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sexta-feira, 16 de junho de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 8/8

Zemaria Pinto

 

Mito, o nada que é tudo. A narrativa de Carvajal é a semente da qual brotou o mito, envolto em polêmica e mistérios. Há gente séria que acredita poder achar, ainda hoje, as provas de que Carvajal não aumentou em muito a realidade que vivera. Ao longo do tempo, foram várias as tentativas de esclarecer o mito: um século depois de Orellana, Acuña fala das Amazonas com fé inabalável; Walter Raleigh, no século XVI, que descreveu animais fantásticos na Amazônia e anunciou ter descoberto o El Dorado, situou com precisão as terras das Amazonas; La Condamine, em 1745, acreditando que uma mentira tantas vezes repetida torna-se verdade, admite que “todas essas informações tendem a confirmar que houve neste continente uma república de mulheres que viviam sozinhas, não havendo homens entre elas” (LA CONDAMINE, p. 84-85, apud MAGASICH-AIROLA e DE BEER, p. 185); Alexander Von Humboldt, mais cuidadoso, no início do século XIX, observa que:

 

A fascinação pelo maravilhoso e o desejo de embelezar as descrições do novo continente através de alguns traços extraídos da Antiguidade Clássica contribuíram para que se atribuísse uma grande importância aos primeiros relatos de Orellana. Vários autores pensaram encontrar nos povos recentemente descobertos tudo o que os gregos nos ensinaram sobre a primeira idade do mundo e sobre os costumes dos bárbaros. (HUMBOLDT, p. 127-131, apud MAGASICH-AIROLA e DE BEER, p. 187)

 

O poeta Gonçalves Dias, que andou pela região em missão oficial, em 1861, escreveu um ensaio – A lenda das amazonas – onde tenta demonstrar matematicamente a impossibilidade da existência das amazonas: de 1.000 mulheres, 800 ficariam grávidas; destas, 200 abortariam, ficando apenas 600 a procriar; a maioria a nascer, especialmente nos primeiros anos, é de homens; logo, nasceriam, se muito, apenas cerca de 150 meninas; considerando que cada mulher só iria procriar de 3 em 3 anos, e como as gêmeas teriam que ser exterminadas e deduzindo-se, ainda, as que morressem até os 15 anos e as adultas que sucumbissem de enfermidade, acidente ou em combate, “antes que as primeiras filhas chegassem à idade de poder encurvar o arco, já deixaria de ter existido semelhante república” (DIAS, apud TOCANTINS, p. 23).

O poeta procura explicar o porquê de o mito haver se expandido, contando com a colaboração dos nativos, afirmando que estes

 

Crédulos e mentirosos, amigos de contos e de maravilhas, como crianças respondem muitas vezes no sentido em que supõem que desejamos a resposta, e prestam facilmente o seu testemunho a coisas que nunca viram. (DIAS, apud TOCANTINS, p. 22)

 

O grande poeta do indianismo brasileiro não confiava nos modelos de suas personagens.

A persistência do mito se dá também por meio dos muiraquitãs – um simpático sapinho esculpido em uma pedra verde, uma espécie de jade, que foi encontradiço na região, sem que haja explicação racional para tal, inclusive porque não existe a jazida que poderia fornecer a matéria-prima. O muiraquitã é um amuleto que, reza a lenda, era presenteado pelas mulheres-guerreiras aos pais de suas filhas. Em pleno século XXI, é moda entre as jovens amazonenses o uso desses talismãs, produzidos em escala industrial. Mas essa é uma história fora do nosso escopo, pós-Carvajal. 

Devaneio ou verdade, mito ou mistificação – a relação de Carvajal é o texto fundador da literatura feita no Amazonas. Os seus possíveis excessos fazem parte da nossa história e da nossa memória. Se não é ficção, também não é história – talvez seja um livro de amor: amor pela aventura; amor por seu Capitão; amor por seu Deus; amor pela sua Ordem, da qual ele foi líder influente.

O Brasil e o Amazonas, em particular, devem à memória de Carvajal uma edição nova, traduzida diretamente dos originais, cotejada com as anotações do próprio Orellana, as crônicas de Oviedo e outras obras de vulto que mantiveram uma relação dialógica com Descobrimento do rio de Orellana. Certamente, pouca novidade trará essa nova edição, mas consolidará uma obra que, gravada no bronze da memória, deve ser eternizada. Como o mito que ela fundamentou. 

 

 

REFERÊNCIAS

 

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução: Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

BARLETTI, José. Los pueblos amazônicos em tiempos de la llegada de Orellana. Pontifica Universidad Catolica del Perú.

Disponível em: http://red.pucp.edu.pe/ridei/buscador/files/inter82.PDF  

Acesso em 23/11/2010, às 19h00.

BÍBLIA SAGRADA. Coordenador Geral: L. Garmus. Edição Vozes/Círculo do Livro, 1982.

CARVAJAL, Gaspar de. Descobrimento do Rio de Orellana. In: Descobrimentos do Rio das Amazonas. Tradução: C. de Melo-Leitão. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941.

CHIAMPI, Irlemar. O realismo maravilhoso: forma e ideologia no romance hispano-americano. São Paulo: Perspectiva, 1980.

COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América. Tradução: Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 2010.

FREIRE, Sério Augusto. Conhecendo Análise de discurso – Linguagem, Sociedade e Ideologia. Manaus: Valer, 2006.

GREENBLATT, Stephen. Possessões maravilhosas: o deslumbramento do Novo Mundo. Tradução: Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: EDUSP, 1996.

HOLANDA, Sergio Buarque de. Visão do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000.

LE GOFF, Jacques. O maravilhoso e o cotidiano no Ocidente Medieval. Tradução: Antonio José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1990.

MAGASICH-AIROLA, Jorge; DE BEER, Jean-Marc. América mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. Tradução: Regina Vasconcellos. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

MARTINS, Maria Cristina Bohn. Descobrir e redescobrir o Grande Rio das Amazonas. As Relaciones de Carvajal (1542), Alonso de Rojas (1639) e Christóbal de Acuña (1641). In: Revista de História, n° 156. São Paulo: Portal de Revistas USP, 2007.

Disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rh/n156/a03n156.pdf 

Acesso em 21/11/2010, às 11h20min.

NEVES, Auricléa Oliveira das. A Amazônia na visão dos viajantes dos séculos XVI e XVII: percurso e discurso. Manaus: Valer, 2011.

ORLANDI, Eni. Análise de Discurso: Princípios & Procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.

TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: A questão do outro. Tradução: Beatriz Perrone-Moisés. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

______. Introdução à literatura fantástica. Tradução: Maria Clara Correa Castello. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

VICO, Giambattista. Princípios de uma ciência nova. Tradução: Antonio Lázaro de Almeida Prado. São Paulo: Abril, 1974.

 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 7/8

Zemaria Pinto

 

O mito redivivo. O mito das Amazonas remonta a Heródoto, no século VI a.C.:

 

Nas margens do Thermodon, perto do mar Negro, viviam tribos de mulheres guerreiras, as Amazonas, que tinham invadido uma grande parte do Oriente Próximo, apoderando-se de Éfeso, Esmirna, Pafos e outras cidades. (MAGASICH-AIROLA e DE BEER, p. 155)

 

Virgílio, na Eneida, coloca Pentesileia, a rainha das Amazonas, lutando ao lado dos troianos. Um dos doze trabalhos de Hércules foi tomar o cinto de Hipólita, rainha das Amazonas. Alexandre Magno as visita no Thermodon. Marco Polo, no século XIII da nossa era, dá testemunho do reino de Resmacoron, fronteira com a Índia, onde havia uma ilha habitada exclusivamente por mulheres e outra por homens. Colombo anota em seus Diários notícias sobre a existência de ilhas similares na América – que, então, ele pensava ser a Ásia. Na segunda viagem à América, a frota de Colombo chega a ser atacada por uma “nuvem de flechas” lançadas por “um grupo de mulheres”, nas Antilhas. Antonio Pigafetta, cronista da expedição de Magalhães, também escreve sobre uma ilha só de mulheres. Gonzalo de Oviedo, na sua Historia General y Natural de las Indias, menciona a existência, nas terras do Novo Mundo, de regiões onde as mulheres “são senhores absolutos (...) e praticam armas (...) como essa rainha chamada Orocomay.” De Colombo para cá, nenhum narrativa sobre as amazonas é tão extraordinária quanto a de Carvajal – pois ele, somente ele, as viu (MAGASICH-AIROLA e DE BEER, p. 157-170).   

Mas as amazonas, o eldorado e o país da canela são apenas alguns dos mitos transladados para o continente americano: o Paraíso Terrestre era um dos objetivos de Colombo, que acreditou estar muito próximo a ele; os índios da América foram tomados pelas tribos perdidas de Israel; a Fonte da Juventude foi em vão procurada; ilhas fabulosas e seres fantásticos também povoaram a imaginação de viajantes e cronistas. Para aqueles aventureiros, todas as fantasias poderiam se tornar realidade no Novo Mundo. Adaptando-se a classificação de Vico relativa às três idades pelas quais passou a humanidade, inferimos que os europeus já estavam na idade dos homens, mas não se desvencilhavam da memória maravilhosa das aventuras vividas na idade dos heróis – para tanto, precisavam encontrar um lugar onde ainda se vivia na idade dos deuses (VICO, p. 24).

Continuemos nossa viagem.

Na noite do dia 25 junho, as embarcações ancoraram “já fora de qualquer povoação, em um carvalhal, que havia em uma grande planície, perto do rio” (p. 65). Nesse pouso, resolveu o Capitão interrogar o “índio trombeteiro”, capturado durante a refrega com as amazonas, “porque já o entendia por um vocabulário que havia feito”. Em menos de 24 horas, portanto – sem dormir e, talvez, sem se alimentar, verdadeiramente extenuado –, o intrépido Capitão Orellana ainda tivera forças – e tempo! – para aprender novo idioma.

