Amigos do Fingidor

Mostrando postagens com marcador Roberto Mendonça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roberto Mendonça. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de julho de 2023

AAL lança livro póstumo de Anisio Mello





Sobre Anisio Mello, por ocasião do lançamento de Estrela Viva

Zemaria Pinto

 

Como não poderia deixar de ser, começo agradecendo a oportunidade de homenagear o amigo Anisio Mello, no 13° ano de seu desenlace, fortalecendo a ideia de que a imortalidade acadêmica é a permanente relembrança.

Por isto estamos aqui, nesta ensolarada manhã de sábado (espero não errar na previsão do tempo), relembrando o artista múltiplo, o multiartista Anisio – pintor, escultor, músico, compositor, que, como escritor, destaca-se em diversas frentes: ensaio, ficção, folclore, poesia e até um precioso Vocabulário etimológico tupi do folclore amazônico, onde dá continuidade a um trabalho iniciado por seu pai, Octaviano Mello. E, pasmem, Anisio era um inventor de mão cheia...

Luiz Bacellar, que quanto mais velho mais menino ficava, dizia que Anisio, com quem vivia arengando, era a reencarnação de Leonardo da Vinci. Aí mostrava uma reprodução da “Mona Lisa” e, ecoando uma teoria da época, dizia: “vamos tirar a barba do Anisio e ver se ele é ou não o Da Vinci”. Um estudo da época dizia que Leonardo retratara a si mesmo na “Mona Lisa”. Anisio fazia cara amuada e replicava: “este fim de semana não tem café nem jornal...” Era um hábito que os amigos cultivavam no domingo: ler os jornais juntos, com um cafezinho, acompanhado de tapioca e pamonha. Tudo bancado pelo Anisio, claro.

Lembro de uma arenga dos dois que deu um trabalhão para contornar. Um cidadão francês, de passagem por Manaus, enturmou-se com os dois. Só que o Bacellar, a propósito de manter seu francês (que ele dizia “de Paris”) em dia, danou-se a conversar em francês com o novato. Como o francês do bom Anisio era “de Itacoatiara”, o tempo fechou. Os dois “trocaram de mal” e ficaram alguns fins de semana sem ler os jornais juntos...

Mas, estamos aqui para louvar a poesia de Anisio Mello, representada neste Estrela Viva, uma antologia organizada pelo próprio autor e salva dos escombros do esquecimento pelo notável trabalho do pesquisador Roberto Mendonça – que multiplicou a obra do meu querido professor L. Ruas e agora nos revela poemas de Anisio, se não inéditos, perdidos em edições esgotadas.

Chamo a atenção para a capa, que reproduz um quadro do próprio Anisio: um belíssimo exemplar de seu expressionismo abstrato – ele, que pintava desde prosaicas paisagens até quadros como este, de refinado simbolismo e múltiplas leituras.

Exímio sonetista, Anisio escrevia poemas em versos livres e rimas brancas com a mesma facilidade com que cultivava o haicai. Em outras palavras, tinha o total domínio da técnica poética, mas também tinha uma verve, um entusiasmo que passava a sua poesia, caracterizada pelo lirismo, sem pretensões a revoluções estéticas, mas construindo uma obra que encanta e encantará ainda muitas gerações, como no petrarquiano “Lembrança”, de Sexagésima Stella (página 125):     

  

Na lembrança ficaste de permeio

a momentos de amor como te vi.

Foste rosa em meu peito e com receio

a primavera augusta então vivi.

 

Nos teus lábios agora me tonteio

e na luz dos teus olhos refleti

todo um sonho feliz e agora creio

que o amor é como o beijo que senti.

 

Este amor que flutua mansamente

e incandesce a manhã tão de repente,

mais parece o delírio de um adeus.

 

Um dia partirei, quem sabe quando?

lembranças levarei sempre cantando,

com teus lábios impressos sobre os meus...

 

Este – meus amigos, minhas amigas, crianças – era Anisio Mello, um homem simples, um artista completo. Aliás, este é Anisio Mello, pois ele continuará vivo em nossas lembranças...

 

 

OBS: como não pude estar presente, o ex-presidente Elson Farias leu o texto, por ocasião do lançamento do livro, em 01/07/2023.


sexta-feira, 18 de junho de 2021

A bomba

L. Ruas

 

A peste grassara na cidade. Era uma pequena cidade de mais de oito mil habitantes, no máximo.

Em primeiro lugar foram tomadas todas as medidas profiláticas. A cidade foi isolada e ninguém podia sair nem entrar a não ser os organismos oficiais encarregados do abastecimento e da assistência médico-hospitalar.

Sem qualquer outro informe mais preciso, cumpre dizer que a peste se caracterizava por uma inflamação cerebral, que provocava nos doentes uma série de alucinações, tendo como consequência final e orgânica um debilitamento que levava fatalmente à morte. O mais interessante é que nas primeiras semanas os vitimados não apresentavam qualquer anormalidade, daí o primeiro caso ter sido aceito por muitos como coisa verdadeira. Tratava-se de um cidadão que se dizia uma espécie de salvador da pátria, esta espécie, que, aliás, é muito difundida.

Devemos acrescentar, também, que todos os habitantes daquela cidade estavam irremediavelmente condenados e, mais cedo ou mais tarde, todos contrairiam o vírus, embora, segundo os médicos, não se pudesse calcular quando isso poderia suceder. O contágio em muitos casos se dava lentamente.

Diante desse estado de coisas as autoridades oficiais decidiram exterminar aquela cidade. Segundo os moralistas oficiais isto seria permitido em razão do bem comum, pois o vírus poderia ser transmitido a outras cidades vizinhas. E o mal terminaria invadindo toda a nação. Discussão pra lá, discussão pra cá, o Departamento de Defesa apresentou uma sugestão que foi por todos aceita. O Departamento se encontrava em fase de experiências com um novo tipo de bomba e segundo os técnicos faltaria um último teste, a saber, a respeito do raio de ação. O Departamento de Saúde por sua vez chegou à conclusão de que as irradiações provocadas pela explosão poderiam, talvez, purificar a atmosfera e assim debelar a peste para sempre.

E assim as circunvizinhanças da cidade foram escolhidas para servir de área de experiência do Departamento de Saúde.

