Amigos do Fingidor

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sábado, 3 de outubro de 2026

Recepção a Sergio Cardoso, cadeira n° 2

 Noite de 13 de agosto de 2017

 

 

A Academia Amazonense de Letras reúne-se nesta noite para reafirmar sua perenidade, representada pela posse de um novo acadêmico e o paradoxo que isto produz: um signo de mudança como paradigma de imutabilidade.

Tristeza e alegria são componentes antagônicos de um mesmo processo, cujo propósito é a permanência da instituição acadêmica. Tristeza, porque lamentamos a falta do confrade antecessor. Alegria, porque celebramos a chegada de um novo companheiro. Assim, a Academia se renova e, às vésperas de completar um século de fundação, rejuvenesce. Pois é desta matéria que é feita a Academia Amazonense de Letras: da vida e da obra de seus pares.

Muito me honra a tarefa de que fui incumbido nesta noite: recepcionar o novo membro desta Casa – o cineasta, fotógrafo, dramaturgo e artista plástico Sergio Cardoso. O meu amigo Sergio Cardoso, a quem me dirijo agora.

 

A cadeira N° 2

Sergio, na cadeira para a qual foste eleito tens por patrono Euclides da Cunha, que tanto bem fez à literatura brasileira, especialmente com o seminal Os Sertões – um ensaio histórico-político-antropológico e antropofágico, com sabor de romance e cheiro de poesia. Mas Euclides também, involuntariamente, causou muito mal à literatura brasileira, pois seus êmulos perderam-se na tentativa de reproduzir seu estilo, realizando apenas pálidas caricaturas do modelo. Euclides escrevia como um rio amazônico – cheio de nascentes, braços, furos, paranás, meandros, vaus, peraus, lagos, igapós, estuários e afluentes.

Quem te antecede na cadeira n° 2, é Moacir Andrade, o Maninho, artista de reconhecimento internacional, que pintou a Amazônia com uma originalidade ímpar e com um estilo paralelo ao de Euclides na escrita, onde a poesia das cores narra lendas e mitos e fixa paisagens e costumes amazônicos. De algum modo, que eu não sei traduzir em palavras, Euclides da Cunha e Moacir Andrade são almas gêmeas – talvez, na inquietação; na invenção, talvez. Com certeza, na independência criativa de ambos. O teu desafio é manter acesa essa chama, o que para ti, decerto, não será obstáculo, pois tens, nas várias modalidades artísticas que abraçaste, essa centelha que ilumina mundos.   

 

A nossa geração

Atingida a linha demarcatória dos 60 anos, começo a olhar para trás e para os lados, buscando enxergar o que construímos nesse tempo que se constitui, há muito, na segunda metade de nossas vidas. Embora o conceito de geração seja controverso, variando de acordo com a matéria e ao sabor de interesses esquemáticos, quero falar aqui, Sergio, brevemente, da nossa geração – minha e tua. Mas antes digo o que entendo por geração: não é apenas um lapso de tempo, medido em anos; antes, é um tempo interior, medido por um calendário afetivo, em que pessoas de idade aproximada, ainda que pensando diferente, têm afinidades eletivas.

Os da nossa geração nascemos pouco antes da instalação da ditadura militar. Crescemos com ela e nos anos 70 fomos para as ruas. Em 1984, um congresso acanalhado e acovardado atropelou a História e adiou as “diretas já” por 5 anos. Crescemos sob a repressão, sim, mas fomos sempre libertários.

Quero homenagear aqui a nossa geração, pedindo desculpas antecipadas por eventuais omissões.

Na literatura: Antônio Paulo Graça, Cláudio Fonseca, Dori Carvalho, Marco Adolfs, Milton Hatoum, Pedro Lucas Lindoso, Rita Alencar e Silva, Simão Pessoa e Tenório Telles.

Nas artes plásticas: Arnaldo Garcez, Bernadete Andrade, Fernando Jr., Homero Amazonas, Jorge Palheta, Otoni Mesquita e Rui Machado. 

Na música: Afonso Toscano, Antônio Pereira, Armando de Paula, a dupla Candinho & Inês, Celdo Braga, Lucinha Cabral, Mauri Mrq, Roberto Dibo e Zeca Torres.

No teatro: Chico Cardoso, Francisco Carlos, Luiz Vitalli, Nonato Tavares, Socorro Langbeck e Théo Correa.

E não posso deixar de referir os confrades Aristóteles Alencar, que você, carinhosamente, diz que é seu “médico do coração”, Geraldo dos Anjos, pesquisador e historiador, e Mazé Mourão, jornalista e cronista.

Assim como tu, Sergio, todos esses nomes, de alguma forma, fazem parte do meu calendário amoroso de uma geração que deu muitos frutos. E ainda por muito tempo – os que aqui estamos – faremos da arte a nossa missão.

 

Verdes anos

Nascido Sergio Vieira Cardoso, em 10 de março de 1954, nesta cidade de Manaus, que mais tarde viria a ser o ponto referencial de tua obra – cinematográfica, fotográfica, plástica, dramática; ou, para usar o adjetivo que os gregos antigos lançavam mão para classificar tudo o que não era utilitário – tua obra poética. Porque tu pensas poeticamente – e é poesia o que resulta de teu trabalho, no cinema, na fotografia, na pintura, no teatro.