Após explicar que aquelas mulheres residiam no interior, “a umas sete jornadas da costa”, e por ser o senhor daquelas terras súdito delas, por isso “tinham vindo guardar a costa” (p. 65-66), o índio foi submetido a um interrogatório, onde se sobressai um estilo enxuto e conciso, divergente do Carvajal um tanto prolixo e às vezes confuso com o qual nos acostumamos ao longo da narrativa. Infelizmente, o texto é muito extenso – duas páginas – para ser citado na íntegra. A formação discursiva adotada pelo dominicano consiste num empilhamento de frases, seguindo um padrão muito parecido com o que hoje identificaríamos como um interrogatório policial: “Perguntou o Capitão (...) Respondeu o índio (....)” ou “Perguntou o Capitão (...) Disse o índio (...) Disse mais (...)” (p. 66-67). Como resultado, temos um autêntico inventário dos elementos constitutivos do mito das amazonas. Enumeremo-los, na ordem em que aparecem no texto:

 

1 – aquelas mulheres não são casadas;

2 – vivem no interior, longe da costa;

3 – pelos nomes, o informante sabia de setenta aldeias só de mulheres, e os contou diante de todos;

4 – essas aldeias são de pedra e têm portas;

5 – de uma aldeia a outra há caminhos cercados de um e outro lado e de distância em distância, com guardas, para que ninguém entre sem pagar direitos;

6 – elas engravidam e parem;

7 – elas coabitam com índios, de tempos em tempos;

8 – quando lhes vem o desejo, promovem uma guerra e trazem os homens que lhes agradam;

9 – quando emprenham, mandam-nos de volta às suas terras;

10 – se nascer um menino, o matam e o mandam ao pai;

11 – se é menina, a criam com grande solenidade e a educam nas coisas da guerra;

12 – entre todas as mulheres, há uma que domina e tem todas as demais debaixo da sua mão e jurisdição, a qual se chama Conhori;

13 – há em suas aldeias imensa riqueza de ouro e prata;

14 – as senhoras principais possuem um serviço todo de ouro ou prata, enquanto as plebeias se servem em vasilhas de pau ou de barro;

15 – na capital ou principal cidade, onde reside a senhora Conhori, há cinco casas muito grandes, que são adoratórios e casas dedicadas ao sol, chamadas caranaí;

16 – essas casas são assoalhadas no solo à meia altura e os tetos são forrados de pinturas de diversas cores;

17 – nessas casas, elas têm ídolos de ouro e prata em figura de mulheres, e muitos objetos de ouro e prata para o serviço do sol;

18 – elas andam vestidas de finíssima roupa de lã, porque há nessa terra muitas ovelhas do Peru;

19 – seu trajar é formado por umas mantas apertadas dos seios para baixo, o busto descoberto, e uma espécie de manto, atado na frente por cordões;

20 – usam os cabelos soltos até o chão, e na cabeça, coroas de ouro, da largura de dois dedos;

21– usam como animais de carga uma espécie de camelo e outros animais não identificados, do tamanho de um cavalo, com a pata fendida;

22 – há nos seus domínios duas lagoas de água salgada, de onde tiram sal;

23 – ao pôr do sol, os machos de passagem devem sair da cidade;

24 – as províncias limítrofes lhes são sujeitadas e pagam-lhes tributos;

25 – as nações com as quais fazem guerra – e que lhes garantem a continuidade – são homens altos de corpo e muito brancos;

26 – tudo o que foi referido pelo informante ele viu muitas vezes, como homem vassalo, que ia e vinha diariamente. (p. 66-67)[1]

 

Eximimo-nos de comentar ponto a ponto, por ser ocioso tal detalhamento. Vamos ao que salta aos olhos. As súditas de Conhori dividem-se em setenta aldeias, formadas de casas de pedra, assoalhadas e forradas, onde há muita riqueza de ouro e de prata, metais usados inclusive para a baixela. Todos esses detalhes são índices de civilização. Vestem-se de “finíssima lã”, em modelos muito sensuais – também índices de civilidade, um e outro –, com os cabelos soltos até o chão, sob uma espessa coroa de ouro. Comparando com o que vimos anteriormente, seu figurino de guerra adapta-se em conformidade com a situação: “andam nuas em pelo”, e trazem o cabelo muito comprido “entrançado e enrolado na cabeça”. Outro índice de civilidade, sem o qual um europeu não poderia imaginar poder viver: o sal, que brota de maravilhosas e improváveis lagoas. Finalmente, como poderiam aquelas mulheres tão nobres e formosas procriar com os selvagens acobreados que habitavam as margens do rio de Orellana? O devaneio de Carvajal trata de arranjar-lhes parceiros “altos de corpo e muito brancos”. Mas Carvajal não tirou essas personagens do nada: na segunda parada, quando se construiu o segundo bergantim, ele anotara:

 

Nesse ínterim vieram ver o Capitão quatro índios, tendo de altura um palmo a mais que o mais alto cristão. Eram muito brancos, de cabelos bastos que lhes chegavam até a cintura, com roupa e joias de ouro, e trazendo muita comida. (p. 33)

 

Para o leitor atento, ali se atava mais um fio da trama.

