Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sopros do oboé, inusitado e precioso


Zemaria Pinto
  

Enquanto a maioria dos autointitulados “poetas” amazonenses continua derramando sua insuportável dor de cotovelo em livros que vão ao chão à mais leve brisa de uma análise isenta de compadrio, o carioca-manauara Sérgio Luiz Pereira vai construindo uma reputação que o coloca entre os grandes Poetas (faço questão da maiúscula, como antes, das aspas) que circulam e vivem e sofrem e, principalmente, se divertem, nesta terra de Ajuricaba.

Se divertem (atenção, revisão: quero o pronome aí mesmo! Viva a eufonia! Viva a música da poesia!), se divertem, sim. E aqui contrario os adeptos do sofrimento mesquinho como fonte de inspiração. Bobagem. Poesia é trabalho, é transpiração. E como todo trabalho, quando bem realizado, é fonte de felicidade para o seu autor. Budista, Sérgio conhece a equação que une humildade e dedicação ao trabalho à felicidade:
 

O galo sabe que a manhã não tarda
E vem cobrir de cantos o caminho.
Hei de sorver o verbo que me aguarda
Bebendo-o, gole a gole, com meu vinho.  

Se As cordas da lira não constituíram nenhuma surpresa aos (raros) que já conheciam a poesia de Sérgio Luiz Pereira, estes Sopros do oboé vêm revelar um poeta plenamente amadurecido. Senhor de seu ofício, eu diria, não fosse este surrado chavão pouco para dizer da mestria com que Sérgio trata a palavra. Desde os sonetos ingleses encadeados de Lágrimas e rios aos sonetos Shakespearianos e Petrarquianos, Sérgio mostra total domínio sobre sua forma preferida. Mas, não satisfeito, adentra às sendas de Bashô e às coleções modeladas nos grandes mestres do soneto, junta as Bashonianas, coletânea de haicais. Mas o requinte supremo está na pequena jóia dedicada ao grande Mauri Marques, onde o haicai se incrusta no soneto, promovendo um inusitado encontro entre as duas formas:
 

E dele (O haicai) se envolve sem recatos
E não Trabalha em ocioso plano.
Instante Alento a rajada de vento: é do ano
Branco Leque precioso. De ornatos. 

Na poesia de Sérgio Luiz Pereira, o adjetivo precioso tem um sentido positivo – e não aquele a que nos acostumamos, para classificar o formalismo afetado e de mau-gosto, típico de uma poesia que, tendo morrido com o parnasianismo, teima em não deitar. Em Sopros do oboé, pelo contrário, a forma é submissa ao conteúdo e, sobretudo, é parte dele. Observe, leitor, no exemplo abaixo, como a sonoridade das aliterações sombrias reflete o texto do poema:
 

Terra infeliz onde assassinam pobres
Todos os dias com assinaturas
Onde tu, ó grã corrupção, encobres
Com ouro bocas fétidas e impuras.
 
Eu, que combato cotidianamente os moinhos de vento da obviedade e da mesmice, não poderia ser mais óbvio: a literatura amazonense está mais rica, mais pujante e mais bela com estes Sopros do oboé. Só não vê quem não qué!!!


Orelha do livro Sopros do Oboé (Manaus: Uirapuru, 2004), de Sérgio Luiz Pereira.

A medicina e o mecanicismo


João Bosco Botelho

 

          A principal diferença entre a Medicina-oficial – reconhecida pelo poder dominador, desde os primeiros registros – das outras práticas de curas reside no fato de estar assentada em torno de processos teóricos para desvendar a materialidade da doença, em dimensões cada vez menores da matéria viva, apoiando a terapêutica e o prognóstico.

          Um desses processos teóricos – o mecanicismo – teve profunda influência na Medicina-oficial, a partir do século 16, que pode ser sentida nas palavras de Galileu Galilei (1564-1642): “Aquilo que acontece no concreto, acontece do mesmo modo no abstrato; os cálculos e raciocínios feitos com números abstratos devem corresponder aos cálculos feitos com moedas de ouro e prata. Os erros não estão no concreto ou no abstrato, na geometria ou na física, mas no calculador, que não sabe calcular”.

A forte afirmação de Galileu retratou o pensamento dominante renascentista: o progresso da ciência estava nas mãos dos homens. As novas estruturas conceituais do homem-máquina substituíram as de homem-fábrica, oriundas dos tempos greco-romano, hipocrático-galênico. Como consequência, os homens começaram a medir a máquina humana em níveis nunca antes imagináveis.

