Amigos do Fingidor

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O amor reduz a complexidade da vida...

Marco Adolfs


A noite estava fria, com poucos restaurantes abertos àquela hora. “Paris desaparece durante as noites frias”, alguém disse. “Os seres desaparecem após fazerem seus vinhos descerem pelas gargantas”, pensei.

Alpinistas. Fumos ácidos. Vinho descendo. Minha cabeça flutuava para longe do corpo, suspensa em uma corda de nylon balouçante, a subir mais uma montanha. Observando, mais uma vez, uma monstruosa percepção da realidade.

– Depois de amanhã estaremos na Áustria! – alguém gritou, brindando.

Mas eu me imaginava, também, dormindo em um pequeno sótão com água-furtada e a escrever um livro. No intervalo para descanso, lendo Spengler. Depois, ficando a ronronar como um gato. Um tigre, talvez. Mas existe muita sensualidade em escalar uma montanha. Ela nos chama para um delírio em busca de uma espécie de gozo. A felicidade de certos homens parece estar sempre em eles ficarem suspensos entre o céu e a terra.

Foi quando Allendy virou-se para mim e disse:

– Estou com saudades da Ana.

– Você deveria tê-la trazido – observei.

– Não quis vir, desta vez... Disse que não aguentava mais subir montanhas.

“O amor reduz a complexidade da vida”, pensei então repentinamente. Quando dois seres se completam, uma montanha torna-se irrisória perante esse sentimento. O escalar desloca o seu eixo para a vida de cada um. E isso é que é bom. Saber que a alma de alguém amado é mais importante do que tudo. Que a verdadeira montanha está dentro de cada um. As verdadeiras arestas e dificuldades de percurso até o cume... Ao clímax... E que, no caso dos seres humanos, estão no espírito de um homem e de uma mulher que resolvem amar.

– Mas quando você voltar terá o mundo real a teus pés – comentei. 

– O que nos move? – perguntou então Allendy, após mais um gole de vinho.

– A conquista... conquistar uma montanha... ou a mulher amada.

Após os nossos vinhos naquela noite fria, Paris começou a dormir melhor em cada um de nós. Principalmente em Allendy, que disse a nós todos que não iria mais seguir o grupo e que iria voltar para a sua amada Ana. Quanto a nós outros, precisávamos descansar bastante. Para subirmos mais uma montanha.

domingo, 27 de novembro de 2011

Manaus, amor e memória XXXIV

Palácio da Justiça.
A parelha de jumentos à sombra não é nenhuma metáfora... Mero acaso.
Estão rindo de quê?

sábado, 26 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma análise do Eu – 2/13

Zemaria Pinto

As influências
 

Como demonstramos, a poesia de Augusto dos Anjos não nasceu do nada. Havia mesmo, pode-se afirmar, uma predisposição, em redor do poeta, à poesia filosófico-científica, que deve ter sufocado maiores influências das tendências mais vigorosas: o Parnasianismo e o Simbolismo. As referências a alguns dos autores preferidos da escola do Recife, como Spencer e Haeckel, dão a dimensão dessa influência. O primeiro verso do Poema Negro, composição definidora do seu estilo, dá bem uma idéia do que se passava com o poeta: “Para iludir minha desgraça, estudo.” Como veremos mais adiante, Augusto dos Anjos definiria claramente o seu estilo a partir de 1906, quando era um veterano da Faculdade de Direito. Presume-se que os três anos do intervalo ele os passara estudando, absorvendo a nova maneira de escrever, tomando-a para si, elaborando uma linguagem própria, que iria muito além das pretensões de seus colegas de escola.

Num depoimento datado de 1912, ele admite que as suas maiores influências são William Shakespeare (1564-1616) e Edgar Allan Poe (1809-1849). São influências fáceis de serem reconhecidas. As referências a Shakespeare são feitas através de alusões a personagens trágicos seus:   

- Macbeths da patológica vigília... (Monólogo de uma sombra)

Como o rei Lear, no meio da floresta! (As cismas do destino)

Os fantasmas hamléticos dispersos... (Os doentes)

Que festejou os funerais de Hamleto! (Tristezas de um quarto minguante)

Quanto a Poe, autor do poema O Corvo e inventor da literatura de mistério, sua presença pode ser notada na construção das atmosferas sombrias, a que nos referiremos na análise da linguagem. Mas a presença de Poe clama pela presença de um outro discípulo seu, Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867), autor de um livro fundamental para a poesia pós-romântica: As Flores do Mal, publicado em 1857, semente do movimento simbolista e raiz profunda de toda a poesia que se fez nos cem anos que se seguiram à sua publicação.

