Amigos do Fingidor

domingo, 31 de outubro de 2010

Desabafo em defesa da Dilma

Dori Carvalho*



1.
Tenho ouvido e lido dezenas de ofensas, calúnias e injúrias nunca vistas contra ninguém que tenha tentado ser presidente do meu país.

Por que tanto ataque pessoal à Dilma? Assassina, criminosa, bandida, assaltante, terroristas, vagabunda... fez plástica, cortou o cabelo, tá gorda, tá magra, é arrogante, é dura (ela vive “rodeada de homens meigos”).

Será que tudo é tão pequeno, tão mesquinho? Não quero acreditar que tudo isso seja porque ela é mulher.

Ora, qual é o crime da Dilma?

Levantar-se em armas, arriscar a própria pele, entregar a vida pela liberdade,ser presa e torturada, lutar contra a ditadura que nos calou e nos oprimiu por mais de duas décadas?

Eram jovens sinceros e idealistas que foram à luta armada contra golpistas,torturadores e carrascos que tomaram a democracia de nossas mãos, que tiraram do poder aqueles que foram eleitos pelo povo... isso é crime?

Então, temos que condenar aqueles que lutaram ao lado de Mandela, na África do Sul; de Che Guevara, Simon Bolívar, Tiradentes, Zumbi, Zapata, na América Latina; de Ho Chi Minh, no Vietnã; de franceses, judeus e socialistas que lutaram contra o nazismo; dos americanos contra os ingleses, dos portugueses contra Salazar, dos espanhóis contra Franco, dos africanos contra os portugueses, ingleses, franceses... a história não tem fim... eram todos chamados de bandidos.

2.
“Aquele que defender os fracos contra os fortes será condenado a viver como um fora-da-lei... Em tempos de tirania e injustiça, quando a lei oprime o povo, o fora-da-lei assume o seu papel na história.” In Robin Hood.

3.
Estão querendo condenar a Dilma e seus companheiros de luta duas vezes, pelo crime de defender o Brasil, de combater por um ideal, de defender uma causa com unhas e dentes. Enquanto os ex-torturadores estão de pijama se fingindo de pacatos e atirando em mendigos, caluniando na sombra do anonimato e “direitistas” chafurdando nas telas compradas da TV ou degustando vinhos em Manhattan. Essa gente que ama a democracia apenas quando está no poder ou gravitando em torno dele.

4.
Dilma
D de dedicação, determinação
I de independência, ideal
L de liberdade,luta
M
A de amor, avançar
(não, não esqueci do M)
M maiúsculo de Mulher

5.
Lá em casa, éramos cinco. Dalva, Dulce, Djalma, Darcy e Dorival. Todos rebeldes, inquietos e inconformados e, tenho certeza, todos ficaríamos honrados com mais uma irmã: Dilma.


*Este texto me foi passado antes do primeiro turno. Graças ao amigo Rogel Samuel, ganhou o mundo. Agora, é metáfora de um sonho realizado. Valeu, Dorival.
(Zemaria)

Benjamin Sanches na Livraria Acadêmica

Rogel Samuel*



Leio no excelente Blog do Coronel que a Livraria Acadêmica de Manaus fechou as portas em 2009. Eu saberia se tivesse ido a Manaus, pois era um dos lugares aonde sempre ia, desde a adolescência.

“Fundada em 1912, este estabelecimento fechou as portas ano passado. Agora, o edifício passa por reformas e, certamente, ali não mais haverá livros nem papéis. Nem o acolhimento fidalgo do seu Barata. Restarão apenas saudades pelo fim do mais antigo templo ocupado pelos leitores da cidade”, escreveu Roberto Mendonça.

“O Estado, por iniciativa da Secretaria de Cultura, já transferiu o que restou do acervo da Acadêmica para o Centro Cultural Palácio Rio Branco. Merece ser visitado, aproveitando o visitante para estender os olhos pelos outros seletos ambientes”, acrescentou.

Numa de minhas idas à Acadêmica, comprei um raríssimo exemplar de Argila, de Benjamin Sanches, com a bela capa de Moacir Andrade.

O livro estava tão escondido no fundo da sala, que o Sr. Barata não queria vender-me, pois não sabia o preço.

Onde andarão aquelas gigantescas estantes de madeira?

E o passado, ali recolhido?

Aquela livraria teve muito a ver comigo: foi uma das poucas livrarias de Manaus que comprou o meu O amante das amazonas, diretamente da Editora Itatiaia.

Termino reproduzindo um poema de Argila, chamado “Fé”:

                    Ver
                    sem
                    bem
                    crer.
                    Crer
                    sem
                    bem
                    ver.
                    Crer
                    é
                    fé.
                    Ver
                    não
                    é.

(Argila, Manaus: Sergio Cardoso, 1957)

(*) Postado originalmente no blog de Rogel Samuel.

Cleo Pires nua e a poesia naturista

Jorge Bandeira

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma de nosso corpo.
Esquecer os nossos caminhos,
Que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos

Na perna nua de Cleo Pires, na capa da Playboy de agosto, esta frase lapidar sobre o que nos une e nossa árdua tarefa como naturistas de levar a mensagem na nudez natural. Não sei quem é o autor dessa frase que foi pintada na perna grossa (procurei e procurei, mas não achei), e segundo as informações, sem photoshop, de Cleo Pires. Não compro a Playboy, deixei de ler revistas masculinas há muito tempo (ah, mocidade tempestuosa!), mas apareceu aqui por casa um exemplar (meu sobrinho fez uma cota com minha tia Alzeneide e comprou) e logo me chamou a atenção a frase acima, logo de cara, na capa da revista.

A poesia é uma fonte importante para os naturistas, e ela tem o poder de colocar o corpo nu na ordem do dia, levando a sensibilidade ao leitor. Muitos escritores e poetas já escreveram sobre esta maravilhosa naturalidade, sem preconceitos e pudores ressentidos. Drummond talvez seja o caso ímpar de grande poeta que teve na nudez uma de suas mais gratas satisfações estéticas na obra poética. O Corpo Natural é o seu livro poético onde o corpo, e a nudez, por extensão, é matéria de primeiro plano.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas. Aqui nosso poeta nos convoca para uma iniciativa, um devir, que muito representará em nossas vidas, e neste momento, tenhamos a certeza, estamos já com as minorias naturistas. O termo Naturista aqui deve ser entendido no seu sentido histórico, tradicional, seguindo os conselhos perpetrados na Suíça, em 1953, quando esse conceito envolveu a ética, a nudez e o meio ambiente como indissolúveis.

As roupas já têm a forma de nosso corpo: elas nos condicionaram a tantos preconceitos, de toda ordem, não só em relação à nudez. Estética, aqui, é a palavra que nos salta aos olhos e mentes. A ditadura das modas, o enorme fosso social entre ricos e pobres. Já pensamos em fazer uma campanha na periferia para levar todos ao Naturismo, ou seria utópico de minha parte, e continuamos a ter um Naturismo elitista, feito na tangente do turismo, de modo específico, direcionado, só tendo condições de ficar nus e nuas aqueles ou aquelas que possuem o vil metal para esse tipo “nobre” de divertimento e filosofia de vida? Perguntas que me assaltam na calada da noite, em meus sonhos intranquilos, tal qual um Kafka que questiona o estar no mundo, mundo do Naturismo, mas que pensa também no que não usufrui o outro lado, os pobres que vestem roupas. Porque só eu tenho dinheiro para ficar nu ou nua, em convívio social, com segurança, com o respaldo de um grupo e/ou Federação? Perguntas, perguntas.

Esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. Há sempre uma rota nova para ser alcançada, deslumbrada, vista de outro ângulo. Quando estamos nus e nuas, vestidos de nossas queridas e muitas das vezes calejadas peles, sentimos uma sensação de mudança interior, nós, naturistas, não tenhamos dúvidas dessa assertiva, mas só isso não basta para mudar verdadeiramente algo.

