Amigos do Fingidor

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dabacuri – da natureza das coisas 6/6



Zemaria Pinto
 
 
o sol se despede

entre nuvens de violeta

dando vez à noite

 

balão de maio –

a lua eclipsada

num céu sem nuvens

 

densa e violenta

a barata inunda a sala

de entranhas e horror


 

lâmina de prata

no véu de breu sobre o rio

– noite de verão

 

no teto do mundo

uma impassível lua cheia

inebria a todos

 

alta madrugada –

vaga-lumes no jardim

brincam de ciranda

A dona dos botos


David Almeida



Como alguém pode ser dono da Natureza?  Faço essa pergunta por que, em Novo Airão, existe uma pessoa que detém esse direito, acredite! A Senhora Marilda, “A Dona dos Botos”. Aquela que alimenta botos vermelhos de seu flutuante, que fica em frente à cidade de Novo Airão, e já apareceu no mundo inteiro, através de reportagens, das maiores emissoras de comunicação desse Planeta ainda Azul, ficando muito famosa, até, com o status de: “A Pop Star dos Botos”.

Novo Airão está às margens do Rio Negro, e essas águas são povoadas por essa espécie de mamífero, e não é só no flutuante da Senhora Marilda, “A Dona dos Botos”, que eles aparecem para interagir com pessoas, e, claro, filar alguma comida (peixes). Basta fazer um movimento n’água que logo eles surgem, e deixam as pessoas maravilhadas, se tornando esse contato muito especial, pelo carinho e respeito das pessoas com a natureza. É um exemplo fantástico de interação do homem com o meio ambiente.

Essa espécie, de golfinho de água doce, existe em toda a região amazônica, e mais frequentemente povoam o Rio Negro, que banha a cidade de Novo Airão, eles são habitantes daquele local, são filhos da natureza, e se acostumaram com encontros com os humanos, mas a Senhora Marilda, “A Dona dos Botos”, não permite que eles apareçam em outro local interagindo com as pessoas, a não ser, no seu flutuante, onde, pra vê-los, alimentá-los ou até tocá-los tem que pagar uma quantia em dinheiro. Se em outro local alguém for pego com os botos, ela denuncia ao IBAMA, que logo manda um fiscal para proibir ou multar o “transgressor” dos direitos da Senhora Marilda, “A Dona dos Botos”.

Bom, se formos olhar, pelo lado de que, os botos são selvagens, e podem a qualquer momento, ferir as pessoas resultando numa consequência mais trágica, digo que: em qualquer estância o perigo existe, estamos exposto ao perigo em qualquer lugar, o fundamental é não fomentar o perigo, e há uma relação de paz, amor, alegria e felicidade entre humanos e os botos, por outro lado, não é a Senhora Marilda, “A Dona dos Botos, a salvadora da Pátria, muito pelo contrário, ouvi muitas reclamações de turistas que foram maltratados por ela em seu flutuante, inclusive, vinte que vieram do Rio de Janeiro para ver os botos de perto e não viram, porque não gostaram do tratamento recebido.

Alguns donos de pousadas que ficam perto da beira do rio, estão indignados com essa atitude, porque às vezes, seus clientes querem tomar banho no porto das pousadas que tem píer; tomar umas cervejas, tocar violão, ouvir musicas, comer, curtir o cenário natural, mas, sempre à tarde, logo aparecem os botos, e, com eles aparece, também, o problema que todo mundo sabe: a Senhora Marilda, “A Dona dos Botos” está de olho no seu patrimônio.

Dizem que agora em 2014, em Novo Airão vai sair a licitação dos botos, só aqueles que ganharem vão ter a permissão de usar os botos, portanto podem calçar as botas, digo: as nadadeiras.

Boto sendo alimentado por um nativo.
Foto: David Almeida.

  





Curadores e adivinhos como agentes políticos



João Bosco Botelho

    As forças das resistências ao cristianismo, no Brasil, em especial, ligadas aos curadores e adivinhos, ocorreram em três vertentes:
    Duas oriundas do período colonial:
              - Indígena: em torno dos pajés;
              - Africana: próxima aos pais e mães de santo.
    Outra, muito mais recente, a partir dos anos 1960, possivelmente ligada à estratégia política para enfraquecer a Teologia da Libertação, associada às ideias marxistas, em claro conflito com a política norte-americana para a América Latina:
              - Brasileira: atada aos pastores neopentecostais.
    Quanto à indígena, o padre salesiano Alcionílio Bruzzi, depois de conviver du­rante mais de duas décadas com grupos indígenas de diferentes etnias, no Alto Rio Negro, é testemunha dessa resistência, como história de longa duração: "É talvez o maior sacrifício que a catequese católica impõe aos indígenas cristãos, a renúncia à crença no poder do pajé. Em alguns casos só o consegue parcialmente".
    Nos quase quinhentos anos, no Brasil, nos quais a Igreja combate sistematicamente os curadores e adivinhos sem compreendê‑los como agentes de coesão social, não está conseguindo processar a linguagem sedutora capaz de satisfazer os atuais desejos nascidos nas contradições político-econômicas mais atuais.
    Essa dissociação entre a hierarquia eclesiástica e a concepção do sagrado das massas populares, em parte responsável pelo esvaziamento das paróquias e a diminuição gradativa da confissão da fé católica está clara no discurso disciplinador do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio de Araújo Sales, nos anos 1990, um dos mais ilustres representantes do clero: "...os assuntos abordados foram os desvios graves da piedade popular, desde as práticas da macumba, candomblé, umbanda, até o espiritismo e outros do tipo pentecostal. Está incluído também o recurso à superstição e à exposição incompleta da Doutrina genuína."
    Do outro lado, as igrejas neopentecostais divulgam mensagens mais sedutoras promovendo as sessões de curas e catarses ao som dos cânticos de louvor entoados por milhares de fiéis. Com essa estratégia, penetram com maior facilidade na vontade popular e ocupam os espaços sociopolíticos nascidos do desencanto, da insatisfação e da miséria.
    Os curandeiros e adivinhos, especialmente os atuais neopentecostais, continuam agentes de coesão social ao aperfeiçoarem o trato com o sagrado objetivando o poder político.
    Talvez tardiamente, a Igreja percebeu a necessidade de mudança e introduziu programas televisados, salvo exceções, monótonos e com pouco movimento, dirigidos por padres e freiras engessados, sem a dinâmica requerida pelo processo social que demanda mudanças rápidas, na tentativa de ocupar espaços para enfrentar a agressiva presença das muitas igrejas neopentecostais que prometem, seguidamente, melhoria da vida aqui e agora.

