Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cidade nua: máscaras da decadência

 

Zemaria Pinto

 

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

(T. S. Eliot)[1]

 

O âmago da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a cidade.

Baudelaire teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2] O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente só.

Para Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para parecerem profundos.”[3]

Mário de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo...”[4]

Para expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas, Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5] dando o poeta lugar ao prosaico narrador.

São dez contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns, como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis, como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito assim parece simples, mas não.

Para mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas, cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar, nos contos de Cidade decadente: personas.[6]


Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.  

De bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.

Um personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da “virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência) eterna.

Nesta breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana, alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a exceção.


Na cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p. 109)

 

Mas a sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.

Leitora, leitor, leitore (?): liga aí o GPS...

 



[1] ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.

[2] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

[4] ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo: Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.

[5] apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.

[6] SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor, 2024.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Gal Costa em quatro ou cinco tempos

 De musa da Tropicália a diva do samba-canção

Zemaria Pinto


“Eu não tenho medo de mudar, gosto do novo e encaro os possíveis erros de frente, porque sei que só assim se pode criar. O caminho é feito de descobertas e sou feliz assim.”

(Gal Costa, em 1970)[1]

 

 

Se você chegou até aqui é porque percebeu que o título é uma provocação. Não há apenas duas Gal, mas múltiplas. Tomemos a mão da menina extremamente tímida, que, aos 24 anos, ainda quase Maria da Graça, iniciou uma revolução estética e de costumes – enquanto o país era dilacerado por uma ditadura sanguinária. Gal, sem pegar em armas, fez a sua parte na Resistência.

O primeiro álbum de que ela participou foi Domingo (1967), de Caetano, onde era coadjuvante de luxo. Caetano, na contracapa, justifica a parceria: “Gal participa dessa qualidade misteriosa que habita os grandes cantores de samba: a capacidade de inovar, de violentar o gosto contemporâneo, lançando o samba para o futuro, com a espontaneidade de quem relembra velhas musiquinhas”. Como se percebe, Caetano ainda não abrira a mente para as inovações que ele, Gil, Tom Zé, Torquato Neto, Capinam, Os Mutantes et cetera promoveriam a partir do ano seguinte, quando lançaram Tropicalia ou Panis et circencis, onde Gal seria novamente figurante, não mais cantando sambas...

 

Em 1969, enfim, o primeiro solo: na capa, o seu nome e o rosto em close, saindo de um look de plumas, o olhar perdido nalgum vão do éter... “Não identificado”, de Caetano, a primeira faixa, era o primeiro estranhamento. O arranjo do maestro Rogério Duprat, pleno de cordas, colocava o ouvinte numa sala de cinema, onde se projetava um filme de sci-fi, mas a poesia da letra apontava, num processo metalinguístico, para algo mais singelo: apenas um “iê-iê-iê romântico”. E Caetano cria uma rima interna sublime: “um anticomputador”: romântico x anticom...

Na sequência, “Sebastiana”, do repertório de Jackson do Pandeiro, com uma levada de rock, no arranjo de Gil, era o tributo à tradição, um dos pilares da Tropicália. “Saudosismo”, de Caetano, cumpre a mesma função, ao reverenciar criticamente a Bossa Nova: “as notas dissonantes se integraram ao som dos imbecis”. E conclui com uma avalanche de “chega de saudade, chega de saudade, chega de saudade...”. O novo chegara.

E Gal repete “Baby”, gravada com Caetano, uma das mais emblemáticas e polêmicas do álbum manifesto Tropicalia (assim mesmo, sem acento). “Leia na minha camisa: Baby, I love you”. A letra de Caetano reforça a ideia de Iê-iê-iê romântico e clama “você precisa ouvir aquela canção do Roberto”. E o álbum traz duas delas, com o indefectível parceiro Erasmo: “Se você pensa” e “Vou recomeçar”. A MPB se expandia, ainda que a contragosto dos caretas.

O álbum traz ainda outras canções de Gil, Torquato Neto, Caetano, Tom Zé e Jorge Ben. A polêmica “Lost in the Paradise”, com letra em inglês, era uma agressão ao purismo de muita gente. Mas, a composição mais forte do álbum, uma parceria de Gil e Caetano, era “Divino, maravilhoso” – uma alusão à luta armada que se desenvolvia nas sombras, com a imprensa censurada, noticiando apenas os releases paridos nos quartéis: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. No mesmo ano, a dupla de compositores gravou “Alfômega”, no terceiro disco de Caetano, uma letra hermética, onde Gil grita ao fundo o nome do guerrilheiro Marighella. A censura comeu mosca. Marighella, assassinado covardemente em novembro daquele ano, hoje é História.

 

Talvez para compensar os dois anos como coadjuvante, que ela, baixinho, dizia que foram anos de aprendizado, Gal lança ainda em 1969 o segundo disco solo, radicalizando as propostas do disco anterior. Na capa, apenas as três letras do primeiro nome sobre um quadro policrômico, com representações de animais míticos e o seu rosto, em meio perfil, em destaque, no lugar de uma possível assinatura. O quadro era uma leitura do artista plástico baiano Dicinho, creditado como Dircinho, do conjunto das músicas do disco – de “Cinema Olympia” a “Pulsars e Quasars”. Ouça o quadro (ou a capa) e veja o disco. Ou vice-versa. A música psicodélica invadia o Brasil.

Gil, Caetano, Jorge Ben, Roberto/Erasmo e a dupla Macalé/Capinam assinavam as nove faixas do disco. Lanny Gordin (ainda chamado Alexander) faz a diferença na guitarra, correspondendo plenamente aos arranjos sempre ousados do maestro Duprat.