Este algo chamado Naturismo precisa de uma reflexão que perpasse ódios, raivas e rancores. Estes, sim, representam uma volta em círculos, ao mesmo lugar, um retrocesso. O naturismo já é um velho senhor, e não tem mais tempo a perder. No Brasil, de forma organizada, já almeja aos 60 anos, no mínimo. Desde Luz del Fuego, e aqui nem coloco a tão complexa questão do índio naturista, que merece outro artigo, mas veja, são anos e anos de uma experiência naturista em território brasileiro, onde temos nomes importantes, anônimos que às vezes são até mais importantes que os baluartes do Naturismo. É um fato, a História é feita pelos vencedores. No Naturismo não seria diferente.

É tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la teremos ficados para sempre à margem de nós mesmos. Tirar a roupa é muito simples, extremamente fácil, o passo seguinte é que são elas: vestir-se de nada, eliminando rancores e preconceitos, ajudando, no tempo exíguo que lhe resta em seu cotidiano, na construção da história coletiva do Naturismo organizado no Brasil. Não é fácil, sei disso. Mas não é impossível dedicar uma hora, pelo menos, a esta tarefa, o pensar sobre o Naturismo.

Não para escrever ou algo parecido, mas apenas parar um pouco e refletir sobre o Naturismo em sua vida e nos que lhe abraçam neste caminho ou mesmo criticam esta causa filosófica de existir sem estar com uma etiqueta sobre o corpo. O homem-etiqueta que compra a Playboy tem vergonha de ficar nu, lembre-se, você pode convencer esse homem-etiqueta com sua prática social de que esta nudez da Playboy é útil somente aos donos da revista.

As mulheres (todas as coelhinhas!) também são vítimas, mesmo com seus astronômicos cachês. E por falar nisso, para não dizer que usei a revista só para criticar, aconselho a leitura da Playboy deste mês de agosto de 2010: está com muitas reportagens boas e que nos fazem pensar no Brasil. Esqueçam a Cleo Pires, leiam o que está na perna dela na capa. Sei que é difícil, mas não é, de todo, impossível.

sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 8

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço


VII



Mas nem sempre o dia é do pescador. Os poemas “Piranhas”, de Trilha dágua, e “Jacaré”, de Poemas da água e da terra, retratam o conflito natural entre o homem e seu meio. “Piranhas” descreve a viagem do gado, da várzea à terra firme, fugindo da enchente e o sacrifício de uma rês tresmalhada:

                    As águas se agitam
                    no rude festim,
                    e em poucos instantes
                    só resta o esqueleto.

O pequeno romance “Jacaré” narra a história do pescador Dico, que sai à caça do “jacaré-preto crescido / pra cima de quatro metros” e, quase uma semana depois, não retorna. Dico sabia dos riscos, mas a recompensa lhe era irrecusável:

                    Regatão passou dizendo
                    que jogava preço alto
                    no couro de jacaré:
                    fogo, pilha, sal, anzol,
                    sabão, conserva, tabaco,
                    cartucho, chumbo, espoleta,
                    pólvora, linha, terçado,
                    remédio pra impaludismo
                    e outras tantas precisões.

O regatão foi embora e Dico não retornou. A curva do rio, imóvel, guardará a lembrança da partida e a esperança do regresso:

                    E eu, testemunha da ausência,
                    no fim da tarde sombrio
                    lanço perguntas ao rio:
                    por onde Dico andará?

Vitor Manuel de Aguiar e Silva, na sua Teoria da Literatura, caracteriza o texto narrativo como “uma sequência de eventos, comportando como elemento estrutural relevante da sua forma de conteúdo a representação do tempo”. É interessante observar nos dois poemas anteriormente citados a facilidade com que Alcides Werk transita também nesse terreno, distanciado do lirismo usual. Outros poemas como “Amazônica” e “Facheação” também podem ser vistos sob esta ótica, uma vez que representam um sequência de eventos, além de terem uma representação temporal histórica, dentro de um espaço físico e social claramente delimitado.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo – lançamento

Os professores Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles lançam mais uma obra em parceria. Trata-se da antologia Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo. O lançamento será antecedido por uma palestra sobre a Poesia Parnaso-Simbolista, em que os professores Marcos Frederico e Tenório Telles falarão sobre a importância e contribuição dos autores desse período para a Literatura Brasileira.

Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo apresenta uma reunião de poemas de autores de três importantes momentos da Literatura Brasileira, em que cada um é explicado por estudos introdutórios, onde são apresentados: o contexto histórico em que surgiram, as principais características, os autores e as obras mais expressivas, além de uma pequena reunião de poemas dos escritores selecionados.

O livro foi concebido com o objetivo de despertar, nos leitores, o interesse e o prazer da descoberta de alguns dos mais destacados poetas da nossa literatura. Estudá-lo é uma oportunidade de conhecimento das nossas letras. A leitura da poesia de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, entre outros, será uma experiência enriquecedora e transformadora, em especial pela beleza e conteúdo humano da obra desses poetas. O que se pretende é que, a partir do contato com estes textos, o leitor sinta-se estimulado a aprofundar seus conhecimentos e buscar outras obras desses poetas e de outros das diversas escolas da literatura nacional. Percorrer as páginas da antologia é uma oportunidade de encontrar com a palavra encantada de alguns dos mais expressivos poetas de nossas letras. Poesia e poetas do Parnasianismo, Simbolismo e Pré-Modernismo é a terceira antologia organizada por Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles. As primeiras foram Poesia e Poetas do Amazonas (2006) e Antologia do Conto do Amazonas (2009).

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 8/11

João Bosco Botelho


Micrologia


A palavra higiene se impõe no sentido regulador não só da alimentação, mas também como caráter educativo na rotina do trabalho. A ginástica passou a fazer parte da manutenção da saúde. Por esta razão, os ginastas permaneceram independentes frente ao crescente poder médico nas relações sociais e também conquistaram papel importante no aconselhamento do corpo sadio.

O texto De um Regime de Vida Saudável se propõe servir de guia ao público. O autor desconhecido estabeleceu os parâmetros da cultura médica mínima que todos deveriam ter para permanecerem saudáveis. O objetivo central seria estabelecer, pela lei, o caminho que as pessoas deveriam seguir para evitar a doença.

O propósito parece ser o mesmo do autor do livro Da Dieta que aborda, em quatro capítulos, a teoria dos Quatro Humores. Se as patologias eram causados pelo desequilíbrio dos humores – o sanguíneo, o linfático, o bilioso amarelo e o bilioso negro – e estavam relacionadas com ao cotidiano das pessoas, nada mais lógico do que estabelecer normas alimentares com o intuito de evitar os males da alimentação.

A estrutura teórica da Medicina como paideia, na Grécia, no século 3 a.C., estava tão bem elaborada que perpassou o mundo romano. No século 2 d.C., o médico Galeno (138-201), o mais conhecido representante da medicina-oficial romano-cristã, acoplou aos humores da Escola de Cós as novas categorias denominadas temperamentos. Os escritos galênicos, valorizados durante mais de quinze séculos, no Ocidente cristão, valorizava a sangria sobre todas as alternativas de tratamentos. Para cada humor haveria um temperamento que ditaria as condições de saúde, de doença, e da capacidade intelectual de cada indivíduo:

Humor                                             Temperamento

Sanguíneo                                         Sanguíneo

Fleuma                                             Linfático

Bilioso preto                                    Melancólico

Bilioso amarelo                               Colérico

A imensa flexibilidade da Medicina como paideia acabou ferida, na Idade Média, pela intolerância restritiva exaltando a medicina-divina, onde Jesus Cristo e os Santos ao substituírem os deuses e deusas greco-romanos, tornaram-se a única terapêutica requerida pelos incontáveis doentes sem esperanças, nos incontáveis santuários, especialmente em Jerusalém e Compostela.

A influência hipocrático-galênica trazida pelo elemento colonizador esteve claramente presente no Brasil, quando a princesa Paula Mariana, filha do primeiro imperador do Brasil, sob os cuidados dos mais importantes médicos da corte, faleceu após ser submetida às muitas sangrias e clisteres para expurgar os “maus humores”. No século 19, o viajante Von Martius descreveu o temperamento dos índios como “fleumático, por terem pouco sangue nas veias”.

