| Arthur Engrácio, Aluísio Sampaio e Jorge Tufic, na posse deste na AAL, em 22/08/1969. |
domingo, 26 de novembro de 2023
quinta-feira, 2 de julho de 2020
A paixão de Antônio Mocinha
domingo, 26 de janeiro de 2014
Manaus, amor e memória CXLIV
segunda-feira, 2 de abril de 2012
O que é conto?
terça-feira, 28 de junho de 2011
Para entender o conto
| A obra se alinha a clássicos do gênero e aponta para novos caminhos a serem percorridos. |
Autor condensa nesse ensaio grande parte da produção amazonense
O novo livro do escritor Zemaria Pinto, lançado em março, O conto no Amazonas visa, de forma enxuta, condensar o maior número de informações e referências sobre esse gênero na produção literária do Estado. O livro nasce destinado a ser um guia de viagem que ajudará leitores a chegar ao mundo da palavra e da criação literária. Desde a apresentação o autor esclarece que não é tarefa fácil, pela natureza controversa do gênero, e cita Machado de Assis, na apresentação de seus Papéis avulsos (1882): “Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil”.
É assim, invocando a humildade de Machado de Assis, que Zemaria traça um panorama sobre a produção contística do Amazonas com grande ênfase no período do Clube da Madrugada. Não se pode negar o diálogo que esta antologia estabelece com outras publicadas anteriormente (como a Antologia do Conto do Amazonas, organizada por Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles, e a Antologia do novo conto amazonense, de Arthur Engrácio) e que, em conjunto, acabam formando um panorama abrangente das publicações do gênero.
Muitos contos
O conto no Amazonas é um estudo teórico e prático sobre essa arte narrativa. O diferencial está no fato de o autor utilizar como referência analítica os escritores representativos da produção contística regional. O texto se constrói a partir de um breve estudo introdutório em que situa o leitor em relação à história do conto, seus conceitos e os mais destacados criadores. O autor apresenta um guia de leitura e, ao mesmo tempo, um pequeno manual de iniciação não só para leitores, mas para os que desejarem se aventurar nessa arte.
Inicia seu percurso com a narrativa mítica “Baíra e sua namorada”, originária da mitologia dos índios Cauaiua-Parintintin. Volta-se para textos consolidados pela tradição literária, com a apresentação e a análise de obras organizadas entre Pré-Madrugada, Clube da Madrugada e Pós-Madrugada.
A capacidade de síntese do texto de Zemaria não deixa de apontar para a escrita contemporânea, sob influência da Internet, e abre espaço para nos indagarmos o porquê de parte dessa produção originária da rede ainda não ter encontrado espaço em antologias.
domingo, 1 de maio de 2011
Manaus, amor e memória XX
domingo, 10 de abril de 2011
A vida em ficção
Outras estórias de submundo, contos de Arthur Engrácio, Casa Editora Madrugada, 1988. Dividido em duas partes, este livro contém uma novela (“A toga manchada”) e dezesseis contos. Polariza em maturidade com “Áspero Chão de Santa Rita”, romance publicado em 1987, ambos a combinarem ciclos em duas fronteiras de temática e linguagem, sacadas em mundos e realidades diferentes: este, regionalista, enquanto seus trabalhos mais recentes ou mais esporádicos, estão na linha urbana, como o título acima. Uma tarefa realmente produtiva e proveitosa a deste escritor amazonense, que dispõe de jeito e suor a medir-se com os dois universos de sua vigília a serviço da literatura. Falamos daquele universo que aparentemente ficou no passado e deste outro, urbano e presente nos sonhos e pesadelos que se vão transferindo para o elenco da narrativa. Tanto num como noutro, entretanto, se agitam as formas viventes das necessidades em conflito. Predomina a luta entre o bem e o mal, sobrando uma grande vantagem de “santificação” para os que ficam abaixo do limiar do consumo e da cultura. Maniqueísmo? É a hipótese que se levanta. Tenha-se em vista, porém, que tudo, nestes pagos, orienta o indivíduo no sentido das oposições. E quanto ao pobre, ao injustiçado e humilde senhor das várzeas e dos estirões, ele conta, ao menos, com a proteção dos evangelhos da selva e de Cristo. Quantas parábolas, como a do camelo e da agulha, já não lhe conferem o nimbo da santidade? Sejam quais forem as interpretações desse contexto, a verdade é