O médico Santório (1561-1636), um dos primeiros a aplicar a Medicina às novas concepções de medir o visível nos corpos: ritmo da respiração, temperatura e quantidade de urina e fezes. Comparando o peso do alimento ingerido com o excretado, concluiu que o corpo deveria eliminar por outras vias parte do que era ingerido. Denominou essa perda de respiração invisível, construindo o pioneirismo na ideia do que depois seria reconhecido como metabolismo nasal (conjunto de reações químicas endógenas para a produção de energia indispensável ao ser humano).

Grande parte da produção de Santório foi publicada, em 1614, no livro Distatica Medicina, descrevendo o homem-fábrica, onde os fenômenos biológicos foram reduzidos a simples fenômenos físico-químicos.

Contudo, a maior dificuldade dos mecanicistas era entender a interligação do conjunto. Não houve empecilho comparar pulmão ao fole, dente à tesoura, estômago à garrafa, porém não estabeleceram relação coerente entre as partes.

Um aluno de Santório, Marcelo Malpighi (1626-1696), foi o maior expoente desse período de construção dos saberes da Medicina. As ideias dele introduziram o pensamento micrológico, que sob o pensamento de Gastón Bachelar (1884-1962), considero o segundo corte epistemológico da Medicina: o estudo da microestrutura.

É possível afirmar, sem risco de errar na imprudência do exagero, que após as publicações de Malpighi, a Medicina começou a desvendar a arqueologia da saúde e da doença. A histologia, o estudo das microscopias dos tecidos, consequências das indagações de Malpighi, trouxe a doença da macroestrutura (corpo) para a microestrutura (célula).

Esse fato abriu a porta da Medicina da atualidade em torno do diagnóstico microscópico: a identificação da bactéria e do tumor. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

The Phoenix.
Jeff Neugebauer.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Crônicas de um tempo


Marco Adolfs


Nas minhas andanças pela Amazônia, realizando alguns documentários, sempre me deparei com o inusitado e o estranho em cada esquina da “mata”. Lembro de estar em um flutuante-alojamento de pesquisadores da Reserva de Mamirauá, localizado no município de Tefé, a 575 quilômetros de Manaus, onde os pesquisadores assoviavam para que o “cachorrinho” Fred se apresentasse na hora da comida (almoço). Só que o cachorrinho em questão era um enorme jacaré de três metros de comprimento. Verdade! O bicho atendia pelo nome de Fred, e vivia no lago que circundava o nosso flutuante-alojamento. Esperando a hora do lanche para “abanar” o rabinho... e comer. Nesse mesmo lugar, eu e o cinegrafista Bosco (Índio), resolvemos então que no dia seguinte, ainda no escuro da madrugada, sairíamos para fazer algumas tomadas do amanhecer no lago do Mamirauá. Nem dormimos direito e logo estávamos entrando em uma “voadeira” (pequeno barco de alumínio movido a motor) para pegarmos algumas cenas do nascer do Sol em meio a nuvens de um vermelho tinto-sangue. Mas, mal andamos alguns metros e o pequeno barco começou a ser sacudido pelo que parecia ser um improvável terremoto (Mas como? Na água?). Para nossa surpresa estávamos passando bem no meio de um enorme cardume de peixes que, de tão acelerados e afoitos, começaram também a voar, saindo da água em pulos aloucados, diretamente para dentro do nosso barco, atingindo a mim e ao cinegrafista. Posso dizer que naquela manhã não só fizemos belas tomadas da região, rica em uma fauna exuberante, mas também voltamos para o alojamento com alguns peixes de 30 cm para o almoço daquele dia. Nosso almoço e do Fred.
Outro fato interessante aconteceu quando eu estava, sozinho e com uma câmera na mão, seguindo um bando de índios da etnia Miranha, indo para aldeia do Miratu, enquanto filmava um documentário  sobre a farinha do Uarini, no distante município do mesmo nome.  Para quem não sabe, o povo Miranha foi considerado, na história indígena, como uma espécie de “bárbaros” e “antropófagos”. Seus chefes ficaram conhecidos por vender aos brancos prisioneiros inimigos, membros de hordas rivais, ou mesmo seus próprios filhos. Esse termo “Miranha” foi empregado na sociedade colonial como um classificador genérico, que englobaria tribos inimigas. O fato é que lá estava eu, no meio de uma fila de índios Miranha, caminhando com a minha câmera, pelo leito do seco de um rio. Uma caminhada que duraria horas. Eu fora atraído pela história de uma índia, que me dissera que, lá, na aldeia do Miratu, estavam aparecendo, nos quintais de suas casas, peças arqueológicas estranhíssimas. Deixei o documentário sobre a farinha do Uarini de lado e fui atrás de tal achado.
Lá pelas tantas, depois de muito caminhar, apareceu um índio vindo no sentido contrário ao nosso. Vinha correndo e com um enorme facão luzidio, de tão afiado e brilhando ao sol. Se aproximou do branco da história (eu!) e começou a esfregar o facão pelo meu pescoço, enquanto falava alguma coisa em seu dialeto. Fazia cara de brabo e parecia prestes a me degolar ali mesmo. Mas não demorou muito a seriedade geral, e os outros não contiveram o riso e caíram na gargalhada generalizada. Riam aos borbotões; de caírem ao chão. Foi quando o índio antropófago também riu e se apresentou.
– Prazer, meu nome é Jozildo e sou professor de História em uma escola em Uarini...Também sou o tuchaua (cacique ou chefe) da tribo...Seja bem-vindo.
Dali para frente a gaiatice era geral entre todos. Mas, naquela caminhada, além de afundar, com câmera e tudo, em uma areia movediça que existia no caminho, tive ainda que beber uma bebida vermelha, fermentada, que eles haviam preparado para uma festa improvisada. Preciso dizer que tive alucinações?... 