Observe, leitor, estes fragmentos de A carniça, de Baudelaire, na tradução de Jamil Almansur Haddad, e tire suas próprias conclusões: 

Recorda-te do objeto e que vimos, ó Graça,
Por belo estio matinal,
Na curva do caminho uma infame carcaça
Num leito que era um carrascal. 

Suas pernas para o ar, tal mulher luxuriosa,
Suando venenos e clarões,
Abriam de feição cínica e preguiçosa
O ventre todo exalações.
(...)
Moscas vinham zumbir sobre este ventre pútrido
Donde saíam batalhões
Negros de larvas a escorrer - espesso líquido
Ao largo dos vivos rasgões.
(...)
Isso mesmo serás, rainha das graciosas,
Aos derradeiros sacramentos
Quando fores sob a erva e as florações carnosas
Mofar entre os ossamentos. 

Minha beleza, então dirás à bicharia,
Que há de roer-te o coração,
Que eu a forma guardei e a essência da harmonia
Do amor em decomposição.  

Augusto dos Anjos não apenas ecoa Baudelaire, como dialoga com ele, num moderníssimo exercício intertextual. Compare estes versos de Budismo moderno com os dois primeiros versos da estrofe acima:  

Que importa a mim que a bicharada roa
Todo o meu coração depois da morte?! 

Os versos acima nos trazem à mente, leitor, uma outra influência de Augusto dos Anjos, o pintor holandês Rembrandt (1606-1669). Budismo moderno começa assim: 

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.   

O quadro mais famoso de Rembrandt chama-se “A Aula de Anatomia do Doutor Tulp”. Mostra oito cidadãos em torno de um corpo sem vida, cujo braço fora aberto, deixando à mostra músculos e ossos. O Dr. Tulp, responsável pela dissecação do cadáver, tem uma tesoura à mão. E daí, você pode estar se perguntando, não seria mera coincidência? Não, porque o poeta era admirador do pintor, ao ponto de citá-lo nominalmente, transformando-o em adjetivo comum: 

Mostrando em rembrandtescas telas várias... (Monólogo de uma sombra)

Como uma pincelada rembrandtesca... (As cismas do destino 

Falamos das influências estéticas, mas não podemos ignorar as influências filosófico-científicas, fundamentais para a leitura proveitosa da poesia de Augusto dos Anjos. falamos na influência exercida pelas novas idéias que vinham da Europa. Dois autores são particularmente caros aos adeptos da escola do Recife: Spencer e Haeckel.

Herbert Spencer (1820-1903), filósofo inglês, antecipou Darwin na formulação da lei da evolução, estendendo-a a todos os campos da experiência humana. Para Spencer, o conhecimento científico, em permanente evolução, jamais atingirá o limite da realidade absoluta, onde está o incognoscível, porque este transcende a capacidade do conhecimento humano.

Ernest Haeckel (1834-1919), filósofo alemão, foi o principal divulgador do Monismo, doutrina que, como dissemos, prega que o conjunto dos fatos, lógicos ou físicos, pode ser reduzido à unidade: a nossa alma é apenas uma parte da alma universal; o nosso corpo é uma partícula do corpo universal. O Monismo, é preciso dizer, opõe-se ao Dualismo, doutrina que admite a coexistência de dois princípios irredutíveis que se opõem e se completam: bem/mal, espírito/matéria, corpo/alma etc.

Monistas evolucionistas (ou vice-versa?) era como se proclamavam os expoentes da escola do Recife, numa época em que se discutia filosofia naturalmente, nos jornais e revistas, ou nas conversas cotidianas.

