Amigos do Fingidor

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Uma homenagem à cheia de todo rio



Francisca de Lourdes Louro


Gosto muito de ver a imensidão das águas, me reflito nessa “maioridade” quando, nesta época, os rios avolumam-se em grande extensão. No entanto, as plantações não escapam da força destruidora das enchentes. Mas é nesse dilúvio anual que nos fortalecemos.
As águas trepam nas viçosas plantações, depenam a terra toda que braços fortes tinham roçado para a obra da produção do alimento. E alguns interioranos veem o lar, que imaginavam estar fundado longe da bela intrusa, ser alagado, ou ser desfeito, e a grande toalha impura dobra-se em desmandos divinos. Meu Pai fugiu dessa sina. Trouxe na bagagem a vontade de uma vida melhor para as muitas filhas, que hoje reconhecem nessa fuga a bendição da vida. É, sou interiorana com muita honra. Primeiro, aprendi a remar uma canoa, agora dirijo outras montarias para realizar os sonhos de “Mundinho”, meu pai.
A beldade chega de mansinho, começa em janeiro e vai se desdobrando até junho, vai se mostrando para o futuro, pouco a pouco intumesce o ventre, é como a mulher gestando os filhos, e depois de jorrar-se, recolhe-se para no outro ano voltar, e isso é infinito, graças a Deus, sempre será. A natureza cíclica gera em nós, amazônidas, esse reverso de sim e não, essa é a sabedoria de saber esperar, chegar e ir embora.
 No entanto, desculpem-me a heresia, mostramos um projeto para ser aprovado pelo Senhor de toda Engenharia Universal, que já foi apresentado pedindo para que ELE permita que sejamos mais complacentes, e tolerantes com a natureza de todas as águas. Que as mãos não joguem para o chão a maledicente sujeira perversa que nos alcunha de preguiçosos, que as mãos preservem, plantem o amor pela natureza, que as mãos abençoem a terra e as águas, onde habitamos, pois só nós somos capazes de destruir a nossa própria casa.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

A poesia é necessária?



Maracatu
Ascenso Ferreira (1895-1965)


Zabumbas de bombos,
estouros de bombas,
batuques de ingonos,
cantigas de banzo,
rangir de ganzás…

– Loanda, Loanda, onde estás?
– Loanda, Loanda, onde estás?

As luas crescentes
de espelhos luzentes,
colares e pentes,
queijares e dentes
De maracajás…

– Loanda, Loanda, onde estás?
– Loanda, Loanda, onde estás?

A balsa do rio
cai no corrupio
faz passo macio,
mas toma desvio
que nunca sonhou…

– Loanda, Loanda, onde estou?
– Loanda, Loanda, onde estou?

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Jekein Lato-Unah.


terça-feira, 28 de maio de 2019

Um dedal por cinco cruzeiros



Pedro Lucas Lindoso


Na gramática do Português aprendemos que há substantivos comuns e próprios. Assim, usamos maiúsculas com os próprios. Há línguas que não há sequer letras e sim ideogramas.
No Inglês a gramática define substantivos “contáveis” e “incontáveis”. É que se usa “how many?”, que significa quantos para contáveis, e “how much” que significa quanto para incontáveis. Os contáveis são unitários e não temos problemas para quantificar. Já os “incontáveis” temos que ter parâmetros. Como quilos ou pacotes para quantificar arroz e feijão. Assim como litros ou frascos para vinhos e perfumes.
Os líquidos são sempre incontáveis. Muitos podem ser caros e preciosos como vinhos e perfumes.
Vamos falar de perfumes. Compra-se perfume em frascos cujo tamanho varia geralmente entre 50 a 300 ml. Mas há colônias de 500 ml e até um litro.
Meu amigo Chaguinhas me dizia que um empresário português trouxe uma ideia que faz sucesso na Europa aqui para o Brasil. O sujeito vende perfumes variados em embalagens de quatro tamanhos diferentes.  Vende perfumes a granel como se fosse a maior novidade do mundo.
– E não é Chaguinhas? Perguntei-lhe.
– Que nada. No seringal do meu avô havia um sujeito descendente de árabes que vendia de tudo. Inclusive perfume a retalho. Você sabe o que é um dedal?
– Sim. Um dedal é uma proteção feita à medida dos dedos humanos, usado para costurar. Respondi.
– Pois é. A medida usada pelo árabe era dedal. As mulheres compravam perfume a dedal.
Lembrei-me da gramática Inglesa. Os líquidos são incontáveis e precisam de uma medida. Aqui usamos os múltiplos do litro, mililitro (ml), quilolitro (kl) etc. Já nos Estados Unidos tem-se o galão, que equivale a 3,785 litros. Um pint ou pinta que é igual a 0,56 litros. O quarter ou um quarto que é 1,13 litros.
Mas nada disso valia no seringal do avô do Chaguinhas. Lá se vendia perfume por dedal ou “chiringada”. Antes de ir às festas a rapaziada comprava uma “chiringada” de perfume a um cruzeiro! E ficava todo mundo cheiroso. E o dedal, quanto custava? How much?
– Um dedal saía por cinco cruzeiros.

