Amigos do Fingidor

Mostrando postagens com marcador Arthur Engrácio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arthur Engrácio. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de novembro de 2023

Manaus, amor e memória DCXLVI


Arthur Engrácio, Aluísio Sampaio e Jorge Tufic, na posse deste na AAL, em 22/08/1969.


 

quinta-feira, 2 de julho de 2020

A paixão de Antônio Mocinha



Zemaria Pinto

Em memória de Arthur Engrácio,
a quem um dia contei esta história.
Lacônico, ele apenas disse: agora, escreva.


Naquela época, Andorinhas ainda não era um ponto no mapa, com suas três ruas de terra batida, à margem direita do rio Negro. Não havia escola, muito menos serviço de saúde. As igrejas – a católica e a protestante, em absurda harmonia – supriam esses serviços, alfabetizando as crianças, orientando e prestando atendimento básico, sempre levando em conta os saberes ancestrais. No mais, era escolher: subindo à esquerda, São Gabriel; descendo à direita, Santa Isabel. Regulando os onze, doze anos, eu não tinha a mínima noção de futuro. Andorinhas, eu perceberia depois, representava a continuidade infinita e imutável, algo muito mais profundo e cruel que a sobrevivência – um conceito que a sociologia esvazia, com suas utopias tolas. Eu só sabia que não queria continuar ali, naquele imenso nada vazio.
A população da vila era formada por gente que sempre morou lá ou que, tendo saído, retornou. Por isso, as raras exceções eram muito visadas. Dona Jeane, da Guiana Francesa, proprietária de uma taberna na rua da frente, só falava o crioulo, acrescentando umas poucas palavras em português, enriquecendo o mix de línguas, mas impossibilitando qualquer entendimento com os fregueses. Num lugar de tapuios e caboclos, sua negritude era sua soberba. Diziam que era comunista e fora parar em Andorinhas fugindo da polícia de seu país. Durante muito tempo, acreditei que os comunistas eram todos negros retintos e falavam atrapalhado. Beto Carapanã era um bicho-grilo que um belo dia apareceu em Andorinhas, com um violão a tiracolo, sem que ninguém soubesse como, já que só se chegava de barco e de barco ninguém o vira chegando. Sério, ele dizia que chegou voando. Magérrimo, ganhou logo o sobrenome. Carapanã tinha um sítio, onde, vegetariano, plantava o autossustento e até a erva do cigarrinho artesanal, sucesso entre os moleques mais velhos. O excedente, tanto de legumes e grãos como de erva, era usado para escambo, com o que ele obtinha o que não produzia, como a seda usada no cigarrinho. E tinha o Carioca, que um dia desembarcou lá e foi ficando, sem que ninguém soubesse o que fazia e muito menos do que vivia. Gabava-se de ter sido jogador de futebol e ser amigo de todos os grandes craques da época, falando em nomes que a gente só ouvia em ondas médias ou lia em velhos jornais que vinham da capital. Mas ninguém o levava a sério. Quando lhe perguntavam que diabos viera fazer naquele nosso fim de mundo, xingava, fechava a cara e dava as costas. A pergunta valia para os três: por que, tendo o mundo inteiro à disposição, alguém optaria por morar em Andorinhas?
Os moleques da vila viviam em permanente interação, frequentando a mesma igreja, as duas, e vivendo a mesma vadiagem: nadando ou caçando passarinho pela manhã, jogando pelada ou pescando à tarde, conversando mole à noite. Mas não era incomum inverter os turnos das atividades, só para quebrar a rotina. Uma vez por outra, ajudávamos na subsistência da família, plantando, caçando, pescando. Ouvir rádio era uma opção noturna, mas em casa, com a família, o que tirava toda a graça. Eu fazia parte de um pequeno grupo, que estava sempre junto, sob chuva ou sob sol, aprontando sempre. Nada diferente de qualquer grupo de crianças pobres dessas lonjuras e amplidões. Mas a história de um daqueles meninos subiu e desceu o rio e foi notícia até na capital.
Antônio Mocinha ganhou esse apelido por pura inveja do resto da molecada. Mocinha era bonito, tinha olhos gateados, cabelos loiro-acinzentados e uma raríssima pele branca que ficava cor-de-rosa ao sol. Diziam que era a cópia da mãe, levada para Manaus ainda criança. As meninas se esfregavam nele, literalmente, enquanto a gente lambia os beiços. Mocinha nunca se importou com o apelido, pelo contrário, orgulhava-se dele, porque tinha consciência da razão. Seu avô Raimundo Onça é que não gostava. Dizia que era coisa de fresco. Mas não havia frescos em Andorinhas, e Mocinha não haveria de ser o primeiro.
Raimundo Onça era um parágrafo à parte. Sempre de óculos escuros, para esconder os “olhos amaldiçoados, de felino”, como era corrente entre o povo, ele ganhou esse nome porque era um exímio caçador de onças, do tipo que pegava vivos os filhotes, para vendê-los aos traficantes, ou atirava no olho do animal adulto, para produzir um só orifício, no posterior do crânio atravessado pela bala fatal, onde é mais fácil de cerzir, entregando a pele perfeita. Sobre a maldição, diziam que fora um velho pajé-onça, que ele matara: o pajé o amaldiçoou a virar onça, para conhecer o sofrimento dos animais. Mas apenas os olhos se transformaram.
Havia dois campos de futebol em Andorinhas. O da rua de trás, maior, era dominado pelos moleques mais velhos, e no fim de semana recebia também os adultos. O da rua do meio, um pequeno terreno abandonado, era disputado pelos moleques de menos idade. Para evitar confusões, formavam-se times de tamanhos mistos, valendo o que hoje é conhecido como gol de ouro: tomou um gol, vai pro rabo da fila, esperar para jogar de novo. A gente chamava de gol da morte. Mocinha era o goleiro do nosso time mais constante. Carioca, que passava o dia zanzando pela vila, tomando pinga nas tabernas e tentando superar a repulsa que emanava de si, costumava parar no nosso campinho, falando alto, gesticulando muito, fazendo piadas sem graça e dando picica nas jogadas. Ninguém dava atenção ao intruso, até que uma ocasião ele se aproximou da trave guardada por Antônio Mocinha e começaram a conversar. Naquele final de tarde, Mocinha ficou com Carioca, para “treinar umas técnicas de goleiro”. Alguns meninos, por mera curiosidade ou mesmo falta do que fazer, ficaram também. E esse “treino” se tornou rotina, sempre entrando pela noite, até que deixou de ser objeto de curiosidade. Nas rodadas de cachaça, Carioca dizia que Mocinha tinha talento e poderia se dar bem na capital, que, desde o ano anterior, profissionalizara a prática do futebol.
Uma noite, Raimundo Onça voltou cedo para casa e não encontrou o neto. Percorreu as três ruas, por trás dos inseparáveis óculos escuros, indagando por Mocinha e, nas tabernas, tomando uma lapada de pinga “pra passar a raiva”. Várias pessoas tinham visto o moleque na companhia de Carioca. Onça rumou para a rua de trás, uma das últimas casas, antes da mata fechada. Porta arrombada, nada se viu de especial, a não ser o desarranjo comum de uma casa de solteiro pobre.  Boa parte da vila seguira Raimundo Onça. Na picada que dava acesso à floresta, ele parou e deixou bem claro que não queria ninguém com ele. “É um problema meu. Eu vou resolver.” E se foi mata adentro.
Montamos sentinela, esperando o retorno do velho caçador. Cerca de uma hora depois, ouvimos o rugido tenebroso de uma onça. Não parecia estar muito longe. Uma coisa era certa: ela fora ferida de morte. Aquele troar assustador não tinha correspondência em nossas memórias. Mas ela continuava a rugir, cada vez mais forte. Ódio. Era ódio que ela sentia. A dor do ódio. E se movimentava com agilidade por dentro do breu da mata sem lua. Já era madrugada quando percebemos uma mudança no padrão dos rugidos, como se ela acuasse o inimigo, o atacasse e o ferisse muitas vezes – até o silêncio total, de um punhado de segundos, sucedido pelo esturro final, longo e potente, como um urro de vitória. Alguns de nós, eu incluído, vibramos como se fosse um gol. O silêncio que se seguiu exigiu uma decisão. Os adultos concordaram em voltar às seis horas, com o sol, formando equipes para entrar na floresta e tentar entender o que acontecera. Mas ninguém dormiu.     
O corpo nu de Antônio Mocinha, com o rosto na terra escura, imerso numa poça de sangue, tinha um só corte, largo e profundo, no pescoço, acompanhando toda a extensão frontal. Cem a duzentos metros depois, encontramos uma navalha suja de sangue, e, logo depois, espalhados num círculo de uns 20 metros de diâmetro, os óculos quebrados, as roupas esfarrapadas, restos das alpercatas e as armas intactas de Raimundo Onça: duas facas e uma espingarda, seus instrumentos de caça. Mais 50 ou 60 metros à frente, os despojos do que fora Carioca: o corpo rasgado ao meio, expondo as vísceras dilaceradas; os olhos, arrancados; o órgão sexual, esmagado. O animal que fizera aquilo tinha uma força descomunal e estava movido por um ódio indescritível.

