Amigos do Fingidor

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Benedito Nunes (21.11.1929 – 27.02.2011)

Faleceu na manhã de ontem, em Belém, aos 81 anos, o escritor Benedito Nunes.

2º Troféu Padaria Espiritual

Jorge Tufic


Sérgio Pinheiro terá imaginado que o espaço de sua casa poderia violentar as leis da física, estando ao mesmo tempo em Mommartre, Lisboa ou na Praia de Iracema. E assim tem sido, desde que as vivências de cada um que a visita tragam consigo um pouco de todos os lugares do mundo, com a garantia, entretanto, de que se reserve à Fortaleza o grande privilégio de Lugar dos Lugares. No tempo, inclusive, a Galeria desse artista também liga a sua máquina de trazer para o presente o que jamais deve nem pode ficar apenas no passado, e cria, ou modela o troféu “Padaria Espiritual”, produto artístico de Zeno, esse outro mágico da transformação e da transfiguração do agora no sempre.

Aqui estivemos, quando o primeiro troféu fora conferido a Maria Luiza Fontenele. E aqui estamos novamente para vê-lo passar às mãos de Estrigas e Nice, cujo trabalho e merecimento desse Padaria Espiritual já cobrem de telas e desenhos o período compreendido entre 1952 e os dias que ainda sopram para as bandas do Mondubim, ali onde esse casal prossegue no empenho maior de dar forma, cor, beleza e palavra aos sentimentos de cada hora, aos chamados de cada manhã.

Não tive acesso a todo o universo crítico e biográfico de Nice, mas tive em mãos os catálogos “Nice & Estrigas” e “Estrigas: 23 textos/desenhos.” Nem foi preciso ir mais longe para entender que a musa do poeta se lhe torna propícia tanto numa como noutra atividade, ou seja, o artista plástico e o poeta surpreendem, por igual, quer através do traço, quer através do texto.

Quanto à Nice, ela começa pintando paisagens, se isola no Mondubim, descobre gente e desenha as pessoas. Até que, ao impacto da urbe cega e fervilhante, convive com crianças e estas passam a invadir sua vida, tomam conta de sua pintura, quem sabe definitivamente. Seus pássaros nos olham com a pureza das estrelas, suas dunas convidam para uma viagem silenciosa, por testemunhas a pedra e o vento. São artes e vidas que se completam, dueto orquestrado pela necessidade de criar, a partir de qualquer gênese, palimpsesto ou de repentinas imagens que tanto navegam pelo ar como latejam nos armários. É assim que os vejo, Estrigas & Nice.

Muito mais pode ser dito sobre a prosa e o texto de Estrigas. Lembra-me ele o natalense Dorian Gray Caldas, que também se completa e se divide entre a paleta e o verso. Eu li seus poemas, relendo alguns, e enquanto lia pensava na expressão fisionômica de sua fotografia mais recente, onde as marcas do tempo confirmam a dicção do poeta, ora quando fala da velhice, ora quando se vê sozinho, ora, ainda, quando acha que precisa de uma saudade ou pereniza o instante de uma flor, “no encontro/da tarde/ com a noite.”

Por muitas razões, sobretudo pelo conjunto de sua obra, Nice & Estrigas merecem o troféu. Um valioso troféu que sintetiza o ideário da Padaria Espiritual e o gênio do escultor cearense Zeno. Essa Padaria que Sânzio de Azevedo estuda e sobre a qual tanto já nos falara. A Galeria de Sérgio Pinheiro vive, portanto, um dia de festa. Revive, por assim dizer, a sua estréia nesse tipo de reconhecimento, homenagem e valorização daqueles artistas que, embora realizados, nunca voltam suas costas para o social. Aí estão as crianças de Nice e o que desta nos conta o Gilmar de Carvalho: “Por trás de uma aparente sedução, das cores fortes, da explosão da alegria, está uma tristeza incontida. As crianças da Nice não são felizes.”

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar (23.03.1937 – 27.02.2011)





O escritor Moacyr Scliar faleceu na madrugada de hoje, em Porto Alegre.

Ode a Luz del Fuego

Jorge Bandeira

Oi, Dora,

Oi, Luz del Fuego,

Dia 21 de fevereiro você fez mais um aniversário, e por isso escrevo esta pequena cartinha para lhe falar deste mundinho, que está cada vez mais louco, e também de teu amado Naturismo, por quem você foi capaz de tudo, acho que até mesmo de morrer por ele. Luz, minha querida amiga, saiba que a Maria Luzia, que nasceu na tua bendita terra capixaba, continua até hoje a preservar teu nome por lá, num grupo naturista bastante atuante.

No teu Rio de Janeiro, tem um carinha chamado Pedro Ribeiro que é incansável, ele é magrinho mas tem a força de uma onça pintada quando o assunto diz respeito a preservar o valor ético do naturismo. E são tantos e tantos que posso cometer uma injustiça ao esquecer alguns dos nomes que sabem viver a plenitude naturista, com seus erros, limitações, mas com uma vontade danada de trabalhar pelo bem comum, pelo bem do naturismo. No planalto central tem o Elias, o Jaime, a Lili, um grande amigo cujo nome já está nu, o Tannus, esse é naturista até no nome, tá nu a partir da certidão de nascimento.

Pelo Norte desse imenso país, que não soube muito bem de teu valor como mulher, artista e escritora, tem um tal de João Carlos, que acredita ainda nesse naturismo feito de irmandade, é um batalhador, como tu mesmo foste, uma guerreira índia capixaba, nua, levantando-se sempre das infinitas quedas que a fizeram cair, mas não recuar. Teu horizonte, Luz del Fuego, sempre ultrapassou vastas colinas de sofrimentos e os mais arriscados obstáculos. Dentre outros que trilham pela tua estrada iluminada temos um Flaviano, verdadeiro arqueólogo da memória naturista. Voltando ao Rio de Janeiro, é de bom tom citar também o Paulo Pereira, que tu conheceste nos tempos gloriosos de tua vida exemplar, homem de vasta cultura e dedicação integral ao bom e velho naturismo, este conceito de mais de um século.

Temos muitos que te veneram, mas não como uma imagem inerte, perdida no tempo, nas ruínas da Ilha do Sol, recentemente visitadas pela equipe do Pedro, com olhos vivos e nus, esperando pelo porvir, para um possível museu, um centro cultural de memória permanente dos rastros que deixaste para nós, os naturistas do século XXI. Fabri, Armando, Weslley, Damasceno, Valdir e Fátima, Márcio Braga, Padre Roberto, o saudoso Sérgio Oliveira, Celso Rossi, Carina e Marcelo, Eta, Glacy, Iran, são tantos os nomes que circundam este continente chamado Brasil com a nudez de seus corpos, que adoram ficar nus, que a cada encontro naturista relembram de teu legado, de tua solidez na busca do verdadeiro ideal, dos longos momentos de tua glória artística, e também dos desafios, hoje mais do que nunca somos obrigados a esclarecer pela milésima vez sobre o poder benéfico do bom e salutar naturismo, de sua força centenária, de sua história, de sua trajetória.

Eu mesmo já pensei em desistir algumas vezes desta tua luta, desta ideia que você disseminou, mas meus sonhos não permitem, nos meus sonhos sempre estou nu, no meio de outros corpos nus, que são estes amigos e amigas citados e os que nem citei aqui. São eles que me fazem prosseguir esta jornada, em busca de minha utopia e felicidade, posso afirmar que hoje sem minha nudez sou um homem vestindo nada, mesmo estando de roupa, que não me representam em nenhum momento. Hoje, graças a ti, sou feito de nudez total, na entrega por um ideal. Ou seja, minha nudez é minha principal vocação. Minha nudez é meu oxigênio!

Tantos nomes que até hoje me fazem clamar em voz alta, para nossas fileiras combativas: Zé Wagner, Julíndio, Paulo Campos, Nalva, minha grande amiga feita de uma nudez indígena que me faz acreditar que estamos nos caminhos da segurança ao naturismo familiar. Luz del Fuego, minha amiga que já se foi mas que está sempre presente em minha mente, garanta que as novas gerações, dos mais diversos estados brasileiros, continuem a levar esta nobre filosofia naturista, pelo teu pioneirismo em várias frentes naturistas, que minha filha Carolina seja uma naturista, que a netinha do Evandro também seja uma naturista, para que essas crianças nos apontem onde erramos, que nos ensinem sempre do sentido infalível da tolerância, do poder do silêncio nos momentos de maior desespero, e que, acima de tudo, Luz del Fuego, que você seja nossa mensageira de um dia melhor para todos, naturistas ou não, e que este mundo descarregue o odioso rancor que transforma os seres humanos em lobos do próprio homem, tal qual o leviatã de Thomas Hobbes, Homo Homini Lupus.

Um retorno para a Idade Média, sim, mas uma cidade medieval feito a Nudelot de Florencia Brenner, nossa irmã portenha, ao mundo, tenho certeza, ser o mesmo que almeja meu amigo naturista norte-americano Bruce Willis (não, não é o ator!), este mundo, nobres naturistas, creiam, já está em pleno curso, e estamos construindo com todo cuidado, pois o naturismo precisa de uma fortaleza muito segura para se proteger de todos os que enxergam muito pouco sobre as coisas boas e essenciais da vida, desta vida plena de nudez e de uma tamanha vontade de ter um mundo melhor. Se esqueci de citar alguém, me perdoem, estou tentando desaparecer com minhas roupas, o que é muito difícil nesta floresta amazônica do século XXI.

Manaus, 22 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Maranhão Sobrinho, o místico de Satã – 4/4

Zemaria Pinto


Por mera coincidência, são também 14 as composições onde a figura demoníaca ou sua sombra vem à tona, ainda que apenas na atmosfera do poema. A começar por uma descida ao inferno de Dante, onde, no “O Oitavo Círculo”, penam os maus conselheiros. Lá, Virgílio, a Voz do Bem, “mostrou-me Reis e púrpuras de Papas...”. Em “Poetas Malditos”, ele continua a desfiar suas preferências de leitura, numa alusão direta à coletânea do mesmo nome, organizada por Verlaine, publicada em 1884, que destacava os nomes de Arthur Rimbaud, Tristan Corbière e Stéphane Mallarmé. Maranhão Sobrinho ajunta-lhes uns outros malditos eternos, como Petrônio e Voltaire, para concluir com um verso inusitado, cuja fórmula de repetição seria usada ainda outras vezes: Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!. “Na espiral do inferno” revela o “método” do poeta para alcançar mais força ao estro – a introspecção:

                    Quando em minhalma os plátanos do Horto
                    dos Sonhos gemem, como um kirie, ao vento, (...)


                    desço aos infernos do meu desconforto
                    nas asas triunfais do pensamento...

Mas é nos versos de “Satã”, dispostos na edição original logo após “Turris ebúrnea”, numa clara provocação, que o poeta perde a melhor oportunidade de dar “asas triunfais ao pensamento”, descrevendo, e apenas isso, com a melhor técnica parnasiana, um inferno ricamente ornado em pedrarias. Lendo os dois poemas na sequência, o leitor defronta-se com duas visões antagônicas, mostrando o próprio desconforto do poeta em mantê-las vivas dentro de si: 1) o místico por temperamento e simbolista por ideal, de um lado; 2) o satanista por opção e parnasiano por escolha própria, de outro. Maranhão Sobrinho carrega esse impasse e pinta-o com cores fortes no poema “Rubro”, vibrando nas sinestesias:

                    Cor de gritos! Clarim das cores! Serra
                    do emocional que o espírito retalha! (...)


                    Cor do Sol-Posto! Cor do Inferno! Cor
                    dos punhais e das lanças, difundida
                    por toda a terra, como a Luz e o Amor... (...)

                    Suprema cor da Morte e cor da Vida (...)

“Entre o céu e a terra”, “Visões” e “Em holocausto” podem ser lidos como relacionados entre si. No primeiro, “qual haste ao vento”, uma visada da humanidade: vejo esqueletos, em visões dançando, / cobertos de oiro, de paixões e vermes... No segundo, habitantes infernais vêm perturbar-lhe os sonhos: Brancas visões de Haydeas desgrenhadas. No terceiro, ele se entrega num ritual satânico: Serpe! podes morder meus sonhos que alanceias, / e enroscar-te no cedro augusto da minhalma!. Os três poemas são costurados pela linha tênue do sonho. Um recurso, aliás, que não precisaria ser explicitado.

“Rainha do mal” e “Bacante” também têm traços comuns, além de serem primas distantes daquela Fabíola de que se falou antes. Aqui, a mulher é idealizada de forma negativa, longe daquela acepção maternal, sendo mantida sempre a distância. Simbolizam a própria morte, mas não sem um certo charme, como se observa neste terceto da “Bacante”:

                    Há no teu seio, ó pérola bacante!
                    da brancura das brancas nebulosas,
                    toda a aromal luxúria do Levante.

“Memphis”, a mítica cidade egípcia, é outro poema prenhe daqueles símbolos sombrios: Pairam sobre os destroços sonolentos / de Memphis sombras, de pavor pejadas. “No horto de Getsêmani”, o caráter sombrio do poema, de novo descritivo, parece tornar-se mais leve quando constatamos, no verso final, em meio à tristeza pelo desaparecimento de Jesus, que era apenas o “vulto satânico de Judas”, errante, arrependido, talvez. Igualmente leve, apenas sugerida, é a sombra a pairar sobre o já citado “A um bêbedo”, quase didática: bebes no vinho, diluída, a morte...

Mas o poema que se destaca entre todos, nestes Papéis velhos, é o soneto “Interlunar”, uma delicada descrição do anoitecer – da vida. O clássico retrato do poeta cosmopolita lembra ao lúcido poeta provinciano a tarde que se vai:

                    Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,
                    tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
                    da tarde, que me evoca os olhos de Stefânio
                    Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

Naquele retrato, feito por Manet, guardado nalgum fundo de gaveta, ele reconhecia a si mesmo, por certo, especialmente pela unção de tristeza e incompreensão, os olhos baixos, perscrutando interiores. No poema “Crepusculares”, ele havia anotado, melancólico: Sei que mais uma tarde de saudade / leva-me o resto da manhã da vida...


V – A torre da concórdia


Há muito o que dizer do universo destes Papéis velhos, posto que nos ocupamos de não mais que um terço dos poemas nele contidos. Há, por exemplo, um caráter alegremente romântico contrapondo-se a uma morbidez recorrente que precisariam ser melhor explorados. Além disso, passamos ao largo de uma análise dos extratos fônico e semântico. Não posso deixar de observar, contudo, uma vez que representa um ponto de tensão dentro da poética de Maranhão Sobrinho, o já referido desconforto diante da forma. Maranhão Sobrinho é o típico poeta-legionário. Ele não tem pretensões a líder, não quer fundar religiões e despreza a história oficial. Mas nem por isso desiste de criar seu universo pessoal, caracterizando-se, ainda que timidamente, como um poeta-demiurgo. E nestes Papéis velhos, é fácil identificar a gênese desse universo: o desejo pessoal antagonizando com o desejo poético; o aplauso e o reconhecimento, dentro de suas limitações, versus a visão do futuro da arte poética. O poema “Torre de Sonho” parece evidenciar a chave desse conflito:

                    É a Torre do Triunfo, é a Torre da Conquista
                    pelos titãs da Forma à Emoção levantada
                    sobre alicerces de ouro, é a torre argamassada
                    com sangue a que só ascende a asa imortal do Artista!

A torre encantada é o ideal parnasiano frequentado pelo poeta dos símbolos, que, mais adiante, afirma que “muitos têm sucumbido da vertigem” por vê-la de perto. Ele, porém, vê chegar o seu momento de ascendê-la, “com um par de asas mais por cima de teus braços”. Sem esperança de alcançar a “suprema glória” (ver também esse poema) ainda em vida, o poeta, “alma em dor”, vê-se alçado, conduzido até a torre sonhada, após o seu desaparecimento.

Era um recado inútil, a província não lhe daria ouvidos. Aos poucos, ele foi sucumbindo ao peso da própria sombra. E seriam precisos 90 anos para que seu livro fosse reeditado e o poeta se reencontrasse com seu sonho.


Bibliografia

BRASIL, Assis. A poesia maranhense no século XX. Rio de Janeiro: Imago; São Luiz: SIOGE, 1994.

CAMPOS, Augusto de. Antipoesia no Simbolismo. In: Verso reverso controverso. 2ª edição. São Paulo: Perspectiva, 1988.

__________. O anticrítico. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3 volumes. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1952.

TEIXEIRA, Ivan. Metafísica e exílio. In: Revista Cult, nº 8. São Paulo: Lemos Editorial, março de 1998.

WILSON, Edmund. O castelo de Axel. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1993.

Ilustrações: Retrato de Mallarmé, por Édouard Manet (1832-1883);
2a. via da Certidão de Óbito de Maranhão Sobrinho;

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vinicius no Caldeira

Bar do Caldeira, 1974. Vinicius de Moraes é o centro das atenções.
De gravata por cima do ombro, o então vereador Fábio Lucena. Também de gravata, por trás de Fábio, o professor Valdir Garcia. À direita de Fábio, de blusa estampada, o radialista José Maria Pinto (é só xará).
Depois de muitas e boas, Vinicius escreveu um simpático bilhete, que alguém teve o bom gosto e a sensibilidade de guardar junto com a foto amarelecida pelo tempo:
.
Declaro, proclamo e assino que nesta sexta-feira 13 do mês de setembro de 1974 estive no "Caldeira", na boa e carinhosa companhia dos maiores boemios de Manaus. E adorei!
Vinicius
Manaus, 13.9.74


Colaboração: Francisco Queiroz, que recebeu o material do Manoel Paiva
amigos do Fábio e fãs do Vinicius.

Miguel Servet: o médico herege

João Bosco Botelho


A triste lembrança da execução do médico espanhol Miguel Servet, em Genebra, no dia 27 de outubro de 1553, foi o resultado da perseguição implacável da intolerância dos católicos e protestantes. Acabou queimado em imagem pela Igreja Romana e levado ao fogo lento da madeira verde pelos calvinistas.

Miguel Servet estudou Direito na Universidade de Tolousse, que em 1530 já abrigava em torno de dez mil alunos e seiscentos professores. Lá, fez o primeiro protesto contra o Código Justiniano que prescrevia a pena de morte aos resistentes à doutrina da Trindade. Enquanto a maioria batia palmas, ele assoviava, facilmente, tornando-se alvo dos medos de todos e rotulado como herege.

A partir da leitura atenta da Bíblia, Servet comprovou a absoluta ausência de qualquer referência à Trindade. Sobre o tema escreveu o livro “Sobre os erros da Trindade” (“De Trinitatis erroribus”), publicado em 1531, asseverando que essa doutrina constituía equívocos oriundos no Concílio de Nicéa realizado no ano 325.

Com discurso essencialmente teológico, escreveu no seu mais famoso livro “Christianismi Restituio” as suas descobertas que modificaram para sempre o conhecimento da pequena circulação que leva o sangue do coração ao pulmão e o traz de volta já oxigenado, para em seguida, ser distribuído por todo o corpo: “O espírito vital se regenera nos pulmões de uma mistura de ar inspirado e de sangue delicado elaborado no ventrículo direito do coração. Sem dúvida, esta comunicação não se faz através da parede do coração, como se acredita até hoje, e sim por meio de um grande orifício o sangue é impulsionado até os pulmões.”

Servet utilizou as suas observações anatômicas como suporte para afirmar a necessidade de mudanças na estrutura administrativa da Igreja Romana. Na medida em que o corpo e o universo eram dinâmicos, a Igreja não poderia, jamais, se manter imobilizada. Foi o seu fim. O poder de Roma se uniu ao da Reforma Protestante para destruir o audacioso médico espanhol.

No dia 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado vivo no fogo lento da madeira verde para aumentar o seu sofrimento. Durante todo o processo de acusação feito pelos calvinistas em Genebra, só foi possível, apesar de tudo, acusá-lo de dois crimes: o antitrinitarismo e a posiçao em favor do anabatismo. Era suficiente para que os católicos e protestantes se unissem na destruição do inimigo comum.

A brutal perseguição e morte de Miguel Servet, o médico herege, servem ainda hoje, para a reflexão e recusa do desajuste das intolerâncias de quaisquer naturezas.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Fantasy Art – Galeria

Angels at the Club Diablo.
James Ryman

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Gabriel saiu para almoçar 8/15

Marco Adolfs


...Tanto essa solidão é uma coisa ruim, que a própria Bíblia, escreveu Gabriel, considerou, logo de início, que seria um absurdo, após a criação de Adão, que ele ficasse só. Disse então Deus, de si para si, “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea.” Foi quando então aconteceu o nascimento de Eva – o encontro com a mãe de todos. Simples. Sombra então parou de escrever e pensou que não era a todo momento, como deixou claro antes, que a solidão era um mal. Afinal um ser humano que desejasse um pouco de paz da vida atribulada que levava deveria procurar, de vez em quando, um pouco de recolhimento e solidão. Jesus fez disso uma prática e inclusive recomendou a alguns de seus discípulos que também o fizessem. Mas um fato tornava-se crucial nesta questão de estar só ou sentir-se sozinho: as abas abertas da porta da solidão famigerada. Só poderia sentir-se só quem não tivesse uma fé firme. Com fé firme, o medo e a culpa se dissipam. Mas ter fé em quê? Na vida que é uma morte. Para um velho como ele é sempre terrível estar só; em solidão. E se ele passar mal? Quem o acudirá? E se ele se borrar todo? O velho poeta Gabriel Sombra sempre pensava nessas coisas. Afinal, era um velho. E velho é como criança. Precisa de “cuidados”. Mas logo Sombra deixou esses pensamentos de lado e passou a teorizar também, e essencialmente, sobre a necessidade que espíritos livres como ele têm de ficar algum tempo a sós. Ter uma oportunidade de travar um conhecimento consigo. Seguir aquela máxima que diz “conhece-te a ti mesmo”. Um conhecimento só conseguido com muita meditação e muita solidão também. Talvez a fé de que falassem todos fosse o caso de o ser, dito humano, não desenvolver dois fatores considerados negativos para quem deseja se relacionar: a mesquinharia e a traição. Quando estava escrevendo sobre isso, Gabriel procurou em seu arquivo interno alguma personalidade da história que pudesse citar como o máximo de mesquinharia e traição... E verdadeira solidão...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Os algarismos luminosos de Deus

Jorge Tufic


Há diversos estilos de livro, modos também diversos sob os quais eles podem ser ou não considerados fundamentais ou singulares. A Bíblia Sagrada, a Divina Comédia, As Aventuras de Marco Polo, Dom Quixote de La Mancha, Tirant Lo Blanc, entre outros, estão nessa lista. Sem falarmos naturalmente da Biblioteca de Alexandria, do Kong-Fu-Tse, de Confúcio, do Tchun-Ti-Sem (obra histórica) e da Grande Enciclopédia Completa das Artes e Ciências da China, publicada em 200 volumes. Lamenta-se, pari passu, a perda de valiosos códices, sorvidos por terremotos, queimados ou destruídos pelas guerras, além dos incontáveis documentos que teriam servido de “cobaias” na longa história do livro, ainda quando se utilizavam folhas de palmeira, tábuas de madeira polida, córtice de árvore, folhas de seda e papel, até que se pudesse chegar às placas de argila, ao papiro e muito depois (já numa outra parte do globo) ao pergaminho de pele de carneiro alvejado e polido.

O mundo, ainda incriado e inumerado nesse plano do conhecimento literário, presenciava o sorteio, por volta de 1503, de apenas 100 pessoas capazes de adquirir as primeiras 100 bíblias impressas por Gutemberg, a não menos famosa “Bíblia mazarina”, com 42 linhas, dois volumes e 1282 páginas! Abria-se, então, o cenário mágico do futuro, quando todo o planeta de adamo iria fazer deste Livro a sua leitura obrigatória e o mais impresso e mais vendido em todos os tempos, sejam de guerra ou de paz. E não é pra menos. Na Bíblia se encontra o romance (narrativas), a poesia (o cântico dos cânticos), a geografia (reconstrução real ou imaginada do espaço físico à época dos fatos descritos), a história (como a de Bossuet), a religião, a estratégia militar, o saber intuitivo, os códigos de ética, a premonição mística, a onomástica (aquela imensa relação de nomes de que saíram as gerações do povo de Deus), sendo, ao lado destas e de outras enumerações, um eterno filão temático em torno de cujos episódios giram, desde séculos, milhares de títulos que buscam, nos temas do Livro Sagrado, recriar esse mundo pitoresco gestado por um núcleo germinal e pela sequência evolucionária das espécies, até que o homem se erguesse do chão bruto, como um gigante mitológico se levanta.

Os números preexistem às letras, ou nasceram juntos? Um filósofo maranhense do século dezenove escrevera A Metafísica da Contabilidade e Pablo Neruda chegara a ver números nas pupilas de um gato. Azougue puro, mensagem de fogo oriunda das camadas subjacentes do verbo primordial, a só referência de que a Bíblia fora inspirada por Deus lhe confere, pra lá da sintaxe indutiva, um leque semântico feito para unir, separar, deduzir ou dar múltiplos aspectos ao jogo aparente dos registros simbólicos a que um sopro maior desagrega, enquanto entendidos com facilidade, para mais adiante apresentar deles uma chave diferente. A matemática elimina, portanto, as contradições requeridas por um texto lógico, humano, ao mesmo tempo em que sonda a mente transcendental da escritura, como parte de um plano do universo sob o qual os homens não atuam senão reduzidos a escribas de uma vontade superior.

Magnum opus seria, deste modo, o volume que pudesse conter a singularidade luminosa de traduzir esse mistério, revelado, assim, da mesma forma como fora revelada a palavra divina, tudo por iniciativa também de uma escolha divina, e, por que não dizer?, do momento ou da hora adequada para que os números, a matemática, se unissem à metáfora da comunicação meramente linguística, dando ao corpus doutrinário da fé aquela centelha peregrina do ordenamento didático. É o que, de resto, um bisonho catecúmeno vê no trabalho do autor deste livro, decididamente convencido de sua autenticidade, desde que tenha sido elaborado, como parece, à margem ou acima de um plano de obra onde a teoria se coloca à frente da pesquisa. Antes, pelo contrário, nele, como na postura de Moisés diante das tábuas conferidas pelo Senhor, a mente deste insere ao primado do decálogo a fulguração de medidas exatas para cada ato, comportamento, ação ou práticas levianas contrárias aos usos e costumes, matrizes da palavra escrita, argumento final que se liga ao conjunto harmonioso entre os terráqueos e o cosmo. Aí está, na capa, a situação emblemática que embrica os extremos: a interlocutora extática ao pé da cruz, em face da resposta que amplia o tamanho dos braços de Cristo ao infinito humanamente insondável.

Conduzido pelas mãos do próprio Francisco Bedê, adentrei as naves deste laboratório elucidativo onde parábolas como a do filho pródigo obedecem a regras inflexíveis de transversais e paralelas; detive-me ante obscuros labirintos biológicos; senti nas faces coloridas pelos vitrais da devoção religiosa a extraordinária concepção de Maria de Nazareth, a agraciada; descobri a curiosa “análise combinatória entre os alfanuméricos da criatura e os do criador; compreendi que o sangue humano é um rio cósmico que navega através de culpas e redenções gloriosas; aprendi que a missão do vivente na terra tem muito a ver com seu desempenho na sociedade a que pertence, burocracia etc.; toquei, com os dedos, a horizontalidade do egoísmo temporal nas equações do homem transacionando com o seu próximo; meditei, por algumas horas, sobre as medidas invisíveis que devem existir no interior de cada um de nós; submeti aos limites máximos do meu raciocínio a imparcialidade da justiça dos homens e a perfeição da justiça de Deus; esforcei-me, com sinceridade, no sentido de compreender a “matemática celestial, diferente da humana ou convencional, já que aquela é “sutil, surpreendente, cheia de simetrias muitas vezes incompreensíveis” (...); estive presente à contagem regressiva da ressurreição de Lázaro; recolhi, com o lenço de minhas lágrimas, os sete cravos reverberantes que prendiam o Corpo Santo ao madeiro que ainda caminha, na fé e no holocausto dos simples, dos humildes e dos pobres; pude, também, imaginar como as trinta moedas de Judas se fundiram em milhares de cânceres da usura, da agiotagem e da condenável exploração do homem-pelo-homem. Não fui mais adiante porque o prazo que me fora dado para a entrega deste prefácio, também era matemático, ligava-se a um tempo-móvel que faz do tempo de amanhã o dia de ontem.

Trata-se, porém, de matéria científica rara, trabalhada numa linguagem simples em relação à complexidade dos cálculos, da pesquisa e das equações tributadas pelo empenho de tornar mais claros os enigmas de Deus. Vai daí que o leitor deverá ter o espírito desarmado contra as dificuldades do assunto, doando-se, por inteiro, ao enlevo das passagens bíblicas ou evangélicas que respaldam a tese, ou Grande Tese do livro.

Indicado, com honra, para concorrer ao Prêmio Nobel de 1999, A Matemática dos Homens e a Mente Matemática de Deus, pela sua originalidade, tem tudo para saldar, com o nosso país, essa dívida agora imperativa. Para glória, também, do Ceará.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lançamentos de Zemaria Pinto

Já estão à venda na Livraria Valer os livros abaixo, de Zemaria Pinto:

A cidade perdida dos meninos-peixes. Literatura infanto-juvenil. Ficção.

O conto no Amazonas. Panorama histórico do conto no Amazonas, com análise de oito contos representativos do gênero, incluindo os textos originais. Ensaio.

O texto nu. 2a. edição, revista. Teoria da Literatura: gênese, conceitos, aplicação. Incluindo uma análise de Morte e vida severina, além da teoria da letra-poema. Ensaio.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Maranhão Sobrinho, o místico de Satã – 3/4

Zemaria Pinto



Na cançoneta “O Amor”, não relacionada como místico, de extração, aliás, claramente romântica, ele já escrevera: O amor é um límpido caminho / que vai direto dar no céu. Percebe-se que Maranhão Sobrinho trabalha o tempo inteiro, então, de caso pensado. A mulher idealizada é a Mãe, mas não a mãe mortal, sim a mãe suprema, o arquétipo da perfeição, da beleza e do amor femininos: Vives em mim num límpido desmaio, / santa nos beijos e nos olhos santa! (“Olhos de Amor”). Além dos já citados, o leitor poderá confirmar o que se diz nos sonetos “Caminho do Céu” e “Celeste”. Com exceção de “Soror Tereza”, todos esses poemas têm conotação propositadamente simbólica, embora a forma assuma por vezes ares arrebatadoramente parnasianos.

Embora não seja a intenção deste trabalho, quero abrir uma pista a futuros estudos sobre a obra de Maranhão Sobrinho, que optem pela vereda psicanalítica. Além dessa imensa Mãe citada, as figuras femininas que percorrem o livro são abstraídas do mesmo veio: “Sarah”, representando a expectativa da morte; “Vênus”, representando o amor; “Romana”, o cristianismo heróico dos primeiros tempos; e uma ou outra Sinhá romantiquinha, além de uma inusitada e bela “Fabíola”:

                    As labaredas púrpuras do Vício
                    queimam-te as formas brancas, crepitando
                    como as chamas cruéis de um Sacrifício!

Perpassadas sempre de sensual calor, todas essas mulheres representam a pureza fria que emana da Mãe. Fabíola, entretanto, é antagônica, é exceção à regra estabelecida. Fabíola, diminutivo de Fábia, derivada do latim faba: fava, leguminosa muito consumida na Roma dos primeiros cristãos. Mas o poeta não a toca, apenas a observa. Isolando-a, o que temos? A Mãe, a mãe suprema, o arquétipo feminino a repetir-se em todas as mulheres. Um caso típico de sublimação edipiana, especialmente se observarmos que a única figura masculina representativa, além de Satã, de quem nos ocuparemos adiante, é a do próprio eu-poeta. Seria essa presença feminina massacrante, em oposição à ausência masculina, uma identificação irrestrita com o sexo oposto?

É de se observar ainda a recorrência de signos relacionados com a busca da pureza: anjos, olhos, lírios, ninhos, passarinhos, noivos, além do mês de maio e seus noivados. Ainda nessa linha, há também um medievalismo edulcorado, como neste terceto de “Romântico”:

                    Desmaiam, cheias de ideais vertigens,
                    as almas virginais dos trovadores
                    sob o balcão das suspirosas virgens...

Esses signos, estejam entre os poemas francamente simbolistas ou entre aqueles de feitura romântica, antagonizam-se diretamente com a segunda linha mestra da poesia de Maranhão Sobrinho: o satanismo. Diretamente influenciado por Baudelaire e Cruz e Sousa, Maranhão Sobrinho constrói uma poética sombria, desvinculada daquela vaporosa influência mística que caracteriza boa parte de sua poesia. Mas é aqui, nestes poucos poemas, que o poeta se realiza em sua plenitude. Pena que em seus outros livros ele não tenha voltado ao tema. Estatuetas (1909), pelos poucos poemas reproduzidos em antologias, e pelo que se abstrai de seu próprio título, seria um livro parnasiano. Vitórias-régias (1911), por outro lado, que eu tenho em mãos graças à generosidade da professora Ivete Ibiapina, que sempre me abre sua biblioteca de raridades, é um livro frouxo, desavergonhadamente romântico. Daí entenda, meu caro leitor, a comparação com Fausto lá na introdução a este trabalho. Poemas de juventude, Papéis velhos guardam rebeldia e ousadia marcantes, que seriam sufocadas pela ira e pelo desprezo da província, cujo bom gosto se guia, por absoluta falta de senso crítico, pelas referências consagradas e convenientes, nunca pelas inovações.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Doença no Novo Testamento

João Bosco Botelho



O simbolismo da saúde e da doença, como consciência da materialidade do corpo, foi tão forte que alcançou as promessas escatológicas dos profetas. Algumas delas definem que, no fim dos tempos, não haverá enfermos nem sofrimentos e lágrimas.

O Novo Testamento (NT) reproduziu muitos parâmetros do Antigo Testamento (AT) sobre as manifestações das enfermidades. Nesses pontos, uma das diferenças marcantes entre o AT e o NT reside na fé de que Jesus Cristo, o filho de Deus tornado homem, curou e ressuscitou os mortos.

A representação da doença presente no NT assume a forma de uma consciência corpórea no pecador, cujo peso das faltas cometidas contra a lei de Deus macula a obra da Criação perfeita em si mesma. A cura dos cegos, leprosos, paralíticos e loucos acaba por legitimar o magistério de Jesus como Filho de Deus e confirmar a promessa dos profetas.

Muitas passagens do NT também procuraram desacreditar os adivinhos e fazedores de prodígios, que desafiavam o poder de Deus. Os milagres assumiram grande significado na legitimação do cristianismo, já que estavam contidos nas antigas promessas dos profetas. Assim, Jesus Cristo também foi compreendido como o maior de todos os taumaturgos.

Igualmente, é possível perceber diferenças entre o AT e o NT em torno dos cuidados coletivos com a saúde. Enquanto o primeiro é rico em recomendações higiênico-dietéticas, relacionadas com as necessidades da época, o segundo ficou estritamente ligado ao enfoque salvífico ou condenatório pessoal.

O poder de Jesus para curar os doentes foi transmitido aos apóstolos como condição fundamental para evangelização, em Mt 10, 1: “Chamou os doze discípulos e deu-lhes autoridade de expulsar os espíritos imundos e de curar toda a sorte de males e enfermidades”, e em Mc 16, 17-18: “Estes são os sinais que acompanharão os que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão em novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados.”

Estas duas passagens do NT representam dois dos mais importantes simbolismos adotados pelos seguidores de Jesus Cristo para efetivar a catequese cristã nos séculos que se seguiram, notadamente, durante e após o avanço das fronteiras que se seguiram à colonização das Américas.

Ilustração: Jesus cura um cego, autor desconhecido.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Gabriel saiu para almoçar 7/15

Marco Adolfs

...Beber entre os rufiões do bar do Armando pelo menos fazia nascer uma grande e certa solidariedade e enlaço entre todos. E após, dormir bêbado, o retirava da possibilidade de sonhar. Gabriel Sombra parou então de relembrar essas coisas e retomou a escrita de onde havia parado. Estava claro então o caráter da solidão entre os homens: um andar sobre uma vale de sombras, com algumas luzes esparsas aqui e acolá. Uma solidão ainda mais cruel para aqueles que, como ele, vivia sem Deus no coração. Sim, porque para os crentes de todas as espécies, a solidão ou o estar sozinho, era uma oportunidade única de dizer: “quem está com Deus nunca está só!”. Não era isso que todos esses exclamavam como uma verdade que de tão absoluta fazia até aparecer uma pontinha de inveja em quem não acreditava nisso? Ou mesmo dúvida? Pois a Bíblia, esse livro para solidários ao culto dessa idéia não estava repleta de frases bastante incisivas e seguras afirmando essa presença constante de Deus? Gabriel resolveu então enumerar algumas tiradas desse livro: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam... Eu sou pobre e necessitado; mas o Senhor cuida de mim: tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus...Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te esforço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça...” Eram tantas as frases, que Gabriel Sombra resolveu parar por aqui. Mas uma coisa ele percebera bem, no que dizia respeito a esse aspecto rocambolesco de sua vida de “estar só”. Foi em determinado dia em que fora convidado para uma mesa de bar, e um de seus conhecidos, um professor do curso de letras da Universidade Federal do Amazonas, lhe caracterizou como o Carlitos, o personagem de Charles Chaplim; outro grande solitário. “Você me lembra o Carlitos, com sua elegante solidão de andarilho”. Na hora ele pensou que fosse uma ironia da parte do professor, mas depois percebeu o quanto da ficção histriônica do personagem chapliniano era parecida com a sua. Pelo menos no que dizia respeito ao aspecto da “pobre elegância”. Realmente, ele era pobre de bens materiais; vivendo em um cubículo repleto de livros e poeira; tendo com única riqueza a sua cultura pessoal. Mas ela, essa tal de cultura, pensou Sombra, o velho poeta solitário, nunca podia ajudar os seus momentos de solidão. Pelo contrário, complicava ainda mais. Mas o que poderia fazer contra? A solidão atinge, em algum momento, a todos e indiscriminadamente. É um sentimento que não escolhe as vítimas. Jovens burros e idosos cultos. Ricos e pobres, santos e pecadores são seus alvos. A criança que não é amada; o adolescente que não é compreendido; o deficiente físico; o feio; o retardado mental; o poeta; o louco excêntrico; o artista rodeado de adoradores; o empresário poderoso; o filho de pais separados e os casados que passam a se distanciar um do outro; os extremamente cultos como ele...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Poema-Coral das Abelhas: por que não?

Tânia Du Bois



                    Que imensa gruta / é o homem / quando / fecha os olhos

Por que não reconhecer que ao ler o livro de Jorge Tufic, Coral das Abelhas, saltam razões para sentir que sua escrita é missão para enriquecer horizontes? Ou seja, que há passagem se abrindo onde encontramos poemas com certo mistério.
   
                   Vejo este azul, / mas vê-lo não basta. / Ele que vai do inseto /
                   ao forno das estrelas / – nas quais, universo, / devora-se e canta.

Por que não se entregar a essa leitura e sentir que autor e leitor dialogam e juntos despertam o pensamento ao coração, permitindo ouvir o silêncio? O silêncio e a rosa / perdem-se juntos. Tufic entrega-se de alma ao bosque, às árvores e às pedras e nos faz sentir o prazer tomar conta da liberdade, como expressão da arte.

                   As árvores do mogno, / a paineira / e a flor do mucunã, /
                   Testemunha que a pedra está grávida e sonha. //
                   Uma família inteira de pedras / conversa neste bosque.

Por que não desfrutar do livro que reflete sentimentos nobres e nos leva a pensar sobre o embalo do tempo, provocando a sensação de bem-estar e de saudade?

                   Do primeiro esquecimento / guardo a pitanga de chuva /
                   a neblina dos rios amarelos / e a bolsa de prata /
                   onde minha mãe também guardava / a solidão metálica / dos búzios.

Por que não reconhecer que Coral das Abelhas abre espaço na literatura, na certeza de encontrarmos nas imagens de Jorge Tufic o sonho a ser revelado através da sua palavra?

                   Poetas e girassóis / estão sendo moídos. //
                   E o pó dos seus dedos / Clareia moinhos.

Por que não confiar em sua imagem e em suas palavras, onde a leitura é situação de ação? Por que não dizer que a poesia de Tuffic traduz e perpetua a liberdade, o que a diferencia das razões e dos sentimentos? Por que não dizer que temos razões para acreditar que Coral das Abelhas é a leitura onde sentimos a brisa nos cabelos? Por que não?

Nos questionamentos residem as respostas, diante de um autor de imagens fortes, como refletido nas páginas do Poema-Coral das Abelhas.

As baladas do poeta Barros Pinho

Jorge Tufic



Modesto, arredio, fechado. Teria sido esta a impressão que me deram os primeiros contatos com o poeta e ficcionista Barros Pinho, cuja obra nos transmite um ponteio harmonioso entre o lírico de Carta do pássaro e os contos de A viúva do vestido encarnado, para citar apenas uma de suas narrativas. Daí a fortuna crítica inserta neste Poemas para orvalhar o outono, dando-nos, assim, uma visão bastante clara de seu empenho em renovar a linguagem, quer seja neste como naquele gênero. São dois painéis, aliás, que nos deslumbram no citado volume, dividido em duas partes: a inicial, com apresentação de Linhares Filho e prefácio de Ubiratan Aguiar, que dão as boas vindas aos 70 anos do autor e aos setenta poemas selecionados de oito livros de sua autoria; a segunda parte é assinada pelos mais notáveis das letras cearenses, dentre estes Pedro Paulo Montenegro, Antonio Carlos Vilaça (da Academia Brasileira de Letras), José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Adriano Espínola, F. S. Nascimento, Pedro Lyra, Sânzio de Azevedo, Caio Porfírio Carneiro, Artur Eduardo Benevides, Antonio Girão Barroso, entre muitos outros.

Recém chegado de uma viagem a Parnaíba, releio estes poemas de Barros Pinho, e logo me surpreendo ao constatar, neles, ecos e lembranças históricas de sua infância, onde ruínas e arquiteturas de um ciclo econômico perdido no tempo, se encantam nas metáforas do Natal, nas imagens do rio, no circo e nas famosas carnaubeiras, cujo óleo ainda rescende nos velhos armazéns abandonados, também construídos com enormes pedras coladas com óleo de baleia. Vêm-nos à idéia que alguns de seus poemas recriam essa atmosfera, ou essa arquitetura parece doer nas paredes, como em “Natal do castelo azul.

A medula de sua poética acomoda-se, por assim dizer, numa direta ou indireta alusão a esses umbigos da terra. Raízes, iluminações do sagrado às voltas com o profano, singularizam os textos de Barros Pinho, consoante define Linhares Filho, ao destacar sua “tríplice vertente”, fenômeno tecnicamente avaliado segundo as três categorias de Ezra Pound, como quer, ainda, o mestre referido. No meu achar, contudo, o autor desta seleta de poemas transcendentaliza-se, e fica mais à vontade, quando sua temática rastreia os caminhos de pasto e solidão, seu rio Parnaíba, o alforje dos antepassados, a terra úmida, os pássaros cativos do azul, sortilégios, encantamentos. Enfim, os chãos da memória, o arco-íris aromático das imagens terrenas, agora transfiguradas em neblina.

Baladas, sim, porque ficam sendo, quase todos os poemas recolhidos na coletânea sob o título de Poemas para orvalhar o outono, uma forma poética bastante “antiga”, já que, bem ao fundo de cada um deles, nós chegamos a “ouvir” a música de instrumentos invisíveis, bem próximos, ou quase, de tocarem a pele das palavras. Baladas livres, com metros relativos ou metros vários, se aderem, aqui, ao modernismo que vem de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, aliando-se, porém, ao “fantástico” e ao coloquial, principais características de seu destino, quer ontem, quer hoje.

Fica difícil, agora que Barros Pinho reúne o melhor de seu canto, e uma fortuna crítica abrangente, acrescentar algo mais ao fascínio deste seu leitor e amigo. Direi, no entanto, que logo ao chegar em Fortaleza, há dezenove anos, já me tornara um de seus frequentes admiradores, com laços mais fortes de amizade no Clube do Bode, ao lado de outros poetas e companheiros, de Audifax Rios e Sérgio Braga. Estamos, hoje, sob a égide da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Em várias outras circunstâncias, tivemos encontros em lugares diferentes do bar e das festas de sábado, como o Hospital do Câncer e a Secretaria Municipal de Cultura, a que ele dera o melhor de si, atendendo a todos sem abdicar da ética, tampouco do senso estético.

Assim, portanto, o cavalheiro sisudo que eu deparei ao iniciar esta resenha, há muito que eu deixei, quem sabe, onde havia um outro em seu lugar. Isto é ficção. Poesia é sempre.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Antonin Artaud, do êxtase à vertigem

Zemaria Pinto



Monument to Antonin Artaud, por Yuri Zupancic.



A modernidade oscila entre o Mal e a Loucura. No meio destes, a solidão é o reflexo da liberdade que o artista logra conquistar para ser fiel à sua criação. A tentação do abismo pode ser uma viagem sem volta. Ao artista, dividido entre o homem-social e o homem-criador, resta a fuga pelos caminhos obscuros do misticismo ou das drogas. Ou de ambos.

Das experiências de Baudelaire, escrevendo sob o efeito do haxixe e do ópio, até a iniciação de Huxley com a mescalina, descrita em As portas da percepção, o Surrealismo abriu às artes, e em particular à literatura, a possibilidade de rejeitar o racionalismo e a lógica, enveredando pelo desconexo, pelo absurdo. O delírio paranóico, síntese lúdica do real desprezado, era o ideal dos que buscavam a alienação como forma de atuar criticamente na sociedade do entreguerras. Experimentar a loucura sem perder o equilíbrio passou a ser o fim de uma arte que buscava a interpretação sensorial do mundo. O artista não pode sentir da mesma forma que o homem comum, logo, ao homem duplo, dividido, deve compensar a transcendência da percepção.

Quando Antonin Artaud, poeta e dramaturgo francês, escreveu a versão definitiva de A Dança do Peiote, relatando sua passagem e iniciação entre os índios Tarahumaras, no México, já estava num estágio avançado dessa caminhada: a vertigem dos loucos que não têm mais poder sobre si. O que Artaud buscara sempre, o domínio da linguagem para fazê-la explodir para além das convenções sociais e das limitações da arte ocidental, acaba por levá-lo à solidão libertária da loucura. Como Holderlin e Nietzsche, Artaud permanece indecifrado: “eu não separo o meu pensamento da minha vida”. O paradoxo que se instala, o artista à frente de seu tempo, só pode ser aceito a partir da compreensão de certa metafísica da dor: “tudo o que não for um tétano da alma, ou não provier de um tétano da alma, não é verdadeiro e não pode ser aceito como poesia”. A crueldade, sobre a qual ele arquitetava a derrocada da linguagem, era, sobretudo, consigo mesmo – o “outro”, aos poucos, tomava o lugar do “eu” solitário, rompido, fragmentado, buscando a libertação.

A homenagem que Jorge Bandeira presta a Antonin Artaud neste Bela crueldade procura resgatar o ethos artaudiano, num ritual dionisíaco, trazendo-o do deserto mexicano para uma Manaus delirante, atualizando-o em seu protesto contra a bomba atômica, mas mantendo-o próximo de seus demônios mais íntimos. Jorge Bandeira não pretende a cura. Antes, decifra um “tétano na alma” para “mostrar apenas a verdade/ do possível grito humano”, ao perguntar “o que fez alguém amar/ com tanto fervor o Teatro/ a ponto de perder-se dentro/ de si?”. É com surpresa e alegria que descubro no excelente ator, já conhecido, um poeta ciente de seu ofício, capaz de levar às últimas consequências a máscara do Artaud com quem ele sonhou, fugindo do lirismo babaca que empesteia a provinciana poesia baré.

Apresentação de Bela crueldade, de Jorge Bandeira, de 1996. 2a. edição, em e-book, 2011.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Maranhão Sobrinho, o místico de Satã – 2/4

Zemaria Pinto


III – O que não se sabe sobre Maranhão Sobrinho


José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho, nascido em Barra do Corda, Maranhão, no natal de 1879, escondia por trás do pomposo nome uma personalidade retraída, tímida. Pouco ou quase nada se sabe dele. Membro fundador da Oficina dos Novos e da Academia Maranhense de Letras, as poucas anotações sobre ele mostram-no como um boêmio inveterado. Alcoólatra, provavelmente. Veio para Manaus, como vinham muitos aventureiros, em busca da fortuna fácil prometida pela borracha. Mas, quando aqui chegou, em 1909, 1910, talvez, já se iniciara o declínio econômico. Sem família, conta-se que morava sozinho num barraco paupérrimo no subúrbio de Cachoeirinha. Imagino o poeta, bêbado, pela madrugada, atravessando a monumental Ponte de Ferro, na 7 de Setembro, ao encontro da solidão. Augusto dos Anjos não teria deixado essa vivência passar em branco. Faleceu, de causa desconhecida, no dia exato em que completaria 36 anos de idade. Os fundadores da Academia Amazonense de Letras, dois anos depois, homenagearam-no postumamente como patrono da cadeira número 7.

A partir da leitura destes Papéis Velhos, nenhuma informação é acrescentada, especialmente porque, transitando entre o Simbolismo e o Parnasianismo, mantinha-se distante de fornecer dados concretos sobre sua vida pessoal. Chama a atenção um poema, “Anjo morto”, a despeito do extremo mau gosto dos últimos versos, em que o poeta refere-se a uma filha morta. No livro Victorias-régias, esse tema retorna, porém como simples descrição de um acontecimento: “O enterro”. Mas alguns poemas parecem falar pelo próprio poeta, como “A um bêbedo”: Alguma cousa terrível, vingadora, / no mundo estulto, te persegue, bebe! A melancolia que domina seus poemas, fingida ou não, parece vir ao encontro dos versos de “Judeu errante”: Onde quer que se grave o meu passo maldito / sinto a terra gemer debaixo dos meus pés...


IV – Entre a veneração à Virgem e o culto a Satã


No ensaio Metafísica e Exílio, Ivan Teixeira inicia uma análise acerca da obra de Cruz e Sousa afirmando que se deve entendê-lo como um “poeta pós-romântico, e não necessariamente um simbolista, etiqueta que não o caracteriza com amplitude nem com precisão”. Esta é, na verdade, a chave para a compreensão de toda a poesia brasileira produzida no período entre os estertores do Romantismo e o advento do Modernismo. Parnasianos e simbolistas, na França, inclusive, trilham caminhos que se bifurcam num ponto e se entrecruzam num outro.

Reis Carvalho, citado por Assis Brasil na antologia A Poesia Maranhense no Século XX, diz que “em Maranhão Sobrinho a ideia é simbólica, o sentimento é romântico e a forma, parnasiana”. Numa época em que um bom soneto poderia fazer a fama de um poeta, Maranhão Sobrinho parece passar ao largo das preocupações com rótulos. É um perfeccionista, como todo bom parnasiano, resvalando aqui e ali pelo sentimental, mas sem perder oportunidade de questionar seu estar-no-mundo, a partir de uma individualidade que procura ver mais além, embora limitado pelo dogma. E aqui temos a primeira das duas grandes linhas mestras que parecem conduzir a poesia de Maranhão Sobrinho neste Papéis velhos: o misticismo, apoiado na fé cristã, mais precisamente, católica.

De um total de 87 poemas, pelo menos 14, todos na forma soneto, podem ser identificados dentro dessa vertente. “Soror Teresa” é o mais reproduzido entre eles, e embora não seja, a rigor, simbolista, trata de um tema caro à escola e a toda uma tradição herdada do barroco: o amor humano submisso ao amor divino, envolto num tênue véu de sensualidade, cujos principais expoentes são Santa Teresa D’Ávila, ela mesma, São Juan de la Cruz e Soror Juana Inés de la Cruz, esta mexicana, aqueles espanhóis. Latinos. Mas o poema é meramente descritivo. O poeta limita-se a descrever o que “observa”. Já no poema “Santa”, é o poeta que se dirige à personagem do título, a mesma Teresa, com uma ponta de luxúria: Santa! O teu nome é meu tormento! “Mãe” é outro poema na mesma linha, mudando o enfoque da sensualidade para a criação: brilha o teu vulto aéreo e sacrossanto / em cada verso que arquiteto e rimo!

Esta Mãe idealizada é apenas um reflexo da Mulher dos ideais de Maranhão Sobrinho. Ela é a “D. Mística”, o “Doce bem”, a “Musa impoluta”, a “Estrela matutina”, a “Cheia de graça”, a “Turris ebúrnea”. Todos esses títulos são usados para designar a Virgem Maria, o supremo arquétipo da mulher no cristianismo (perdão, no catolicismo: é que àquela época não havia muita diferença). Em “Salomé”, do hebraico “Shalem”, a perfeita, ele descreve a visão distante que tem da amada: Os teus seios em flor, que o meu beijo respeita, / são dois poços rosais em rosa florescência... E conclui:

                    Só tu enches de sol minhas crenças remissas
                    e lembra o teu candor, que me traz sob algemas,
                    hóstias, círios, altar, turíbulos e missas!

Aos não iniciados, as palavras do último verso enumeram acessórios rituais do catolicismo. Em “O Salmo da minha Bíblia”, essa ideia é reforçada: Ó Mística Visão dos meus Pesares / (...) mil vezes santa e duplamente pura! Mas é no ótimo “Turris ebúrnea”, torre de marfim, que Maranhão Sobrinho alcança o máximo da expressão místico-sensual:

                    Quero, deixando os pélagos e abismos
                    do mundo, ver-te, lá nos céus, sagrada
                    na grande Páscoa azul dos Misticismos!


                    Dos beijos teus tenho saudade e fome...
                    Minhalma vive, em dor, crucificada
                    nas cinco luas cheias do teu nome!

Ele faz planos para o além-vida, percebendo que a morte se aproxima. Seus sofrimentos físicos e morais cá na terra fazem dele um mártir, a quem a Virgem certamente acolherá. Essa é a única chance de unir-se à amada, de cujos beijos tem saudade e fome. Há uma tensão bem arquitetada entre o depressivo desejo de morte, “deixando os pélagos e abismos do mundo”, e a felicidade do encontro com a amada eterna, na grande Páscoa celebradora da permanente primavera mística, para, voltando os sentidos ao presente, entregar-se ao êxtase da dor, usando a imagem máxima representativa do cristianismo, a crucificação, na adoração das cinco letras do nome amado: MARIA.

Ilustração: capa da segunda edição de Papéis velhos... roídos pela traça do símbolo,
de Maranhão Sobrinho (Manaus: Editora Valer, 1999), onde este ensaio foi publicado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Flagrantes de uma outra Amazônia

Ricardo Lima


A literatura feita na Amazônia até os anos cinquenta do século XX sempre foi acometida daquele mal chamado de “influência de Euclides da Cunha”; uma estética que primava pela linguagem excessivamente carregada, vocabulário muitas vezes pedante e uma incapacidade de enxergar a real dinâmica do hinterland amazônico.

Pode-se dizer também que essa literatura centrava-se principalmente em descrever a paisagem amazônica, suas florestas, rios e “mistérios”, silenciando sobre a realidade do homem amazônico, seus conflitos, dramas e seus sofrimentos. Aqueles autores da velha vertente da literatura positivista ou naturalista transmitiam uma visão completamente deturpada do ribeirinho, mostrando-o como um ser passivo diante da imensidão da natureza, sem consciência e sem a capacidade de criar, ele mesmo, os caminhos para tornar-se o protagonista de sua história.

A mudança na perspectiva de como os nossos intelectuais enxergavam o ribeirinho só começaria a mudar em meados do século XX, com a chegada tardia dos ideais de renovação artística trazida pela semana de arte moderna, com lançamentos como Banco de canoa, de Álvaro Maia. Contudo, foi a partir da década de 1960, com O outro e outros contos, de Benjamin Sanches, Mundo mundo vasto mundo, de Carlos Gomes, e principalmente com o hoje clássico Historias de Submundo, de Arthur Engrácio, que propiciou a ruptura completa com a velha literatura dos bacharéis.

Nascido em 1929, em Manicoré, e falecido em 1997, em Manaus, Arthur Engrácio fez o caminho que muitos condenados fizeram, mas que muitos poucos lograram trilhá-lo com êxito — migrou para Manaus. Mas teve sorte. Formou-se em direito, tornou-se funcionário publico e começou a atuar como jornalista, além de ter sido um destacado membro do Clube da Madrugada.

Não obstante ter se tornado um privilegiado, Engrácio nunca esqueceu suas origens e foi através da literatura que retratou os dramas que vivenciara durante a infância em Manicoré.

O seu primeiro livro já trazia todos os elementos que seriam endêmicos na sua obra. O titulo já dava uma pista de quais seriam os temas abordados pela obra — os sofrimentos e dramas do ribeirinho e a exploração a que estava submetido pelos coronéis seringalistas. São os relatos e confissões de um mundo à parte, de uma Amazônia talvez esquecida, de um verdadeiro submundo, onde o poder público não chegava, e onde homens e mulheres estavam à mercê da vontade de uma decadente elite extrativista, que ainda mantinha o seu poder de mando sobre o povo do interior.

Engrácio insere-se na então nova tradição da literatura regionalista de critica social, cujo principal expoente é sem duvida Graciliano Ramos. Sua necessidade de retratar as misérias do homem do interior o fez escrever de maneira direta, sem muito apelo a adjetivos, exatamente como fez o autor de Vidas secas — sua maior influência.

Os contos de Engrácio fogem um pouco daquela concepção clássica da historia curta, com começo, meio e fim. O autor procura desnudar a vida interiorana em forma de pequenos flagrantes onde são mostrados os dramas, as injustiças e os desejos do homem que habita a beira dos rios, cultiva sua agricultura na várzea e extrai borracha nos seringais. Muitos de seus contos chegam a ser chocantes para o leitor — algo próximo do que fez Antísthenes Pinto com o polêmico romance Terra Firme.

Historias de submundo inicia-se com o conto “A revolta”, que narra a historia fantástica de uma rebelião engendrada por um grupo de seringueiros contra os desmandos do patrão; outras histórias, como “Pescadores”, “O cão” e “Zé Perequeté” são como pequenas apreensões da condição de vida no interior. Já “O coronel”, que conta vingança de um senhor de terras contra um de seus funcionários que estariam se envolvendo sexualmente com sua filha, é onde fica mais explícito a intenção do autor de relatar a tirania e as crueldades daqueles que um dia foram os verdadeiros senhores feudais na Amazônia — os grandes seringalistas.

Em “Filho de arigó”, uma pequena obra-prima do conto amazonense, Engrácio relata, a partir de sua experiência de infância, a condição de miséria e abusos a que estavam submetidos os órfãos nas cidades do interior, dados “de favor” para ricas famílias, sob a justificativa de serem educados, mas que na verdade tornam-se verdadeiros criados, sob a mais tétrica condição de exploração do trabalho infantil.

Descrever a vida no interior do Amazonas não é o único tema da ficção engraciana. O autor de Ajuste de contos também desenvolveu com maestria temas urbanos, com histórias como “Claudia”, “Jorge” e “O segredo do réu”. A primeira narra os dilemas de uma mulher infeliz, que está a ponto de abandonar o marido e fugir com o amante, enquanto a segunda narra a vida infeliz de um bêbado; já a terceira história mostra o relato de um homem que cometera duplo homicídio — matara a mulher e seu amante.

Apesar das historias trágicas, Historias de submundo também reserva momentos cômicos, presentes em dois contos: “No vizinho” (este é o que mais é influenciado pelo método de Graciliano Ramos) e “Uma historia de trancoso”, um “causo” contado por Manuel Bodó, em uma de suas caçadas no meio da mata.

Normalmente, a mídia, a literatura oficial e certos grupos musicais costumam mostrar a vida interiorana de maneira ingênua, como se a vida na floresta fosse como num verdadeiro éden e o ribeirinho um ingênuo que não conhece a fome ou a exploração. É preciso ler um clássico como Historias de submundo, de Arthur Engrácio, para percebermos que existe uma Amazônia bem diferente e de cores bem mais cinzentas que aquelas que o status quo costuma pintar — uma Amazônia do trabalho escravo, de execuções sumárias, abusos, estupros, doenças e subdesenvolvimento.

Acredito que Historias de submundo serve de complemento, ou mesmo introdução, à leitura de outra obra essencial sobre a vida do interior, Servidão humana na selva: o aviamento e o barracão nos seringais da Amazônia, do sociólogo Carlos Correa Teixeira. Como escrevera José de Souza Martins, ambas reúnem “os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia (…)” e “expõe como feria o látego de mecanismos econômicos que, ao subjugar alguns, subjugava a todos e nos tornava pobres de condição humana. E ainda nos torna.”


Ilustração: capa da edição de Histórias de submundo, de Arthur Engrácio (Manaus: Valer, 2005).

Cineclube Baré – ciclo Cinema e Naturismo








O Cineclube Baré apresenta, nesta sexta feira, dois documentários: Tableau Vivant, sobre o trabalho da artista multimídia Sarah Samall, e Colina do Sol, sobre a maior comunidade naturista da América Latina.

Quando: 11 de fevereiro, às 18h30min

Onde: altos da Livraria Valer

Entrada Franca

A doença no Antigo Testamento

João Bosco Botelho



A necessidade de estabelecer as normas de organização social levou os hebreus a amalgamar a tradição oral na Lei, que deveria ser cumprida por todos em razão de ser inspirada na irradiação da memória onipotente e justa em si mesma — Deus. Seria na obediência à Lei que os homens mortais se aproximariam do Deus imortal. Essa relação estava inserida em conjunto de regras culturais, religiosas e morais, fundamentais para a sobrevivência do povo judeu. A máxima de Israel dizia: “Escuta, oh! Israel: o nosso senhor (a Lei) é nosso Deus, o Eterno e único.”

O amparo inquebrantável dessa relação religiosa, consolidada no Antigo Testamento (AT), edificou um dos mais eficazes conjuntos de normas de saúde pública da humanidade, em grande parte, responsável pela sobrevivência do povo de Israel.

A Medicina contida no AT foi, em alguns aspectos, sobreposta pela da tradição oral, transcrita no Talmude, entre os anos 100 a.C. e 1.500. Os registros interpretativos foram realizados pelos sábios rabinos durante o período conhecido como o da tradição oral. A tentativa de materializar a doença é percebida a partir do seu sentido em oposição à saúde, sendo esta representada pelo bem e aquela, pelo mal. Dessa forma, foi possível oferecer o sentido histórico-teológico, capaz de formar no pensamento coletivo uma divisão nítida pelo afrontamento da saúde como bem, luz, justiça, limpeza e bondade, com a doença sinônimo de maldade, escuridão, injustiça e sujeira.

A saúde e a doença passaram também a representar o poder de Deus sobre os homens, oferecidas, respectivamente, como prêmio ou castigo pela obediência à sua Lei. Ficava relativamente fácil explicar por esse mecanismo o aparecimento das enfermidades nos pecadores, mas difícil de explicá-las nos obedientes e tementes a Ele. Por meio dessa regra binária de prêmio-castigo, ficava também confuso caracterizar a hierarquização da falta cometida e justificar como seriam distribuídas entre os homens as diferentes manifestações da vontade divina, como a lepra, a loucura e a cegueira, que os excluíam do convívio social.

Apesar de a associação simbólica da doença ao pecado – no sentido de mau, escuro e dor – ter sido concretizada antes do monoteísmo judaico, vários documentos, dos papiros egípcios às tábuas de escrita cuneiforme da Mesopotâmia, que tratam do assunto, deixam bem clara essa associação. Porém, somente nos primeiros tempos da teologia judaica pode ser encontrada a idéia de doença como realidade contrária à intencionalidade de um Deus bom.

Ilustração: instrumentos do rito da circuncisão.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Gabriel saiu para almoçar 6/15

Marco Adolfs


...Sombra recomeçou então a escrever relatando o caso de Jó, o proscrito e infeliz homem; desprezado por irmãos, parentes, amigos, empregados e até pela esposa. Mas, pensou o poeta como conforto, “será que para ser forte torna-se necessário ser só?”; ou pelo menos “andar de vez em quando pelo vale da sombra da morte”. Se o próprio Jesus passou por esse sufoco, o que não poderá passar o simples homem? pensou, ao lembrar-se de que o Nazareno, segundo o que foi relatado por aquele tal de Mateus, retirou-se de perto do tumulto em um barco e foi para um lugar deserto; à parte; e, quando a multidão ficou sabendo, seguiram-no a pé desde as cidades. O pobre do Jesus não podia nem orar em paz, pensou Gabriel Sombra, rindo. Para poder orar de forma útil e produtiva, faz-se mister a solidão, escreveu então, seguindo a sua linha de raciocínio. Ao pensar em oração, as associações mentais o levaram na direção da única litania que ele conhecera com profundidade quase que eclesiástica: as rezas etílicas de todos os solitários do mundo; aquelas que acontecem nas mesas e balcões de bares. Quase como um catarse enlouquecida; uma confissão de dores. Naquele confessionário próprio para os esquecidos e solitários se lembrarem de que existem uns para os outros; e que – para evitar que puxem o gatilho de um revólver apontado para a própria cabeça ou cometam harakiri nos seus lugares solitários de retorno –, usam como um templo erigido à um outro tipo de esperança: a do encontro fortuito da amizade necessária. Beber, e depois dormir. Esquecer do que dói no peito. Quantas e quantas vezes ele não fez isso, mesmo sabendo que quando acordasse, o mundo ainda estaria lá fora, com a realidade cruel de uma outra espécie de loucos, o obrigando a sobreviver? Sombra lembrou então de uma dessas suas noites etílicas em que tentou domar a solidão bebendo todos os tragos estragados da vida. Aquela garrafa que poderia ser a última e que parecia ser a primeira lhe acomodando a alma não resolvida de sonhos e desesperos. O obrigando a gritar seu grito primal para os companheiros. E, quando chegou em sua casa, o corpo dolente abatido com os tiros do álcool, finalmente descansando dos milhares de pensamentos alienantes e de uma solidão acachapante. Lembrou das vezes em que deitou em sua rede e vomitou essa amarguras; deixando-se prostar por cima do seu próprio vômito; e, após, entregando-se ao esquecimento, com os braços de Morfeu levando-o em direção ao nada. “Pelo menos não pensava”, pensou...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Possível soneto para Marcos Gomes

Jorge Tufic


Com meu alef te brindo por ser abd
Das suras no adaã que faz o adab
Dos sábios na adafina da linguagem
Dando ao soneto acordes de alaúde.

Navegas como a lua sendo alfange
Despertando anafis, andaluzias,
Polissêmicos fogos, Meca e pedra,
Tal fossem os arabescos de alefris.

Sem aravias, o alcatrão destilas
De um novo idioma a síntese, o acanto
Trançado com jasmins para o salã.

Despertas Mai das noites indormidas,
Serralhos do Butão; e esta vontade
De ser derwiche, um zégel solitário.


Glossário


Alef- principal letra do alfabeto arábico.

Abb- servo; escravo de.

Sura- série, sequência, o mesmo que surata. Cada um dos capítulos do Alcorão.

Adaã- fala do muezin do alto do minarete, convidando os fiéis à oração.

Pedra- Pedra Negra, objeto que é o centro simbólico de todo o Islã; foco material de toda a religião muçulmana.

Adafina- coisa oculta; tesouro.

Anafil- longa trombeta usada pelos mouros.

Alefris- incisão, corte, entalho.

Aravia- arabia, linguagem atrapalhada e difícil. Algaravia.

Salã- a paz (de Alá seja contigo). Palavra de saudação ou cumprimento. Salmo, salema.

Mai- pseudônimo de Maria Zlady, poetiza árabe contemporânea.

Serralho- harém.

Derwiche- místico de seita islâmica.

Zégel- bailado; gênero de poesia popular em Al-Andaluz.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sinto que o tempo abate sobre mim sua mão pesada

Jorge Bandeira


Permitam-me alterar meu estilo de escrita neste último lampejo de crítica teatral do ano que ora agoniza. Falarei como um narrador que teve um ano bom no Teatro, que assistiu boas peças e excelentes interpretações, esta com o ator Renato Borghi coroou meu ano de êxito, fechei bem esta safra 2010 de Teatro, aqui em Manaus. Lembro que ia assistir à palestra-espetáculo do Borghi sobre o Teatro Brasileiro, mas por uma questão de arcada dentária o Borghi não teve condições de apresentar seu trabalho no dia previsto, chegando com uma puta dor de dente em Manaus. No outro dia não pude assistir, levava minha Carolina, de 5 anos, para algum festejo natalino. Assisti, porém, a exibição do filme-documentário O rei da vela, no teatrinho do SESC, onde tenho gratas satisfações. Esse teatrinho deve ser mágico ou algo parecido, pois sempre nos revela surpresas tais que nem mesmo o majestoso Teatro Amazonas é páreo para essas revelações estéticas e teatrais. Uma delas foi este monólogo magistral intitulado Três cigarros e a última lasanha.

Em cena, o ator Renato Borghi, um mestre na arte da ilusão, nome que está amalgamado com a própria história de nosso Teatro, um ator que não basta em si mesmo, reinventando-se a cada projeto – acho até que ele pode ser o nosso Benjamin Button, novíssimo a cada ano que passa. Deve ser um alquimista perdido em nossa ribalta, descobridor de uma pedra filosofal do teatro, e que, gentilmente, passa a fórmula desse rejuvenescimento para a gente. Ouso dizer, também, Borghi não precisa apelar para nada, tudo é feito de uma forma tão natural e bonita, arte mesmo, nada que lembre o teatro romano em sua fase de degeneração.

A peça, escrita pelo Fernando Bonassi(de outro petardo teatral, o monólogo Entre ferragens) e pelo Victor Navas, recebeu premiação na terra onde “deus é fidel”. Com todo o merecimento, não tenho dúvidas. Do que assisti em Manaus, vou ter sempre em minhas reminiscências o alto poder de sedução de Renato Borghi, de sua precisão como ator, da força que imprime em seu trabalho, de uma voz que ele trata como uma partner, que a carrega para onde quer, e que nos leva ao ponto precioso da reflexão num texto que é um libelo sobre a determinação do homem num mundo que teima pelo absurdo e burocratização de situações extremas, condutoras aos níveis de sufocamento dos seres humanos. Absurdo? Não creio. Por mais que o texto de Bonassi e Navas remeta a algumas situações da dramaturgia de um Ionesco (lembro de um sobre a mecânica absurda de se preparar um ovo), ele tem um charme, um propósito claro em sua dinâmica. É um texto que me impressiona pela simplicidade e clareza dentro do caos em que a personagem, talvez com um transtorno obsessivo compulsivo, se encontra ao perder, de forma inexplicável, sua mão, e toda situação que advém desse fato deveras caótico, e que só torna a situação existencial dele inusitada, mas plausível de acontecer com qualquer um de nós.

Por isso estamos tão próximos dele, de suas loucuras, de seus surtos, de suas alegrias e decepções com este mundo, com as pessoas que o cercam, com as autoridades médicas do corpo multidisciplinar, com os transeuntes. Eis um homem que leva agora sua “mão de Eurídice” artificial, um marionete da circunstância da vida. Essa mão que o faz refletir sobre sua vida, seus amores, e que nós, espectadores destes 45 minutos de humor e sarcasmo, nesta tragicomédia, nos alentamos e acalentamos, sentimos compaixão por este homem maneta, por este ser subtraído de sua completude corporal.

Renato Borghi nos brinda com um retrato desse personagem em 3D, sim, pois consegue nos transmitir a integridade de sua personagem, sua verbalização, o que se passa em sua mente, seu relato inverossímil que se torna verossímil, a expressão de sua emoção, sua reflexão e suas decisões, oscilantes ou não. Tudo que o espectador precisa para pulsar junto com ele, carregar também esse fardo pesado, viver com ele e por ele. Tudo isso com rigor e meticulosidade teatral, mas não um Teatro da assepsia da técnica, mas com um equilíbrio, como o definido por Denis Diderot em seu conhecido artigo “O Paradoxo do Comediante”. Uma balança fiel entre a razão e a emoção.

Renato Borghi é um mestre, usa com propriedade o monólogo interior, ele, um dos mentores do Teatro Oficina, atravessa sem pressa o mar de Stanislavski, não tem receio das ondas perigosas da interpretação. Como é fascinante assistir a um trabalho com um ator que sabe das nuances necessárias para fazer com que embarquemos no jogo lúdico chamado Teatro. Borghi canaliza sua emoção com apuro, o texto é falado e nada se perde, mesmo nos sussurros eventuais do personagem.

A iluminação do espetáculo cristaliza as passagens de forma eficaz, e é feita para induzir ao espectador que algo na persona, no ânimo e na emoção do personagem alterou-se, trabalho que a direção imprimiu como marca indelével e que funciona do início ao fim da peça, incluindo aí as marcas pontuais e geométricas da movimentação do infeliz personagem que perdeu a mão. E de absurdo em absurdo o personagem também lembra um clown urbanoide, um ser engolido pela cidade em sua loucura citadina.

A sonoplastia de extremo bom gosto é outro aperitivo para se acompanhar com essa lasanha teatral, colocar “Morphine”, do saudoso Mark Sandman, é assegurar coisas agradáveis em níveis de audição. O som da cafeteira nos faz tomar o café junto com o maneta carismático, de conversar no restaurante e dizer: quando você volta pra Manaus, meu chapa, vai demorar muito? Você precisa dar uma maõzinha pra gente aqui nesta cidade encravada no meio da Floresta Amazônica. Obrigado Borghi, promíscuos e embaixada do Teatro brasileiro, terminei o ano assistindo a um grande Teatro.

Manaus, 30 de dezembro de 2010

Três cigarros e a última lasanha

Dramaturgia de Fernando Bonassi e Victor Navas.
Direção de Debora Dubois.
Com Renato Borghi.
Cenário e Figurino: Cyro Del Nero e Debora Dubois.
Sonoplastia: Cacá Machado.
Iluminação de Alessandra Domingues e Marcos Franja.
Duração: 45 minutos.
Apresentada em Manaus, no Teatro do SESC, nos dias 18 e 19 de dezembro de 2010.

Ilustração: Renato Borghi em cena de Três cigarros... Foto de Jorge Bandeira.
Obs: o título foi tomado emprestado de um poema de Drummond.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Maranhão Sobrinho, o místico de Satã – 1/4

Zemaria Pinto*


são páginas, talvez, feitas de gritos
(Maranhão Sobrinho)

Ninguém está só ao morrer.
(Antonin Artaud)

I – O calor provinciano


A crítica literária costuma olhar o passado com a perspectiva do presente. Autores são “revisados” sempre tendo em vista a sua aproximação com os contemporâneos. Autores que não lograram reconhecimento em vida, tendem a se perder no tempo, a menos que se descubra que o seu esquecimento foi fruto da incompreensão de sua época, por estarem à frente dela. Essa é a lógica da arte. Grandes poetas, sobram cinco ou seis por século. Os cânones vão se afirmando e colocando no esquecimento aqueles que não passam no crivo da permanência.

O que dizer, então, dos poetas provincianos, aqueles que não conseguem se impor nem mesmo entre os seus, que não reconhecem nele senão um a mais na horda dos que se entregam à indolente tarefa de espicaçar as musas? A província não tem história e nem mesmo veleidades de alta cultura. A arte é um subproduto do imediato, do que se consome em todos os lugares. A província não tem pudor por não ter cultura porque sua cultura é a cultura do mundo. De todo mundo.

Mas não use a carapuça ainda, meu caro leitor (assim me expressarei, leitora, mas só por conveniência; afinal, são milênios de patriarcado). A crítica de arte que se deixa levar pelo sentido ideológico, cobrando posições de seus artistas, é uma prática provinciana, seja em Paris, Londres ou São Paulo. Maranhão Sobrinho, o poeta-objeto desta breve análise, ainda hoje é visto como um produto da óbvia indigência das nossas letras na virada no século passado. Maranhão Sobrinho era um bêbado, um pária, um versejador medíocre, a quem a província sempre quis ver pelas costas. Entre seus pares, poetastros a grande maioria, era ridicularizado pelo exotismo de apreciar os poetas franceses malditos – que, aliás, já publicavam havia 50 anos.

Essa pressão, exercida pela falta de respeito que a província tem aos seus artistas, fez de Maranhão Sobrinho um caso raro na literatura brasileira: um excelente poeta que, em não mais de 3 anos, se abastarda de tal modo que se torna irreconhecível até de si mesmo. Um caso raro de involução, pois o seu trabalho mostra um recuo radical em relação às propostas iniciais. Talvez em busca de reconhecimento, ele abdicou de sua obra, como um Fausto de opereta. Mas era tarde.


II – De Paris para o mundo, incluindo o Brasil


Ao final deste ensaio, o caro leitor perguntar-se-á por que não comentei acerca do Romantismo e do Parnasianismo, que, então, terão sido tão citados quanto o Simbolismo; antes que o faça, respondo. Na obra de Maranhão Sobrinho é o Simbolismo o traço mais marcante, onde as tensões entre linguagem e realização poética atingem momentos de alta ressonância. E todo o resto é literatura, como diria Verlaine.

O Simbolismo enquanto movimento estético é uma tomada de posição no mundo. A sociedade burguesa da segunda metade do século XIX tem seus valores questionados por um grupo de poetas que têm as mesmas aspirações em vários lugares diferentes. Ao positivismo, ao naturalismo e ao materialismo que grassavam à época, eles opunham a valorização do individual e, por consequência, do espiritual. Adeptos de Schopenhauer e Nietzsche, filósofos que pregavam o voluntarismo, esses artistas queriam passar ao largo das grandes aspirações românticas e, voltando-se para si mesmos, construir uma linguagem nova, que tivesse o mesmo poder abstrato da música: comunicar sugestões. A linguagem escrita seria representada não mais por objetos concretos, mas por símbolos que exprimiriam, de forma sugestiva, o que vai na alma do indivíduo. Desde as Flores do Mal, de Baudelaire, publicado em 1857, a crítica é unânime, ou quase, em apontar a obra de Stéphane Mallarmé como o ponto mais elevado do Simbolismo.

Em O Castelo de Axel, Edmund Wilson identifica duas vertentes principais no Simbolismo francês: a “sério-estética”, onde se filiariam Baudelaire, Verlaine e Mallarmé, e a “coloquial-irônica”, representada principalmente por Tristan Corbière e Jules Laforgue. No ensaio “Antipoesia no Simbolismo”, Augusto de Campos assinala que “não tivemos, praticamente, no Brasil, representantes significativos do ‘coloquial-irônico’(...), que se filiava ao gênero maldito do humor, da poesia-crítica, destinada, por equívoco, a não ser levada muito a sério pelos estetas da poesia-poética”. Mais adiante, ele ressalva que a projeção mais radical da vertente “sério-estética”, aquela que se formou sob o signo de Mallarmé, também não teve representantes no Brasil – “com exceções de poemas, mais do que de autores, e de versos mais do que de poemas”. O que terá restado então do Simbolismo no Brasil, perguntará o leitor, cioso dos nossos patrícios simbolistas. No juízo de Augusto de Campos, nossos simbolistas não passaram de epígonos do satanismo de Baudelaire e da musicalidade – a música antes de todas as coisas – à Verlaine.

Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens fazem parte daquele seleto grupo a que me referi no primeiro parágrafo deste trabalho. Eles são a matriz e a referência do movimento simbolista no Brasil e seu elo de ligação com o mundo, especialmente o da nossa língua, onde também merecem destaque, sempre tendo em mente o que se escreveu lá em cima, os portugueses Camilo Pessanha e Antônio Nobre.

Mas não se pode deixar de citar um garimpeiro de poetas, Andrade Muricy, que, em 1952, publicou, em três volumes, o Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro. Foi graças a esse trabalho brilhante, presente em todas as bibliografias que tratam seriamente a literatura brasileira, que muitos poetas, até então no ostracismo, a maioria já morta, aliás, voltaram à vida literária. Cito um caso: Pedro Kilkerry (1885-1917), baiano, que mereceu do já citado Augusto de Campos um livro inteiro de ensaios: Re-Visão de Kilkerry. Cito outro: Maranhão Sobrinho, que mereceu do mesmo bom Augusto, em O Anticrítico, palavras que só um poeta escreveria sobre outro. O título do pequeno texto, um quase-poema, sintetiza tudo: “Stefânio Maranhão Mallarmé Sobrinho”.


(*) Ensaio publicado no livro Papéis velhos... roídos pela traça do símbolo, de Maranhão Sobrinho,
2ª edição, Manaus: Editora Valer, 1999.

Ilustração: fotografia de Maranhão Sobrinho – data e autor desconhecidos.