Pedro Lucas Lindoso
Minha querida tia Idalina não se conforma com a desclassificação do
Brasil pela Noruega. Ela, na verdade, não gosta muito de futebol. Toda
quarta-feira reclama que o futebol atrapalha sua rotina de novelas. Mas nas
copas titia se transforma. Dá até palpite na escalação. Convoca os sobrinhos e
amigos para assistir aos jogos em sua casa...
– Sou uma torcedora bissexta.
Só torço de quatro em quatro anos. E pelo Brasil, repete em todas as
copas. Meu país que amo e adoro. Sou brasileiríssima. Ufanista total.
Ela é daquelas que se arrepia ao som do hino nacional. Fica furiosa se
alguém conversa ou se mexe quando o hino toca. E observa se os jogadores sabem
cantá-lo. Há uma parte que as pessoas erram. Brasil de um sonho intenso, na primeira
parte. Brasil de amor eterno, na segunda. A dica é que primeiro se sonha e
depois se ama. Outra coisa desnecessária é chamar alguma cantora famosa para
cantar. Coisa da cultura americana. Nem sempre dá certo. Alcione que o diga.
Ah!
Tem mais. Quando Idalina era menina cantava-se o hino perfilados. Ou
seja, em posição de sentido. Essa mania de colocar a mão no coração é macaquice
importada. Idalina também é contra.
Está convencida de que desclassificaram o Brasil de propósito. Ou não.
Idalina, supersticiosa que só, acha que o Brasil só volta a ganhar uma copa
quando proibirem as apostas. Existem os deuses do futebol, diz ela. Estão
furiosos com a manipulação de jogos. E pior, a jogatina tem destruído famílias.
É um câncer na sociedade brasileira. Enquanto não acabarem com isso o Brasil
não ganha mais nada.
– E não adianta pôr a culpa só no técnico Ancelotti. Mas é bom
culpa-lo. Errou na escalação. Nós temos mais de 200 milhões de habitantes. A
grande maioria dos meninos brasileiros jogam bola. Agora, vejam só. A Noruega é
um país de menos de 6 milhões de habitantes. E faz muito frio. Não dá para
jogar bola o ano inteiro, argumenta Idalina.
Titia não se conforma. E se tem que culpar alguém ou algo, além das
bets, vamos culpar o Ancelotti. Na Copa de 1966 nós fomos desclassificados por
Portugal. Ainda não havia televisão em Manaus. Ouvia-se pelo rádio. Alguns
portugueses foram hostilizados. Seu Pinto tinha uma mercearia no canto da Rua
Barroso com a Henrique Martins. Fechou as portas preventivamente. O grande bode
expiatório foi o técnico, que se chamava Feola. Idalina colocou o nome de seu
cachorro vira-latas de Feola. Possivelmente foi o homem mais xingado e
destratado no Brasil no ano de 1966. Feola, o cachorro, viveu muitos anos e
levou muita bronca de Idalina.
Nesta semana, Idalina adotou um vira-latas. Muito sonso e não entende
o que Idalina, sua nova tutora, comanda. Pertencia a um senhor italiano
falecido. E, claro, só entende italiano. Se pelo menos esse cachorro falasse
francês... Seria melhor, diz ela.
Enquanto falávamos ao telefone, Idalina gritou algumas vezes:
– Passa, Ancelotti!