Micrologia e pensamento micrológico

Apesar dos claros resíduos do pensamento grego da Escola de Cós, nas práticas médicas, até o século 19, o processo de mudança estava delineado no Renascimento, especificamente, na busca da materialidade da doença em dimensões cada vez menores da matéria. Esse novo avanço em direção à matéria invisível aos olhos desarmados – pensamento micrológico – foi iniciado com os trabalhos de Marcelo Malpighi (1628-1694), que publicou o livro De Viscerum Structura, em 1666, no qual descreve alguns aspectos da micrologia dos tecidos da língua do boi iniciando o segundo corte epistemológico da Medicina.

O século 17 foi caracterizado pelo aperfeiçoamento das lentes de aumento, fazendo com que o microscópio ficasse mais competente e, como consequência, o pensamento microscópico ocupasse mais espaço na busca da etiologia das doenças, identificando essa etapa da busca da materialidade da doença por meio do invisível aos olhos como o segundo corte epistemológico da Medicina.

O maior fruto da iatrofísica foi Marcelo Malpighi (1626-1696), aluno de Santório. Ele foi o responsável pela introdução do pensamento micrológico que aumentou as margens da materialidade da saúde e da doença.

A histologia, o estudo das microscopias dos tecidos, propostas por Malpighi, trouxe a doença da macroestrutura (corpo), para a microestrutura (célula). Com este fato foi aberta a porta que desvendou a base da Medicina da atualidade: o diagnóstico microscópico, sem dúvida, deslocou a doença da macro para a microestrutura e renorteou as práticas médicas. A maior parte das ações de saúde que são realizadas, na atualidade, é alicerçada no diagnóstico da infecção (qual a bactéria) ou do tumor (qual o tecido onde o tumor iniciou).

Nessa conjuntura, o pensamento micrológico atenuou os medos pessoais e coletivos em relação ao diagnóstico de onde está o tumor ou a infecção. Este fato é facilmente comprovado pelas grandes campanhas mundiais de esclarecimento de como podemos evitar o câncer e as infecções. Em todos esses casos o diagnóstico é obtido do estudo da microestrutura.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Academia Amazonense de Letras promove concurso de poesia

.

Por meio da Resolução N° 03/2010, a Academia Amazonense de Letras instituiu o Concurso Manaus e Poesia,em homenagem ao 341° aniversário de fundação da cidade de Manaus. A seguir transcrevemos os pontos relevantes do documento:


1 – O Concurso Manaus e Poesia em homenagem ao 341° aniversário de fundação da cidade de Manaus, tem o objetivo de incentivar a produção literária e promover maior integração entre a Academia Amazonense de Letras e a sociedade;

2 – Poderão participar do concurso quaisquer pessoas interessadas, residentes no Amazonas, exceto membros da própria Academia;

3 – Os poemas deverão ser inéditos e versarão, obrigatoriamente, sobre a cidade de Manaus;

4 – As inscrições deverão ser feitas na própria sede da Academia Amazonense de Letras, Casa de Adriano Jorge, localizada na Rua Ramos Ferreira, n° 1009, Centro, no período de 19 de outubro a 18 de novembro de 2010, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 14h30, podendo o candidato concorrer com mais de um poema;

5 – Os poemas deverão ser apresentados em papel formato A4, de cor branca, fonte Times New Roman, tamanho 12, com pseudônimo do candidato, sem qualquer outra identificação, e entregues na Secretaria da AAL em envelope branco, fechado, tendo como identificador apenas o pseudônimo;

6 – O candidato entregará, na mesma ocasião, outro envelope, modelo carta, lacrado, identificado com pseudônimo, indicando em seu conteúdo:

          a) nome completo do autor e pseudônimo;

          b) endereço completo, e-mail e telefone para contato;

          c) n° do CPF e cópia da Carteira de Identidade;

          d) título ou títulos dos poemas apresentados ao certame.

7 – O julgamento dos trabalhos será feito por uma Comissão de Acadêmicos, que escolherá os três melhores poemas, sem atribuir-lhes classificação;

8 – A identificação dos poemas será feita em sessão pública, na Casa de Adriano Jorge, pela Comissão Julgadora, e o resultado, proclamado a seguir pelo Presidente da Academia, sendo a decisão irrecorrível;

9 – Aos vencedores do Concurso Manaus e Poesia serão conferidos prêmios em dinheiro, no valor individual de R$ 3.000,00 (três mil reais), além de Diploma de Honra ao Mérito, sendo assegurada a publicação dos poemas na Revista da Academia. Aos demais concorrentes, serão conferidos certificados individuais de participação;

10 – A divulgação, pela Academia Amazonense de Letras dos poemas apresentados ao Concurso Manaus e Poesia não gerará direito indenizatório de qualquer natureza.

Mais informações, pelo telefone 3234-0584, no horário acima mencionado.

Fantasy Art – Galeria

Kim Eugene.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A fragmentação das torres – 4

Marco Adolfs


A dentista Ana Maria Lara


“Onde ela estará agora?”

Ziiim! Ziiim! Ziiim! Pronto, acho que está perfeito agora. É uma boca grande. “Vou comentar sobre as torres”. O que você acha disso? É, é... isso mesmo. Os Estados Unidos não vão deixar por isso mesmo. Também acho. Eles vão invadir com seus soldados e matar todo mundo. Está bom, o dente? Sente algum volume?Algum excesso? Está alto? Meu filho? Meu filho Juquinha vai bem e o Fernandinho? Meus cabelos? Uso esse mesmo. Claro. Trato bem os meus cabelos? Estão lindos, não? Mas, mais uma semana e terminarei o trabalho. Quero lhe ver com os dentes mais maravilhosos e perfeitos do mundo. Não, o mundo não vai se acabar, não. Puxa, estou cansada. Agora como ficará o dólar? Vou viajar, antes... Aquele violinista é um gato e ficou dando em cima de mim. Lindos olhos azuis. Meu Deus! “Sempre fui muito reprimida”. Acho que estou enjoada do Ramyres? É um grosso. O que me segura é o Juquinha. Se não fosse o Juquinha. E a mamãe. Que entre o próximo. Olá! Tudo bem!? Sente-se. Vamos ver como está essa boca. É horrível ver aquelas pessoas se jogando dos prédios. Esses terroristas são... Não acho que sejam. Sei, sei...Ziiim!Ziiim!Ziiim! Fico com vontade de corresponder. Ramyres já deve ter tido as suas aventuras. Aquela estagiária loira do escritório. Ele andou com ela. É claro que andou. E ninguém soube. Terei um amante e pronto. Ziiim! Ziim! Ziim! As vezes somos como flores que vão murchando e precisamos ser regadas por um jardineiro desconhecido... (Sorrindo)... Doeu?... Coitada da mamãe, sempre foi tão forte e alegre. E agora está daquele jeito. “Oh! Meu Deus!...E aquele homem do chat... Não vejo a hora de chegar em casa e esperar o Ramyres dormir para acessar o facebook”. Ainda bem que inventaram o facebook. Que tal? Não doeu nem um pouco, não foi? Aquelas palavras foram deliciosas. Excitantes. Ah! Meu Deus... Ele quer me ver no Yahoo Messenger, esta noite!...?...

domingo, 24 de outubro de 2010

Manaus, amor e memória XIX

Restaurante Chapéu de Palha, na esquina da Paraíba com a Fortaleza, no bairro de Adrianópolis, em foto de 1974. Não procurem: não existe mais. Há muito tempo.

Quem não tem naturismo usa óculos escuros

Jorge Bandeira

A mulher que vejo nua de óculos rayban,
não é a mesma que encontro toda manhã
(JB)


Há algum tempo, logo que começamos esta viagem boa do Naturismo amazônico no Graúna, Grupo Amazônico União Naturista, descobri que uma das chaves para a descoberta de um naturista leal eram as pupilas. Explico melhor, e nisso o aprendizado em locais de prática naturista me deram o escopo necessário para refletir sobre o que, antes, pensava ser uma paranóia purista de um naturista que estava “vendo fantasmas de roupas” em tudo quanto era lugar de naturismo.