Carvajal, com displicência, parecia não muito entusiasmado com o depoimento do súdito de Conhori:

 

Tudo o que esse índio disse, já nos haviam contado a umas seis léguas de Quito, porque ali falam muito nessas mulheres, e para vê-las vêm muitos índios 1.400 léguas rio abaixo. Assim nos diziam lá em cima os índios, que quem tivesse de descer à terra dessas mulheres tinha de ir rapaz e voltar velho. (p. 67-68)

 

Sergio Buarque de Holanda cita Francisco de Xerez – autor de Verdadera Relación de la Conquista del Perú, impressa em 1534, oito anos antes da aventura liderada por Orellana – que “menciona expressamente as ‘casas do sol’ existentes em toda aquela província”. Algumas dessas casas eram de pedra, chapeadas “não só de prata como de ouro”. Xerez também comenta o farto uso de penas de papagaios como adorno. Holanda completa:

 

Dos caminhos diz também Xerez que eram cercados de taipa dos dois lados e em alguns lugares havia a casa do guarda, encarregado de arrecadar a portagem.[2] Nenhum viajante pode entrar nem sair por outro caminho, levando carga, senão por aquele onde haja guarda, e isso sob pena de morte. Os serviços de prata e ouro seriam frequentes entre a gente principal. (HOLANDA, p. 34)

 

Como autor de um bom enredo, Carvajal usa as histórias ouvidas para dar credibilidade à sua história: o que o índio contava já era sabido de todos; logo, não havia porque duvidar do que ele relata – era apenas uma forma de consolidar, numa única, todas as histórias anteriores. Em outras palavras: o “índio trombeteiro” nem precisava ter falado, para que a história, que o antecede, existisse exatamente como Carvajal a conta.

 

 



[1] Trata-se de um resumo do texto, onde se procurou manter a estrutura frasal e o vocabulário usados pelo autor.

[2] Pedágio.


sexta-feira, 2 de junho de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 6/8

 Zemaria Pinto

 

Amazonas amazonas. Carvajal prepara o encontro do seu leitor com as amazonas usando uma conhecida técnica narrativa de suspense: espalha as informações ao longo texto, desde o primeiro contato, com Aparia, já citado. No segundo contato, há nova citação, desta vez mais explícita quanto ao perigo que corriam:

 

Estavam os índios muito atentos, ouvindo o que o Capitão lhes dizia e lhe recomendaram que, se fôssemos ver as amazonas, que chama na sua língua coniupuiara, que quer dizer grandes senhoras, que víssemos o que fazíamos, porque éramos poucos e elas muitas, e que nos matariam. Que não parássemos em sua terra, porque eles ali nos dariam tudo de que tivéssemos mister. Disse-lhe o Capitão que não podia fazer outra coisa senão passar de largo, para dar notícia a quem o enviava, que era o seu rei e senhor. (p. 30)

 

Se no contato inicial havia promessa de riqueza, neste há a ameaça de morte, amenizada pela declaração de paz e de lealdade para com o rei. Mas essa lealdade não poderia prescindir de observá-las “para dar notícia”, pois era fato sem precedentes, e fugir dele não era do feitio do Capitão.

Na “aldeia de medíocre tamanho”, já referida, o Capitão toma conhecimento de mais detalhes sobre as amazonas, ao interrogar a respeito da praça dos adoradores do sol, onde havia “dois leões ferocíssimos”:

 

Perguntou o Capitão a um índio o que era aquilo e o que significava naquela praça, e o índio respondeu que eles são súditos e tributários das amazonas, e que não as forneciam senão de penas de papagaios e de guacamaios[1] para forrarem os tetos dos seus adoratórios. Que as povoações que eles tinham eram daquela maneira, conservando-o ali como lembrança e o adoravam como emblema de sua senhora, que é quem governa toda a terra das ditas mulheres. (p. 51-52)

 

As amazonas de Carvajal eram ricas, belicosas e muito bem organizadas socialmente, ao ponto de terem súditos e tributários, que faziam de seu emblema objeto de culto.

No dia 24 de junho de 1542 dá-se, afinal, o desejado – ainda que não admitido – encontro:

 

Íamos desta maneira caminhando e procurando um lugar aprazível para folgar e celebrar a festa do bem-aventurado São João Batista, precursor de Cristo, e foi servido Deus que, dobrando uma ponta que o rio fazia, víssemos alvejando muitas e grandes aldeias ribeirinhas. Aqui demos de chofre na boa terra e senhorio das amazonas. (p. 58)

 

Observe-se a organização militar imaginada por Carvajal: as amazonas já sabiam da chegada da expedição às suas terras; foram encontrá-los guerreiros homens preparados para a luta. Talvez pudesse o Capitão desviar-se do assédio incômodo, mas Carvajal mostra-o curioso:

 

Estavam estes povos já avisados e sabiam da nossa ida, e por isso nos vieram receber no caminho por água, mas não com boa intenção. Chegando perto, como o Capitão os quisesse trazer à paz, começando a falar-lhes e a chamá-los, riram-se eles e faziam burla de nós; aproximavam-se e diziam que andássemos, pois ali abaixo nos esperavam, para prender-nos a todos e levar-nos às amazonas. (p. 59)

  

O Capitão, “ofendido com a soberba dos índios”, ordena o ataque, dispersando os índios que “voltaram para a aldeia a dar notícia do que tinham visto”. Mesmo conhecendo o perigo, ordena o Capitão o saque a uma aldeia – no centro da qual se reunia “uma multidão” –, com uma finalidade, digamos, previsível: “para buscar comida”. Assim que chegaram em terra, foram devidamente recepcionados: “parecia que choviam flechas” (p.59).