E num exercício de imaginação, vejo-te inicialmente caminhando, de mãos dadas com dona Ruth e seu Fernando, pelas calçadas da Ramos Ferreira, onde nasceste, há não mais que 100 metros da Academia Amazonense de Letras. Funcionários públicos, teus pais, assim como tua avó materna Dinah – pianista, fluente em francês e influência decisiva na tua formação –, lutavam contra as adversidades enfrentadas pelas famílias pobres de Manaus, as mesmas dificuldades que meus pais, certamente, encaravam naqueles anos pós-guerra e pré-Zona Franca. O menino Sergio lutava, desde muito cedo, a luta da gente grande. Mas não descuidava de ser menino, apenas, inventando e construindo brinquedos de madeira – aviões, barcos, trens e até um projetor de cinema, feito com espelhos e lentes de óculos – e encenando as principais cenas dos filmes assistidos, com cenografia própria, luzes e, sobretudo, imaginação. 

A amizade com o sociólogo e ex-presidente desta Casa André Araújo foi fundamental na tua formação. O velho e generoso amigo te emprestava coleções inteiras, com autores russos e franceses, especialmente, além do bom Monteiro Lobato – e poesia também, do jovem Thiago de Mello ao maduro Drummond, que já passara da fase de querer ser moderno para se pretender eterno. Em paralelo, como qualquer garoto da nossa geração, gibis, gibis e mais gibis. O Teatro Juvenil dos Capuchinhos foi outra semente que te plantaste. E não podemos esquecer das novelas de rádio, fonte da tua dramaturgia, junto com o cinema, a que assistias nos cineclubes da cidade, mas também no Guarany, Polytheama, Odeon e Avenida.

Mas nem tudo era entretenimento. A arte exige introspecção, recolhimento – e tu tinhas momentos que eram só teus. E a religiosidade, que é uma de tuas marcas, brota do silêncio, junto com tua arte, embora nunca tenha interferido nela. Mas, sem dúvida, é o teu suporte espiritual para seguir lutando – e criando.    

A par da formação artística, estudando na Divina Providência, no Princesa Isabel e no IEA, não negligenciaste de sólida formação profissional. Advogado, frequentaste a Velha Jaqueira, e te tornaste procurador efetivo da Procuradoria Geral do Estado. Administrador cultural, tens várias especializações na área, em programas de formação nacionais e internacionais, consolidadas pela experiência prática em vários cargos públicos, entre os quais o de Superintendente da Televisão Educativa do Amazonas, o de titular da Superintendência Cultural do Estado, diretor do Centro Cultural Cláudio Santoro, do Centro Cultural Palácio Rio Negro e do Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.

 

Madureza

A tua arte, Sergio Cardoso, é multifacetada. Uso essa expressão para fugir do surrado clichê do multi-instrumentista, mesmo porque não te vales de vários instrumentos, senão de dois conjuntos deles: teus olhos e tuas mãos. Os sentidos se amalgamam e se amoldam, deixando que os olhos toquem e as mãos vejam e a criação seja algo para além dos sentidos convencionados pela obviedade cotidiana.

Pintura, fotografia, cinema, teatro – a tua arte traduz-se no embate dialético entre imagem e movimento, que tem como síntese sinérgica uma obra de arte de alta expressão.

Tivemos oportunidade, no ano passado, de assistir ao belo documentário que fizeste no centenário de Djalma Batista: com simplicidade, a partir de depoimentos e de imagens de época, compões o retrato do cientista e redimensionas o ser humano, dando-lhe a sua estatura real: um gigante humanista. Djalma Batista é mais que mero nome de rua – é um mito e uma referência a ser imortalizada pela permanente relembrança; e o teu filme consolida isso, de uma vez por todas.

A tua obra cinematográfica – especialmente, os documentários – precisa circular, Sergio. E já se contam às dezenas, sempre envolvendo figuras de proa da vida amazonense, como Hahnemann Bacelar, Arnaldo Santos, Jerusa Mustafa, Flaviano Limongi, José Gaspar, o homem que ensinava a amar o cinema, o nosso coração de campeão Ricardo Pepeta – carrasco dos rionegrinos como eu –, entre tantos outros.

Como artista de múltiplas faces, tua maior característica é a inquietude, exatamente aquela inquietude que fundamenta as obras de teu patrono e de teu antecessor: a inquietação da busca, da procura constante e, sobretudo, do questionamento permanente. Não satisfeito com a pintura, enveredaste pela fotoplastia, um conceito ainda não encontrável nos manuais de arte acadêmica. Teus experimentos já foram mostrados em várias exposições, mas a mim tocou-me, especialmente, Harborligths, que trazia uma série de fotografias, com interferências plásticas e textuais, do lado podre do porto de Manaus, o trecho da Manaus Moderna tomado por mendigos, bêbados e drogados de todos os naipes e matizes. Um delírio magrittiano, que eu vi assim:

 

cidade

podre paisagem truculenta transcendente pobreza instalada onde um dia a miséria da cidade flutuante foi transposta aos limites suburbanos da cidade mutante onde um dia a mata foi violada e seu vestido verde incinerado e os meninos curupiras transgrediram a dimensão do sonho e cavalgando alados cavalos da memória foram habitar o palácio esculpido  no rochedo onde um dia um magritte flutuou balões de gente as luas no museu de tudo figurado em melancia a cona escancarada em riso de deboche ó noite ó grafites a fenda no muro o rio aberto em mar os barcos ancorados no horizonte as coxas da cidade ávidas expostas ao membro dissoluto fotografias da cidade desfeita em urina e fezes não não haverá dia não haverá o delírio das cores aquecidas pelo degelo dos andes pelo desejo das ondas onde dantes havia apenas a água transparente do rio negro onde um dia profetas alienados esculpiram versículos definitivos e definidores destinados a eternizar a guerra sob a falsa paz que transcende a cidade anabolizada a pobreza da paisagem podre da cidade[1]

 

A fotografia e o cinema fizeram o século XX acreditar, durante muito tempo, que a pintura e a escultura e todos os seus derivados haviam se esgotado – a arte morreu! Mas a arte não morre, ela se retempera, se renova e se reinventa. Como em Oh City – Stages, uma de tuas mais recentes exposições, onde fotografia, cinema e pintura conviveram pacificamente, desnudando a violência da cidade:

 

Oh City – Stages foi uma exposição em movimento, cinética, ou como escreveria Glauber Rocha, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade, reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.

Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco era o foco. Em Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros.

Duas câmeras fixas registraram a sandice do trânsito de automóveis na Barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registrava o vai e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda, lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do eterno retorno: não precisamos de luz.[2]

 

Ao marasmo da arte decorativa, o artista inquieto se doa por inteiro e transfunde seu sangue para injetar vida em sua arte porque “uma obra de arte é uma coisa viva; qualquer obra de arte será viva ou não será arte.”[3] Esta frase do poeta Ferreira Gullar justifica porque não me limitei a fazer aqui um inventário de tuas exposições. São tantas dezenas delas, seria cansativo. Além dos prêmios, que merecidamente recebeste. Prefiro instigar a plateia a olhar com olhos de pensar, e dizer que, na próxima oportunidade, não se furte a descobrir a vida que pulsa na arte em movimento de Sergio Cardoso.

Movimento que se observa sobretudo no teatro, para o qual tens tem sido, ao lado do confrade Márcio Souza, o mais fértil autor amazonense, chegando mesmo a criar um universo próprio – uma cidade, Lazone, à margem do rio das Sombras, com um teatro imponente, galerias subterrâneas, uma cidade flutuante e personagens que transitam de uma peça a outra, num grande painel suprarreal. São mais de 20 peças, algumas ainda inéditas e pelo menos dois prêmios de melhor dramaturgia no Festival de Teatro da Amazônia, por “A herança maldita de Mercedita de La Cruz” e por “Carmem de Lazone”.

Devo ressaltar a tua condição de escritor, essencial para seres aceito na Academia Amazonense de Letras: escritor de ficção, desfeita qualquer dúvida quanto à homologia entre o texto dramático e a literatura de ficção.

É desnecessário destacar que Lazone é Manaus – virada pelo avesso. Virtuosa e dissimulada. Casta e depravada. Mítica e desmistificada. Uma cidade em contínua desconstrução, em permanente metamorfose, em perene movimento.

Lazone está para tua obra como o condado de Yoknapatawpha está para a obra do romancista norte-americano William Faulkner. Isto está gravado em fogo nas dez peças e mais de trezentas páginas d’O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, onde tu trabalhas

 

sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam, em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações criadas, de um humor amargo, aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo alemão.

As mulheres de Lazone reinventam a história da cidade de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas radioativas, mendigos, loucos, socialites, prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas – muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças, dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.

Amanda Catalatas, Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy, Ambrozhia, Salomeh, Sabine, Crhisályda e Mercedita são mais que meras criações da mente inquieta de Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram, com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.[4]

 

Imagem e movimento – opostos harmonizados na imagem em movimento do cinema ou do teatro – ou no movimento cristalizado em imagem do quadro ou da fotografia – são conceitos realizados plenamente na tua arte, plural e polimórfica, singular e convergente, inflexível e resistente – arte que valoriza, eleva e dignifica o fazer artístico no Amazonas.

 


Concluindo

Meu caro Sergio, eu meu nome e em nome de todos os acadêmicos – dos presentes aqui nesta noite memorável, e dos que, por algum motivo, não puderam aqui estar –, dou-te as boas-vindas e te conclamo ao trabalho. Porque a glória maior de ser membro da Academia Amazonense de Letras não é ter uma foto na galeria e o nome gravado na parede da Sala da Memória. Ser membro da Academia Amazonense de Letras é deixar que ela faça parte de ti, pelo teu trabalho. Conhecendo o teu talento e tua capacidade, confiamos todos que será fácil e prazeroso desincumbir-te de tal tarefa.

Reitero, Sergio, em nome de nossos pares, os votos de boas-vindas: a cadeira de número 2 é tua; esta Casa passa a ser também a tua casa.

E são teus os aplausos de todos os que aqui se encontram.

 

 

***



[1] Zemaria Pinto. Texto incluído no folder da exposição Harborlights, que ficou de 27 de março a 23 de abril de 2014, no Espaço Thiago de Mello, da Livraria Saraiva, em Manaus.

[2] Zemaria Pinto. Adaptado de O caos em construção – um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages. In: Revista Valer Cultural. Ano 1, nº 8, dez/jan 2014. Páginas 72-75.

[3] GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. 8ª ed., 1ª reimpressão. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 132.

[4] Zemaria Pinto. Adaptado da apresentação de O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus: Valer, 2013. Páginas 19-20.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

Artistas Plásticos do Amazonas, por Sérgio Cardoso 1/9


Moacir Andrade.
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Observação: o objetivo desta postagem é divulgar a arte amazonense e o trabalho do cineasta Sérgio Cardoso, ele também notável artista plástico.
Num total de nove filmes, que serão postados por nove sextas-feiras, adianto que ficarão lacunas que deverão ser futuramente preenchidas.  
 


domingo, 1 de dezembro de 2024

Manaus, amor e memória DCXCIX

José Maciel, Moacir Andrade, L. Ruas e (na extrema direita) Elson Farias
ladeiam jovens componentes do Clube da Madrugada.