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
EXEMPLOS DE ANÁLISE

              A análise de texto atomiza o texto poético, fragmenta-o em seus vários elementos constitutivos. Destrói de início a beleza e a emoção do poema, para que, numa síntese final, com suas partes outra vez reintegradas no todo, o poema surja aos nossos olhos muito mais rico em suas significações e muito mais belo em sua dimensão criadora. Exemplifiquemos com um poema-minuto de Cassiano Ricardo realizando uma das várias análises possíveis de serem feitas com “Serenata Sintética”:
 

Lua 

 morta 

      Rua 

     torta 

                                                         Tua 

                                                        porta

 

 

                   O título já nos abre caminho para a compreensão do chamado núcleo ideativo (também conhecido por fulcro temático ou simplesmente tema) do poema, de onde fluem os três pequeninos blocos poéticos (“lua morta”, “rua torta” e “tua porta”), isto é, uma situação amorosa ou um encontro de amor. Concretista “avant la lettre”, Cassiano Ricardo realiza neste poema-minuto a síntese concretizadora de uma situação, onde a rima, o ritmo e a estrutura gráfica exercem cada uma por si – uma nítida função constitutiva no todo. Senão vejamos. O poema flui de uma situação amorosa. O poeta vive uma experiência que envolve simultaneamente uma madrugada, momento em que a lua já desapareceu (“lua morta”); uma rua em curva (“rua torta”) e uma atração amorosa (“tua porta”). Utilizando a arte da alusão (= o recurso de utilizar apenas índices de determinada situação), Cassiano Ricardo fala desse encontro de amor, trazendo ao nível do poema apenas três elementos do espaço que o cercava: “lua”, “rua”, “porta”. A essencialidade das rimas resulta não apenas da perfeita identificação dos sons, “lua/rua/tua” e “morta/torta/porta”, mas principalmente da íntima relação existente dentro da situação criada entre as realidades expressas pelas palavras rimadas. A ausência do luar, a quietude da rua e a porta da amada são as realidades participantes do seu estado amoroso. Note-se ainda que esse estado torna-se uma presença muito mais objetiva, nítida e significativa no poema, pelo fato de vir expresso apenas por nomes (= três substantivos e três adjetivos), o que evidentemente intensifica de tal maneira o valor das realidades em si que a ação ou o estado que as liga (e que seriam expressas pelo verbo) não se faz necessária, está implícita. O ritmo unitário (células rítmicas de uma célula poética) marca os passos lentos e solitários ecoando na rua deserta. A estrutura gráfica, com a disposição pictórica das linhas se deslocando da esquerda para a direita e voltando à esquerda, reforçam visualmente a inscrição do poema num contexto de situação (= poema que registra um fato, uma ação, uma ênfase, enfim). O poeta desvenda – com um mínimo de palavras – um episódio amoroso de maneira mais eloquente, sem dúvida, e incisiva, do que se todo um processo tivesse sido descrito com minúcias (NNC, ob. cit.).

