Amigos do Fingidor

sábado, 31 de dezembro de 2016

Carrie Fisher (21/10/1956 – 27/12/2016)


Aliás, Princesa Leia, líder das forças rebeldes contra o Império Galáctico.


Autor desconhecido.

Angelina Benedetti.

Julie Bell e Boris Vallejo.

Mark Brooks.

Michael Angove.

Milton Nakata.

Autor desconhecido.

Randy Martinez.

Tsuneo Sanda.

Karten Hallion.

Julie Bell e Boris Vallejo.


Jessica Strachan.

Enrique Torres.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

Dave Daring.

Dave Daring.

Dave Daring.

Autor desconhecido.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Retrato



Zemaria Pinto

Meu velho espelho noturno
meu companheiro de insônia
inda vês a mesma face
de outros tantos anos findos
nesta que se te apresenta
com as estrelas da manhã?

– Não mais há luz, posso ver
na noite que se derrama
dos girassóis de teus olhos
e a revolta cabeleira
ressonha revoluções
nos arredores da calva.

– No canto esquerdo da boca
uma rubra flor de herpes
afina inda mais teus lábios.
Dentes a menos há muitos
em tua boca emoldurada
por essa pífia papada.

O silêncio da parede
reflete apenas a ausência
daquele que eu nunca fui.
Na madrugada vazia
ouço rasgar meu soluço
ressonando a solidão.

Em qual Cecília, meu rosto,
ficou  meu espelho perdido?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Crítica platônica à medicina do pobre



João Bosco Botelho

Possivelmente, a passagem de Platão pelo Egito foi a responsável pelo resgate da lenda do deus egípcio Thot, protetor dos escribas, inventor dos números e dos cálculos, para criticar a substituição da memória oral já em curso naquele tempo na Grécia.
A divinização da memória, na Grécia, fez-se por meio da deusa Mnemosine, que lembrava aos homens os seus heróis e feitos, além de presidir a poesia lírica.  A memória estava distribuída em funções especificas pelo poeta, resgatando o passado com os cantores, e pelo adivinho, prevendo o futuro. Estava intimamente associada com a vida e colocava-se como o contrário do esquecimento, aqui entendido como o sinônimo da morte desmemoriada. Desse modo, a memória também apareceu como um dom aos iniciados nas doutrinas órficas e pitagóricas, ligadas à crença da metempsicose, na qual a lembrança das vidas anteriores, um dos pontos angulares do orfismo, vencia o esquecimento decorrente da morte e fazia renascer (reencarnar) com o conhecimento acumulado da vida anterior, com o objetivo de buscar a perfeição.
O médico, até hoje, edifica a sua relação com o paciente sobre a anamnese ou reminiscência, buscando, nas informações prestadas pela memória do doente, os fatos que podem ajudar a esclarecer o diagnóstico.
Não há mais dúvida que uma parte dos saberes médicos presentes na cultura grega, representa o produto sincrético do conhecimento dos povos, de regiões próximas, que antecederam a formação da Grécia.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho de Zeus com Leto. Apolo é reconhecido na literatura com dezenas de qualificações, além de deus curador. Foi também identificado como Aplous, aquele que fala a verdade. O seu poder era transmitido à água dos banhos que purificava a alma, e, por isso, era considerado o deus que lavava e libertava o mal. De modo geral, o herói grego estava quase sempre associado à arte de curar. Grande número de deuses e personagens da mitologia grega tinham, entre seus atributos, o dom de curar doenças e feridas de guerra.
Platão descreveu a necessidade da nova postura do médico no livro Político:
“Estrangeiro: É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua própria cidade senão com o consentimento de cada cidadão; de outro modo não.
Sócrates, o Jovem: Muito bem! Não estarão eles certos?
Estrangeiro: Talvez. Em todo caso se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos procedentes.
Sócrates, o Jovem: Que queres dizer?
Estrangeiro: Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou a uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas ineptas por parte de médicos que as puseram.
Sócrates, o Jovem: Dizes a pura verdade.
Estrangeiro: Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?”
Nunca é demais repetir esse diálogo porque refletiu uma explosão coletiva de consciência, como as que seguem as rupturas com o conhecimento acumulado, a ponto de refletir precisamente a nova posição social assumida pelo médico, capaz de poder interferir politicamente para modificar o conjunto social.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Bôn Pasku!