 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Lira da Madrugada – Moacir Andrade 2/15

  

Zemaria Pinto

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Moacir Andrade

Nome completo: Moacir Couto de Andrade

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 17 de março de 1927

Falecimento: 17 de julho de 2016

 

Obra poética:

·       Portais (2006)


ESPERA                    

               Moacir Andrade (1927-2016)


Como rosas de ouro debruçadas

sob esta noite – musgos ressequidos

mora minh’alma que sonha contigo

fundida em sóis e tardes cismarentos.

 

Chegaste agora musa do meu canto

gregoriano canto de alvoradas

oh cofres de oferendas encantadas

pousando nos meus olhos como brumas.

 

És meu vaticínio predizendo

que o meu por ti será atado

como plectro aos sons gerando estrelas

num bailado de cores encantadas

lívido estou, agora, neste instante,

navegando meu sonho como astros

montado neste azul do meu tormento

galopando meus versos do infinito.

 

Tu és amor, a chama que me aquece

sons de flauta, de liras irreais

ninando este abandono olor da morte

que me esmaga de dor, de angústia e pranto.

   

Notável artista plástico, Moacir Andrade jamais deixou de escrever poemas, uma atividade paralela, embora bissexta, usando a nomenclatura de Manuel Bandeira para os poetas eventuais. Talvez por ser produzida esparsamente, a poesia de Moacir Andrade não guarda um “programa”, uma unidade: são registros momentâneos, “dores de cotovelo”, homenagens a amigos, reflexos de momentos particulares. Em conversa pessoal, o próprio pintor confidenciou-me que sua arte está toda em seus quadros, sendo a poesia uma espécie de passatempo, um hobby ocasional. Entretanto, como não poderia deixar de ser, há um forte colorido nas imagens que o poeta cria, como se as quisesse levar para um quadro, embora não prevaleçam sobre o abstrato que domina a sua poesia, feita mais de sentimentos e menos de matéria concreta.

O poema “Espera” faz parte de uma coletânea reunindo vários autores, o que dificulta sua análise comparativa com poemas de um determinado grupo, dentro da obra do autor. De qualquer forma vamos observar o poema em si mesmo, seus aspectos técnicos e sua inserção histórica no grupo que fez poesia dentro do Clube da Madrugada.

O poema divide-se em quatro estrofes, mas talvez a intenção inicial do autor tenha sido dividi-lo em cinco, ocorrendo na terceira um erro de impressão, o que não altera em nada a essência do texto. Os versos, na sua maioria, são decassílabos, com dois eneassílabos (o nono e o décimo primeiro) e um octossílabo (o décimo), o que parece ser outra falha, especialmente em relação a este último, onde há um truncamento da ideia que se quer passar. Porque estou a contar sílabas se o poeta pode optar pelo verso livre dessas amarras tolas? É que o poema, pela forma como se estrutura, física e mentalmente, pede simetria de estrofação e de métrica, do contrário não consegue atingir o ideal romântico que está em seu cerne. É um caso de forma imbricada ao conteúdo, necessariamente. Vejamos a primeira estrofe.

Os símbolos positivos transformam-se em negativos, num movimento brusco, depressivo: “rosas de ouro” se transformam em “musgos ressequidos”; “noite”, em “sóis e tardes cismarentos”; estes abrigam a alma do eu lírico que sonha com a amada impossível. Na segunda estrofe, a chegada da “musa” é saudada com um “gregoriano canto de alvoradas / oh cofres de oferendas encantadas”. Curioso é que esse canto coral é o canto do poeta, individual, e que este pouse em seus “olhos como brumas”, outro símbolo negativo, pois embaça a visão. Em outras palavras, a chegada da musa transtorna o eu lírico, impedindo-o de ver a realidade.

A terceira e alongada estrofe começa com uma tautologia: “és meu vaticínio predizendo”. O verso seguinte, embora pareça truncado, tem uma leitura simples: “que o meu destino ao teu será atado”. Os versos consequentes “como plectro aos sons gerando estrelas / num bailado de cores encantadas” são ilustrativos, sem relação direta com o discurso poético, mas buscando um efeito plástico, a partir das imagens que produz. A sequência enfatiza a ideia de solidão atormentada, estabelecendo uma relação inusitada entre “navegando” e a combinação montado/galopando.

A última estrofe fecha a ideia clássica do poeta romântico que só encontra a paz na morte – o mal do século. Século 19. A “chama que me aquece” não é a presença física, mas apenas a idealizada, que o faz ouvir “sons de flauta, de liras irreais”, e trazem também o “olor da morte”. Neste ponto, o que parecia dúbio se esclarece: a amada só existe em sonhos e na imaginação do poeta: está morta. Analisemos o último verso do poema, um heroico perfeito: “que me esmaga de dor, de angústia e pranto”. É a presença espectral da amada que o esmaga, que o atormenta. A “espera” a que o título de refere não é pela chegada da mulher amada, mas sim pela viagem final do poeta ao encontro dela.

Essa vertente ultrarromântica – no Brasil, a chamada “segunda geração romântica”, de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela – tem certas características que hoje podem soar estranhas, como essa fidelidade extrema diante da morte. Mesmo antes do Romantismo, e até depois dele, era comum essa idealização da vida, optando o poeta por viver como uma personagem de si mesmo. Daí morrerem cedo, acometidos da imensa tristeza de viver. Além da tuberculose, claro, que, aos olhos de hoje, era mera consequência dessa prostração. Os poetas que chegavam à maturidade, entretanto, eram aqueles que separavam vida e poesia – e levavam suas vidinhas medianas longe das musas, chegando-se a elas somente quando convocados – pelo estro, que pressiona e impulsiona, ou pela necessidade financeira, o que é, por si, justificável. 

