Amigos do Fingidor

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Augusto, poeta expressionista!


                                          Hildeberto Barbosa Filho

 

            O “infortúnio crítico” acerca da obra poética de Augusto dos Anjos, a que se referiu Eduardo Portela, começa, aos poucos, a ser desfeito, na medida em que, em lugar do eu empírico do poeta, isto é, sua personalidade biográfica, toma-se, como objeto de investigação, a persona lírica, ou seja o eu poético, fruto da fantasia criadora e materializado pela injunção dos recursos corpóreos da tessitura textual, naquilo que ela contém de riqueza rítmico-melódica e semântico-imagética.

            Tal feito, se pode ser tributado, aqui e ali, a um que outro estudo pontual de críticos independentes e não vinculados às linhas de pesquisa da Universidade, deve-se, contudo, e com mais sistemático rigor, às abordagens universitárias que, alicerçadas em categorias teóricas operacionais e em métodos exploratórios eficazes, eficientes e efetivos, cada vez mais contribuem para abrir, enriquecer e verticalizar o olhar dos leitores sobre a singularidade técnico-literária, estilística e temático-ideológica do poeta paraibano.
 
            Vejo, assim, A invenção do expressionismo em Augusto dos Anjos, a princípio, dissertação de mestrado, ora publicada em livro, do poeta e escritor amazonense Zemaria Pinto.

            O primeiro trunfo do ensaio de Zemaria me parece a atitude, mais do escritor do que do pesquisador, perante os ingredientes da linguagem. Diferente das dissertações acadêmicas normalmente engessadas num complexo teórico mal assimilado e redigidas através de um português burocrático sem qualquer brilho de criatividade, quando não em visível desacordo com as mínimas exigências da correção e elegância vernacular, o autor procura exercitar um estilo ensaístico, de domínio próprio, dotado de autonomia, onde a objetividade e a clareza se associam à lógica cristalina e sugestiva das análises e interpretações que mobilizam o olhar crítico.

            Esta maneira de escrever revela, sem dúvida, um compromisso com o pensar. Um pensar que, sem abdicar de certas referências teóricas essenciais à elucidação do objeto de estudo escolhido, não sucumbe, todavia, ao seu imperativo, uma vez que, partindo de algumas premissas que tais referências sugerem, intenta imprimir uma perspectiva pessoal, sinalizando para novas possibilidades de leitura que o Eu, em sua congenial e flexível abertura típica da obra de arte, pode comportar.

            Só a título de exemplo, observem-se, na análise do poema “Os doentes”, os sinais comparativos que o estudioso aponta entre o movimento interno do texto e a clássica tópica da descida aos infernos, sobretudo ao inferno dantesco, com seu espetáculo grotesco e dramático, também peculiar ao longo poema de Augusto. Veja-se ainda a curiosa aproximação, potencialmente viável, das ideias nietzschianas a certas variações temáticas do Eu, o que a propósito bem observou Sandra Erickion, em Melancolia da criatividade em Augusto dos Anjos (2003), ou, em certo sentido, a força surrealista de algumas imagens assim como as surpreendentes antecipações kafkianas, latentes ou manifestas, nas camadas textuais dessa poesia incomparável.

            Outro aspecto que me chama a atenção no trabalho de Zemaria Pinto é a própria escolha temática: o expressionismo. Se, a rigor, o autor de “A ilha de Cipango” não inventou esta vertente artística, como a equívoca leitura do título pode sugerir, soube, em função sobretudo do Zeitgeist, isto é, o espírito do tempo, explorar como poucos uma das suas múltiplas variantes poéticas. Um dos méritos, portanto, deste ensaio consiste em verificar, descrever e sistematizar os elementos que podem contemplar uma possível linhagem expressionista no âmbito heteróclito e dissonante da poesia de Augusto dos Anjos.

            O que Gilberto Freyre apenas sugeriu en passant, num breve artigo de 1924, e o que Anatol Rosenfeld, por sua vez, tentou realizar, no ensaio “A costela de prata de Augusto dos Anjos” (1969), Zemaria o faz, e o faz como que reconhecendo, porém, sobremodo, organizando e aprofundando as diversas sugestões que se disseminam, aleatoriamente, pelos estudos de José Paulo Paes, Massaud Moisés, Lúcia Helena, Luiz Costa Lima, Ivan Junqueira e Sérgio Martagão Gesteira, entre outros.

            É preciso enfatizar, contudo, que o ensaísta não se contenta apenas em enumerar preliminarmente as características de uma estética “anti-retiniana”, ou seja, deformativa, como o expressionismo, entrevistas sobretudo numa visão antinaturalista das coisas, na fragmentação do eu e do mundo, nas atmosferas oníricas, na manifestação do grotesco, na recorrência de imagens macabras, enfim, na revelação de uma realidade ínfima, larvar, vermífuga, tão bem abordada por José Paulo Paes num pequeno ensaio de Transleituras (1995), intitulado “Uma microscopia do monstruoso: a estética do horror na poesia de Augusto dos Anjos”.

