Amigos do Fingidor

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic


II – POESIA
 

                        Ela vem do grego, poiesís, ‘poesia’, poíema. - atos, ´poema, poesia = poema’ (sendo o épico épos, o lírico mélos); poíetes ‘poeta’; poiétria, ‘poetisa’; poíetikós, ‘poético’; poietikeúomai, poetar, poetizar, são co-radicais derivados do verbo gr. poiéõ, fazer; fabricar, executar, criar, produzir; agir, ser eficaz; compor um poema; conseguir, núcleos semânticos que, de um modo geral, coexistem nas palavras de início referidas (Enciclopédia Mirador Internacional, vol. 16, pag. 9017). Em latim varias palavras dessa origem ocorrem tomadas por empréstimo. Amplia-se, com isso, o território semântico do ‘fazer’, desdobrando-se para artífice, opífice; aplica-se o termo poético como relativo à poesia; poeto, poêtor passa a ter o significado de depoente. Com vários sentidos no grego, poiesís, poesia, é empregada, em Aristóteles, como ‘criação’, em oposição a pràksis, o agir, a ação; em Platão, como gênero poético, em que he poietike ekatéra significa  ‘os dois gêneros poéticos’, isto é, a tragédia e a comédia. 

                        Tentativas de definição de poesia se acumulam posteriormente, e ao nível da descrição da linguagem valorizam e dão autonomia à palavra poética. No Renascimento, a arte poética, influenciada por Aristóteles, situa-se mais próxima da filosofia que da história. A teoria dos poetas românticos, baseada na existência de um conteúdo psicológico, coloca sua matéria prima na vida dos sentimentos e das emoções. Com Mallarmé, “a poesia é a expressão pela linguagem humana, elevada ao seu ritmo essencial, do sentimento misterioso dos aspectos da existência: ela dota assim de autenticidade nossa vida e constitui a única tarefa espiritual”. Para Novalis, “a poesia é a religião original da humanidade”. “De modo geral, as concepções românticas de poesia não separavam o universo vivido do universo poético. A poesia era dada como imaginação projetiva, captação imediata das emoções e apreensão vivida dos objetos particulares. Os poetas, vinculados à ideologia individualista do liberalismo burguês, davam à poesia a alta função de revelar a verdade humana em sua originalidade” (idem, pág. 9018). 

                        A Concepção retórica. “Na Idade Média a arte de fazer versos era denominada segunda retórica, e os poetas, retóricos. Dante resumiu toda a tradição medieval na sua lapidar definição de poesia: “fictio rethorica in musica posita” (ficção retórica musicalmente composta). Essa concepção, em formas mais refinadas, sobreviveu até nossos dias, presente quer na resposta de Mallarmé a Degas (“a poesia se faz com palavras e não com idéias”), quer nas teorias linguísticas ou semiológicas mais recentes. Por essa via, chega-se ao formalismo linguístico, para o qual a poesia é uma máquina de combinações experimentais de palavras, de que resultam significados novos. Dentro dessa perspectiva, não há nenhuma experiência pré-poética capaz de mobilizar a atividade produtora de poesia. Uma série de signos, caprichosamente combinados pelo poeta, é bastante para criar o objeto-poema (Ib., pág. 9018). 

                        A Concepção lúdica. “A palavra ritmada e cantada, ligada ao ritual mágico, tinha o sentido de um jogo sagrado. Com o passar do tempo, perdeu seus compromissos com o sagrado, e o ludismo que nela ainda se pode encontrar fica ao nível da palavra, no jogo de suas virtualidades semânticas e sonoras. As unidades materiais desse jogo – as palavras – já não vêm carregadas de seu poder mágico-encantatório. Aspiram a ser tão somente peças de um jogo combinatório que se arma e desarma segundo leis descobertas no próprio ato de fazer.” (Ib., pág. 9018). 

                        Registram ainda as Enciclopédias e os tratadistas que nossas teorias são limitadas. Tampouco as metodologias utilizadas, a exemplo da fenomenológica, que busca localizar a poesia em quaisquer dos “estratos ou camadas estruturais, verticalmente articuladas”, conseguem atingir seu pleno objetivo. A experiência que resulta de tais pesquisas remete, pelo contrário, à obtenção de um número cada vez maior de camadas para que se tome consciência da totalidade poética.

domingo, 29 de abril de 2012

Manaus, amor e memória LVI

Devia ser uma delícia, sair da ópera todo emperiquitado e enfiar o pé na lama...

sábado, 28 de abril de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Antonin Artaud e a estética da vertigem 1/2



Zemaria Pinto

Por ser fora do comum, a obra de Antonin Artaud precisa de instrumentos incomuns para ser analisada e melhor entendida. Ao propor a “estética da vertigem”, busco compreender não apenas a obra de um autor em particular, mas todo o universo romântico, desde seus precursores até nossos dias.