domingo, 27 de janeiro de 2013

Manaus, amor e memória XCIII

A Praça da Matriz já foi chamada, muito apropriadamente, de Praça do Comércio.

sábado, 26 de janeiro de 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Moto-contínuo


Zemaria Pinto
 


 

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento 

Lentamente a História muda,
lentamente muda o Homem,
tão lentamente que às vezes
pensamos que estagnou. 

As longas noites da História
passam-se tão lentamente
que nem nos apercebemos
quando o dia, enfim, chegou. 

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento 

Tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu:
os corpos e os vegetais,
a e a necessidade,
a volúpia e a vontade,
o desejo e o desalento. 

Tudo o que é vivo apodrece,
o que é líquido evapora,
o sólido se deforma,
o fogo que queima apaga
e o ar, puro ou cinzento,
a cada instante renova-se,
e mesmo o se transporta
sob o trabalho dos ventos. 

Tudo muda, tudo passa,
tudo está em movimento
sobre a terra e sob o céu,
inclusive o pensamento.
 
 
Obs: publicado na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, n° 34.

Craniotomia pré-histórica


João Bosco Botelho


Permanecem como marco nas atitudes do homem na busca dos mistérios do corpo, os crânios trepanados na pré-história, há 10.000 anos.

Outros estudos paleopatológicos confirmam a solidariedade entre os nossos ancestrais distantes. Um deles, é representado pelos ossos achados na caverna La Lave, na França, de um homem pré-histórico, que sofreu ferimento perfurante de artefato com ponta de pedra, pela frente, no osso sacro, no final da coluna. Esse hominídeo sobreviveu muito tempo após a ajuda de alguém que arrancou parte externa do objeto perfurante, e, sem outra opção, deixou a haste pontiaguda de pedra encravada no sacro. O tempo que a vítima viveu, depois do ferimento, pode ser calculado a partir da regeneração óssea em torno do ferimento no osso.

Porém, os crânios que foram abertos, em diferentes lugares, na Europa neolítica, continuam intrigando os especialistas em história da Medicina. Muitos indivíduos submetidos às trepanações sobreviveram vários anos, o suficiente para que as bordas do osso cortado se regenerassem parcialmente.

O local escolhido do acesso para cortar os espessos ossos cranianos parece ter tido uma significação específica. Alguns povos faziam a craniotomia do osso temporal, outros do parietal, retirando pedaços com formas geométricas diferentes, de poucos centímetros, até grandes aberturas, como a do crânio achado em Collombey-Muraz, na Suíça, feito através da órbita direita, da qual o doente não sobreviveu à cirurgia.

A diversidade de como as craniotomias foram realizadas contribuiu para supor que eram muito difundidas e fizeram parte de um conjunto maior de intervenções do homem no homem, assinalando um momento específico na luta contra a dor e o sofrimento dos entes queridos. O “médico”, naquele momento, deixou de ser mero espectador para tentar mudar, com a sua ação, o curso de um acontecimento na saúde.

Pouco importa qual tenha sido a motivação para que houvesse a concordância do “médico” e do “doente”, respectivamente, para fazer e aceitar a intervenção como necessária. O fato é que foram realizadas e é pouco provável que tenham sido praticadas sob violência.

A frequência dessa cirurgia, nos esqueletos estudados, surpreende ainda mais. No sítio neolítico de Saint-Martin-la-Rivière, na Áustria, foram desenterrados sessenta crânios pré-históricos, dos quais cinco (8%) foram trepanados. Essas cirurgias, feitas em grande número, há mais de 10 mil anos, encontraram a força necessária para a reprodução a partir do momento em que o homem desejou mudar o curso da vida, depois de reconhecer a importância das funções vitais abrigadas na intimidade do cérebro.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

The Magician.
Michael Fishel.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
 
 
OS TRÊS MOVIMENTOS DE

 

VANGUARDA


 

POESIA CONCRETA


                   Ela teve o mérito de indicar caminhos e soluções à poesia brasileira, metida, na época, numa espécie de beco-sem-saída. 