            Zemaria Pinto parte de dois conceitos-chave para articular toda sua argumentação. Valendo-se de Hugo Friedrich, em A estrutura da lírica moderna (1978)) e de Michael Hamburger, em A verdade da poesia (2007), retoma as diferenças entre eu empírico e eu lírico, para, daí, desdobrar o eu lírico numa espécie de “máscara lírica”, numa nova persona, cuja voz vai se responsabilizar pelo fluxo verbal da maior parte dos poemas do Eu. Segundo Zemaria, “a máscara lírica é um ato deliberado de criação do poeta-autor” e assegura, de certa maneira, o quanto Augusto dos Anjos tinha consciência de seu processo criativo. É com base nesta categoria que o ensaísta vai ler e analisar alguns poemas seminais do Eu, a exemplo de “Monólogo de uma sombra”, “Os doentes”, “As cismas do destino”, “Mistérios de um fósforo” e “Queixas noturnas”. Este, em especial, considerado o texto em que o poeta paraibano dá o salto estético para uma poesis mais madura e definitiva, aquela em que os componentes expressionistas se cristalizam de forma mais visível e recorrente.

            De Schopenhauer e do budismo, o ensaísta aproveita o conceito de “dor estética”, em certa clave, uma dor fingida ao modo pessoano, evidenciada não pelo sentimento real do autor/eu empírico, mas forjada pela mediação da “máscara lírica”, a seu turno, construída pelo andamento dramático e narrativo de certos textos, através do complexo linguístico das imagens. Zemaria sustenta que esta “dor estética” possui “desdobramentos e exigências”, a saber: “a desindividualização ou anulação do eu; a negação do sentimento amoroso; o repúdio a qualquer forma de prazer”.

            Envolvida estilisticamente pela “dor estética”, a “máscara lírica” rejeita a representação aristotélica do mundo, desenvolvendo uma minuciosa e perplexa investigação dos fenômenos cósmicos e existenciais. Zemaria entende que, “além de mostrar a realidade deformada”, a “máscara lírica” elabora um “plano de trabalho”, segundo ele, “denunciar a degradação da humanidade e proclamar a inevitabilidade de mudanças radicais”. A degradação, ainda acrescenta o autor, concerne não só aos aspectos físicos e orgânicos dos seres, tão bem descrita em amplas passagens do Eu, como também às dimensões morais, representadas aqui pela “perversão e a corrupção dos costumes”.

            Fundado em pertinente bibliografia, mas sobremaneira atento à liberdade do olhar crítico, capaz de interpretações próprias, ousadas, inteligentes e sugestivas, mesmo que se possa discordar dessa ou daquela afirmação teórica interpretativa, o estudo de Zemaria Pinto, por estas e outras razões, é daqueles que fazem jus à densidade e beleza – estranha e surpreendente beleza! – da poesia de Augusto dos Anjos.
 
 
(Apresentação do livro A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, que será lançado neste sábado, 02 de março, às 10h, na livraria Valer.)

Tabagismo: do sagrado ao profano



João Bosco Botelho


NO ESPAÇO SAGRADO

A crença no poder mágico da fumaça, produzida pela ação do fogo em alguns vegetais, é constante desde tempos imemo­riais, no universo mítico de muitas sociedades. Esse aspecto das relações sociais não pode ser simples coincidência. Certos pontos comuns ligam esse imaginário entre culturas distantes milhares de quilômetros entre si.

Os relatos dos cronistas, no Brasil Colônia, muitos acompanha­dos de iconogravuras, narraram o uso do tabaco nos ritos terapêuticos e divinatórios. Os pajés se comunicavam com os espíritos, para curar e adivinhar, através da força embriagadora da fumaça do tabaco queimado.

Os registros disponíveis, até 1700, não evidenciam a utilização do tabaco, sob nenhuma forma, em muitas áreas do Brasil e América do Sul.
 

NO ESPAÇO PROFANO

A passagem do tabagismo do espaço sagrado para o profa­no se deu, no Brasil, com a chegada do colonizador. O vício de fumar, por homens e mulheres, como instrumento de prazer foi imediatamente percebida ainda nos primeiros contatos e cristalinamente assinalado por Cardim, no século 16: Costumam esses gentios beber fumo de petigma (tabaco) por, outro nome erva santa... fica como canudo de cana cheio desta herva, e pondo‑lhe fogo na ponta metem o pau grosso na boca e assim chu­pando e bebendo aquele fumo, e o tem por grande mimo e regalio.

Durante a ocupação holandesa do Nordeste brasileiro, na primeira metade do séuclo 16, pelas tropas de João Maurício de Nassau, o médico Guilherme Piso, chefe dos serviços médicos das Indias Ocidentais, fez um registro fundamental para que se possa entender a sedução que o tabagismo exerceu no continente america­no: “A célebre erva Tabaco ou Petum, chamada pelos brasileiros Petúme, em quase todas as Indias Ocidentais é, desde remotos tempos, estimada pelos próprios íncolas para sarar feridas. Logo que os europeus souberam disto, pesquisando‑lhe as virtudes recônditas, aplicaram as folhas frescas, bem como o sumo das mesmas, a usos humanos; depois secas, nos abusos e prazeres também. De sorte que agora, como o vento hibernal, o fumo do tabaco vicia o orbe universal”.

O consumo, em 1920, quase nulo no sexo feminino, alcançou a fantástica cifra, em 1970, de duas mil unidades por adulto. A atenção das autoridades mundiais de saúde pública foram alertadas, pela primeira vez, pelo Relatório de Hammond e Horn, em 1954, financiado pelo American Cancer Society, seguido pelo do Royal College of Phisicians, da Inglaterra, em 1962, descrevendo a nocividade do fumo. Hoje existem mais de setenta mil publicações disponíveis sobre o assunto.

As políticas de saúde, no mundo, desde os últinos anos do século 20,  se empenham no combate ao fumo: leis proibem as pessoas fumarem em lugares públicos.

O mundo conseguiu, nos anos oitenta, colocar o cigarro sob fogo cruzado. Mais de setenta nações estão unidas, pelo menos aparentemente, para varrer o tabaco do planeta.