Apesar da defesa de balhesteiros e arcabuzeiros, a superioridade numérica dos índios desta vez prevaleceu:

 

Foi isto causa de que nos fizeram tanto mal que antes que saltássemos em terra já tinham ferido a cinco dos nossos, dos quais eu fui um deles, levando uma flecha na ilharga, que me chegou ao vazio e se não fossem os hábitos, ali teria ficado. (p. 60)

 

O texto não é claro. Este primeiro ferimento, pelo que se depreende da leitura, não tirou o frade de combate. Talvez o tenha ferido de raspão, apenas, protegido pelo hábito, feito de um tecido muito espesso.

 

Travou-se aqui mui grande e perigosa batalha, porque os índios andavam misturados com os nossos espanhóis, que se defendiam tão corajosamente, que era uma coisa maravilhosa de ver-se. (p. 60)

 

Após “mais de uma hora” de combate, os índios pareciam redobrar o ânimo, mesmo tropeçando em seus próprios mortos. Vejamos o depoimento de Carvajal para explicar tanto ímpeto e selvageria, naquele parágrafo que é o mais importante de todo o texto, pela sua historicidade:

 

Quero que saibam qual o motivo de se defenderem os índios de tal maneira. Hão de saber que eles são súditos e tributários das amazonas, e conhecida a nossa vinda, foram pedir-lhes socorro e vieram dez ou doze. A estas nós as vimos, que andavam combatendo diante de todos os índios como capitãs, e lutavam tão corajosamente que os índios não ousavam mostrar as espáduas, e ao que fugia diante de nós, o matavam a pauladas. Eis a razão porque os índios tanto se defendiam. (p. 60)

 

Primeiro, deve-se atentar para o estilo de Carvajal, quando enfatiza o que já fora dito antes sobre súditos e tributários, bem como sua conhecida vinda, pelo que “foram pedir-lhes socorro”. Agora o ponto do devaneio, que, com o tempo transformou-se em mistificação: “e vieram dez ou doze”. Estas cinco palavras ecoam ainda hoje na memória coletiva da Amazônia: dez ou doze mulheres-guerreiras! Atuando “como capitãs”, os índios “não ousavam mostrar-lhes as espáduas”, e os que o faziam eram inapelavelmente mortos a pauladas. E Carvajal dá o seu testemunho para a eternidade incrédula: “a estas nós as vimos!”. Ainda que aquelas mulheres-guerreiras fossem de uma tribo só de mulheres, “dez ou doze” representam uma amostra, apenas – insignificante, aliás –, diante do arcabouço mental do mito, que tomava forma a partir daquele depoimento.

 

Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado na cabeça. São muito membrudas e andam nuas em pelo, tapadas as suas vergonhas, com os seus arcos e flechas nas mãos, fazendo guerra como dez índios. (p. 60)

 

A descrição não bate com nenhum biótipo feminino da região; mas, alvas, altas e fortes, bem que poderiam ser europeias – o padrão de beleza com o qual Carvajal estava familiarizado. Se pensarmos nas Afrodites renascentistas, poderiam ser gregas. Guardemos a informação de que “andam nuas em pelo”, ainda que “tapadas as suas vergonhas”, porque vamos precisar dela adiante.

As dez ou doze mulheres-guerreiras deixaram os bergantins de tal forma que “pareciam porco-espinho”, de tanta flecha. Interessante é que ainda encontravam tempo para matar a pauladas os vassalos covardes. Uma nota de decepção é registrada ao final do encarniçado combate:

 

Foi Nosso Senhor servido dar força e coragem aos nossos companheiros, que mataram sete ou oito dessas amazonas, razão pela qual os índios afrouxaram e foram vencidos e desbaratados com farto dano de suas pessoas. (p. 61)

 

As duas a cinco coniupuiaras que sobreviveram e fugiram frustraram o Capitão, que desejava, certamente, capturá-las, para mostrá-las a El Rei. Entretanto, prenderam “um índio trombeteiro, de cerca de trinta anos de idade, que começou a contar ao Capitão muitas coisas do interior da terra.”[2] Para compensar o dano de não haver aprisionado uma autêntica amazona, “o Capitão o levou consigo” (p. 61).

 

Nesse ponto da viagem, na foz do rio que hoje chamamos de Nhamundá, um Carvajal angustiado calcula que diste “mil e quatrocentas léguas, antes mais do que menos”, desde o ponto em que deixaram Pizarro – “e não sabemos ainda o que falta daqui até o mar”.