Raimundo Onça não apareceu jamais, alimentando a lenda de que a maldição do pajé-onça finalmente se cumprira.
Antônio Mocinha é o nome de uma imponente praça, a principal de Andorinhas, em frente à Matriz, ocupando todo um quarteirão, de frente para o rio Negro. No centro da praça, um pequeno monumento traz seu nome completo e datas de nascimento e morte, entre as quais transcorreram não mais que doze anos e alguns meses. E uma rara foto, colorizada, ampliada cinco ou seis vezes, deixando os grânulos visíveis, testemunhando o quanto Antônio Mocinha fora belo.     



domingo, 26 de janeiro de 2014

Manaus, amor e memória CXLIV

Clube da Madrugada em 1990. Posse de Evandro Carreira como presidente.
Da esquerda para a direita: Nestor Nascimento, Luiz Bacellar, Evandro Pororoca Carreira, não conheço, Antísthenes Pinto e Max Carphentier.
Na fila de trás: D. Izabel Alaúzo, Jorge Tufic, sei lá quem e Arthur Engrácio.
Mais atrás, as barbas de Anisio Mello.
O Bacellar de bermudas é inédito. Ele estava querendo mandar alguma mensagem para o futuro.
Talvez, "esse clube já não existe mais, tirem por mim..."
Em 1990, o Clube já havia cumprido sua função histórica e era apenas um arremedo do que fora.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O que é conto?

Jorge Tufic

Os manuais e os dicionários de literatura ensinam que o conto deve ter em si um só drama, um só conflito, uma só unidade dramática, uma só história, uma só ação, uma única célula dramática. Por isso, o conto rejeita as digressões e as extrapolações, ou seja, o passado anterior ao episódio é irrelevante, assim como o são os sucessos posteriores. Sendo o tempo limitado ao momento do drama, também o espaço seria circunscrito a uma sala, um cômodo. Sendo tudo tão restrito, por que as personagens seriam muitas? E a linguagem do conto? A da concisão, com predomínio do diálogo. Chegado o epílogo, o contista há de ter guardado um enigma. Ou o desfecho inesperado, embora determinado desde o começo. E mais uma infinidade de regras, limites, modelos.