O plano de experiência estava dividido em duas etapas. O primeiro consistia numa preparação psicológica do povo, para impedir qualquer movimento de pânico. E a segunda consistiria na execução técnica ou propriamente na explosão.

 

Imediatamente começou a realização da primeira etapa. Os dois jornais da cidade e a estação difusora iniciaram uma campanha de esclarecimento público. O povo não deveria dar atenção àqueles que desejavam espalhar o pânico. A situação era normal. Tudo estava em ordem e não se apresentava qualquer ameaça à segurança do povo. Tratava-se, apenas, de uma experiência científica que traria benefícios enormes à nação. O povo deveria, pelo bem da pátria suportar, com paciência patriótica alguns sacrifícios que seriam exigidos para o bom êxito da experiência. Não é necessário dizer que muitos não acreditaram na campanha psicológica, mas, a bem da verdade, é preciso dizer que a maioria dos habitantes a aceitaram com tranquilidade. Não mudaram seus hábitos. Todos continuaram a ir ao barbeiro, tomar sua cervejinha, bater um papo na esquina ou sentados em suas cadeiras de embalo, à noite, nas calçadas. Havia, também, os conformados. “Que adianta, diziam, que adianta perder cabeça se ninguém sabe o dia da explosão?”

E ninguém sabia mesmo. O dia da explosão foi guardado dentro do máximo segredo.

Mas a bomba explodiu, um dia. E da cidadezinha resta, apenas, esta notícia insignificante que trago, hoje, aos meus possíveis e reduzidos leitores.

 

(A Gazeta, 2 setembro 1963)

Pesquisa: Roberto Mendonça

  

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

de boemia, etc.


Texto de L. Ruas, garimpado pelo "catador de papeis" Roberto Mendonça.

L. Ruas


Pra começo de conversa, faço questão de acentuar que sou do número daqueles que não aceitam boêmia com acento circunflexo em cima do “e”. Sei que, segundo os dicionários, não há boemia sem acento circunflexo, mas neste caso me insurjo contra os dicionários, contra a ortofonia, contra a ortografia. Para mim o negócio é boemia mesmo. Mia. Esta é que é a verdadeira boemia.
Outro dia me lembrei que, há tempos atrás, em um de nossos muitos e prolongados bate-papos ocorridos nessas andanças, naquelas nossas andanças de antes da Fundação Cultural, de antes da Secretaria de Educação, quando o tempo não lhe era ainda tão escasso ou ele ainda não precisaria se tornar tão avarento de tempo, no meio das nossas muitas conversas sobre tão muitos assuntos, dessas muitas conversas que acontecem toda vez que dois ou mais amigos se encontram para gastar a noite (já que o dia nos gasta e desgasta...), o poeta Elson Farias e eu, depois de divagarmos sobre o assunto, resolvemos que um dia haveríamos de escrever, não sei bem se um livro ou coisa parecida, sobre a boemia. Mas, pelo que eu vejo, livro mesmo é coisa difícil e, muito mais, sobre boemia. Por isso, resolvi, ao lembrar aquela conversa, transmiti-la, mais ou menos aos que me quiserem ler.
Não será necessário esclarecer que o esquecimento, isto é, a memória, já fez o seu costumeiro trabalho e, com sinceridade, não sei mais exatamente o que foi que eu disse, naquela ocasião, e o que foi que o Elson disse. Diante desta incerteza, deixo aqui um aviso aos meus leitores: as asnices que ocorrerem ficam por minha conta. E as outras asnices, por conta do Elson.
Mas, vamos à boemia.
De início me parece que boemia e poesia são muito parecidas, e não só por causa da rima. Pra mim, poeta e boêmio são irmãos gêmeos. Talvez sejam diferentes apenas em um aspecto: o boêmio é uma espécie de poeta existencial, vivencial. Ele traz para a vida aquele estado de espírito que é peculiar ao poeta. Isto explica porque nem todo boêmio é poeta no sentido estrito (que faz poesia) e nem todo poeta é boêmio, embora este último caso seja muito comum.
Diz um velho (é claro que velho) adágio latino que “poetae nascuntur”, o que em português quer dizer que os poetas já nascem poetas. Não adianta fazer força para ser poeta se se não tiver o dom da poesia. No fim dá em nada, para não dizer que dá em outra coisa mais concreta e viscosa. Naturalmente, há muitos que tiveram sua “fase poética”. Mas, ter “fase poética” não é ser poeta. O poeta é poeta sempre, mesmo quando não cria mais poesia escrita, revelada. Lembremos o caso de Rimbaud. Rimbaud sempre foi um poeta mesmo quando abandonou o ofício da poesia. Aliás, diga-se de passagem, aqui temos um caso excelente de poeta-boêmio: Rimbaud. Pois bem. O boêmio também é assim. Quase todo mundo teve sua “fase boêmia”. Fase que corresponde, mais ou menos, a já referida fase poética. Mas quem não é poeta assim como quem não é boêmio, passada aquela fase, mixa. E fica até com vergonha de ter tentado ser uma coisa ou outra.
A boemia como a poesia é um dom. Quem nasceu para ser boêmio pode virar do avesso que não deixa. Ou deixa. Mas aí é um frustrado.
Além de dom a boemia é também vocação. Há os boêmios frustrados do mesmo modo que há os outros frustrados. Aqueles que vivem uma vida que não cola com as suas aptidões. E que, portanto, não vivem vida nenhuma. Ninguém escolhe a boemia. Ela é que nos escolhe. Nisto está a verdadeira vocação. O vocacionado é aquele que não sabe explicar porque é que é isso ou aquilo. Pergunte, leitor, a um poeta verdadeiro porque ele é poeta. Duvido que você obtenha uma resposta exata, lógica. A vocação nos obriga e nos constrange. Não adianta fugir. Nessa história de vocação é como aquela história do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Não tem escapatória. E o verdadeiro poeta e o verdadeiro boêmio têm consciência disso, mesmo quando acontece como no caso do Poeta de Baudelaire:

Quando, por um decreto das potências supremas,
O Poeta aparece neste mundo de náuseas,
Sua mãe horrorizada e cheia de blasfêmias
Crispa seus punhos para Deus, que se compadece dela:
... “Maldita seja a noite dos prazeres efêmeros
Na qual concebi a minha expiação!...” etc. etc.