Foi algo intuitivo, creio, pois observava que era grande a proliferação de óculos escuros, por parte de homens e mulheres naturistas. A estatística, porém, apontava um número maior de homens usando este invento medieval. Em princípio achava que seria um surto de conjuntivite, dado o grande número de óculos escuros em locais naturistas, seja aqui mesmo na nossa história de naturismo organizado pelo Graúna ou em minhas andanças em praias e locais privados de prática naturista.

A constatação era (e é!) uma só: tem muita gente de óculos escuros! O questionamento vem de forma imediata, e as respostas são variadas. Por que tanta gente de óculos escuros nos locais de nudez coletiva? Imaginei, na minha confiança no ser humano, ou talvez ingenuidade mesmo, que talvez a proteção aos raios de sol seria para que não prejudicassem os olhos dos naturistas, daí o uso constante dos óculos, motivos suficientes para acalmar o meu espírito inquiridor. Não foi o suficiente, pois mesmo quando o Sol “enfraquecia”, encoberto por nuvens ou no entardecer, após as 17:30, aquelas pessoas continuavam com os seus artefatos de lentes escuras.

Lembrei do poeta – “os olhos são os espelhos da alma” – e comecei a desvendar esse mistério às vezes insondáveis aos naturistas. Outro fator decisivo para minhas elucubrações que aqui exponho, como missivista do naturismo brasileiro, foi das primeiras viagens à grande São Paulo, onde morei por um curto espaço de tempo, fazendo uma pós-graduação por lá. Um amigo disse-me, em relação ao centro velho, lá pelo Anhangabaú: use sempre óculos escuros, por questões de segurança, pois os meliantes precisam saber que você está desatento para lhe furtar algo, e se você usa óculos escuros, eles não podem perceber se você está ou não distraído. Os meliantes precisam enxergar para onde você olha para saber se podem atacar! A ficha caiu na hora em relação à cruel dúvida que me assolava. Nada de conjuntivite, nada de problemas oculares, nada disso. Geralmente esses óculos escondem por trás de suas lentes os famosos olhos do voyeurismo. Eu falo geralmente, não estou dizendo TODOS que usam óculos escuros em locais naturistas.

Procurem bem nos locais que vocês frequentam e observem o que digo: tem gente que usa óculos escuros para ver, de soslaio, homens e mulheres nus(as), sem que sejam “denunciados” pelos olhares perscrutadores, que só faltam engolir as pessoas nuas que observam. Inclusive quando os jornalistas (estes são experts nisso! Lembrando, estou falando de alguns, e se a carapuça servir...) estão em praias e locais de naturismo quem está em seus rostos: os óculos escuros! São peças quase obrigatórias em entrevistas em áreas de naturismo. A técnica é simples, basta sentar e esperar a mulher ou homem nus, com a cabeça firme, não vire o pescoço, olhe de soslaio, com a beira dos olhos, para a esquerda ou direita, alguns tem mais facilidade de mover a retina mais para um lado do que para o outro. Pronto, já viu a mulher nua ou o homem nu sem dar mancada de seus atos. Ou seja, é um voyeurismo mesmo, cuja janela e/ou binóculo são os óculos escuros.

Não tenho motivos de proibir ninguém de usar óculos escuros num local de naturismo, mas cá pra nós, como é bom, legal, olhar nos olhos de todos que conversam conosco nesses locais, caminhar sem aquela sensação de que é um bicho de zoológico humano, sendo bisbilhotado nas entrelinhas de seu corpo. A naturalidade do olhar é outro aspecto que mereceria outro artigo, que ainda devo escrever. Por enquanto lanço essas luzes de reflexão, não condenando ninguém, mas criando um espaço para que a segurança e a sinceridade das retinas dos naturistas não deixem margem a um olhar embaçado pela mente, que, por falar nisso, óculos embaçam a realidade facilmente.

Explicação necessária: Jorge Bandeira é naturista do Graúna; nas ruas têxteis usa óculos escuros por recomendação médica e para burlar a ação de maus intencionados. No Naturismo, não usa, jamais, óculos escuros.

sábado, 23 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 7

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

VI



Esses registros de vida estão presentes desde os primeiros poemas de Da noite do rio até nos mais recentemente publicados. Mas é a partir da 1ª edição de Trilha dágua que Alcides Werk passa a mostrar-nos poemas onde a ocupação do espaço é plena e em constante movimento. O autor desapega-se da idealização pura e simples do espaço – onde os animais são apenas bichos e peixes – e passa a nomear seus ocupantes, como no já citado poema “Trilha dágua”. O poema “Tracajá”, por exemplo, descreve o movimento repleto de vitalidade de piranheiras, araçás, tracajás, onças, jacurarus, maracajás. É como se na sua poética construída ao sabor do tempo, Alcides Werk notasse, a partir de determinado momento, um movimento além das águas poderosas. É interessante observar, contudo, que a preocupação com a ecologia vai muito além do discurso fácil e emocionado de um modismo ocasional –redundante em si mesmo. O poema “Peixe-boi” fará qualquer ecologista de última hora torcer o nariz à crueldade com que é descrita a pesca àquele raro mamífero. Após expor com detalhes os preparativos indispensáveis, o “arremesso forte” e certeiro do arpão é seguido por um “navegar sem rumo” do animal arrastando o casco, enlouquecido pela dor.

                    Depois o cansaço nessa luta inútil
                    que eu sempre venci. Um pau molongó
                    em cada narina,
                    e tudo acabado.

A exclamação que o autor não explicita está clara. A alegria incontida, entretanto, não é pela vitória comum do homem. É uma outra alegria, quase infantil, primitiva:

                    Vou viver fartura,
                    vou guardar mixira,
                    vou ter peixe e boi.

Essa mesma motivação remete-nos a outro belo poema, “Facheação” , onde o objetivo da pesca é menos específico:

                    Há sempre pelas restingas
                    gerações de acaratingas
                    acomodados na areia,
                    acaris, bararuás
                    aracus, tucunarés
                    (por trás dos âmagos velhos,
                    guardando suas ninhadas)
                    e casais de apaiaris.

O espaço em movimento é enriquecido pela descrição dos objetos indispensáveis à faina:

                    E eu pego o rumo da beira,
                    com facho, poronga, arpão,
                    azagaia e jaticá.
                    No paneiro vai farinha,
                    vai sal, pimenta, limão,
                    língua de pirarucu,
                    cuia e pão de guaraná.

Não, os fonemas não têm cores como não as têm as vogais. Antes, traduzem alegria ou tristeza em acordo com o texto. Nas duas estrofes acima, o frio i e o sombrio u traduzem a mesma força telúrica dos fogosos o e a. Porque o objetivo desta facheação é mesmo a festa:

                    Depois, o rumo de casa:
                    preciso remar ligeiro,
                    que o povo tá me esperando
                    com a peixada pro ajuri.

O tema, aliás, repete-se, embora sem o mesmo brilho, no poema “Pescaria”, da antologia Poemas da água e da terra. A enumeração dos ocupantes do espaço prossegue na sua melodia inconfundível:

                    São piraíbas, jaús, dourados,
                    são pirararas de enormes panças,
                    são peixes-lenha e barbas-chatas,
                    piramutabas, capararis,

                    piracatingas e mandiis.

Da mesma forma, o poema “Jaraqui”, dado a público na 2ª edição de Trilha dágua, ensina a pesca àquele peixe, iguaria comum nas mesas da região:

                    jaraqui de piracema:
                    eis do pobre a mesa posta.

A técnica do distanciamento empregada por Alcides Werk nesses poemas visa afastar o envolvimento emocional do leitor com o fato em si: o poeta é o pescador. A recíproca dessa assertiva é falsa, entretanto, posto que o resultado – o pescador é o poeta – nos levaria perigosamente à catarse aristotélica e, consequentemente, ao discurso emocionado, dirigido ao leitor “pré-parado”. Aqui reside, aliás, o grande trunfo da poesia de Alcides Werk no que ela tem de mais regionalista: uma poesia feita de dentro para fora, viva, pulsante, vibrante. Não são meras lembranças do passado, saudades de um tempo perdido no tempo. Não. É a vida que flui, naturalmente, com a força arrebatadora das águas poderosas, destruindo o passado, preparando o futuro.