A poesia de Moacir Andrade, a tomar como parâmetro o texto “Espera”, distancia-se da excelência dos poetas não pintores do Clube da Madrugada. Volto novamente às lições de Manuel Bandeira, ao escrever na sua autobiografia intelectual, Itinerário de Pasárgada, que – parceiro de Jaime Ovalle e Villa-Lobos, entre outros – ao colocar letra em uma melodia, ele só pensava no efeito musical, jamais na poesia. Moacir Andrade, como um bom vate, acertou em cheio ao elaborar a letra que iria harmonizar com a boa música que Mauri Mrq faria para ela.  


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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sérgio Cardoso é eleito para Academia Amazonense de Letras



O dramaturgo, pintor e cineasta Sérgio Cardoso foi eleito, no último sábado, para a cadeira n° 2, de Euclides da Cunha, anteriormente ocupada pelo pintor, poeta e folclorista Moacir Andrade.


A AAL ainda tem uma cadeira vaga, a de n° 40, de Paulino de Brito, ocupada até recentemente pelo contista e cronista Francisco Vasconcelos. O edital de inscrição para essa vaga ainda não foi lançado.  


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

AAL abre inscrições para Cadeira N° 2





A Academia Amazonense de Letras abriu inscrições para a Cadeira N° 2, de Euclides da Cunha, vaga com o falecimento do pintor e escritor Moacir Andrade. O edital foi publicado no Diário Oficial do Estado no dia 30 de janeiro, com prazo de 30 dias, contados a partir da publicação. Esse prazo termina em pleno Carnaval, motivo pelo qual os interessados devem ter como limite, por dúvida das vias, o dia 24 de fevereiro. A AAL localiza-se na Rua Ramos Ferreira, 1009, Centro, e a secretaria atende de segunda a sexta-feira, de 10 às 17h. Fone para contato: (92) 3342-5381; e-mail: academiadeletras.am@gmail.com

domingo, 31 de julho de 2016

Manaus, amor e memória CCLXXV


Moacir Andrade (1927-2016) discursa no Caldeira.
Entre os presentes, Frank Lima (camisa amarela e óculos escuros), Aluísio Sampaio (todo pink),
Luiz Cabral (de paletó), Manoel Borges (atrás de Cabral, com a mão no queixo).

Colaboração: Mauri Mrq (foto) e Robério Braga (identificação).

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Moacir Andrade (17.03.1927 – 27.07.2016)


No melhor da forma: um naïf expressionista e anárquico, com total domínio do movimento e das cores.
O Curupira.

Aos 80 anos, ainda em plena atividade.

Para saber mais do artista plástico e poeta Moacir Andrade, veja:
. Moacir Andrade no Palavra do Fingidor
. Moacir Andrade nO Fingidor 


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Manifesto Madrugada


Publica-se este texto, dado como perdido na sua completude, às vésperas dos 59 anos de fundação do Clube da Madrugada, ocorrida a 22 de novembro de 1954, pela sua importância histórica e pela sua contribuição a futuros estudos.
Transcrito, com a necessária adequação gráfica, da Revista Madrugada, número único, que circulou em Novembro de 1955, recuperada do acervo do professor Mário Ypiranga Monteiro pelo pesquisador Roberto Mendonça.
 

 

No momento em que o Brasil sofre uma crise total em todas as suas forças intelectivas, morais, educacionais, econômicas e sociais, a mocidade consciente do Amazonas, agrupada sob a égide do Clube da Madrugada, une-se para defender esta herança social inesgotável que herdamos de nossos antepassados, em cujas causas concernentes à debacle, atuam grupos de caráter negativo anacrônicos, divorciados da realidade brasileira e defensores de posições cômodas e de princípios apátridas.

Nesta senda, quanto mais penetramos, apresentam-se fatores desintegradores que clamam por uma tomada de posição definida por parte da mocidade, em torno dos problemas que se nos antolham prementes, menosprezados por esta geração que passa, e que em dias muito breves virão acarretar as consequências imponderáveis para o alicerçamento de nossa cultura na sua formação geral.

Se analisarmos, mais profundamente, a contextura total de nossa sociedade, iremos encontrar nos elementos que formam a nossa elite intelectual dirigente, uma apatia criminosa, no que diz respeito à formação e renovação de valores, que serão responsáveis vindouros de nossos destinos, e, subsequentemente, continuadores de nossa posição continental. Semelhante atitude gera, nos moços, uma repulsa que nos impulsiona a restaurar esta contextura social, e apresentar novo programa de ação, com a finalidade primordial orientada no sentido de elevação dos padrões intelectuais, morais, econômicos e sociais.

Face a esta situação, o Clube da Madrugada define-se perante as várias categorias que  pensamento humano expressa:

Literatura: Não há literatura no Amazonas. Primeiro, fatores culturais e morais determinaram nos homens ditos de letras, uma posição acomodatícia, geradora de um individualismo exacerbado, cuja consequência derivou o afastamento de valores positivos que pudessem fazer perigar o seu totemismo aceito como absoluto. Segundo, fatores de ordem econômica contribuíram para que elementos de valor intelectual procurassem novos meios, onde espíritos esclarecidos lhes ofereciam melhores oportunidades, em virtude de seu talento. Como prova do que asseveramos, vimos estes elementos afirmarem-se nos meios centralizadores do pensamento, onde a luta pela expressão das ideias não era sustentada por oligarquias intelectuais, fenômeno este instituído no Amazonas, há longa data. Fácil será observar o que acontece na esfera convencionada chamar-se acadêmica[1], onde campeia a servidão a estilos e ideias antiquadas, importadas diretamente da Europa, no século passado. Desconhecem francamente, por meio de um indiferentismo olímpico, a existência de uma literatura puramente nacional. Tal ignorância redunda, consequentemente, numa arrogante indiferença diante dos próprios valores da terra. Porque estes procuram renovar ideias e conquistar formas novas de expressão e não encontram apoio numa crítica evoluída. Disto resultou o êxodo anual de moços em direção ao Sul do país.