Pois é assim. O verdadeiro boêmio, por cima de paus e pedras, não nega a sua raça... Isto é, sua vocação.
Mas em que consiste o verdadeiro boêmio?
Bem. Devo dizer que não me arriscarei a cair na asnice de definir o poeta ou o boêmio. Diz o Jorge Tufic que o poeta é transparente. A gente não sabe o que é ser poeta. Mas se ninguém sabe o que é o poeta, diz ainda o Tufic, todos sentem o poeta.  Aliás, isso não ocorre só com o poeta. Lembro-me, agora, de um artigo de Roberto Alvim Corrêa sobre o Pe. Clérrissac. Roberto Alvim Corrêa, que, por sinal, publicou um belíssimo trabalho sobre François Mauriac no Jornal do Brasil, dizia que quem se aproximasse do Pe. Clérrissac sentia que estava perto de um santo. Pela simples presença, pela simples aproximação. Isso ocorre com quem possui alguma coisa a mais (que não é aquele mais que a Shell lhe dá). Este é o caso do poeta. É o caso do boêmio. Ninguém pode definir um boêmio, mas todos sentem o boêmio. Como definir o indefinível?
Contudo, se não me arrisco a escorregar nesta asnice (conscientemente eu não escorrego, não) de dar uma definição didática tal como a gente encontra em compêndios sobre arte, do poeta e do boêmio, pra que depois qualquer imbecil saia dizendo por aí que sabe o que é um poeta ou um boêmio, atrevo-me a destacar uma característica que me parece indispensável e essencial a todo boêmio.
Parodiando Euclides da Cunha: o boêmio é, antes de tudo, um rebelde.
Calma. Não se apresse. Não se trata de rebeldia subversiva. Nada disso. O boêmio é rebelde no sentido, talvez, da rebeldia do “homem rebelde” de Albert Camus. Se a palavra, porém, pode parecer digna  de qualquer suspeição, digamos, em vez de rebelde, insatisfeito ou, melhor, chateado. É isso mesmo. O boêmio é um sujeito chateado. Naturalmente a maioria dos indivíduos não é chateada. É chata, mas não chateada. A maioria é conformada. Nivelada. São sujeitos comuns. Sujeitos substantivos comuns. Mas, comuns mesmo. Tão comuns que não passam de sujeitos sem qualquer predicado que lhes dê qualquer relevo. E não só são comuns por uma questão de organização ou vocação fisiológica, mas fazem questão de ser comuns. Diga-se de passagem, que nisto são um exemplo para os boêmios.  Os boêmios deviam fazer como os sujeitos-substantivos-comuns: fazer força para ser boêmios de verdade. Não conciliar. Pois, como eu estava dizendo, os sujeitos-substantivos-comuns são conformados. Não querem mais nada. Aceitam tudo como está. Tudo como acontece. Mas, também, como vão querer se não sabem, nem podem (é uma questão de determinismo fisiológico, me parece) querer ser outra coisa se são comuns? Isto é, indivíduos que vivem unicamente para comer, beber, dormir, ejacular e produzir novos membros do imenso rebanho de sujeitos-substantivos-comuns. Não falo em trabalho. Ninguém gosta de trabalhar. Nem mesmo os sujeitos-substantivos-comuns, que se o fazem, é simplesmente para poderem fazer aquelas outras coisas acima enumeradas.  O boêmio é o antípoda (também por um determinismo fisiológico) do sujeito-substantivo-comum. É alguém que não aceita a chatice do estabelecido e do pronto. Do que está feito. Do que está bitolado. Do dia-a-dia, da rotina, do lugar comum. O boêmio ama o novo, o diferente, o que se renova, a descoberta, o desconhecido, a aventura.
O boêmio é um aventureiro no melhor e no mais largo, no mais dilatado sentido da palavra. É um faminto e um sedento do diferente, do desconhecido, do exótico. Eis o motivo porque ele sempre foi olhado com espanto e com um certo escândalo. Criticam seu modo de vida pelo simples fato de ser um modo de vida diferente do dos demais. Por ele procurar fazer coisas que os outros não fazem ou não sabem ou não podem fazer. Por isso, acham que ele é um errado, um louco.  Um visionário. Na verdade, ele não é acomodado. E todos os que não se acomodam, incomodam os acomodados. Mas isto é uma questão de modo de ver as coisas. É uma questão de perspectiva. A visão dos indivíduos comuns vê o mundo com alguma coisa bem arrumada, com cada coisa em seu lugar. Que me perdoe o Manuel Bandeira. Nisso o boêmio é parecido também com o artista. O artista é alguém que, fundamentalmente, não acredita na arrumação deste mundo. Para o artista o mundo, o universo, é alguma coisa que está exigindo uma arrumação profunda. E o artista está certo. Na verdade, como dizia um amigo meu, por sinal, uma verdadeira vocação de boêmio, Deus foi um grande esbanjador. Esbanjou beleza. O meu amigo falava assim a respeito das mulheres. Mas, acredito que sua ideia pode ser estendida ao resto do [ilegível]. E, nisto, não concordo com Platão. O filosofo grego dizia que Deus foi um grande geômetra: geometrizou o céu e a terra. Qual o quê! Na criação não há nada arrumado nem muito menos geometrizado. Tudo está por ser feito. A criação está apenas começando. O que Deus fez foi pegar uma infinitude de coisas e aí chamou o homem e disse:
– Eu lhe dei inteligência, força e coragem para que você agora continue o trabalho que comecei.
Nisto andam certos e concordes, o boêmio, o artista e o escritor sagrado. É preciso se convencer de que ainda é preciso arrumar o mundo e não pensar como os de visão bitolada, que tudo está bem arrumadinho.
É claro que a ciência e a técnica também querem arrumar o mundo. Mas, a arrumação da ciência e da técnica é diferente da arrumação do artista e do boêmio. Aquela é uma arrumação cartesiana, lógica, fria, racional. Há alguma coisa mais lógica no mundo do que a máquina? Talvez a mente de um louco. A arrumação do artista e do boêmio escapa à lógica, ao racional, ao calculado. Se quisermos, é uma arrumação onírica, intuitiva, humana, cheia de calor humano e afetivo. A arte sempre foi irmã do sonho. E o sonho é o que há de mais em nós mesmos. A razão nos enlouquece. O sonho pode nos surpreender e angustiar. Mas é o que está mais perto da nossa realidade profunda. Por isso acredito que a técnica só não desumanizará o homem se andar de mãos dadas com a arte.
Geralmente, quando se fala em boemia, se pensa em alguém em serenata noite a dentro, em música, em mulher, em amor. E, de fato, isso também é boemia. E da boa. Este, porém, é só um tipo ou um dos modos de manifestação da boemia. Se há o boêmio das noites, da lua, das mesas de bar, da música, do amor que lhe dá sempre um ar de cavaleiro andante, é justamente porque ele não concorda com o mundo arrumado dos sujeitos-substantivos-comuns, dos silogismos, das coisas bem arrumadas. Boemia é, antes de tudo, um estado de espírito. De inconformação, de aventura, de libertação de tudo que possa limitar, aprisionar, encurralar o homem. Para mim a boemia talvez comece, na sua fase mais simples, digamos assim, nas serestas, na bebida, na noctivagação. Mas não se esgota aí e, sim, alcança em suas formas mais sublimes as grandes aventuras do espírito humano que se exprimem através das lendas, dos mitos e se realizam na vida e na obra daqueles que foram capazes de romper as barreiras para levar o homem aos seus mais altos momentos de grandeza humana: Prometeu foi um boêmio divino; Francisco de Assis, o foi. Colombo foi um boêmio; Rimbaud foi um boêmio; Van Gogh, o foi; os astronautas são boêmios (a terra é azul...); Cristo não terá sido um boêmio?...