    Sem análise de juízo de valor, o resultado tem sido desfavorável à Igreja católica. Os curadores e adivinhos das muitas igrejas neopentecostais atraem, continuamente, milhares de fiéis que doam além do dízimo, que efetivamente ajudam na construção de novas estruturas de poderes inseridos em várias estruturas sociais.    

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Fantasy Art - Galeria

 
Mountain conflict.
Larry Elmore.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Interpretações e impressões



                                                                                                 Tainá Vieira


Outro dia, na rede social chamada Facebook, houve uma quantidade imensa de “compartilhamentos, comentários e curtições” sobre uma fotografia cuja cena é a seguinte. Há dois meninos a caminho ou voltando da escola. Está chovendo e esses meninos protegem-se da chuva com uma folha de bananeira. Para noventa e nove por cento das pessoas que viram a foto, a cena é exatamente essa. E tudo falado a respeito da fotografia era que os meninos eram pobres coitadinhos do mundo. Eu logo que vi, não tive dúvidas. Fiz o meu comentário, eu ousaria dizer, minha análise!

Há dois meninos a caminho ou voltando da escola. E de repente começou a chover e como esses meninos estão sem guarda-chuva, eles pegaram uma folha de bananeira para tentar se proteger da chuva. Esses meninos têm traços orientais ou asiáticos, não sei ao certo. Devem ser irmãos, senão primos ou simplesmente amigos de escola. Na fotografia é possível ver que eles estão com uniformes e de sapatos. Vale frisar que há por aí há muitos meninos que não têm nem uniformes muito menos sapatos para irem a escola. Os meninos também levam cada um a sua mochila, e esta por sua vez, como dá para perceber o peso nas costas dos meninos, deve estar cheia de livros e cadernos. Como podem ser pobres coitadinhos do mundo se esses meninos têm as “armas” que todo ser humano precisa para sobreviver?  

No caminho da escola deve ter bananeiras, logo deve haver bananas e se por um acaso não tiver merenda na escola, pelo menos tem bananas no caminho e assim esses meninos não sentirão tanta fome e logo não desistirão de continuar estudando. Um ponto positivo para as bananeiras. É possível ver um sorriso em um dos meninos, como se fosse gostoso tomar banho de chuva, talvez, esse menino entenda que tomar banho de chuva é como se estivesse lavando à alma e purificando o corpo. Talvez não seja muito comum chover no lugar onde esses meninos moram e quando chove a chuva é recebida com uma benção de Deus. Por isso tal felicidade no sorriso do menino. Um ponto positivo para a chuva. É possível ver o mato verde e leve, uma espécie de capim, bem verdinho, como se fosse pastagem para bovinos ou, quem sabe, outro tipo que plantação que desconheço. Não há como não perceber o chão da estrada, é possível imaginar um lugar calmo e tranquilo, onde a paz reine. Um ponto positivo para esse solo, o lugar desses meninos.  E um ponto positivo para quem registrou esse momento, talvez essa pessoa, como noventa e nove por cento das que viram, julgam tal cena, como pessoas excluídas do mundo ou vitimadas pela vida.  Ou quem sabe essa pessoa registrou tal momento por pensar da mesma forma que pensei. Ou simplesmente porque achou a cena bonita. Como eu achei.

Enfim, não podemos julgar sem conhecer ou pelo menos tentar entender algo. A vida só é cruel para quem quer que ela seja cruel. Cada um constrói a sua história e faz o seu próprio caminho, ainda que chova, mas se tiver uma folha de bananeira, valerá a pena continuar caminhando, afinal tudo passa! Até uma leve ou forte chuva! No entanto é válido dar mais um pouco de atenção aos meninos, os personagens principais da fotografia, eles não se importam com a chuva ou caminho longínquo da escola, eles têm um ao outro, têm a amizade e a força de vontade como forma de sobrevivência, devem confiar um no outro. Como disse o poeta Thiago de Mello, no Artigo 5, dos Estatutos do Homem, O homem confiará no homem, como um menino confia em outro menino. É dessa forma que eu vejo essa fotografia.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

22



Letícia Cardoso

22, 23, 24... 22, 23, 24

Subia as escadas do prédio em que morava.