Por isso o Clube da Madrugada inspira-se nos elementos formadores de nosso ambiente, para a efetivação de uma literatura condizente com os princípios de liberdade imanentes ao artista, na sua expressão literária, conjugados com os itens acima referidos, os quais estratificam uma literatura sadia. Desde já, o Clube da Madrugada exproba o patrocínio de dogmas do Estado e de elementos que queiram fazer instrumento seu, a obra que pretendemos edificar.

Escultura, Pintura e Arquitetura: Infelizmente, stricto sensu, não há os três ramos de Arte marginados, no Amazonas, digna de menção. Os resquícios que por ventura existem não formam uma unidade, no ambiente intelectual. Não apresentando material necessário a uma análise, nos abstemos de aprofundar, neste particular, uma crítica dentro dos ditames da arte.

Sociologia: Apesar de o Amazonas ser uma unidade da Federação, que apresenta elementos vastíssimos para a pesquisa sociológica, apenas temos alguns estudiosos que se detêm nos problemas superficiais que afetam nossa região. Lastimável sob todos os aspectos, principalmente, para a valorização do amazônida, quando a presente conjuntura se preocupa na revalidação dos padrões que regem a Ciência Social, que tem por objeto a integração do homem no meio cultural. A ciência do homem, que hoje revela os múltiplos ângulos pelos quais o indivíduo é envolvido na sua mesologia, é ainda, no Amazonas, olhada com a desconfiança dedicada à magia negra, na Idade Média. Vive-se, deste modo, preso a um imediatismo criminoso responsável pela incúria em que, atualmente, se encontra o homem da gleba. Tanto assim que as pesquisas mais sérias realizadas na região são aquelas feitas por entidades alienígenas, sem qualquer laço com o nosso pensamento. Deste fato resulta, muita vez, a deturpação completa dos denominadores encontrados nesses trabalhos. Por isso, acreditamos ser necessária a formação de uma elite iniciada nos assuntos da ciência do homem, em decorrência das necessidades amazônicas, a fim de que seja revelada a verdade social acerca de nossas populações, por pesquisadores insuspeitos, irmanados por liames culturais ao homem do Vale.

Nesse sentido, o Clube da Madrugada está forjando a colimação desse objetivo, por intermédio de seus membros, dentro de uma nova dinâmica sociológica, consubstanciada nos processos analíticos e sintéticos de nossa realidade mesológica, em sua fonte. Erradicando, destarte, os trabalhos de gabinete que têm surgido sobre os nossos problemas, os quais falseiam, despudoradamente, a verdade cientifica e moral. Urge, portanto, o trabalho planejado e científico, olhando para o futuro, deixando de lado este pragmatismo pernicioso, para nós, dos homens que se dizem práticos.

Economia: No Amazonas, os estudiosos desta matéria são muito poucos e têm se colocado à parte, não tomando posição ante a renovação por meios culturais adequados que venham beneficiar nossa região. Estudos econômicos que se têm feito no Amazonas não procuram observar a realidade, apegando-se estes a sistema geral, não penetrando na análise econômica. Essa deficiência de estudiosos do ramo da Ciência Econômica tem provocado, por parte dos administradores, atitude que, em vez de incentivar a produção, tem aniquilado novos empreendimentos econômicos em detrimento de uma nova fase de desenvolvimento para o Vale.

O Clube da Madrugada estudará e pesquisará, por intermédio de seus membros, os problemas que mais afligem a nossa região, e que são resolvidos, comumente, por “jornalistas”, sem conhecimento de causa, levando o povo a uma falsa orientação. Dependerá, sobremaneira, de estudos esclarecedores da matéria, uma nova atitude governamental, em relação a assuntos econômicos ligados diretamente ao desenvolvimento da Amazônia. Para este fim, por certo, contribuirá uma elite realista, conhecedora dos verdadeiros problemas da terra.

Filosofia: Pouco existe no ramo, mesmo porque os homens de letras do Amazonas apegam-se, como impertinência, aos estudos acadêmicos da filologia, em cujo labirinto perdem-se, em prolongadas polêmicas, sem resultado algum. E quando encontramos indivíduo interessado nos estudos filosóficos, é apenas superficialmente, sem nenhuma profundidade, conhecendo, de soslaio, a história da filosofia. Existem poucos filósofos no Brasil, e no Amazonas nenhum. Contra esse descaso levanta-se o Clube da Madrugada, procurando sistematizar um estudo dos princípios e fins do homem no Cosmo. Estudo este direcionado nos métodos universitários de amplo debate, quando entram em especulação sistemas filosóficos dos mais antigos aos modernos: sejam dos aleatas, jônicos, epicuristas, sofistas, espiritualistas, materialistas, aos marxistas, existencialistas e os neossistemas que têm aparecido. Demócrito, Epicuro, Sócrates, Platão, Plotino, Confúcio, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, Bergson, Kierkegaard e tantos desfilarão nos seminários que pretende realizar este movimento de renovação.