domingo, 19 de agosto de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXXXII


Publicado no Jornal do Commercio, Manaus, 26 de maio de 1955.
Pesquisa: Roberto Mendonça.

Walquíria Líquida
(À Cerveja)
Farias de Carvalho
(do Clube da Madrugada)

Para o Coronel Costa Lima, com as continências do estilo.


Loira, como as auroras e os trigais;
pura, como o romance que há nos ninhos;
és a chave de todos os caminhos,
princesa dos pecados noturnais.

E quando espumas, fulva, nos cristais,
rendados de topázios e de arminhos,
tens o sabor de espasmos e carinhos,
deusa pagã das minhas bacanais.

Fazes parte de mim. Serenamente,
as fronteiras do real venço e transponho,
quando me entrego a ti, avidamente.

E, teus amantes, dormem em ti submersos
os sonolentos cisnes do meu sonho
e os bordados doirados dos meus versos!


Obs1: Peço perdão ao querido Farias, por mexer na pontuação do poema: espero estar corrigindo não o poeta, mas o sacana do linotipista, que, sob o efeito de umas Walquírias, trocou os tipos.

Obs2: esse primeiro terceto é uma obra-prima!


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Manifesto Madrugada


Publica-se este texto, dado como perdido na sua completude, às vésperas dos 59 anos de fundação do Clube da Madrugada, ocorrida a 22 de novembro de 1954, pela sua importância histórica e pela sua contribuição a futuros estudos.
Transcrito, com a necessária adequação gráfica, da Revista Madrugada, número único, que circulou em Novembro de 1955, recuperada do acervo do professor Mário Ypiranga Monteiro pelo pesquisador Roberto Mendonça.
 

 

No momento em que o Brasil sofre uma crise total em todas as suas forças intelectivas, morais, educacionais, econômicas e sociais, a mocidade consciente do Amazonas, agrupada sob a égide do Clube da Madrugada, une-se para defender esta herança social inesgotável que herdamos de nossos antepassados, em cujas causas concernentes à debacle, atuam grupos de caráter negativo anacrônicos, divorciados da realidade brasileira e defensores de posições cômodas e de princípios apátridas.

Nesta senda, quanto mais penetramos, apresentam-se fatores desintegradores que clamam por uma tomada de posição definida por parte da mocidade, em torno dos problemas que se nos antolham prementes, menosprezados por esta geração que passa, e que em dias muito breves virão acarretar as consequências imponderáveis para o alicerçamento de nossa cultura na sua formação geral.

Se analisarmos, mais profundamente, a contextura total de nossa sociedade, iremos encontrar nos elementos que formam a nossa elite intelectual dirigente, uma apatia criminosa, no que diz respeito à formação e renovação de valores, que serão responsáveis vindouros de nossos destinos, e, subsequentemente, continuadores de nossa posição continental. Semelhante atitude gera, nos moços, uma repulsa que nos impulsiona a restaurar esta contextura social, e apresentar novo programa de ação, com a finalidade primordial orientada no sentido de elevação dos padrões intelectuais, morais, econômicos e sociais.

Face a esta situação, o Clube da Madrugada define-se perante as várias categorias que  pensamento humano expressa:

Literatura: Não há literatura no Amazonas. Primeiro, fatores culturais e morais determinaram nos homens ditos de letras, uma posição acomodatícia, geradora de um individualismo exacerbado, cuja consequência derivou o afastamento de valores positivos que pudessem fazer perigar o seu totemismo aceito como absoluto. Segundo, fatores de ordem econômica contribuíram para que elementos de valor intelectual procurassem novos meios, onde espíritos esclarecidos lhes ofereciam melhores oportunidades, em virtude de seu talento. Como prova do que asseveramos, vimos estes elementos afirmarem-se nos meios centralizadores do pensamento, onde a luta pela expressão das ideias não era sustentada por oligarquias intelectuais, fenômeno este instituído no Amazonas, há longa data. Fácil será observar o que acontece na esfera convencionada chamar-se acadêmica[1], onde campeia a servidão a estilos e ideias antiquadas, importadas diretamente da Europa, no século passado. Desconhecem francamente, por meio de um indiferentismo olímpico, a existência de uma literatura puramente nacional. Tal ignorância redunda, consequentemente, numa arrogante indiferença diante dos próprios valores da terra. Porque estes procuram renovar ideias e conquistar formas novas de expressão e não encontram apoio numa crítica evoluída. Disto resultou o êxodo anual de moços em direção ao Sul do país.