Pedro Lucas Lindoso

Visitamos Curaçao. A ilha faz parte das antigas Antilhas Holandesas. O passeio valeu a pena. A arquitetura colonial restaurada é de um colorido vibrante e charmoso. Faz inveja aos amazonenses como eu, que sonham com um restauro efetivo de nosso centro histórico. Bem que poderíamos resgatar a Manaus da Belle Époque, tempos em que a libra esterlina era moeda corrente na cidade.
Há ainda as praias paradisíacas e inabitadas como Klein Curaçao. Visitá-la implica em enfrentar por quase duas horas as ondas do Mar do Caribe. O retorno a Curaçao é suave, com a corrente favorável e a sensação agradável de ter conhecido um mar do mais profundo e enigmático azul.
A língua oficial em Curaçao é o Holandês, mas todos falam Inglês. Entretanto, a língua que se ouve nas ruas, no meio do povo, nos mercados e entre a população local é o Papiamento. Uma mistura de Português com Espanhol e com traços de Inglês, Holandês e Francês.
Papiamento era um dialeto. Hoje tem status de idioma e juntamente com o holandês é também língua oficial. As crianças são ensinadas em ambas com a introdução do Papiamento nas escolas públicas. Alguns são contra outros favoráveis. O ensino do inglês e do espanhol também é obrigatório.
A ilha é uma mini Babel. Ouve-se de tudo nas ruas. Inclusive mandarim. Mas a sonoridade do Papiamento me encantava e comecei a fazer anotações: “bôn dia”; “bôn tarde” bôn nochi” nos é familiar. E danki? Nem tanto, mas e a resposta “Di nada!
“Dushi” significa querido e amor. É palavra popular em Curaçao. Significa também tudo de bom, legal e gostoso.
– “Kon ta bai?”  A resposta é fácil. – “Mi ta bon “. – “Kon ta bo nomber?” – “Mi nomber ta Pedro.”
Penso que bastaria um mês por lá para dominar o Papiamento. Sem falsa modéstia, tenho certa facilidade para línguas. Sou fluente em inglês, francês e italiano.  Não falo holandês nem alemão. Mas entendo e leio um pouquinho. Os outdoors e placas da ilha são ora em holandês e Papiamento, ora em Inglês ou em ambas. Uma deliciosa miscelânea linguística!
E claro há restaurante de toda parte e para todo gosto. Entramos numa simpática trattoria – Il Barile Da Mario. Comida deliciosa. Na mesa ao lado sentou-se um simpático casal de italianos, Santo e Simonetta, moradores da vizinha Ilha de Bonaire. Disseram-me que os italianos eram raríssimos no caribe holandês. Um agradável e informativo papo com o casal e a dona do “ristorante”, Mirty Rossi, esposa do chef Mario que depois se juntou a nós na conversa.
Jamais havia sido exposto à tanta diversidade linguística em tão pouco tempo. Para mim foi uma experiência fantástica.
Ah! Antes que eu esqueça: FELIZ NATAL! em Papiamento se diz: BÔN PASKU !  Y BÔN ANJA NOBO!


domingo, 25 de dezembro de 2016

Manaus, amor e memória CCXCVI

Festa no porto de Manaus.
Ao fundo, no Centro, a Matriz.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Fantasy Art - Galeria


Manco Capac e Mama Ocuo.
Boris Vallejo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

exercício nº 19


Zemaria Pinto 


não quero a Palas penetrar sua imanência
o corpo etéreo, a torturada solidão
do olhar vazio a contemplar os horizontes
inatingíveis por humanas pretensões

eu quero sim a pele escura, os olhos míopes
de uma anti-helênica beleza, Diacuí
a torneada calipígia de suas ancas
dançando sôfrega e selvagem sobre mim

daí então vou distorcer o som da lira
cantar asneiras ancestrais, cantar leseiras
fazer barulho para o sono da cidade
depois dormir no leito impuro dos amantes

pois a Beleza, eu sentei-a no meu colo
e penetrei-lhe com a lascívia dos mortais


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Associação ao sagrado na medicina grega