que Arthur Engrácio não pára de escrever. Sua base é a ficção. Seu objetivo é o social da vida amazônica. Esse objetivo é amplo e abrangente. Ele começa telúrico; vai, num crescendo, e degenera no urbano. A selva, como deve ser considerada em seu estado de natureza, transfere-se também para a roupagem das leis, dos costumes...e de suas transgressões rotineiras. O autor deste livro, ainda aferrado ao tradicional, continua adiando, por outro lado, o corpo a corpo da escritura-experiência, no sentido atual e corrente da técnica e da linguagem. Mas tem um jeito particular e saboroso de contar estórias, colocando sua obra de ficção numa espécie de ângulo aberto (e sempre favorável) a uma visão de conjunto. Assim, por exemplo, os causos e cenários descritos em suas páginas de fundo regional, são organicamente inseparáveis da terra e do homem amazônico. As de fundo psicológico e social, plasmam, da mesma forma, os dramas e episódios de várias fases de uma cidade que não pode ser outra, pelas suigeneridades que apresenta, senão a da Barra de São José do Rio Negro. Explicamos: suigeneridades porque todos os absurdos que não podem acontecer em outros lugares, acontecem na Barra. Alguns exemplos: aqui, restaurante fecha para o almoço; se faz lançamento de livro, sem livro; dá-se posse em cargo público, sem a respectiva nomeação do empossado; uma Assembléia de marajás julga atos de corrupção; “desmonta-se” o único Suplemento Literário do Estado, antes de ser montado ou implantado; etc. etc. E por que não pode existir ou ter existido, aqui também, uma toga manchada, tal como narra o autor em sua novela, que abre o volume?
Os agachados, novela em segunda edição de Antísthenes Pinto, ele também, como Arthur Engrácio, ficcionista dividido entre a várzea e a terra firme, entre a cidade e as terras-do-sem-fim, revela, com o máximo sucesso de estilo, tema e linguagem, aspectos dificilmente comportáveis da vida boêmia e dos bares de Manaus, aos quais eram levados e discutidos problemas de todos os matizes. Boêmio cultural, experiente, faro ambientado nos ácidos da estufa de Baco, o autor deste livro aproveita as excentricidades e engarrafa a medula filosófica de seus frequentadores. Nada escapa à lente gravadora do artista, capaz, como foi, de tecer um enredo central debaixo de numerosos outros projetos de romance, pondo em relevo as “correntes cruzadas” do modo singular de como uma sociedade banca e tolera os excessos da vida.
Há, neste livro de Antísthenes Pinto, o personagem central Rivaldo, que teve seu começo no Dr. Félix, um médico psiquiatra, portanto enclave na rotina classe média dos aperitivos. No entanto, todos os tipos do bar (ou dos bares), merecem aqui um retrato ou uma característica de corpo inteiro, caráter e vísceras expostas, no vômito e no verbo. O casamento das duas realidades – o surreal, entre o fato e a foto do cotidiano; e o real, entre a vida e a arte – também se entrelaçam com toda a violência, tensão e unidade. Desta maneira, raros serão os leitores de Os agachados – agachados, todos, sem exceção, diante do sistema econômico e político do País – que podem desconhecer a “matéria” quase impossível do bar e de seus viventes contumazes, sendo esta novela um documento sociológico e literário dos meios que, direta ou indiretamente, têm influído nos processos de transformação da nossa sociedade.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Flagrantes de uma outra Amazônia
A literatura feita na Amazônia até os anos cinquenta do século XX sempre foi acometida daquele mal chamado de “influência de Euclides da Cunha”; uma estética que primava pela linguagem excessivamente carregada, vocabulário muitas vezes pedante e uma incapacidade de enxergar a real dinâmica do hinterland amazônico.
Pode-se dizer também que essa literatura centrava-se principalmente em descrever a paisagem amazônica, suas florestas, rios e “mistérios”, silenciando sobre a realidade do homem amazônico, seus conflitos, dramas e seus sofrimentos. Aqueles autores da velha vertente da literatura positivista ou naturalista transmitiam uma visão completamente deturpada do ribeirinho, mostrando-o como um ser passivo diante da imensidão da natureza, sem consciência e sem a capacidade de criar, ele mesmo, os caminhos para tornar-se o protagonista de sua história.
