Amigos do Fingidor

segunda-feira, 31 de março de 2014

Lábios que beijei 16



Zemaria Pinto
Amarílis

Óculos fundo de garrafa, cabelos curtos em desalinho, ombros largos, Amarílis estava longe de ser considerada bonita, mas exercia sobre mim um fascínio que ainda hoje me acende a libido: os lábios largos, associados às coxas fartas que os shorts costumeiros não procuravam esconder, e uma bunda que eu adivinhava sob a roupa a mais gostosa das meninas da rua.
(Para continuar a leitura, acesse o blog Poesia na Alcova)

domingo, 30 de março de 2014

Manaus, amor e memória CLIII

Avenida Eduardo Ribeiro, vista sob a perspectiva de uma imensa cratera,
aberta em frente à praça da Matriz.


sábado, 29 de março de 2014

Fantasy Art - Galeria

 
Race to palace.
Raul Cruz.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Academia Amazonense de Letras promove painel sobre os 50 anos do Golpe Militar





Com o fornecimento de energia elétrica restabelecido, A Academia de Letras segue com sua programação previamente divulgada.
 
Sábado, 29.03, Arlindo Porto faz conferência sobre D. Frederico Costa, antropólogo que divulgava suas ideias científicas através de boletins paroquiais, que ele chamava de Pastorais. Paraense, D. Frederico foi o primeiro bispo do Amazonas.
 
Na segunda, dia 31.03, haverá uma painel sobre o golpe militar de 1964. A seguir, um release, que a imprensa irá ignorar, claro. 

No dia 31 de março de 1964 o presidente João Goulart era deposto por um golpe militar. As forças ironicamente autointituladas “revolucionárias”, comandadas por oficiais das três armas, tomaram o país, contando unicamente com a resistência apaixonada de Leonel Brizola, no Rio Grande Sul, o que não se sustentou por muito tempo. 

O Congresso, submisso e covarde, acatou o golpe e deu posse ao Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, que assumiu a presidência da República prometendo que o período de exceção seria o mais breve possível.  

Somente 25 anos depois, entretanto, o Brasil voltaria a ter eleições livres para presidente. Para eleger um canalha. Mas essa é uma outra história... 

Nesse intervalo de um quarto de século, o país passou por um dos períodos mais sombrios desde a Independência e a mais longa interrupção dos direitos civis de sua história.
 
Censura, tortura, assassinatos – os mais terríveis crimes foram cometidos em nome da ordem democrática. De outro lado, guerrilheiros, em sua maioria jovens que ainda nem haviam passado pelo primeiro emprego, lutavam em uma guerra desigual, derrotados antes do primeiro disparo. 

A Academia Amazonense de Letras, como espaço de debates e de exercício da cidadania, em parceria com a ManausCult, promoverá no próximo dia 31 de março, segunda-feira, às 19h, no seu Salão do Pensamento Amazônico, um painel com a participação de acadêmicos que, de uma forma ou de outra, tiveram suas vidas marcadas por esse acontecimento histórico. 

Sob a coordenação da socióloga Marilene Corrêa, estarão presentes, dando o seu depoimento, os seguintes acadêmicos: 

- Bernardo Cabral: deputado federal cassado;

- Arlindo Porto: deputado estadual cassado;

- Aldisio Filgueiras: jornalista e escritor censurado;

- Elson Farias: secretário de Estado no governo José Lindoso.  
 

O poetator Dori Carvalho fará um recital com poemas marcantes do período, inclusive Estatutos do Homem, do acadêmico Thiago de Mello, que foi mandado ao exílio pela ditadura. 

O evento será aberto à sociedade amazonense, e aos estudantes será concedido um certificado de participação, de duas horas, que poderão ser usadas como horas complementares em suas faculdades. 

 
A Academia Amazonense de Letras fica na rua Ramos Ferreira, 1009, esquina com a rua Tapajós, no centro histórico de Manaus.

 


quinta-feira, 27 de março de 2014

onde um dia portho city








Quadros de Sergio Cardoso (fotografias de um pintor - photoplastyas), em exposição na Livraria Saraiva.

Sábado na Academia acontece, mesmo sem energia elétrica


Arlindo Porto fará conferência sobre o antropólogo e ex-bispo do Amazonas D. Frederico Costa.


Ontem foi um dia para ser esquecido na Academia Amazonense de Letras.

Por falta de pagamento - neste ano, nem estado nem município repassaram as verbas de manutenção da AAL -, a Manaus Energia, cujos dirigentes e gerentes não devem ter a mínima noção do que seja a Casa de Adriano Jorge, cortou o fornecimento de energia elétrica.

O bravo presidente Armando de Menezes está fazendo o impossível para reverter a situação.

Mas, se até a hora da palestra de Arlindo Porto, ex-presidente da Casa, a situação não estiver normalizada, a palestra acontecerá mesmo assim: com as janelas abertas e o vozeirão de Arlindo a ecoar no salão do Pensamento Amazônico.

Para saber mais sobre o Sábado na Academia, clique aqui.

A fome, a medicina dos ricos e a medicina dos pobres




João Bosco Botelho

 

Há muito tempo existe o reconhecimento das diferenças entre a Medicina dos ricos e a Medicina dos pobres e, entre as duas, a fome como marco divisório. Onde há fome, seja a qualitativa ou a quantitativa, predomina a ausência ou a pouca escolaridade, as doenças infecciosas mais frequentes, maior violência e a vida mais curta. Na mesma esteira, tem sido assinalado que o tratamento médico dispensado ao rico é sempre melhor  que aquele recebido pelo pobre.

Algumas semanas atrás, ouvimos o Dr. Antonio de Pádua, Conselheiro do CRM-AM, explicar que se comparados aos ricos, os pobres gastam muito mais dinheiro para iniciar o tratamento ambulatorial ou hospitalar. Proporcionalmente ao salário do rico, para comprar os remédios prescritos em uma receita, o doente pobre gasta mais da metade do ganho mensal; se hospitalizado, desfalca a renda familiar. Essa conclusão impactante está contida na "lei da inversão dos cuidados de saúde", de Julian Tudor Hart, publicada na prestigiada revista The Lancet, em fevereiro de 1971.