Esposando os princípios encimados e refutando o conservantismo rancoroso, o Clube da Madrugada tem por escopo plasmar uma nova consciência pertinente à realidade brasileira. Desta assertiva queremos dirimir quaisquer resquícios niilistas ou iconoclastas, mas, simplesmente, fazer ver aos nossos compatriotas que vivemos uma época de decrepitude senil. Deste modo, somos contra a concepção de um statu quo estático. Nascendo desta premissa, a nossa concepção dinâmica do processo histórico, determinando novas representações no pensamento humano, que se coadune com a evolução de nossas necessidades sociais. Lutamos, portanto, nesta segunda fase de nossa existência pela emancipação mental de nossa ideologia. Para o Brasil: artes, ciências sociais, sistema político e econômico eminentemente nacional, surgido da premência de nossa idiossincrasia. Esta nossa atitude, achamos conscientemente, não nos classifica como xenófobos. Pelo contrário, lutamos contra a xenomania de todos aqueles que advogam soluções literárias, políticas, econômicas e sociais com a já celebre sentença: MADE IN...

Esperamos, desde já, as compreensões dos homens de mentalidade abstrusa, que tiveram capacidade intelectual para acompanhar a nossa evolução social. Porém, a esses, haveremos de arrostar os empecilhos levantados, com o idealismo moço que nos anima a encetar esta cruzada, com o objetivo sacrossanto dos jovens livres, qual seja a libertação do Brasil dessa visão daltônica dos dirigentes, em todos os setores, responsável por uma consciência amorfa, numa geração que se forma. 

a)            Saul Benchimol, Francisco F. Batista, Luiz Bacellar, Jorge Tufic, Carlos Farias de Carvalho, Moacir Couto de Andrade, Alfredo Campos, Teodoro Botinelly Assumpção, Afrânio Mavignier de Castro, Fernando Collyer, Humberto Paiva, Miguel Barrela, João Bosco de Araújo, Djalma Passos.

 




[1] Uma referência direta à Academia Amazonense de Letras, não, como se poderia pensar, à Universidade, que, à época, não existia.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

domingo, 18 de março de 2012

Manaus, amor e memória L

Manhã de sol tropical, possível reunião do Clube da Madrugada.
Da esquerda para a direita: o compositor Arnaldo Rebelo, os escritores Jorge Tufic, Thiago de Mello, Francisco Vasconcelos e Elson Farias, e o artista plástico Moacir Andrade.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Moacir Andrade: 50 anos de lenda

Jorge Tufic


Há cinquenta anos, precisamente, do primeiro risco a lápis diante da casa de Dona Cachica aos motivos lendários da paisagem fluvial (agora aplicando, em suas telas, a magia de cores e visgos da própria região amazônica), que Moacir Andrade faz de sua arte admirável uma ponte que liga a taba de Ajuricaba  ao resto do planeta.

Ainda recentemente, numa espécie de coroamento glorioso desta sua trajetória pelo mundo das artes plásticas, ele regressa da Europa trazendo consigo pouco menos de meia tonelada de honrarias na forma comum de troféus e medalhas valiosas, e na forma incomum, singular até, de pratos e brindes trabalhados a ouro, exclusivamente para serem ofertados ao ilustre representante do Amazonas junto às embaixadas e casas de cultura de Portugal.

Entretanto, além de pintor, escultor e desenhista, Moacir Andrade é, também, escritor, estudioso do folclore, poeta bissexto e antropólogo. Álbuns de memórias são outras de suas ocupações favoritas no resgate de sua Manaus antiga, uma espécie de fidelidade ao pitoresco como fonte de inspiração lírica do eu-poético, relacionado com a totalidade do ambiente amazônico (homens, animais e plantas; a natureza, enfim).

Na rolagem dos signos que marcaram nosso tempo de juventude, incontáveis audácias do artista poderiam ser recordadas. Uma delas, contudo, marcou-nos para o resto da vida: ambos, um dia, pilotando uma canoa, resolvemos desembarcar na superfície de uma bóia da companhia das docas, no meião do Rio Negro; e ali, enfrentando o perigo das ondas, Moacir instalou seu cavalete para colher a cidade da barra sob um ângulo ainda hoje impossível.

Concluída, então, a proeza, e já novamente a postos nos bancos da montaria, restava-nos agora comemorar, aos risos e gargalhadas, o que, de imediato, só se podia atribuir à visão de um boto que de repente parasse de sua caminhada para olhar a cidade de Manaus. Nunca mais tornei a ver esse quadro. Mas ele, para mim, se desdobra e fascina como lembrança do arrojo sem nome, quando todo perigo desaparece tomado pela coragem de surpreender o novo, onde quer que ele esteja.

Ensinou-me, também, a oportunidade deste lance, a descobrir melhor em sua arte regionalista, a linguagem do expressionismo que muitas vezes torna menos cansativa a temática dos rios e matas, ficando mais próxima do imaginário popular. Essa fase de sua pintura estabiliza, por assim dizer, a inquietação do artista no ponto exato em que se faz necessária a identificação da paisagem, seu conteúdo mítico e sua força cósmica.

À exemplo da Canoa Transformadora, do Arco-Íris e da Boiúna, vai, deste modo, o pintor e o antropólogo em viagem pelo universo aquático da infância em busca de terra mais favorável para o encontro do sonho que se fez Amazônia, e a plena consciência artística e ecológica dos seres que ainda mereçam habitá-la.

Após tantos estragos, afinal, somente a arte de alguém como esse Mestre do Bairro de Aparecida, em Manaus, poderá despertar interesse para a visualização de um trágico impasse no qual a natureza deixa de motivar, apenas, a cobiça internacional pelo que guarda (ou guardava) de precioso para o homem. Esta, para mim, deve ter sido a missão de quem atinge, agora, meio século de profunda e meditada dedicação aos múltiplos assuntos de um fenômeno geográfico que, depois de levantar-se em forma de Cordilheira, dera nascimento ao continente brasílico, sendo, portanto, o primeiro e último estalo do período terciário da Terra.