Mas a formação de Augusto dos Anjos deve muito também ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Essa influência, aliás, confunde-se, no mais das vezes, com o pensamento budista, também assimilado e fartamente citado pelo poeta. Podemos simplificar o pensamento de Schopenhauer da seguinte forma: a vida do homem oscila entre o sofrimento e o tédio; o prazer é apenas uma cessação provisória do sofrimento. Schopenhauer saída para o homem na contemplação estética, na prática ética da justiça e da caridade e na vida ascética, longe dos prazeres mundanos. A doutrina budista, milenar, cuja figura principal é Sidarta Gautama Buda, não difere muito, podendo ser resumida da seguinte forma: a vida é sofrimento; a causa do sofrimento é o desejo; é preciso acabar com o desejo para acabar com o sofrimento. O ideal budista é o Nirvana, estágio de não-sofrimento atingido somente pelos iluminados.

A poesia de Augusto dos Anjos é toda pontilhada por citações dessas idéias, sendo recorrentes os nomes de Spencer e Haeckel. Seria ocioso reproduzi-las, posto que são claras e objetivas, embora este seja o “calcanhar de Aquiles” da poesia de Augusto dos Anjos: os termos “científicos”, que tornam indispensáveis o uso de um bom dicionário durante a leitura. Mas observe estas estrofes do poema Queixas Noturnas, de fundamental importância na trajetória do poeta, conforme veremos na análise do estilo:


Sobre histórias de amor o interrogar-me
É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nemmulher talvez capaz de amar-me.
(...)
Melancolia! Estende-me a tu’asa!
És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!   

Não ao desejo. Não ao prazer. Melancolia. Dor. Essa é a essência da expressão filosófica em Augusto dos Anjos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os 80 anos de Luiz Ruas na UFAM

HOMENAGEM A LUIZ RUAS

DIA: 28 DE NOVEMBRO DE 2011

HORÁRIO: DE 15:00 ÀS 21 HORAS

LOCAL: PAVILHÃO LUIZ AUGUSTO DE LIMA RUAS (HALL DO ICHL-UFAM)

PROGRAMAÇÃO

SOLENIDADE DE ABERTURA:

DIRIGENTE DA SESSÃO DE ABERTURA: PROFESSOR DR. NELSON DE MATOS NORONHA (DIRETOR DO ICHL-UFAM)

RECITAL DE POEMAS MUSICADOS:

EXECUÇÃO DA MELODIA DE POEMAS POR PARTE DE ALUNOS DO CURSO DE LETRAS.

RECITAL DE POEMAS DO LIVRO APARIÇÃO DO CLOWN, DE LUIZ RUAS, POR PARTE DOS DISCENTES DO CURSO DE LETRAS – LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA, ORIENTADOS PELA PROFESSORA DO DLLP, MARIA SEBASTIANA DE MORAIS GUEDES

HORÁRIO: 15 HORAS



 CONFERÊNCIA DE ABERTURA:

PROFESSORA DRA. MARIA MATILDE CORRÊA HOSANNAH DA SILVA

                     (FILOSOFIA-ICHL-UFAM) - MEDIADORA

PROFESSOR OSVALDO GOMES COELHO (FILOSOFIA-ICHL-UFAM)

CORONEL ROBERTO MENDONÇA

HORÁRIO: DE 16:00 ÀS 18:00 HORAS



CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO:

PROFESSOR DR. MARCOS FREDERICO KRÜGER ALEIXO (UEA E PPGL-ICHL-UFAM) - MEDIADOR

ESCRITOR TENÓRIO TELLES (ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS E VALER) - Ruas: poesia e espiritualidade

ESCRITOR E MESTRANDO ZEMARIA PINTO (PPGL-ICHL-UFAM) – Poemeu, a metafísica do profano

MESTRANDO ALEXANDRE SERRÃO (PPGL-ICHL-PPGL) – Pesquisa sobre Aparição do clown

HORÁRIO: DE 18:00 ÀS 20:00 HORAS



 SESSÃO DE ENCERRAMENTO: PROFESSOR DR. NELSON DE MATOS NORONHA

RECITAL DE POEMAS DO LIVRO POEMEU, DE LUIZ RUAS, PELOS DISCENTES MEMBROS DO CECLA – CENTRO ACADÊMICO DE LETRAS

RECITAL DE POEMAS MUSICADOS:

VOZ E VIOLÃO DO DISCENTE RAMON, DO CURSO DE LETRAS – LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA – ICHL-UFAM

Medicina como especialidade social – Cátedra universitária 2

João Bosco Botelho

A cátedra universitária remonta a esse período. O professor ficava sentado numa grande cadeira, daí o nome de cátedra, e ditava a aula aos alunos calados e atentos, ávidos de conhecimentos, sem questionar as exposições do catedrático.