Artaud, em A paixão de Joana D'Arc, de Dreyer (1929).
Aqui não podemos admitir o reducionismo didático de que o Romantismo acaba quando começa o Realismo ou o Simbolismo. Na verdade, a revolução romântica ainda está em curso, embora não esteja na moda. Os últimos românticos estiveram em voga lá pelos anos 60, com os beats e os hippies, on the road. O romantismo é um processo permanente e contínuo, que põe em evidência a postura do artista e sua relação com a sociedade. O artista pós-moderninho rejeita os rótulos porque não tem identidade, ou melhor, não se identifica com nenhum dos rótulos disponíveis. A modernidade acabou com o romantismo enquanto escola, mas não enquanto concepção de vida. Quem mais moderno e romântico que Glauber Rocha, Torquato Neto ou Cazuza? Ou Jack Kerouac, Ana Cristina César e Allen Ginsberg?

Mas, afinal, que romantismo é esse? De certo que não é o romantismo de açucareiro, das mocinhas casadoiras ou das “poetisas” temporãs. Tampouco, o exibicionismo dos idiotas que acreditam que o máximo da vida é plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Não, falo do romantismo enquanto vertigem. A vertigem é a sensação de ter o mundo girando a nossa volta, ou, inversamente, de que giramos descontroladamente no centro do mundo. A vertigem é a recusa às regras, aos modelos, às normas − é o grito pela liberdade de criação. A vertigem não comporta a arte vestida de linho branco sob a brisa de uma tarde azul de domingo. Não, a vertigem é o caos, a anarquia, a aventura, o desequilíbrio, a lama, a podridão, a escuridão. A vertigem é o não.

Mago, profeta, predestinado, o gênio romântico sob a vertigem tem êxtases místicos, que lhe descortinam o supra-real e o infinito.  A beleza torna-se relativa e seus ingredientes passam a ser antagônicos. As inquietações populares, ele as busca enquanto elas ainda adormecem no seio do povo. O romântico é um revolucionário. Sua pátria é o mundo. E ele parte em busca de outros mundos, procurando a essência, o primitivo, o primordial.

O tempo como dimensão psicológica, uma conquista romântica, mantém vivo, através dos anos, o impulso rebelde da primeira metade do século passado. A modernidade não rompe com os padrões clássicos porque os românticos já o fizeram. A modernidade apenas radicaliza a proposta romântica, colocando a linguagem como o vértice supremo da paixão. E aqui, quanto mais profundo e radical o mergulho, mais nos encontramos no centro da vertigem − simbolista, futurista, cubista, expressionista, dadaísta, surrealista, beat: vertigens.

Artaud faz parte de uma tradição que remonta a Gérard de Nerval, poeta francês hiper-romântico, precursor do Simbolismo, que mereceu de Artaud um ensaio apaixonado, e que, como ele, tinha problemas mentais, tendo sido internado diversas vezes. Artaud, que sofrera de meningite quando criança e tivera convulsões na adolescência, foi internado pela primeira vez aos 19 anos. Aos 24 tornou-se dependente de láudano, um derivado do ópio, que usava para combater as constantes dores de cabeça.
Artaud, por ele mesmo: um olhar cruel.

As grandes referências de Artaud compõem uma lista de ícones do Romantismo, embora nem sempre sejam assim reconhecidos, dadas as limitações da ortodoxia acadêmica: Poe, Baudelaire, Lautréamont, Hölderlin, Nietzsche, Blake. Entre o êxtase das drogas e as experiências sensoriais extremadas que procuravam a liberação do “eu”, o Surrealismo “institucionalizou” a busca da transcendência da percepção a qualquer custo. Participante de primeira hora, Artaud rachou com os surrealistas quando estes resolveram fazer parte do mundo real. A participação política organizada, a adesão ao Partido Comunista, apenas confirmavam a decadência estética de Breton e seus seguidores: a criação de um código teórico, uma poética, que poria por terra quaisquer laivos de autêntica liberdade criadora.



(Conclui na próxima sexta-feira.)
Publicado nos anos 90, no Amazonas em tempo.