João Bosco Botelho


A formação grega antiga tem as suas raízes nas invasões da península itálica pelos indo-europeus, no segundo milênio a. C. No século VIII a. C., chegam a essa região os regos, cartagineses e etruscos, povos mais adiantados em relação aos primeiros invasores.
Entre os séculos VIII e VI a. C. várias cidades são organizadas, contudo Atenas e Esparta se destacam com melhor organização social. Por essa razão, o confronto armado entre elas, a guerra do Peloponeso, no século V a. C., tornou-se inevitável e contribuiu para enfraquecê-las.
Em 359 a. C., Filipe da Macedônia, com 23 anos de idade, frente a um numeroso exército organizado, conquistou todas as cidades gregas. Com a base grega consolidada, seu filho Alexandre, o Grande, iniciou a anexação militar do imenso Império persa.
De modo geral é possível estabelecer quatro períodos na Medicina grega antiga:
– Primeiro período ou mitológico: mais abundante entre os séculos X e VII a. C., foi caracterizado pela essência mitológica, na qual os numerosos deuses do panteão grego são os responsáveis pela saúde e pela doença dos homens e das mulheres.
– Segundo período ou filosófico: inicialmente, liderado pelos filósofos pré-socráticos, teve o marco fixado no século VI a.C., quando foi iniciada a dissociação entre a Medicina e as idéias e crenças religiosas.
– Terceiro período ou hipocrático: desenvolveu-se em torno de Hipócrates e dos seus seguidores, no século IV a. C., na ilha de Cós, quando foi descrita a primeira teoria geral – teoria dos Quatro Humores – para explicar a saúde e a doença, representando a consolidação da ruptura da Medicina com os deuses.
– Quarto período ou pós-hipocrático: relacionado com o surgimento das correntes médico-filosóficas em Alexandria, logo após a morte de Hipócrates, no ano 377 a. C., que defendiam o dogmatismo e o empirismo.
A maior característica do panteão grego dessa fase é o caráter humano dos seus deuses, isto é, além de antropomórficas, as divindades eram materializadas como as mais bonitas, mais fortes, mais apaixonadas, mais viris do que os humanos, sempre encarregados de proteger tudo e todos em setores específicos da vida social.
Entre as centenas de deidades, as relacionadas com a saúde e a doença recebiam especial deferência:
– Afrodite: deusa da beleza e do amor, desfrutava de imensa importância na solução dos problemas sexuais;
– Hera: mulher de Zeus, protegia as mulheres grávidas das complicações do parto; Panaceia: deusa de todas as curas;
– Héracles: adepto da hidroterapia, utilizava plantas Medicinais com efeitos sedativos.
Destaque especial ao deus Asclépio. Os primeiros registros desse importante deus grego datam de 1260 a.C., na Tessália. Filho do poderoso Apolo com a bela e mortal Coronis, foi educado pelo centauro Quirão, o mestre do saber médico. Em consequência do seu extraordinário poder de ressuscitar os mortos, Asclépio foi elevado à suprema posição de deus da Medicina. Contudo, Zeus, outro influente deus grego, enciumado com o destaque de Asclépio e receoso que a ordem mortal do mundo fosse afetada pelo poder de ressuscitar os mortos, decretou sua morte com os raios dos Ciclopes. A cobra enrolada num bastão se tornou o símbolo do deus da Medicina grega. A tradição mitológica grega identifica a família de Asclépio constituída de dois filhos: Macaon, o mestre da cirurgia, e Podalírio, o inigualável clínico; e duas filhas: Hígia, aquela que assegura a prevenção das doenças, e Panaceia, o símbolo do remédio para todas as doenças.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Boca de forno