As mudanças já iniciadas, o desvendar dos corpos pela anatomia e a posição dos filósofos, mesmo com a condenação de Galileu, em 1633, instigam novas leituras da dor, acompanhadas de inevitáveis rupturas com o passado hipocrático-galênico-cristão. Destacam-se, no século 17, o médico inglês Harvey, em 1628, com a publicação do “Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in anima”, demonstrando os erros de Galeno sobre a circulação do sangue.

De modo genial, Marcelo Malpighi, em 1666, com o livro “De viscerum structura”, retirou a doença dos humores de Hipócrates, recolocando-a na microestrutura, estabelecendo o segundo corte epistemológico da Medicina como especialidade social: o pensamento micrológico, que mudaria quase tudo nos selos seguintes até a atualidade.

Ocorreu no século 17 quando a doença foi retirada da macroestrutura corporal dos humores para a microestrutura dos tecidos por meio da micrologia ¾ a dimensão celular ¾, descrita nos estudos de Marcelo Malpighi (1628-1694), marcando a nova fase dos saberes da Medicina-oficial.

O resultado foi a instituição da mentalidade microscópica, inaugurando o desvendar da multiplicidade das formas e das funções escondidas dos sentidos natos. Pouco a pouco, o estudo da célula dominou os meios acadêmicos. Hoje, é o sustentáculo do atual ensino da Medicina-oficial. Mesmo nos hospitais mais bem equipados, os tratamentos dependem do diagnóstico microscópico quantitativo e qualitativo das células corporais. Isto significa que a estrutura teórica dos saberes médicos, pelo menos no Terceiro Mundo, em pleno final do século 20, ainda está alicerçada sobre os princípios teóricos da patologia celular oriunda do século 17.

A micrologia enfraqueceu as teorias greco-romanas de Hipócrates e Galeno, entendidas como dogmas das universidades, no medievo europeu. Não muito depois, pouco a pouco, os processos teóricos que amparavam a micrologia, a busca da materialidade da doença na microscopia, substituíram as idéias da Escola de Cós.

 Os sistemas teóricos interligados e dependentes de Hipócrates e Galeno, capazes de explicar a saúde, a doença e a expressão do ser no social, mostraram-se tão adequados ao observável que dominaram as regras do diagnóstico, da terapêutica e as bases do ensino da Medicina oficial no Ocidente durante vinte séculos.

Ao lado dessa forte relação em torno das teorias hipocrático-galênicas, que atravessou a Idade Média, alguns religiosos, como Miguel Servet, estudante da Universidade de Tolousse, em 1530, imbuído da leitura dogmática bíblica, ao procurar explicação para o sopro de ar que deu vida ao primeiro homem, no livro “Christianismi restituio”, descreveu a pequena circulação coração-pulmão.

Contudo foram os estudos de Hipócrates e Galeno que suplantaram todas as outras correntes cientificas. Alcançaram o Brasil Colônia e os médicos da corte portuguesa. Durante vinte e três dias de febre e convulsão que antecederam a sua morte, a Princesa Paula Mariana, filha do primeiro Imperador do Brasil, foi submetida às chupadas de quarenta sanguessugas, onze vesicatórios, oito cataplasmas e sete clisteres, prescritos pela equipe de dez médicos que se revezaram à cabeceira real.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Arnaldo Garcez no Açaí




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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Notícia de jornal, em poucas linhas

Marco Adolfs

– Saí de casa com dezessete anos – disse Sandy.

– Qual o motivo? – perguntei.

– Meu pai me batia muito – respondeu.