Se todos os contistas assim elaborassem contos, há muito teríamos deixado de lado esse gênero cada vez mais rico, por se empobrecer, se uniformizar. Pois não é difícil escrever conto com obediência ao enunciado nos manuais. Os próprios escritores de manuais, os dicionaristas, os professores de literatura, os estudiosos do conto seriam bons contistas. Bastava-lhes seguir o modelo. E assim se deu durante muito tempo. E assim se dá há muito tempo. Não se pode negar, no entanto, que bons contistas não se afastaram de todo (ou em todas as composições) desse molde. Machado de Assis elaborou contos de estrutura tradicional. Guimarães Rosa também. E tantos outros. Assim como escritores medíocres realizaram contos de forma nova, moderna ou revolucionária. Ou seja, o bom conto tanto pode se moldar na tradição como na inovação. Ou não se moldar a nada.

Wilson Martins, no artigo “Contistas”, fez estas observações: “Em termos de literatura, escrever um conto não é contar uma história por escrito — é contá-la com estilo literário, ou seja, com elegância linguística, verossimilhança, sábia estruturação no desenvolvimento da intriga, desenho convincente no caráter dos personagens e invenção de pormenores, tudo concorrendo para defini-lo como obra de arte literária. Também nessa arte tem validade a lei de economia segundo a qual a moeda má expulsa a boa: desanimado com a enxurrada de pseudocontos publicados por pseudocontistas, Mário de Andrade, em desespero de causa, declarou ser conto tudo o que os autores designam como conto – afirmação sarcástica cuja ironia passou larga e convenientemente despercebida, com este resultado inesperado e não menos irônico: passou a ser conto tudo o que se publicava como conto...”

Segundo Assis Brasil, em A nova literatura (Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1973), o conto brasileiro se renovou com Samuel Rawet, cuja estreia se deu em 1956 na coleção Contos do Imigrante. E assim argumenta o crítico: “Aquela história linear, de começo, meio e fim, prima-pobre da novela e do romance, quebrava sua feição tradicional em busca de outros valores formais (...) o conto adquiria uma forma autônoma, não mais ligado ao convencional do enredo.”

Muitos são os contistas e poetas que mantinham engavetados (ou, melhor dizendo, arquivados em computador) seus escritos e, estimulados por leitores de sites e blogs (também escritores em potencial), resolveram publicar o primeiro livro. Alguns não vêm de muitas leituras, de muitos exercícios de escrita, ou leram e leem, apressadamente, tudo o que lhes aparece diante dos olhos, desde piadinhas e os chamados “contos eróticos” até clássicos da literatura universal. Leituras açodadas, sem anotações, sem consulta a dicionários etc. A maioria desses novos escritores segue uma linha, um roteiro, uma estrada larga e longa, certos de que lhes espera a fama, a glória. Não conhecem as veredas, os atalhos, as pedras no meio do caminho, os córregos escondidos na mata. Muito menos os subterrâneos e os céus. Vão em procissão ou atrás do trio elétrico. Todos juntos, unidos, de mãos dadas. Seguem o padre, o pastor, o caminhão do som. Cantam o mesmo refrão. Estão na folia de reis ou na folia do carnaval. São foliões.

            Poucos desses contistas e poetas novos vêm da leitura dos contos de fadas, dos poetas românticos, parnasianos e simbolistas, dos romancistas russos e franceses do século XIX, dos rabiscos na adolescência, dos primeiros versos na juventude, dos arremedos de contos e romances ao tempo da escola e da faculdade. Poucos se vão fazendo escritores. Sabem que não nascemos feitos, prontos. Muito menos que esse “estar pronto” (ou quase pronto) não se dá num passe de mágica.

Estreou em livro Graciliano Ramos aos 41 anos de idade. Isto não quer dizer que tenha começado a escrever tarde. O exercício de escrever está para o escritor como o exercício de andar e falar está para os recém-nascidos. O aprendizado faz-se lentamente. Escrever, no entanto, não é um mecanismo inerente a todos. Como não o é compor música ou pintar quadros. Exercitar o ato de escrever pode resultar num São Bernardo, após anos e anos de exercício contínuo, diário, quase febril. Ou pode redundar em historietas de gosto discutível. Isso quando o candidato a escritor é muito pretensioso. Quando não o é, termina escrevendo artigos ou reportagens. Se chegar a tanto.

A arte, ao contrário da ciência ou da sabedoria, é um mistério até para seu criador. Porque o artista é também um homem comum, embora momentaneamente arrebatado pelo mistério da arte. O artista não “entende” a arte que ele mesmo reflete, exceto no instante da “criação", ou, melhor dizendo, da captação. Se o chamado artista entende sua chamada arte, nem ele nem ela são artista e arte. São copiadores, no pior dos casos, ou técnicos em escrever, no caso do simplesmente escritor. Ou apenas homens inteligentes. O artista não é necessariamente um homem inteligente.

O narrador (autor de prosa de ficção), como o poeta, é um curioso, um escavador, um repórter. Um vagabundo à cata de aventuras, de pessoas, de fatos. Para disso extrair a matéria-prima de suas “criações” ou “criaturas”. Os outros não percebem nada, porque, no máximo, veem. Ou não veem, porque não buscam ver.