Mesmo nos poemas discursivos, como “O Ouro Rio Amana” (Trilha dágua, a partir da 3a edição), a catarse dá-se muito mais a partir da visão apaixonada do autor que do fato narrado: o poeta passa a sua indignação antes mesmo de provocá-la pela leitura mais atenta do poema.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Moacyr de todas as cores

O Pequeno Príncipe e o valor da simplicidade

Terra caída

Rogel Samuel*


Trágica lembrança essa do famoso poema de Álvaro Maia, “Terra caída”, no episódio recente do desbarranco ocorrido em Manaus:

Na outra margem, na enseada esbatida nas brumas,
rolam blocos de terra em dolente estertor
com frondes e sopés, flores e sumaúmas...
O rio estoura e ferve em torvelins de espumas,
e pranteia o infortúnio em regougos de dor...

O título também é do romance de José Potiguara e da obra de Eider Pestana.

Álvaro Maia era um excelente poeta, hoje esquecido, até recusado pela crítica amazonense. Ele marcou o que se pode chamar de neo-romantismo na poesia amazonense.

O poema é enorme e não vou transcrever aqui.

Ninguém como ele para conhecer o fenômeno das “terras caídas”.

No seu romance “Beiradão”, a isso se refere:

Seguindo essa perspectiva de restabelecimento, o sítio de Fábio também atinge uma prosperidade, atestando que “[...] havia tranqüilidade na pobreza, a fartura na relatividade, a comprovação da vida no interior verde, afastando o tabu da vida unicamente apegada ao extrativismo [...]”.(89) As ações de Fábio na administração de sua propriedade comprovam ainda um planejamento racional, à medida que não somente busca outras alternativas econômicas, além da monocultura, mas também se previne de surpresas que possam ser causadas pelos acidentes naturais próprios da estrutura geológica da região, plantando cacauais em restingas altas, longe, portanto, das margens afetadas pelo fenômeno das terras caídas.

Eu cito: Lucilene Gomes Lima. Ficções do ciclo da borracha no Amazonas: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL). Manaus, Editora da Universidade do Amazonas, 2009. 240p.

(*) Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 7/11

João Bosco Botelho


Vida saudável


A relação da medicina-oficial com a natureza, que os gregos tão bem assimilaram ao atingir o social, em sistemas de valores e respostas claramente configurados, reforçava-se como paideia. Nesta perspectiva, foi evocada por Sólon ao descrever os elos entre as doenças pessoais e coletivas com a desorganização social. Baseado nessa relação, esse legislador fundamentou parte do seu pensamento político afirmando que as crises políticas interferiam na qualidade da saúde de uma população.

Platão (Górgias 464b, 465a, 501) utilizou parte da estrutura teórica da medicina-oficial grega como instrumento para compor algumas linhas mestras da sua concepção ético-filosófica. Nesse genial processo, estabeleceu valor significante à verdadeira tékhne, como forma de conhecimento na natureza do objeto destinado a servir ao homem.

Os conceitos platônicos confirmaram o médico como a pessoa que, baseada no que sabe sobre a natureza do homem sadio, conhece também o contrário, o homem doente, e competente para encontrar os meios para restituí-lo à saúde.

Com base neste modelo, Platão traçou a imagem do filósofo tendo a mesma função no trato da alma. Existiu, neste ponto do pensamento platônico, uma semelhança viva entre o médico e o filósofo, ao se completarem na busca da harmonia plena do homem com a natureza.

Os médicos gregos interpretaram um dos mais complexos problemas do diagnóstico: as múltiplas formas como uma mesma doença pode se manifestar. Para superar o estorvo, os teóricos das escolas de Knido e Cós viabilizaram classificações descrevendo essas manifestações, mas reconhecendo-as como uma doença (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les belles Lettres. 1981). O genial dessa nova interpretação, nunca antes usada, é o fato de ter evitado o erro cometido nas medicinas-oficiais anteriores, praticadas nas primeiras Cidades, onde as muitas manifestações clínicas da mesma moléstia eram consideradas doenças diferentes. Esse método foi identificado por Platão como dissecação ou divisão dos conceitos universais nas suas diferentes classes (Cornford, F. M. Principium Sapientiae: as origens do pensamento filosófico grego. 2. ed. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 1981).

A Medicina como paideia também contribuiu para que Platão reconhecesse as três virtudes do corpo – saúde, beleza e força – que harmonizariam com as quatro virtudes da alma – piedade, valentia, moderação e justiça.

As atitudes educadoras da Medicina como paideia ultrapassaram os limites da terapêutica e incluíram a massagem, a prática dos esportes, a música, a dança, o teatro e os banhos coletivos no cotidiano da busca da saúde. No texto Das Epidemias (Darember. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855), da Escola de Cós, esta ideia está clara:

“A arte do médico consiste em eliminar o que causa dor e em sarar o homem, afastando o que o faz sofrer. A natureza pode por si própria conseguir isto. Se sofre for estar sentado, não é preciso mais que levantar-se; se sofre por se mover, basta descansar. E tal como neste caso, muitas coisas da arte do médico a natureza as possui em si própria”.

Também é possível sentir, ao longo do século 3 a.C., o vigor da ação médica ligada à noção global da natureza jônica. O livro Das Epidemias confirma os conceitos de harmonia e medida (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855): “ ... o esforço físico é o alimento para os membros e para os músculos, o sono o é para as entranhas. Pensar é para o homem o passeio da alma”.

Nesse sentido, o médico era chamado para recompor a saúde, por meio de técnicas desconhecidas dos não médicos. Para esse fim, utilizava os saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida da saúde. Hipócrates e os médicos da Escola de Cós, na obra Da Medicina Antiga, seguiram esse pressuposto ao afirmarem que o médico não pode saber de Medicina nem tratar os seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “... os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Empédocles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos é constituído”.

A concepção teórica de saúde dos gregos também envolveu a harmonia. Sendo de natureza harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes individuais, a saúde deveria ser procurada neste contexto da compreensão do normal. Sob essa mesma perspectiva, Platão (Fédon, 93e; Leis 773a; Górgias 504c) entendeu a saúde como a ordem do corpo e Aristóteles (Aristote. Ética a Nicômaco. X 1180b) associou o multiplicidade do comportamento moral às múltiplas dietas prescritas pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.

A tendência classificatória do pensamento grego, especialmente o aristocrático, estimulou as tentativas de ordenar as doenças em grupos que apresentassem alguma semelhança no diagnóstico, no tratamento e no prognóstico.

Com a literatura médica contendo as recomendações específicas das normas que deveriam ser obedecidas para evitar a doença, a medicina-oficial grega inicia outra importante contribuição para consolidar-se como paideia a saúde não dependeria só dos médicos. A dieta, a higiene, o laser, a cultura, o esporte são partes do corpo são.

Os hospitais construídos nesse período eram grandes e possuíam divisões destinadas aos médicos e enfermos. O hospital da Escola Médica, na ilha de Cós, possuía salas de exames, alojamentos individuais para os doentes, salas de banhos coletivos, praça de esportes e anfiteatro para dez mil pessoas. É um dos muitos exemplos de como a arquitetura grega amparava o discurso teórico da harmonia com a natureza na busca da saúde.

O novo espaço da Medicina como Paideia junto aos conceitos jônicos com objetivos educadores, contribuíram para o surgimento das mais importantes obras médicas destinadas ao público não médico. Essas obras, Da Dieta, De um Regime de Vida Saudável e Da Natureza do Homem contêm fantásticas sugestões de como deve ser a vida das pessoas para evitar as doenças. Entre muitos aspectos, descrevem detalhes da caminhada após cada refeição dependendo da idade e das condições físicas de cada pessoa nas diferentes estações do ano.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Academia Amazonense de Letras marca data para ocupar mais duas vagas

.

Em reunião realizada hoje pela manhã, a diretoria da Academia Amazonense de Letras homologou as inscrições dos candidatos às Cadeiras 28, de Aníbal Teófilo, e 26, de Rui Barbosa. A jornalista Mazé Mourão concorre à primeira, anteriormente ocupada pelo poeta Anibal Beça. O empresário Roberto Tadros e o jurista Isaac Sabbá Guimarães disputarão a segunda Cadeira, vaga com o falecimento do acadêmico Oyama Ituassú.