A questão não é nova! De modo contundente e jocoso Platão, em duas referências, (Leis, 857 c-d e Leis, 720 c-d), denunciou a diferença entre os atendimentos médicos entre ricos e pobres: enquan­to para os doentes ricos, os médicos dispunham de tempo e gentileza para explicar, vagarosamente, o tipo de doença e as prescrições; para os pobres, as consultas eram rápidas, sem qualquer esclarecimento.

         É possível teorizar que o marco divisório entre a Medicina dos pobres e a Medicina dos ricos seja a fome! Como nos tempos de Platão, os famintos de comida são os mesmos que estão longe da justiça social; também sem escolaridade, penalizados. A fome permanece como a mais trágica fábrica dos deficientes físicos e mentais, das violências urbanas e injustiças sociais.  

         No Brasil, mesmo com os esforços institucionais, despontando entre as primeiras economias do mundo, em muitas áreas do território, tanto nos centros urbanos quanto nos interiores, as crianças têm expectativa de vida semelhante às da Etiópia e Uganda.

Essa triste realidade é conhecida dos médicos e dos estudantes de Medicina. No cotidiano convivem com as doenças da fome e sabem que a miséria retratada na face disforme da criança faminta não tem solução nos medica­mentos. Na maioria das ve­zes, os pequenos doentes conseguem sair vivos da diarreia amebiana para retornarem, poucos meses depois, com pneumonia mortal.  

A fome que distancia a medicina dos ricos e a medicina dos pobres, no Brasil, será atenuada na mesma proporção da fiscalização do dinheiro público e das decisões políticas capazes de aumentar ainda mais o acesso ao alimento de boa qualidade, à educação, moradia, águia potável e esgoto sanitário.

Nas últimas semanas, a mídia nacional noticiou o médico que faltou ao plantão no hospital público no Rio de Janeiro. Como consequência, uma criança pobre, que brincava na porta da casa, vítima de bala perdida, na periferia urbana, em coma, esperou oito horas pela cirurgia, seguida da morte três dias após. Não importa se os ferimentos fossem graves para determinar o óbito com ou sem a cirurgia!  A vítima da estúpida agressão, retrato das áreas urbanas onde a fome predomina, deveria ter sido submetida a cirurgia no menor tempo possível. As ausências não justificadas dos profissionais de saúde, nos hospitais e ambulatórios públicos e privados, causando ou não prejuízos à saúde dos doentes, obrigatoriamente, precisam ser apuradas ética e administrativamente. Não há dúvida desse fato!

Também é importante assinalar que a esmagadora maioria dos médicos, no Brasil, cumprem árduas jornadas de trabalho com ética e competência, nos hospitais e ambulatórios públicos e privados, executando diariamente dezenas de milhares de consultas e cirurgias (os dados estão acessíveis no SUS), possibilitando a reconstrução da saúde de ricos e pobres.

Os médicos como agentes sociais, não são responsáveis pela fome que mantém a distância entre a medicina dos ricos e a medicina dos pobres, referidas desde os tempos platônicos. Por outro lado, esse pressuposto, sob nenhuma hipótese, desobriga os médicos de manterem a qualquer custo a essência da medicina: a generosidade, o mais importante instrumento capaz de aproximar a medicina dos ricos da medicina dos pobres.

quarta-feira, 26 de março de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Armando e Almir, dois meninos



Tainá Vieira


Durante todo esse tempo em que eu comecei a conviver com o meio literário, tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis. Só que não são apenas pessoas comuns como outras quaisquer, são nomes da literatura que fazem valer a pena todos os eventos culturais que frequentamos como espectadores e admiradores. Parece brincadeira, mas existem pessoas que acreditam que todos os escritores e poetas estão mortos. Tem gente que até se assusta quando se depara com um escritor em um momento descontraído ou num lugar comum, para essas pessoas que pensam assim, os escritores devem ficar somente nos escritórios ou bibliotecas, lendo e escrevendo. E se fosse assim, a vida dos pobres mortais seria um tédio. A minha pelos menos seria. Pois onde buscaríamos conhecimento na fonte pura? Os livros escritos pelos escritores são excelentes, conhecemos a fundo a vida de um escritor apenas lendo a sua biografia, mas é muito melhor quando temos a oportunidade de tocar no escritor, para ver se ele é de verdade mesmo, melhor ainda é quando nos sentimos bem e rimos muito das conversas que ouvimos deles, e mais ainda quando podemos chamar um escritor, de amigo, isso é coisa rara.
Armando de Menezes e Almir Diniz, ambos pertencem a Academia Amazonense de Letras, são escritores e dos bons, eu diria. São também pessoas encantadoras. Eu, não sei se somente eu, mas já consegui, ao meu simples olhar, formar duplas inseparáveis como Thiago de Mello e Luiz Bacellar e Armando de Menezes e Almir Diniz. Os dois últimos são dois meninos, daqueles que as mães têm o orgulho de chamar “meu filho”. São bem criados, educados e gentis, e, quando estão juntos, aliás, vivem grudados, são as criaturas mais simpáticas que queremos por perto. Imaginemos a cena, os dois sentadinhos um ao lado do outro, conversando e rindo. E, como irmãos, um brigando com o outro, o mais velho puxando a orelha do mais novo. O mais novo enchendo o saco do mais velho. Na vida real, são amigos, mas para nós, que estamos de fora, são mais que irmãos.  Irmãos mesmo, daqueles bem apegados, em que um cuida do outro, assim são os dois, Armando e Almir, até aparece coisa do destino os nomes dos dois começar com a letra A, a primeira letra do alfabeto. Tenho certeza que isso não foi por acaso. Teve algum propósito aí, coisas que os deuses da literatura fizeram.