O pai a agredia sem piedade, quando ela chegava da rua. Chegou a ser levada para um pronto-socorro com o rosto inchado de hematomas. Um tapa do pai a derrubou no chão e os irmãos completaram a sova.

– Vagabunda! Viciada!

Ela estava drogada, naquele dia. Conflitos familiares por causa da perda da mãe e da bebedeira do pai ocasionaram uma parte de seu drama. Então, numa bela manhã, fugiu de casa.

Havia arrumado algumas roupas em uma mochila velha e pegou um ônibus. Foi para uma outra cidade. Bem distante. Bem longe. Perambulou pelas ruas e resolveu que deveria se prostituir para ganhar dinheiro e poder sobreviver. Mas, determinado dia sentiu-se um trapo.

Então, naquela manhã, resolveu que se mataria, jogando-se do alto de um prédio abandonado. Cheirou cola até não poder mais; levantou-se e se aproximou do terraço.

Quando caiu, seus cabelos loiros empaparam-se de sangue. Ninguém sabia quem era aquela menina. Só eu, o jornalista. “Mulher atira-se de prédio”. Vinte anos de idade. Notícia de jornal, em poucas linhas.

domingo, 20 de novembro de 2011

Manaus, amor e memória XXXIII

Paço Municipal. Ah, se esse prédio falasse...

sábado, 19 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma análise do Eu – 1/13

Zemaria Pinto*


Informação biográfica


Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos nasce no Engenho Pau d’Arco, vila do Espírito Santo, na Paraíba, a 20 de abril de 1884, onde passa infância e adolescência.

Em 1900 vai para a Paraíba, a cidade, atualmente João Pessoa, fazer o curso de Humanidades, correspondente, hoje, ao ensino médio. Em 1901 inicia colaboração, que se estenderia até 1907, no jornal O Comércio, da capital paraibana.

Em 1903 entra para o curso da Faculdade de Direito do Recife, mas não participa da vida acadêmica, indo ao Recife somente para prestar os exames de fim de ano. Conclui o curso em 1907, mas não exerce a advocacia, preferindo trabalhar como professor de Literatura no Liceu Paraibano, onde estudara.

Por essa época, a economia baseada na cana-de-açúcar estava em franca decadência. A família é obrigada a transferir-se para a capital, deixando para trás o Engenho falido.

Em 1910, casado, muda-se para o Rio de Janeiro, onde continua trabalhando como professor. Em 1912, com a ajuda financeira de um irmão, publica seu único livro: Eu. A repercussão crítica é quase nula.

Em julho de 1914, é nomeado diretor de uma escola em Leopoldina, em Minas Gerais. Transfere-se para com a família. A 12 de novembro daquele mesmo ano, vitimado por uma pneumonia (e não por tuberculose, como anotam alguns), o poeta morre. Tinha 30 anos de idade.  

A Escola de Recife

Século XIX. Anos 60. O Romantismo dava seus últimos vagidos pela voz tonitruante de Castro Alves (1847-1871). Ainda na primeira metade da década, o poeta baiano, juntamente com Tobias Barreto (1839-1889), ambos estudantes da Faculdade de Direito do Recife, lança a poesia Condoreira, de tom declamatório, forte cunho social e engajada na luta pelo fim da escravidão. Castro Alves muda-se para São Paulo, mas as sementes de uma grande movimentação estavam lançadas e permanecem sob a liderança de Tobias Barreto, que, estudioso das ciências e da filosofia em voga na época, inicia, ao final da década, uma segunda fase da escola de Recife: a da poesia filosófico-científica. Para simplificar, fiquemos apenas com o segundo qualificativo, que é como essa corrente é mais conhecida.

É preciso esclarecer, entretanto, que o que os historiadores chamaram depois de escola de Recife não era exatamente um movimento, mas um acontecimento, ou melhor, uma sucessão de acontecimentos, que, muito tempo depois, a história tratou de juntar como parte de um todo homogêneo.