domingo, 26 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDXXII


Obelisco comemorativo dos 100 anos (1848-1948) de elevação da
Vila da Barra do Regro à categoria de Cidade.
O nome Manaus seria adotado apenas 8 anos depois.
Ao fundo, a Catedral. E acima, um ovni.

sábado, 25 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


The Virgin.
Harmonia Rosales.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A poesia é necessária?



Acrobata da dor
Cruz e Sousa (1861-1898)


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que, desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Kadira.
Hasani Claxton.

terça-feira, 21 de maio de 2019

O segredo do pagode chinês



Pedro Lucas Lindoso


Quando a vi no hall de entrada do Teatro Amazonas, não tive dúvidas. Era Antônia, a eterna Miss Borba. Estava entre turistas franceses, vindos para o Festival de Ópera. Antônia nasceu no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio de Borba. O mesmo Santo Antônio de Lisboa, de Pádua e de todos os devotos brasileiros e portugueses. Assim, Antônia só poderia se chamar Antônia. Filha de uma cabocla de Borba, município amazonense às margens do Rio Madeira, e de um empresário descendente de libaneses. O pai de Antônia era casado e durante muitos anos iludiu sua mãe com promessas de desquitar-se para com ela se casar. Nunca cumpriu a promessa. Mas sempre deu para mãe e filha toda assistência financeira e afetiva. Aos doze anos Antônia ficou órfã de mãe. O pai veio buscá-la. De beleza ímpar, desde cedo recebeu educação primorosa e portava-se como verdadeira princesa, como se transportada das Arábias para a Amazônia. O pai decidiu mandá-la para o Rio de Janeiro. Antônia foi interna no Colégio Bennet. Tradicional e centenário, o Bennet é das mais respeitadas instituições educacionais do Rio. Retornou a Manaus, aos 18 anos completos. Fluente em inglês, francês e com curso técnico em secretariado, logo lhe foi oferecido um emprego no Palácio Rio Negro, sede do governo do Amazonas. No seu primeiro dia no Palácio, o assessor direto do governador estava às voltas com um projeto inusitado: apoiar o concurso de Miss Amazonas. O Estado do Amazonas deveria eleger a miss Brasil. E mais, o governador queria a participação de garotas do interior. Como Antônia havia nascido em Borba, de imediato foi escalada para representar o município. Foi assim que Antônia ficou conhecida como a eterna Miss Borba. Eleita Miss Amazonas, classificou-se em terceiro lugar no Miss Brasil. Viajou o país e o mundo. Naquela época, os concursos de miss eram prestigiados e concorridos. A miss era uma celebridade. E como tal, Antonia retorna a Manaus. Um baile acontecia no Palácio Rio Negro. Antônia vestia um conjunto em seda chinesa. Estava deslumbrante. Nos salões do Palácio, toda a sociedade manauara em noite de festa, gala e esplendor amazônico. A orquestra tocava The Platters, – only you, quando Roberto, o assessor do governador, recém desquitado, tirou Antônia para dançar. O rapaz insistia: Preciso falar com você. Urgente. Vamos ao segundo andar do Palácio. Após subir as escadas, vá para o segundo salão à esquerda. Aguardo você lá. Ao entrar no salão, Antônia ficou fascinada por uma linda mobília em estilo oriental. Uma espécie de aparador com prateleiras entalhadas em estilo chinês. A bela mobília tinha simplesmente o formato de um interessante pagode chinês. Aliás, o móvel é chamado, apropriadamente, de pagode chinês. Compõem o conjunto duas cadeiras de balanço, também em estilo oriental. Antônia nunca me disse o que houve naquela noite entre ela e Roberto. Dileto amigo, Roberto faleceu num famoso desastre de avião, chegando à Paris, onde se casaria com Antônia. Voltemos ao hall do teatro. Naquela