 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

A biblical story.
Tony Kew.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Carta aberta à professora Márcia Perales, candidata à cadeira 21 da Academia Amazonense de Letras

 
 
Prezada Senhora,
 
Começo por me desculpar pelo não uso do tratamento ao qual a Senhora, como reitora da Universidade Federal do Amazonas, está acostumada, por achá-lo desprovido de sentido. Na sequência, permita-me que me apresente, pois não creio que a senhora saiba quem eu sou: Zemaria Pinto, ocupante da cadeira 27 da Academia Amazonense de Letras, desde 2004, 15 livros publicados (entre ensaios literários, poesia, teatro e literatura infanto-juvenil), analista de sistemas, bacharel em economia, especialista em Literatura Brasileira e mestre em Estudos Literários – estes três últimos, títulos obtidos na UFAM, o que enfatizo para mostrar minha proximidade e meu respeito para com a instituição que a Senhora dirige. Agora, aos fatos.
 
No início deste ano, recebi da direção da AAL um boletim que informava que as inscrições para a cadeira 21, ocupada pelo escritor Luiz Bacellar até 09 de setembro, aconteceriam entre os dias 08 de março e 08 de abril. Na última quinta-feira, 21 de fevereiro, entretanto, soube, por mero descuido do acadêmico que secretariava uma assembléia de rotina naquela casa, que as referidas inscrições se encerrariam hoje, 25 de fevereiro. Pedi à mesa um esclarecimento, provocando mal-estar geral, pois ficava claro, pela minha insatisfação, que eu considerava aquela mudança clandestina mais uma afronta, entre tantas, à memória do meu amigo Bacellar. O esclarecimento foi singelo: uma decisão da diretoria, que é soberana nesses assuntos. Mas deveria também ser transparente e não o foi.
 
O que a Senhora tem a ver com essas intrigas paroquianas, típicas de uma casa onde a vaidade paira acima de qualquer virtude? Muito simples. A primeira vez que ouvi a menção ao seu nome para substituir Bacellar ele ainda agonizava em seu leito de morte. No dia do enterro, repetiu-se a mesma ladainha, vinda de vários confrades: “a vaga de Luiz Bacellar é da professora Márcia Perales”. Não sei se a Senhora tem conhecimento desses fatos. Acredito que não. Mas quando alguém lhe ofereceu essa eleição, sem sustos, talvez por unanimidade, graças a essa manobra escusa acima relatada, esqueceu-se que a AAL não é formada só por carneirinhos. Se não fosse a indiscrição do confrade, professora, hoje a Senhora seria candidata única, imbatível. Mas não o é.
 
A Senhora irá enfrentar dois candidatos. Dois excelentes candidatos escritores. Eu preciso dizer-lhe que essas duas candidaturas, professora, nasceram na noite de quinta-feira, como uma reação indignada à manobra escusa. É possível que a Senhora seja eleita com até 36 dos 38 votos admissíveis. Mas os dois ou mais votos de diferença – dos articuladores das candidaturas avessas, e dos que não se curvarão ao pensamento hegemônico – vão escancarar a insatisfação que vai aos poucos minando a AAL. Por repudiar manobras desse tipo, o poeta Thiago de Mello renunciou ao seu título de membro do Silogeu. O Bacellar, que vivia arengando com o Thiago, dizia que a glória suprema seria ser expulso da Academia.
 
Para sua reflexão.
 
Respeitosamente,
 
 
Zemaria Pinto

 

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos – orelha


Marcos Frederico Krüger



               O livro que você tem em mãos contém um ensaio nada convencional sobre Augusto dos Anjos, que é, sem dúvida alguma, um dos maiores poetas da língua portuguesa. Ao contrário dos manuais de literatura trabalhados nos colégios e universidades, este ensaio propõe uma visão bastante diferente sobre o artista paraibano. 

            Dessa forma, ao invés do apregoado cientificismo da Escola do Recife, que daria base, segundo o senso comum literário, à estética de Augusto dos Anjos, Zemaria Pinto propõe o Expressionismo, uma das vanguardas artísticas do início do século XX, como chave para a compreensão da poesia do autor de Eu. 

O Expressionismo surgiu em 1910, na Alemanha, junto com a revista “Der Sturm” (A Tempestade), e os recursos expressivos de que se utilizou na literatura se verificam também na poesia de Augusto, cuja única obra data de 1912. É o caso da linguagem recheada de metáforas, com “palavras potentes” (“inexorabilíssimos”, “escarra”, “lama”) e sintaxe muitas vezes “retorcida”.  Ao Expressionismo (ou derivado dele), aliam-se, nos poemas do paraibano, outras formas de se posicionar no mundo, como o Budismo, por exemplo. 

            Prepare-se, pois, para adentrar um universo analítico de muita argúcia, ao qual se alia a criatividade de Zemaria Pinto, que tem os dons da teoria e da crítica literária, haja vista o conhecido O texto nu, livro adotado em cursos de Letras. O autor conhece também a oficina do fazer lírico, posto ser poeta de apurada sensibilidade, como o comprovam seus livros Corpoenigma, Fragmentos de silêncio, Música para surdos e Dabacuri. Esses dois predicados o tornaram apto a analisar a obra de um poeta de sua (e nossa) predileção. 

            Este trabalho foi apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Amazonas em abril de 2012, tendo dado ao autor o título de Mestre em Estudos Literários. Não se trata, porém, de ensaio rançoso, típico de tantas dissertações que, burocraticamente, são defendidas nos diversos programas. O que aqui você vai ler é uma contribuição efetiva aos estudos literários no Brasil, posto desenvolver ideia inovadora e apontar caminho novo para a percepção da arte de Augusto dos Anjos. 