                   Para Décio Pignatari, o poeta é um designer da linguagem, configurador de mensagens.
 

                   ODE 

                   CAMPO 

                   BODE 

(Jorge Tufic, 1956, SD do “Jornal do Brasil”)

 

                   Poesia concreta: produto de uma evolução de formas. Implica uma dinâmica, não uma estática. Teoria e prática se retificam e se renovam mutuamente, num circuito reversível. Certo: compreender a obra em progresso como uma dialética. Errado: paralisar para compreender (Haroldo de Campos).


POESIA PRAXIS
 

                   Trata-se mais de um estilo e de uma técnica criada pelo poeta Mário Chamie, do que propriamente de uma escola. Um modo pessoal, cuja teoria pode conduzir a outros modos pessoais de escrever ou construir o poema, sem, contudo, levar à imitação pura e simples de um modelo.
 

agiotagem
 

 Um

 dois

 três

 
 o juro: o prazo

 
 o pôr/ o cento / o mês  / o ágio


 p  o  r  c  e  n  t  á  g  i  o

 (Mário Chamie)


O POEMA/PROCESSO

 
                   Seu idealizador: Wladimir Dias Pino.

                   A linguagem adotada nos seus manifestos e a técnica de seus poemas são quase os mesmos da poesia concreta, só que os do processo procuram sair do código linguístico para outros códigos visuais, além da linguagem como a entendemos: 

UBI TROIA FUIT - P. J. RIBEIRO

domingo, 20 de janeiro de 2013

Manaus, amor e memória XCII

Rua Municipal, atual 7 de setembro, com selinho de Álvares Cabral, de carona.

sábado, 19 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

a casa perscrutada - escrivaninha


                                                        Zemaria Pinto

 

a escrivaninha é um móvel
num ponto inútil da sala
(debaixo de uma janela)

sua pesada arquitetura
torna-a feia agressiva
aos olhos acostumados
à transparência e leveza
dos outros móveis da casa

nauta de outras geografias
traz tatuada na tampa
os vestígios indeléveis
de batalhas e naufrágios
ais de amor assassinatos

três conchas feito gavetas
são depósitos de idéias 
onde traças invisíveis
deixam traços furiosos
nas folhas esmaecidas

composições esquecidas
aos poucos são resgatadas
do túmulo violado
já nem tudo reconheço
mas sei que me fazem parte

anêmicas cançonetas
sonetos ossificados
noturnos anoitecidos
baladas banalizadas
delírios delituosos

poemas velhos poemas
refletindo no crepúsculo
memórias do meu desejo
 
Obs: publicado na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, n° 34.

Caridade cristã


 João Bosco Botelho



O conjunto sociopolítico que consolidou o hospital como instituição assistencial se originou em algumas decisões elaboradas no Concílio de Trento, no século 16. Entre as mais importantes figuram a unção dos enfermos com o sacramento e participação leiga na graça santificante. Sob essa construção, os cristãos encontraram na abertura conciliar a argumentação para justificar o amparo aos enfermos e necessitados.

Na assistência aos doentes, se fortaleceu o atendimento aos doentes em lugares determinados, conhecidos como xenodochium pauperum, debilium et infirmorum (hospital dos pobres, dos fracos e dos enfermos).

Como uma das consequências, irmandades foram organizadas para administrá-los; as Ordens dos Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo se destacaram entre as mais competentes. Essa união de interesses comuns laicos e religiosos gerou frutos imediatos em torno da necessidade coletiva de suprir as grandes deficiências na atenção à saúde, no medievo europeu, funcionando também como mecanismo para afrouxar as tensões sociais geradas pelos flagelos da fome e das doenças endêmicas.

Quanto maior a miséria coletiva, maior o chamamento à caridade. Foi o que aconteceu em Portugal. A península foi particularmente castigada pelos efeitos da peste negra, com duas dezenas de surtos registrados entre 1188 e 1496. Especialmente, no século 14, a epidemia se mostrou tão devastadora que o enterro de todos os mortos se tornou impossível. Os cadáveres se acumulavam nas casas e ruas, dando um aspecto da chegada do fim dos tempos e o cumprimento das previsões apocalípticas.

Acompanhando a estrada que ligava Portugal à cidade espanhola de Compostela, onde ficava a igreja de São Jaime, existiam centenas de xenodochium pauperum, debilium et infirmorum utilizados pelos peregrinos e devotos, que se dirigiam em romaria para obter a cura naquele santuário cristão.