REVELAÇÃO: quem é o poeta CARLOS FARIAS


Amanhã, 27, a AAL faz uma homenagem póstuma ao poeta Farias de Carvalho: a medalha Péricles Moraes. Aberto o precedente, de Gaspar de Carvajal a Tonzinho Saunier, todos os escritores mortos do Amazonas são homenageáveis... Mas quem sou eu para pretender interpretar os desígnios dos sábios acadêmicos?
Carlos FARIAS Ouro DE CARVALHO (1930-1997).

O que me leva a escrever esta notinha é o fato de que – fruto da barbárie, da estupidez e da ignorância, como diria um dileto amigo – o querido Farias de Carvalho virou, para a imprensa amazonense, CARLOS FARIAS. Hoje, depois de tanto ler sobre a homenagem póstuma ao tal, um distraído amigo meu, que tem Farias de Carvalho na sua cabeceira, perguntou-me quem era afinal o tal Carlos Farias, que estava causando tanto alvoroço...

Quisessem homenagear a família, o igualmente querido Renato Augusto Farias de Carvalho, irmão mais novo do nosso herói, poeta refinado, seria a bola da vez. Mas Renato está melhor que todos nós, passeando pela Europa, cavando e vagando para esses que aí estão, atravancando o seu caminho...

(Zemaria Pinto)
O animal conhece a morte tão-somente na morte; já o homem se aproxima dela a cada hora com inteira consciência e isso torna a vida às vezes questionável, mesmo para quem ainda não conheceu no todo mesmo da vida o seu caráter de contínua aniquilação. Principalmente devido à morte é que o homem possui filosofias e religiões.
(Schopenhauer)


Arthur Schopenhauer.
Autor desconhecido.

(Fonte: O mundo como vontade e como representação. Tradução: Jair Barboza, Editora Unesp, 2005, p. 84)

terça-feira, 24 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Curso de Arte Poética


A poesia através dos tempos



I - Poesia
                       

                        Inicialmente, cabe perguntar: como fazer poesia se ela, a poesia, já existe independentemente da palavra e do poema? Colocada nestes termos, a poesia se manifesta, no homem, como necessidade de expressão e comunicação de estados psicológicos, emoções, sentimentos, etc. As sociedades ágrafas, impregnadas de sentido místico e sobrenatural, utilizavam recursos fonéticos, gestos, danças, movimentos, rituais, inclusive a sonoridade por meio de instrumentos de sopro e percussão, para transmitir e “guardar” o seu mundo riquíssimo em tradição, poesia, ciência e artesanato, dos quais se utilizavam, também, para as utilidades domésticas. 

                        A poesia, nas sociedades tribais ou primitivas, encontra sua mais alta forma de expressão através do lendário e da mitologia que informa sobre o modo como surgiram, incluindo-se, aí, a terra, os bichos, as águas, os homens, seus deuses e seus heróis. Aliada ao sonho e á natureza de que se alimentam as visões e a fantasia, ela traduz a sabença que intui dos mistérios, dos valores e das grandezas físicas do Universo. A linguagem é indireta ou metafórica, mas sua qualidade poética reside, sobretudo, na adequação do linguajar da criança ao senso de medida que empresta aos fatos narrados uma situação mágica da própria realidade. Melhor explicando, as noções convencionais de espaço e de tempo, peso e volume, se anulam face ao imaginário acumulado e transmitido pelos narradores de estórias. Os índios, assim, representam o pleno exercício físico e vocal da poesia, antes da cultura e da palavra escrita. 

                        Os povos indígenas contam seu mundo. Uma parte dessa “literatura” dos primórdios da Amazônia acha-se recolhida nas obras de Antônio Brandão de Amorim, Barbosa Rodrigues, Elmano Stradeli, Nunes Pereira, Theodor Koch-Grünberg e outros. A língua geral do Amazonas ou Nheengatu (= nheen (língua), catu (bonito)), falar bonito, orquestrada pelos missionários jesuítas como primeiro passo da cataquese, servira ao mesmo tempo para contornar a fechada barreira dos falares e dialetos existentes na região, facilitando, posteriormente, a coleta daquele material etnográfico: lendas, costumes, puçangas, mistérios e testemunhos. Saberiam, por acaso, os cientistas que tesouro poético traziam para a cultura do branco? Sobre este fato inusitado escreve Raul Bopp: “Os nheengatus, colhidos genuinamente nas malocas do Alto Urariquera e na região do Rio Negro, eram de uma enternecedora simplicidade. Por exemplo: “Há muito, já, no princípio do mundo, contam, desceu do céu uma moça, de lindeza de rosto” etc. Ou então: “Nos tempos de  antigamente...” O tuxaua acreditava na sua origem cósmica quando dizia: “Aquela estrela que me gotejou...” Nos diálogos afetivos, usavam o diminutivo dos verbos: “estarzinho”, “esperazinho”, “adoçazinho” etc. Para dar ênfase a certos episódios, recorriam ao processo de repetição do vocábulo, como “pula-pulavam”, “vira-virando” etc. “(Raul Bopp, “Putirum”, ed. Leitura S.A, Rio, 1968). 

