Amigos do Fingidor

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quinta-feira, 19 de junho de 2025

A poesia é necessária?

 

Bilhete Em Papel Rosa

Adélia Prado

A meu amado secreto, Castro Alves.

 

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.

Vê estas olheiras dramáticas,

este poema roubado:

“o cinamomo floresce

em frente do teu postigo.

Cada flor murcha que desce,

morro de sonhar contigo”.

Ó bardo, eu estou tão fraca

e teu cabelo é tão negro,

eu vivo tão perturbada,

pensando com tanta força

meu pensamento de amor,

que já nem sinto mais fome,

o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,

caldos quentes, me dão prudentes conselhos,

eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,

a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas

Antônio lindo, meu bem,

ó meu amor adorado,

Antônio, Antônio.

Para sempre tua.

 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

A poesia é necessária?

 

Dona doida

Adélia Prado

 

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A poesia é necessária?

 

O nascimento do poema

Adélia Prado

 

O que existe são coisas,

não palavras. Por isso

te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro

como olharei montanhas durante horas,

ou nuvens.

Sinais valem palavras,

palavras valem coisas,

coisas não valem nada.

Entender é um rapto,

é o mesmo que desentender.

Minha mãe morrendo,

não faltou a meu choro este arco-íris:

o luto irá bem com meus cabelos claros.

Granito, lápide, crepe,

são belas coisas ou palavras belas?

Mármore, sol, lixívia.

Entender me sequestra de palavras e de coisa,

arremessa-me ao coração da poesia.

Por isso escrevo os poemas

pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.

Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,

é o Espírito quem me impele,

quer ser adorado

e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:

baldes, vassouras, dívidas e medo,

desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.

Não construí as pirâmides. Sou Deus.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

A poesia é necessária?



Com licença poética
Adélia Prado


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.