As eleições serão realizadas no dia 18 de novembro próximo.

Arnaldo Garcez na abertura da Sala Djanira, no Rio

Encontro das Águas no dia do poeta

O ensino das artes visuais através de releituras fotográficas

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Como promover o conhecimento das Artes Visuais de forma compreensível, prática, prazerosa, atualizado com técnicas e temas contemporâneos? Foi a partir destas questões que foi criado o projeto RELEITURAS em CLIQUES.

Este é um projeto de arte-educação que propõe utilizar a releitura como forma de promover o conhecimento sobre as artes visuais. Diferente do que muito se faz nas escolas, a releitura de imagens não é a cópia de uma obra, pois ela contém outros elementos que a tornam única e a diferenciam da obra original. E para tornar a releitura uma obra contemporânea, o projeto também utiliza a linguagem fotográfica como resultado final, por ser atual e muitas vezes questionado o seu valor artístico. Além disso, a releitura em fotografia também é um recurso muito utilizado por renomados artistas contemporâneos, como os brasileiros Vik Muniz e Thiago Costackz.

Sidney Silva, arte-educador e coordenador do projeto, realizou, com o apoio da FUNARTE, através da 7ª edição do programa Rede Nacional ARTES VISUAIS, durante o mês de setembro, na cidade de Manacapuru, uma oficina pedagógica para socializar os conhecimentos desenvolvidos no Centro de Educação SESC em Manaus. Os conteúdos curriculares de história da arte, fotografia e arte contemporânea, foram apresentados durante toda a oficina através de atividades teóricas e práticas. “Além destes tivemos também a participação da fotógrafa Ruth Jucá, que apresentou seus trabalhos e assim permitiu uma aproximação maior da obra e do artista com os arte-educadores.” Afirma o professor, que também criou um blog (www.releiturasemcliques.blogspot.com) para registrar todas as atividades realizadas. .

“O projeto RELEITURAS em CLIQUES foi um grande desafio, pois são muitos os obstáculos para realizar uma atividade de formação dentro da realidade amazônica, mas enfim conseguimos produzir resultados bastante qualitativos e assim alcançar os objetivos do projeto de ser um espaço de promoção do diálogo entre arte-educadores e suas práticas, entre a técnica e o olhar artístico, entre a obra original e a crítica da realidade”, considera Sidney Silva.


Após uma exposição itinerante pelas escolas públicas de Manacapuru o resultado final deste projeto poderá também ser apreciado pelo público em Manaus a partir desta terça-feira (19/10), às 19:00h, na Galeria Café do SESC (Rua Henrique Martins,426/Centro), através de uma exposição aberta ao público em geral, que não precisará ter conhecimento prévio de história da arte, pois as obras são acompanhadas de legendas que permitirão que o visitante conheça a obra original, o autor e técnica utilizada. Sidney acredita que a experiência desenvolvida em Manacapuru possibilitou mais que conhecimentos sobre história da arte, pois serviu também de motivação para que outros arte-educadores possam também realizar projetos que permitam cada vez mais o acesso democrático ao universo das artes visuais.

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Projeto: Exposição Fotográfica RELEITURAS em CLIQUES

Data: 19 a 30 de outubro/2010

Local: Galeria Café do SESC (Rua Henrique Martins, 426/Centro) Manaus-Amazonas

A fragmentação das torres – 3

Marco Adolfs


O advogado Ramyres em meio a processos


“Com é que ela pode ficar assim, desse jeito, olhando o Cristo o dia inteiro?... Sem reconhecer sequer a filha?”...


Pega esse processo e arquiva! Pilhas chatas de gente chata que faz muita besteira. Devia ter ficado no exército. Lá é que era o meu lugar. Agora estou aqui, sentado numa cadeira odiosa e enclausurado dentro desse paletó quente e desconfortável e ainda tendo que aturar esses boçais com seus crimes. Por isso que explodiram aquelas torres. Dormimos lado a lado e ela nem me dirige mais a palavra, de tão cansada que fica. Mas ela se acha parecida com a Catherine Deneuve. Eu também acho que ela tem um “q” da atriz. Bons tempos. Mas viver abrindo a boca das pessoas? Nunca entendi isso. Por que não fez Direito, como eu? Abandonou faltando pouco para seguir a Odontologia. Bom, é isso. Horas e horas sentado e ela em pé. Quando chego cansado eu é que tenho vontade de explodir tudo. E Miriam não colabora em nada. Só quer descansar os seus belos pezinhos. Cachorro idiota latindo, gata miando e a velha se esfacelando na cadeira de balanço. Ainda bem que o Juca faz a coisa certa e fica lá no quarto quieto. Juca é um bom menino. Estudioso e quieto. Que mais eu poderia esperar de um filho? Que não ficasse tão agarrado com a mãe. Sei não? Um amigo meu tem um filho gay. Coitado. Gay e viciado. Filhinho da mamãe dá nisso. Como estará ela? Ás vezes desconfio dela. Mulher muito bonita, sozinha, naquele consultório. Besteira minha. “Você nem liga pra mim; nem me dá um beijo mais”. Fico chateado quando ela diz isso. Ela é que não me dá beijo. Mulher é tudo igual, sempre esperando as atitudes do homem. E a gente o que recebe? O mundo não mudou nada. Talvez as Torres caiam na cabeça dessa gente para acordá-las de vez. Merda! Processos, processos e mais processos que só levam ao ódio de uns contra outros. Melhor é explodir logo tudo e acabar de vez com isso. Foi bonito. Achei bonito. Aqueles prédios do World Trade Center caindo; se esfacelando. Cinema americano da mais alta qualidade, disse alguém. Mas eu não posso pensar isso. E muito menos falar. Que me desculpem todas as vítimas. Me desculpem, está certo! Sei que foi cruel. Mas também... Bom, deixa pra lá. Mas o que percebo é a mãe se esfacelando naquela cadeira, olhando para o Cristo, esperando a morte chegar. Esperamos, todos, a sua morte, essa é que é a verdade. É um processo deferido. Concluído. Essa é a vida da gente. Trabalho, ilusão e morte.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Biblioteca Elson Farias inaugura amanhã

Um poema amazônico para eleitores de todo o Brasil

Zemaria Pinto

Não sei quando o velho amigo Alcides Werk (1934-2003) escreveu o poema abaixo transcrito, que estava em seu primeiro livro, Da noite do rio, de 1974. Mas o bom Alcides, coração de manteiga sob o sol amazônico, engasgava e chorava copiosamente sempre que o recitava, de cor (de coração).

Alcides escreveu esse poema para denunciar a canalhice da indústria da enchente e da indústria da vazante. Pois é, irmãos nordestinos, os coronéis de vocês só têm a indústria da seca...

Passado o tempo da escolha local onde optamos entre o 6 e a meia-dúzia –, é preciso convocar a Poesia para cantar contra a canalha que promete qualquer coisa  em troca de um mísero voto. E agora vou dar um tiro no meu próprio 42: a perenidade da Zona Franca, prometida pelo candidato tucano, é um absurdo político e econômico. Ele sempre soube disso, tanto que sempre se posicionou contra a existência da Zona Franca de Manaus. Agora diz que vai perenizá-la. O tiro: a Zona Franca, hoje, é nada mais nada menos que o direito do governo estadual de trabalhar com alíquotas reduzidas, para manter (as que já estão aí) e atrair (novas) indústrias. O conceito de Zona Franca dos anos 70/80 foi ferido de morte pelo Collor e recebeu o tiro de misericórdia do FHC. A Zona Franca já não existe mais, há muito tempo. Cala a boca, Serra!

O outro lado. A candidata Dilma, quando for presidente, precisa ficar de olho na estadualização dos programas federais. O Luz Para Todos não atingiu 100% do Amazonas, por dois motivos: incompetência técnica – o Amazonas é outro mundo, e assim precisa ser visto e tratado; canalhice eleitoreira: as áreas de oposição aos coronéis de barranco não têm prioridade. Outra: a maior parte do Bolsa Família ficou no bolso dos agentes dos governos estadual e municipais. Fica esperta, Dilma! 