Por isso o Clube da Madrugada inspira-se nos elementos formadores de nosso ambiente, para a efetivação de uma literatura condizente com os princípios de liberdade imanentes ao artista, na sua expressão literária, conjugados com os itens acima referidos, os quais estratificam uma literatura sadia. Desde já, o Clube da Madrugada exproba o patrocínio de dogmas do Estado e de elementos que queiram fazer instrumento seu, a obra que pretendemos edificar.

Escultura, Pintura e Arquitetura: Infelizmente, stricto sensu, não há os três ramos de Arte marginados, no Amazonas, digna de menção. Os resquícios que por ventura existem não formam uma unidade, no ambiente intelectual. Não apresentando material necessário a uma análise, nos abstemos de aprofundar, neste particular, uma crítica dentro dos ditames da arte.

Sociologia: Apesar de o Amazonas ser uma unidade da Federação, que apresenta elementos vastíssimos para a pesquisa sociológica, apenas temos alguns estudiosos que se detêm nos problemas superficiais que afetam nossa região. Lastimável sob todos os aspectos, principalmente, para a valorização do amazônida, quando a presente conjuntura se preocupa na revalidação dos padrões que regem a Ciência Social, que tem por objeto a integração do homem no meio cultural. A ciência do homem, que hoje revela os múltiplos ângulos pelos quais o indivíduo é envolvido na sua mesologia, é ainda, no Amazonas, olhada com a desconfiança dedicada à magia negra, na Idade Média. Vive-se, deste modo, preso a um imediatismo criminoso responsável pela incúria em que, atualmente, se encontra o homem da gleba. Tanto assim que as pesquisas mais sérias realizadas na região são aquelas feitas por entidades alienígenas, sem qualquer laço com o nosso pensamento. Deste fato resulta, muita vez, a deturpação completa dos denominadores encontrados nesses trabalhos. Por isso, acreditamos ser necessária a formação de uma elite iniciada nos assuntos da ciência do homem, em decorrência das necessidades amazônicas, a fim de que seja revelada a verdade social acerca de nossas populações, por pesquisadores insuspeitos, irmanados por liames culturais ao homem do Vale.

Nesse sentido, o Clube da Madrugada está forjando a colimação desse objetivo, por intermédio de seus membros, dentro de uma nova dinâmica sociológica, consubstanciada nos processos analíticos e sintéticos de nossa realidade mesológica, em sua fonte. Erradicando, destarte, os trabalhos de gabinete que têm surgido sobre os nossos problemas, os quais falseiam, despudoradamente, a verdade cientifica e moral. Urge, portanto, o trabalho planejado e científico, olhando para o futuro, deixando de lado este pragmatismo pernicioso, para nós, dos homens que se dizem práticos.

Economia: No Amazonas, os estudiosos desta matéria são muito poucos e têm se colocado à parte, não tomando posição ante a renovação por meios culturais adequados que venham beneficiar nossa região. Estudos econômicos que se têm feito no Amazonas não procuram observar a realidade, apegando-se estes a sistema geral, não penetrando na análise econômica. Essa deficiência de estudiosos do ramo da Ciência Econômica tem provocado, por parte dos administradores, atitude que, em vez de incentivar a produção, tem aniquilado novos empreendimentos econômicos em detrimento de uma nova fase de desenvolvimento para o Vale.

O Clube da Madrugada estudará e pesquisará, por intermédio de seus membros, os problemas que mais afligem a nossa região, e que são resolvidos, comumente, por “jornalistas”, sem conhecimento de causa, levando o povo a uma falsa orientação. Dependerá, sobremaneira, de estudos esclarecedores da matéria, uma nova atitude governamental, em relação a assuntos econômicos ligados diretamente ao desenvolvimento da Amazônia. Para este fim, por certo, contribuirá uma elite realista, conhecedora dos verdadeiros problemas da terra.

Filosofia: Pouco existe no ramo, mesmo porque os homens de letras do Amazonas apegam-se, como impertinência, aos estudos acadêmicos da filologia, em cujo labirinto perdem-se, em prolongadas polêmicas, sem resultado algum. E quando encontramos indivíduo interessado nos estudos filosóficos, é apenas superficialmente, sem nenhuma profundidade, conhecendo, de soslaio, a história da filosofia. Existem poucos filósofos no Brasil, e no Amazonas nenhum. Contra esse descaso levanta-se o Clube da Madrugada, procurando sistematizar um estudo dos princípios e fins do homem no Cosmo. Estudo este direcionado nos métodos universitários de amplo debate, quando entram em especulação sistemas filosóficos dos mais antigos aos modernos: sejam dos aleatas, jônicos, epicuristas, sofistas, espiritualistas, materialistas, aos marxistas, existencialistas e os neossistemas que têm aparecido. Demócrito, Epicuro, Sócrates, Platão, Plotino, Confúcio, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, Bergson, Kierkegaard e tantos desfilarão nos seminários que pretende realizar este movimento de renovação.

Esposando os princípios encimados e refutando o conservantismo rancoroso, o Clube da Madrugada tem por escopo plasmar uma nova consciência pertinente à realidade brasileira. Desta assertiva queremos dirimir quaisquer resquícios niilistas ou iconoclastas, mas, simplesmente, fazer ver aos nossos compatriotas que vivemos uma época de decrepitude senil. Deste modo, somos contra a concepção de um statu quo estático. Nascendo desta premissa, a nossa concepção dinâmica do processo histórico, determinando novas representações no pensamento humano, que se coadune com a evolução de nossas necessidades sociais. Lutamos, portanto, nesta segunda fase de nossa existência pela emancipação mental de nossa ideologia. Para o Brasil: artes, ciências sociais, sistema político e econômico eminentemente nacional, surgido da premência de nossa idiossincrasia. Esta nossa atitude, achamos conscientemente, não nos classifica como xenófobos. Pelo contrário, lutamos contra a xenomania de todos aqueles que advogam soluções literárias, políticas, econômicas e sociais com a já celebre sentença: MADE IN...