Nenhum ficcionista cria tipos, inventa personagens. Se o fizesse, estaria abstraindo o homem e fracassaria como escritor. O que realiza é, primeiro, uma descoberta, porque o ser humano é sempre terra desconhecida. Descobre o seu semelhante. Crê na sua existência, como os navegadores antigos acreditavam nos mundos novos. E parte no seu rumo. E o explora, sozinho. Penetra-o, confunde-se com ele. Revela-o. O ficcionista é um revelador. De mundos reais e quase sempre ignorados.

           A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões de ficcionistas e teóricos da literatura em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações que tem sofrido. Muitos encontraram belas e grandiosas definições. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada definição e a cada transformação seria preciso um novo batismo. Assim, o termo relato, se serve a Borges, não se amolda a Rubião. Até um mesmo escritor cultua o gênero sob diversas formas.

           Todo contista sonhará escrever um grande romance? Contos mais longos seriam ensaios para romances? Talvez sim, inconscientemente. Ensaio que não deveria ser levado ao palco, sob pena de vaias do público. Os bons narradores escrevem contos ou romances e novelas. Nunca confundem alhos com bugalhos.

Talvez seja equivocada a ideia de unidade temática em livro de contos. Ora, uma peça curta, como conto e poema, será sempre uma peça curta, mesmo que momentaneamente inserida num volume junto a outras. Quando se fala de “Cantiga de esponsais”, pouco importa se foi publicada neste ou naquela coleção de Machado de Assis, embora só pudesse estar em Histórias sem data, porque assim o quis o autor. Mas isso não significa nada para o leitor (é de interesse do pesquisador, do estudioso, do historiador etc).

Os gêneros literários estão em constante mutação e interligação. No Brasil ainda se praticam contos aos modos de Flaubert, Balzac, Eça de Queirós, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Maupassant, Tchecov e outros, todos diferentes entre si. Uns se perdem no meio do caminho e enveredam pela crônica. Outros querem escrever História, que também é crônica. Há até o conto-ensaio. A maioria, no entanto, permanece presa aos ditames do velho e bom realismo. Uns não se afastam do sertão ou do mundo rural. Outros se transviam pelos becos das urbes. Há os que não sabem de matos nem de ruas e preferem os meandros da mente. Uns leram muito, outros nada leram. Uns souberam vagar pelos abismos de Poe, pularam fora dos livros, outros permaneceram de olhos vidrados na paisagem aberta diante de suas janelas. Uns se exercitaram mais, outros se contentaram com os primeiros mugidos. Tem sido assim, é assim, será assim sempre. 

Não há mais o conto, no sentido tradicional, dicionarizado do termo. Conto é apenas termo literário de manual e dicionário. Para orientação dos editores e dos professores de literatura. Quem disse que Machado só escreveu contos, romances, poemas e crônicas? Gilmar de Carvalho escreve legendas, Carlos Emílio escreve delírios verbais, Jorge Pieiro escreve contemas, outros querem imitar Maupassant ou Tchekov. O que importa não é a forma, se há atmosfera ou não, se há enredo ou não. Ser ou não ser conto, isto é lá para os filósofos. Importa ser arte literária.

Quanto à literatura amazonense, eu lhes sugiro, aqui, se for o caso, recorrerem aos meus livros “Existe uma literatura amazonense?”, “Roteiro da Literatura Amazonense”, “Curso de Arte Poética” e  “Amazônia: o massacre e o legado”, todos ao dispor de consulentes e estudantes na sede da Academia Amazonense de Letras, na qual são mantidos, também, os arquivos pessoais de cada membro desta Casa. No entanto, a partir de 1982, com o surgimento da nova geração de escritores e poetas, essa história muda de rumo na questão do suporte (Internet), podendo ser avaliada nos sites e nos blogs, a exemplo da palavradofingidor, de Zemaria Pinto, hppt://Jorge-tufic.blogspot.com/, entre vários outros que interligam a palavra ao vasto universo amazônico.

A palavra na ficção, problematiza-se ou resulta em ficção. Ave, palavra! De quem saúda, no voar do pássaro, o poder, imenso, que nos engrandece e torna sublimes.


E já que estamos falando de contos e contistas, hoje, 02/04, completam-se 15 anos desde que Arthur Engrácio foi morar com os Encantados. 

terça-feira, 28 de junho de 2011

Para entender o conto

A obra se alinha a clássicos do gênero e aponta
para novos caminhos a serem percorridos.
Allan Gomes*

Autor condensa nesse ensaio grande parte da produção amazonense


O novo livro do escritor Zemaria Pinto, lançado em março, O conto no Amazonas visa, de forma enxuta, condensar o maior número de informações e referências sobre esse gênero na produção literária do Estado. O livro nasce destinado a ser um guia de viagem que ajudará leitores a chegar ao mundo da palavra e da criação literária. Desde a apresentação o autor esclarece que não é tarefa fácil, pela natureza controversa do gênero, e cita Machado de Assis, na apresentação de seus Papéis avulsos (1882): “Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil”.

É assim, invocando a humildade de Machado de Assis, que Zemaria traça um panorama sobre a produção contística do Amazonas com grande ênfase no período do Clube da Madrugada. Não se pode negar o diálogo que esta antologia estabelece com outras publicadas anteriormente (como a Antologia do Conto do Amazonas, organizada por Marcos Frederico Krüger e Tenório Telles, e a Antologia do novo conto amazonense, de Arthur Engrácio) e que, em conjunto, acabam formando um panorama abrangente das publicações do gênero.