Estafados, os espanhóis deixam-se “ir à garra”,[3] quando sofrem novo ataque de índios emboscados: “só a mim feriram, que me deram um flechaço num olho, que passou a flecha para o outro lado” (p. 62). Entre aqueles índios já não estavam as amazonas; tratava-se, aliás, como Carvajal deixa bem claro, de uma outra aldeia. Mas, como estavam relativamente próximos ao lugar do conflito anterior, podemos supor que eram súditos machos das coniupuiaras. É preciso enfatizar, entretanto, que, ao contrário do que reza o credo popular, Carvajal não foi ferido pelas amazonas. A propósito, analisemos esse ferimento, a partir das palavras do próprio narrador: “um flechaço no olho”, poderia ser mera hipérbole; um fragmento que o atingisse poderia levá-lo àquela expressão. O problema reside no trecho “que passou a flecha para o outro lado”. Aqui não temos como interpretar as palavras de Carvajal, a não ser literalmente: a flecha penetrou na órbita ocular de um dos olhos do cronista, atravessando sua caixa craniana, transpassando-a, até o ponto posterior à referida órbita. O estrago não seria apenas no olho! Claro que se trata de um outro milagre; sem dúvida, o mais sensacional de todos. Mas Carvajal é um homem de fé, e conhece suas limitações humanas, tanto que nem admite o maravilhoso do acontecimento, refletindo sobre ele com uma humildade dominicana:

 

Desta ferida perdi um olho e não estou sem fadiga e falta de dor, posto que Nosso Senhor, sem que o mereça, me quis conservar a vida para que me emende e o sirva melhor do que até aqui. (p.62)

 

 A narrativa segue com a mesma riqueza de detalhes de antes. Carvajal não volta, em nenhum momento, ao assunto do ferimento que lhe roubara um dos olhos.  

 



[1] Da família dos papagaios: “talvez araras ou jandaias” (p. 51, em nota do tradutor). 

[2] Carvajal se precipita ao dizer que o índio “começou a contar”, pois mais adiante afirma que o Capitão “já o entendia por um vocabulário que havia feito”.

[3] À deriva, ao sabor da correnteza; “de bubuia”, como se diz na região.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 5/8

 Zemaria Pinto

 

Devaneios, relembranças. Os devaneios de Carvajal eram compartilhados com o Capitão. Tomemos o exemplo de uma conversa, no segundo contato pacífico, com líderes indígenas que queriam saber detalhes da origem dos expedicionários:

 

Respondeu-lhe o Capitão, repetindo as suas palavras, e lhe disse mais que éramos filhos do Sol e que íamos àquele rio, como já contara. Disto muito se admiraram os índios e mostraram muita alegria, tendo-nos por santos ou pessoas celestiais, porque eles adoram e têm por seu deus o Sol, que chamam Chise. (p.31)

 

Seria aquela mentira mera recordação de histórias ouvidas no Peru?

Mais adiante, ao saquearem uma aldeia “pequena e tão bem situada, que se diria um recreio de algum senhor de terra adentro”, em busca de “provisão de boca”, encontram uma estranha construção:

 

Havia nessa povoação uma casa de diversões, dentro da qual encontramos muita louça dos mais variados feitios: havia talhas e cântaros enormes, de mais de vinte e cinco arrobas, e outras vasilhas pequenas, como pratos, escudelas e candeeiros, tudo da melhor louça que se viu no mundo, porque a ela nem a de Málaga se iguala. É toda vidrada e esmaltada de todas as cores, tão vivas que espantam, apresentando, além disso, desenhos e figuras tão compassadas, que naturalmente eles trabalham e desenham como o romano.

Disseram-nos ali os índios que tudo o que havia naquela casa, feito de barro, se encontrava terra adentro feito de ouro e de prata, e que eles nos levariam lá, pois era perto. Encontramos nessa casa dois ídolos, tecidos de palha, de diversos modos: eram de estatura de gigantes e tinham metidas no moledo dos braços umas rodas, a modo de braceletes e outras nas panturrilhas, perto dos joelhos; as orelhas eram perfuradas e muito grandes, parecendo as dos índios de Cuzco, porém maiores. (p. 47)

 

Como se observa, Carvajal não economiza nas comparações: a louça “vidrada e esmaltada” é melhor que a de Málaga; os desenhos são tão bons quanto os dos romanos e os ídolos lembravam os que ele vira em Cuzco. Além disso, havia sempre a promessa de ouro e prata[1].

Em outra aldeia saqueada, “de medíocre tamanho”, logo depois da passagem pela foz do rio Negro, há uma nova referência à adoração do sol, mas o que chama a atenção é o quadro, “pintado e esculpido em relevo”, no meio de uma praça, representando elementos desconhecidos dos nativos, como “cidade murada”, “altíssimas torres” e, principalmente, “ferocíssimos leões”:

 

Havia lá uma praça muito grande e no meio da praça um grande pranchão de dez pés em quadro, pintado e esculpido em relevo, figurando uma cidade murada, com sua cerca e uma porta. Nessa porta havia duas altíssimas torres com as suas janelas, as torres com portas que se defrontavam, cada porta com duas colunas. Toda essa obra era sustentada sobre dois ferocíssimos leões que olhavam para trás, como acautelados um do outro, e a sustinham nos braços e nas garras. Havia no meio dessa praça um buraco por onde deitavam, como oferenda ao sol, a chicha, que é o vinho que eles bebem, sendo o Sol que eles adoram e têm como seu Deus. (p. 51)

 

Numa “povoação onde os índios não se defenderam”, repete-se o encontro de elementos estranhos à região:

 