Nem precisa repetir que se trata, aqui, da inventada Amazônia, por cujos meandros, festejos e desdobramentos naturais, a paleta mágica de Moacir Andrade sente-se gotejada pelas estrelas daquela noite, já distante, em que os pajés puderam encontrar a única explicação para sua origem cosmogônica. Traços marcantes de seu pincel podem estar inclusive, na história das nações que habitavam o Alto Rio Negro, ao tempo do guerreiro Buopé. Ou seja, na presença de um luzeiro celeste cuja finalidade é zelar pela terra, protegendo-a dos maus, sobretudo pelo exemplo de que tudo, nela, é prodígio e beleza.

A crônica acima, inédita, é de 22 de setembro de 1991. Mas o “Traço e o Verso”, livro de nossa autoria editado pela SEMEC, em 1985, traz poemetos de nossa autoria como “ilustrações” dos primeiros desenhos de Moacir Andrade, entre os anos de 1936 e 1941, a exemplo dos abaixo transcritos:

A mangueira de dona Cachica 
madruga de frutos caídos no chão.
A cerca é de palitinhos de fósforo,
o teto da casa é de palha
e a nuvem que vem de oeste
assume um cavalo de chuva
trazendo São Jorge
numa rosa de fogo. 
Outro:
Paredes de estuque
telhas de cavaco,
esta casa lembra um ninho
desconfiado de ser pássaro.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Manaus, amor e memória XXIII

Moacir Andrade, diante de uma de suas obras, em foto de 1970.
Colaboração: Roberto Mendonça.

domingo, 1 de maio de 2011

Manaus, amor e memória XX

Manhã de autógrafos na praça da Matriz. Anos 1970.
No sentido horário: Arthur Engrácio (de costas), Jorge Tufic, Jorge Pinheiro Pucu, Carlos Gomes, Ernesto Penafort, Alencar e Silva e Moacir Andrade.
.
Uma homenagem aos abnegados trabalhadores das letras do Amazonas, desde sempre trabalhando nas mais precárias condições.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Academia Amazonense de Letras – uma proposta de paz

Zemaria Pinto


A renúncia do escritor Thiago de Mello à Academia Amazonense de Letras foi motivada pela ignorância da própria diretoria da entidade a respeito do Estatuto e, especialmente, do que é necessário para alterá-lo. Escrevo na condição de secretário da comissão que, em 2004, redigiu o Estatuto em vigor, sob a presidência do eminente professor Áderson Dutra, homologado em Assembleia Geral Extraordinária, no dia 24 de novembro daquele ano, quando era presidente da AAL o escritor Elson Farias.

Ocorre que o Artigo 37 do referido instrumento diz que “O presente Estatuto poderá ser alterado mediante proposta subscrita, no mínimo, por 10 (dez) membros efetivos”. Somente após a apresentação da proposta é que a diretoria nomeará uma comissão de 3 membros, da qual nenhum dos signatários poderá fazer parte, para analisar a legalidade (e a moralidade, eu acrescentaria) da proposta – parágrafo 1º. Se considerada pertinente, a proposta será levada à Assembleia Geral. A aprovação só se dará com a concordância de 2/3 dos presentes – parágrafo 2º. Não há outra forma de promover qualquer alteração, decorridos 5 anos da aprovação do Estatuto, conforme o parágrafo 3º do mesmo artigo.

Ora, se a proposta partiu do artista plástico Moacir Andrade – como dizem o desembargador José Braga e o oftalmologista Claudio Chaves – não deveria nem ser considerada. Moacir Andrade teria que conseguir mais nove assinaturas, numa proposta por escrito, para dar validade ao suposto pedido de alteração.

Vou repetir o que já escrevi aqui, embora ninguém tenha me perguntado nada e eu fizesse melhor ficando calado: Moacir Andrade, 84 anos, graves problemas de saúde, foi manipulado pelos verdadeiros interessados em perpetuar o poder em uma entidade que, entre outras finalidades menos nobres, existe apenas para massagear o ego de falsos escritores, falsos intelectuais.

A verdadeira finalidade da Academia a vivenciamos entre os anos de 2004 e 2007, quando, sob a presidência de Elson Farias, dezenas de estudantes e não estudantes a frequentavam semanalmente, acompanhando as palestras e participando ativamente dos debates que se lhes seguiam. Ainda hoje me perguntam quando voltarão aquelas palestras. Talvez, nunca, respondo – se prevalecer a tese defendida pela atual diretoria de reeleição sem limites. Melhor seria decretar logo a vitaliciedade do cargo, como nos “bons tempos” de Péricles Moraes...

Proposta de paz

Pelo que expus acima, o processo está totalmente irregular.

Apelo, então, à magistralidade do professor José Braga: reconheça a ilegalidade do processo. Desmanche a tal comissão, apressadamente nomeada. E conclua seu mandato com dignidade.

Ah, guarde a cartinha do poeta Thiago, como um documento histórico – um exemplo para as futuras gerações, de desprendimento e desinteresse pessoal. O poeta, do alto de seus 85 anos, tem direito a momentos de ira sagrada. Até porque, presidente, o Estatuto não prevê a figura da renúncia. Se Vossa Excelência levá-la adiante, vai expor mais ainda a nossa combalida Academia. Ao ridículo. Poupe-nos.

Ilustração: Myrria - jornal A Crítica.