Sorte de quem tem a oportunidade de conhecer e conviver com esses sábios senhores. Sêneca fala sobre as boas companhias, sobre os amigos, “a eles em qualquer lugar, em qualquer século que tenham existido, dirijo o meu espirito.” Quão bom seria se todos os jovens soubessem aproveitar a oportunidade de conversar, trocar uma palavra apenas com esses senhores que muito têm a nos ensinar. E eles sabem de tudo, desde a História até uma simples piada.  E tudo vale a pena ouvir e assimilar. Hoje em dia os jovens não querem estar juntos de um velho, preferem outras companhias, nem sabe esse jovem o quanto ele perde com tal escolha. Nem imagina esse jovem o conhecimento que está recusando e que mais tarde lhe fará falta. Armando e Almir, têm muito a ensinar e muito sorriso para colocar na face das pessoas. Basta que nós saibamos lidar com eles. É preciso aproveitar as boas companhias, a vida é breve, o tempo urgentíssimo e a sabedoria infinita e os sábios também são passageiros neste lugar, mas o conhecimento que eles trazem, se quisermos, permanecerão por muitas e muitas gerações. Vida longa ao Armando de Menezes e ao Armir Diniz, meus amigos, dois lindos meninos. 

domingo, 23 de março de 2014

sábado, 22 de março de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

Entrevista para "Ideias editadas"




Entrevista concedida a Jorge Bandeira, para a revista Ideias editadas, onde foi publicada, editada, no 
nº 10, de out/nov/dez de 2013.
 

 
1 – Quais são as suas influências como dramaturgo?
R: Ainda adolescente, ou quase, caiu-me às mãos a coleção Teatro Vivo, da editora Abril, uns 30 volumes. Foi um novo mundo que se descortinou. Mas nada me deixou mais em transe que a leitura das obras completas de Nelson Rodrigues e, depois, de Brecht.

2 –
Quantas peças escritas, até agora?
R: Até hoje, concluí oito peças. Quatro foram encenadas (Nós, Medeia, Diante da Justiça, Papai cumpriu sua missão e O beija-flor e o gavião); duas estão em fase produção (Otelo solo e Onde comem 3 comem 6); Duas aguardarão inéditas (Cenas da vida banal e A cidade perdida dos meninos-peixes).

3 – Quais das suas obras você destaca?
R: É difícil falar de filhos; mas gosto muito de Nós, Medeia e dos dois juvenis: O beija-flor e o gavião e A cidade perdida dos meninos-peixes. Estas duas foram reescritas para sair em livro, como novelas juvenis. 

4 – O que tem feito hoje nas artes?
R: Depois de 3 anos envolvido com A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, livro lançado em março passado, escrevi Onde comem 3 comem 6, um espetáculo para ser levado na rua, que o Grupo Vitória Régia está produzindo. Além disso, tenho palestras diversas, minicursos e participação em congressos de Literatura.

5 – O que acha da arte produzida hoje em Manaus?
R: Fazer arte é um processo; no meu caso, como escritor, o trabalho é individual, só depende de mim mesmo; quando um grupo resolve encenar alguma coisa minha – trabalho coletivo – é que me dou conta de como tudo é muito difícil; mas nunca foi fácil fazer arte: nem aqui nem em lugar nenhum. Detesto dizer que já foi melhor: é uma perspectiva falsa. Talvez daqui a 20 anos a gente ache hoje um tempo muito bom. Quer dizer: sempre pode piorar...

6 – Seus blogs?
R: O Fingidor, poesia e artes plásticas, está parado há dois anos, mas até hoje ainda recebe mais de 2.000 visitas/mês. O Palavra do Fingidor, uma revista de arte, resiste. E tem o Poesia na Alcova, do qual, aliás, quero extrair uma peça – com os meus poemas e de mais 4 jovens autores.

7 – O que acha da política cultural do Amazonas?
R: Acho graça!!!

8 – O que tem acompanhado nas artes em Manaus, no Brasil, no mundo,
enfim?

R: Não fico um ano sem ir a São Paulo, que não tem culpa de ser o centro da colônia, ver o que há de novo, especialmente no teatro. Porque, apesar de tudo, como diria Galileu, ela se move...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Stradelli por Loureiro - Sábado na Academia




Sábado na Academia – Antônio Loureiro fala sobre Ermano Stradelli

 
 
Conde Ermano Stradelli (1852-1926).

O conde italiano Ermano Stradelli  é um dos personagens mais singulares entre os estudiosos da Amazônia.

 
Antônio Loureiro – amazonense de Manaus, nasceu em 1940. Tendo estudado o primário e o secundário em Manaus, formou-se em medicina pela atual UFRJ. Grão-Mestre maçom, Loureiro dedica-se à história da Maçonaria e à história do Amazonas, que muitas vezes se cruzam.

É membro da Academia Amazonense de Letras, desde 2002, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e da Academia Amazonense Maçônica de Letras. É membro também da Academia Nacional de Medicina. Tem mais de 20 livros publicados e outros tantos a publicar, dentro de suas duas grandes áreas de interesse: O Amazonas e a Maçonaria.

Loureiro não foge de polêmica e afirma sempre orgulhar-se de ser amazonense e defender a região do neocolonialismo interno e externo.

Leia mais sobre o Sábado na Academia clicando aqui.

Abordagens teóricas do milagre como práticas de cura




João Bosco Botelho

 

A abordagem tomista do milagre foi duramente criticada por diversos filósofos. Voltaire e Renan argumentaram que sendo as leis natu­rais, criadas pela Divindade, absolutamente coerentes, é falso supor que possa existir qualquer ação física contrária a elas. Espinosa de maneira semelhante recusou a existência do milagre, apoiado na premissa de que a criação não tendo sido li­vre, mas feita pela necessidade da sua natureza transcendente, era impossível a intervenção extraordinária para mudar o seu curso.