            Percorrer as páginas desse livro o enriquecerá e mostrará que a poesia é uma atitude muito eficaz de se posicionar como indivíduo. Você perceberá também que a crítica literária exige criatividade por parte de seu praticante. O crítico é, tanto quanto o poeta, um artista.
 
 
(Orelha do livro A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, que será lançado no próximo sábado, às 10h, na livraria Valer.)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Manaus, amor e memória XCVII

Escola Afonso Pena.
Coleção Marie Robinson.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O pioneiro do Expressionismo

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1. Por que o título A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos?

Na minha dissertação de mestrado, desenvolvi a ideia de que Augusto dos Anjos criou seus próprios processos expressionistas, antes dos alemães. É claro que os poetas expressionistas alemães não conheceram a poesia do paraibano Augusto dos Anjos, mas os pontos de contato são impressionantes. A única explicação é o Zeitgeist, um conceito popularizado pelo filósofo alemão Hegel que significa algo como "espírito de época", isto é, um jovem brasileiro tem uma percepção semelhante a de um jovem alemão porque todos vivem a mesma época, em condições mais ou menos parecidas. Hoje, com a instituição da globalização, é muito fácil perceber isso.

2. Por que Augusto dos Anjos?

Estive no Chile há alguns dias e uma coisa comoveu-me especialmente: o amor que os chilenos têm por seus poetas. Neruda, Mistral, Huidobro, entre tantos, são verdadeiramente amados. Neruda é um mito. Ele é aquilo que os alemães - de novo eles! - chamam de poeta nacional: lá, Goethe; na Itália, Dante; em Portugal, Camões. Nós não temos um poeta nacional. O que mais se aproximou desse conceito foi Bilac, um verdadeiro príncipe durante 50 anos, caiu no ostracismo com a perseguição que lhe moveram os modernistas. Hoje está esquecido. Augusto dos Anjos é uma história à parte. Desprezado por parnasianos e simbolistas, foi motivo de piada dos modernistas, mas é o poeta mais popular do Brasil. O povo brasileiro salvou Augusto dos Anjos do ostracismo. As sucessivas e hoje incontáveis edições do Eu são o maior sucesso editorial brasileiro no gênero poesia. Augusto dos Anjos é o "meu" poeta nacional, por isso o escolhi.

3. Como você definiria o poeta Augusto dos Anjos: simbolista, parnasiano, pré-modernista ou expressionista?
 

Embora predominantemente expressionista (quase toda a sua produção entre 1906 e 1914), Augusto dos Anjos tem muitos poemas parnasianos e também simbolistas. E o seu expressionismo o faz não um pré-modernista, como já o classificou Alceu de Amoroso Lima, mas o primeiro dos modernistas. Infelizmente, estes eram vaidosos demais para admitir isso.
 
Obs: o livro A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, de Zemaria Pinto, será lançado no próximo dia 02/03, às 10h, na Livraria Valer.

OFF Carnaval - Teatro Alienígena

Sempre às 20h00.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos - lançamento




A Editora e Livraria Valer tem a satisfação de convidá-lo(a) para o lançamento do livro A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, de Zemaria Pinto, que acontecerá no dia 2 de março de 2013, às 10h, na Livraria Valer (Avenida Ramos Ferreira, 1195 – Centro).

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Em A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos, Zemaria Pinto faz um ensaio nada convencional sobre um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e propõe o Expressionismo, uma das vanguardas artísticas do início do século XX, como chave para a compreensão do autor do Eu.

Segundo Zemaria, o livro, oriundo de sua dissertação de mestrado, mostra que Augusto dos Anjos desenvolveu processos expressionistas antes mesmo dos poetas alemães, que só começaram a dar publicidade à sua produção em 1910 – com a publicação da revista Der Sturm (A tempestade) –, quando o poeta brasileiro estava, havia quatro anos, produzindo sob a luz da nova estética. Zemaria vai além:

“Augusto dos anjos é o mais original poeta brasileiro, mas teve o azar de viver na mesma época que os parnasianos de Bilac e companhia, que dominavam a cena e o detestaram. Quando os modernistas quebraram os paradigmas do parnaso tupiniquim, não tiveram também a sensibilidade de reconhecer em Augusto um precursor de suas ousadias. O povo, entretanto, salvou Augusto dos Anjos, transformando-o em um caso raro de poeta de sucesso. O seu reconhecimento crítico foi lento, ao longo dos cem anos que nos separam da primeira edição do Eu. Hoje, é incontestável.”

A orelha da obra, assinada pelo doutor em Literatura Marcos Frederico Krüger, afirma: “Percorrer as páginas desse livro o enriquecerá e mostrará que a poesia é uma atitude muito eficaz de se posicionar como indivíduo. Você perceberá também que a critica literária exige criatividade por parte de seu praticante. O crítico é, tanto quanto o poeta, um artista”.

 SOBRE O AUTOR

Ensaísta, dramaturgo, crítico e poeta, Zemaria Pinto é formado em Economia pela Universidade Federal do Amazonas, onde também fez especialização em Literatura Brasileira. É Mestre em Estudos Literários. Membro da Academia Amazonense de Letras desde 2004, tem outros 13 livros publicados: dois de poemas (Fragmentos de silêncio – 1995, Música para surdos – 2001); dois de haicais (Corpoenigma – 1994, Dabacuri – 2004); uma peça de teatro (Nós, Medéia – 2003); dois de ensaios para o vestibular (em 2000 e 2001, em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger), organização de poemas de Octávio Sarmento (A Uiara & outros poemas – 2007), um de teoria literária (O texto nu – 2009), o ensaio O conto no Amazonas – 2011 e os juvenis A cidade perdida dos meninos-peixes – 2011 e O beija-flor e o gavião – 2011, além do infantil O urubu albino – 2011.  

Evento: Lançamento de livro
Título: A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos
Autor: Zemaria Pinto
Editora: Valer
Páginas: 310
Valor: R$ 40,00
Data: 2 de março de 2013 

Horário: 10h
 
Promoção: Livraria Valer

Local: Avenida Ramos Ferreira, 1195 ─ Centro

 

 

As Santas Casas


João Bosco Botelho



A Santa Casa de Lisboa, fundada em 1498, esteve marcada pela determinação de administrar os enormes lucros oriundos da caridade, no reinado de D. Manuel (1495 -1521).

O crescimento político-econômico da Santa Casa impôs novas regras: não mais poderia ser dirigida por qualquer cristão caridoso. Novas qualidades foram exigidas, ficando mais fácil o nobre ou membro influente do clero assumir os postos mais importantes da Irmandade da Misericórdia.

Só o Mordomo da Santa Casa autorizava a coleta das esmolas em Lisboa. As ações deveriam estar no fiel cumprimento do estatuto que regulamentava as obrigações da Irmandade da Misericórdia, em torno de sete objetivos espirituais e sete corporais, baseados em Mt 25, 34-36.

As Santas Casas passaram, rapidamente, a constituir negócio muito lucrativo como consequência dos benefícios reais recebidos e do bem montado sistema para recebimento das doações dos súditos da Metrópole e das colônias.

O testamento de Mem de Sá pode fornecer avaliação aproximada da quantidade das doações recebidas pelas Santas Casas: a terça parte da fortuna do Governador Geral ficou destinada à Misericórdia da Bahia e a mesma percentagem, em Portugal, legada à Misericórdia de Lisboa.

A Misericórdia de Goa, fundada durante o governo de Lopo Soares (1515-1518), teve enorme importância estratégica e política porque essa cidade indiana era o porto final de penetração portuguesa no Oriente e recebia muitos viajantes. Os jesuítas, sempre atentos à dinâmica das relações políticas, ao perceberem o significado representado pela Misericórdia de Goa, reivindicaram e obtiveram do Vice-Rei Mathias de Albuquerque, em 1951, a exclusividade da Mesa Diretora e o recolhimento dos donativos.

As regalias patrocinadas pelo cargo de Mordomo não deveriam ser poucas. Só isso explica a atitude do paulista Jose Ortiz de Camargo, em 1651, que recusou ser juiz de São Paulo de Piratininga para não renunciar ao título de provedor da Misericórdia.

A consolidação dessas instituições de assistência médico-social alcançou o mundo colonial português. No Brasil, foram construídas trezentas e vinte e seis filiais. A do Rio de Janeiro estava em pleno funcionamento, em 1582, quando a frota de Diogo Flores Valdes aportou com muitos doentes a bordo.

A Santa Casa da Misericórdia de Manaus, mais de três séculos depois, reproduziu os mesmos princípios de caridade cristã que nortearam a primeira Santa Casa em Lisboa. A Misericórdia amazonense chegou como onda retardatária do processo colonizador português, no período em que, na Europa, os antigos critérios da hospitalização, em pavilhões, sofriam severas críticas.

O reclamo popular influenciou a decisão tomada pelo Presidente da Província do Amazonas para fundar a Irmandade da Misericórdia: a trágica situação hospitalar em Manaus, na segunda metade do século 19.

A inauguração da Santa Casa da Misericórdia de Manaus ocorreu em 16 de maio de 1880; apenas nove anos depois, apareceram os primeiros problemas da viabilidade econômica do hospital, apesar das facilidades tributárias recebidas. 

 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

Gerald Brom.