Havia nessa aldeia um adoratório, dentro do qual estavam penduradas muitas divisas de armas de guerra e, por cima de todas, duas mitras muito bem feitas, como a dos bispos: eram tecidas não sabemos de que, pois não eram de lã e tinham muitas cores. (p. 58)

 

“Divisas de armas de guerra”, além de “duas mitras” afiguram-se como devaneio do bom frade, que parece nostálgico de um mundo que ficara para trás, e do qual ele se distancia cada vez mais. Essa falta parece levar Carvajal a identificar nos nativos, senão a si próprio, o mundo – ou parte dele – que lhe era caro. Por outro lado, pensando na consolidação da ideia que abraçara, essa identificação valoriza aquele mundo perdido, tornando o que era naturalmente desigual em igualdade, mesmo que forçada. Aproximando os dois mundos, ainda que em um nível mitológico – o que, talvez, para Carvajal, não fizesse diferença –, o eu se reinventa no outro:

 

Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. (TODOROV, 2010, p. 3)

 

Esse questionamento deverá ficar mais claro, embora não inteiramente respondido, no encontro de Carvajal com as amazonas, um arquétipo que tem povoado o imaginário de diversos povos há mais de três mil anos.  

 



[1] A propósito destes minérios, não há notícia da existência de jazidas deles em toda a região do Amazonas, embora o Pará as tenha em abundância.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Representações da Amazônia na relação de Carvajal: devaneio e mistificação 4/8

Zemaria Pinto

 

Hiperbólico, maravilhoso. Para atingir o âmago do maravilhoso, o maravilhoso puro – aliás, negado por Le Goff (p. 25) –, Tzvetan Todorov identifica vários tipos de narrativas onde o maravilhoso se sobressai.[1] A narrativa de Carvajal encaixa-se a perfeição naquilo que o teórico chama de “maravilhoso hiperbólico”, onde “os fenômenos não são sobrenaturais, a não ser por suas dimensões, superiores a que nos são familiares” (TODOROV, 1992, p. 60). Por outro lado, a decisão de inflar a realidade pode ser apenas um reflexo linguístico do espanto, inconsciente, ou uma decisão consciente, que podemos atribuir a uma categoria de criação literária: o devaneio, a fantasia produzida em estado de vigília.

 

O devaneio é uma atividade onírica na qual subsiste uma clareza de consciência. O sonhador de devaneio está presente no seu devaneio. Mesmo quando o devaneio dá a impressão de uma fuga para fora do real, para fora do tempo e do lugar, o sonhador do devaneio sabe que é ele que se ausenta – é ele, em carne e osso, que se torna um “espírito”, um fantasma do passado ou da viagem. (BACHELARD, p. 144)

 

 Não se trata de matéria de ficção, pois, mas sim de uma manipulação consciente da realidade; em nosso caso, histórica.

O maravilhoso hiperbólico aliado ao devaneio ocorre no texto inúmeras vezes, de sorte que vamos nos ater a um ponto que tem sido motivo de polêmica desde sempre: o superpovoamento de algumas áreas do rio Amazonas, apontado por Carvajal, mas jamais comprovado, embora alguns autores considerem que a presença do europeu na região foi o estopim de um autêntico genocídio. Comparada com a baixíssima densidade populacional que conhecemos hoje, as margens do Amazonas vistas por Carvajal parecem resultantes de um devaneio do autor. O surgimento dessa área de grande população associa-se às maiores dificuldades bélicas encontradas pela expedição, numa equação simples, mas perfeita: mais gente, maior resistência.

Antes, vejamos uma hipérbole carregada de conteúdo ideológico, na construção do heroísmo de Orellana, cometida logo no segundo encontro com os nativos pacíficos:

 

Mas era Nosso Senhor servido que se fizesse tão grande descobrimento e que o mesmo viesse ao conhecimento da Cesárea Majestade. Por outra via nem força ou poderio humano seria possível este descobrimento, que com tanta dificuldade se realizava, sem nele por Deus a sua mão ou sem que se passassem muitos séculos. (p. 29)

 

Por vias transversas, Carvajal atribui o sucesso da expedição a um milagre, sem o qual “muitos séculos” se passariam para que o Marañon, ou o Amazonas, fosse navegado até a sua foz. O exagero vai por conta do conhecimento de Carvajal das lendas em torno do El Dorado, o que tornava apenas uma questão de tempo o “descobrimento”.

Nas “províncias” governadas por Machiparo, onde aportam a 12 de maio, e onde começam verdadeiramente os conflitos com os nativos, Carvajal dá conta de grandes populações:

 

Este Machiparo está assentado em uma lomba sobre o mesmo rio e possui muitas e grandíssimas povoações, que reúnem cinquenta mil homens, entre os trinta e os setenta anos, porque os mais jovens não vão a guerra. (...) A umas duas léguas desse povo vimos estar alvejando as aldeias, e não tínhamos andado muito quando vimos vir rio acima enorme quantidade de canoas, todas aprestadas para a guerra, airosas e com seus paveses, que são de carapaças de lagartos e de couros de manatis[2] e antas, da altura de um homem, pois os cobrem inteiramente. (...) Nossos companheiros mostravam tanta coragem que lhes parecia que não bastavam para cada qual mil índios. (p. 37-38)

 

Chama a atenção, além da grande quantidade de nativos, a maneira como se organizam para a guerra com escudos que cobrem o corpo inteiro. As “carapaças de lagartos” seriam uma referência ao nosso jacaré? Carvajal desconhecia o crocodilo? Na descrição da batalha, mesmo usando armas tecnicamente mais avançadas, a superioridade numérica, um para mil, é, claramente, força de expressão, um exagero linguístico.