                        Língua postiça, importada, artificial e imposta, legou-nos contudo, o nheengatu, a riqueza e a plasticidade de um vocabulário singular, dentre o qual substantivos, adjetivos e verbos que detém a fragrância, a tônica e o toque mágico na fixação da paisagem e dos fenômenos que movem, e se movem, em planos, emaranhados e acidentes geográficos de  cada pedaço habitado pelas diferentes nações, ou tribos autóctones. Temos, assim, PANÃPANÃ (borboleta), CATUÍ (bonzinho), YÚRI (água corrente), CUARI (buraquinho), YPIXUNA (água preta), PURANGA (bonito), ANDIRÁ (morcego) etc. Dos verbos que transmitem carinho, amizade, conforto e segurança: ESTARZINHO, DORMEZINHO, fazer DOIZINHO, ADOÇAZINHO etc.; inclusive muitos outros, somente traduzíveis para qualquer idioma mediante recursos estilísticos habilidosos. 

                        Com certa estilização no arranjo das linhas, que passam da forma prosaica para versos e poemas, transcrevemos, a seguir, as lendas Macuxi, do Rio Negro, e a Uanana, do Alto Rio Negro. A “Elegia Tucano” é de nossa autoria, inspirada recentemente na última curva, talvez, de transição e decadência desse povo heróico.



LENDA MACUXI

(Rio Branco)

  

No princípio era o canto.

A lua cantava pelo céu, todos ouviam

seu canto bonito.

Por cima dos galhos macacos cantavam.

Todos os animais da terra

– répteis, aves e peixes –

também cantavam.

Antes a noite era grande, vazia.

Da carne das frutas comidas pelo homem,

nasceram os animais.

Das sementes brotaram cabas, formigas,

lacraus e aranhas.

Lançadas ao rio, estalaram seus peixes.

A árvore que falava, disse ao homem:

– Come a carne da fruta,

depois enterra a semente.

Mas ele esqueceu-se do que a árvore lhe disse,

passou a estragar tudo,

espantou-se do que fez.

Embaixo da árvore os bichos e animais

aumentavam de número e tamanho.

As sementes deixadas nos galhos

cantavam saracura, guariba e outros.

No rio jacaré, sucuriju, piraíba,

outras espécies cantavam também.

Ele ficou espantado: nenhuma árvore

lhe respondia mais onde estava

nem de onde vinha esse barulho.

O homem quedou-se triste,

e já não tinha (já) como de onde fugir.



ELEGIA TUKÂNO

  

Ai, Kaxpi,

meu sapo cozido,

meu pote sonâmbulo,

minha canoa tonta,

meu rio afogado,


dai-me o sono, Kaxpi!


Uma outra vez, dai-me, Kaxpi,

a visão da maloca,

a palha seca umari,

meu banquinho feliz,

meu trovão de brinquedo.



Contam, contam,

nós vimos de longe,

Cobra Grande nos dera caminho,

a terra das margens

uniu-se aos tukâno.

É por isso Kaxpi,

que a porta da maloca

começa no rio.



Teu vinho de Lua,

teu visgo doce de flauta,

tua boca de arco-íris

fazem ver estes lugares, Kaxpi,

ouvir o milho pitá,

a mukura canhen,

a onça, a forquilha,

a cigarreira do avô.



Tudo pequenininho, Kaxpi,

mas a gente entendia...



O bosque do sol,

a velha do Curupira,

o forno de farinha,

as redes de dormir,

o ralo de macaxeira,

o jirau, as estacas,

o espinhaço da Casa...



ainda estamos em viagem, Kaxpi,

na barriga da Cobra.




PARAMAN E DUHI



Nessa cachoeira da Onça,

sobre o lajedo que é feito

com pedras de antigamente,

as duas moças da tribo

pelo moço já esperavam.

Seu rosto às vezes boiava

no espelho azul de algum sonho.