Pedro Lucas Lindoso

Quando menino brincava-se de “Boca de forno”. As crianças escolhiam o mestre. Este seria responsável por propor os desafios e dar ordens, tais como encontrar um objeto ou mesmo dar uma volta completa no quarteirão. O último a cumprir a prova levava um castigo. Se bem me lembro, os diálogos eram mais ou menos assim:
MESTRE - Boca de Forno.
CRIANÇAS - Forno!
MESTRE -Tudo que seu mestre mandar?
CRIANÇAS – Faremos todos!
MESTRE - Jacarandá.
CRIANÇAS - Já!
MESTRE - Quando eu mandar.
CRIANÇAS - Vou!
MESTRE - E se não for?
CRIANÇAS - Apanha!
Não me lembro jamais de ter descumprido uma ordem de um mestre. Também fiz o papel de mestre e todos cumpriram minhas ordens.
Quando adulto, acadêmico de Direito e depois advogado, aprendi que ordem de juiz é como na “boca de forno”: é para ser cumprida.
Há muito anos, assisti em Brasília uma palestra de um juiz federal americano chamado John Kennedy (impossível esquecer esse nome). A mediadora e tradutora era a então Juíza Federal Ellen Gracie Northfleet. Também difícil de esquecer pois seria nomeada posteriormente para ministra de nossa Suprema Corte. Hoje aposentada, após presidi-la.  O seminário versava sobre os mecanismos da Justiça Federal nos EUA e no Brasil. Aberto para questionamentos, alguém ousou perguntar ao magistrado americano:
– O que acontece quando não se cumpre uma decisão judicial nos EUA?
A resposta simplesmente foi de que isso nunca aconteceria. Lá é como na “boca de forno”. Ordens judiciais são cumpridas, pensei eu.
No Brasil há juízes de primeiro grau, os de segundo grau, chamados de desembargadores, e os ministros dos tribunais superiores. Todos, como na “boca de forno”, têm as suas decisões necessariamente cumpridas por todos os brasileiros a eles jurisdicionados.
Acima deles há os ministros do Supremo Tribunal Federal. Nos EUA membros da Suprema Corte são chamados de Mr. Justice. Quem ousaria não cumprir uma decisão emanada de um Mr. Justice ou de um ministro do Supremo Tribunal Federal? 
Provavelmente alguém que nunca brincou de “boca de forno”.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sobre poesia e espantos



Ferreira Gullar repetiu tantas vezes, que até ficou parecendo verdade: – a poesia nasce do espanto. Uma grande bobagem. A poesia é feita de espantos. Quem deve se espantar é o leitor, não o poeta.



(João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos – poetando e filosofando para meia dúzia de bêbados metidos a poetas, e que nunca tinham ouvido falar em Gullar, até 15 dias atrás)   

domingo, 18 de dezembro de 2016

Manaus, amor e memória CCXCV


Eduardo Ribeiro dos gordinis, jipes, fuscas e dekadablius.

sábado, 17 de dezembro de 2016

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A teoria da letra-poema ou de como e porque Bob Dylan ganhou – merecidamente! – o Nobel de Literatura 5/5



Zemaria Pinto


Outro clássico: Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, o Braguinha. Canção que emociona há muitas décadas, pois foi gravada pela primeira vez no mesmo ano de Chão de estrelas, a bem da verdade, é uma canção muito mais “atual”, “moderna”, que aquela, com sua romântica e envelhecida ideologia do bom malandro. Carinhoso, ao contrário, tem linguagem simples e uma melodia cativante, que qualquer frequentador de barzinho sabe levar. Mas a letra de Carinhoso...