A mudança na perspectiva de como os nossos intelectuais enxergavam o ribeirinho só começaria a mudar em meados do século XX, com a chegada tardia dos ideais de renovação artística trazida pela semana de arte moderna, com lançamentos como Banco de canoa, de Álvaro Maia. Contudo, foi a partir da década de 1960, com O outro e outros contos, de Benjamin Sanches, Mundo mundo vasto mundo, de Carlos Gomes, e principalmente com o hoje clássico Historias de Submundo, de Arthur Engrácio, que propiciou a ruptura completa com a velha literatura dos bacharéis.
Nascido em 1929, em Manicoré, e falecido em 1997, em Manaus, Arthur Engrácio fez o caminho que muitos condenados fizeram, mas que muitos poucos lograram trilhá-lo com êxito — migrou para Manaus. Mas teve sorte. Formou-se em direito, tornou-se funcionário publico e começou a atuar como jornalista, além de ter sido um destacado membro do Clube da Madrugada.
Não obstante ter se tornado um privilegiado, Engrácio nunca esqueceu suas origens e foi através da literatura que retratou os dramas que vivenciara durante a infância em Manicoré.
O seu primeiro livro já trazia todos os elementos que seriam endêmicos na sua obra. O titulo já dava uma pista de quais seriam os temas abordados pela obra — os sofrimentos e dramas do ribeirinho e a exploração a que estava submetido pelos coronéis seringalistas. São os relatos e confissões de um mundo à parte, de uma Amazônia talvez esquecida, de um verdadeiro submundo, onde o poder público não chegava, e onde homens e mulheres estavam à mercê da vontade de uma decadente elite extrativista, que ainda mantinha o seu poder de mando sobre o povo do interior.
Engrácio insere-se na então nova tradição da literatura regionalista de critica social, cujo principal expoente é sem duvida Graciliano Ramos. Sua necessidade de retratar as misérias do homem do interior o fez escrever de maneira direta, sem muito apelo a adjetivos, exatamente como fez o autor de Vidas secas — sua maior influência.
Os contos de Engrácio fogem um pouco daquela concepção clássica da historia curta, com começo, meio e fim. O autor procura desnudar a vida interiorana em forma de pequenos flagrantes onde são mostrados os dramas, as injustiças e os desejos do homem que habita a beira dos rios, cultiva sua agricultura na várzea e extrai borracha nos seringais. Muitos de seus contos chegam a ser chocantes para o leitor — algo próximo do que fez Antísthenes Pinto com o polêmico romance Terra Firme.
Historias de submundo inicia-se com o conto “A revolta”, que narra a historia fantástica de uma rebelião engendrada por um grupo de seringueiros contra os desmandos do patrão; outras histórias, como “Pescadores”, “O cão” e “Zé Perequeté” são como pequenas apreensões da condição de vida no interior. Já “O coronel”, que conta vingança de um senhor de terras contra um de seus funcionários que estariam se envolvendo sexualmente com sua filha, é onde fica mais explícito a intenção do autor de relatar a tirania e as crueldades daqueles que um dia foram os verdadeiros senhores feudais na Amazônia — os grandes seringalistas.
Em “Filho de arigó”, uma pequena obra-prima do conto amazonense, Engrácio relata, a partir de sua experiência de infância, a condição de miséria e abusos a que estavam submetidos os órfãos nas cidades do interior, dados “de favor” para ricas famílias, sob a justificativa de serem educados, mas que na verdade tornam-se verdadeiros criados, sob a mais tétrica condição de exploração do trabalho infantil.
Descrever a vida no interior do Amazonas não é o único tema da ficção engraciana. O autor de Ajuste de contos também desenvolveu com maestria temas urbanos, com histórias como “Claudia”, “Jorge” e “O segredo do réu”. A primeira narra os dilemas de uma mulher infeliz, que está a ponto de abandonar o marido e fugir com o amante, enquanto a segunda narra a vida infeliz de um bêbado; já a terceira história mostra o relato de um homem que cometera duplo homicídio — matara a mulher e seu amante.
Apesar das historias trágicas, Historias de submundo também reserva momentos cômicos, presentes em dois contos: “No vizinho” (este é o que mais é influenciado pelo método de Graciliano Ramos) e “Uma historia de trancoso”, um “causo” contado por Manuel Bodó, em uma de suas caçadas no meio da mata.