Muitos contos


O conto no Amazonas é um estudo teórico e prático sobre essa arte narrativa. O diferencial está no fato de o autor utilizar como referência analítica os escritores representativos da produção contística regional. O texto se constrói a partir de um breve estudo introdutório em que situa o leitor em relação à história do conto, seus conceitos e os mais destacados criadores. O autor apresenta um guia de leitura e, ao mesmo tempo, um pequeno manual de iniciação não só para leitores, mas para os que desejarem se aventurar nessa arte.

Inicia seu percurso com a narrativa mítica “Baíra e sua namorada”, originária da mitologia dos índios Cauaiua-Parintintin. Volta-se para textos consolidados pela tradição literária, com a apresentação e a análise de obras organizadas entre Pré-Madrugada, Clube da Madrugada e Pós-Madrugada.

A capacidade de síntese do texto de Zemaria não deixa de apontar para a escrita contemporânea, sob influência da Internet, e abre espaço para nos indagarmos o porquê de parte dessa produção originária da rede ainda não ter encontrado espaço em antologias.

(*) Publicado no jornal A Crítica, de 28.06.2011.

domingo, 1 de maio de 2011

Manaus, amor e memória XX

Manhã de autógrafos na praça da Matriz. Anos 1970.
No sentido horário: Arthur Engrácio (de costas), Jorge Tufic, Jorge Pinheiro Pucu, Carlos Gomes, Ernesto Penafort, Alencar e Silva e Moacir Andrade.
.
Uma homenagem aos abnegados trabalhadores das letras do Amazonas, desde sempre trabalhando nas mais precárias condições.

domingo, 10 de abril de 2011

A vida em ficção

Jorge Tufic


Outras estórias de submundo, contos de Arthur Engrácio, Casa Editora Madrugada, 1988. Dividido em duas partes, este livro contém uma novela (“A toga manchada”) e dezesseis contos. Polariza em maturidade com “Áspero Chão de Santa Rita”, romance publicado em 1987, ambos a combinarem ciclos em duas fronteiras de temática e linguagem, sacadas em mundos e realidades diferentes: este, regionalista, enquanto seus trabalhos mais recentes ou mais esporádicos, estão na linha urbana, como o título acima. Uma tarefa realmente produtiva e proveitosa a deste escritor amazonense, que dispõe de jeito e suor a medir-se com os dois universos de sua vigília a serviço da literatura. Falamos daquele universo que aparentemente ficou no passado e deste outro, urbano e presente nos sonhos e pesadelos que se vão transferindo para o elenco da narrativa. Tanto num como noutro, entretanto, se agitam as formas viventes das necessidades em conflito. Predomina a luta entre o bem e o mal, sobrando uma grande vantagem de “santificação” para os que ficam abaixo do limiar do consumo e da cultura. Maniqueísmo? É a hipótese que se levanta. Tenha-se em vista, porém, que tudo, nestes pagos, orienta o indivíduo no sentido das oposições. E quanto ao pobre, ao injustiçado e humilde senhor das várzeas e dos estirões, ele conta, ao menos, com a proteção dos evangelhos da selva e de Cristo. Quantas parábolas, como a do camelo e da agulha, já não lhe conferem o nimbo da santidade? Sejam quais forem as interpretações desse contexto, a verdade é que Arthur Engrácio não pára de escrever. Sua base é a ficção. Seu objetivo é o social da vida amazônica. Esse objetivo é amplo e abrangente. Ele começa telúrico; vai, num crescendo, e degenera no urbano. A selva, como deve ser considerada em seu estado de natureza, transfere-se também para a roupagem das leis, dos costumes...e de suas transgressões rotineiras. O autor deste livro, ainda aferrado ao tradicional, continua adiando, por outro lado, o corpo a corpo da escritura-experiência, no sentido atual e corrente da técnica e da linguagem. Mas tem um jeito particular e saboroso de contar estórias, colocando sua obra de ficção numa espécie de ângulo aberto (e sempre favorável) a uma visão de conjunto. Assim, por exemplo, os causos e cenários descritos em suas páginas de fundo regional, são organicamente inseparáveis da terra e do homem amazônico. As de fundo psicológico e social, plasmam, da mesma forma, os dramas e episódios de várias fases de uma cidade que não pode ser outra, pelas suigeneridades que apresenta, senão a da Barra de São José do Rio Negro. Explicamos: suigeneridades porque todos os absurdos que não podem acontecer em outros lugares, acontecem na Barra. Alguns exemplos: aqui, restaurante fecha para o almoço; se faz lançamento de livro, sem livro; dá-se posse em cargo público, sem a respectiva nomeação do empossado; uma Assembléia de marajás julga atos de corrupção; “desmonta-se” o único Suplemento Literário do Estado, antes de ser montado ou implantado; etc. etc. E por que não pode existir ou ter existido, aqui também, uma toga manchada, tal como narra o autor em sua novela, que abre o volume?

Os agachados, novela em segunda edição de Antísthenes Pinto, ele também, como Arthur Engrácio, ficcionista dividido entre a várzea e a terra firme, entre a cidade e as terras-do-sem-fim, revela, com o máximo sucesso de estilo, tema e linguagem, aspectos dificilmente comportáveis da vida boêmia e dos bares de Manaus, aos quais eram levados e discutidos problemas de todos os matizes. Boêmio cultural, experiente, faro ambientado nos ácidos da estufa de Baco, o autor deste livro aproveita as excentricidades e engarrafa a medula filosófica de seus frequentadores. Nada escapa à lente gravadora do artista, capaz, como foi, de tecer um enredo central debaixo de numerosos outros projetos de romance, pondo em relevo as “correntes cruzadas” do modo singular de como uma sociedade banca e tolera os excessos da vida.