Meu coração
Não sei porque
Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim

Ai, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem, vem sentir o calor
Dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz
Bem feliz

É uma letra funcional. Sem a envolvente melodia de Pixinguinha, é apenas um amontoado de clichês. A exceção poética – “e os meus olhos ficam sorrindo” –, não sustenta o todo, coroado pelo imperdoável “vem matar esta paixão / que me devora o coração”. Tenho vontade de pedir desculpas ao Braguinha, mas resta-me o consolo de reconhecer que a extraordinária composição do mestre Pixinguinha fica mais gostosa quando acompanhada pela letra funcional do mestre Braguinha. E só por curiosidade: a gravação original, de 1937, cantada por Orlando Silva, tem 02min46seg de duração, dos quais exatos 01min24seg – mais da metade – são ocupados com a introdução, orquestrada.
O caso Vinicius de Moraes. Poeta reconhecido desde 1935, quando lançou seu segundo e premiado livro de poesia, Forma e exegese, Vinicius teve vários poemas usados como letras antes de se tornar compositor quase que em tempo integral, exatos 20 anos depois, ao compor uma série de canções de câmara em parceria com o maestro amazonense Cláudio Santoro. No ano seguinte, iniciava a parceria com Antônio Carlos Jobim, dando vida à peça que viraria filme vencedor do festival de Cannes e do Oscar de filme estrangeiro, em 1959: Orfeu negro. A parceria com Jobim resultaria ainda no disco seminal da Bossa Nova – Canção do amor demais, na voz da “divina”, como Vinicius a chamava, Elizeth Cardoso (1920-1990). Esse disco abria com “Chega de saudade”, marcada pela estranha batida de um novo violonista: João Gilberto. Inquieto, em 1962 iniciou a parceria com Baden Powell, que nos legou afro-sambas antológicos, como “Berimbau” e “Canto de Ossanha”, além do delicioso “Samba da benção”. Outros parceiros vieram, ora com mais ora com menos frequência: Edu Lobo, Francis Hime, Chico Buarque, até o definitivo Toquinho.  Poeta lírico por excelência, uma análise da obra musicada de Vinicius de Moraes é campo fértil para demonstrar nossa raquítica teoria. Não é esse o nosso objetivo. Entretanto, vamos deixar pistas, para que o leitor possa exercitar-se, confirmando ou discordando da nossa teoria da letra-poema:

•   Poemas-letras: Poema dos olhos da amada, Soneto de separação, Soneto de fidelidade, A arca de Noé, A casa, Rosa de Hiroshima;
•   Letras-poemas: Serenata do adeus, Marcha da quarta-feira de cinzas, O que tinha de ser, Para viver um grande amor, O filho que eu quero ter, Bom dia, tristeza, Valsinha;
•   Letras poéticas: Minha Namorada, Sabe você, Pau-de-arara, Cotidiano Nº 2, Regra três, Menininha;
•   Letras funcionais: Só danço samba, O nosso amor, Garota de Ipanema, Amor em paz, Maria vai com as outras, Onde anda você?

Letra ordinária. Não, não nos esquecemos, leitor. Temos certeza que você não terá dificuldade em reconhecer a letra ordinária. Não precisa muito esforço. Basta ligar o rádio. Aliás, se fôssemos representar nossa teoria numa pirâmide quantitativa, muito parecida com aquela que vimos nas primeiras páginas deste livro, provavelmente ela ficaria assim.
Pirâmide representativa da provável quantidade de letras, por categoria.

               O poema-letra é uma exceção. Por outro lado, a letra-poema é mais rara que a letra poética, enquanto que a letra funcional constitui um universo muito maior que ambas. A letra ordinária, entretanto, domina, especialmente porque está ligada, qualitativamente, ao tipo de música que a veste. Música de má qualidade, letra do mesmo nível. Mas isso não deve ser motivo de queixa. São as leis de mercado. Só não precisamos submeter nosso discernimento a elas.