Por outro lado, os xenodochium pauperum, debilium et infirmorum também ofereciam muitas vantagens pessoais, financeiras e políticas aos dirigentes. Essa afirmação ganha suporte no fato de que D. Pedro, em 1420, escreveu ao seu irmão D. Duarte, sugerindo a intervenção real na administração desses hospitais, como alternativa para reabilitar a debilitada economia do reino. Por ordem de D. Duarte e publicada nas Ordenações Alfonsinas de 1446, foi decretada a interdição real nos xenodochium pauperum, debilium et infirmoru, ainda determinando que todos os legados que fossem doados às irmandades deveriam passar pelas cortes civis e não mais pelos tribunais religiosos.

Essas mudanças edificaram os alicerces das Santas Casas, nas colônias portuguesas, na Ásia e Américas, administradas pelas ordens religiosas Hospitalários de São João, Antoninos e Espírito Santo.

 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Curso de Arte Poética


                    Jorge Tufic
 
 
                     Essa dúvida interna da Poesia, de geração para geração, de poeta para poeta, de escritura para escritura, a partir de rebeldes “históricos” e do ilustrativo Dada, continua abrindo passagem em direção a outros sistemas ainda não totalmente explicados, mas plenamente justificados em nome do poético. Será, portanto, na diferença entre palavra e signo que se inaugura, aqui, um espaço maior e mais livre para a libertação do estético, do semântico e do morfológico. Cessa a expectativa e começa o verdadeiro jogo de armar a Cidade dos Homens, segundo a paisagem, o clima, a vegetação e o rumo dos ventos. Seja-nos concedido, pois, darmos início à reconstrução de um mundo geral e solidário ao entendermos poesia não como deleite, mas como tensão. 

                   O grande incêndio de Roma, único poema real, aliás, do Imperador Nero, teve seus movimentos iniciais acompanhados ao som da lira. A reconstrução de Roma, movimento físico ao inverso do primeiro, que a destruiu, mas sempre tensão e expectativa, mobilizou a pedra, o músculo e toda uma argamassa disponível. Situado em seu tempo, um poema alternativo, que nasce de uma transição, não ficaria bem se tirado ao som da lira ou do sistema off-set: ele necessita dos temperos mecânicos do prelo, do mimeográfico primitivo ou da máquina Remington, de tipos quebrados. O poema/processo incorpora os fatos correntes e os dados estatísticos; ele é digitado ou construído; sua leitura ou consumo é múltiplo, como de todos os signos. A tensão que se estabelece entre o ver e o visto, entre o signo e o significado, entre a linguagem e a precisão (de comunicar, exprimir poeticamente) deriva, com certeza, da necessidade de fixar, no espaço e no tempo, o objeto focalizado. Mais do que isso, porém, ela deriva da necessidade que sentimos de povoar nosso espaço interior de novos objetos e novas “perspectivas” que não estão devidamente representadas ou nomeadas. 

                   Os signos, partículas ou módulos de nosso cotidiano, lideram a permanência e a impermanência dos mitos, sejam eles políticos, literários ou do consumo diário. A Coca-Cola, por exemplo, é um símbolo e um mito de palatibilidade, como antes fora o soneto para a nossa visão e os nossos ouvidos. Como se vê ainda, é da essência das coisas e da poesia elevada à categoria de Esfinge, porque nunca se esgota a leitura de seus significados, que vem este sopro constante de fogo e ar frio. De destruição e modelagem. De volta à disponibilidade ou de novos estímulos vocais, subvocais. Ao contrário do remoto parente que deixamos no mesolítico, nós dispomos hoje de lápis, papel, tinta, luz elétrica, cartolina, régua, água encanada, compasso, isopor, serpentina, transporte, rádio, recortes de jornal, televisão, fotografia, sucatas, objetos sem uso, e até uma nuvem que estiver passando na hora, pode servir para amortecer a queda de certas imagens. 

