Zemaria Pinto
Por ser fora do comum, a obra de Antonin Artaud
precisa de instrumentos incomuns para ser analisada e melhor entendida. Ao
propor a “estética da vertigem”, busco compreender não apenas a obra de um
autor em particular, mas todo o universo romântico, desde seus precursores até
nossos dias.
Artaud, em A paixão de Joana D'Arc, de Dreyer (1929). |
Aqui não podemos admitir o reducionismo didático de
que o Romantismo acaba quando começa o Realismo ou o Simbolismo. Na verdade, a
revolução romântica ainda está em curso, embora não esteja na moda. Os últimos românticos
estiveram em voga lá pelos anos 60, com os beats e os hippies, on the road. O romantismo é um processo
permanente e contínuo, que põe em evidência a postura do artista e sua relação
com a sociedade. O artista pós-moderninho rejeita os rótulos porque não tem
identidade, ou melhor, não se identifica com nenhum dos rótulos disponíveis. A
modernidade acabou com o romantismo enquanto escola, mas não enquanto concepção
de vida. Quem mais moderno e romântico que Glauber Rocha, Torquato Neto ou
Cazuza? Ou Jack Kerouac, Ana Cristina César e Allen Ginsberg?
Mas, afinal, que romantismo é esse? De certo que não é
o romantismo de açucareiro, das mocinhas casadoiras ou das “poetisas” temporãs.
Tampouco, o exibicionismo dos idiotas que acreditam que o máximo da vida é
plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Não, falo do romantismo
enquanto vertigem. A vertigem é a sensação de ter o mundo girando a nossa
volta, ou, inversamente, de que giramos descontroladamente no centro do mundo.
A vertigem é a recusa às regras, aos modelos, às normas − é o grito pela
liberdade de criação. A vertigem não comporta a arte vestida de linho branco
sob a brisa de uma tarde azul de domingo. Não, a vertigem é o caos, a anarquia,
a aventura, o desequilíbrio, a lama, a podridão, a escuridão. A vertigem é o
não.
Mago, profeta, predestinado, o gênio romântico sob a
vertigem tem êxtases místicos, que lhe descortinam o supra-real e o
infinito. A beleza torna-se relativa e
seus ingredientes passam a ser antagônicos. As inquietações populares, ele as
busca enquanto elas ainda adormecem no seio do povo. O romântico é um
revolucionário. Sua pátria é o mundo. E ele parte em busca de outros mundos,
procurando a essência, o primitivo, o primordial.
O tempo como dimensão psicológica, uma conquista
romântica, mantém vivo, através dos anos, o impulso rebelde da primeira metade
do século passado. A modernidade não rompe com os padrões clássicos porque os
românticos já o fizeram. A modernidade apenas radicaliza a proposta romântica,
colocando a linguagem como o vértice supremo da paixão. E aqui, quanto mais
profundo e radical o mergulho, mais nos encontramos no centro da vertigem −
simbolista, futurista, cubista, expressionista, dadaísta, surrealista, beat:
vertigens.
Artaud faz parte de uma tradição que remonta a Gérard
de Nerval, poeta francês hiper-romântico, precursor do Simbolismo, que mereceu
de Artaud um ensaio apaixonado, e que, como ele, tinha problemas mentais, tendo
sido internado diversas vezes. Artaud, que sofrera de meningite quando criança
e tivera convulsões na adolescência, foi internado pela primeira vez aos 19
anos. Aos 24 tornou-se dependente de láudano, um derivado do ópio, que usava
para combater as constantes dores de cabeça.
Artaud, por ele mesmo: um olhar cruel. |
As grandes referências de Artaud compõem uma lista de
ícones do Romantismo, embora nem sempre sejam assim reconhecidos, dadas as
limitações da ortodoxia acadêmica: Poe, Baudelaire, Lautréamont, Hölderlin,
Nietzsche, Blake. Entre o êxtase das drogas e as experiências sensoriais
extremadas que procuravam a liberação do “eu”, o Surrealismo
“institucionalizou” a busca da transcendência da percepção a qualquer custo.
Participante de primeira hora, Artaud rachou com os surrealistas quando estes
resolveram fazer parte do mundo real. A participação política organizada, a
adesão ao Partido Comunista, apenas confirmavam a decadência estética de Breton
e seus seguidores: a criação de um código teórico, uma poética, que poria por
terra quaisquer laivos de autêntica liberdade criadora.
(Conclui na próxima sexta-feira.)
Publicado nos anos 90, no Amazonas em tempo.