22, 23, 24, 22, 23, 24

Os números ecoavam em sua mente, ininterruptos.

22, 23, 24.. .22, 23, 24, 22,23,24

Mais cedo brigou com o noivo.

22, 23, 24, 22, 23, 24

A confusão iniciou depois que ele disse que não se casaria porque a mãe não aceitou a data do casamento.

22, 23, 24, 22, 23, 24

Não aceitou porque era o aniversário de namoro dela e de seu falecido pai.

22, 23, 24, 22, 23, 24

22, 23, 24, 22, 23, 24

22, 23, 24, 22, 23, 24

O padre disse que casamento naquela igreja só daqui a três meses.

22, 23, 24, 22, 23, 24

Ela já tinha planejado tudo! Viagem, lua de mel, convidados, chás, despedidas. Tinha que ser naquela data, naquela igreja. Foi lá que seus pais se casaram.

22, 23, 24, 22,2 3, 24, 22, 23, 24, 22, 23, 24 22, 23, 24, 22, 23, 24, 22, 23, 24, 22, 23, 24, 22, 23, 24, 22, 23, 24

Mas o noivo não quis. A sogra não quis. O padre não tinha outra vaga na mesma semana.

22, 23, 24, 22, 23,24

22 era o número do apartamento dela. 23 era o número dele. E 24, o da sogra.

Naquela noite teria o tradicional jantar no apartamento 24. E ela estava atrasada.

De lá, sairia para o 23 como de costume. Mas foi no 22 que entrou. A janela da sala estava aberta.

22, 23, 24, 22, 23,24

22, 23, 24, 22, 23 ,24

22, 23, 24, 22, 23, 24

Ela foi fechá-la, mas achou melhor se jogar dela.

E então não houve mais números.

 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fantasy Art - Galeria

 
Who is seducing whom?
James Yale.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Dabacuri – da natureza das coisa 5/6



Zemaria Pinto
 
 
bruma sobre a tarde,

provisório adeus do sol

– noite antecipada

 

dissolve-se a tarde

no alarido das araras

e em flocos de chumbo

 

o sapo, num salto,

cresce ao lume do crepúsculo

buscando a manhã

 

ao deitar o sol

a lua nova aparece

– noite de calor

Academia Amazonense de Letras define agraciados com a Medalha do Mérito Cultural


Em assembleia realizada na noite de ontem, a Academia Amazonense de Letras definiu os agraciados com a Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes, edição 2014. São os seguintes:

Letras - Alcides Werk, poeta, em memória;
Artes - Sérgio Cardoso, artista plástico e dramaturgo;
Mecenato - Arquidiocese de Manaus, pela manutenção do projeto Fazenda Esperança.

A entrega das comendas acontecerá na noite do próximo dia 25 de abril.


Cristianismo: o maior dos processos de substituição



 João Bosco Botelho

 

    Existiram muitos heróis míticos na história das crenças e das ideias religiosas. A mensagem cristã de libertação modificou completamente a estrutura sociopolítica do mundo. Dois mil anos depois continua tendo sedução irresistível, capaz de penetrar na profundidade do sentimento humano.

    De acordo com os Evangelhos, Jesus Cristo veio ao mundo como o filho de Deus com poderes de curar e ressuscitar e anunciar a nova mensagem escatológica: o cristianismo como a Nova Aliança.

    Não é adequado deixar de pensar na existência de outras condições sócio‑políticas para sedimentar a incrível sedução que acompanhou a mensagem salvífica anunciada pelo cristianismo primitivo.

    A miséria atingira patamar insuportável para o povo ouvinte das primeiras mensagens cristãs. Naquela época, a popula­ção do Império Romano fora calculada entre 65 a 70 milhões de pessoas e somente perto de quatro milhões, segundo os dados demográficos levanta­dos pelo imperador Augusto, eram cidadãs romanas.

    Os hebreus, no oriente helenístico, que já adoravam um Deus único alguns milhares de anos antes, alcançaram a proporção de um para cada dez habitantes e faziam parte desse bizarro mosaico de mentalidades. Esses grupos judeus reproduziam, ao longo de mais de mil anos, as próprias experiências sagradas por meio de três elementos de coesão social: a fé monoteísta, a sinagoga e o sábado. Esse conjunto oriundo da memória oral estava transcrito nos livros sagrados (Tora e Talmud) e era utilizado também como instrumento de organização social.

    A tradição semita vivia a religião de fé monoteísta plena de espe­rança no futuro, capaz de modificar o intolerável jugo estrangeiro contestador dos elementos sagrados do judaísmo. A promessa de Deus aos profetas transformou os hebreus no povo do futuro que desfrutaria da terra prometida farta de leite e mel. Assim o judaísmo rompeu com o tempo cíclico e estabeleceu a crença num tempo final.

    É evidente que as ideias religiosas se manifestam de modo sincrético, sem que se possa estabelecer limites precisos onde começa uma expressão de religiosidade e termina a outra. O cristianismo primitivo, nascido no seio das massas populares judias perseguidas pela implacável dominação romana, foi aquecido pelas crenças mais antigas do judaísmo, que continuava esperando o seu herói mítico de salvação (Jo 1, 49) – "Então Natanael exclamou: Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel!"