 

Foi o alferes e correu meia légua pela aldeia adentro (...) Visto pelo alferes o tamanho da aldeia e a população (...) Disse-lhe tudo o que acontecera e como havia grande quantidade de comida, tanto tartarugas nos currais e tanques, como muita carne, peixe e biscoitos, tudo em tal abundância que daria para sustentar um batalhão de mil homens durante um ano. (...) Tratou Cristobal Maldonado de recolher a comida e tendo já apanhado mais de mil tartarugas (...) porque os índios eram mais de dois mil e os companheiros de Maldonado não eram mais que dez, tendo muito que lutar para se defenderem. (p. 39)

 

Novamente, pilhamos nosso narrador cometendo o pecado da hipérbole: como poderia Maldonado, sozinho, ter “apanhado mais de mil tartarugas”? Toda a comida ali saqueada, aliás, se coubesse nos bergantins, poderia sustentá-los até o final da viagem; mas ainda passariam muita fome. “Meia légua aldeia adentro” significa que, da margem do rio para dentro a aldeia tem mais de três quilômetros e meio de extensão, maior que a maioria das cidades da região, atualmente. Em novo confronto, a relação de um para duzentos (dez para dois mil) ainda é grande, mas é mais realista.

 

Fizeram-se ao largo no rio e não estaríamos a um tiro de pedra quando vêm mais de dez mil índios por água e por terra (...) (p. 42)

 

Seguimos assim até o amanhecer, quando nos vimos no meio de muitas e grandes povoações, donde sempre saíam índios de fresco e ficavam os que iam cansados. (...) Começamos a navegar, sem que os índios nos deixassem de seguir e dar combate, porque destas aldeias se tinham reunido mais de 130 canoas, nas quais havia mais de 8.000 índios e por terra era incontável a gente que aparecia. (p. 43)

 

Nem é preciso fazer muita conta: oito mil índios em cento e trinta canoas dá mais de sessenta índios por canoa. Imagine-se o tamanho da mesma. Para efeito de comparação, pensemos que a expedição, descontando os mortos de fome e em combate, contava, àquela altura, com cerca de quarenta homens, divididos nos dois bergantins – barcos maiores que as maiores canoas.

 

Mas ainda nos seguiram durante dois dias e duas noites, sem nos deixarem repousar, que tanto durou para sairmos das terras desse grande senhor Machiparo, e que, no parecer de todos, teria mais de oitenta léguas, todas povoadas, que não havia de povoado a povoado um tiro de balhesta, e as mais distantes, não se afastavam mais de meia légua, e houve aldeias que se estendiam por mais de cinco léguas sem separação de uma casa para outra, o que era coisa maravilhosa de ver. Como íamos de passagem e fugindo, não tivemos oportunidade de saber o que havia terra adentro. Mas segundo a sua disposição e aspecto, deve ser a mais povoada que já se viu. (p. 44)

 

“Aldeias que se estendiam por mais de cinco léguas sem separação de uma casa para outra” era para maravilhar mesmo o dominicano, porque nem em toda a Europa ele veria tal: uma cidade com mais de trinta e cinco quilômetros de frente.

A tomar ao pé da letra o texto de Carvajal – “mais de oitenta léguas, todas povoadas” –, o rio Amazonas era, à época, um rio metropolitano...

As terras superpovoadas continuam a aparecer aos olhos de Carvajal ao longo do trajeto, sendo seus povos muito belicosos. Um último flagrante de hipérbole no texto de Carvajal, com função certamente literária, isto é, de melhorar ainda mais a paisagem que ele via, ocorre na passagem pela foz do rio Negro:

 

No sábado, véspera da Santíssima Trindade[3], mandou o Capitão fundear em uma povoação onde os índios se puseram em defesa. Apesar disso os expulsamos de casa e nos provimos de comida, achando ainda algumas galinhas. Nesse mesmo dia, saindo dali, prosseguindo a nossa viagem, vimos uma boca de outro grande rio, à mão esquerda, que entrava no que navegávamos, e de água negra como tinta, e por isso lhe pusemos o nome de rio Negro. Corria ele tanto e com tal ferocidade que em mais de vinte léguas fazia uma faixa na outra água, sem misturar-se com a mesma. (p. 50)

 

Não deixa de ser sintomático que a chegada do homem branco nestas plagas rionegrinas tenha como representantes meros... ladrões de galinhas.  Para compensar, Carvajal aumenta o espetacular Encontro das Águas em pelo menos 20 vezes, o que não deixa de ser uma licença poética.

 



[1] Apesar dessa divergência, juntá-los, a Le Goff e a Todorov, não é uma contradição, uma vez que ambos trabalham com estratos diversos do maravilhoso.

[2] Peixe-boi.

[3] 3 de junho de 1542 (NEVES, p. 100).