Um brasileiro no Coliseu


Marco Adolfs
 

Depois de sofrer um frio insidioso na França, cheguei a Roma, com um céu azul quase sem nuvens e um calor razoável. Lembrado Brasil. Após deixar minhas tralhas no hotel, que ficava localizado perto da Via Ápia, longe do centro, peguei um ônibus e um metropolitano com o intuito de ir visitar o Coliseu. E foi o que fiz. Para quem ainda não sabe, a construção do Coliseu foi uma jogada política que até hoje é exercida por todos os Estados capitalistas modernos, ou seja a política do “pão e circo”; pois, já naquela época, com o crescimento urbano apareceram também os problemas sociais para Roma. E, como sempre, foi tudo por causa dos “escravos”. A escravidão havia gerado muito desemprego na área rural, gerando os “excluídos” da época. Como milhares de camponeses haviam perdido seus empregos, esta massa de desempregados migrou para as cidades romanas em busca de melhores condições de vida. Receoso de que pudesse acontecer alguma revolta de desempregados, o imperador da ocasião criou a política do “pão e circo”. Esta consistia em oferecer aos romanos alimentação e diversão. Então, quase todos os dias ocorriam lutas de gladiadores nos estádios (sendo o mais importante o Coliseu de Roma), onde também eram distribuídos alimentos (o Bolsa Família da época). Dessa forma, a população carente acabava esquecendo os problemas da vida, diminuindo as chances de revolta.
Pois bem, como lhes disse, estava quente em Roma, naquele dia, e eu, vendo aquela fila enorme de turistas ansiosos por ver o local onde os Cristãos eram jogados aos leões, como diversão governamental, resolvi esperar um pouco, tomando um chope no bar da esquina e olhando para o grande estádio fenomenal. Foi quando, como que por alguma máquina do tempo, um romano (vestido com aquela vestimenta do exército imperial, de sainha, capacete, espada e tudo mais) resolveu sentar-se na mesa ao lado. O pretoriano suava como um desgraçado, após alguma batalha qualquer pela conquista do império. Tomei um susto leve, mas fiquei na minha. Até o momento em que o soldado romano resolveu reclamar da vida em um inglês sofrível (ele pensava que eu fosse americano).
Oh My God! ... These tourists had to be thrown (deveriam ser jogados)  to the lions!
Eu entendi, e ri. Mas falei:
– Excuse me, I'm brazilian (eu sou brasileiro).
– Oh!...Mais um brasileiro maluco! – exclamou o pretoriano. E perguntou: – Me diga uma coisa... O Falcão ainda está vivo!? (ele se referia ao antigo jogador brasileiro, que, em determinada temporada, ajudou o time do Roma a ser campeão).
Conversamos sobre outras coisas. Até que o soldado romano virou-se para mim e disse, rindo:
– Bom, tenho que ir trabalhar; vou jogar alguns brasileiros aos leões!
E desceu, na direção do Coliseu. Por via da dúvida cruel, resolvi não ir, naquele dia, ao Coliseu.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Augusto dos Anjos


 
Tenório Telles

 

         Nascido no Engenho Pau d’Arco (Cruz do Espírito Santo), Paraíba, em 1884, Augusto dos Anjos é um escritor ímpar no cenário literário brasileiro. Sua obra tem como marca definidora a originalidade temática e a provocação no plano da linguagem. Incorpora ao seu discurso poético palavras consideradas antipoéticas, assimilando igualmente vocábulos de origem científica.

         Sua poesia é dominada por uma visão angustiada da vida, perpassada por intenso conteúdo existencial, o que o aproxima da estética expressionista, marcante na cultura europeia nas primeiras décadas do século passado. Volta-se para temas incomuns na lírica nacional: dissipação da vida, prostituição, a constituição química dos homens, a decomposição dos cadáveres e a miséria humana:  

Quando eu pego nas carnes de meu rosto,

Pressinto o fim da orgânica batalha:

– Olhos que o húmus necrófago estraçalha,

Diafragmas, decompondo-se, ao sol-posto... 

         Influenciado por uma visão cientificista e certo fatalismo em face do destino humano, Augusto dos Anjos renega Deus e sucumbe ao pessimismo – não há esperança para o homem e tudo caminha para o fim irremediável, para a destruição e para o nada. O poema “Versos íntimos” é expressivo de seus temas e de sua concepção sobre a condição do ser humano no mundo:  

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável! 

         Apesar da crueza de seus versos e da contundência de sua linguagem, Augusto dos Anjos caiu no gosto do público, tornando-se um dos poetas mais lidos e recitados do país. Fato que não passou despercebido à percepção poética de Manuel Bandeira ao se deter sobre sua obra: “Muita gente houve a quem repugnava a terminologia científica abundante naqueles poemas de mistura com acentos pungentes de amarga tristeza. Mas foi certamente este último elemento que tornou apreciada a poesia de Augusto dos Anjos”.

         Um dos livros mais expressivos sobre a poesia de Augusto dos Anjos acaba de ser escrito pelo escritor Zemaria Pinto: A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos. O trabalho é resultado de sua conclusão de mestrado na Universidade Federal do Amazonas. Trata-se de uma abordagem crítica de fôlego em que o pesquisador sustenta a tese de que o autor do Eu é o verdadeiro fundador da estética expressionista, muito antes de os poetas alemães popularizarem essa corrente literária, fundada numa visão melancólica e dramática da realidade. Essa angústia que viria a caracterizar o expressionismo já era recorrente na produção de Augusto dos Anjos. O livro de Zemaria Pinto é uma das mais importantes contribuições sobre a presença e o significado poético do escritor paraibano na literatura nacional.

         Os temas e o antilirismo de Augusto dos Anjos são traços enunciadores da revolução literária que ocorreria com o Modernismo, a partir de 1922, e teve profundas consequências na história da lírica contemporânea brasileira.

 

Obs: O livro A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos será lançado no próximo dia 2 de março, às 10h00, na Livraria Valer.

 

 

          

Manaus, amor e memória CXVI

Usina Chaminé, abandonada.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A última dança de Cátia Bolerão


Zemaria Pinto
 

É trivial dizer que o teatro brasileiro divide-se em duas fases: antes e depois de Nelson Rodrigues. Obras-primas como Álbum de família, Bonitinha, mas ordinária ou Toda nudez será castigada nasceram, entretanto, sob o signo da polêmica, quando não do escândalo. Nelson não fazia concessões, colocando sobre o palco todos os vícios e pecados da sonsa classe média brasileira dos anos 40 aos 60. Mas a elegância trágica de Nelson Rodrigues foi aos poucos sendo absorvida pela massa e ele virou anjo – pornográfico, mas anjo.

Quando, ainda na década de 60, aquela mesma classe média conhece Plínio Marcos, fica conhecendo também um mundo, melhor seria dizer um submundo, muito diferente do seu, habitado por prostitutas, gigolôs, parasitas sociais, marginais de todos os matizes. Um mundo com o qual jamais sonhara e que, no entanto, estava bem ali, ao seu lado. O hiper-realismo de Plínio Marcos serviu de atenuante para o velho Nelson Rodrigues, que, aos poucos, foi se tornando um clássico.