    Ainda nesse ponto da história, o cristianismo era manifestação religiosa de povos oprimidos, desesperados para minorar os sofrimentos, pleno de sincretismo, onde os curadores e adivinhos de todos os matizes tinham espaço.

    Os primeiros padres da cristandade deslocaram grande parte da antiga escato­logia judaica e passaram com nitidez de uma concepção coletiva para valorizar mais o individual, onde a confissão a Jesus era a única salvação.

    Com a passagem de religião dos desprotegidos para a do poder dominador iniciou a perseguição aos curadores e adivinhos não alinhados com a nova ordem (At 16, 16‑18).

    Mesmo existindo ouros vetores, na Europa central, o processo de cristianização abandonou completamente os cuidados coletivos com a saúde, alimentação e higiene das práticas sociais do judaísmo. O tipo da arquitetura, do arco romano ao arco gótico, e o agravamento das epidemias que castigaram a Europa durante o medievo estão inseridos nesse equivocado processo de substituição.  

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Teatro Alienígena - programação CARNEvalesca





Dia 19 (quarta-feira) – A CARNE ANTES DO CARNAVAL – Body Blind – 21:00h

 

Dia 21 (sexta-feira) – Lucas Martins STAND UP COMEDY – 19:00h

BANDA HUMANOS – 20:00h

 

Dia 26 (quarta-feira) – A CARNE ANTES DO CARNAVAL – desCORbeta, com Maysa Fernandes – 21:00h

 

Dia 28 (sexta-feira) – THE BEATLES COVER – 19:00h
 
 
O Teatro Alienígena na rua Lima Bacury, 64c, Centro
Contatos imediatos:
 
9116-6775      3233-7316
jorgebandeiraamaral@hotmail.com
 

Eu e Lúcifer



Tainá Vieira

               
                                                                                                     
          Todo mundo já falou com ele. Se não falou, um dia ainda vai falar. Ele, várias vezes, já se aproximou de mim, e até senti um arrepio gelado como se ele fosse chegar por trás e pegar meu ombro. Em um segundo pensei é ele, mas quando virei não era. Fiquei frustrada. Pois o sentia, mas não o via. Já o senti perto de mim em muitas situações.

          Quando criança eu sempre o via, tenho certeza de que era ele. Aparecia para mim todo final de tarde, e me encontrava no mesmo lugar. Nessa época, eu morava num interior distante do que eu moro hoje nas férias.  A casa tinha os fundos para uma mata, uma mata sem fim e sem rumo. E a frente para um lago onde meus olhos sumiam na sua imensidão. Para chegar à margem do lago tínhamos que passar por muitas árvores, eram mangueiras.  A casa ficava num lugar alto, posto que as árvores também ficavam no alto e eu tinha uma visão panorâmica esplêndida da paisagem.  Por isso que toda tarde me encontrava naquele lugar.  A primeira vez que ele apareceu eu fiquei feliz, pois o lugar é deserto, não tinha muitos vizinhos ou crianças pra brincar comigo, então achei maravilhoso conhecer um menino ali. Sim, ele era um menino e lindo, não estava de preto e nem com chifre e nem fedia a enxofre.  Ele parecia mais um príncipe, e vocês me perguntam como é que eu sei que era ele? Eu sei porque ele me disse. Meu nome é Lúcifer.  Eu, assustada disse: o diabo! E ele respondeu, prefiro Lúcifer.  Ele disse-me que queria ser só meu amigo, apesar de aparentar um menino, ele era mais velho do que eu, não fazia ideia da sua idade, mas digo isso porque ele falava bonito, dizia-me coisas que eu não entendia, e que só passei a entender bem mais tarde, na escola ou na faculdade.  Hoje sei que ele me falava de filosofia, vida, morte e até do inferno, foi ele a primeira "pessoa" a me falar de Dante Alighieri.  Falava em "Comédia" e em "Divina". E quando ele falava essas palavras, esses nomes, ele ria, gargalhava demais. E pronunciava outra palavra, "Ilusão".  Lembro-me vagamente desses momentos, mas lembro.  Foram diversos encontros, ele nunca faltava, até que chegou o dia em que precisei partir dali.  Eu disse a ele que iria embora e dei até o novo endereço, mas ele jamais foi lá.

          Da época de criança até ele aparecer de novo, levou muito tempo, mais de 15 anos. Eu pensava que ele nunca mais voltasse, como eu disse, eu o sentia por perto de mim, mas não o via, e eu queria vê-lo, falar novamente com ele, queria que ele visse como eu tinha crescido, que agora era uma mulher feita e que também podia compreender qualquer coisa que ele me dissesse. Queria dizer a ele que lera a Divina Comédia, e queria que ele mesmo me falasse sobre o Inferno, se é realmente como Dante descreve. Gostaria de falar pra ele que “conheci” Sócrates, ele tinha me falado desse também. Há muita coisa a dizer a ele. Pensei várias vezes nisso.