Normalmente, a mídia, a literatura oficial e certos grupos musicais costumam mostrar a vida interiorana de maneira ingênua, como se a vida na floresta fosse como num verdadeiro éden e o ribeirinho um ingênuo que não conhece a fome ou a exploração. É preciso ler um clássico como Historias de submundo, de Arthur Engrácio, para percebermos que existe uma Amazônia bem diferente e de cores bem mais cinzentas que aquelas que o status quo costuma pintar — uma Amazônia do trabalho escravo, de execuções sumárias, abusos, estupros, doenças e subdesenvolvimento.
Acredito que Historias de submundo serve de complemento, ou mesmo introdução, à leitura de outra obra essencial sobre a vida do interior, Servidão humana na selva: o aviamento e o barracão nos seringais da Amazônia, do sociólogo Carlos Correa Teixeira. Como escrevera José de Souza Martins, ambas reúnem “os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia (…)” e “expõe como feria o látego de mecanismos econômicos que, ao subjugar alguns, subjugava a todos e nos tornava pobres de condição humana. E ainda nos torna.”
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Arthur Engrácio e o Homem Natural
Do grupo de escritores que gravitou em torno do Clube da Madrugada, Arthur Engrácio foi dos poucos a se dedicar somente à prosa de ficção. Foi dos poucos também a enveredar pelos tortuosos e nem sempre compensadores caminhos da análise literária, onde se peca pelo que se diz e, principalmente, pelo que não se diz. Depende da perspectiva de observadores e observados.
Mas numa e noutra atividade, Engrácio foi, sobretudo, honesto. Sua prosa é simples, objetiva e direta. Se fosse classificá-lo em uma escola, para satisfazer a sanha dos que não conseguem ver a literatura além dos quadros cronológicos, diria que ele é um naturalista tardio, embora o seu universo, centrado especialmente no interior amazônico, comporte, por isso mesmo, classificações mais ousadas.
A unidade da obra de Engrácio deriva de duas grandes vertentes: a regionalista e a mítica, sendo a primeira fruto da observação direta da vida do homem do interior da Amazônia, e a segunda decorrente da aceitação do universo mítico primitivo desse mesmo homem. Ao refundi-las, Engrácio pratica um realismo fantástico, onde o boto, a boiúna e a mãe-d’água transitam sem causar espanto entre a escória desvalida dos grotões amazônicos.
A propósito de Histórias do Submundo, o livro com que Engrácio estreou em 1960, Márcio Souza observa que “eram 128 páginas desiguais, unidas apenas pelo rancor”. O mais recente livro de Engrácio, A Vingança do Boto, de 95, confirma essa tendência: o rancor faz parte do seu estilo. Engrácio constrói uma literatura de tons fortes, por vezes desagradáveis, denunciando a exploração a que o homem do interior amazônico é submetido desde sempre, sem nenhuma preocupação em agradar a paladares mais sensíveis.
Apesar de original, e de manter uma constante unidade temática, Engrácio nunca foi um inventor de formas, mas foi, sem dúvida, um desbravador dos caminhos da literatura regionalista que se pratica hoje no Amazonas. O professor Marcos Frederico, ao referir-se a Estórias do Rio e à importância histórica de Arthur Engrácio no contexto da literatura amazonense, diz que “a prioridade à Amazônia não é regionalismo inconsequente. Trata-se de assumir uma identidade que, durante os anos, foi massacrada e relegada a um papel secundário”, para arrematar: “a imagem que os contos de Arthur Engrácio transmitem é exatamente esta: a dimensão da Amazônia. Mas não somente a dimensão geográfica. O que Engrácio focaliza, em sua prosa precisa, é principalmente o homem amazonense em sua dimensão maior”. O homem natural, com todas as suas inconveniências e idiossincrasias, sem maniqueísmos: humano, demasiadamente humano.