noite, o Festival Amazonas de Ópera apresentava “Samson et Dalila" de Camille Saint-Saens. O Festival homenageava a França, com seleção de óperas composta de peças francesas. O festival recebe muitos turistas europeus, especialmente franceses e alemães. Ver uma bela ópera e ainda conhecer a Amazônia é sempre um apelo irresistível. Mas a presença de Madame Antônia Carradot, anônima, no hall do teatro Amazonas, era algo que precisa ser esclarecido. Porque não se comunicara comigo, era um mistério. Fui a Paris providenciar o traslado das cinzas de Roberto. Uma tragédia. Dei-lhe todo o carinho, toda a atenção merecida. Sempre muito simpática comigo. Nunca entendi seu silêncio. Antônia recebeu todo o carinho e atenção possível naquele nefasto evento. E agora, retornando anonimamente a Manaus, eu tinha que falar com ela. Me aproximei, sutilmente. Ela me reconheceu e sorriu. Pediu encarecidamente que não contasse a ninguém que estava ali. Só queria um favor meu. Ir ao Palácio Rio Negro, rever o pagode chinês. Perguntou-me se conhecia alguém no governo que pudesse facilitar a visita. Disse-lhe que não precisava. O Palácio agora era um centro cultural aberto ao público. Poderia levá-la na manhã seguinte, antes de sua partida para o aeroporto, de volta à França. Perguntou-me se a intrigante mobília ainda estava no palácio. Disse-lhe que sim, não havendo motivo para não estar lá. Ela sorriu e argumentou que poderia estar numa residência qualquer de um bairro chique. Afinal, saques a bens públicos aconteceram em Manaus, em várias épocas.  Aquele hall do teatro mesmo, dizem que havia esculturas e peças de mobília que não estão mais lá. Eu lhe garanti que o pagode chinês estava no Palácio. No dia seguinte, busquei Madame Antonia Carradot no hotel e fomos direto ao Palácio Rio Negro. Subiu lentamente as escadas. Foi direto à sala onde estava o pagode chinês. Perguntou se podia sentar em uma das cadeiras. Em princípio, é proibido, estávamos num museu. Mas os anjos e demônios que guardam esse Palácio permitiriam que ela se sentasse. Estávamos sós. Antonia sentou-se na cadeira de balanço, olhou para o móvel, pensativa. Duas lágrimas fortes rolaram. Jamais esquecerei aquela cena. Não quis ver mais nada. Saímos do Palácio. Chovia como sempre chove na Amazônia. Antonia entrou no carro. Levei-a ao aeroporto. No caminho contou-me que estava viúva do francês com quem se casara. Sua única filha era médica, formada pela Sorbonne. Tinha quatro netos. Parece que querem repovoar a França. Todos esses detalhes eram interessantes, mas ela não me contou e eu não tive coragem de perguntar que segredos, que juras de amor entre ela e Roberto, que mistérios teria aquele lindo móvel – o pagode chinês – o que teria aquilo por testemunha? Antônia retornou discretamente a Paris, levando consigo esse segredo tropical, que com certeza será debulhado muitas vezes, às margens do Senna. Au revoir, Antonia Carradot.



domingo, 19 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDXXI


Construção da ponte Padre Antônio Plácido de Souza,
ligando os Educandos ao Centro.

sábado, 18 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Carlo Marcelo.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A poesia é necessária?



A canção do africano
Castro Alves (1847-1871)


Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

“Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

“0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

“Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...

“Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro”.

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Boris Vallejo.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Esperando Guaramiranga ou Godot?