Há, neste livro de Antísthenes Pinto, o personagem central Rivaldo, que teve seu começo no Dr. Félix, um médico psiquiatra, portanto enclave na rotina classe média dos aperitivos. No entanto, todos os tipos do bar (ou dos bares), merecem aqui um retrato ou uma característica de corpo inteiro, caráter e vísceras expostas, no vômito e no verbo. O casamento das duas realidades – o surreal, entre o fato e a foto do cotidiano; e o real, entre a vida e a arte – também se entrelaçam com toda a violência, tensão e unidade. Desta maneira, raros serão os leitores de Os agachados – agachados, todos, sem exceção, diante do sistema econômico e político do País – que podem desconhecer a “matéria” quase impossível do bar e de seus viventes contumazes, sendo esta novela um documento sociológico e literário dos meios que, direta ou indiretamente, têm influído nos processos de transformação da nossa sociedade.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Flagrantes de uma outra Amazônia

Ricardo Lima


A literatura feita na Amazônia até os anos cinquenta do século XX sempre foi acometida daquele mal chamado de “influência de Euclides da Cunha”; uma estética que primava pela linguagem excessivamente carregada, vocabulário muitas vezes pedante e uma incapacidade de enxergar a real dinâmica do hinterland amazônico.

Pode-se dizer também que essa literatura centrava-se principalmente em descrever a paisagem amazônica, suas florestas, rios e “mistérios”, silenciando sobre a realidade do homem amazônico, seus conflitos, dramas e seus sofrimentos. Aqueles autores da velha vertente da literatura positivista ou naturalista transmitiam uma visão completamente deturpada do ribeirinho, mostrando-o como um ser passivo diante da imensidão da natureza, sem consciência e sem a capacidade de criar, ele mesmo, os caminhos para tornar-se o protagonista de sua história.

A mudança na perspectiva de como os nossos intelectuais enxergavam o ribeirinho só começaria a mudar em meados do século XX, com a chegada tardia dos ideais de renovação artística trazida pela semana de arte moderna, com lançamentos como Banco de canoa, de Álvaro Maia. Contudo, foi a partir da década de 1960, com O outro e outros contos, de Benjamin Sanches, Mundo mundo vasto mundo, de Carlos Gomes, e principalmente com o hoje clássico Historias de Submundo, de Arthur Engrácio, que propiciou a ruptura completa com a velha literatura dos bacharéis.

Nascido em 1929, em Manicoré, e falecido em 1997, em Manaus, Arthur Engrácio fez o caminho que muitos condenados fizeram, mas que muitos poucos lograram trilhá-lo com êxito — migrou para Manaus. Mas teve sorte. Formou-se em direito, tornou-se funcionário publico e começou a atuar como jornalista, além de ter sido um destacado membro do Clube da Madrugada.

Não obstante ter se tornado um privilegiado, Engrácio nunca esqueceu suas origens e foi através da literatura que retratou os dramas que vivenciara durante a infância em Manicoré.

O seu primeiro livro já trazia todos os elementos que seriam endêmicos na sua obra. O titulo já dava uma pista de quais seriam os temas abordados pela obra — os sofrimentos e dramas do ribeirinho e a exploração a que estava submetido pelos coronéis seringalistas. São os relatos e confissões de um mundo à parte, de uma Amazônia talvez esquecida, de um verdadeiro submundo, onde o poder público não chegava, e onde homens e mulheres estavam à mercê da vontade de uma decadente elite extrativista, que ainda mantinha o seu poder de mando sobre o povo do interior.

Engrácio insere-se na então nova tradição da literatura regionalista de critica social, cujo principal expoente é sem duvida Graciliano Ramos. Sua necessidade de retratar as misérias do homem do interior o fez escrever de maneira direta, sem muito apelo a adjetivos, exatamente como fez o autor de Vidas secas — sua maior influência.

Os contos de Engrácio fogem um pouco daquela concepção clássica da historia curta, com começo, meio e fim. O autor procura desnudar a vida interiorana em forma de pequenos flagrantes onde são mostrados os dramas, as injustiças e os desejos do homem que habita a beira dos rios, cultiva sua agricultura na várzea e extrai borracha nos seringais. Muitos de seus contos chegam a ser chocantes para o leitor — algo próximo do que fez Antísthenes Pinto com o polêmico romance Terra Firme.

Historias de submundo inicia-se com o conto “A revolta”, que narra a historia fantástica de uma rebelião engendrada por um grupo de seringueiros contra os desmandos do patrão; outras histórias, como “Pescadores”, “O cão” e “Zé Perequeté” são como pequenas apreensões da condição de vida no interior. Já “O coronel”, que conta vingança de um senhor de terras contra um de seus funcionários que estariam se envolvendo sexualmente com sua filha, é onde fica mais explícito a intenção do autor de relatar a tirania e as crueldades daqueles que um dia foram os verdadeiros senhores feudais na Amazônia — os grandes seringalistas.

Em “Filho de arigó”, uma pequena obra-prima do conto amazonense, Engrácio relata, a partir de sua experiência de infância, a condição de miséria e abusos a que estavam submetidos os órfãos nas cidades do interior, dados “de favor” para ricas famílias, sob a justificativa de serem educados, mas que na verdade tornam-se verdadeiros criados, sob a mais tétrica condição de exploração do trabalho infantil.

Descrever a vida no interior do Amazonas não é o único tema da ficção engraciana. O autor de Ajuste de contos também desenvolveu com maestria temas urbanos, com histórias como “Claudia”, “Jorge” e “O segredo do réu”. A primeira narra os dilemas de uma mulher infeliz, que está a ponto de abandonar o marido e fugir com o amante, enquanto a segunda narra a vida infeliz de um bêbado; já a terceira história mostra o relato de um homem que cometera duplo homicídio — matara a mulher e seu amante.

Apesar das historias trágicas, Historias de submundo também reserva momentos cômicos, presentes em dois contos: “No vizinho” (este é o que mais é influenciado pelo método de Graciliano Ramos) e “Uma historia de trancoso”, um “causo” contado por Manuel Bodó, em uma de suas caçadas no meio da mata.

Normalmente, a mídia, a literatura oficial e certos grupos musicais costumam mostrar a vida interiorana de maneira ingênua, como se a vida na floresta fosse como num verdadeiro éden e o ribeirinho um ingênuo que não conhece a fome ou a exploração. É preciso ler um clássico como Historias de submundo, de Arthur Engrácio, para percebermos que existe uma Amazônia bem diferente e de cores bem mais cinzentas que aquelas que o status quo costuma pintar — uma Amazônia do trabalho escravo, de execuções sumárias, abusos, estupros, doenças e subdesenvolvimento.

Acredito que Historias de submundo serve de complemento, ou mesmo introdução, à leitura de outra obra essencial sobre a vida do interior, Servidão humana na selva: o aviamento e o barracão nos seringais da Amazônia, do sociólogo Carlos Correa Teixeira. Como escrevera José de Souza Martins, ambas reúnem “os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia (…)” e “expõe como feria o látego de mecanismos econômicos que, ao subjugar alguns, subjugava a todos e nos tornava pobres de condição humana. E ainda nos torna.”


Ilustração: capa da 2ª edição de Histórias de submundo, de Arthur Engrácio (Manaus: Valer, 2005).

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Arthur Engrácio e o Homem Natural

Zemaria Pinto*


Do grupo de escritores que gravitou em torno do Clube da Madrugada, Arthur Engrácio foi dos poucos a se dedicar somente à prosa de ficção. Foi dos poucos também a enveredar pelos tortuosos e nem sempre compensadores caminhos da análise literária, onde se peca pelo que se diz e, principalmente, pelo que não se diz. Depende da perspectiva de observadores e observados.

Mas numa e noutra atividade, Engrácio foi, sobretudo, honesto. Sua prosa é simples, objetiva e direta. Se fosse classificá-lo em uma escola, para satisfazer a sanha dos que não conseguem ver a literatura além dos quadros cronológicos, diria que ele é um naturalista tardio, embora o seu universo, centrado especialmente no interior amazônico, comporte, por isso mesmo, classificações mais ousadas.

A unidade da obra de Engrácio deriva de duas grandes vertentes: a regionalista e a mítica, sendo a primeira fruto da observação direta da vida do homem do interior da Amazônia, e a segunda decorrente da aceitação do universo mítico primitivo desse mesmo homem. Ao refundi-las, Engrácio pratica um realismo fantástico, onde o boto, a boiúna e a mãe-d’água transitam sem causar espanto entre a escória desvalida dos grotões amazônicos.

A propósito de Histórias do Submundo, o livro com que Engrácio estreou em 1960, Márcio Souza observa que “eram 128 páginas desiguais, unidas apenas pelo rancor”. O mais recente livro de Engrácio, A Vingança do Boto, de 95, confirma essa tendência: o rancor faz parte do seu estilo. Engrácio constrói uma literatura de tons fortes, por vezes desagradáveis, denunciando a exploração a que o homem do interior amazônico é submetido desde sempre, sem nenhuma preocupação em agradar a paladares mais sensíveis.

Apesar de original, e de manter uma constante unidade temática, Engrácio nunca foi um inventor de formas, mas foi, sem dúvida, um desbravador dos caminhos da literatura regionalista que se pratica hoje no Amazonas. O professor Marcos Frederico, ao referir-se a Estórias do Rio e à importância histórica de Arthur Engrácio no contexto da literatura amazonense, diz que “a prioridade à Amazônia não é regionalismo inconsequente. Trata-se de assumir uma identidade que, durante os anos, foi massacrada e relegada a um papel secundário”, para arrematar: “a imagem que os contos de Arthur Engrácio transmitem é exatamente esta: a dimensão da Amazônia. Mas não somente a dimensão geográfica. O que Engrácio focaliza, em sua prosa precisa, é principalmente o homem amazonense em sua dimensão maior”. O homem natural, com todas as suas inconveniências e idiossincrasias, sem maniqueísmos: humano, demasiadamente humano.

Encerrando um ciclo na literatura amazonense, sem deixar herdeiros à sua altura, Arthur Engrácio lega-nos um romance inédito, São José do Uruá - Um Mergulho no Mundo Mágico da Boiúna. No dia 16 de abril, Engrácio completaria 70 anos. Há 3 anos, ele surpreendeu-me com um poema para ser publicado nO FINGIDOR: era uma faceta inédita do Jacaré, como os amigos o chamavam na intimidade. O poema homenageava o amigo Ernesto Penafort, falecido. Trocando os nomes, numa paráfrase elegíaca, concluo, citando o primeiro verso daquele poema: noutros tempos, Arthur, eras futuro!


*Publicado no Suplemento Literário Amazonas, logo após da morte de Arthur Engrácio, dia 02 de abril de 1997.

domingo, 22 de novembro de 2009

Suplemento Literário Amazonas, um alternativo oficial
Zemaria Pinto*

.

Foi no Suplemento, como nós o simplificávamos, que eu ganhei dinheiro pela primeira vez com a minha escritura. De lá para cá, é bem verdade, a contabilidade avermelhou na casa do sem-jeito. Mas valeu ter esperança.