Encerrando um ciclo na literatura amazonense, sem deixar herdeiros à sua altura, Arthur Engrácio lega-nos um romance inédito, São José do Uruá - Um Mergulho no Mundo Mágico da Boiúna. No dia 16 de abril, Engrácio completaria 70 anos. Há 3 anos, ele surpreendeu-me com um poema para ser publicado nO FINGIDOR: era uma faceta inédita do Jacaré, como os amigos o chamavam na intimidade. O poema homenageava o amigo Ernesto Penafort, falecido. Trocando os nomes, numa paráfrase elegíaca, concluo, citando o primeiro verso daquele poema: noutros tempos, Arthur, eras futuro!
domingo, 22 de novembro de 2009
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Foi no Suplemento, como nós o simplificávamos, que eu ganhei dinheiro pela primeira vez com a minha escritura. De lá para cá, é bem verdade, a contabilidade avermelhou na casa do sem-jeito. Mas valeu ter esperança.
Publicado de novembro/86 a outubro/88, o Suplemento Literário Amazonas − publicação mensal do Diário Oficial do Estado do Amazonas, como se informava em subtítulo, teve exatamente 24 números. Por dois anos, os abnegados Arthur Engrácio e Alcides Werk, este poeta, aquele ficcionista e crítico, escritores que dispensam apresentação, carregaram, aos trancos, o jornal, que acabou sem avisar o porquê. Nesses dois anos, o presidente da Imprensa Oficial era o poeta Alencar e Silva. Na dança dos nomes da Comissão Editorial, destacavam-se os poetas Jorge Tufic e Max Carphentier, e a professora Socorro Santiago.
Mas se não anunciou a própria morte, mantendo a dignidade de não lamentar o próprio fim, no primeiro número, penas afiadas, o editorial dizia ao que vinha o Suplemento: “(...) Sem qualquer sentimento menor. Nem de grupo. Nem de modéstia. Comprometido, antes, com o propósito maior de espelhar a realidade literária local, projetá-la, com vigor, como convém, no cenário cultural do País. (...) de modo a minimizar a desinformação dos nossos estudantes acerca dos autores amazonenses. (...) um novo tempo começará a correr para os artistas e escritores locais.”
E assim se passaram 10 anos. A “realidade literária local” não se projetou para além dos esforços de uns pouquíssimos. A “desinformação dos nossos estudantes” precisa ser dividida, menos que proporcionalmente, com a dos nossos professores. E quanto ao “novo tempo”, este só se realiza no futuro: é sempre o que há de vir; logo, há esperança, sim. Sempre.
O Suplemento Literário Amazonas foi francamente inspirado no Suplemento Literário Minas Gerais, criado, se não me faltam os neurônios, lá pelos anos 60. Outros suplementos existiam (ainda existem?) à sombra da estrutura que sustentava o Diário Oficial de cada Estado. O Nicolau, do Paraná, era, até uns dois anos atrás, quando dirigido por Wilson Bueno, a grande referência para um jornal literário de qualidade, encarando a Literatura como um problema universal, longe das intrigas paroquianas. Depois que o Bueno saiu, percebe-se a queda na qualidade do papel, além de um doce retorno a um conservadorismo que, longe de negar os avanços da vanguarda, coloca-se à disposição da História, como alternativa. Afinal, é desse vaivém que se faz a Literatura, no entrechoque das gerações. Ainda é o Nicolau.
A trajetória do Suplemento Literário Amazonas ao longo daqueles 24 meses mereceria ser analisada com mais vagar. Voltado inicialmente para o consumo interno, o SLA reúne em seus números iniciais, um bom grupo de consagrados intelectuais da terra, sem desprezar a colaboração dos mais jovens. Além do pessoal “de dentro” do jornal, cujos nomes já estavam no expediente, há colaborações de Mário Ypiranga Monteiro, decano dos historiadores, e dos poetas Elson Farias, Guimarães de Paula, Ernesto Penafort e Antísthenes Pinto, entre tantos.
Quem folheia os velhos exemplares a essa distância, sente falta de um mínimo de esclarecimento sobre alguns autores, prática que só viria a ser adotada lá pelo oitavo número, quando as colaborações começam a chegar pelo correio, dos mais diferentes pontos do Brasil. O SLA trocava sua cor levemente provinciana por um tom algo mais cosmopolita. Mas sem exageros. Capas dedicadas a Borges, Rilke e Huidobro traziam em suas entranhas textos maduros de José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Walmir Ayala e Alcides Buss, entre outros, além da velha prata da casa. Todos muito distantes daqueles oito ou nove escritores “oficiais” do Brasil Grande, com cadeira cativa na Folha, no JB e na Veja. Equívocos, havia muitos. E nem poderia deixar de ser. Provincianos. Poemas muito ruins de uns, textos inúteis e vazios de outros, vagidos patéticos de terceiros, ou, ainda, os arroubos juvenis de um certo José Maria Pinto...