Esta Cátia Bolerão, criação exemplar de Álvaro Braga, datada de 1983, é aparentada a uma certa Neusa Sueli, de Navalha na carne, ou a Dilma, de O abajur lilás, peças fundamentais de Plínio Marcos. Não veja o leitor nesta comparação nenhum demérito ao autor amazonense. Muito pelo contrário, Álvaro Braga constrói sua personagem com mestria e dignidade. Grávida, já em idade avançada para a “viração”, Cátia vai à luta e gosta do que faz. Aqui caberiam teses a mancheias, mas não é isso que o texto pede; mas, se o espectador/leitor for chegado a um papo-cabeça, certamente saberá montar o complexo arcabouço teórico que explicará Cátia Bolerão, uma excluída urbana.

Se, entretanto, o leitor se contenta em analisar a obra de arte independente do seu óbvio contexto sociológico, observe o personagem Nonô, mudo, preso a uma cadeira de rodas: sua função em cena é dar mais humanidade a Cátia, pois, enquanto a criança não chega, ele, Nonô, é toda a sua família. A construção de Joãozinho também é exemplar: a aparente ingenuidade do início vai evoluindo gradativamente até a explosão final.

A tragédia que se desenrola em A última dança de Cátia Bolerão é mostrada sem nenhum sentimentalismo, uma certa dose de ironia, e até algum humor. Uma história banal, passada em um mundo estranho, um mundo que está bem aqui, ao nosso lado.
Obs: orelha do livro A última dança de Cátia Bolerão, de Álvaro Braga (Manaus: Valer, 2003).

Miguel Servet: a resistência aos dogmas católicos e protestantes


João Bosco Botelho


 

A triste lembrança da execução do médico espanhol Miguel Servet, queimado vivo no fogo lento da madeira verde, em Genebra, no dia 27 de outubro de 1553, retrata a trágica perseguição aos homens e mulheres que resistiram aos dogmas encobertos pelo véu da intolerância de católicos e protestantes.

Miguel Servet nasceu em 1509, na aldeia espanhola Villanueva de Sigena. Tornou-se homem de fé e ciência. Como cristão devoto, entendia a Bíblia como o livro divino que transcrevia a palavra de Deus, convicto da origem da vida descrita no Gênese. Nesse sentido, nas dissecções dos cadáveres, incansavelmente, procurava nos pulmões o sopro da vida.

Sem achar o sopro do milagre, a busca propiciou a mais importante contribuição para a anatomia do século 16: a circulação do sangue entre o coração e os pulmões. Com clareza, o médico espanhol descreveu como o sangue caminhava do coração ao pulmão e vice-versa, por meio das veias e artérias pulmonares, que saiam e entravam no coração.

Miguel Servet estudou na Universidade de Tolouse (onde eu recebi a maior de todas as honra acadêmicas: as insígnias de Doutor Honoris Causa). Esse centro de ensino, em 1530, registrou dez mil alunos e seiscentos professores. Convivendo com os primeiros ares de maior liberdade, na alvorada renascentista, estudou Direito. Nessa ocasião, desafiando a autoridade papal, ao protestar com veemência contra o Código Justiniano, que legislava a pena de morte a todos que negassem a doutrina da Trindade, plantou o próprio calvário de sofrimento.

A partir da leitura atenta da Bíblia, Servet comprovou a absoluta ausência de qualquer referência à Trindade. Ele escreveu no seu livro Sobre os erros da Trindade (De Trinitatis erroribus), publicado em 1531, que a doutrina da Trindade seria um conjunto de sofismas originados no Concílio de Niceia, realizado no ano de 325. A Trindade não estava no livro sagrado!

Homem de profunda fé, Servet admitia analogia bíblica entre o espírito e o sopro. Com discurso teológico pleno de fé, escreveu no seu famoso livro Christianismi Restituio as novas concepções que modificaram para sempre o conhecimento da pequena circulação que leva o sangue do coração ao pulmão e o traz de volta já oxigenado, para ser distribuído por todo o corpo.

O desafio ao dogma aumentou a perseguição. O fim avizinhava-se. As contradições do poder de Roma uniram-se em torno de um objetivo maior: destruir o audacioso médico espanhol. Ao perceber o perigo iminente, fugiu em direção à Suíça, esperançoso da prolatada maior liberdade proposta pelos calvinistas. Triste engano! Ao defender o anabatismo, os calvinistas o encarceraram. No dia 27 de outubro de 1553, Miguel Servet foi queimado vivo no fogo lento da madeira verde para aumentar o sofrimento.

A brutal perseguição e morte de Miguel Servet, o médico espanhol que resistiu até a morte aos dogmas católicos e protestantes, ainda hoje ampara a reflexão das iniquidades que amparam a intolerância religiosa.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fantasy Art - Galeria

Lamia transformed.
Richard Heskox.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

El librito


Pedro Lucas Lindoso

Un libro es un buen amigo – Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino. 