Esperamos, desde já, as compreensões dos homens de mentalidade abstrusa, que tiveram capacidade intelectual para acompanhar a nossa evolução social. Porém, a esses, haveremos de arrostar os empecilhos levantados, com o idealismo moço que nos anima a encetar esta cruzada, com o objetivo sacrossanto dos jovens livres, qual seja a libertação do Brasil dessa visão daltônica dos dirigentes, em todos os setores, responsável por uma consciência amorfa, numa geração que se forma. 

a)            Saul Benchimol, Francisco F. Batista, Luiz Bacellar, Jorge Tufic, Carlos Farias de Carvalho, Moacir Couto de Andrade, Alfredo Campos, Teodoro Botinelly Assumpção, Afrânio Mavignier de Castro, Fernando Collyer, Humberto Paiva, Miguel Barrela, João Bosco de Araújo, Djalma Passos.

 




[1] Uma referência direta à Academia Amazonense de Letras, não, como se poderia pensar, à Universidade, que, à época, não existia.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os 80 anos de Luiz Ruas na UFAM

HOMENAGEM A LUIZ RUAS

DIA: 28 DE NOVEMBRO DE 2011

HORÁRIO: DE 15:00 ÀS 21 HORAS

LOCAL: PAVILHÃO LUIZ AUGUSTO DE LIMA RUAS (HALL DO ICHL-UFAM)

PROGRAMAÇÃO

SOLENIDADE DE ABERTURA:

DIRIGENTE DA SESSÃO DE ABERTURA: PROFESSOR DR. NELSON DE MATOS NORONHA (DIRETOR DO ICHL-UFAM)

RECITAL DE POEMAS MUSICADOS:

EXECUÇÃO DA MELODIA DE POEMAS POR PARTE DE ALUNOS DO CURSO DE LETRAS.

RECITAL DE POEMAS DO LIVRO APARIÇÃO DO CLOWN, DE LUIZ RUAS, POR PARTE DOS DISCENTES DO CURSO DE LETRAS – LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA, ORIENTADOS PELA PROFESSORA DO DLLP, MARIA SEBASTIANA DE MORAIS GUEDES

HORÁRIO: 15 HORAS



 CONFERÊNCIA DE ABERTURA:

PROFESSORA DRA. MARIA MATILDE CORRÊA HOSANNAH DA SILVA

                     (FILOSOFIA-ICHL-UFAM) - MEDIADORA

PROFESSOR OSVALDO GOMES COELHO (FILOSOFIA-ICHL-UFAM)

CORONEL ROBERTO MENDONÇA

HORÁRIO: DE 16:00 ÀS 18:00 HORAS



CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO:

PROFESSOR DR. MARCOS FREDERICO KRÜGER ALEIXO (UEA E PPGL-ICHL-UFAM) - MEDIADOR

ESCRITOR TENÓRIO TELLES (ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS E VALER) - Ruas: poesia e espiritualidade

ESCRITOR E MESTRANDO ZEMARIA PINTO (PPGL-ICHL-UFAM) – Poemeu, a metafísica do profano

MESTRANDO ALEXANDRE SERRÃO (PPGL-ICHL-PPGL) – Pesquisa sobre Aparição do clown

HORÁRIO: DE 18:00 ÀS 20:00 HORAS



 SESSÃO DE ENCERRAMENTO: PROFESSOR DR. NELSON DE MATOS NORONHA

RECITAL DE POEMAS DO LIVRO POEMEU, DE LUIZ RUAS, PELOS DISCENTES MEMBROS DO CECLA – CENTRO ACADÊMICO DE LETRAS

RECITAL DE POEMAS MUSICADOS:

VOZ E VIOLÃO DO DISCENTE RAMON, DO CURSO DE LETRAS – LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA – ICHL-UFAM

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Maranhão Sobrinho, o místico de Satã – 4/4

Zemaria Pinto


Por mera coincidência, são também 14 as composições onde a figura demoníaca ou sua sombra vem à tona, ainda que apenas na atmosfera do poema. A começar por uma descida ao inferno de Dante, onde, no “O Oitavo Círculo”, penam os maus conselheiros. Lá, Virgílio, a Voz do Bem, “mostrou-me Reis e púrpuras de Papas...”. Em “Poetas Malditos”, ele continua a desfiar suas preferências de leitura, numa alusão direta à coletânea do mesmo nome, organizada por Verlaine, publicada em 1884, que destacava os nomes de Arthur Rimbaud, Tristan Corbière e Stéphane Mallarmé. Maranhão Sobrinho ajunta-lhes uns outros malditos eternos, como Petrônio e Voltaire, para concluir com um verso inusitado, cuja fórmula de repetição seria usada ainda outras vezes: Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!. “Na espiral do inferno” revela o “método” do poeta para alcançar mais força ao estro – a introspecção:

                    Quando em minhalma os plátanos do Horto
                    dos Sonhos gemem, como um kirie, ao vento, (...)


                    desço aos infernos do meu desconforto
                    nas asas triunfais do pensamento...

Mas é nos versos de “Satã”, dispostos na edição original logo após “Turris ebúrnea”, numa clara provocação, que o poeta perde a melhor oportunidade de dar “asas triunfais ao pensamento”, descrevendo, e apenas isso, com a melhor técnica parnasiana, um inferno ricamente ornado em pedrarias. Lendo os dois poemas na sequência, o leitor defronta-se com duas visões antagônicas, mostrando o próprio desconforto do poeta em mantê-las vivas dentro de si: 1) o místico por temperamento e simbolista por ideal, de um lado; 2) o satanista por opção e parnasiano por escolha própria, de outro. Maranhão Sobrinho carrega esse impasse e pinta-o com cores fortes no poema “Rubro”, vibrando nas sinestesias:

                    Cor de gritos! Clarim das cores! Serra
                    do emocional que o espírito retalha! (...)


                    Cor do Sol-Posto! Cor do Inferno! Cor
                    dos punhais e das lanças, difundida
                    por toda a terra, como a Luz e o Amor... (...)

                    Suprema cor da Morte e cor da Vida (...)

“Entre o céu e a terra”, “Visões” e “Em holocausto” podem ser lidos como relacionados entre si. No primeiro, “qual haste ao vento”, uma visada da humanidade: vejo esqueletos, em visões dançando, / cobertos de oiro, de paixões e vermes... No segundo, habitantes infernais vêm perturbar-lhe os sonhos: Brancas visões de Haydeas desgrenhadas. No terceiro, ele se entrega num ritual satânico: Serpe! podes morder meus sonhos que alanceias, / e enroscar-te no cedro augusto da minhalma!. Os três poemas são costurados pela linha tênue do sonho. Um recurso, aliás, que não precisaria ser explicitado.