O moço também as via

quando por elas sonhado.



Dali mesmo ele surgiu.

Três dias foram de festa.

Depois, então, combinaram,

cada moça por sua vez,

fugir com seu namorado.

Só que as irmãs eram duas

para uma sombra de rio.



Hoje, a cachoeira é deserta,

o tempo dói quando passa.

Três asas de borboleta

rodopiam nessa margem,

fazem puçanga de lua.

Três remos buscam seu porto

sem que saiam de onde estão.

Três corpos soçobram n’água

entre alegria e tormento.

Três flautas de osso e taboca

soluçam guelras de vento.




AS VÁRIAS MORTES DE MAKUNAÍMA


Makunaíma sacode o corpo do mato.

O chão se levanta, e caminha.

Fazer é o seu verbo de frutas alegres,

e por onde ele anda, um ramo de susto

cai desprotegido.

O solo é um gorjeio.

Aqui, uma cobra balança seu cacho de veneno;

ali, Makunaíma já tomou sua pele

e veste, com ela, os macacos da noite.



Makunaíma é o princípio do invento.

Para ser anzol ele começa de peixe:

sabe esperar com boca de piranha

o lance do pescador.

Para ver-se homem fazendo o que fazem

com a racha das mulheres,

ele fica menino pidão; mas foge pro mato

com a embira do irmão.

O verde é um silêncio de festa.

Makunaíma despeja seu gozo de febre,

e, lá no alto, surge a constelação

do Mutum. Ele fabrica o céu

com os pés de terra.



Suas mortes são várias.

Porque mesmo no bucho de uma fera,

ou dividido entre braços, pernas, dedos,

tronco, ele comanda o suor do resgate,

a surpresa e o vazio

daqueles que o trazem de volta.

Não tem sacanagem de bruxo

que lhe passe à distância.

Makunaíma tece a hipnose dos grilos.

Com essa teia de sons ele entrama

o tempo no espaço:

arruma as coisas de novo,

se deita, afinal, em seu leito de palha.



E enquanto dorme, fricciona os artelhos

e provoca um incêndio,

somente, só, para rir dos mosquitos.





(JT, baseado in “Vom Roraima zum Orinoco”, de Theodor Koch Grünberg, 1917)

domingo, 22 de abril de 2012

sábado, 21 de abril de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Os trezentos anos da morte do padre Antônio Vieira

Zemaria Pinto

  

Conselheiro de reis, confessor de rainhas, preceptor de príncipes, embaixador junto às potências europeias, a autoridade temporal do jesuíta Antônio Vieira era tão grande quanto sua autoridade espiritual de defensor de judeus, índios, negros e também dos brancos pobres, a quem via como sementes do mesmo fruto, filhos do mesmo Deus.

Deus que ele negaceou ao invectivar em um de seus sermões mais contundentes:

– Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois esta é a licença e a liberdade que tem quem não pede favor senão justiça.

Vieira nasce em Lisboa em 1608, mas logo aos seis anos vem com sua família para Salvador, na Bahia, onde estuda no Colégio dos Jesuítas, fazendo depois o noviciado na Companhia de Jesus. Só aos 33 anos retorna para a corte, onde chama a atenção pelos sermões inflamados e o sotaque da colônia.

Não demoraria muito para que à simpatia da família imperial se somasse o ódio da Inquisição. Como castigo, é mandado de volta para o Brasil. No Maranhão e na província do Grão-Pará, que se dividiria depois em Pará e Amazonas, Vieira produz sermões que sensibilizariam posteriormente a corte, em páginas ainda hoje, infelizmente, atualíssimas:

– Ah!, fazendas do Maranhão, que se esses mantos e essas capas se torceram, haviam de lançar sangue!

De volta a Portugal, o Santo Ofício cassa-lhe a palavra, como fez há pouco tempo com Leonardo Boff, e recolhe-o à prisão, por dois anos.

Os anos seguintes à libertação foram vividos entre Lisboa e Roma, onde, apesar da Inquisição, seu prestígio continuava inabalado, até o retorno definitivo a sua Bahia, aos 73 anos.

Mas nem pensar em parar: até o fim de sua vida, aos 89 anos, Padre Antônio Vieira escreveu freneticamente. E além de sermões e cartas, deixou várias obras onde profetizava o Portugal do futuro: o Quinto Império. No item profecias, entretanto, Vieira foi infeliz. Sorte nossa.

