrás. E não era só o Curupira, o Matintaperera e outros seres mitológicos.

Todo ano quando Manaus faz aniversário a polêmica entre historiadores e formadores de opinião vem à tona. Qual a idade certa da cidade? Seriam mesmo 354 anos de sua fundação?

Um dos registros históricos indiscutíveis é que por decreto de 1848, no dia 24 de outubro, a Vila da Barra se tornou uma cidade. Minha falecida mãe, ao saber que estariam comemorando mais de trezentos anos da cidade, me contestou: “Meu filho, como assim? Eu me lembro dos festejos de cem anos da cidade!” De fato, em 1948 minha mãe era uma jovem de 23 anos.

Historiadores e pesquisadores chegaram a um consenso de que Manaus foi fundada em 1669, a partir da Fortaleza de São José do Rio Negro. Mas há controvérsias. Sabe-se que já se comia jaraqui aqui há mais de dez mil anos atrás, como profetizou Raul Seixas.

A seca histórica que se enfrenta neste 2023 revelou a existência de novos sítios arqueológicos no Estado. O da Ponta das Lajes, aqui na nossa região metropolitana, já era conhecido de outras vazantes. Os petróglifos encontrados têm cronologia estimada entre mil e dois mil anos atrás.   E agora? Quantos anos tem Manaus?

Nossas lendas envolvem geralmente um casal apaixonado de tribos rivais. Havia aqui a tribo dos Manaus e dos Barés. Em 1669 quando os portugueses chegaram, um guerreiro Baré se apaixonou por uma princesa filha do cacique dos Manaus. Os portugueses intermediaram o conflito e foi feito o casamento exatamente no dia 24 de outubro. Assim nasceu a cidade de Manaus.  Porém eles não chegaram a um acordo de como se chamaria o núcleo urbano surgido daquela união.  Cidade de Manaus ou Cidade dos Barés. O nome do local ficou provisoriamente Vila da Barra. Em 1858, há exatos 165 anos, um descendente dos Manaus conseguiu que a cidade fosse finalmente batizada de Manaus. Aliás Manáos. Depois, Manaus em razão de uma reforma ortográfica da Língua Portuguesa.

Pois bem, muitas vezes se tenta mudar o nome da cidade ou dizer que não foi criada em 1669. Ou mesmo que a data não seria 24 de outubro. Quando acontece se diz que é “leseira baré”. Inconformados em não terem seu nome na cidade, os descendentes dos Barés sempre criam polêmicas e confusão todo ano pelo aniversário da cidade. Leseira Baré, como sabemos, é algo tolo, infantil e sem sentido.


domingo, 12 de novembro de 2023

Manaus, amor e memória DCXLIV

Restaurante Chapéu de Palha,
na esquina da Fortaleza com Paraíba.