O golpe mais forte recebido pela compreensão cristã do SINAL foi sustentado pelo agnosticismo kantiano, firmado contra o de­terminismo absoluto. De acordo com Kant, não existem leis fixas e constantes porque a estabilidade provém exclusivamente do nosso aspecto subjetivo de conhecê‑las. É incognoscível porque não temos como distinguir as formas variáveis e extraordinárias de agir da natureza.

A resistência, refutando a natureza divina do SINAL, contri­buiu para o milagre perder o valor ontológico e o argumento apologético, conservando somente o aspecto simbólico da fé.

Com o intuito de reforçar o conjunto do questionamento, pode­mos lembrar a imutabilidade das leis matemáticas regendo a essên­cia da coisa, expressando o modo de ser. Assim, em nenhuma hipóte­se, nem por milagre, o triângulo poderá deixar de ter os três ângulos. Por outro lado, se considerarmos a necessidade hipotética de as leis para reger as relações físicas entre as coisas, hoje compre­endidas a partir das três forças (gravitacional, eletromagnética e nuclear), os acontecimentos situados fora delas estariam obri­gatoriamente contidos em outra manifestação, ainda desconhecida, da natureza invisível. Assim, se o fogo não queimar a pele, o homem morto voltar à vida ou um enfermo incurável recuperar a saúde numa fração de segundo, podem estar somente evidenciando os aspectos incognoscíveis da matéria.

No Ocidente cristão medieval, os santuários curadores de Compostela e Jerusalém viveram vários séculos de glória recebendo peregrinos de toda a cristandade. Na atualidade, os de Fátima, em Portugal, e de Lourdes, na França, são os mais procura­dos. Mais recentemente, surgiu o de Medjugorje, na Iugoslávia. Os três sítios têm como expressão de fé, justificando a santidade, a con­vicção dos fiéis na materialização, circunstancial e imprevisí­vel, da Virgem Maria, a Mãe de Jesus.

Para evitar os excessos dos fiéis bem intencionados, foi criado, em 1882, uma comissão formada de médicos e religiosos, para analisar a veracidade dos SINAIS ocorridos em Lourdes. Apesar das milhares de curas descritas pelos peregrinos, a igreja católica anunciou, recentemente, a ocorrência do 65o milagre (Folha de São Paulo, 07/07/1989). Na época, tratava‑se de uma jovem siciliana de 25 anos, por­tadora de uma forma incurável de câncer ósseo no joelho. Em 1976, depois de ela permanecer uma semana próxima do santuário, um ano depois, houve o completo desaparecimento da lesão.

Existe complexa associação entre o sentimento de fé que envolve o peregrino e a medicina popular vivenciada por ele, com a forte influência da religião. No Brasil, nos estratos sociais privilegiados de tradição cristã, são mais enfocadas as procuras de Lourdes, Fatima e Medjugorje. Porém, existem outros locais de peregrinação, como a basílica de Aparecida, a estátua do Padre Cícero, os centros de umbanda, as igrejas protestantes e grupos kardecistas, todos recebendo um número muito maior de crentes, vir­tualmente agregados aos mesmos componentes de fé e religiosidade.

quarta-feira, 19 de março de 2014

terça-feira, 18 de março de 2014

Do cotidiano



                                                                                     Tainá Vieira


Não sei como era a vida das escritoras Florbela Espanca, Simone de Beauvoir, Clarice Lispector, Cecília Meireles e outras que admiro. Digo a vida de mulher casada, mãe, dona de casa ou solteira. Como elas conciliavam o trabalho da escrita com o trabalho de casa, ou será que elas apenas davam ordens às suas inúmeras criadas que tinham em seus casarões? Será que não havia um só dia em que essas mulheres não ficassem a sós em suas casas e iam para cozinha, lavar louça e cozinhar?! Ou saíam para comer fora?  Bem, não sei ao certo, vou procurar saber um pouco sobre o cotidiano delas. Talvez eu encontre alguma vida parecida com a minha ou talvez eu jamais seja uma escritora. É que às vezes passamos por situações difíceis dentro de casa.  São pequenos detalhes que na nossa cabeça tornam-se tempestades horrendas. São coisas da vida, do dia a dia.

Às vezes a pessoa está em algum lugar qualquer e de repente recebe uma luz, uma ideia genial para escrever um conto ou um poema. Hoje em dia é possível fazer pequenas anotações no celular, tablets ou se tiver em mãos papel, a pessoa escreve e deixa para concluir mais tarde. Deixa para aprimorar mais o trabalho depois. Conheço algumas pessoas que fazem isso. Segundo essas pessoas é quase normal esse tipo de coisa. Essas pessoas que recebem iluminação desse tipo afirmam que é bom aproveitar, pois acreditam que isso só pode ter vindo dos céus e se acham privilegiadas por receber tal benção. Isso faz acreditar que estão no caminho certo, ou melhor, isso os leva a crer que são bons escritores como quaisquer outros que tenham escrito os melhores romances e os melhores poemas da historia.

Isso acontece com meus amigos que se intitulam escritores e poetas. Comigo é coisa rara. O dia em que penso que recebi tal iluminação, eu estava na cozinha com uma pilha de louça para lavar, o almoço por fazer e a casa para arrumar. Nesse dia a empregada faltara por algum motivo.  A luz ou a ideia de escrever veio como um raio, o raio que você vai ouvindo aquele som horrível, que parece que acaba logo, mas na verdade vai cessando lentamente, assim veio essa luz para mim. E eu tinha que rapidamente tomar uma decisão, ou corre para a biblioteca e começa a escrever ou permanece na cozinha com seus afazeres.  Eu decidi lavar e secar a louça, em seguida preparar o meu almoço e depois limpei toda a casa. E só depois quando tudo estava limpo e arrumado, eu fui à biblioteca para escrever, fechei os olhos na esperança de receber aquela luz, porém, ela tinha ido com a mesma rapidez com que a água suja da pia escorre para o esgoto. Foi-se a luz, e eu fiquei imóvel e frustrada.  Fiquei com ódio de mim mesma por tamanha idiotice, onde já se viu optar por cuidar da casa a escrever?...  Talvez grite em mim a essência de mulherzinha, de dona de casa, e passe longe a essência de escritora, talvez seja melhor abandonar a tentativa da escrita, porque sempre haverá uma pia cheia de louças e o almoço por fazer, sempre haverá tarefas que exigiam urgência e eficiência e a escrita ficará sempre em segundo plano.


Por isso lembrei-me das grandes escritoras, pelos seus bons trabalhos escritos, elas jamais trocariam a sala de escrever pela cozinha.  Jamais cometeriam tal desapontamento para com o ato de escrever. Eu penso isso, penso que a escrita veio sempre em primeiro plano e não em segundo como para mim. Talvez eu ainda não tenha pegado jeito, talvez eu não sirva para isso, talvez eu jamais consiga escrever algo que alguém ache bom.  Talvez, tudo para mim é talvez. Na hora em que recebi a luz na cozinha para escrever, eu disse, vou continuar o meu trabalho e depois, talvez eu receba novamente.  Só que não veio. Talvez outro dia, se os deuses da escrita tiverem compaixão de mim, eu receba. Talvez.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Sábado na Academia - o primeiro de muitos


 
A despeito do desprezo unânime dos órgãos de comunicação, o Sábado na Academia voltou para fazer história.

Inaugurando a 1ª série de “A Academia e seus patronos” com uma brilhante conferência do escritor Elson Farias, o Sábado na Academia assistiu também a um excelente debate, do qual participaram acadêmicos e escritores presentes, assim como o público formado de estudantes e professores.

No próximo sábado, o historiador Antônio Loureiro discorrerá sobre Ermano Stradelli, o trágico intérprete da Amazônia.

O Sábado na Academia manterá abertas as portas da Academia Amazonense de Letras todos os sábados. As palestras ocorrem de 10 às 12. A entrada é franca, mas, para fazer jus ao certificado de participação, que vale para crédito de horas complementares, é preciso pagar uma pequena taxa por cada grupo de palestras.

Em maio, teremos “Augusto dos Anjos em 2 tempos” e, na sequência, “Márcio Souza: o mostrador da derrota”. No segundo semestre, a 2ª série de “A Academia e seus patronos”, a primeira edição do seminário permanente “O pensamento amazônico” e uma série de palestras homenageando os 60 anos de fundação do Clube da Madrugada.

Mais informações: 3342-5381 e acadam@igt.com.br

A Academia Amazonense de Letras fica na rua Ramos Ferreira, esquina com Tapajós, no Centro histórico de Manaus.
 
Elson Farias, sendo observado pelo presidente Armando de Menezes e o diretor de eventos Zemaria Pinto.

Acadêmicos compareceram, para prestigiar o confrade.

Estudantes atentos, fazendo anotações.


Depois da palestra, a informalidade.
 

Lábios que beijei 15



Zemaria Pinto
Iraci


Jamais um nome terá sido tão bem colocado em alguém. Iraci era toda mel. Na boca, nos seios, no sexo. Iraci foi o meu amor adolescente. Com ela, o sexo era mais que uma catarse – era um ritual, lento, cheio de aromas e sabores, os corpos se confundindo e se fundindo, numa metamorfose insana. Inebriando meus sentidos, o mel que brotava do corpo de Iraci – de cada poro de Iraci. Olhos amendoados, boca de largo sorriso, ancha de ancas e coxas, os seios fartos, maternais, no vigor de seus 15 anos, Iraci poderia ter saído de uma página de Alencar, uma tapuia amazônica. Tenho medo de ser traído pela minha frágil memória: passados tantos anos, Iraci me parece tão irreal que talvez nem tenha existido, é apenas fruto da minha imaginação, dos meus melhores sonhos. Pois se tudo foi tão bom, por que acabou? A última vez que a vi, até suas lágrimas sabiam a mel. Na verdade, encontrei-a uns 10 anos depois. Magra, sem viço, a pele fosca, os seios consumidos. Secara o mel de Iraci – e ela poderia adotar outro nome qualquer. Maria da Graça, por exemplo.

domingo, 16 de março de 2014

Manaus, amor e memória CLI

Praça da Matriz,
na confluência da Eduardo Ribeiro com a 7 de Setembro.

sábado, 15 de março de 2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

Elson Farias fala sobre Olavo Bilac, na Academia Amazonense de Letras

O poeta Olavo Bilac (1865-1918).
Um dos maiores poetas da língua portuguesa, Olavo Bilac foi condenado ao ostracismo pelos modernistas. Hoje, sabe-se da sua qualidade, como poeta e como cidadão.
Inaugurando a série “A Academia e seus patronos”, o poeta Elson Farias falará, amanhã, 15 de março, sobre a vida e a obra de Olavo Bilac, a partir das 10h da manhã, na sede da Academia Amazonense de Letras, Casa de Adriano Jorge – Rua Ramos Ferreira, esquina com a Tapajós, Centro.
A AAL fornecerá certificado de participação àqueles que formalizarem sua inscrição. Esse certificado vale como comprovante de horas complementares.
 
Elson Farias – nascido em Roseiral, no município de Itacoatiara, há 76 anos, foi levado, em razão das atividades comerciais de seu pai, a morar em várias localidades amazonenses, como Itacoatiara, Urucará, São Sebastião do Uatumã e Parintins, tendo estudado nas escolas públicas dessas cidades.
Veio para Manaus aos 18 anos, onde estudou no Instituto de Educação do Amazonas. É casado com D. Roseli Franco de Sá Farias e tem três filhos: Marcelo, Klarisse e José Eugênio, o Zezé.
Servidor público durante décadas, tendo exercido inúmeros cargos de relevância, inclusive o de Secretário de Estado da Educação e também de Secretário de Estado da Comunicação Social, Elson Farias agora é escritor em tempo integral.
Membro do Clube da Madrugada, da 2ª geração do Clube da Madrugada, Elson foi o primeiro daqueles rapazes rebeldes a entrar para a Academia Amazonense de Letras – em 1969. Falta pouco tempo para Elson ganhar um retrato entre os poucos que completaram 50 anos de Academia, vivos.
É também membro do Instituto Geográfico e Histórico de Manaus – o IGHA.
Com mais de 30 livros publicados, seu trabalho nos domínios da poesia, prosa de ficção, ensaio e literatura infanto-juvenil, expressa temas da Amazônia, a paisagem e o homem, os mitos e a natureza.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Entrevista 2/2



Entrevista concedida por Zemaria Pinto à jornalista Suelen Reis, para a revista Valer Cultural, onde foi publicada, editada, no nº 7, de out/nov 2013.


5 – Seus livros “O beija-flor e o gavião”, “O urubu albino” e “A cidade perdida dos meninos-peixes”, por exemplo, têm a questão regional, mas também mostram uma preocupação com a formação do ser humano. Fale dessas características de suas obras.

R: Eu não acredito na arte pela arte. Eu creio sim que a arte tem uma função social. Quando eu escrevo ficção – narrativa, lírica ou dramática – eu procuro mesclar a função primordial da arte, que é o entretenimento, o prazer, com uma reflexão sobre o estar-no-mundo. Escrever para criança, então, é muito delicado, porque aquele público ainda está em processo de formação, não sabendo discernir uma ironia – característica da minha obra adulta – de uma afirmação séria. Por outro lado, você não tem o direito de ser chato. Em síntese: é necessário encontrar um equilíbrio de linguagem entre uma base instrumental, repercutindo o momento histórico e seu entorno geográfico, de maneira utilitária, influenciando positivamente o pequeno leitor, mas sem perder de vista o caráter lúdico da literatura. Combinar essas três visões de maneira estética é muito mais complexo do que se imagina.

6 – Fale um pouco da sua relação com a leitura. Seus autores e livros preferidos, como a leitura aconteceu em sua vida?

R: Quem lê nas entrelinhas, já deve ter percebido algumas das minhas preferências. Vidas Secas foi o primeiro livro que eu li, já aos 13 anos. Comecei atrasado, reconheço, mas comecei bem... Não vivo sem reler Graciliano, Rosa, Clarice, Borges, Shakespeare. Na poesia, Drummond, Cabral, Pessoa, Borges de novo, Cruz e Sousa e Augusto dos Anjos, que me remete a Baudelaire. Uma coisa que aconteceu comigo e me marcou demais, ali pelos 15 anos, foi a leitura da Divina Comédia, na tradução de Xavier Pinheiro. Certamente, eu pouco entendi. Mas foi uma revelação extraordinária. Estas foram, ou melhor, são, leituras de adolescência que se prolongam ainda hoje, quando me vejo como um leitor mais experimentado e exigente. Mas das leituras atuais não falarei, senão faltará espaço.   

7 - O que o senhor acha que chama a atenção dos pequenos nos livros atualmente, já que eles têm um mundo de informações por meio das novas tecnologias?

R: Transito entre crianças – tenho uma neta de 4 anos – e sei o fascínio que o livro exerce sobre elas. Ainda não vi e-books para elas, mas já devem estar sendo produzidos. A criança gosta de fantasia. O livro proporciona isso a ela – não importa qual o suporte, se de papel, uma tela de cristal líquido ou coisa que o valha.

8 - Como o senhor avalia a concorrência da internet e de jogos eletrônicos nos dias atuais, o livro deve se adequar às mudanças tecnológicas? A internet é aliada ou vilã no quesito incentivo à leitura, na formação de novos leitores?

R: A evolução tecnológica é sempre aliada. Depende de como ela é utilizada. O livro, como o conhecemos, nesse suporte de papel, vai acabar. Não sei quando, sou ruim para vaticínios, mas vai acabar. Mas, a leitura não. O conhecimento encontrará novos suportes para ser veiculado. Mais: eu não vejo concorrência. A leitura é um hábito. O cinema, a televisão, a internet, os jogos eletrônicos concorrem entre si. O espaço da leitura, para quem adquire o hábito de ler, continuará preservado. E, por mais que se diga o contrário, alardeando o apocalipse do livro, o número de leitores no mundo só aumenta, a cada ano. Não é paradoxal que estejamos a proclamar o fim de algo que está cada vez mais vivo?

9 - Alguma novidade a caminho? Novos livros?

R: Depois de três anos trabalhando em A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, minha dissertação de mestrado, lançado em março, estou desacelerado, mas não consigo parar. Há livros prontos, como Ensaios ligeiros e Drops de pimenta (contos). Um infantil: Viagens na casa do meu avô. E outros em construção: um de ensaios, sendo finalizado, outro de contos e um de poemas. Ah, e tem umas peças de teatro, também. Este ano, estreamos duas: Otelo solo, dirigido pela Nereide Santiago, e Onde comem 3 comem 6, uma experiência de teatro de rua, dirigida pelo Nonato Tavares. 

10 – Como o senhor avalia o cenário da literatura infantil regional atualmente?

R: Com otimismo. Fico feliz em ver a produção vindo à tona, estimulando a velha guarda e trazendo gente jovem para a linha de frente. Mas continuo implicando com o termo “regional”. Nós fazemos literatura no Amazonas, para o mundo ler.

Milagre como prática de cura: o invisível simplificado


 

João Bosco Botelho

 

Constitui equívoco essencial associar o milagre somente ao cristianismo. A convivência do homem crente com os fatos extraordinários – os milagres – materializados a partir do poder divino é, na realidade, história de longa duração.

Os cultos terapêuticos dos povos que habitaram as terras férteis das margens do Indo, do Nilo e da Mesopotâmia eram fortes e muito utilizados. Naquelas culturas, algumas com mais de 6.000 anos, a doença estava invariavelmente ligada ao pecado e à ação dos deuses ruins, maus.  

A cura, sempre de natureza religiosa, era obtida quando o curador identificava o deus mau antes de expulsá‑lo do corpo doente ou quando o enfermo, depois de confessar o agravo cometido, pagava certos tributos nos rituais de purificação. O agente da cura era também sacerdote e atuava como represen­tante do sagrado. Os povos da antiguidade estavam repletos de deuses e deusas taumaturgas. Entre as mais famosas figuram o deus Mitra, celebrado em muitos templos espalhados no Egito, e Asclé­pio, adorado em belas edificações do mundo grego antigo, como a de Epidauro, na ilha de Cós. Em todos os santuários, os peregrinos se dirigiram para suplicar a cura milagrosa.

Contudo, foi no Antigo Testamento (AT), no Pentateuco, que o milagre apareceu como SINAL, ligado à fé monoteísta, em contrapo­sição ao politeísmo dominante. O fundamento da fé, para a liturgia judaica, não é o simples milagre, mas sim a Criação como a existência concreta e estrutura da moral. Ela foi realizada acima de todas as leis da natureza, sendo o primeiro e o mais importante de todos os SINAIS. Assim Iahweh estabeleceu o ritmo das estações (Ge 8, 22), o curso das estrelas (Sl 148, 6), o movimento dos mares (Jó 38, 10), as leis do céu (Jó 38, 33) e da terra (Jr 33, 25).

A herança do judaísmo observa duas tendências nas interpreta­ções dos milagres. A primeira admite a Bíblia cheia deles, devendo constituir fonte de reflexão à pequenez do homem. A segunda está relacionada com as interpretações místicas do judaísmo contidas no Zohar, ou Livro dos Esplendores, escrito em torno do século 12, na Espanha. Nesse último, os rabinos não aceitaram a necessi­dade do SINAL porque existiria harmonia absoluta entre o Criador e a sua obra. A tradição semita também compreendeu a enfermidade como castigo pelas faltas cometidas contra a Lei (Ex 4, 6) e a saúde ligada à intervenção divina (Sl 38, 2‑6).

Os primeiros padres da cristandade fizeram uma fantástica elaboração teórica dos SINAIS do AT. Os milagres de Cristo, des­critos pelos quatro evangelistas, assumiram grande importância na apologética da nova religião. O tomismo compreendeu a importância do milagre na fé como um “fato extraordinário produzido por Deus”. Contudo os anjos bons e os Santos poderiam ser instrumentos na promoção dos acontecimentos situados à margem das leis naturais. Por outro lado, distinguiu o milagre do prodígio. Este último, simples simulacro, não era fruto do poder divino. Estabelecendo o juízo de valor, Thomas de Aquino dividiu o milagre em absolutos, ou de primeira ordem, e relativos, ou de segunda ordem. Todavia, só reconheceu o primeiro como verdadeiro porque superando, em si mesmo, todas as concepções da natureza criada, só Deus seria o autor. O relativo, ao contrário, poderia ser determinado através das forças do universo sensível ligadas ao demônio. O milagre apologético, sempre de primeira ordem, é aquele que serve de louvor. Deve ser perceptível e confirmar a origem teísta da revelação. Tem particular interesse o seu aspecto físico porque é observável nos corpos. Logo, a cura de uma doença, considerada fatal e irreversível, pode ser entendida como milagrosa e um SINAL de Deus.

quarta-feira, 12 de março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Sábado na Academia volta dia 15 de março



Programação do 1o. semestre do Sábado na Academia.

Cronograma do conjunto de palestras A Academia e seus patronos, 1a. série.


A Academia Amazonense de Letras volta com o Sábado na Academia, projeto que manterá as portas da Academia abertas aos sábados, para palestras e debates.

Serão fornecidos atestados de participação aos interessados, a cada série de palestras.

Mais informações: 3342-5381 e acadam@ig.com.br.

O calendário do segundo semestre já está definido e será divulgado em breve.
A sede da AAL fica na rua Ramos Ferreira, 1009, esquina com Tapajós, no Centro.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Da verdade do amor



                                                                                                 Tainá Vieira


Arthur Schopenhauer foi o mais sábio de todos os filósofos e o mais feliz dos humanos, por não permitir que o amor lhe tirasse a razão. O amor é o mais cruel de todos os sentimentos, não é o mais bonito como todos dizem, não é sublime e nem sereno. Quem espalha essa ideia nunca amou alguém de verdade. “É fogo que arde, é ferida que dói”. É tudo isso e muito mais. Por amor nos sujeitamos a tudo, abandonamos nossos gostos, perdemos nossos direitos, esquecemos a nossa vida e passamos a viver a vida do outro. O amor não deixa cego e nem surdo, muito pelo contrário, o amor te faz enxergar e ouvir tudo, principalmente o que é errado, mas por amor, você finge que não vê e nem ouve nada.  Seria o amor belo assim? Mas o que é belo? Há beleza num relacionamento onde um manda e o outro obedece, há beleza nas lágrimas de um enquanto outro sorri. Isso é belo? Não, não é, no entanto, isso é o amor. Desse jeito que toma pra si a sua vida, lhe tira o direito de fazer escolhas, lhe submete a coisas horrendas, coisas desprezíveis, o amor escraviza. Não há nada pior do que ser escravo do amor. Como podem, os humanos afirmarem que o amor é benigno? Não, o amor é maldito, o amor é uma enfermidade sem cura, é uma peste que contamina a quem dele se aproximar. Dizer “eu te amo” para uma pessoa, é dizer “eu não existo” para si mesmo. Pois esse Eu vai desfalecendo aos pouco, vai entranhando no outro e logo torna-se uma molécula no corpo daquele que irá te dominar.  No amor não há trocas, não há dialogo, não há cumplicidade, pois o amor é egoísta, ele permite que seja feita apenas a vontade de um. O outro é apenas um recipiente onde ficam guardados os dejetos extraídos do amor.