O barroco no Brasil só encontra verdadeira expressão nos poemas de Gregório de Matos e nos sermões de Vieira. Forçoso é pois traçar um paralelo entre eles, contemporâneos e amigos. Se Gregório fazia a crônica das mazelas da Bahia, Vieira filosofava e moralizava. Se Gregório escarnecia, Vieira ironizava. Se Gregório tinha uma visão negativa do mundo, Vieira antevia o paraíso humano no futuro. Se a poesia religiosa de Gregório era contrita e penitente, a prosa de Vieira jamais se curvava. Ambos libertários em seus limites históricos, Gregório espiava o mundo pela fresta, enquanto Vieira encarava o mundo de frente, ou, como alguém já escreveu, de cima!

Neste 18 de julho, faz 300 anos da morte de Antônio Vieira, a quem o poeta Fernando Pessoa proclamou Imperador da Língua Portuguesa, e que em vida mereceu ser chamado de apóstolo, e a quem, ainda hoje, não poucos consideram um  gênio.

A militância incansável de Antônio Vieira era explicada por ele mesmo em palavras singelas:

– A verdadeira fidalguia é a ação. O que fazeis, isso sois, nada mais.

Obs: publicado em julho de 1997, no Amazonas em tempo.

Antônio Vieira, no traço de Portinari.

Coleções do Museu Amazônico

terça-feira, 17 de abril de 2012

Fantasy Art – Galeria

Igor Kamenev.

Tenório Telles no Futura


O escritor amazonense Tenório Telles é o entrevistado de hoje, 17/04, do programa Livros Que Amei, do CANAL FUTURA. A série é dirigida por Suzana Macedo. O programa é apresentado sempre às terças-feiras, às 21h30, horário de Manaus. Durante 30 minutos, Tenório Telles falará de sua formação como leitor e sobre os livros que marcaram sua vida.

 As personalidades convidadas compartilham com os leitores lembranças relacionadas à leitura, hábitos e preferências literárias, revelando três obras, sobre temas variados, que foram fundamentais na sua formação, tiveram um papel importante na transformação de seu modo de pensar e/ou marcaram algum momento de suas vidas.

 As falas do escritor serão comentadas pelo crítico literário José Castello, pelo poeta Carlito Azevedo e pelo jornalista Luiz Paulo Horta. Durante o programa, Tenório Telles enfatizará a importância das obras destacadas em sua vida: “Eclesiastes”, livro da Bíblia, “Quincas Borba”, de Machado de Assis, e “Sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Leituras de Jane Austen no século XXI


Para mais informações, clique aqui.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic

Noções de cotidiano e sentimento poético

O exercício de qualquer modo poético ensina a ver e a sentir o nosso cotidiano não apenas como um território de batalhas pela sobrevivência material, mas, sobretudo, como veículo e atmosfera de emoções constantemente renovadas, surpresas e descobertas.

Sendo afetiva e universal, a poesia manifesta-se independentemente da vontade de cada um. O ser é parte dela. Esmagada ou esquecida em razão de interesses que parece contrariar, ainda assim, sob vários outros nomes e formas, ela penetra em tudo e em todos por magia de fenômenos pré-existentes ao raciocínio lógico.

A mente coletiva, presa aos estames da produção e do consumo, deixa passar em branco sequências, movimentos, figuras, paisagens e fatos que, de repente, dado o hábito que adquirimos de correr e “esfriar” os sentidos mais próximos do humano, são creditados ao mundo da fantasia. A exploração do homem pelo homem, a miséria ambulante e ambulatória, a infância abandonada, as casas em ruínas, o êxodo rural que amplia o latifúndio e abarrota os presídios, as colinas e os campos distantes, o abate indiscriminado de animais, a verde transparência dos bosques, a lenta agonia das árvores, o drama social dos que vivem expostos ao perigo e à morte, já se constituem em partes inseparáveis desse vasto painel que se divide, principalmente, entre a casa e o trabalho. Diante dele, porém, raro saímos de nossa concha para um voo mais extenso, capaz de avaliar as sutilezas que dançam entre o sólido e o volátil, entre o simples e o complexo.

Viver, dizia o campeiro ao praciano, todo mundo vive. Conviver, é que é. Extrapolando, portanto, da convivência entre pessoas, a convivência plena só pode ser alcançada quando vamos ao encontro dos “elos” e “qualisignos” do nosso cotidiano. É desse encontro, sem dúvida, que brota o sentimento poético. Nos passos da multidão enxergamos agora a caminhada do homem em seus diversos estágios de evolução e desenvolvimento. Nos olhares aflitos da criança e do cão que tentam atravessar uma rua, começamos também a refletir sobre os fracassos do nosso progresso. É que o homem, em última hipótese, já era dono de seu próprio caminho terrestre, antes do automóvel. O cotidiano é poético na medida exata de sua humanidade.

A mudança de época altera a pressão da linguagem, mas em nada modifica o “sentido primordial” e o “sentido profundo” do insight. A Forma Simples frustra o intento mais ousado das classificações literárias, e o “gesto verbal” recria a legenda. Segundo André Jolles, “para falar em termos de escolástica, pode-se dizer que a legenda contém, de modo virtual, o que existe na Vida de modo atual”. Considera Jolles, em seu livro famoso de 1930, as “formas simples” enraizadas na linguagem como “gestos verbais” elementares e que se originam de “disposições mentais” básicas do Homem em face do mundo e da vida. Dessas formas simples (que incluem a legenda, a saga, o mito, a adivinha, o ditado, o caso, o memorável, o conto e o chiste), analisa o autor a natureza, as características e as formas históricas de atualização, mostrando que delas derivam as formas literárias mais complexas: assim, por exemplo, o romance policial é a atualização da adivinha (“Formas Simples”, Ed. Cultrix, SP, 1976). O que houve afinal após tudo isso? Terá a industrialização contribuído para estancar as fontes genéticas do mito, a força da legenda ou as múltiplas vertentes do conto e da gesta? Ou novas “disposições mentais” vieram à tona com a trágica libertação do átomo para fins genocidas?

De qualquer modo, todo o “revestimento” da civilização e da cultura inclina-se para o estético. A perspectiva de tais conjuntos sugere o poético. Para exemplificar, não se pinta uma casa somente com o intuito de proteger o embuço de suas paredes. Nem se plantam jardins, com repuxos e estátuas, somente para exibir exemplares da flora e entidades míticas, ou religiosas. A urbanização, coroamento que instala, definitivamente, o homem em seu novo hábitat, sempre em luta desigual com as mazelas do progresso, empenha-se também no embelezamento e no repouso de linhas estáveis, tendo em vista o bem-estar público. Em teoria, contudo, o longo trajeto de soerguimento do homem tem um compromisso ainda longe, talvez, de ser realizado: o de levá-lo, com êxito, a um segundo paraíso, humanamente impossível enquanto prevalecerem as diferenças de classes.

Translado, rotina, jogo e clarividência, toda poesia é social. Incursor e praticante de seu cotidiano, o poeta, este cidadão libérrimo, se toca e se arrasa em traumas silentes, envolto na fugacidade de uma existência criadora, mas vítima, ao mesmo tempo, das grandes e pequenas tragédias que montam a perspectiva e o absurdo do mundo contemporâneo. A sensibilidade moral e a condição humana, norteiam seus passos. Lírico ou épico, seu discurso traduz a lasca viva do torvelinho, da mudança e da transformação. Sua linguagem opera em todos os níveis, pois a linguagem poética está a uma linha quase invisível daquilo que se denota. É a linha imaginária que une os contrários diante da reflexão de um minuto, apenas. Este leve tecido humaniza e dá um sentido às coisas. Este sentido é poesia.

Publica o Suplemento Literário de Minas Gerais, em seu nº 1103, que Mário Quintana evita os entrevistadores, “chatos perguntativos”, na sua opinião, para driblar perguntas e assuntos poéticos. Ele prefere conversar amenidades, ou coisas do cotidiano. Quintana, tido como o mais puro dos poetas, tira de suas passadas habituais pela cidade de Porto Alegre, a cor, o som, a palavra e o neologismo bem à maneira de seus poemas instantâneos, até de suas vírgulas. Ao contrário de certos colegas de ofício, que de tanto se confinarem em suas bibliotecas mais parecem livros do que gente, esse poeta gaúcho, estando agora numa fase de releitura do quanto lera e vivera em toda sua vida, é, portanto, na vida e no mundo que ele busca alimento para escrever. Seu coloquialismo retoca o Inferno de Dante... (1988)

Filósofos, cientistas e tecnocratas, ao cabo e ao fim de suas lucubrações, deparam com a verdade na poesia. Todas as aparências e projeções de fenômenos naturais ou mecânicos, apesar de infletirem qualidades variadas, dependendo do ângulo, da visão e do sentimento que observa, nunca se repetem. A luz do sol, o reflexo das águas e tantas outras “descargas” e toques subliminares, povoam nossos dias. A noite apanha estes sonhos, e navega com eles. Como seja a posição de cada um, nós tomamos desses objetos a imagem real ou a imagem ideal. Esse gesto comum, aliado a uma “estória” ou mesmo aos temas de nossa intimidade doméstica, se exprime por várias outras imagens e metáforas que às vezes se combinam de modo inconsciente. Essa imagem ideal, que já existia, por exemplo, no projeto e no sonho do artista antes da imagem real, é um dos componentes do nosso cotidiano. Associada ao convívio afetivo, ela vai enriquecendo e aprofundando as demais vivências que tivemos nas idas e vindas em que tantos outros fatores – como o vento e as chuvas – tiveram sua parte.

O cotidiano, abrigo de signos & objetos, processo de todos os processos em qualquer baliza de entendimento, construção e objetivo, ele tem, na poesia, a única linguagem que torna possível a diversidade, impossível a comunicação e permanente a expectativa. O cotidiano no campo, nas montanhas, nas grutas, nas torres, nos ares, nos rios, nas florestas, nos oceanos, nos pântanos, como este Mato Grosso de Manoel de Barros, o cotidiano nas fábricas, nos velhos e nas crianças, o cotidiano nos mortos. É preciso vê-lo, senti-lo e vivê-lo neste outro cotidiano – resumo de todos os demais cotidianos – que está na arte do poeta. O cotidiano das normas, das regras fixas e das terminologias que, logo logo, ao contato das realidades em fluxo, se ampliam ou desaparecem na conquista de novas formas e novas palavras. Ou de formas, volumes e cores apenas, sem qualquer palavra.

“Nos tempos dos aztecas, segundo crenças religiosas, ao final de cada ciclo de cincoenta anos, a vida antiga deveria ser destruída, pelo menos simbolicamente, iniciando-se um novo ciclo. Isto implicava em que todos os fogos fossem apagados, todos os utensílios domésticos destruídos ou renovados” (L. S. Cressman, “Homem, Cultura e Sociedade”, Ed. Fundo de Cultura, 1956). Tenhamos aí, portanto, que os templos seriam as obras de arte construídas por todos os membros da sociedade. Aos utensílios domésticos, como até hoje se verifica entre os remanescentes íncolas do Alto Rio Negro (AM), produtos de arte e artesanato, também se incorporam formas e representações de fundo mítico. Nas sociedades complexas do mundo atual, encontramos também uma atmosfera de criatividade e saturação de mitos e símbolos, que, por sua vez,  se renovam. Mais do que nunca, o cotidiano global é a Fênix da Poesia. Ele destrói e recompõe com tamanha rapidez, que até dele nos esquecemos.

O propósito desta comunicação é demonstrar aos interessados na Arte Poética como fora esta organizada, desde as suas origens, chegando a formar um corpus de regras e normas bem considerável. A exemplo do triolé, fácil de improvisar. No todo, porém, a Arte Poética, hoje, está livre de amarras. Livre até da Gramática que, segundo pensam os mestres do ideograma chinês, só foi inventada para estragar a poesia. Mas achamos, por fim, que se deve e se pode tirar algum proveito daquilo que, por ser indispensável em qualquer iniciação do gênero, ainda vale para todos os tempos.

Para reduzir incursões através de nossa própria experiência no trato com a poesia, tomamos por empréstimo, na parte eminentemente técnica deste trabalho, um pouco da metodologia e dos textos da professora Nelly Novaes Coelho, de Geir Campos, em seu “Pequeno Dicionário de Arte Poética”, e, em, menor escala, do “Vocabulário de Poesia”, de Raul Xavier. Numa visão panorâmica, como pesquisa, montagem e contribuição pessoal, evitamos, nele, a ênfase preceptiva de modelos e sugestões para análise de textos, visando antes motivá-los como resposta ao que foi apreendido e aprendido, no curso das “aulas”.

Afinal de contas, tudo começou quando fomos convidado a ministrar um Curso de Arte Poética a professores do 2º Grau, no Instituto de Educação do Amazonas. Nem é preciso dizer que os mestres-ouvintes, instigando e debatendo até o osso, nos deram, após, a idéia deste livro.

Obs: estaremos, a partir de hoje, e sempre às segundas-feiras, postando, integralmente, o livro Curso de Arte Poética, do mestre Jorge Tufic. Publicado há 10 anos, em pequena tiragem, o livro é hoje uma raridade - daí Tufic haver decidido compartilhar com nossos leitores esses relâmpagos do conhecimento poético.