“Rainha do mal” e “Bacante” também têm traços comuns, além de serem primas distantes daquela Fabíola de que se falou antes. Aqui, a mulher é idealizada de forma negativa, longe daquela acepção maternal, sendo mantida sempre a distância. Simbolizam a própria morte, mas não sem um certo charme, como se observa neste terceto da “Bacante”:

                    Há no teu seio, ó pérola bacante!
                    da brancura das brancas nebulosas,
                    toda a aromal luxúria do Levante.

“Memphis”, a mítica cidade egípcia, é outro poema prenhe daqueles símbolos sombrios: Pairam sobre os destroços sonolentos / de Memphis sombras, de pavor pejadas. “No horto de Getsêmani”, o caráter sombrio do poema, de novo descritivo, parece tornar-se mais leve quando constatamos, no verso final, em meio à tristeza pelo desaparecimento de Jesus, que era apenas o “vulto satânico de Judas”, errante, arrependido, talvez. Igualmente leve, apenas sugerida, é a sombra a pairar sobre o já citado “A um bêbedo”, quase didática: bebes no vinho, diluída, a morte...

Mas o poema que se destaca entre todos, nestes Papéis velhos, é o soneto “Interlunar”, uma delicada descrição do anoitecer – da vida. O clássico retrato do poeta cosmopolita lembra ao lúcido poeta provinciano a tarde que se vai:

                    Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,
                    tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
                    da tarde, que me evoca os olhos de Stefânio
                    Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

Naquele retrato, feito por Manet, guardado nalgum fundo de gaveta, ele reconhecia a si mesmo, por certo, especialmente pela unção de tristeza e incompreensão, os olhos baixos, perscrutando interiores. No poema “Crepusculares”, ele havia anotado, melancólico: Sei que mais uma tarde de saudade / leva-me o resto da manhã da vida...


V – A torre da concórdia


Há muito o que dizer do universo destes Papéis velhos, posto que nos ocupamos de não mais que um terço dos poemas nele contidos. Há, por exemplo, um caráter alegremente romântico contrapondo-se a uma morbidez recorrente que precisariam ser melhor explorados. Além disso, passamos ao largo de uma análise dos extratos fônico e semântico. Não posso deixar de observar, contudo, uma vez que representa um ponto de tensão dentro da poética de Maranhão Sobrinho, o já referido desconforto diante da forma. Maranhão Sobrinho é o típico poeta-legionário. Ele não tem pretensões a líder, não quer fundar religiões e despreza a história oficial. Mas nem por isso desiste de criar seu universo pessoal, caracterizando-se, ainda que timidamente, como um poeta-demiurgo. E nestes Papéis velhos, é fácil identificar a gênese desse universo: o desejo pessoal antagonizando com o desejo poético; o aplauso e o reconhecimento, dentro de suas limitações, versus a visão do futuro da arte poética. O poema “Torre de Sonho” parece evidenciar a chave desse conflito:

                    É a Torre do Triunfo, é a Torre da Conquista
                    pelos titãs da Forma à Emoção levantada
                    sobre alicerces de ouro, é a torre argamassada
                    com sangue a que só ascende a asa imortal do Artista!

A torre encantada é o ideal parnasiano frequentado pelo poeta dos símbolos, que, mais adiante, afirma que “muitos têm sucumbido da vertigem” por vê-la de perto. Ele, porém, vê chegar o seu momento de ascendê-la, “com um par de asas mais por cima de teus braços”. Sem esperança de alcançar a “suprema glória” (ver também esse poema) ainda em vida, o poeta, “alma em dor”, vê-se alçado, conduzido até a torre sonhada, após o seu desaparecimento.

Era um recado inútil, a província não lhe daria ouvidos. Aos poucos, ele foi sucumbindo ao peso da própria sombra. E seriam precisos 90 anos para que seu livro fosse reeditado e o poeta se reencontrasse com seu sonho.


Bibliografia

BRASIL, Assis. A poesia maranhense no século XX. Rio de Janeiro: Imago; São Luiz: SIOGE, 1994.

CAMPOS, Augusto de. Antipoesia no Simbolismo. In: Verso reverso controverso. 2ª edição. São Paulo: Perspectiva, 1988.

__________. O anticrítico. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3 volumes. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1952.

TEIXEIRA, Ivan. Metafísica e exílio. In: Revista Cult, nº 8. São Paulo: Lemos Editorial, março de 1998.

WILSON, Edmund. O castelo de Axel. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1993.

Ilustrações: Retrato de Mallarmé, por Édouard Manet (1832-1883);
2a. via da Certidão de Óbito de Maranhão Sobrinho;

domingo, 31 de outubro de 2010

Benjamin Sanches na Livraria Acadêmica

Rogel Samuel*



Leio no excelente Blog do Coronel que a Livraria Acadêmica de Manaus fechou as portas em 2009. Eu saberia se tivesse ido a Manaus, pois era um dos lugares aonde sempre ia, desde a adolescência.

“Fundada em 1912, este estabelecimento fechou as portas ano passado. Agora, o edifício passa por reformas e, certamente, ali não mais haverá livros nem papéis. Nem o acolhimento fidalgo do seu Barata. Restarão apenas saudades pelo fim do mais antigo templo ocupado pelos leitores da cidade”, escreveu Roberto Mendonça.

“O Estado, por iniciativa da Secretaria de Cultura, já transferiu o que restou do acervo da Acadêmica para o Centro Cultural Palácio Rio Branco. Merece ser visitado, aproveitando o visitante para estender os olhos pelos outros seletos ambientes”, acrescentou.

Numa de minhas idas à Acadêmica, comprei um raríssimo exemplar de Argila, de Benjamin Sanches, com a bela capa de Moacir Andrade.

O livro estava tão escondido no fundo da sala, que o Sr. Barata não queria vender-me, pois não sabia o preço.

Onde andarão aquelas gigantescas estantes de madeira?

E o passado, ali recolhido?