Voltando à segunda fase da escola do Recife, perguntamo-nos – mas o que era afinal a poesia científica? Se a poesia trabalha essencialmente com a expressão individual, muitas vezes sentimental, como pode ser científica? Acontece, leitor, que o Romantismo, inaugurado, no Brasil, 30 anos antes, esgotara todos os limites. A juventude, inconformista, estava atrás de novas formas de expressão. Da Europa (em particular, da França) vinham muitas novidades. Nas ciências e na filosofia, o Evolucionismo, o Positivismo, o Determinismo. Nas artes, e em especial na literatura, o Realismo, o Naturalismo, o Parnasianismo, o Simbolismo. 

A nova forma de fazer poesia não era gratuita, não nascia da simples vontade de meia dúzia de boêmios metidos a intelectuais querendo fazer algo diferente, chocante. Não. Ela nascia do desejo de sepultar de vez os velhos fantasmas românticos, substituindo-os pela racionalidade das novas idéias, cujos principais suportes eram, resumidamente:

1 – o homem não foi “criado”; ele evoluiu de formas inferiores até chegar ao estágio atual; esse preceito é válido para todas as formas de vida: há uma seleção natural, onde vence sempre o mais forte; na organização social humana, também prevalece a seleção natural (Evolucionismo);

2 – o conhecimento científico é o único conhecimento utilitário, por isso deve ser valorizado com relação ao conhecimento espiritual; os males sociais serão eliminados com o progresso material das nações; a arte deve valorizar o conhecimento científico (Positivismo);

3 – o homem é um produto do meio ambiente em que vive; todos os fatos, físicos ou morais, têm uma causa cientificamente explicável; a raça, o meio e o momento histórico são fatores preponderantes para o comportamento humano (Determinismo).

A poesia científica vinha na esteira do Realismo. Prevaleceu, entretanto, o Parnasianismo, que levou a poesia a uma outra direção Vejamos um exemplo da poesia produzida no Recife, àquela época, a partir de um fragmento de Martins Junior: 

Buscando demonstrar pela transformação
De uma simples monera a gênese do mundo
Orgânico; ensinando o dogma fecundo
Do progresso; afirmando a lei da seleção
E seu correlativo - a luta na existência!
Tentam reconstruir, fiéis à experiência,
O vetusto castelo informe do Direito
Que precisa de ser, sob outra luz, refeito! 

Não entremos no mérito dos versos, que não vem ao caso. Mas estão presentes, num jorro, o Positivismo (dogma fecundo do progresso), o Evolucionismo (a lei da seleção) e o Determinismo (a luta na existência). E ainda de quebra o Monismo (...de uma simples monera), doutrina segundo a qual o conjunto dos fatos, lógicos ou físicos, pode ser reduzido à unidade (a monera), e que era o quarto sustentáculo ideológico da escola de Recife.

Bem, leitor, estamos há uns dez parágrafos sem citar o objeto de nosso estudo ou seu autor. Então, para encerrar a introdução e preparar o “gancho” para o capítulo das influências literárias, informamos que Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife, entre 1903 e 1907. E mais: a chamada poesia científica, a despeito da morte de Tobias Barreto, continua a ser praticada, conforme atesta este ilustrativo poemeto de Uldarico Cavalcanti, Ao verme que primeiro tripudiar sobre o meu cadáver, publicado no Jornal do Recife, no mesmo ano em que o nosso autor começava a freqüentar a Faculdade: 

Podes tudo roer, verme pútrido e imundo!
Esta é a tua missão: devastar a matéria.
Tu primeiro virás, depois virá o segundo
E milhões virão mais tripudiar, no fundo
Da cova onde atirar-me a peste ou a miséria! 

Podes tudo roer! Nada, nada te impeça
Na tua faina! Rói a mortalha, o caixão,
Depois rói-me também: tronco, membros, cabeça
Tudo, enfim, verme o que a tua gula apeteça
Mas não toques, maldito, o pobre coração. 

Se tanto não saciar tua voracidade
Não toque o coração tua boca voraz,
Com o ciúme, as paixões, a tortura e a saudade
Que estão devastando a minha mocidade,
Tu te envenenarás! Tu te envenenarás!


(*) Publicado no livro Análise Literária das Obras do Vestibular 2001, este ensaio é o fundamento da minha dissertação no mestrado em Estudos Literários, pela UFAM, em fase, bem adiantada, de elaboração: A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos.