Amigos do Fingidor

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A poesia é necessária?

          Água doce

Astrid Cabral

 

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

sem a ameaça constantes das vagas

sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

poraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.



quarta-feira, 28 de abril de 2021

terça-feira, 27 de abril de 2021

Verdade histórica

 Pedro Lucas Lindoso

 

Meu amigo Tibério é supersticioso. Muito supersticioso. Carioca, veio transferido a trabalho para Manaus. A família de Tibério adaptou-se bem. Ele gosta de Manaus. Mas ao se aposentar pretende retornar ao Rio de Janeiro. Sente falta do mar. E por isso não come jaraqui. Ouviu dizer que quem come jaraqui não sai mais daqui.

Tibério conta que ficou assim por causa de Santos Dumont. Explica que o Pai da Aviação era muito supersticioso. E vira e mexe traz má-sorte. Santos Dumont abominava os números treze e oito.  Segundo Tibério, a série de máquinas voadoras projetadas por Dumont pulou do dirigível sete para o dirigível nove. O aeroporto Santos Dumont pegou fogo numa sexta-feira 13 de 1998. 

Houve um grave acidente que Santos Dumont sofreu em Paris no ano de 1898. Ora, 1898, noves fora oito.  Exatos cem anos antes do citado incêndio no aeroporto do Rio, em 1998.  Noves fora zero. O painel com seu retrato ficou intacto.

A casa de Santos Dumont em Petrópolis é a maior prova de que ele era realmente um homem supersticioso. A escada da porta de entrada foi construída de forma que no primeiro degrau só é possível pisar com o pé direito. Tibério nos relata ainda que Dumont jamais colocava chapéu em cima da cama. E proibia quem o fizesse. 

Há muitas histórias. Durante a construção do aeroporto Santos Dumont, os arquitetos do projeto nunca colocavam as iniciais SD nas plantas. Para evitar azar, usavam as AD, que não significa nada.

O pai da aviação, segundo historiadores, passava horas no terraço da casa em Petrópolis observando as estrelas com sua luneta. Apontar estrelas dá azar. Provavelmente ele nunca apontava para elas. Dizem também que apontar estrelas faz nascer verrugas no dedo.

Quando se mudou para Manaus, o corretor ofereceu a Tibério uma casa no conjunto Santos Dumont. Ele achou melhor ir para o Parque das Laranjeiras.

De tanta superstição, Santos Dumont acabou ganhando fama de azarento no mundo da aviação. Conta-se que entre os pilotos e comissários de bordo é costume bater três vezes na madeira, sempre que o nome dele é pronunciado. Tibério ia de avião com a esposa e o neto de oito anos de Manaus para o Rio. De repente o menino pergunta:

– Vovô, quem inventou o avião? Tibério respondeu.

– Foram os Wright Brothers. E advertiu a esposa:

– Não fala nada. Quando o avião descer eu vou restituir a verdade histórica.


domingo, 25 de abril de 2021

Manaus, amor e memória DXII


Porto de Manaus, em 1907.

 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A poesia é necessária?

          Moto-contínuo

Zemaria Pinto

 

Tudo muda, tudo passa,

tudo está em movimento

sobre a terra e sob o céu,

inclusive o pensamento.

 

Lentamente a História muda,

lentamente muda o Homem,

tão lentamente que às vezes

pensamos que estagnou.

 

As longas noites da História

passam-se tão lentamente

que nem nos apercebemos

quando o dia, enfim, chegou.

 

Tudo muda, tudo passa,

tudo está em movimento

sobre a terra e sob o céu,

inclusive o pensamento.

 

Tudo está em movimento

sobre a terra e sob o céu:

os corpos e os vegetais,

a fé e a necessidade,

a volúpia e a vontade,

o desejo e o desalento.

 

Tudo o que é vivo apodrece,

o que é líquido evapora,

o sólido se deforma,

o fogo que queima apaga

e o ar, puro ou cinzento,

a cada instante renova-se,

e mesmo o pó se transporta

sob o trabalho dos ventos.

 

Tudo muda, tudo passa,

tudo está em movimento

sobre a terra e sob o céu,

inclusive o pensamento.



quarta-feira, 21 de abril de 2021

Poesia solta na rua - 3a live


Com a participação de Celdo Braga, Nicolas Junior, Grace Cordeiro e Cláudio Fonseca.
Link de acesso: 
 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Franceses – bien venue

Pedro Lucas Lindoso

 

Conversávamos por WhatsApp. Eu e meus amigos Chaguinhas e Tibério. Chaguinhas é um homem com grandes pendores de liberalismo. Acha que o estado brasileiro é muito gordo e deve emagrecer. É favorável às privatizações. Achou que foi bom o nosso Aeroporto de Manaus Eduardo Gomes ter sido privatizado. Já Tibério, que já foi envolvido com sindicatos, mas hoje não quer saber de política, em princípio é contra privatizar.

Lembrou que os franceses já administraram nossa água e saneamento. Deixaram a desejar. Segundo Tibério, a multinacional francesa Suez que sucedeu à COSAMA, não investiu o que deveria. Manaus é uma das piores cidades em coleta de esgoto. Grande parte da população ainda não é beneficiada com saneamento básico.

Lembrei-lhes que os franceses são cartesianos. Costumam ser racionais e metódicos. Vi um filme em que um grupo de seis amigos comemoravam o aniversário de um deles. O bolo foi dividido em exatos seis pedaços pela anfitriã. Eles são extremamente competentes em “partagés”, que significa dividir, compartilhar. Tibério me interrompe e concorda que são assim só entre eles.

Já Chaguinhas, que adora a cultura francesa, lembrou dos jardins de Versailles. Os jardins deles têm a formalidade como característica. Círculos, retângulos, quadrados e triângulos apresentam simetria perfeita. Vão transformar o nosso Eduardo Gomes. Vai ficar uma beleza!

Lembrei-lhes, ainda, de um programa de entrevistas na TV francesa. O entrevistado era um rapaz. Ao lhe ser perguntada a idade, o jovem respondeu que tinha dezesseis anos e meio. Nenhum garoto brasileiro daria uma resposta dessas.

Todos nós concordamos que os franceses cultuam muito a filosofia pregada por René Descartes. Ora o grande matemático francês pregava que nunca se deveria acreditar no falso. As coisas devem ser totalmente fundamentadas na verdade. Descartes tinha preocupação com a clareza. Acreditava em coisas práticas e nada de especulativo.

Essa filosofia é totalmente contrária à nossa caboquitude, segundo Tibério. Vai ser como o saneamento. Não vai dar certo.

Já Chaguinhas acha que os franceses são formidáveis e será bom para Manaus a chegada deles para administrar nosso aeroporto. E concluo:

– Franceses. Bien venue!


segunda-feira, 19 de abril de 2021

A literatura como função social

 

Fala no encontro Literatura Periférica - Estilhaços Literários, 
no último sábado, 16/04.

domingo, 18 de abril de 2021

sábado, 17 de abril de 2021

Clarice e eu

 Tainá Vieira

 

Clarice e eu é o nome desta crônica porque se trata de um texto bem intimista, na verdade, nem era para ser compartilhado, mas preciso mostrar o quanto tempo eu perdi, menosprezando uma autora que mudaria a minha medíocre existência.  Sei, estou agindo como uma colegial, porém, eu não me importo. Clarice exerce um poder intenso sobre mim, a forma complexa e sutil de narrar, me motiva, influencia e inspira muito.

Quando eu estava no curso de Letras – Língua Portuguesa, e mesmo antes do curso, eu lia muito, sempre digo que a minha jornada na literatura se deu primeiro com a leitura, isso é óbvio, não poderia ter sido diferente. Todavia, jamais me interessei pela literatura de Clarice, por dois motivos: o primeiro era porque sempre ouvira falar que a sua escrita era difícil de entender, muito complexa e cansativa, e o segundo motivo, era por pura preguiça de me esforçar para entender.

Eu queria algo mais leve e fácil, eu queria mesmo era sombra e água fresca, nada de olhar para as profundezas das emoções das personagens, como no romance de estreia de Clarice, Perto do Coração Selvagem. Esse romance mudou a minha vida de verdade, e isso não é um clichê. Vira e mexe, estou pensando em Joana, ó minha triste e doce Joana, quão feliz eu fui adentrando a tua infeliz história. Por várias vezes, vi-me ali, por muitos instantes tu, Joana, eras eu, vivi contigo muitas agruras e tive também quase os mesmos pensamentos teus.

Formei-me, especializei-me, o tempo passou e Clarice sempre ficou para trás na minha vida. Sentia uma raiva tão intensa quando alguém perguntava sobre algum livro de Clarice, e eu respondia que não conhecia e a pessoa se assustava, como assim não conhece nada de Clarice? Eu, retrucava, quem é Clarice na fila do pão? É mesmo essencial ler Clarice?

Comecei lendo as suas crônicas, uma coletânea, Todas as crônicas, são mais de 600. O destino armou direitinho essa cilada boa, me pegou com as crônicas, e eu conheci uma autora totalmente oposta daquela que ouvira falar, e senti um ódio tão grande de mim por me deixar levar “no ouvir dizer.”  As crônicas de Clarice são inspiradoras, nota-se a paixão pela escrita, pela Língua Portuguesa, e pelo país que ela tanto amou. Em seguida fui para os romances, me esforcei muito para gostar da Macabéa (já havia lido na época da faculdade, mas foi por obrigação), prefiro a Joana, contudo, a minha favorita é G.H. G.H fala aos meus ouvidos, na verdade, estou ali naquele quartinho acompanhando cada cena que sua mente produz.  Vivo aquela condição humana tão banal e tão necessária, e deixo-me levar por aquele turbilhão de emoção que percorre a narrativa.

Quando estou com tempo sobrando, assisto à entrevista de Clarice concedida quase um ano antes de ela morrer.  Já fiz isso várias vezes e mais vezes farei. Tenho um álbum na minha galeria de fotos só dela. Quando penso em Clarice, lembro também de uma professora da época da faculdade que faleceu um dia destes: ela amava e nos falava com paixão da obra de Clarice e dizia-me que eu precisava ler Clarice, que Clarice era fundamental. A minha professora estava coberta de razão.

Passei pelas crônicas e por alguns romances e estou finalizando os contos, os contos que, quanto mais complexos, melhores são. E eu tenho certeza, jamais encerrarei as leituras, Clarice sempre estará ao meu alcance, tanto que A paixão Segundo G.H, me chama. Nunca vi isso, um livro chamar por mim.

Antes de ler integralmente A Paixão segundo G.H, eu já havia iniciado umas duas vezes, e parava, não porque não entendia, mas sempre acontecia algo que fazia com que eu deixasse a leitura de lado, só que um belo dia, eu decidi, vou terminar esse livro, recomecei, e em dois dias, eu estava triste porque havia terminado: eu queria mais, queria que a leitura durasse mil e uma noites. Algo estranhamente tem acontecido, sinto uma necessidade de relê-lo.  Estou quieta, e subitamente vem uma vontade de começar a ler tudo de novo, é como se esse livro chamasse por mim.

Essa é a literatura de Clarice, poderosa, inspirável, avassaladora e dominante; quem a conhece, a compreende, não escapa mais e fica literalmente à mercê, como se, dela, o leitor necessitasse para sobreviver. A obra de Clarice é o melhor enigma para que se possa desvendar (ou tentar) antes de começar a escrever. Clarice é essencial, sim.

 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A poesia é necessária?

             Fuga

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

 

Aos ventos espalhei a cinza dos meus gestos.
Num desprezo de mim, fiz-me poeta,
traí os meus sonhos, enchendo vãos papéis
de traços sem sentido e talvez falsos.
Fui poeta como alguns se suicidam,
como outros partem sem destino certo.
Sonhei-me longe de tudo o que possuo
– longe de mim, longe de quem? –
afastado, sem contas a prestar...
Foi longo o meu engano. Agora vejo
que nunca de mim eu me afastei...

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Estilhaços Literários no Monte das Oliveiras




No dia 16 de abril, participaremos da 10ª edição do sarau “Estilhaços Literários – Literatura Periférica”. O evento, que é realizado desde 2017, foi contemplado pelo Edital Prêmio Feliciano Lana – Lei Aldir Blanc, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, e será realizado no formato híbrido, para que possamos atender aos requisitos higiênico-sanitários de enfrentamento à pandemia. Será transmitido pela página Estilhaços Literários – Encontro de Escritores Indigestos, do Facebook.


 

terça-feira, 13 de abril de 2021

Sábado de Aleluia: brigas e tiros

 Pedro Lucas Lindoso

 

Sábado de Aleluia. Ligo para meu amigo Chaguinhas. Estava em seu sítio. Todo ano Chaguinhas passa a Semana Santa em sua pequena propriedade na região de Rio Preto da Eva. E obriga-se a uma vigília. Não necessariamente à vigília Pascal. Mas a inusitada vigilância de seu galinheiro, para evitar os tradicionais furtos de galinhas na Semana Santa.

Roubar galinhas, na madrugada da Sexta-Feira Santa para o Sábado de Aleluia é um costume antigo. Uma prática ainda frequente em algumas cidades brasileiras. Aqui em Manaus, e em muitas cidades, tem sido raro, dada a inexistência de criações devido à urbanização. Diferente de outros tempos em que era comum criar animais na área urbana. Mas ainda acontece. No interior o costume é mais presente. Que o diga Chaguinhas.

Segundo o jovem historiador Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa, a explicação para esse antigo costume se deve à crença de que Jesus, estando morto, ressuscitaria só no Domingo de Páscoa.  Deus não poderia ver os pecados dos ladrões de galinhas. Assim, seus “crimes” poderiam ser praticados sem medo ou culpa.

Outra tradição, essa mais recorrente, é a malhação de Judas, também no Sábado de Aleluia. Enforca-se um boneco em um poste, normalmente do tamanho de um homem. Usa-se serragem, trapos ou jornal na confecção. Depois o boneco é estraçalhado e até mesmo queimado. No Brasil é comum enfeitar o boneco com máscaras ou placas com o nome de políticos, ou qualquer personalidade não tão bem aceita pelo povo. A vítima pode ser também um vizinho malquisto.  Meu pai proibia essa prática, por considerá-la ofensiva.

Talvez a brincadeira mais antipática praticada na Semana Santa é o “serra velha” ou velho. A vítima idosa recebe a visita dos brincalhões, que se postam diante da casa da velha ou velho. Começam serrando uma tábua ou lata. Os demais acompanham o ronco e o ruído da serra em gritos, lamentos e prantos. “Serra a velha (ou o velho)”, gritam todos. Ninguém gosta da brincadeira. É mau agouro. Reza a lenda que velho serrado não chega à quaresma seguinte.

O fato é que gente que cria galinha como Chaguinhas, político ou celebridade malquista e velho rabugento sofre com os perrengues durante a Semana Santa. Chaguinhas me relata que, com o país polarizado em disputas ideológicas, as brincadeiras provocaram brigas e até tiros país afora. Mesmo em plena pandemia!

 

domingo, 11 de abril de 2021

Manaus, amor e memória DX


Alfândega de Manaus.

 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A poesia é necessária?

         O meu amor foi embora (Travessia n° 2)

Zemaria Pinto

 

Em memória dos mortos.

Aos sobreviventes.

 

o meu amor foi embora

a noite desceu em mim;

já não sou mais eu, agora,

e no silêncio das horas

quem cantará para mim?

 

o meu amor foi embora

quem cuidará do jardim?

quem podará meus abrolhos,

quem me enxugará os olhos

na noite dentro de mim?

 

partiu de mim em silêncio

na última nau noturna

no rasto da madrugada

foi morar no sete-estrelo

na fronteira do infinito

no lado esquerdo do nada

 

o meu amor foi embora

levando minha esperança

meu desejo, minha fé

sufocando para sempre

minha alma de criança

 

o meu amor foi embora 

fez-se deserto em meu ser

apagou-se o meu sorriso

e na larga travessia

fez-se noite em meu viver*

 

partiu de mim em silêncio

na última nau noturna

no rasto da madrugada

foi morar no sete-estrelo

na fronteira do infinito

no lado esquerdo do nada

 

(*)Verso de Fernando Brant, na canção Travessia (1968), parceria com Milton Nascimento.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

"Poesia solta na rua" retorna on-line e pede: "fique na rede"


Link de acesso:
https://www.facebook.com/ivan.deoliveiraii.9/

 

Alfredo Bosi (26/8/1936 – 7/4/2021)

 

Alfredo Bosi, mais que um crítico, um pensador da literatura brasileira.

Oswald de Andrade em poesia


Gravado para Comemorações do 
Centenário da Semana de Arte Moderna - PUC-SP.
 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Semana santa e lua cheia: perene e inabalável

 Pedro Lucas Lindoso

 

Gosto de pensar a Páscoa como uma festa em que celebramos a vida. A natureza se renova. Jesus ressuscita para nos salvar. E o céu nos brinda com uma maravilhosa lua cheia.

Quando eu era menino, a Semana Santa era plena de mistérios. Uma mistura de sentimentos envolvendo medo, respeito e dúvidas. O alívio vinha mesmo no domingo de Páscoa, onde parecia que tudo voltava ao normal. Jesus havia ressuscitado e estava tudo bem. Havia sempre um almoço de família, com festa e contagiante alegria. Pela noite, a lua cheia como sempre, flutuando no nosso céu amazônico.

No Sudeste, há a procissão do fogaréu. Aqui temos a Procissão do Senhor Morto. Recorda-se o momento em que os discípulos retiram o corpo de Jesus Cristo da cruz para sepultá-lo. A imagem do Cristo Morto é acompanhada das imagens de Nossa Senhora, Maria Madalena e João Evangelista. Ano passado não houve a procissão por conta da pandemia. Esse ano também está suspensa.

A sexta-feira santa é um dia em que não se come carne. Na mesa do caboclo tem sempre um peixe.   Uma caldeirada ou um tambaqui assado. Ou mesmo um bacalhau nas casas dos mais abastados. É preciso respeitar o sofrimento do Cristo. Mas o “peixinho” da sexta-feira é degustado em família e com alegria. Essa horrível pandemia tem prejudicado esses encontros. 

Numa dessas sextas-feiras, eu era menino e chovia muito. Como sempre chove em Manaus nesses dias. Fui tomar banho de chuva. Fiquei de castigo. Ao anoitecer, a chuva cessa. As pessoas se permitiam colocar cadeiras na calçada e observar a lua cheia. Não existe Semana Santa sem lua cheia.  São lembranças de infância. Uma Manaus que vivi e que não mais existe.

A pandemia tem feito muitos estragos em nossos corações. Não houve Natal, não houve Carnaval. Esse ano também não tem a procissão. A peixada em família está prejudicada. Não quero saber de novo normal. Quero o normal de volta.

A sexta-feira santa é sempre baseada na primeira lua cheia após o equinócio da primavera no Hemisfério Norte e do outono no Hemisfério Sul. Portanto, uma coisa a pandemia não conseguiu atrapalhar. A lua cheia da Semana Santa. Esse ano ela se mostrou a nós terráqueos, novamente linda, sem máscaras, radiante. Desafiando o vírus maldito. A lua cheia é perene e inabalável. E nos traz esperanças em dias melhores.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

Folia no seringal: alegoria e paródia em O amante das amazonas 9/9

Zemaria Pinto

 

Apoteose: possível conclusão

Arquitetado sobre uma plataforma combinatória de paródia, alegoria, intertextualidade e metalinguagem, O amante das amazonas é o retrato expressionista de uma época, cuja essência, mais de cem anos passados, ainda não foi desvelada na sua integralidade. Mas, isso seria possível? Só temos certeza de que a aparência é enganosa, pois acumula discursos que se contrapõem, variando de acordo com os interesses imediatos. É certo, entretanto, que no texto de Rogel Samuel, narrativa, ambiente e personagens nos são revelados para muito além da percepção dos sentidos, como representações inauditas da violência coletiva e do vício individual: deformações do corpo, da alma e da razão. O mundo em desconcerto, a vida em dissonância. A realidade fictícia de Samuel não nos dá esperanças para o futuro, mas nos mostra como fomos no passado e, por analogia, como somos agora.    

Misto de romance de aventura, policial, histórico, indianista e de costumes, O amante das amazonas estabelece uma ponte entre sua época – agora – e a tradição de romances sobre a Amazônia, que, afora os autores citados, remonta ao visionário Gaspar de Carvajal, passa por Júlio Verne, Raul Pompeia, Conan Doyle, Gastão Cruls, Mário de Andrade e Raul Bopp, além dos autores da região, num diálogo intertextual que avança muito adiante da relação cômico-trágica, proporcionando uma visão panorâmica sobre o período, mas com uma perspectiva nova e inovadora, ressignificando o conceito de romance amazônico.   

 

Assista à palestra, no YouTube, clicando aqui.


sábado, 3 de abril de 2021

Renato Augusto Farias de Carvalho (30/6/1935 – 2/4/2021)

 

Renato Augusto era membro titular da Academia Niteroiense de Letras
e do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói.

Poeta e ficcionista, o amazonense Renato Augusto Farias de Carvalho era dedicado ao seu ofício. Na sequência, a orelha que escrevi para Chapada Síria (2018), uma novela passada em uma Manaus que sobrevive apenas na lembrança e na arte.


A memória é repositório e é arrimo. Nenhum escritor exerce sua lida sem dela servir-se, por mais que o negue; e por mais que, negando-o, seja sincero. A infância e a adolescência são o paraíso perdido do qual somos expulsos adultos. Sabendo disso, Renato Augusto Farias de Carvalho destila sua prosa elegante – a elegância é siamesa da simplicidade – a partir do manancial de sua própria memória, recriando situações e personagens que fazem parte de suas lembranças mais recônditas.

Ou não. Afinal, o protocolo da ficção – e aqui estamos diante de uma novela, naquela acepção bem luso-brasileira de narrativa de extensão mediana, com poucas células dramáticas, e relação tempo/espaço bem definida – recomenda-nos não confiar em narradores-personagens: os narradores testemunhas não conhecem a trama como um todo, apenas aquilo que lhes foi concedido conhecer; os narradores protagonistas, por sua vez, expressam o seu ponto de vista, que pode ser parcial, também, mas, e esse é o problema, pode ser passional – vide Bentinho, o D. Casmurro, desmascarado por Mrs. Caldwell depois de 60 anos...

Enfim, Leninho, o narrador autodiegético de Chapada Síria, revisita a Manaus de sua infância, mas não para referir melancolias saudosistas: Leninho tem saudades do futuro, pois, para falar deste, ele precisa reconstruir o passado. Centrada na figura emblemática da atriz Nini Omã, Chapada Síria tem o toque clássico dos grandes dramas, com seus encontros, desencontros, desencantos, reencontros e reencantos – ao som de jazz-bands, fadistas e chorões.

Num tempo de intolerância com imigrantes – tempo vergonhoso – Renato Augusto arquiteta um painel de culturas migrantes bem no meio da selva amazônica. E neste ponto ele é verdadeiro. Manaus sempre foi esse amálgama de quereres e saberes, colores e sabores. Aos árabes e portugueses, somem-se japoneses e nordestinos, além dos irmãos paraenses, claro. E, agora mesmo, haitianos e venezuelanos.

É gratificante e exemplar ver o amigo Renato – na sabedoria de seus 83 anos – produzindo e fazendo planos. A leitura de Chapada Síria me fez viajar no tempo, Renato, lembrando a Manaus da minha meninice – um tempo anterior ao sinistro encontro com o chato de um querubim, que, com seus óculos ray-ban e seu alfanje de plástico, me escorraçou do meu paraíso, para sempre e sempre perdido.

(Zemaria Pinto)

                                                                                                    

Thiago de Mello, 95 anos - depoimentos


Depoimentos sobre os 95 anos de Thiago de Mello, por Zemaria Pinto.






sexta-feira, 2 de abril de 2021

O Pulso - decálogos sobre a poesia viva

 Marco Aurélio de Souza


O DIA EM QUE CARLA ASSASSINOU O MEU GATO E OUTRAS CRISES DE AMOR – ROJEFFERSON MORAES


1. Após uma sequência de três livros de poemas editados de maneira independente, Rojefferson Moraes fez sua estreia editorial com este O dia em que Carla assassinou o meu gato e outras crises de amor, publicado pela Penalux, em 2017. O título é bastante autoexplicativo: na maior parte de seus poemas, nos vemos defronte a flertes impensados, casamentos que começam e terminam como um relâmpago, crises de relacionamento e ilusões amorosas que se aproximam perigosamente dos destinos trágicos.

2. A poesia do escritor amazonense não nutre procedimentos esteticistas e nem se utiliza de vocábulos sem antes testá-los na prova real da fala cotidiana. Bruta como um divórcio conflituoso, áspera como uma transação entre sobreviventes, sua poética está colada irremediavelmente ao bafo das ruas, ao asfalto quente das periferias manauaras.

3. Coeso nas questões formais e temáticas, o volume é dividido em três partes: a primeira, mais longa, traz uma série de poemas associados à expressão de um enigma; na segunda, somos apresentados à personagem que habita o título do livro, Carla, que protagoniza uma espécie de novela poética; a terceira parte, por fim, traz poemas avulsos focados em relacionamentos amorosos. Uma vez que, diferente da primeira, as seções finais da obra nunca se distanciam da ideia contida no título (a das crises de amor), parece-me que o autor poderia ter desdobrado este livro em dois, guardando os poemas que fogem à sua temática principal para um volume à parte.      

4. Na primeira seção do livro, tal como as personagens criadas por Rojefferson, suas micronarrativas parecem sofrer o tempo todo de uma ansiedade paralisante, angústia da mesma natureza que aquela experimentada pelo malandro que decide mudar de vida, alcançando seu objetivo pelo período estreito de dois dias e meio.

5. E porque seus protagonistas parecem estar sempre preparando terreno para uma mudança íntima que logo se mostra ilusória, os próprios poemas do livro parecem se render a um efeito de atrofia, perdendo suas possibilidades heroicas mediante um mergulho afoito nas mais diversas interdições existenciais que caracterizam a vivência periférica.



6. Em diversos poemas, o processo de quebra de expectativas se constrói por meio da aceitação da vida ordinária, das obviedades e de como as coisas realmente são. Enquanto o leitor espera o consolo de uma reviravolta, de uma luminosidade algo divina capaz de provocar um desvio na trajetória das personagens, o desfecho típico de suas crônicas poéticas derruba, como um terremoto impiedoso, até mesmo o que a custo ainda estava em pé. 

7. Assim, por exemplo, ao narrar o despertar de um bêbado no asfalto, vítima de ultrajes e humilhações, o poema torce as eventuais expectativas de transformação com o desfecho mais previsível: o homem sente o desprezo do mundo e, com sua garrafa de “verdades que ninguém vê/toma, cospe, manda todos pro inferno/depois levanta, cambaleante” (O enigma do sono – I). Aqui, não há qualquer redenção possível, somente a vida com seus ciclos infinitos de miséria e dor.

8. Manaus, explosão urbana incrustada no coração da selva, é a paisagem degradada dos poemas enfeixados neste livro. Não espere, porém, o índio idílico, o pescador bucólico ou o caboclo amante da natureza: a capital amazonense aparece em sua faceta mais realista e brutal, cortada por igarapés contaminados e povoada por todo tipo de miseráveis e marginais. E por se erguer sobre uma geografia poética, é certo que a experiência de seus poemas será algo diferente para aquele que conhece a cidade por trás da poesia, sendo por isso capaz de vislumbrar mais facilmente a força de um punk sujo assobiado pela Eduardo Ribeiro, entre outras imagens/referências à urbe manauara.

9. Provando a força que a cidade possui em sua poesia, mesmo quando seu lado lírico e romântico parece predominante, Manaus continua no horizonte dos poemas, surgindo de suas frestas qual uma ameaça, a exemplo do que ocorre no poema “O enigma da inocência” (ver no primeiro comentário), que expõe a vulnerabilidade da vida na metrópole mediante um contraste quase irônico com a inocência da infância.

10. Como se vê, portanto, o valor da literatura de Rojefferson não se encontra em achados formais, mas sim na sensibilidade cultivada pelo autor em meio aos corres do cotidiano, na visão de quem sabe bem como é estar sempre à mercê de decisões e acontecimentos que escapam à esfera íntima da consciência – os imperativos do Estado, do marido, da sorte, da boa vontade alheia e das instituições –, por isso compreende a explosão que muitas vezes advém como perigosa consequência de um desejo natural pela dignidade e pelo poder.