Aquela livraria teve muito a ver comigo: foi uma das poucas livrarias de Manaus que comprou o meu O amante das amazonas, diretamente da Editora Itatiaia.

Termino reproduzindo um poema de Argila, chamado “Fé”:

                    Ver
                    sem
                    bem
                    crer.
                    Crer
                    sem
                    bem
                    ver.
                    Crer
                    é
                    fé.
                    Ver
                    não
                    é.

(Argila, Manaus: Sergio Cardoso, 1957)

(*) Postado originalmente no blog de Rogel Samuel.

domingo, 24 de outubro de 2010

Manaus, amor e memória XIX

Restaurante Chapéu de Palha, na esquina da Paraíba com a Fortaleza, no bairro de Adrianópolis, em foto de 1974. Não procurem: não existe mais. Há muito tempo.

domingo, 26 de setembro de 2010

Joaquim Nabuco - o abolicionista

Zemaria Pinto


Não fosse o livro dedicado a mim e ao caro Almir Diniz, já seria motivo de imensa alegria noticiar o seu vir-à-luz.

Armando de Menezes, do alto dos seus 84 anos, faz uma lúcida análise do papel de Joaquim Nabuco no processo que culminou com a abolição da escravatura no Brasil.

Parte de uma série de palestras promovidas pela Academia Amazonense de Letras – entre maio e junho passados –  sobre aquele que, entre outros méritos, foi um dos maiores amigos de Machado de Assis, a plaquete de Armandinho mostra um autor no melhor da sua forma de pesquisador e ensaísta.

Por isso, sempre que ele me diz que já “pendurou as chuteiras”, eu argumento que ele, o bom Armando, ainda tem muito a nos doar. Taí o Joaquim Nabuco, que não me deixa mentir.

 Armando homenageia também o confrade Cláudio Chaves, o livreiro Antonio Diniz (do Sebão) e o historiador Roberto Mendonça.   

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os 80 anos de Alencar e Silva

Hoje, 21 de setembro, o poeta Alencar e Silva está comemorando seus 80 anos muitissimamente bem vividos.
Ao lado, um poema do Neto – como o chamam os amigos mais chegados – da fase pré-Clube da Madrugada, quando o poeta contava apenas 21 anos de idade, em homenagem ao “guru” Américo Antony.

Leia poemas de Alencar e Silva e Américo Antony nO Fingidor.

Pesquisa: Roberto Mendonça. Conheça também o Blog do Coronel.

domingo, 12 de setembro de 2010

Roberto Mendonça e Almino Affonso disputam cadeira de Narciso Lobo na AAL

Simão Pessoa*

No próximo dia 29, acontece uma nova eleição na Academia Amazonense de Letras (AAL) para escolha do novo acadêmico que vai ocupar a cadeira do saudoso poeta e jornalista Narciso Lobo (na foto ao lado, conversando com Roberto Mendonça).

Dois candidatos estão na disputa: o historiador Roberto Mendonça e o advogado Almino Affonso, ex-vice-governador de São Paulo.

Se eu pertencesse à Academia, com absoluta convicção votaria no historiador porque ele possui suas raízes fincadas neste chão.

Almino Affonso (foto abaixo) nasceu em Humaitá, mas desde 1958 só vem ao Amazonas rigorosamente a passeio.

Após 12 anos de exílio (1964-1976), ele retornou a São Paulo e foi secretário dos negócios metropolitanos de São Paulo no governo de André Franco Montoro, vice-governador do estado de São Paulo na gestão de Orestes Quercia, além de deputado federal e conselheiro da república.

Também foi candidato derrotado a governador em 1990, pelo PDT.

No ano 2000, foi secretário Municipal de Relações Políticas do rápido governo do prefeito paulistano Régis de Oliveira.

Quer dizer, Almino Affonso tem mais a ver com a Academia Paulista de Letras do que com a Academia Amazonense de Letras.

Roberto Mendonça nasceu em Manaus, no outrora bairro de Constantinópolis, hoje de Educandos, nos fundos do cine Vitória.

De origem humilde, foi interno do Seminário São José de Manaus, mas terminou a vida profissional como coronel aposentado da Polícia Militar do Estado.

Aposentado, ele resolveu caçar notas e fatos jornalísticos em páginas amareladas. Muitas, amareladas demais.

Ao trazer à lembrança fatos passados, nem sempre edificantes, Roberto Mendonça presta um serviço inestimável a quantos se empenham de alguma maneira – por necessidade acadêmica ou por curiosidade – com a história amazonense.

Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas desde 1994, Roberto Mendonça (foto ao lado) é autor dos livros “L. Ruas: itinerário de uma vocação”, “Intérpretes de Aparição do Clown”, “Catando papéis e escrevendo histórias”, “Cândido Mariano & Canudos”, “Os Bombeiros de Manaus”, e “Administração do coronel Lisboa”.

Quando soube que Roberto Mendonça era candidato à academia, o escritor amazonense Rogel Samuel, atualmente radicado no Rio de Janeiro, escreveu o texto abaixo, que endosso com fervor:

Leio que Roberto Mendonça é candidato a uma vaga na Academia Amazonense de Letras. Ninguém melhor do que ele pode servir à Academia.


Conheci-o há anos, na biblioteca da UFAM, em Manaus, na rua Ramos Ferreira. Ele já pesquisava os textos dos antigos acadêmicos: Ramayana de Chevalier, Genesino Braga etc.

Ele sabia que eu fui o primeiro a colocar na Internet os autores daquela época de ouro da AAL: Álvaro Maia, Péricles Morais, João Leda.


Ele sabia do meu gosto pelos autores amazonenses: André Araujo, Hemetério Cabrinha, Mavignier de Castro, João Nogueira da Mata, Pe. Nonato Pinheiro, Moacyr Rosas e tantos outros.


Tivemos grandes prosadores, antes dos grandes poetas do Clube da Madrugada.


Mas um livro em particular logo nos uniu naquele dia: “Aparição do Clown”, de L. Ruas.


Eu só tinha um xerox do livro, mas mesmo assim consegui colocar o livro no meu site, tempos depois.


Roberto Mendonça tem tudo para entrar na academia, vários livros importantes.


E, principalmente, amor pela literatura amazonense.

(*) publicado originalmente no blog do autor.