Pelo que me conta Alcides Werk, secretário-timoneiro daquele barco bêbado, as correspondências eram tantas que, da tiragem, que chegava aos três mil exemplares, pouco mais de quinhentos ficavam por aqui, sendo o restante distribuído entre universidades, entidades culturais, jornais e suplementos literários, além de escritores, de nomeada ou não. Quer dizer, por falta de uma tática consistente para atrair o público-alvo inicial, este foi trocado por uma elite, formada de bons leitores, mas que não ajudava em nada no fomento da literatura amazonense. Em compensação, o Brasil descobria o Amazonas. Um Brasil marginal, alternativo ao Brasil da grande imprensa e da televisão, mas Brasil também. Como nós.
Depois do SLA, os zines. Mas esta é uma outra história que a modéstia me impede de contar. Impossível, entretanto, é não fazer um paralelo entre o Suplemento e O Muhra, jornal recém-lançado pela Secretaria Estadual de Cultura. Aprendendo com os erros daquele, este pode recuperar o tempo e o espaço perdidos, em busca de sedimentar esta cultura que se intimida consigo mesma, mas que, subterrânea, submersa, maldita, manifesta-se à margem, como alternativa à mediocridade oficial.
Somos apenas uma parte da cultura brasileira, mas somos o todo da cultura amazonense, e precisamos assumir isso: nenhum ajuntamento, grupo ou sociedade sobrevive sem uma identidade própria. Qual é a nossa?
(*)Publicado, talvez no Amazonas em Tempo, em 1998 (eu acho).
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Presenciamos agora um terceiro momento, em que uma nova geração, formada por jovens talentosos, desabrocha para o mundo das artes. Organizados, uniram-se em torno de um ideal, apropriadamente nomeado CLAM – reverberando a idéia de família, de irmandade. Coisa que os da minha idade não tiveram pique para fazer. Estávamos, talvez, sufocados por aquela massa de talentos do Clube da Madrugada. Já ouvi do amigo Tenório Telles que nós somos ponte, crescemos sob o estigma da passagem. Por força do movimento incessante do universo, um novo ciclo se inicia, com uma nova geração, que, lá na frente, haverá de tomar o bastão. Travessia.
No quesito habilidade as coisas se simplificam: é necessário estudar a Arte Poética (ainda que seja pra propor o seu fim) e dominar a técnica (palavra que em grego tem a mesma raiz etimológica da palavra poesia); é indispensável o domínio da técnica para desenvolver o texto literário – em prosa ou poesia. Mas aqui o universo cabe, se não numa casca de noz, num ouriço de castanha-do-pará.
Sobre talento, não preciso dizer nada. Os jovens componentes do CLAM já vêm, há alguns anos, dando demonstrações de que talento não lhes falta.
É a velha lei que se cumpre: tudo muda, tudo passa, tudo está em movimento...
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Allison Leão, 30, professor da UEA e autor dos livros de contos Jardim de silêncios e O amor está noir, defendeu, ontem, 06/10, na Faculdade de Letras da UFMG, sua tese de doutorado Representações da natureza na ficção amazonense.
A banca foi composta pelos professores-doutores Eliana Lourenço de Lima Reis (UFMG – orientadora), Valter Sinder (UERJ e PUC-RJ), Luís Heleno Montoril del Castillo (UFPA), Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG) e Myriam Ávila (UFMG).
Em Representações de natureza na ficção amazonense, Allison Leão estuda os seguintes autores: Euclides da Cunha (prefácio a Inferno verde e textos sobre a Amazônia presentes em À margem da história), Alberto Rangel (Inferno verde), Ferreira de Castro (A selva), Arthur Engrácio (Histórias de submundo e textos críticos), Astrid Cabral (Alameda) e Erasmo Linhares ("Três estórias da terra", contos presentes em O tocador de charamela).
A despeito de alguns (poucos) professores que não a aceitam, a Literatura Amazonense continua dando o que falar. O estudo de Allison Leão vem se juntar a outros tantos, que, respondendo à questão levantada por Jorge Tufic, há muitos anos, respondem, com convicção: existe, sim, uma Literatura Amazonense!