          Até que um dia, ou melhor, uma noite, quando eu agonizava de dor num leito de hospital, ele apareceu. Nessa noite, eu sofri muito, nunca sentira tamanha dor, minhas entranhas sangravam desesperadamente, minha alma vagava por pensamentos longínquos.... Não tinha a quem recorrer, eu clamei a Deus, para aliviar a dor, o sangue, mas Ele não apareceu, encontrava-me só ali quando vi que minhas forças estavam se esvaindo depressa e meus olhos se fechariam pra sempre, passou um filme na minha cabeça, e eu lembrei de toda minha vida, e de repente o filme parou na cena em que ele menino aparecia para mim.  Foi aí, que pensei nele, desejei vê-lo e pedi que ele aparecesse para mim. Já era madrugada, as enfermeiras dormiam, era silêncio total, embora eu ainda sentisse dor, eu não mais gritava, não adiantava, eu sentia aquela dor em silêncio, eu podia até ouvir o silêncio da dor. Foi a pior noite da minha vida, e também a melhor. Por isso jamais irei esquecê-la. Como uma brisa gélida da madrugada, eu o senti tocando minha face, não tive medo e nem abri os olhos logo, prolonguei aquele momento para que esse momento se eternizasse. Até que ouvi a sua voz novamente, ele não era mais um menino e sim um homem maduro e continuava bonito. Ele sentou-se ao meu lado e dessa vez, ele não falou muito, apenas me ouviu. Ouviu em soluços as atrocidades que aconteceram comigo, eu até forcei muitas lágrimas para que ele sentisse pena de mim e me levasse com ele, entretanto, ele nada dizia, só me olhava em silêncio. E em meio às lágrimas eu forçava um sorriso e ele continuava indiferente, a única coisa boa que ele fez, foi tirar a dor que sentia. Foram horas que ele esteve ali, uma luz acendeu, ele me olhou, tocou novamente minha face e disse que voltaria outro dia e desapareceu.

       Não sei o que ele pensou de mim, só sei que ele me salvou. Parece loucura esperar por ele, mas as lembranças da infância continuam vivas em mim, e essas lembranças me dão a certeza de que posso e devo esperar por ele. Não sei realmente se ele voltará para mim, depois daquela noite, eu venho tentando encontrá-lo, mas nada, ele não aparece. Quem sabe, brevemente não nos encontraremos em outro leito de hospital, sentirei aquela dor novamente, mas ela sairá de mim com uma leve carícia das mãos dele.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Lábios que beijei 13



Zemaria Pinto
Fátima


As feições eram de um querubim barroco: loura, branca, o nariz afilado, um ar amolecado. A voz estridente e o forte sotaque revelavam-lhe a origem nordestina. Fátima visitou-me em sonhos tantas vezes quantas eu fui à modesta taberna da pequena cidade, onde insistíamos em continuar vivos, a quarenta graus. Fátima segurava minhas mãos e dizia que se o pai nos visse, botava os dois pra correr – e sorria, com os dentes mais brancos como eu jamais vira. O balcão nos separava e protegia. Nas missas das manhãs de domingo, ela segurava minha mão e ficávamos assim por quase todo o ritual. Na saída, ela beijava-me levemente a face e despedia-se às pressas. Precisava voltar para trás do balcão. Essa rotina durou alguns meses. Aos poucos, Fátima foi ficando distante, como um barco que se faz ao largo, até que a perdi de vista. Fico pensando em como seria Fátima envelhecida, hoje, e não consigo compor uma imagem, porque só me vem à mente o angelical semblante. Anjos não envelhecem.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

sábado, 15 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Dabacuri – da natureza das coisas 4/6



 
sobre a mesa posta

o olhar do peixe descansa

fitando o infinito

 

na tarde sem chuva,

carneiros, lobos, carrancas

– desenhos de nuvens

 

urubus desenham

no teto cinza da tarde

lentas espirais

 

fim de tarde,

trovões ecoam ao longe

– prenúncio de temporal

Existiriam curadores e adivinhos transcendentes?



João Bosco Botelho

            

    A manutenção do poder dos curadores e adivinhos ao longo da história não tem sido uniforme, muito menos permanente. Alguns aspectos da construção do cristianismo nos primeiros tempos poderiam ser inseridos nesse contexto, onde muitos povos, desgastados com as suas antigas crenças, foram buscar na nova mensagem cristã as forças da libertação, sob a guarda de um Deus essencialmente generoso e bondoso, que não pregava a vingança em nenhuma circunstância. Não é sem razão, que a chegada do cristianismo continua sendo saudada como a Nova Aliança.

    O processo de substituição dos curadores e adivinhos nunca ocorre em linha reta. De modo diverso, serpenteia os conflitos sociais e políticos mais agudos. E pode ser entendido em dois momentos distintos e próximos que sedimentam as mudanças na direção da mudança almejada: a desmoralização do antigo e a substituição pelo novo. Todavia, é somente no segundo instante que a mudança do velho pelo novo se consolida, quando pode aparecer o herói mítico de salvação, para satisfazer as aspirações coletivas e minorar o sofrimento.

    A análise histórica está repleta dos registros confirmando a existência, desde tempos imemoriais, dos curadores e adivinhos que fluíram no sabor das mudanças sociais e políticas. Os registros descritivos transcrevem elogios quando a mudança apoia o poder dominante ou, simplesmente, despreza‑os quando representam a resistência.

    É possível entender outro papel social e político dos curadores e adivinhos, situado em contexto muito mais amplo: abordagem dessa história de longa duração sob o enfoque dinâmico da luta travada entre grupos na ocupação dos espaços sociopolíticos, para serem compreendidos como agentes de coesão social, sempre aliados aos deuses e deusas dominantes naquele momento.