Entre as canções, destacam-se “The empty boat”, de Caetano, só pela provocação; “Cultura e civilização”, de Gil, um rock pesado, onde Gal solta a voz com personalidade; “Com medo, com Pedro”, também de Gil, parece dialogar com “Divino, maravilhoso”: “quem pisar no fundo / encontra a porta / do fim de tudo”; “Objeto sim, objeto não”, do quase onipresente Gil, permite ao maestro Duprat exercitar seu lado “música concreta”, com a fragmentação da melodia em sons que se encontram mais adiante, guiados pela vibrante voz de Gal. “Pulsars e quasars”, de Macalé e Capinam, é outra ousadia do trio Gal-Gordin-Duprat, numa síntese: “os ruídos terão sentidos e teus sentidos perdidos”.

“Cinema Olympia”, de Caetano, numa levada de rock, “Tuareg”, de Jorge Ben, num exótico arranjo árabe, não comprometem. “País tropical”, entretanto, do mesmo Ben, com o auxílio luxuoso de Gil e Caetano na interpretação, não é inesquecível, tantas as regravações dessa música, que, para meu gosto, tem o agravante de destoar do momento histórico. Mas, você não precisa concordar comigo, querida leitora.

Só falei de oito músicas? Ah, tá, faltou “Meu nome é Gal”, que segundo todas as fontes históricas, disfóricas e folclóricas foi feita só por Erasmo, entrando Roberto como sócio e não parceiro. Mas, o que importa é que o iê-iê-iê é fofíssimo, começando como um anúncio de classificado – de uma moça chamada Gal, de 24 anos, amiga de Gil e Caetano e mais um monte de gente boa, procurando namorado – e termina com a assinatura da cantora, da maneira mais completa: com a voz, a melhor tradução de Gal.

Este segundo disco vendeu muito menos que o primeiro, o que não quer dizer absolutamente nada. Azar do público. Pensando na construção histórica da cantora Gal Costa, diria que é um disco fundamental na definição do perfil e do jeito de cantar daquela que viria a ser a referência maior da geração que surge na segunda metade da década de 1960 e, sem envelhecer, chega ao zênite da plenitude na década seguinte.

 

Em 1970, Legal é o terceiro solo. Com capa e contracapa de Hélio Oiticica, arranjos de base de Lanny e Macalé, e arranjos de orquestra de Chiquinho de Moraes, é um disco mais ameno que o anterior, mas nem por isso menos ousado. Abrindo com “Eu sou terrível”, da dupla Roberto/Erasmo, a guitarra de Lanny e a voz de Gal no último volume, parece uma continuação do disco anterior. A letra, que na voz de Roberto soa como autoafirmação machista, na voz de Gal, é um grito ameaçador, de resistência: “estou com a razão no que digo / não tenho medo nem do perigo”. Alguém lembrou de “não temos tempo de temer a morte”?

Um xaxado de Gil, “Língua do P”, desfaz a impressão de continuidade. Uma intro de não mais que dez segundos, com guitarra, baixo e bateria, dá lugar a uma base com sanfona, zabumba e triângulo – e muita ironia: “gapa-ranpan-topô quepê vopô-cepê nãopão vaipai compom-prepre-enpen-derper bulhufas!” A censura, para sorte nossa, não compreendeu nada mesmo.

No quesito letras em inglês, uma overdose: “Love, try and die”, de Macalé, Gal e Lanny, é uma boutade à Broadway, com a voz de Gal soando límpida como água de fonte, e um coro luxuoso, formado por Erasmo, Tim Maia, Macalé e uma misteriosa Nana. Ou seria Naná, o percursionista? “London, London” dispensa comentários. É a melancólica “canção do exílio” de Caetano, com uma levada caribenha. O uso da gaita de boca é extraordinário, mas o músico não foi creditado. Para fazer justiça, ainda que tardia: foi Angela Ro Ro, ela mesma, com sua própria gaita, segundo depoimento tardio de Macalé. A terceira letra mistura inglês e português, blues e samba-canção: “The archaic lonely star blues”, de Macalé e Duda. Pura experimentação.

Aliás, da mesma dupla, “Hotel das estrelas” começa como um blues sombrio e evolui para um rock progressivo, de letra cortante: “no fundo do peito esse fruto / apodrecendo a cada dentada”. “Acauã”, de Zé Dantas, um clássico do repertório de Luiz Gonzaga, vira uma balada que, após uma pausa de segundos, se transforma pela guitarra de Lanny e pela voz de Gal. “Minimistério”, de Gil, remete-nos de volta a “Divino, maravilhoso” ao ecoar as sinistras palavras de Kurtz, no Coração das trevas: “oh, terror, terror, terror...”

Um inusitado frevo de Caetano, “Deixa sangrar” é uma referência direta ao Let it Bleed, dos Stones, mas é também uma espécie de “carnaval do apocalipse”, uma referência direta à situação política do Brasil: “deixa o mar ferver / deixa o sol despencar / deixa o coração bater / se despedaçar / chora depois, mas agora / deixa sangrar / deixa o carnaval passar”. A ditadura fazia sangrar, mas a sangria stoniana – que não tem nada com a conformista “Let it Be”, dos Beatles, posterior –, é uma celebração hedonista, a cara de Keith Richards, o que nos leva a entender o “carnaval do apocalipse” como uma metáfora da ditadura.

“Falsa baiana”, clássico do mineiro Geraldo Pereira, fecha o disco, de maneira surpreendente: Gal reverencia a Bossa Nova, especialmente o conterrâneo João Gilberto, cantando num tom que não usava desde o pioneiro Domingo. Uma transformação se anunciava.

Os símbolos da resistência se espalham pelas dez faixas de Legal. Com Gil e Caetano no exílio, Gal vai encontrar-se com eles em Londres. Em agosto de 1970, assistem ao lendário Festival da Ilha de White. Gal encanta-se em particular com Jimi Hendrix, que morreria no mês seguinte. De volta para o Brasil, ela frequenta, em Ipanema, um lugar conhecido como Dunas do Barato – descrito por quem andava por lá como um oásis de liberdade em meio ao ambiente repressivo do país. Com o tempo, o local ganhou um segundo nome, em homenagem a sua mais notável frequentadora: Dunas da Gal.

 

Para falar do quarto disco solo, o emblemático Gal a todo vapor, também conhecido como FA-TAL, gravado ao vivo, é preciso dizer de uma das mudanças fundamentais na indústria da música de entretenimento nestes 50 anos. Hoje, ou pelo menos até a explosão do streaming e da pandemia, há uma sequência básica: disco, show do disco, disco do show. No início dos anos 1970, um disco ao vivo, com todas as suas imperfeições técnicas, era um acontecimento raro. Havia ainda o conceito de “ao vivo, no estúdio”, mas essa é uma outra história.

Gravado no Teatro Thereza Rachel, em Copacabana, em 1971, o disco é todo ele uma invenção coletiva, da qual participam, entre muitos outros: o veterano bossa-novista Roberto Menescal (direção de produção), Lanny Gordin (arranjos, direção musical e guitarra); Novelli (baixo); Jorginho (bateria); Baixinho (percussão); Luciano Figueiredo (cenografia e capa); Óscar Ramos (capa) e Wally Salomão (naquela época, ainda Sailormoon, na direção geral). Na contracapa, uma foto parcial de Gal tocando violão e as palavras “boca microfone mão violão”. Estas palavras combinavam com a capa, onde se lia, sobre a boca vermelhíssima de Gal, “FA-TAL”. Óscar me confidenciou que ele e Luciano não concordaram, de início, com a interferência de Wally, por achá-la óbvia, mas acabou virando um emblema do disco e a síntese da sensualidade que ele emana ainda hoje.

O disco lançado como álbum duplo, hoje é disponibilizado, em CD e no streaming, na ordem inversa – primeiro o disco dois, depois o um. E isso tem uma explicação. Na ordem que prevaleceu, o show começa intimista, com Gal cantando e se acompanhando ao violão e evolui, na nona faixa, “Vapor barato”, para um trabalho coletivo, sob o comando febril de Lanny. Na verdade, essa era a ordem das músicas no show. Das dezenove faixas, apenas três haviam sido gravadas antes por Gal: “Coração vagabundo”, “Hotel das estrelas” e “Falsa Baiana”. Entre as novidades, composições de Caetano e das duplas Macalé/Wally, Moraes/Galvão e Roberto/Erasmo. Gil é uma inexplicável ausência. Do repertório de Luiz Gonzaga, a lancinante “Assum Preto”, cantada como jamais será cantada novamente. Ainda no capítulo “velha guarda”/tradição, a clássica “Antonico”, de Ismael Silva. A lista fecha com duas faixas do folclore baiano: “Fruta gogóia” e “Bota a mão nas cadeira”. 

Ao contrário dos discos anteriores, onde uma Gal politizada desafia o establishment, a censura, a ditadura, este continua no mesmo tom, mas, sem falar em política, desafia os “bons costumes” – ou eu preciso explicar o que é “vapor”?

É difícil apontar destaques sem ser prolixo e redundante. Gal a todo vapor é, como se dizia na época, um desbunde. Uma experiência única e definitiva. Não é apenas o “ponto alto da contracultura no Brasil”, um chavão desgastado. É, sim, um dos momentos culminantes da música e, por extensão, da cultura brasileira.

 

Em 1974, assisti a um show de Gal Costa pela primeira vez, na quadra do Olímpico Clube, em Manaus. Não sei mais o que é memória ou o que é sonho, delírio, invenção. Era o show do quinto disco solo, Índia, lançado no ano anterior – portanto, dois anos após a catarse de Gal a todo vapor. Transpirando sensualidade, Gal cantou músicas do novo disco, e, para encanto da geral, várias de FA-TAL. Hoje percebo que Índia, se não era um caminho novo, era um novo jeito de caminhar, como diria o querido Thiago.

À guarânia clássica, de origem paraguaia, um tanto cafona para os meus mal-acostumados ouvidos, somava-se um dolorido samba-canção de Lupicínio, “Volta”. Ali nascia uma nova Gal.

Em não mais que três anos, a presença de Gal Costa eternizara-se na música brasileira – e nem precisava das dezenas de discos e centenas de interpretações antológicas dos cinquenta anos seguintes. Aqueles primeiros quatro discos bastavam.

    

              



[1] In: LIMA, Marisa Alvarez. Marginália: Arte & Cultura na “idade da pedrada”. 3. ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

“Amor e Capital”: a vida íntima da Revolução

 Zemaria Pinto


Não há clichê mais adequado que “monumental” para classificar o trabalho de Mary Gabriel nas mais de 950 páginas de Amor e Capital. O subtítulo dado pela autora sintetiza o seu esforço: Karl e Jenny Marx e o nascimento de uma revolução. O casal e a revolução são, de fato, o centro da narrativa. A tradução trai esse sentido, generalizando-o: A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. Ao subtrair o nome de Jenny, o tradutor minimiza o seu papel, da mesma forma como, ao trocar “nascimento” por “história”, ele subverte o sentido do texto de Mary Gabriel: sem arroubos, ela conta a gênese da revolução pensada por Marx, uma história que está longe de terminar.

O livro cobre exatos 80 anos, de 1831 até 1911. A vida íntima do casal Marx é uma sucessão de tragédias – desde a perda de quatro filhos e quatro netos, ainda crianças, até o suicídio de duas das três filhas sobreviventes. Mas, a maior de todas as tragédias é a crônica falta de recursos da família, amparada pelo amigo Friedrich Engels, que tem um papel fundamental na construção da obra de Marx, não só como parceiro e revisor, mas, principalmente, como patrocinador do amigo.

Na foto da capa, o casal Marx.

Amor e Capital[1] pode ser lido como um romance – ora tributário de Balzac ora de Zola –, com histórias de amor e desencontros, adultérios e traições, brigas e reconciliações, mentiras e calúnias (nomes antigos para fake news), além de toques de comédia, para distender o clima trágico que ameaça o tempo todo a antecipação de entrechos paralelos. Vejamos as principais personagens, a família Marx, núcleo da narrativa, de onde Engels era parte indissociável. 

Johanna Bertha Julie Jenny von Westphalen Marx (Jenny, 1814-1881) vinha de uma família de nobres prussianos. O barão Von Westphalen, seu pai, um liberal, foi professor de Karl, que era amigo de um irmão mais novo de Jenny, Edgar. Essa amizade aproximou o futuro casal, apesar da diferença de idade: Jenny era quatro anos mais velha. Secretamente, ficaram noivos em 1836, mas o casamento só aconteceria sete anos mais tarde, após Karl concluir o doutorado e acenar com alguma estabilidade financeira, que nunca se concretizaria. Jenny passou por muitas atribulações ao lado de Marx, mas manteve-se firme até o fim. A frase a seguir pode parecer machista, mas é verdadeira: o papel de Jenny Marx – como esposa, mãe e administradora da vida familiar – foi fundamental para que o trabalho do marido fosse levado a cabo e se tornasse um marco do pensamento na filosofia, na economia, na política e nos estudos sociais.   

Karl Heinrich Marx (Mohr, 1818-1883) descendia de uma linhagem de pensadores judeus, cuja autoridade em religião se estendia à política, segundo a autora. Seu pai, entretanto, advogado, converteu-se ao cristianismo luterano. O apelido doméstico que o acompanharia a vida inteira – Mohr, Mouro – foi adquirido em Berlim, onde fora estudar, como referência ao cabelo negro e à pele escurecida. Mary Gabriel não o poupa: “O primeiro ano de Marx na universidade foi mergulhado no álcool.” Mas, não apenas o primeiro ano. Marx é mostrado com todos os seus defeitos: desorganizado, dispersivo, mulherengo. Mas, como pontos positivos, pai e avô amoroso e, paradoxalmente, marido dedicado. Aliás, surpresa das surpresas, aos 18 anos ele convenceu Jenny a tornar-se sua noiva – ela que já passara por um noivado frustrado – com três volumes de poemas, guardados por Jenny e publicados, como curiosidade literária, somente após a morte de ambos. Mas, a maior virtude de Karl era a sua capacidade de transitar em várias matérias, para atingir o seu objetivo maior: construir uma teoria do capitalismo industrial, que, com sua previsível implosão, conduziria o proletariado ao poder.

Nascidos ambos em Trier – Tréveris, em Português –, a mais antiga cidade alemã, fundada, segundo a lenda, pelo próprio Octavio Augusto, no século 1 a.C., o casal, escapando à censura e à polícia política, viveu em Paris e Bruxelas antes de se fixar em Londres. As casas dos três países onde moraram se tornaram uma espécie de consulado socialista, onde todas as tendências de refugiados encontravam abrigo. Marx não foi apenas um teórico: apesar de sua inabilidade política, esteve sempre à frente dos movimentos sociais, especialmente na França e na Inglaterra, entre os anos 1840 e 1870.  Não à toa, era chamado pelos seus detratores de “Doutor Terrorista Vermelho”.

Jenny Caroline Marx Longuet (Jennychen, 1844-1883), a filha mais velha do casal Marx, foi casada com Charles Longuet, jornalista revolucionário francês. Trabalhou para o pai como secretária, atuando também como jornalista, especialmente na defesa da liberação de presos políticos irlandeses de prisões inglesas. Morreu muito jovem, de câncer, deixando três filhos, criados pelas irmãs.

Jenny Laura Marx Lafargue (Laura, 1845-1911), segunda filha do casal Marx, foi tradutora dos livros do pai e de Engels. Casou-se com Paul Lafargue, de origem franco-cubana, ativista, introdutor do marxismo na França e na Espanha. Tiveram três filhos, todos falecidos em tenra idade. Em 1911, num aparente pacto, ambos se suicidaram. No funeral, um orador destacou-se: “Lutem. Lutem sempre. Até chegar naquilo que foi antevisto por estes mortos – a vitória do proletariado.” Era um revolucionário russo no exílio, Vladimir Ilyich Ulianov, que assombraria o mundo seis anos depois com o codinome Lênin.

Jenny Julia Eleanor Marx (Tussy, 1855-1988), a caçula do casal Marx, era a mais inquieta das três: tendo trabalhado como secretária e tradutora do pai, ansiava por independência financeira. Trabalhou como atriz, traduziu Flaubert e Ibsen, atuou como jornalista e ativista. Suicidou-se, ao descobrir que seu companheiro Edward Aveling, que era dramaturgo, casara-se com uma atriz mais jovem. Não teve filhos. Sobre as filhas, Marx declarou em certa ocasião que Jennychen era a mais parecida com ele; mas, Tussy era ele.

Da esquerda para a direita: Jennychen, Tussy e Laura,
sob a guarda do Mouro e do General, em 1864.

Friedrich Engels (General, 1820-1895). O apelido doméstico foi atribuído pela adolescente Jennychen, por ocasião da guerra franco-prussiana, que deu origem ao império alemão, em 1870-1871, sobre a qual Engels escreveu cerca de sessenta artigos, que circularam por toda a Europa, alcançando até os Estados Unidos.

É lugar comum dizer que sem Engels não haveria marxismo. Talvez, nem Marx. Eles se conheceram em 1844, e nem a morte os separou. Segundo Mary Gabriel,

Intelectualmente, ambos eram brilhantes, incisivos, visionários e criativos (mas também elitistas, beligerantes, impacientes e conspiratórios). Como amigos, eram desbocados, grosseiros e adolescentes. Adoravam fumar (Engels, cachimbo; Marx, charuto), beber até de madrugada (Engels, bons vinhos e cervejas; Marx, qualquer coisa disponível), bisbilhotar (especialmente sobre as tendências sexuais de seus conhecidos) e gargalhar muito alto (geralmente à custa dos inimigos, e no caso de Marx, até lhe correrem lágrimas pela face).

Unia-os ainda a história, a filosofia e a economia. Ambos acreditavam que o capitalismo não se sustentaria, pois era arquitetado sobre um terreno alagadiço, ou, como dizemos hoje, bolhas econômicas que geram crises mundiais a cada estouro. Ambos acreditavam que a classe operária, por ser maioria, um dia tomaria o poder. Ambos acreditavam que o futuro da humanidade era o comunismo. Só um aspecto os diferenciava: Engels, vindo de uma família rica, era um rico empresário da indústria têxtil; Marx, doutor em filosofia, vivia de parcos recursos como jornalista político, sem nenhuma garantia de ter o que comer no dia seguinte. Engels foi o provedor da família, enquanto viveu, socorrendo o amigo em permanente estado de necessidade – e, depois, as duas filhas sobreviventes. Mas, Engels dizia que não fazia isso gratuitamente: ele tinha consciência de que a obra que Marx estava construindo valeria mais que tudo o que gastava. E ele estava certo.

Escreveram vários livros juntos e os livros-solos eram revisados criticamente pelo outro. Mas, o principal deles, O Capital, o livro que “mudou a consciência do mundo”, no dizer de Bernard Shaw, só teve um tomo publicado em vida por Marx (1867). O segundo e o terceiro foram “editados” por Engels, a partir de anotações deixadas pelo caótico Marx. Há ainda um quarto tomo, que Engels não teve tempo de finalizar, entregando-o à edição de um terceiro, o jornalista e economista Karl Kautsky.

Um episódio emblemático entre os dois foi a paternidade do filho de Helene Demuth (Lenchen, 1820-1890), empregada dos Marx. Engels assumiu e a criança foi entregue para uma família de um subúrbio londrino, que a criou (provavelmente, subsidiada pelo suposto pai), tendo Lenchen permanecido com os Marx. Após a morte do casal, entretanto, a verdade veio à tona: o menino, Frederick Demuth (Freddy, 1851-1929), que se tornara um ativista e seguidor da doutrina comunista, era filho de Karl Marx.

Das Kapital é uma obra coletiva. Além de Marx, que o escreveu, e Engels, que o revisou e editou, teve a participação fundamental de Jenny, a esposa, mas também de Jennychen, Laura e Tussy, as filhas. E não podemos nos esquecer de Lenchen, sempre calada e presente. Cada uma dessas mulheres deu sua contribuição, sua cota de sacrifício, para que a obra de toda uma vida se tornasse um livro transformador – e atual, mais de 150 depois – e não apenas uma interpretação para uso intelectual ou histórico. A revolução – política, social e econômica – era seu único objetivo.

O Capital aponta, no berço de nascimento do capitalismo moderno, suas falhas e seu declínio, porque assentado nas mesmas bases dos sistemas econômicos que o antecederam: os ricos explorando os pobres. O livre mercado, de que os economistas liberais tanto se jactavam, era apenas um mercado controlado pelos ricos, em benefício deles mesmos, os ricos. E assim continua. Por esse ângulo, a luta de classes é transparente e seu acirramento é necessário. Marx ecoava Hegel, para quem a história humana é a história de seus conflitos. Para Engels, se o contemporâneo Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, “Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana.” A revolução proposta por Marx tem uma premissa fundamental: nenhum homem tem o direito de explorar outro homem. E porque as relações entre as pessoas são basicamente materiais, de fundo econômico, a força motriz da revolução se resume em uma palavra: pão.   

Marx sabia do que falava:

Deve haver algo de podre no cerne de um sistema social que aumenta sua riqueza sem diminuir sua miséria.

E foi investigando as causas dessa distorção que Marx descreveu a ascensão e a queda do capitalismo – da “economia global” às bolhas causadas pelo consumo desenfreado a impor necessidades artificiais que o trabalhador assalariado não pode suprir, porque ele não passa de mão de obra escravizada pelo salário de fome, e duplamente escravizada pelo crédito, indispensável para o consumo que retroalimenta a Hidra de Lerna de nosso tempo.

A revolução seria lenta: redução da carga horária e um salário capaz de manter o trabalhador de pé, alimentando também sua família, seriam apenas os primeiros passos. Para Marx, a “utopia comunista”, como ironizavam seus adversários, só seria alcançada após os trabalhadores adquirirem o direito a se alimentarem com dignidade. Era preciso comer para depois sonhar.

Mas, o livro máximo do socialismo não pode ser visto como uma suma dogmática, baseada em preceitos imutáveis. É preciso analisá-lo dentro de seu contexto histórico. Expressões como “ditadura do proletariado”, por exemplo, serviram como justificativa para a repressão política e policial, desde sempre. Em 1895, poucos meses antes de sua morte, o dedicado Engels deu sua última contribuição ao amadurecimento do marxismo, na Introdução à uma nova edição de um dos textos mais populares de Marx, As lutas de classes na França, relembrando a campanha épica do movimento de 1848-1849, quando os dois amigos estiveram na vanguarda dos acontecimentos. Engels, fazendo uma autocrítica do movimento no que lhe dizia respeito, escreve a respeito de uma “nova arma poderosa” à disposição do proletariado: o sufrágio universal. E sem abrir mão do “direito à revolução”, ele pondera que a mudança da conjuntura pede a adaptação das formas de luta: “[O sufrágio universal] é um instrumento mais aborrecido e lento para a promoção da revolução, mas é dez vezes mais seguro; e sobretudo indica com precisão o dia em que se deve empunhar armas pela revolução.” Àquela época o voto era apenas masculino. Nestes mais de 120 anos que nos separam da reflexão de Engels, muita coisa mudou – e mudou a favor da classe pela qual Marx e Engels dedicaram todas as suas forças.

 

Jenny e Karl Marx morreram sem ver o alcance da obra que realizaram. Mas, o sacrifício da família e do amigo Engels não foi em vão: O Capital transformou o mundo, mudando a maneira de pensar da humanidade. Isso já foi uma revolução, mas o capitalismo continua forte, opressor, asfixiante. Embora invisível – especialmente, para quem não quer ver –, a luta de classes continua viva e necessária, e o voto é a principal arma para promover a transformação.




[1] GABRIEL, Mary. Amor e Capital: a saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. Tradução: Alexandre Barbosa de Souza. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 958 p.


sexta-feira, 10 de junho de 2022

Bossa Nova para o nosso tempo

 Zemaria Pinto

 

Quando Umberto Eco colocou um MacGuffin para desviar a atenção dos assassinatos em O nome da rosa, não poderia ter imaginado melhor: um texto de Aristóteles sobre a comédia e, por extensão, sobre o riso. Infelizmente, era apenas um MacGuffin. Apesar de presente desde os mais remotos textos conhecidos, o cômico sempre foi tido, ao lado do feio, como inferior, subalterno. Mas, Sófocles e Eurípides, Dante e Rabelais, Cervantes e Shakespeare nunca deixaram de harmonizar com sabedoria o feio e o belo, o cômico e o trágico como constituintes de uma beleza una. No dezenove, os românticos, Victor Hugo na vanguarda, defenderam a premissa de que é da união do grotesco com o sublime que se engendra o moderno. Não à toa, Quasímodo e Rigoletto, dois grotescos exemplares, nasceram do sopro de Hugo.

Baudelaire e Augusto dos Anjos são exemplos extremos de poesia que lança mão do grotesco para atingir a alma do leitor, lá onde os olhos não alcançam. E que se dane o belo! Os “ismos” que surgiram na virada do dezenove para o vinte tornaram o belo ridículo – acadêmico! Virou maldição. E viva o grotesco, o deformado! E viva o feio!

O cômico vinha na carona dessa tendência, especialmente por conta do cinema, que revelaria toda a tragicidade do cômico – Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd à frente. 

A leitora, o leitor devem estar se perguntando: e a Bossa Nova?

Pois na música popular brasileira não aconteceu diferente: a música de humor é uma categoria ainda enjeitada, a despeito de uma verdadeira legião de cultores do gênero, que vai de Noel Rosa a Roberto Carlos, Pixinguinha a Chico Buarque, Adoniran Barbosa a Zeca Baleiro, passando por Moreira da Silva, Billy Blanco, Juca Chaves, Raul Seixas, Rita Lee e Mamonas Assassinas. Aliás, este é um tema a ser desenvolvido: “De Donga a Nicolas Jr, o humor na emepebê”.

Assim como a literatura e as artes plásticas – incluindo as charges, o cartum e a caricatura –, a música cômica pode ser arte, para além dos preconceitos: crônicas (quantos sambas são feitos como crônicas de situações?), paráfrases e paródias. Ou invenções fora de série, como é o caso de Bossa’n’humor, que transborda conexões por todo lado, numa autêntica autoafirmação de vitalidade, nesta geleia geral que é a – com o perdão da má palavra – pós-modernidade!      


Bossa’n’humor é o primeiro álbum solo de Carlos Castelo, escritor múltiplo e compositor idem, remanescente do Língua de Trapo, que – ao lado do Premeditando o Breque – formou na linha mais avançada da Vanguarda Paulistana, nos anos 1970/1980. Para quem nunca ouviu falar dos dois grupos, a leitura dos nomes é suficiente para explicar o gênero que ambos adotavam – cada um do seu modo particular.

O álbum tem doze faixas – será que estou usando a terminologia adequada, nestes tempos de absoluta virtualidade? –, o que pode ser interpretado como uma paródia do número de faixas dos LPs antigos. Bobagem minha. Mas, a capa, sim: Carlos parodia a carantonha de Joãozinho, no episódio “vaia de bêbado não vale”, em 1999, que Tom Zé tão bem interpretou, em defesa do (nosso) ídolo. “Viva Vaia”, como diria o “velhinho concreto”.

  Bossa’n’humor dialoga com João Gilberto, Tom Jobim e Astrud Gilberto – raízes da Bossa Nova – mas, também com Adoniran Barbosa, Tom Zé, Vinicius de Moraes, entre outros.

Logo na primeira faixa, um inusitado e feliz casamento entre a bossa nova de Carlos Castelo e Tony Pituco (seu parceiro em dez faixas) e a poesia de Décio Pignatari: a clássica “Beba Coca-Cola” (1957), onde uma superposição de vozes dá uma nova dinâmica ao poema, revitalizando o discurso concreto.


“Bossampa” explora as diferenças entre as cidades: Rio de Janeiro, solar e multicor; São Paulo, neurótica e dominada pelo cinza. Mas, se “bossa nova em São Paulo é um desvio”, é sempre possível cantar, ecoando Tom Zé: “São São São Paulo”.

Interpretação dividida com Carlos Careqa, “Psicossamba” brinca com a neurose de “Bossampa” e faz um inventário, de Freud a Lacan, de diagnósticos possíveis para explicar um “amor tão maluco”: “transferência”, “sincronicidade”, “questão de encaixe” e por aí vai.

“Benê” é um delicado diálogo com o mestre Adoniran Barbosa, de “Pode apagar o fogo, Mané”. Em Adoniran, Inês sai para comprar pavio pro lampião e deixa um bilhete para o marido com o texto do título. Em Carlos Castelo, a mulher fala para o marido: “acabou o gás, Benê, desse jeito eu não aguento”. E o solícito Benê sai atrás de comprar gás... Estava armado o desencontro.   

Em “Breque do Guioza”, de Tony Pituco e Rogério Santos, Castelo divide o vocal com o parceiro Pituco. É uma ponte entre a Liberdade, bairro japonês no centro de São Paulo, e o Japão, onde mora Pituco. Uma “bossa massa”.   

Com o auxílio luxuoso de André Abujamra, “Bossa Sucks” emula o sucesso do gênero fora do Brasil, a partir de uma paródia do refrão clássico de João Gilbero: “bim bom bim bim bom...” E assim como o baião de João era só isso, a “bossa sucks” de Castelo joga com os clichês de uma bossa nova para americano ouvir. 

A Bossa Nova cristalizou uma ideia de movimento alienado da realidade brasileira. Apesar da euforia desenvolvimentista de JK, o Brasil da Bossa Nova sofria os mesmos problemas de hoje, com desemprego, fome, violência urbana e tragédias naturais evitáveis. Mas, em nenhum momento, as canções refletem isso. O resultado é que a onda que se ergueu após a Bossa Nova foi a da música de protesto, com a participação de muitos bossanovistas, como Nara Leão, Sérgio Ricardo e Carlos Lyra.   

É nessa ferida que “Posto 6” põe o dedo. Começa que a referência geográfica sai de São Paulo e vai de mala e cuia, como dizemos por aqui, para Copacabana – embora   o arranjo remeta a “Garota de Ipanema”. É como se Tom Jobim e Newton Mendonça fizessem uma canção nova, hoje: um novo “Desafinado”. Nada de amor, sorriso e flor, beijinhos e carinhos, barquinho ou banquinho. O desafio é encarar “um festival de balas perdidas”. O refrão de Joãozinho retorna, simulando rajadas: “bim bom bom bim bom bom...” Contraindicado a fãs intolerantes.

“Por que túmulo do samba?” A imprecação de Vinicius – inesquecível graças à citação de Caetano, em “Sampa” – ganha aqui uma justificativa. Após a exposição de um dia na vida de um trabalhador, o que resta a ele, senão... fazer hora-extra? Conclusão anti-adoniraniana: “me diga, meu bamba, a que hora nóis vai fazê samba?”

O Expressionismo é a síntese daquilo que os nazistas consideravam “arte degenerada”. Desde meados do dezenove, o “belo puro” passara a ser considerado ultrapassado: a arte deveria conciliar os extremos entre o grotesco e o sublime. (Acho que já falamos disso hoje...) É sobre isso que trata a faixa “Expressionismo”, em que se exalta a beleza feminina a partir de suas particularidades... feias: o períneo, as sardas, os dedões, os culotes, os joanetes, as orelhas.    

Talvez pela presença emblemática de Vânia Bastos e sua voz personalíssima, “cochichando as palavras no ouvidinho” – provavelmente, para o Benê, lá da quarta faixa –, “Hã?” é a canção mais elaborada, letra e melodia em perfeita harmonia, sem perder a graça da situação: como o marido não a escuta, ela ameaça fugir com o vizinho – o gás estava no fim. Joãozinho cantaria.

“Todo mundo é carioca”, interpretado em parceria com o paulista Paulo Caruso, o irmão do Chico, brinca com o jeito de ser do carioca, inclusive o modo de falar. Carioca Zona Sul, claro.

Parceria entre Carlos Castelo (quando ainda se assinava Melo) e Cassiano Roda, “Concheta” é um clássico do Língua de Trapo. Dialogando com o “Samba Italiano”, do onipresente Adoniran, é cantado num italiano macarrônico, o que potencializa o efeito cômico.

 

Há dois anos, Leila Pinheiro, Rodrigo Santos e o mago Menescal gravaram um álbum – Faz parte do meu show: Cazuza em Bossa – em que recuperam a Bossa Nova pulsante do compositor desaparecido em pleno amadurecimento. Até agora, era o que havia de mais “diferente”, além do repertório clássico – incluindo a gravação de João para “Me chama”, de Lobão. Bossa’n’humor pode ser vista como uma homenagem bem-humorada à Bossa Nova, nos seus mais de 60 anos, mas também como uma revisão crítica do gênero, atualizando-a para o nosso tempo. Quem ouvir verá.    


 

PS: Bossa’n’humor pode ser ouvido integralmente no Spotify e nos melhores music streaming services do ramo.

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Palavrório, de Carlos Castelo, em cinco poemas

Zemaria Pinto

 

Este texto foi originado de uma leitura compartilhada, proposta por Dilson Lages, de poemas do livro Palavrório, de Carlos Castelo. Por isso, a limitação de cinco poemas, uma pequena amostra, em mais de sessenta. Antes, uma palavra sobre o autor.

Carlos Castelo, natural de Teresina, mora quase desde sempre em SP, onde, pouco mais que um adolescente, participou, como cofundador, da banda Língua de Trapo, figurinha carimbada da Vanguarda Paulistana, movimento que agitou a cena cultural paulista e brasileira, entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira metade da década seguinte. É fácil lembrar de nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque (depois, Premê), entre outros. O Língua de Trapo destacava-se pela iconoclastia – nas letras (muitas de Carlos Castelo) e nas músicas, como na bela homenagem à Bossa Nova “Cagar é bom”, que Joãozinho jamais gravou...   

Do Língua pra cá, publicou 15 livros – de poemas, contos, crônicas e aforismos, além de ganhar cinco leões em Cannes/Propaganda e outros tantos prêmios da publicidade verde-amarela. E, para dirimir qualquer dúvida sobre seu verde-amarelismo, escreve regularmente para o saite Brasil 247.

Palavrório é um livro muito sério, a despeito do humor implícito e até mesmo, procurando bem, do explícito. Paródias e paráfrases predominam, enfatizando a intertextualidade e a metalinguagem onipresentes, como num banquete, melhor dizendo, numa feijoada bem paulistana, em plena quarta-feira garoenta, frequentada pela melhor literatura – como veremos nos poemas da amostra.       

 

inacessibilidades

 

Sou um poema hermético

você não vai me entender

desista de interpretações

não comunicar é preciso

Inexiste SAC, meu dileto,

para inacessibilidades

Se eu lhe digo pedra

não quer dizer pedra

se eu lhe digo pedra

quer dizer pedra

Aprecia alteridade?

vá procurar seu erotismo

o babado aqui

é única

e exclusivamente

masturbação

 

Crítica contundente a uma poesia descolada da realidade, que fala apenas para si mesma, sem contato com o coletivo – uma reedição da “torre de marfim”, lá do dezenove, ainda tão comum no vinteum. Ao criticar essa tendência, Carlos Castelo alinha-se com uma literatura que mantém laços com a ideia de poesia como expressão do universal, em detrimento da expressão individualista, tão cara à mediocridade lírica romantiquinha – de todos os tempos.

 

impossibilidade

 

Já era difícil

Escrever poesia

Depois de Auschwitz

Imagina agora

Com tanta blitz

 

Conexão intertextual entre a célebre frase de Adorno, de 1949 – “escrever poesia depois de Auschwitz é um ato bárbaro” –, e o momento brasileiro. Assim como criticava, também, a poesia individualista, Adorno posiciona-se contra a crítica que se confina “numa contemplação autossuficiente”,[1] e não enfrenta a reificação fascista que vampiriza os espíritos.

A conexão com o momento atual brasileiro é direta: “imagina agora / com tanta blitz”. A leitura, ao contrário do que diz o texto, deve ser feita pela via da ironia: só a poesia, melhor dizendo, só a arte pode combater a barbárie. 

  

gregoriana

 

Que falta nesta nação?… noção

E pra repor prejuízos?… juízo

Melhor no lugar de excessos?… progresso

 

Chamemo-lo de abcesso

De asqueroso para além

O território que não tem

Noção, juízo, progresso

 

Paródia de Gregório de Matos (“Epílogos”), atualizando-o para o Brasil de hoje. Vejamos um fragmento:

Que falta nesta cidade?.............. Verdade

Que mais por sua desonra.......... Honra

Falta mais que se lhe ponha....... Vergonha

 

O demo a viver se exponha,

por mais que a fama a exalta,

numa cidade onde falta

Verdade, Honra, Vergonha.

 

O “Boca do Inferno” critica a cidade da Bahia, a futura Salvador. Castelo expande sua crítica ao país, um irremediável e incurável abcesso. Atualíssimo. 

 

poema tirado de uma rede social

 

João Peposo era entregador de aplicativo e morava no morro da

[Trempe num barracão à beira do rio

Uma noite cansou da paradeira do isolamento

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou da janela do barraco no Tietê e morreu afogado

 

Paráfrase-palimpsesto de Manuel Bandeira (“Poema tirado de uma notícia de jornal”), onde Castelo faz uma intervenção no poema do mais nobre inquilino de Pasárgada, que é de Libertinagem, publicado em 1930. João Gostoso, personagem de Bandeira, era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia, num barracão sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro: bebeu, cantou, dançou – depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. Substitua as partes sublinhadas e verifique porque chamei a tragédia de João Peposo de paráfrase-palimpsesto. Aliás, ele foi vítima indireta da Covid e nem entrou nas estatísticas.    

 

augusto no jardim

 

Eu vi

Augusto no jardim

de infância do meu

filho numa festa junina

 

O velhinho concreto

a cabeça branca no

meio da gurizada

parecia ficção, mas era

poesia

 

Este poema é um primor de delicadeza, respeito e afeto. Um exemplo perfeito de lírica individual que se transforma, por força da logopeia – a dança do intelecto entre as palavras, como diria Pound, traduzido por Augusto – e assume um sentido universalizante: o sentimento imediato do poeta comunica uma vivência que se expande para corações e mentes de quem é capaz de pensar aquele quadro para além do mero significado das palavras.

 

A poesia de Carlos Castelo é, muitas vezes, confundida com o poema-piada, um reducionismo sem sentido. Normalmente, são assim classificados – mesmo entre Oswald de Andrade, Drummond ou Leminski – poemas que transbordam ironia e anti-individualismo, isto é, universalismo – alguns, preferem antilirismo, com o que eu não concordo, pelos motivos expostos acima. O tímido riso que Carlos Castelo nos arranca é algo entre o travoso e o amargo, porque conectado com a realidade de seu tempo. Tempo sombrio.      



[1] ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. Tradução: Augustin Wernet e Jorge M. B. de Almeida. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 61.