Pedro Lucas Lindoso


Estava meditando sobre os destinos da Zona Franca de Manaus e de nosso Polo Industrial. Distraído e olhando para o tempo. De repente, fui interrompido pelo meu velho e dileto amigo Chaguinhas.
– O que fazes? Perguntou-me. Esperando pelo Guaramiranga?
Aprendi que essa expressão é usada desde a época da Segunda Guerra, por amazonenses, quando se aguarda por algo que não chegará nunca. A origem está na frustrada espera de um navio denominado Guaramiranga. Apesar de esperado ansiosamente pela população da cidade, jamais aportou em nosso Porto de Manaus. O qual chamamos carinhosa e historicamente de “roadway”.
Durante a Segunda Grande Guerra a cidade sofria muito com o desabastecimento de gêneros de primeira necessidade. Arroz, feijão, açúcar, carne, leite e derivados. Deveriam chegar pelo Guaramiranga, que nunca chegava.  Tudo faltava. Se até nos dias de hoje faltam produtos na cidade. Imagem em época de guerra mundial, com constantes racionamentos.  Manaus sempre foi muito longe.
Havia filas quando os navios chegavam do sudeste. Alguns até chegaram. Menos o Guaramiranga. Ouviam-se notícias dos conflitos na Europa, pelo rádio ou via telégrafo. A população fazia filas para adquirir os produtos. Meu amigo Chaguinhas, hoje octogenário, era menino de calças curtas. Disse-me que enfrentou várias filas. Esperando pelo Guaramiranga que nunca veio! Guaramiranga sempre ficou no Ceará. É nome de município cearense. O navio até hoje é esperado por aqui!
Lembrei-me da famosa peça de teatro Esperando Godot, de Samuel Beckett. Importante obra para a literatura e o teatro ocidental. Tornou-se um divisor de águas no teatro do século 20. Dois “vagabundos” aguardam infinitamente, num descampado, a vinda do senhor Godot, que nunca aparece. É genial porque quebrou o paradigma de uma época em que o teatro oferecia somente sequências lógicas, com começo meio e fim.
Na atual conjuntura, todos os amazonenses e habitantes de Manaus, desde empregados e empresários até autoridades civis e eclesiásticas, esperam ansiosos por uma definição sobre os destinos da Zona Franca e do polo industrial. 
Será que estamos esperando por Guaramiranga ou por Godot?

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Teatro e Resistência: a História no centro do palco





Zemaria Pinto

Teatro contra o cinismo
O ciclo de leituras dramáticas Teatro e Resistência, promovido pela Cia Vitória Régia em janeiro e fevereiro de 2019, no palco do Sinttel-AM, nasceu da necessidade que o grupo, dirigido por Nonato Tavares, sentiu de mostrar, especialmente aos mais jovens, que houve, sim, uma ditadura no Brasil, que se estendeu por 21 anos – período em que se prendeu, torturou e matou muita gente. Há um movimento do mais deslavado cinismo negando esses fatos que já pertencem à História e procurando transformar notórios torturadores e assassinos em heróis.
Como o grupo lida com o teatro, era elementar trabalhar com a leitura dramática – uma por semana, de modo a produzir uma amostra abrangente – de peças que retratassem a época. Partimos de quinze títulos iniciais, que foram sendo filtrados no decorrer do processo, até chegarmos aos sete títulos trabalhados – todos eles relacionados ao intervalo de tempo que vai de 1964, ano do golpe militar, até 1979 – ano da anistia e início efetivo da “distensão” ou “abertura”, que só se concretizaria em 1985, com a saída dos militares do poder. A exceção foi o emblemático Eles não usam black-tie, encenado pela primeira vez em 1958, mas ainda hoje atualíssimo.

Teatro de Resistência
O termo designa peças e/ou autores que se posicionaram francamente contra o regime instaurado em 1964, denunciando-o e criticando-o. Não foi, a rigor, um movimento, como querem alguns apressados, até porque reunia tendências opostas e inconciliáveis, tanto do ponto de vista político como do estético. Olhando pelo ângulo dos detentores do poder no exercício da censura, eram textos e autores a serviço da “conspiração comunista internacional” contra os “valores da civilização cristã ocidental”, conforme atesta Yan Michalski, no seu clássico O palco amordaçado. Para quem pensa que os donos do poder no Brasil de 2019 estão sendo originais, eles apenas repetem a mesma ladainha de 55 anos atrás, usada para justificar o estrangulamento da democracia. 
Além dos autores com os quais trabalhamos, vistos adiante, destacaram-se como “resistentes” Chico Buarque, Millôr Fernandes, Maria Adelaide do Amaral, Consuelo de Castro, Augusto Boal, João das Neves, Jorge Andrade, Paulo Pontes, entre outros.