                   Para uma leitura científica do mundo, no entanto, seria recomendável, já em nível acadêmico, a formação, pelo menos, de um modesto acervo bibliográfico no qual não poderiam faltar os “Papéis Coligidos”, de Charles Sanders Peirce (cuja vida, “poética” e “desligada”, foi um modelo de seriedade e desprendimento); os estudos de Poética reunidos sob o título de Formalismo Russo, Saussure, entre outros. Mas todo esse trabalho pode ser evitado com a leitura do livro Semiótica & Literatura, de Décio Pignatari. A velha estória de Newton e a maçã, recontada por esse autor como exemplo, em três fases distintas, da principal classificação dos signos, ilustra bem nossa “postura” singular em face de outras “quedas” incessantes que se operam, como no poema de Huidobro, enquanto que ninguém, salvo os poetas e as crianças, são capazes de percebê-las no seu dia-a-dia.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Manaus, amor e memória XCI

Ponte da Bolívia é apenas uma fotografia no blog.
Mas como dói!

sábado, 12 de janeiro de 2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

a casa perscrutada – biblioteca


Zemaria Pinto


as paredes de papel
temperadas pelo tempo
são fortaleza de aço
forjado em fogo e silêncio

agrupados por assuntos
cada conjunto de livros
é um mar particular
com seus ventos, tempestades
seus seres imaginários
monstros, homens, potestades

poesia, teatro, ensaio
história, filosofia
romance, conto, novela
didática, teoria
cinema, artes, quadrinhos
música, fotografia

as chamas aprisionadas
entre as páginas dos livros
são metáforas perenes
imagem, símbolo, mito
semeadura de paixões
fronteiras com o infinito

um cômodo de papel
temperado pelo tempo
é território de sonhos
prazeres do pensamento

Obs: publicado na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, n° 34.

A medicina no Brasil colonial holandês

 
João Bosco Botelho
 
O domínio militar holandês em Pernambuco, no século 17, possibilitou o encontro em terras brasileiras de Maurício de Nassau, o administrador intelectual, com o médico Guilherme Piso.
Esse relacionamento intelectual produziu, com o apoio financeiro do administrador, as maiores e mais importantes obras médicas do Brasil seiscentista: História Natural do Brasil e História Natural e Médica da Índia Ocidental.
Piso nasceu em Leyden, na Holanda, em 1611 e diplomou-se em Medicina, em Caen, França, em 1633; desembarcou no Brasil, em 1637, na comitiva de intelectuais, que acompanhou Maurício de Nassau, para ocupar a chefia dos Serviços Médicos das Índias Ocidentais.
Permaneceu em Pernambuco no período de sete anos, tendo coletado abundante material da fauna e da flora. Nos dois livros, descreveu com precisão observações do Brasil da primeira metade do século 17, que alicerçaram os dois livros. Retornou à Holanda, em 1644; permaneceu em Amsterdam, até 1678, quando morreu. Nesses anos, usando o conhecimento que apreendeu com os pajés, adquiriu fama e extraordinários resultados no tratamento de muitas doenças.
De imediato, Piso constatou que a prática médica era exercida por curadores populares e cirurgiões-barbeiros não capacitados. Propôs e obteve do governador a reforma e ampliação do Hospital do Forte de São Jorge, no Recife, objetivando a melhora dos cuidados médicos da população.
Antes da conquista holandesa, no Recife, as praticas médicas eram dominadas pelas farmácias dos jesuítas. As famosas fórmulas mágicas desses religiosos eram festejadas como capazes de resolver todas as mazelas da saúde, inclusive o desespero de algumas famílias, por meio do cozimento para a virgindade perdida, do Irmão Boticário Manoel de Carvalho.
Por outro lado, a interferência do poder eclesiástico sobre os governadores anteriores à conquista, era tão intensa que, em 1707, D. Sebastião Monteiro ordenou que os médicos da corte não tratassem os doentes que não se confessassem e comungassem.
Com a nova diretriz imposta por Piso, foi possível reunir no hospital do Forte de São Jorge vários médicos e cirurgiões-barbeiros, alguns judeus fugidos das acusações da Contra-Reforma promovida pela Igreja na Europa. Nesse hospital, Guilherme Piso tomou conhecimento da Medicina indígena e, de modo genial, comprovou que curava mais que as amputações indicadas pelos cirurgiões-barbeiros.
No livro, História Natural Do Brasil, fez a descrição de várias doenças infecciosas. No capítulo, Das lombrigas, identificou corretamente o Ascaris lumbricoides e o Enterobius vermiculares, dois dos parasitas intestinais ainda muito comuns, no Brasil, afirmando que poderiam ser encontrados no estômago, vesícula biliar e coração, caracterizando de forma incontestável que também realizava necropsias, na mesma época em que essa prática era temida na Europa cristianizada.
A Piso coube a primazia de ter relacionado a cirrose ao alcoolismo e à má nutrição. A descrição dele foi anterior, em quase 200 anos, da feita por Laennec, em 1826. Como tratamento, prescrevia dieta de alimentos e bebidas frescas, diuréticos vegetais e paracentece (drenagem do líquido acumulado no abdome, a barriga d’água): “Na dissecção dos cadáveres, sobretudo de doentes que morreram de anasarca ou ascite, às vezes se encontra o fígado de cor tirante a branco, abrindo em frendas, sem vestígio sequer de sangue”.
           De modo genial, o médico holandês confirmou a sifilização do Brasil colônia pelo europeu. Na referência às doenças femininas, assegurou que mais da metade das holandesas que acompanharam a comitiva e depois sofriam de corrimento vaginal e doenças venéreas e as índias eram mais sadias do que as européias. .
Entre outras maravilhas e precisas descrições de Piso, se destacam as complicações mortais do escorbuto, comum entre os marujos seiscentistas; como tratamento recomendava o uso, em grande quantidade, do suco de limão e maracujá.
Além das muitas doenças descritas, acompanhadas dos respectivos quadros clínicos e tratamentos, Piso no livro História Natural do Brasil, classificou dezenas de plantas e animais por meio de desenhos precisos e detalhados.
O grande professor de Guilherme Piso, nas terras brasileiras, foi o pajé possuidor do conhecimento historicamente acumulado ao longo de séculos. Em várias passagens dos dois livros, reafirmou a superioridade da medicação indígena: “Os índios prescindem de laboratórios, ademais, sempre têm a mão sucos verdes e frescos de ervas e rejeitam os remédios compostos de vários ingredientes, preferem os mais simples”.