    Seria possível que as pessoas reconhecidas como especializadas em curar e adivinhar, apresentadas pelas ideias e crenças religiosas, tenham qualidades especiais próprias – o dom capaz de curar e amenizar o sofrimento pessoal e coletivo – que os distinguiriam dos outros mortais?

    Não há dúvida que, desde milhares de anos, existe o reconhecimento coletivo da existência de homens e mulheres com essas capacidades especiais, pressupostas transcendentes, para curar e adivinhar, intermediando a vontade da divindade. Infelizmente, continuamos sem compreender o significado biológico disso. Permanece sem resposta a indagação: será que o curso da vida de uma pessoa ou de populações pode ser modificado por esse dom, pelo milagre?

    Enquanto não há outra resposta, continua prevalecendo o sentido bíblico (Tg 1,17): "Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vem do alto e desce do Pai das Luzes", largamente difundido depois da cristianização do Ocidente.

    A maior parte dessa comunicação religiosa acabou sendo feita sobre a regra binária do prêmio-castigo. A saúde, o prêmio pelo cumprimento das ordens; a doença, o castigo pela desobediência. Por esta razão, o aliado do poder dominador que curasse a doença e previsse os infortúnios, representava a divindade. Ao contrário, quem não reproduzisse a mensagem dominado­ra, mesmo que sarasse e adivinhasse com maior competência, era identi­ficado com agente da antidivindade, do deus inimigo que deve ser destruído.

    Desse modo, se torna mais fácil entender porque existem, nos cinco continentes, milhares de identificações para deuses e deusas acumulados desde os primeiros registros escritos. Cada grupo social identifica o próprio deus como o mais poderoso e mais verdadeiro: capaz de curar as doenças e os infortúnios.

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Eu e os ratos




                                                                                          Tainá Vieira

 

Não sei se existe coisa pior do que ratos. Esses bichinhos nojentos me causam náuseas terríveis. Pensei que baratas fossem piores, pois a maioria das pessoas que conheço, gritam e se desesperam quando veem uma barata, mas os ratos com certeza ganham das baratas. Até o momento o meu medo e nojo era relacionado à cobra. Sim, aquele bicho peçonhento horrível que enganou a pobre da Eva. Mas deixemos as baratas e as cobras de lado e falemos sobre os ratos.

Não faz muito tempo, por pura necessidade, eu passei algumas noites numa casa onde os principais moradores eram ratos. Eram de todos os tamanhos e para todos os gostos: uns mais fartos e peludos; outros mais magrinhos e, eu diria, de pelos ou pele vermelha. Só não sei se eram da mesma espécie ou família, só sei que eram ratos.  De dia eles transitavam pela casa e pelo quintal com a maior cara de pau, passavam despreocupados pelas pessoas, e é claro que tinha uns que passavam depressa, atropelando tudo, e havia outros, abusados, que passavam por mim com a maior elegância. Durante o dia, a minha estada na casa foi até boa, o problema era à noite. Meus deuses, como quero esquecer aquelas noites. Foram exatas três noites que passei em claro, não tinha reza que me fizesse pregar os olhos. Fiquei num quartinho próximo à cozinha, e logo à entrada da cozinha ficava o fogão, ratos adoram fogão. A casa era tão silenciosa que o barulho que os ratos faziam podia ser ouvido pelo bairro inteiro. Era uma algazarra tremenda; na primeira noite eu fiquei chateada, irritada e até chorei por estar naquela situação; na segunda noite, mesmo com medo e com nojo, eu tentei me acalmar e ficar quietinha no quarto, não fiz barulho algum, pois ficava pensando que se eu fizesse barulho, os ratos  poderiam me atacar; eu suava imaginando a cena grotesca, eu, sendo devorada viva por ratos, imaginava que eles começariam pelos meus pés, e subiriam o meu corpo inteiro até alcançarem meus olhos, não sobraria nem os meus cabelos. Eu gelei quando imaginei os ratos devorando meu sexo, senti uma dor profunda no ventre e na alma. Quando amanheceu, eu estava triste, profundamente triste, nunca pensei ficar tão abatida por causa de... ratos.

Na última noite, ainda que continuasse com medo e com nojo, fiquei bem mais tranquila, parei de imaginar os ratos me devorando e tentei entendê-los. Ou melhor, tentei ouvi-los. Como eu disse, a festa maior era no fogão, nessa noite fui para a cozinha e fiquei à espera do espetáculo; não demorou, os ratos chegaram e começaram, não dava para saber quantos eram, só sei que eram muitos, acho que lá no fogão, era uma espécie de local onde faziam reuniões, aquelas sérias, onde decidem coisas importantes, pois primeiro dava para ouvir um rato “falando” e em seguida começava o bate-boca, um chiava mais que o outro. E assim era a reunião, todos “discutiam” e corriam, a coisa devia ser séria mesmo. Eles chegavam lá pelas 23:00 horas e só iam embora às 3:00 da manhã. Não sei se decidiam alguma coisa, fechavam algum acordo, só sei que iam embora e noutra noite eles voltavam Talvez esses ratos fossem uma sociedade secreta, alguma coisa parecida com a Maçonaria, ou a máfia. Quem sabe esses ratos são os “caras” que mandam no Brasil ou nos Estados Unidos da América, e a Dilma e o Obama são subordinados a eles. Bem, acho que os ratos me enlouqueceram, já não estou falando coisa com coisa, onde já se viu ratos mandarem ou planejarem alguma coisa. Mas que eles são mais inteligentes do que gente, ah, isso são. E quanto ao medo e ao nojo, isso nenhum poderoso ratão mudará em mim!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Com o coração cravado



Letícia Cardoso

 

Desde que se deu conta de que seu marido não a amava, Maria Carolina tentava encontrar uma forma de se punir. Pois acreditava que a falta de amor dele por ela era sua culpa.

Foi na tarde em que comemoravam a colação de grau de Zeca oferecendo buchada de bode com farinha aos amigos, no momento do discurso, que ele perdeu sua mulher. Quando agradeceu imensamente à mãe por nunca ter permitido que lhe faltasse o mínimo para estudar, Maria se sentiu como um objeto plástico bem vulnerável, desses que furam com facilidade. Ela me disse uma vez que concordava totalmente com o agradecimento de seu marido, mas que também se sentiu desvalorizada. Não por ele tê-la esquecido, porém pelo simples fato de não ter se lembrado dela.

E desse dia em diante não importava o quanto Zeca tentasse, Maria Carolina não o perdoava. Não por birra, mas porque não conseguia. Não sentia mais vontade de abraçá-lo, não sentia mais vontade de ouvi-lo, justo isso que era uma das coisas que Maria Carolina mais adorava em seu marido: a sua voz. Mas o pior de tudo, e a gota final para Zeca, foi que Maria Carolina não conseguia olhá-lo nos olhos. Sua mulher, aquela mulher que sempre estava com os olhos em cima dele, brilhando, atentos, agora os mantinha baixos.

Maria Carolina passou a andar curvada, os ombros mais do que inclinados, o olhar no chão. Sorrir, ela sorria. Mas só quando Zélia Paçoca, uma moça maluca, ia visitá-la.

No dia 4 de setembro, enquanto lavava a roupa no tanque, Maria Carolina recebeu a visita de uma mulher misteriosa. Na verdade, não era tão misteriosa assim sua identidade. Acontece que a jovem senhora tinha uma grande berruga no nariz e o chapéu que usava cobria boa parte dos olhos. Essa mulher fora professora de Zeca por quatro períodos. Inicialmente, ele a temia e falava mal dela durante horas, principalmente no horário do almoço. Uma vez, Zeca se engasgou ao contar a Maria a resposta que sua professora lhe dera numa ocasião em que ousou fazer-lhe uma pergunta. Desde esse dia, Zeca nunca mais acrescentou farinha no pirão.

Maria Carolina tratou de oferecer café e bolachas de água e sal para professora. Esta, porém, aceitou apenas o café para acompanhar o cigarro que acabara de acender na pequena sala da asmática Maria, que, tímida, aceitou.

A visita da ilustre mestra causou em Maria Carolina ainda mais insatisfação. A velha senhora queria convidar Zeca para trabalhar com ela em um programa federal de educação. Para isso, entretanto, seu marido teria que acompanhá-la em expedições no interior do estado. A professora não esperava ouvir a opinião de Maria sobre isso, e nem a teve. Parece que seu gosto único foi ir ali e por puro prazer pisar na pobre Maria Carolina, que há muito tempo largara o exercício da docência, adquirido pelo ralo magistério que sua finada mãe incumbira-lhe de fazer. Contudo, ao casar-se com Zeca, deixou a malfadada profissão de lado.

Do mesmo modo que entrou, a jovem mulher velha saiu e Maria Carolina ali enfim chorou. Foi o choro mais sofrido, porém contido, dos últimos anos. Foi o momento em que se desapegou totalmente da vida que estava vivendo.

Quando Zeca chegou em casa, Maria Carolina estava sentada sobre a mala olhando para algum ponto fixo na parede. Sem rodeios ele perguntou se era só aquilo então os cinco anos que compartilharam juntos. Se eles se resumiram naquela droga de bagagem. O olhar que Maria Carolina enfim dera a Zeca foi algo que ele nunca, jamais, em toda sua vida pudera esquecer. Um olhar de animal ferido, abandonado pelo dono. Magoado.

Ela respondera-lhe que as chaves dela estavam na mesinha do centro da sala, que dali a dois dias o irmão, Carlos, levaria o resto que lhe pertencia e que não precisava se preocupar com ela, pois a casa ela não queria.

Zeca tentou recuperar Maria. Pediu perdão seja lá pelo que fosse que tinha feito. Gritou com ela quando percebeu que não adiantava falar ou prometer qualquer coisa. O desespero tomou conta dele ao perceber que a mulher estava determinada e que nada a faria mudar de decisão.

Os olhos de Maria não o olhavam mais. As mãos não lhe acariciavam e apertavam mais. Os lábios já não lhe queriam beijar. Soluçou. Zeca chorou como uma criança na primeira noite que passou sozinho. Nas próximas, a mãe e a irmã vieram lhe fazer companhia e dali nunca mais saíram.

Maria Carolina conseguiu voltar aos estudos. Virou babá dos filhos de seu irmão, Carlos, e à noite fazia um cursinho para doceiros. Maria era uma boa cozinheira. Aprendera algo útil no casamento com Zeca, afinal.

E foi assim que eu a conheci e sua história me foi contada sem que eu desejasse saber. Ela precisava de alguém para ouvi-la e eu fui a pessoa escolhida. Ou talvez desconhecida o bastante para ela me confidenciar algo assim tão íntimo.

Agora depois de tanto tempo é que pude perceber o que a amargura nutrida por semanas e a falta de iniciativa imediata dele fizeram com ela. No lado esquerdo de seu peito, havia algo cravado. O amor por Zeca transformou-se em mágoa. Ela jamais conseguira tirar aquele punhal dali. Nem queria. Pois era sua forma de amá-lo.

Muitas pessoas estranhavam o volume perto do seio esquerdo de Maria que ia crescendo dia após dia. De vez em quando, podia se ouvir o esganiçado arfar que dava ao fazer mais esforço que o normal. Por exemplo, na vez em que precisou pegar a lata de fermento que estava no ponto mais alto do armário, a pobre pequena Maria Carolina esticou-se o máximo que pôde e só não caiu porque tinha feito balé ainda criança e conservava a elasticidade e o corpo magrelo. Mas o punhal, que já passava três centímetros desde a última vez que eu a vira, cravou um pouco mais em seu peito.

Nessa tarde calorenta, Maria Carolina recebera a notícia de que Zeca tinha aceitado a oferta da professora verruguenta e viajaria dali a dois dias. Maria Carolina limpou com o sujo avental as poucas lágrimas secas que saiam dos seus olhos opacos, deu seu sorriso fraco e costumeiro de sempre e se despediu dizendo que era a hora de fazer o bolo da tarde.

Uma semana mais tarde chegara a notícia de que Zeca tinha pedido a mão da professora em casamento e o punhal de Maria Carolina já estava próximo dos dez centímetros. Mas graças à recente boa nova, cinco centímetros voltaram-se para dentro, cravando ainda mais o peito dela.

Eu não pude fazer nada, porque nesse dia eu fiquei na redação do jornal até tarde da noite, mas quando soube da morte de Maria Carolina meu coração se comoveu e comprimiu-se o bastante para que eu pudesse sentir dor, mas, sobretudo pena daquela jovem que só queria ter sido reconhecida em algum momento de sua vida.

Não fora bastante forte para fazer isso por si mesma, e dependendo ora das orientações da mãe ora das migalhas de amor do soberbo Zeca, Maria Carolina cravara de vez o punhal do seu coração ao perceber que suas mãos estavam enrugadas. Nunca foi fácil para ela lidar com a questão do tempo. Maria Carolina sempre se antecipou numa tentativa de alcançá-lo, quando, na verdade bastava que esperasse ele vir ao seu encontro.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

sábado, 8 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Dabacuri - da natureza das coisas 3/6



Zemaria Pinto

a rã mitológica

já não quer saber de tanques

no azul da piscina

 

rã bashoniana

não percebe meu espanto:

brinca na piscina

 

hora do néctar –

o beija-flor e a papoula

suspensos no ar

 

chuva de verão

esparge no meio-dia

carícias na terra

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Eu e as lendas


 

Tainá Vieira

 

Não sei ao certo se acredito ou se tudo é tolice da minha cabeça.  Mas eu sempre carreguei comigo o lema “se a fumaça há fogo”. De algum lugar e por algum meio surgiu essa estória de maldição.  Eu conheço uma família que dizem que é amaldiçoada. Vamos aos pormenores, para sabermos se realmente há um fundo de veracidade nesse caso.


A história começa com o avô que sempre foi meio capenga na vida. As coisas para esse homem não lhe sorriam a toda hora, se sorriam era com muito custo. Ele casou, fez mais de cinco filhos, no entanto, o seu casamento foi um inferno, ninguém entendia o porquê de tamanha infelicidade se ele e a mulher pareciam almas gêmeas.  Enfim, se separaram, cada um seguiu seu rumo, na tentativa de serem felizes, mas quem disse que a felicidade acontecia? A solidão lhes consumiu, acabando assim com o sofrimento tão cruel que ninguém, ninguém conseguia entender. 


Os filhos cresceram e tornaram-se homens e mulheres fracassados, nada dava certo, até tinham alguns bens, herança que o pai com muito custo lhes deixara, mas esses bens não davam lucros, pelo contrário, diminuíam as poses e levava todos à falência, à miséria.  Moravam numa pequena comunidade, lá todos conheciam a família e o boato já se espalhava aos quatro ventos de que a família era amaldiçoada.  As mulheres foram ficando viúvas e logo iam colecionando pretendentes e caiam na boca do povo, eram mal vistas e julgadas. Eram apontadas como má influência para os jovens.  Os homens, coitados, esses foram os que mais sofreram, após perderem todos os seus bens, se entregaram ao alcoolismo.  Bebiam demasiado, o álcool foi lhes consumindo de uma maneira que não sobrou nenhum dente na boca.  E dessa forma a segunda geração foi destruída. 


Ficaram os filhos, os netos do homem meio capenga, segundo as pessoas da província, melhor seria se nem tivessem nascidos, por que nasceram pra sofrer também.  Até que tentavam, mas a luta era em vão, o fracasso já estava no sangue. E parecia que a maldição ficava cada vez mais forte que já ia destruindo os bisnetos também, coitados, parecia roteiro de um filme, parecia até mentira, todavia, era verdade, os membros mesmo da família repetiam que foram, que eram amaldiçoados. 


Me contaram essa história que achei parecida com a história da minha família.  Senti no homem meio capenga, o meu avô.  Fiquei confusa um pouco. Mas estou com noventa e nove por cento de certeza de que existe maldição mesmo.