O poema, não vou explicá-lo. O texto do Alcides é de uma limpidez – e de uma lucidez – que prescinde de qualquer explicação. Leiam o poema e tirem suas conclusões. 


DAS ÁGUAS GRANDES


                        Alcides Werk



O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.

(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.

Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)

O barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que veem.

E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja – que não seja séria,
falar de tudo – menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.

domingo, 17 de outubro de 2010

Recordando LORD K em Manaus

Jorge Bandeira



Assisti no CECOMIZ, o mais antigo shopping Center de Manaus, em eras passadas, segunda metade da década de oitenta do século passado, ao show da banda LORD K. Essa trupe musical tinha uma particularidade, peculiar até hoje: todos tocavam e cantavam nus em pelo, e também eram bons músicos, o que afastava o chavão de que a nudez seria apenas um caça-níquel, muito em voga naquele período pelos palcos do Norte.

A vocalista Klaudia Moras cantava nua, de uma naturalidade total ao se apresentar, como se estivesse vestindo roupas invisíveis. Não lembro se eles, durante o show, que durou mais ou menos uma hora e meia, falaram sobre naturismo ou outro tema. O ano era 1987, portanto a retomada da tradição de naturismo organizado, ligado ao legado de Luz del Fuego, estava apenas em sua infância, via Celso Rossi e Praia do Pinho.

Músicos nus, guitarrista, baixista, baterista, e uma vocalista à vontade no palco. O público amazonense teve uma boa impressão disso tudo, e nem mesmo se escandalizou por este eco tardio do paraíso perdido de seus antepassados índios. Coisas da vida e do tempo. LORD K era pura energia e descontração, sem apelativos eróticos ou outros ismos em sua postura cênica. Era uma banda de rock que não precisava de roupa nem glamour, e só.

Quem assistiu a esse show lembrará também que a equipe do programa Big-bang, com Luis Armando Fartolino e Atila Rayol no comando, registrou o show na íntegra, inclusive foi transmitido, na TV Local, sem cortes, uma verdadeira façanha, mesmo sendo o programa às 23h00. Foi um marco em nossa TV, tenho certeza. Infelizmente aquelas imagens históricas foram apagadas por questões contratuais depois de seis meses, segundo me confidenciou (agora já era segredo!) o Fartolino, numa conversa animada que tivemos anos passados, num lanche aqui na esquina de casa. Que pena.

A nudez, é importante lembrar, não era tão perseguida naquele período do auge do rock brasileiro, nos anos 80. Basta lembrar do programa da Mara Maravilha, que volta e meia tinha aquelas coreografias com as crianças e até mesmo as pré-adolescentes com o despojamento do vestuário (usando somente a parte de baixo, por exemplo).

Isso demonstra uma coisa: regredimos, em meu ponto de vista, na tolerância para a nudez natural e avançamos para a nudez SENSUAL E EROTIZADA. Não me perguntem a causa, pois são várias, e este artigo é apenas de reminiscências, de recordações de um antigo show de uma antiga banda de rock, LORD K. Seguramente recordo da única entrevista da banda num jornal local, A Crítica, onde ele, LORD K (que era casado com a vocalista Klaudia!) respondeu sobre como era expor a própria esposa nua naqueles shows, geralmente lotados. O Sr. K disse que era muito natural, pois a exposição direta não existia, uma vez que Claúdia não havia posado nua para Playboy ou Ele&Ela. Resposta direta e inteligente do Sr. K, colocando a nudez natural de sua mulher no panteão das grandes causas do Naturismo, mesmo sem o ser ou não saber que era. Só eu, dizia ele, posso expor, verdadeiramente, a Klaudia, através de minha volúpia e concretização do ato da carnalidade, pelo menos enquanto estamos juntos nesta união concedida por ambos, este pacto entre os seres que se amam.

Disse tudo o Sr. K. Sinto saudades, confesso, de um show daquele naipe, daquela grandeza, mas acho que hoje a imoralidade musical abrandou a nudez de nossos palcos. Já falei, inclusive, sobre isso: é cada vez mais difícil termos esta dignidade da nudez de volta, e a arte, assim, vai perdendo sua historicidade. Alguém aí conhece um(a) modelo-vivo(a) que posa nu(a) hoje em dia?

Em 1991, portanto depois da febre inicial, a Playboy consegue fisgar Klaudia Moras, que posou nua em uma das edições daquele ano.














Klaudia Moras, vocalista da banda de rock LORD K, em pose para a Playboy.

sábado, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 6

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

V
 

Escrito muito tempo antes, “Das águas Grandes”, já incluído em Da noite do rio, prenunciava o delírio poético da mudança além da História:

                    Quando eu for Presidente,
                    de amplos e amorosíssimos poderes

                    Convocarei um exército de anjos
                    para domar o rio e o desvario
                    dos prováveis dilúvios anuais.

Neste poema, porém, a ironia contida no sonho cede lugar à revolta do cidadão que conhece os mecanismos que o levariam a realizar seu sonho. E, transmudando-se em político vulgar, o poeta – longe da poesia que ensina a política ao povo que não lê poesia – imagina sua campanha, no habitual estilo de nossos maiores próceres:

                    E, de repente
                    me vem uma vontade provisória
                    de encher os bolsos de demagogia
                    entrar em cada casa com uma estória,
                    qualquer que seja – que não seja séria,
                    falar de tudo – menos de miséria,
                    prometer coisas que não cumprirei,
                    como se faz em tempo de eleições,
                    para que sejam menos infelizes
                    (enquanto o rio esconde as roça podres),
                    mastigando ilusões.

Porque para o caboclo – o José a esperar, como seus pais – o futuro é ontem, o passado é hoje.

Em “Das águas grandes”, além de seu forte conteúdo enquanto texto, destaca-se ainda a belíssima construção fônica da primeira parte do poema: a repetição de palavras cria uma tensão inusitada, que torna mais perceptível ainda o sentimento transmitido:

                    Na estreita maromba,
                    os bichos chorando de fome e de frio,
                    com medo do rio
                    com medo do rio que cresce outra vez.


                    com os olhos cansados de espanto e de mágoa
                    de ver tanta água
                    de ver tanta água

Tzvetan Todorov, citado por Maria Luiza Ramos no livro Fenomenologia da obra literária, propôs a ilustração sonora como um dos grupos dos fenômenos sonoros na literatura, descrevendo-a como “o caso em que as palavras, sem serem onomatopéias, evocam em nós a impressão auditiva que teríamos do fenômeno descrito”. Alcides Werk ilustra a passagem de um barco no rio cheio através de alterações e assonâncias que nos remetem ao fato:

                    O barco passando e a onda molhando
                    o menino molhado, na porta da frente.
                    O homem doente
                    deitado no rede
                    com os olhos cansados de espanto e de mágoa
                    de ver tanta água
                    de ver tanta água
                    bebendo do sangue, roendo as raízes
                    de tudo que fez.
                    Na estreita maromba,
                    os bichos chorando de fome e de frio
                    com medo do rio
                    com medo do rio que cresce outra vez.

Este trecho do poema poderia ser lido todo como se fosse composto por versos de cinco silabas:

                    O barco passando
                    e a onda molhando o
                    menino molhado,
                    na porta da frente.


                    com os olhos cansados
                    de espanto e de mágoa


                    bebendo do sangue
                    roendo as raízes


                    os bichos chorando
                    de fome e de frio


                    com medo do rio
                    que cresce outra vez

Esse ritmo é quebrado, entretanto, na sequência citada no inicio deste capitulo, quando, abruptamente, a musicalidade da passagem do barco é substituída pela veemência do discurso. A interrupção intencional da eurritmia é um recurso usado pelo autor chamando a atenção do leitor para um fato que julga particularmente importante no contexto.