FIM

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Importância política do médico em Platão



João Bosco Botelho


O modo grego antigo de conceber a intricada relação dos homens e das mulheres com o mundo visível, isto é, como partes vivas da natureza, sementou novas analogias da saúde. As doenças deixaram de ser compreendidas isoladamente, e passaram a compor o produto resultante do desequilíbrio com a natureza.
Esse é um dos pontos fundamentais da Medicina grega, dos séculos V e IV a.C., marcando a união entre a Filosofia jônica da natureza e os conceitos de saúde e de doença.
O centro harmonioso dessa confluência formou-se em torno da teoria do médico Empédocles (495-435 a.C.). Segundo o filósofo de Agrigento, os corpos são formados por quatro elementos eternos que permanecem em movimento constante – fogo, terra, água e ar.
Pela primeira vez consolidou-se uma proposta teórica para explicar a origem das doenças conhecidas e das que viessem a aparecer. Toda e qualquer enfermidade seria determinada pelo desequilíbrio entre um ou mais elementos.
Empédocles foi mais longe e utilizou a clepsidra para ilustrar a sua teoria da respiração, segundo a qual o corpo transpira através dos poros espalhados por toda a superfície da pele.
É possível estabelecer uma relação direta entre a teoria da respiração de Empédocles com a doutrina cosmológica de que o ar é uma substância corpórea. Este raciocínio é, por si só, significativo na relação concreta da Medicina com a Filosofia grega.
A partir do estudo dos livros que chegaram até nós ficou clara a existência, entre os séculos V e III a.C., de uma compreensão diferenciada de dois principais grupos sociais que se interessavam pela Medicina: os médicos e os eruditos de outras áreas do saber.
Na tentativa de fortalecer o seu valor social, os médicos gregos, a exemplo dos sofistas, começaram a expor perante o público os problemas da relação saúde-doença, sob a forma de conferência e discurso preparado.
Platão (Político, 296a, b, c) sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e do político. Ambos, baseados no conhecimento, deveriam, sempre que necessário, intervir para promover melhoras na sociedade:
Estrangeiro: É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua  própria cidade, senão que for necessário para promover melhoras na sociedade.
Sócrates, o Jovem:  Muito bem!  Não estarão eles certos?
Estrangeiro: Talvez. Em todo o caso, se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará  a esse golpe?  Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos precedentes.
Sócrates, o Jovem: Que queres dizer?
Estrangeiro: Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas e ineptas por parte de médicos que as impuseram?
Sócrates, o Jovem: Dizes a pura verdade.
Estrangeiro: Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?

Este diálogo platônico reflete a explosão coletiva de consciência, como as que seguem as rupturas em certos conhecimentos acumulados. Estabelece  parâmetros muito claros da nova posição social do médico atuando como agente de uma Medicina como Paideia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Banhos de chuva


Pedro Lucas Lindoso


Estamos na época do Advento. Época de esperar a vinda do Menino Deus e meditar sobre o que aconteceu no ano que finda.
Houve coisas boas e coisa ruins. Quando menino gostava muito de tomar banhos de chuva. Não havia perigo. Morava no Centro. Não havia bueiros “boca de lobo” nas ruas.  Uma notícia no jornal me chocou tremendamente. Foi no mês de abril. Abril, chuvas mil.
Um menino chamado Andrezinho, de seis anos de idade, foi tragado por um bueiro. Encontrado morto. Andrezinho desapareceu após cair numa “boca de lobo” que deságua em um igarapé na Rua Perimetral, no bairro Amazonino Mendes, também chamado de Mutirão, na Zona Norte, aqui em Manaus. Descobriu-se que ele não existia. Não tinha certidão de nascimento. Não frequentava a escola.  Filho adotivo de pais separados. Seu corpo ficou insepulto por um mês. Até regularizarem tudo.
Sei de outro menino da idade de Andrezinho que mora em Brasília e provavelmente não toma banhos de chuvas. Tem certidão de nascimento e também cédula de identidade. Tem CPF e tem passaporte. Diplomático. E frequenta uma excelente escola. Particular.
Há mais de dois mil anos atrás nasceu o Menino Deus. Nessa época já registravam as pessoas. Pelo menos havia recenseamentos. José e Maria, seus pais, viajavam para Belém da Judeia, onde José deveria se apresentar às autoridades censitárias da época.
Segundo Lucas, o imperador Augusto decretou que todo mundo tinha de se registrar no local onde nasceu. Como José era descendente da família do Rei David, saiu para Belém com a mulher grávida. A família morava em Nazareth.
Esse Menino Deus veio para nos salvar. Teve oportunidade de estudar. Assombrava a todos no templo, com sua inteligência e sabedoria. Provavelmente, tomava banhos de chuva no rio Jordão. O Menino Deus renasce todo ano pelo Natal. Renova as nossas esperanças. O advento é tempo de conversão. É tempo de alegria. De júbilo.
Neste ano, rogo ao Menino Deus para que todos os meninos do Amazonas e do Brasil possam ter um registro civil. E possam também frequentar uma boa escola. E que possam tomar banhos de chuva com tranquilidade.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A reforma da previdência e os militares