Teatro e Resistência
Trabalhamos três noites por sete semanas: na segunda-feira, fazíamos a primeira leitura, com o “elenco” disponível; na quarta, fechávamos o elenco e fazíamos uma segunda leitura, pensando nas marcações de palco; na quinta-feira, era feita a leitura para o público. A dificuldade oferecida pela arquitetura dramática de Patética, a segunda peça lida, nos permitiu um salto de qualidade em relação à leitura de O abajur lilás, que foi extremamente convencional, com as rubricas sendo lidas quase integralmente. A Patética nos fez inventar a figura do “narrador”, que, baseado nas rubricas, situava o público no tempo e no espaço, método utilizado nas três peças seguintes, até que, nas peças finais – Zona Franca, meu amor e Papa Highirte – abolimos também a figura do narrador, fazendo pequenas inserções no próprio texto da peça, de modo a situar o espectador, uma vez que não dispúnhamos dos recursos mais elementares como cenário, figurino e luz. Foi um aprendizado. Deu certo. 
Trabalhamos com os seguintes textos:
O abajur lilás (Plínio Marcos) – partindo de uma base alegórica, uma representação realista do Brasil pós AI-5, três prostitutas, um explorador do lenocínio e seu segurança mostram o absurdo das relações entre o poder e os que a ele são submetidos, levando à tortura, à delação e ao assassinato.
Patética (João Ribeiro Chaves Neto) – A trajetória do jornalista Vladimir Herzog – até seu assassinato, sob tortura, em outubro de 1975 – recriada com engenho e arte.
Eles não usam black-tie (Gianfrancesco Guarnieri) – retrata, em primeiro plano, o movimento sindical-trabalhista da era JK; mas a grande tensão da peça está fundamentada no relacionamento entre o pai Otávio e o filho Tião, muito além de um conflito de gerações: um conflito ideológico, discussão muito atual.
Campeões do mundo (Dias Gomes) – o sequestro de um embaixador, contado em flashback por dois sobreviventes anistiados, é o mote para mostrar os conflitos da guerrilha urbana, a tortura e o assassinato, num período que cobre de 1963 a 1979, discutindo também a condição feminina e o exílio a que muitos foram forçados.
Vejo um vulto na janela, me acudam que sou donzela (Leilah Assumpção) – passa-se entre o final de 1963 e os primeiros dias do golpe militar. Uma comédia de costumes espicaçando o extremo conservadorismo da época; um libelo feminista que escancara e ridiculariza esse conservadorismo.
Zona Franca, meu amor (Márcio Souza) – escrita dez anos antes de ser encenada pela primeira vez, manteve-se, e mantém-se, muito atual, na crítica ácida ao modelo Zona Franca de Manaus.
Papa Highirte (Oduvaldo Vianna Filho) – alegoria sobre a solidão de um ditador latino-americano no exílio, em algum momento entre os anos 1940 e 1960. Personagens infames, caricaturas sub-humanas, humor áspero. Vianinha constrói suas personagens como um demiurgo, cheias de sutilezas, para em seguida destruí-las, furioso, sem nenhuma delicadeza.   

Teatro, território livre
Território do livre pensamento, o teatro é de natureza rebelde, mas não inconsequente: ensina criticando e critica ensinando. Mas não ensina verdades – ensina a vida: questionando as verdades estabelecidas, colocando a dúvida acima de qualquer dogma. Isto é a arte. É provocando abalos que ela se renova. Isto é o teatro, há dois mil e seiscentos anos.
Em síntese, a Cia Vitória Régia escolheu o Teatro para iluminar o passado e denunciar as semelhanças com o presente – uma forma de resistência.

domingo, 12 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDXX


Enchente, vendo-se a entrada do Roadway e a Alfândega.

sábado, 11 de maio de 2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

A poesia é necessária?