Se a criação poética, como afirma Otávio Paz, em O arco e a lira, consiste na utilização do ritmo como agente de sedução, Alcides Werk é um sedutor. Invariavelmente, seus versos são lapidados com mestria, havendo predominância, nos poemas metrificados – à exceção dos sonetos, decassilábicos – de versos curtos, tetrassilábicos e redondilhas, típicos das canções populares. A propósito, Werk teve vários de seus poemas musicados por compositores amazonenses. “Trilha dágua” tem pelo menos duas versões – Pedro Amorim e Armando de Paula – e ilustra bem o que se afirma:

                    Nas margens, a prata
                    da lua escorrendo
                    pelas sapucaias,
                    pelos cajuranas,
                    pelos tarumãs,
                    sobre as garças brancas,
                    sobre as piaçocas,
                    sobre os jaburus.

As anáforas tornam-se um recurso se síntese: o poeta passeia pelo seu espaço como uma câmera cinematográfica, registrando instantâneos da vida amazônica. Ele prossegue, na trilha do casco, registrando

                    jacaré com filhos

                    gafanhotos verdes


                             peixes notívagos


                    lamparina acesa


                    cachorro latindo
                   
                    minha roupa branca,
                    meu sapato novo


                                      a cunhantã

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Linguagens-culturas construindo e desconstruindo ritos de curas e práticas médicas – 6/11

João Bosco Botelho

Escola de Cós


O corte separando o antes e o depois, nos saberes da Medicina como paideia, encontra-se no livro Das Doenças Sagradas, de autor desconhecido, do século 4 a.C.:

“Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras.”

Pela primeira vez, uma enfermidade foi explicitamente assentada no domínio da tékhne, após ser retirada do domínio dos deuses e deusas curadoras. Não é demais repetir que também nessa época, na ilha de Cós, ocorreu o ápice da medicina-oficial grega. O genial Hipócrates, o principal representante da Escola de Medicina de Cós, foi reconhecido como o marco nos saberes médicos por Platão (Protágoras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Aristóteles (La Politique. Paris. J. Vrin. 1989. p. 484).

Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior legado da Medicina como paideia: a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico da Medicina. Na realidade, a proposta teórica uniu elementos reconhecidos da Filosofia e da Medicina. Para cada elemento de Empédocles foi associada uma categoria teórica, capaz de unir com coerência as qualidades da natureza com as do corpo.

A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, está descrita no manuscrito Da Natureza do Homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855:

“O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que esses elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sente e pela saúde que se goza. A saúde atinge o seu máximo quando estas coisas estão na devida proporção em relação umas às outras, no que toca a sua composição, força e volume além de estarem devidamente misturadas. A dor surge quando há excesso ou falta de uma destas coisas, ou quando uma delas se isola no corpo em vez de estar misturada com as outras.”

A Medicina como paideia saltou do domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a terapêutica para identificar o excesso ou a falta do humor desequilibrado. Como consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios, sudoreses, diureses, diarreias e sangrias. O prognóstico se materializava na presença ou na ausência de resposta à terapêutica.

A aceitação da teoria dos Quatro Humores por alguns médicos da Escola de Cós não atenuou os embates com alguns filósofos, em certa medida, defensores da medicina-empírica e da medicina-divina, ambas livres das medidas de mensurações impostas pelo entendimento jônico da natureza.

Esses conflitos aparecem em dois textos:

– O filósofo Heráclito de Éfeso (540-470), de genialidade exclusiva, é contundente na antipatia aos médicos (Os Pré-Socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São Paulo. Abril Cultural. 1978. p. 297): “Os médicos, quando cortam, queimam, e de todo o modo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças”;

– O autor desconhecido de Sobre a Medicina Antiga, do século 4 a.C., testemunha certo conflituoso entre alguns médicos e filósofos, no qual repudiaram de maneira enfática, a generalização de todas as doenças estarem estritamente ligadas somente aos quatro elementos de Empédocles: (DAREMBERG, 1855. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “1. Que no caso de um doente afetado por uma alimentação crua e curado por uma alimentação cozida, não é possível dizer o que foi eliminado da dieta, se o calor, se o frio, se a umidade ou a secura; 2. Que não existe um quente absoluto que possa ser misturado para curar o frio, uma pessoa tem de tomar água quente ou vinho quente ou leite quente e a água o vinho e o leite tem propriedades diferentes que serão mais eficazes do que o calor.”

Em alguns trechos da mesma obra, Hipócrates também sustenta que o corpo humano é composto por grande número de coisas de naturezas diversas: salinas, amargas, doces, ácidas, adstringentes, insípidas etc., e não só de quatro componentes. Essa posição hipocrática é intrigante porque, em última análise, pode ser entendida como resistência à teoria dos Quatro Humores do genro Políbio.

De certo modo, a contestação hipocrática traduz o conflito que alcançou outros filósofos para reduzir a saúde e a doença somente aos quatro determinantes da teoria dos Quatro Humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). É possível que os médicos da Escola Médica de Cós tenham sofrido influência de Alcméon, filósofo e médico de Crotona, no Sul da Itália, que admitia um grande número de forças atuando nos corpos (Thivel, Antoine. Cnide et Cós? Paris. Les Belles Lettres. 1981. p. 289-383). No livro Da Natureza do Homem, atribuído a Políbio, na mesma época, ressalta as ideias de Alcméon (Jouanna, J. Hippocrate et l’École de Cnide. Paris. Les Belles Lettres. 1974 p. 137- 174), o defensor da ideia de a saúde ser dependente do equilíbrio de múltiplas forças dinâmicas e a doença seria o predomínio de umas sobre as outras.

Platão (República 407b-c-d-e) adotou o modelo médico dos tempos homéricos. É possível que essa leitura platônica tenha contribuído para ativar o conflito de competência entre a Medicina, voltada à interpretação da natureza por meio da tékhne, e a religião. Em aparente contraditório, Platão retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais entre pobres e ricos. O filósofo critica o modo como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e):

“Se um deles ouvisse falar um médico livre a pacientes livres, em termos muito aproximados das conferências científicas, explicando como concebe a origem da doença e elevando-se a natureza de todos os corpos, morreria de rir e diria no que a maioria das pessoas chamadas médicos replica prontamente em tais casos: – O que fazes, néscio, não é curar o teu paciente, mas ensiná-lo como se a tua missão não fosse devolver-lhe a saúde, mas fazer dele médico”.

Em certos aspectos, médicos e filósofos estavam de acordo. Tanto Platão (Platon. Oeuvres Complètes. Paris: Ed. Gallimard. Bibliothèque de la Pléiade. 1950. v.1, v.2. Banquete, 186-187) quanto Hipócrates (Darembrg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris: Labe Éditeur. 1855), reconheceram como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade. Aristóteles (Aristote. La Politique. Paris: J.Vrin. 1989. I, 11, 1282) vai mais longe e distingue o médico do homem culto em Medicina, estabelecendo o espaço que cada um pode ocupar nas suas funções específicas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O risco da maioria silenciosa

Rogel Samuel*

Diz Luis Nassif que “em 1969, em virtude das manifestações contra a guerra do Vietnã, o então presidente americano Richard Nixon fez um discurso em que se dirigia à ‘grande maioria silenciosa’, formada pelas bases conservadoras do partido Republicano, que não havia ido às ruas, que apoiava a guerra, e pedia apoio para unir-se a ele em favor da vitória dos Estados Unidos. A estratégia funcionou e Nixon conseguiu reeleger-se em 1972”.

O termo me assaltou quando eu ontem estava num restaurante e ouvi o seguinte diálogo na mesa ao lado:

– A senhora viu o debate na tv ontem? – perguntou um rapaz.

– Eu não vou perder meu tempo... – respondeu uma senhora.

Por causa dessa imensa “maioria silenciosa” que se recusa a ver a realidade (que é política) é que houve a terrível guerra do Vietnã, quando mais de 400 mil soldados e civis morreram durante o conflito de nove anos, quando quase três milhões de jovens norte-americanos serviram durante os 15 anos de engajamento militar e 56 mil soldados americanos morreram e mais de 300 mil voltam para casa mutilados ou com deficiência e que bem poderiam ser filhos daquela senhora elegante que não quis “perder o seu tempo”.


(*) Publicado originalmente no blog do autor.