Todos são iguais perante a previdência, mas os militares são mais iguais que os outros!



(João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos – citando George Orwell, a propósito da temerária reforma da previdência, na madrugada do Galvez, sem ser entendido ou sequer ouvido por ninguém.)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Manaus, amor e memória CCXCIV


O sombrio Casarão da Marechal Deodoro,
onde funcionou a Chefatura de Polícia.

sábado, 10 de dezembro de 2016

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A teoria da letra-poema ou de como e porque Bob Dylan ganhou – merecidamente! – o Nobel de Literatura 4/5


Zemaria Pinto


Letra poética. A letra poética não chega a ser um poema, porque sua existência só tem sentido aliada à música. Isto é, ela não se sustenta sozinha. A leitura pura e simples de uma letra poética não comove, não arrebata. Aliada à música, entretanto, a letra poética é valorizada, cresce e às vezes até nos confunde. Mas nem por isso seu valor é menor. Quer dizer, seu valor literário é menor, mas grandes clássicos da música brasileira têm letras que não são poemas extraordinários, mas nem por isso são menos belas, como A Felicidade, por exemplo, parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes:

A felicidade é como a pluma
que o vento vai levando pelo ar:
voa tão leve
mas tem a vida breve
precisa que haja vento sem parar

Paulinho da Viola, um dos maiores poetas da música brasileira, tem, em sua composição mais conhecida, um exemplo de letra poética, que não seria conhecida sem a extraordinária melodia que a envolve:

Ah, minha Portela
quando vi você passar
senti meu coração apressado
todo meu corpo tomado
minha alegria voltar...
Não posso definir aquele azul
não era do céu, nem era do mar
foi um rio que passou em minha vida
e o meu coração se deixou levar

Os exemplos são incontáveis. Só para ficarmos naqueles compositores citados mais acima, vamos enumerar canções que se encaixam nesta categoria. Chico Buarque: Carolina, Olé olá, Apesar de Você; Caetano Veloso: Menino do rio, Trilhos urbanos, Força estranha; Gilberto Gil: Domingo no parque, Refazenda, Drão; Paulinho da Viola: Tudo se transformou, Comprimido, Num samba curto.
Letra funcional. Manuel Bandeira, que teve muitos poemas musicados (poemas-letras), dizia que ao escrever letra interessava-lhe mais o efeito sonoro que o efeito literário. O velho mestre queria com isso dizer que a letra era uma função da música, por isso não podia sobrepô-la. Ele mesmo jamais publicou suas letras, escritas para parceiros ilustres como Jaime Ovalle e Heitor Villa-Lobos. Mas uma letra de Bandeira era e será sempre uma letra de Bandeira, não serve para ilustrar o que chamamos de letra funcional. Esta não é poética. Cumpre uma função emotiva/informativa, diretamente relacionada com a música. Sem a música, a letra funcional é prosaica. Vejamos um clássico da canção brasileira:

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar 
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

A transcrição foi integral para que você não pense que estamos “escondendo” algo na letra de Vinicius, para a bela melodia de Tom Jobim. Se você ler o poema, sem a música, o que sobra? Uma lamúria monótona (quase digo uma cantilena, mas poderia ser mal interpretado), sem qualquer centelha de poesia. Mas é um clássico da música popular brasileira. Não há como dissociá-la da música que a envolve. As duas – letra e música – formam um todo indivisível, e é assim que ambas serão lembradas.


(Continua na próxima sexta-feira)