O amor é o responsável por todas as atrocidades do mundo, o amor é a causa da existência da humanidade. Me contaram que o mundo começou com um homem e uma mulher, e do amor que sentiam um pelo outro a vida foi se multiplicando, depois foi triplicando e triplicando até que um dia eu nasci, nasci do amor e passado mais um tempo, fui contaminada por esse mal, o amor.  E de mim, se eu seguisse a regra, era para continuar com a expansão do amor. Acontece que eu fui escolhida para o sacrifício. Fui escolhida para que o amor chegasse ao fim, não mais continuasse, não recebi permissão para guardar em minhas entranhas a essência da multiplicação do amor.  Quando perguntei porque tinha sido eu a escolhida, responderam-me que o amor estava cansado. Cansado? E ele não é conhecido como o senhor dos sentimentos, como um deus? Porque deixaria sua essência esvair-se repentinamente, porque deixaria de existir?! Ninguém me respondeu.


Então, é assim o amor? O mocinho que seduz, conquista e depois tira sua máscara e mostra-se um vilão sem dó e piedade. O amor nada mais é do que uma simples ilusão! E onde fica ou para onde vão os versos daqueles poetas que cantaram o amor em seus poemas? Bobagem! Todos foram ou são escravos do amor! Eles escreveram seus versos com um chicote nas costas, foram obrigados, foram sim obrigados, como um escravo qualquer que é obrigado a cumprir suas tarefas. E o amor nos romances? Ora, ora e já não é sabido que romance é ficção, porque o amor no romance seria verdadeiro? É tudo ilusão! Então para quer exaltar algo que não lhe beneficia, algo que só lhe faz mal. Amar o amor, é o mesmo que ser discípulo de Deus ou Demônio: alguém já os viu, já trocou uma ideia sincera com eles?! Ah, esse negócio de sentir é conversa. Eu sinto dores de cabeça e de dente, seria a dor um deus também?! Se fosse seria a rainha de todos os sentimentos, pois a dor esta a cima de qualquer outro sentimento ou sensação que mexa com a alma e com o corpo. E o amor onde é que fica nessa história? Nos versos forçados dos poetas e nos corações feridos e apodrecidos dos humanos que se deixam enganar pelo amor!

domingo, 9 de março de 2014

sábado, 8 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Entrevista 1/2



Entrevista concedida por Zemaria Pinto à jornalista Suelen Reis, para a revista Valer Cultural, onde foi publicada, editada, no nº 7, de out/nov 2013.


1 - Antigamente, a literatura infantil resumia-se a literatura estrangeira traduzida. Depois, Monteiro Lobato abriu caminho para o gênero no País, mas com um caráter genuinamente brasileiro. E a trajetória até o regional, como você avalia?

R: A literatura amazonense obteve, nos últimos 15 anos, um avanço excepcional. A Editora Valer tem uma parcela importante de contribuição nesse processo. Embora amadores, enquanto autores, o produto resultante, o livro, tem uma surpreendente conformidade profissional. Era natural, então, que o segmento literatura infantil fosse demandado. E há demanda, senão não haveria publicação. Só não gosto dessa classificação: “regional”. Como Tolstoi, acredito que eu posso refletir o mundo a partir da minha aldeia. Por pequenina e humilde, a minha aldeia – assim como o rio que passa por ela – é a mais bela de todas as aldeias, simplesmente porque é a minha aldeia. Chame-se ela Manaus, Parintins, Cordisburgo ou Palmeira dos Índios, só pra ficar em aldeias famosas.        

2 - O reconhecimento da literatura amazonense é recente, veio na década de 50, com o surgimento do Clube da Madrugada, que inclusive completa 60 anos em 2014. Onde podemos dizer que nasce a literatura infantil regional?

R: Embora pontualmente, a literatura amazonense tem alguns destaques anteriores ao Clube da Madrugada. Este surge muito mais da necessidade de emancipação política dos jovens da época, que de uma necessidade estética. Esta veio no bojo das mudanças que se faziam necessárias. Posso cometer uma injustiça, mas a literatura infantil produzida no Amazonas ou por amazonenses – salvo raras exceções – começa mesmo na década de 1990, quando o Clube da Madrugada já era apenas um sopro.

3 - Antes dos autores locais, a região já era tema de livros nacionais com seus mitos e lendas, mas sempre algo muito de pesquisa. O que trouxemos com nossas obras foi essa experiência de quem vive aqui. Como você avalia essa diferença? Nossas histórias (de autores locais) têm mais especificidades, relatos mais precisos...?

R: A diferença é que nós vivemos aquilo sobre o que escrevemos. É diverso de ler sobre ou fazer entrevistas rápidas para compor um texto que reflete o imaginário de uma região tão complexa como a Amazônia. Quanto narramos uma história amazônica – ou recriando-a ou inventando-a – ela sai naturalmente de dentro de nós. E não de uma prateleira de secos e molhados ou da gôndola de um supermercado francês.

4 - O senhor tem outros livros, de outros gêneros. Quando e como despertou esse interesse pelo universo infantil?

R: O Tenório Telles, no papel de amigo e editor, incentivou-me a recriar duas peças juvenis que eu tinha na gaveta. Daí surgiram A cidade perdida dos meninos-peixes, que é uma narrativa inventada, e O beija-flor e o gavião, que é uma recriação de uma história real que se passa na África, mas que eu ambientei em Novo Airão, cidade que é uma sucursal do paraíso terrestre. O urubu albino teve uma gênese engraçada. Numa roda de amigos, o contista Allison Leão, a propósito não lembro do quê, saiu-se com esta: “é mais difícil de achar que um urubu albino”. Fiquei com aquela ideia na cabeça umas duas semanas, até que a historinha veio completa, com ilustrações e tudo. Dediquei o livro ao meu amigo Allison, pela “inspiração”. 
(Continua na próxima quinta-feira)