Carta a um jovem poeta
Marco Catalão


Todos os jovens poetas são
ridículos.
Não seriam jovens poetas se não fossem
ridículos.

Também fui em meu tempo um jovem poeta,
como os outros,
ridículo.

Os jovens poetas, se são jovens, e ainda por cima poetas,
têm de ser
ridículos.

Mas, afinal,
só as criaturas que nunca escreveram
versos na juventude
e nunca os publicaram em revistas que nunca duravam mais que três números
é que são
ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
sem dar por isso
poemas exaltados comovidos rebeldes
e ridículos.

A verdade é que hoje
as minhas memórias
desses poemas
é que são
ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
como os sentimentos esdrúxulos,
como os quarentões cheios de escrúpulos,
são naturalmente
ridículas.)

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Monika Luniak.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Doce vocativo, verdadeiro aposto



Pedro Lucas Lindoso


Aulas de Língua Portuguesa. Quando estudante, erámos obrigados a fazer análise. Fazia-se análise morfológica nas primeiras séries. Depois era exigida análise sintática. Fiz incontáveis provas de Português em que constavam inúmeras análises sintáticas. Orações retiradas de textos de Machado de Assis, Camões e até do Hino Nacional.
Gostava quando os professores nos cobravam redações. Ou dissertações. Ouvi dizer que não se faz mais redação. Os alunos são convidados a fazer produção de textos. Será que ainda ensinam análises em aulas de Português?
Sempre achei interessante os vocativos e apostos. Vocativo é um termo descolado sintaticamente da oração, não pertence nem ao sujeito, nem ao predicado. Ele serve para invocar o receptor da mensagem.  E é sobre vocativos e apostos que quero falar.
Mano velho! Vocativo típico de nossa cultura amazonense. Manazinha! Mano! Mana!
Getúlio Vargas proclamava: Trabalhadores do Brasil! O outro discursava: Brasileiros e brasileiras!
 Filhinho! Vem cá. Pede a mãe. Filho! O que precisas? Pergunta o pai. Amor! Amo-te. Jurou à amada. Ana chamava os amigos de compadre e comadre. Virou comadre Ana. De todos.
Poeta! Alguém assim me chamou! Fiquei feliz, mas foi um susto! Tenho poucas poesias. Gosto de escrever crônicas. Poeta! Um vocativo que além de me assustar, me estremece o coração.
Já o aposto é o termo que, acrescentado a outro termo da oração, explica ou esclarece o sentido de um nome; aparece geralmente separado por vírgulas.
Elson Farias, grande poeta amazonense, me ensinou que crônicas podem ser poesias. Usei um aposto para descrever o Elson. E explicar o espanto do vocativo: Poeta!
Entre vocativos e apostos, vejam esses: Maria Luísa, minha netinha, cheia de charme e simpatia exclama:
– Vovô Pedro! Este o mais doce vocativo. Aquele, o mais verdadeiro aposto. Gostoso de ouvir. Gostoso como pupunha com café.

domingo, 5 de maio de 2019

Manaus, amor e memória CDIX


Vista aérea: Reservatório do Mocó, Praça Chile e Cemitério São João Batista.

sábado, 4 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Nascimento de Oxum.
Harmonia Rosales.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Antunes Filho (12/12/1929 – 2/5/2019)


Antunes Filho, 70 anos dedicados ao teatro.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A poesia é necessária?



O ai do samurai
Arnaldo Garcez


o ai do samurai
não é um grito de dor:
é a precisão do corte,
a velocidade da morte
na defesa da manhã

o ai do samurai
é poder gritar
no fio da lâmina
a lágrima prata
que acende a escuridão

o ai do samurai
é a coragem de resistir
aos covardes
que destroem o prazer
de (r)existir

o ai do samurai
é a liberdade da infância
pintando sua vingança
na cara-pálida do tempo
covarde

o ai do samurai
é o silêncio que povoa
nossa vontade de mudar
a cara desse país:
com arte
porrada
& poesia

o ai do samurai
não silencia!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Fantasy Art - Galeria


Iansã ou Oyá.
Autor desconhecido.