 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Platônica IV


Tainá Vieira
 

“Oi, querida!”, tu me saudavas quando eu chegava à Fundação. Beijava-me a mão e sorrias. Eu te levava sempre o jornal e algumas peras. Sentada à beira da tua cama, ficava ouvindo as historias que tu contavas. Ria muito e aprendia mais ainda. No teu encontro com o Che Guevara, ele te xingou de pequeno burguês. Pelo teu jeito, tu devias o estar contrariando.   E tua viagem a Paris, contaste-me que um dia estavas tomando um cafezinho num bistrô bem aconchegante, falavas tão bem o francês, que o dono perguntou de que região da França tu eras. E como tu sempre gostavas de te exibir, deste o nome de uma cidadezinha de lá e ele acreditou. Pareço ouvir agora as tuas gargalhadas contando essas histórias. Essas e tantas outras. Eu não gostava daquele lugar, não era lugar para ti. Toda vez que ia lá era um sofrimento para mim. E quando a visita acabava era pior ainda, pois talvez no outro dia, eu não o visse mais me saudando ao chegar. Enfim, foste embora. Partiste para um lugar distante?! Talvez! Mas para onde foste? Para o sol? Gostavas de sol, Luiz? Estás no alto de uma montanha? Contando as estrelas? Ou desenvolveste a escultura? E és tu o escultor das obras magníficas feitas em nuvens, que eu vejo todos os dias, no céu?...Ah, Luiz, já sei. Encontrastes o Che, fizeram as pazes e agora ele é teu discípulo... Sorte dele, que te tem. Quanto a mim, não mais ouvirei “oi, querida!”.

Fantasy Art - Galeria

Faerie steed.
Sandra Chang. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sobre cavalos e poesia

Ezra Pound (1885-1972), por Liberati.



Pisanello pintou cavalos de tal maneira que a gente se recorda da pintura e o Duque de Milão o enviou a Bolonha para comprar cavalos.

Escapa à minha compreensão o motivo pelo qual uma espécie semelhante de “faro equestre” não possa ser aplicada ao estudo da literatura.

Bastava a Pisanello olhar para os cavalos.

Se alguém quiser saber alguma coisa sobre poesia, deverá fazer uma das duas coisas ou ambas. Isto é, olhar para ela ou escutá-la. E, quem sabe, até mesmo pensar sobre ela.

E se precisar de conselhos, deve dirigir-se a alguém que entenda alguma coisa a respeito dela. 

(Ezra Pound  in Abc da Literatura; tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes)