Amigos do Fingidor

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Na Banda da Bica com Mazé Mourão

 

Pedro Lucas Lindoso

                                   

Idalina, como muitos já sabem, é uma amazonense autoexilada em Copacabana, no Rio de Janeiro. O que poucos sabem é que Idalina é uma foliona de primeira. Ela adora Carnaval.

Desde sua última intervenção cirúrgica para fazer um “lifting facial”, espalha por aí que tem somente sessenta anos. Não pode ser verdade. Idalina é uma das fundadoras da Banda de Ipanema. O famoso bloco carioca saiu pela primeira vez em 1965! Idalina já era uma jovem adulta e estava no Rio em férias. Naquele ano a Cidade Maravilhosa era uma festa só! Festejava-se o Quarto Centenário da cidade.

Portanto, quem fundou a Banda de Ipanema não pode ter só sessenta. Mas não se discute idade de senhoras. A Banda de Ipanema é um dos mais conhecidos blocos de Carnaval do Rio. O Ybloco desfila no bairro que lhe dá nome, Ipanema, Zona Sul do Rio. A saída é na Praça General Osório, no sábado, duas semanas antes do Carnaval. O bloco sai também no sábado e na Terça-Feira de Carnaval.

Aqui em Manaus temos a Banda da BICA. Umas das bandas mais tradicionais do Carnaval de Manaus, a Banda da Bica, terá como tema, neste ano de 2024, ‘A Bica cresceu, virou Patrimônio Cultural e vai zoar no Carnaval’. Famosa por suas marchinhas sempre com fortes críticas à política amazonense e pautas polêmicas, A ‘Banda da Bica 2024′ está marcada para o dia 3 de fevereiro, na Avenida 10 de Julho, Centro.

Idalina, por razões óbvias, sempre passou o Carnaval no Rio. Quando soube que Mazé Mourão seria a Rainha da Banda da Bica de 2024 resolveu que viria para Manaus. Como a Banda de Ipanema sai duas semanas antes e a Bica é no Sábado Magro, dá para participar dos dois eventos.

Idalina é fã da Mazé desde o tempo em que esta era cronista de A Crítica. O jornal perdeu muito com a saída dela. Mazé Mourão é como se fosse a nossa Danuza Leão. Charme, inteligência e sofisticação. Danuza personificava o “savoir-faire” carioca. Mazé Mourão é tão estilosa quanto. Ambas sempre esbanjaram charme e competência, inclusive como escritoras. Claro que Danuza era invejada tanto quanto a Mazé. Como dizia Ibrahim Sued: “os cães ladram e a caravana passa”. 

De passagem comprada, Idalina ficará hospedada num famoso “hotel boutique” nos arredores do Largo de São Sebastião. Ela está ansiosa. Depois de anos de frustrados planejamentos, irá conhecer finalmente o Carnaval de Manaus.

Apesar dos preços das passagens aéreas estarem abusivos, Idalina realmente virá. Afinal, como ela disse, estará na BICA com Mazé Mourão.

 

domingo, 28 de janeiro de 2024

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Lira da Madrugada – Max Carphentier 15/15

Zemaria Pinto

 

 

 

Ficha biobibliográfica

 

Autor: Max Carphentier

Nome completo: Max Carphentier Luiz da Costa

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 29 de abril de 1945

 

Obra poética:

·       Quarta esfera (1975)

·       O Sermão da selva (1979)

·       Orfeu do Nazareno (1983)

  • Tiara do verde amor (1988)
  • Nossa Senhora de Manaus (1995)
  • Teresa de Ávila – o êxtase da muralha (2001)
  • Celebração da vida – missa planetária (2003)
  • Sagração do verde (2012)
  • Contemplação das cidades (2012)
  • Teresa de Lisieux – o sorriso da luz (2013)

 

 

DO URUTAU

  

Vivendo de morrer do amor perdido,

a alma da cunhã, presa na lua,

às vezes desce sobre a noite, e canta

com o nome de urutau, ave das sombras,

em que se encarna pra sofrer nos ramos.

É que Tupã um dia a condenara,

por ter sido infiel, a errar nas trevas,

penando como fazem as flautas tristes.

E vem nesse cantar da lua à terra

toda mágoa dos olhos que interrogam

o céu sobre o pesar do amor sozinho,

como o pesar que sofre essa cunhã

        que, se um falaz amor tarde traíra,

        do verdadeiro amor cedo partira.

  

 

A COROA DE ANUNCIAÇÃO XXI

  

A cada pena o amor nos multiplica,

o Senhor, que na fé nos dá repouso.

E como a fé me falta apenas ouso

cantar do que se acaba a luz que fica.

Eu vivo e a selva reina sobre escombros,

e ao nos matarmos desse pó de encantos,

uma ave infinita em nossos ombros

nos ressuscita lázaros de prantos.

Irmãos, a selva salvaremos, quando

nos amarmos primeiro. Eis por que agora,

que de amor falo, acreditais na hora

de amor e selva renascer cantando.

           E porque Deus só por amor nos guia,

           chegas, Amada, e és toda a alegria.


Max Carphentier tem duas linhas marcantes na sua poesia: a mística, de fundo existencialista e religioso; e a mítica, onde ele trabalha literariamente a paisagem e o imaginário amazônicos. Por vezes, como no seu apreciado poema Sermão da Selva, essas vertentes se imbricam e se tornam uma só, que podemos, por mero reducionismo didático, denominar de “poesia cristã-amazônica”. No âmbito do Clube da Madrugada, a poesia de Carphentier diferencia-se da poesia dos também místicos-existencialistas L. Ruas e Farias de Carvalho exatamente por essa singular e exuberante cor amazônica. Opção consciente, desde os primeiros escritos dados a publicidade, a obra poética de Max Carphentier tem um quê de libertária, sem a preocupação social de Farias de Carvalho, ao mesmo tempo em que mantém o seu caráter místico em alta densidade, sem a angústia que perpassa o trabalho de L. Ruas. Entenda o leitor que não estou comparando os três poetas com a finalidade de estabelecer um juízo de valor, mas unicamente de mostrar que, a despeito da opção por uma mesma direção, os três trilham caminhos diferentes.

O livro Tiara do verde amor, de onde foram extraídos os poemas que analisaremos, dá bem a dimensão dessa poesia que, sendo profundamente cristã, não perde contato com a ancestralidade atemporal e o telurismo amazônico, responsáveis, na obra de Max Carphentier, por livros como Nossa Senhora de Manaus e Nosso Senhor das Águas, poesia e novela, respectivamente. O livro está dividido em três partes: “A Coroa de Anunciação”, “A Coroa Mitológica” e “A Coroa das Águas”. Na primeira, o tema religioso está centrado na chegada de uma mulher – a “Amada” –, alegoria do cristianismo, impondo-se não mais pela violência, como registra a história, mas com a dádiva do amor e da convivência harmoniosa. A segunda parte reporta aos mitos, à “religião” da selva, mas não como algo vivo, contemporâneo: são fragmentos reminiscentes de um tempo remoto, anterior à história, tatuados com os símbolos do novo tempo. A terceira parte renova-se, telúrica e sensual, numa síntese entre os dois mundos, que enfim se moldam num só.

O poema “Do urutau”, que pertence à “Coroa Mitológica”, reproduz uma das muitas histórias que o lendário caboclo preservou acerca da ave de hábitos noturnos e de natural habilidade para a camuflagem, cujo canto lembra “uma gargalhada de dor”, segundo Camara Cascudo anota em seu Dicionário do Folclore Brasileiro.[1] Chamado também de mãe-da-lua, além de outros nomes que parecem variações ou corruptelas do primeiro, o urutau está associado sempre a histórias trágicas e a costumes relacionados à moral sexual feminina. Uma dessas lendas conta que Tupã unira um jovem casal, reservando-lhes para o futuro uma missão de muita gravidade. A jovem esposa, porém, apaixona-se por um marinheiro branco e foge com ele, provocando a ira do deus. Como castigo, Tupã condena-a a ter sua alma presa na lua, permitindo-lhe voltar à terra à noite, sob a forma de um pássaro de canto triste e aterrador. A essa ave o povo tupi chamou de urutau, que quer dizer “pássaro fantasma”.

Carphentier, ao compor o poema, foi fiel à narrativa popular, cuidando para que a linguagem poética reproduzisse de maneira clara, mas sem concessões, toda a dor transmitida pelo pássaro. Observe, desde o primeiro verso, construído sobre um belo oximoro – vivendo de morrer –, como essa linguagem se estrutura, em decassílabos brancos. Há pouco a esclarecer. A expressão “flautas tristes”, por exemplo, pode ter duas leituras: são metáforas para as almas condenadas por Tupã, que andam a assombrar, pela noite; ou são as flautas noturnas de Jurupari, cada som com um significado diferente, todos, invariavelmente, melancólicos.

Mas o canto lúgubre do pássaro, sendo mais que um lamento, é um desafio a quem o condenou a uma pena maior que o crime que a jovem cometera. Para dar ideia da extensão dessa dor, o poeta se refere a “esse cantar da lua à terra”; e os olhos do pássaro “interrogam o céu” sobre o castigo do “amor sozinho”, como o sofrimento da moça-urutau,

que, se um falaz amor tarde traíra,

do verdadeiro amor cedo partira.

 

Pela infidelidade a um amor que não desejara, que lhe fora imposto pelo deus – ou, quem sabe, por seus pais –, ela foi condenada a viver eternamente sem amor.

O poema seguinte, da “Coroa de Anunciação”, trata, complementarmente, de assunto similar, mas vário: o amor místico que, a despeito do sofrimento cotidiano, tende a crescer, tendo por suporte a fé. Mas o poeta, inseguro da própria condição de crente, compromete-se apenas a cantar “do que se acaba a luz que fica”, eternizando o que lhe vem aos olhos. Do quinto ao oitavo verso, o poeta vê-se morto entre os escombros, mas o milagre do retorno à vida – “lázaros de prantos” – se dá na presença da “ave infinita”, metáfora da interferência divina.

Os versos seguintes repetem o coro do amor necessário à salvação da selva, alegoria da própria humanidade. O dístico final não poderia ser mais otimista: o prêmio de amor que o amor de Deus dá ao crente é personificado na chegada da “Amada”, símbolo da felicidade e da cessação de todo o sofrimento.

A poesia de fundo religioso faz parte da tradição poética em todas as línguas. O espanhol San Juan de la Cruz e a mexicana Sóror Juana Inés de la Cruz, além do inglês John Donne, são alguns dos nomes mais notáveis. Em português, desde o pioneiro Anchieta, passando pelo injustamente mal-afamado Gregório de Matos, até os recentes Jorge de Lima e Murilo Mendes, manteve-se a tradição. A literatura amazonense tem em Max Carphentier um representante desse legado, tornando a crença em beleza e a fé em poesia.

Do urutau - A coroa de Anunciação XXI
(Mauri Mrq - Max Carphentier)


 Bibliografia Geral

1.    Subsídios para uma apresentação da poesia amazonense: o Clube da Madrugada

GARCIA, Etelvina. Zona Franca de Manaus: história, conquistas e desafios. Manaus: Norma, Suframa, 2004.

LOUREIRO, Antônio. Síntese da História do Amazonas. Manaus: Imprensa Oficial, 1978.

RAMA, Ángel. Literatura e Cultura na América Latina. Org. de Flávio Aguiar e Sandra Guardini T. Vasconcelos, Trad. de Raquel la Corte dos Santos e Elza Gasparotto, São Paulo: Edusp, 2001.

TUFIC, Jorge. Clube da Madrugada – 30 anos. Manaus: Imprensa Oficial, 1984.

__________ (org.). Pequena Antologia Madrugada. Manaus: Sérgio Cardoso, 1958.

Obs: Por justiça, devo citar também as conversas-entrevistas com os escritores Luiz Bacellar, Anísio Mello, Almir Diniz e Armando de Menezes, que me passaram sua visão e sua experiência pessoal sobre o assunto.

 

2.    Informações biobibliográficas

DINIZ, Almir. Acadêmicos imortais do Amazonas – Dicionário biográfico. Manaus: Uirapuru, 2002.

TELLES, Tenório & KRÜGER, Marcos Frederico (orgs.). Poesia e poetas do Amazonas. Manaus: Valer, 2006.

 

3.    Poemas

ANDRADE, Moacir e outros. I antologia poética ASSEAM. Coordenação: Gaitano Antonaccio. Manaus: 1997.

BACELLAR, Luiz. Sol de feira. 3.ª ed. Manaus: Puxirum, 1985.

CABRAL, Astrid. De déu em déu – poemas reunidos 1979/1994. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998.

CARPHENTIER, Max. Tiara do verde amor. 2.ª ed. Manaus: EDUA, 1999.

CARVALHO, Farias de. Pássaro de cinza. 2.ª ed. Manaus: Valer, Governo do Estado do Amazonas, 2000.

DINIZ, Almir. Caminhos da alma. Manaus: Imprensa Oficial, 1996.

FARIAS, Elson. Romanceiro. Manaus: Puxirum, 1985.

MELLO, Anísio. Kaleidoscópio. Manaus: Valer, 2002.

MELLO, Thiago de. Vento Geral – Poesia 1951/1981. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.

PENAFORT, Ernesto. Do verbo azul. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1988.

PINTO, Antísthenes. Poesia reunida. Manaus: Puxirum, 1987.

RUAS, L. Poemeu. Manaus: Puxirum, 1985.

SILVA, Alencar e. Solo do outono. Manaus: Valer, 2000.

TUFIC, Jorge. Varanda de pássaros. 2.ª ed. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1980.

WERK, Alcides. Trilha Dágua. 4.ª ed. Manaus: Imprensa Oficial, 1994.

 




[1] CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6.ª ed., Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. p. 454.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

A poesia é necessária?

 

Incêndio

Astrid Cabral

 

Um belo dia te acena o outono

com folhas de adeus e fogo.

 

Um belo dia o outono em teu ombro

pousa chuvas de breve ouro.

 

Então o tempo te prende em sua teia

e o coração poente te incendeia.



terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Ano bissexto com Olimpíadas

Pedro Lucas Lindoso

 

Converso com o jovem Enzo. Estudante do Ensino Médio de uma excelente escola aqui em Manaus. Pergunto-lhe se ele sabe o que é um ano bissexto.

Enzo me diz que é quando fevereiro tem 29 dias. E também é o ano das Olimpíadas, me explica. O único ano bissexto que não teve Olimpíadas foi em 2020. As Olimpíadas de Tóquio 2020, no Japão, foram realizadas de 23 de julho a 8 de agosto de 2021. Elas foram adiadas em um ano por causa da pandemia do coronavírus. A 32ª edição das Olimpíadas foi a primeira da Era Moderna a ser adiada. Outras três foram canceladas por guerras.

Pedi a Enzo que me explicasse a razão de termos ano bissexto, de quatro em quatro anos. E o motivo de nesses anos fevereiro ter 29 dias. Enzo, que é mesmo muito inteligente, me ensinou que ano bissexto é todo ano cuja expressão numérica é divisível por quatro. E que o ano bissexto é quando fevereiro tem 29 dias. Simplesmente porque ano é o tempo que a Terra faz o movimento de translação em volta do Sol. Na verdade não leva somente 365 dias. O tempo exato é de 365 dias e seis horas (ou um quarto de dia). O ano bissexto faz essa compensação.

Enzo realmente é brilhante. Disse-me que aprendeu em História que foi Sosígenes de Alexandria quem estabeleceu que o ano comum teria 365 dias três vezes consecutivas. E, na quarta vez, 366 dias, acrescentando-se um dia no mês de fevereiro. Assim, fevereiro tem 29 dias, de quatro em quatro anos.

Voltemos às Olimpíadas. Perguntei-lhe se ele gosta de alguma modalidade específica. Enzo adora vôlei. O time de Enzo é campeão da modalidade na escola. Adiantou-me que o vôlei masculino nos próximos jogos olímpicos em Paris será disputado entre os dias 27 de julho e 10 de agosto de 2024.

E a seleção brasileira vai participar! Foram realizados três torneios Pré-Olímpicos, em diferentes sedes, com oito países em cada um deles. Os dois melhores de cada disputa asseguraram a vaga para Paris 2024, se juntando à França, que já tinha seu lugar garantido por ser o país sede. Entre as nações que conseguiram a classificação no vôlei masculino está o Brasil.

Enzo está muito empolgado. Garante que o Brasil vai trazer medalha no vôlei. Simplesmente porque Bernardinho é novamente o técnico da seleção masculina de vôlei do Brasil. Bernardinho foi escolhido como substituto de Renan Dal Zotto, que pediu demissão em outubro passado.

O Brasil tem tradição no vôlei, me disse. E com Bernardinho como técnico não tem para ninguém. Então Feliz Ano Bissexto. Com Olimpíadas!

 

domingo, 21 de janeiro de 2024

AI DE TI, MANAUS: OU UM APELO A RUBEM BRAGA


José Alcimar de Oliveira*

Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão (Rubem Braga)

          01. As breves sete notas em forma de manifesto são aqui dedicadas: a) ao povo da Comunidade da Ponte, do igarapé São Vicente, Bairro do Céu, vizinha ao centro de Manaus, devastada ontem (20 de janeiro de 2024) por um incêndio proporcional à omissão que bem caracteriza o poder público desta cidade; b) igualmente à Elvira Eliza França, lutadora social que faz da cidade de Manaus (tão maltratada e escarnecida por sua classe dominante e pelo descaso programático de seguidos governantes) o seu campo de embate (generoso, intelectual, terapêutico, anônimo) em favor de quantas e quantos têm sobre suas vidas o peso e o pesadelo cotidianos da miséria socialmente produzida pela ordem assassina do capital.

          02. Manaus é o exemplo, desde longo prazo, de um infame laboratório social (de sofrimento e nefasta política) que dá matéria e forma ao seu reverso Plano Diretor.  “Antes de te perder eu agravarei a tua demência – ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão”. O que faz de uma cidade uma cidade é a garantia, formalmente estabelecida desde a Antiguidade Clássica, de dois princípios: a isonomia e a isegoria. Isonomia como igualdade de seus moradores aos direitos politicamente definidos. Isegoria como direito coletivo de manifestação política e de uso público da razão.    

          03. Elvira Eliza França é a manifestação personificada do sentido do cuidado social e da solidariedade humana numa cidade adoecida, hostil, surda diante da tragédia social que se naturaliza como forma de vida para seus habitantes pobres e dos quais sua camada burguesa se abriga e se afasta em indecoroso conforto. Até quando? Quando na cidade domina a ordem do capital sem controle social, temos, como é o caso de Manaus, uma cidade partida, em que para a maioria da população só resta a inclusão pela porta do rebaixamento de direitos.  Ai de ti, Manaus! É de ti, também, que fala Rubem Braga em sua crônica antológica de 1958, Ai de ti, Copacabana!, que me serviu de guia literário para falar da Manaus de 2024. 

         04. Sobre Rubem Braga testemunha Clarice Lispector: “Gostei dele à primeira vista. Sei coisas a seu respeito. Por exemplo, bondades que faz discretamente sem pedir nada em troca. Por exemplo, ele é a pessoa que perdoa muito e entende tudo e não se faz juiz de ninguém. Ele é corajoso. Simples. Delicado”. Dele, o registro: “Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite”. Sobre Manaus, diria: já te chamaram Paris dos Trópicos. Mas de Paris preferiste apenas bons modos e perfumaria e nada aprendeste da Comuna de 1871. Pior: renegas com o reacionarismo de tua classe dominante o espírito da Cabanagem que te fez irredenta 35 anos antes da experiência comunal do proletariado em Paris.   

          05. É sobre ti, Manaus, que a luminosidade da crônica de Rubem Braga me ajudou pensar as tuas sombras e cinzas.  Ontem, 20 de janeiro de 2024, foste outra vez agredida pelo Nero pós-moderno que habita coração e mente de teus agentes de poder (econômico, político, administrativo), e queimaste teu povo à beira do rio, em mais um incêndio às margens do belo e maltratado rio Negro, que insiste, mas já não tem meios nem força para limpar a sujeira que te envolve o corpo e a alma. Ai de ti, Manaus! Como te fizeste pobre e miserável ao rejeitar a sabedoria étnica de tua ontologia indígena e caboca. 

          06. O que pode Elvira Eliza França fazer no contracurso da insana trajetória que te leva e te mantém no cume das piores estatísticas sociais?  Como pode conspurcar e deformar tua simbiose natureza-cultura quem te faz declarações de amor, enaltece tuas belezas e te enche de promessas?  “Ai de ti, Copacabana (Manaus), porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas”. Por que, Manaus, continuas, crente, a cultivar fascínio por quem te devota ódio e desprezo? Quando a cidade nega a política, reforça politicamente a pior política. Democracia como poder do povo implica que o povo encontre na política sua força teórica (consciência de classe) e a política encontre no povo sua força material (organização de classe). 

          07. Quem poderá enxugar as tuas lágrimas, Manaus? Quem poderá te salvar de ti mesma? Por que teus templos seguem cheios de almas vazias, com preces que só conhecem e se destinam ao culto da prosperidade e da acumulação, sempre à custa do sacrifício de quem nada mais tem a ser sacrificado? “Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana (e Manaus), e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?”. De quantos incêndios necessitas, Manaus, para que a cegueira voluntária de teus homens de bens, bem devotados à engenharia do mal e da barbárie, seja algum dia penetrada pelas imagens da tragédia social em que se transformou o cotidiano de tua gente? 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, base da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões, no Amazonas, e Jaguaribe, no Ceará. 

Em Manaus, AM, 21 de janeiro de 2024.


Manaus, amor e memória DCLIV




 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Lira da Madrugada – Astrid Cabral 14/15

Zemaria Pinto

 

 

Ficha biobibliográfica

 

Autora: Astrid Cabral

Nome completo: Astrid Cabral Félix de Souza

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 25 de setembro de 1936

 

Obra poética:

·       Ponto de cruz (1979)

·       Torna-viagem (1981)

·       Visgo da terra (1986)

·       Lição de Alice (1986)

·       Rês desgarrada (1994)

·       De déu em déu – poemas reunidos 1979/1994 (1998)

·       Intramuros (1998)

·       Rasos d’água (2003)

·       Jaula (2006)

·       Ante-sala (2007)

·       Palavra na berlinda (2011)

·       Infância em franjas (2014)

 


ÁGUA DOCE

  

A água do rio é doce.

Carece de sal, carece de onda.

A água do rio carece

da vândala violência do mar.

A água do rio é mansa

sem a ameaça constante das vagas

sem a baba de espumas brabas.

A água do rio é mansa

mas também se zanga.

Tem banzeiro, enchente

correnteza e repiquete.

Pressa de corredeira

sobressalto de cachoeira

traição de redemoinho.

A água do rio é mansa

corre em leito estreito.

Mas também transborda e inunda

também é vasta, também é funda

também arrasta, também mata.

Afoga quem não sabe nadar.

Enrola quem não sabe remar.

A água do rio é doce

mas também sabe lutar.

A água doce na pororoca

enfrenta e afronta o mar.

Filha de olho-d’água e de chuva

neta de neve e de nuvem

a água doce é pura

mas também se mistura.

Tem água cor de café

tem água cor de cajá

tem água cor de garapa

tem água que nem guaraná.

A água doce do rio

não tem baleia nem tubarão

tem jacaré, candiru, piranha

poraquê e não sei mais o quê.

A água doce não é tão doce.

Antes fosse.

 


A poesia de Astrid Cabral tem uma dicção rara, senão única, na poesia brasileira contemporânea, desde Ponto de cruz, seu primeiro livro de poemas, onde a seçãoPequeno mundo” esmiúça rituais do banal cotidiano. Trata-se de uma poesia visceralmente feminina, não necessariamente feminista, o que significa uma postura menos ideológica que estética. Essa poesia feminina consiste em reconhecer no eu lírico, no emissor da mensagem poética, a condição de mulhercom todos os seus signos. A água é um deles.

O líquido amniótico é a primeira forma líquida com a qual temos contato. Assim, a água se liga diretamente com a figura da mãe, sem a qual não existe vida, que, no ser humano, é representada pela movimentação do líquido sanguíneo em nosso corpo. No exterior do ser humano, a água toma forma masculina ao ser o principal fator da fecundação da terra, seja pela chuva, seja pelo movimento das águas dos rios. Na Amazônia, tão cara a Astrid no livro Visgo da terra, onde foi publicado o poemaÁgua doce”, numa seção não à toa chamadaÁgua”, essa dicotomia água-macho/terra-fêmea encontra sua integral representação na área de várzea, que metade do ano fica submersa, sendo fecundada, e onde, na outra metade do ano, florescem as mais diversas culturas, que irão alimentar o ribeirinho e o citadino.   

A água é um elemento constante na obra poética de Astrid Cabral. O ápice dessa relação é o premiado livro Rasos d’água: “uma viagem épica pela memória líquida, das lágrimas à neve, banhando-se de chuva, perscrutando o mar, os rios inúmeros, em permanente tensão com o pathos da morte, que ora se aproxima e sangra, ora se afasta e observa a velhice inevitável, ora apenas lembra/relembra a dor para sempre represada”, como escrevi na apresentação da segunda edição. Em Rasos d’água, o eu lírico é um ser líquido, sem forma definida, que toma nova forma a cada poema. Para Astrid, a água é muito mais que a origem da vida e metáfora da criação: numa relação dialética que não se esgota nunca, é também fonte de morte e de destruição.

O poemaÁgua doce”, que é a água da memória, da infância, guarda a consciência disso, quando opõe a água do rio à água do mar, representada sempre por elementos negativos, como a “vândala violência do mar”, “a ameaça constante das vagas” e “a baba de espumas brabas”. Mas, aos poucos, essa consciência vai se redefinindo, a memória vai se recompondo, e as lembranças vêm à tona, sempre naquela relação vida/morte-criação/destruição: “A água do rio é mansa / mas também se zanga”. E enumera o lado oposto da água doce e mansa: banzeiro, enchente, correnteza, repiquete, cachoeira, redemoinho. Para quem compartilha essas memórias com Astrid, essas palavras podem parecer motivos de brincadeiras distantes. Mas ela adverte: o rio transborda e inunda, arrasta e mata, “afoga quem não sabe nadar”, “enrola quem não sabe remar”.

Como nos mitos gregos, em que os rios eram considerados filhos do Oceano e pais das Ninfas, o rio de Astrid parece dotado de forma humana, poistambém sabe lutar”, e na pororoca “enfrenta e afronta o mar”. O fenômeno da pororoca – perdoe-me o leitor cansado de saber disso – ocorre quando o nível do Atlântico sobe e uma onda de maré, gigantesca, invade os rios que formam o estuário do rio Amazonas, e colide com a massa de água doce fluindo na direção contrária, causando um grande estrondo, arrastando e destruindo tudo o que encontra pela frente.

O poema segue, explicando as distintas cores dos rios, o que lembra a minha primeira viagem de barco pelo rio Negro, aos 9 anos, e o comentário de alguém, acerca da cor da água, agitada com força pelo leme do “Augusto Montenegro”: “parece coca-cola”. A comparação não fazia o menor sentido para mim, pois não sabia que diabos era aquilo, mas ficou-me na memória por muitos anos, até eu compreender que a analogia ouvida era uma ofensa à dignidade do velho Negro.

Na sequência, Astrid compara os “monstros” do mar com os correspondentes do rio. E se usei a palavra monstro para a simpática baleia, pensei em Moby Dick – provável referência, literária, de Astrid. Os monstros do rio são tantos na memória que cabe até umnão sei mais o quê”, para fechar a enumeração. O poema encerra como se unisse as duas pontas do início e do fim: começa afirmado que “a água do rio é doce”, para concluir, depois que as lembranças vieram à tona, que “a água doce não é tão doce. / Antes fosse”. Nesse poema, Astrid não usa apenas a memória, ela se expressa com um eu lírico que tem a idade da sua memória, a idade da infância. Aliás, o Aurélio registra a expressão “poeta de água doce” significando “poeta muito jovem”. As frases curtas, aliadas ao desenvolvimento do poema, que sai de uma certeza (“a água do rio é doce”) para uma decepção (“a água doce não é tão doce”), são típicas de uma idade que não sabe ainda construir um raciocínio complexo. Ela, então, arquiteta uma cadeia de pensamento fundada no contraditório: primeiro em relação ao mar, depois em relação a si mesma, usando sempre a mesma fórmula adversativa (“mas também”), para concluir com nova comparação com o mar. O eu lírico criança descobre a dialética. Se a água do rio fosse mesmo doce não teríamos esse belo poema.

Água doce
(Mauri Mrq - Astrid Cabral)