Libritos são miniaturas de livros, hechas a mano. O librito que me foi presenteado mede 6x4 cm e cabe na palma de minha mão. Veio de Santiago do Chile. Um regalito de meu amigo, poeta e frequentador do Chá do Armando, Zemaria Pinto. Zemaria comprou esses hermosos libritos na sua recente visita ao Chile. Devem ter custado não mais que alguns milhares de “pesos chilenos”, cambiados de nosso real. E, sorrateiramente, presenteou-os a alguns integrantes do chá. Pediu discrição, para evitar ciumeiras com certeza. Não tinha para todo mundo. E, como já disseram, ciúme de homem é bizarro. Mas existe. Azar dos que não ganharam. Morram de inveja. Deixei o librito na minha mesinha de cabeceira. Minha mulher já quis se apossar de meu regalito.  Minha filha se encantou com el librito hecho en Chile. Escondi-o na minha pasta. No trabalho, coloquei o librito em cima da CPU. Eita librito cobiçado! Levei-o de volta para casa. Está no cofre. O librito é nada mais nada menos que El Libro de las Preguntas, de Pablo Neruda. Deviam fazer libritos do Manuel Bandeira, da Cecília Meirelles, Drummond,  Vinicius, Manoel de Barros, Cora Coralina, Thiago de Mello,  Bacellar, Tuffic,  Almir Diniz, Zemaria Pinto e de muitos outros poetas. Como já dito, o librito é uma miniatura. Un libro de bolsillo, pequeño, pero cumpridor. Neruda é prêmio Nobel, como todos sabem, e é o representante más importante de la Literatura Chilena, como dito na contracapa do librito. O nosso poeta Thiago de Melo foi amigo dele. O grande Chico Buarque, em uma de seus mais belos poemas musicados, “Trocando em miúdos” canta: “Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu”. Eu já li meu librito – El libro de las Preguntas. Vou conservá-lo no cofre, para que não me tomem. E para eu não o perder, como aconteceu com Confesso que vivi, do mesmo Neruda. Não sei se me tomaram ou se o perdi. Mas isso já faz tanto tempo. Mas, trocando em miúdos, um librito de Neruda, trazido do Chile por um amigo, não tem preço.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Manaus, amor e memória XCV

Água potável em Manaus: uma fantasia momesca.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Platônica V


Tainá Vieira  
 

Outro dia lembrava-me de ti. Aliás, tu sabes que lembro sempre. Fiquei a pensar nas adversidades que a vida nos apresenta. São tantos os contrastes, são tantas as utopias... e poucos os sonhos realizados. Outro dia estive em Santiago do Chile, estava turistando por lá. Encantei-me com aquele povo, aquela cultura. Uma cidade grande, limpa e bela. E logo em seguida, parti para a minha cidade natal. Uma cidade pequena, suja e feia... isso graças a incompetência dos governantes de lá. Mas o meu refúgio mesmo, foi o sítio dos meus pais. Um lugar tão simples e humilde, tão distante de tudo, que parece nem pertencer a este mundo. Nesses dias de refúgio, esqueci-me de todas as outras coisas da minha vida, de todos os lugares em que já andei, de todas as pessoas que conheço. Entreguei-me ao nada e não fiz nada. Mas de uma coisa eu não me esqueci. De ti.  Foi a parti daí que pude pensar na vida de um jeito diferente. Pois estava só, pelo menos era como eu me sentia. E às vezes era tão bom estar só. Livre, dona de mim, dona do meu destino. Eu descobri que a solidão não é algo monstruoso, não para mim, e pude ter a certeza de que para ti também não era. Às vezes isolava-me dos demais e ficava só, podia ouvir a minha respiração, o pulsar do meu coração, ouvia o silencio do nada, fechava os olhos e pensava em nada e quando os abria, pensava em ti. Em ti, que estás sempre comigo, entranhado na essência de eu existir. Foram dias de solidão agradável e quando queria uma companhia, te buscava nas lembranças. E hoje, Luiz, mais do que nunca te entendo, pois eu também gosto da solidão.

Fantasy Art - Galeria

Maxine Gadd.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Reino Unido da Liberdade canta o Livro

video
Ouça e cante junto.


O Livro - Porque no Morro o Samba é Lê Ler
 

Eu quero ver a Reino Unido ensinar
Quando o poder do grande livro se abrir
Enaltecendo e construindo o pensar
E um mundo descobrir

Quem vem lá
“Coroa” dona do meu coração
Samba e beija a passarela
Nas cores do mais lindo pavilhão

Meu Reino desbravou a liberdade
Escreve a realidade em tom de fantasia
Nessa linguagem do real e da imaginação
Faz a leitura de um contexto geral
O livro ilustra em aquarela a escuridão
E o Morro canta, vibra e faz seu carnaval

Vem pro samba lê ler”, no papiro eu quero ver
Na brochura ou no e-book meu poema é pra você
Nesse romance vou te amando na avenida
No pergaminho “uma Escola de vida”.

No verso amor, meu peito é um livro aberto sim
Escribas deram rumo certo, enfim, conhecimento traz libertação
Vou exaltar aqueles que deixaram o seu pensar
No mundo que precisa melhorar, salve o meu “Reino do amanhã”.

Graças ao sonho da Filosofia florescer
Hoje eu vejo a Academia enaltecer a vida e obra dos seus imortais.
O pulsar da Bateria Furiosa contagia
Solta na Rua a Resistência é Poesia,
No livro dos grandes carnavais.

Eu quero ver a Reino Unido ensinar
Quando o poder do grande livro se abrir
Enaltecendo e construindo o pensar
E um mundo descobrir

 
ENREDO: O LIVRO: Porque no Morro O Samba é Lê Ler!
Autores do Enredo: Ivan de Oliveira e Tadeu Souza
Compositores do Samba-Enredo: Clenio Franciné, Jair Tapajós, Célio Cruz, Altemir Souza, Frank Ricardo, Neilo Batista e Mestre Major
Diretor de Carnaval: Jairo Beira-Mar
Presidente: Fábio Pierre