Publicado de novembro/86 a outubro/88, o Suplemento Literário Amazonas − publicação mensal do Diário Oficial do Estado do Amazonas, como se informava em subtítulo, teve exatamente 24 números. Por dois anos, os abnegados Arthur Engrácio e Alcides Werk, este poeta, aquele ficcionista e crítico, escritores que dispensam apresentação, carregaram, aos trancos, o jornal, que acabou sem avisar o porquê. Nesses dois anos, o presidente da Imprensa Oficial era o poeta Alencar e Silva. Na dança dos nomes da Comissão Editorial, destacavam-se os poetas Jorge Tufic e Max Carphentier, e a professora Socorro Santiago.

Mas se não anunciou a própria morte, mantendo a dignidade de não lamentar o próprio fim, no primeiro número, penas afiadas, o editorial dizia ao que vinha o Suplemento: “(...) Sem qualquer sentimento menor. Nem de grupo. Nem de modéstia. Comprometido, antes, com o propósito maior de espelhar a realidade literária local, projetá-la, com vigor, como convém, no cenário cultural do País. (...) de modo a minimizar a desinformação dos nossos estudantes acerca dos autores amazonenses. (...) um novo tempo começará a correr para os artistas e escritores locais.”

E assim se passaram 10 anos. A “realidade literária local” não se projetou para além dos esforços de uns pouquíssimos. A “desinformação dos nossos estudantes” precisa ser dividida, menos que proporcionalmente, com a dos nossos professores. E quanto ao “novo tempo”, este só se realiza no futuro: é sempre o que há de vir; logo, há esperança, sim. Sempre.

O Suplemento Literário Amazonas foi francamente inspirado no Suplemento Literário Minas Gerais, criado, se não me faltam os neurônios, lá pelos anos 60. Outros suplementos existiam (ainda existem?) à sombra da estrutura que sustentava o Diário Oficial de cada Estado. O Nicolau, do Paraná, era, até uns dois anos atrás, quando dirigido por Wilson Bueno, a grande referência para um jornal literário de qualidade, encarando a Literatura como um problema universal, longe das intrigas paroquianas. Depois que o Bueno saiu, percebe-se a queda na qualidade do papel, além de um doce retorno a um conservadorismo que, longe de negar os avanços da vanguarda, coloca-se à disposição da História, como alternativa. Afinal, é desse vaivém que se faz a Literatura, no entrechoque das gerações. Ainda é o Nicolau.

A trajetória do Suplemento Literário Amazonas ao longo daqueles 24 meses mereceria ser analisada com mais vagar. Voltado inicialmente para o consumo interno, o SLA reúne em seus números iniciais, um bom grupo de consagrados intelectuais da terra, sem desprezar a colaboração dos mais jovens. Além do pessoal “de dentro” do jornal, cujos nomes já estavam no expediente, há colaborações de Mário Ypiranga Monteiro, decano dos historiadores, e dos poetas Elson Farias, Guimarães de Paula, Ernesto Penafort e Antísthenes Pinto, entre tantos.

Quem folheia os velhos exemplares a essa distância, sente falta de um mínimo de esclarecimento sobre alguns autores, prática que só viria a ser adotada lá pelo oitavo número, quando as colaborações começam a chegar pelo correio, dos mais diferentes pontos do Brasil. O SLA trocava sua cor levemente provinciana por um tom algo mais cosmopolita. Mas sem exageros. Capas dedicadas a Borges, Rilke e Huidobro traziam em suas entranhas textos maduros de José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Walmir Ayala e Alcides Buss, entre outros, além da velha prata da casa. Todos muito distantes daqueles oito ou nove escritores “oficiais” do Brasil Grande, com cadeira cativa na Folha, no JB e na Veja. Equívocos, havia muitos. E nem poderia deixar de ser. Provincianos. Poemas muito ruins de uns, textos inúteis e vazios de outros, vagidos patéticos de terceiros, ou, ainda, os arroubos juvenis de um certo José Maria Pinto...

Pelo que me conta Alcides Werk, secretário-timoneiro daquele barco bêbado, as correspondências eram tantas que, da tiragem, que chegava aos três mil exemplares, pouco mais de quinhentos ficavam por aqui, sendo o restante distribuído entre universidades, entidades culturais, jornais e suplementos literários, além de escritores, de nomeada ou não. Quer dizer, por falta de uma tática consistente para atrair o público-alvo inicial, este foi trocado por uma elite, formada de bons leitores, mas que não ajudava em nada no fomento da literatura amazonense. Em compensação, o Brasil descobria o Amazonas. Um Brasil marginal, alternativo ao Brasil da grande imprensa e da televisão, mas Brasil também. Como nós.

Depois do SLA, os zines. Mas esta é uma outra história que a modéstia me impede de contar. Impossível, entretanto, é não fazer um paralelo entre o Suplemento e O Muhra, jornal recém-lançado pela Secretaria Estadual de Cultura. Aprendendo com os erros daquele, este pode recuperar o tempo e o espaço perdidos, em busca de sedimentar esta cultura que se intimida consigo mesma, mas que, subterrânea, submersa, maldita, manifesta-se à margem, como alternativa à mediocridade oficial.

Somos apenas uma parte da cultura brasileira, mas somos o todo da cultura amazonense, e precisamos assumir isso: nenhum ajuntamento, grupo ou sociedade sobrevive sem uma identidade própria. Qual é a nossa?

(*)Publicado, talvez no Amazonas em Tempo, em 1998 (eu acho).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Três palavras para o CLAM

Tudo muda, tudo passa, tudo está em movimento. Esta lei da mãe natureza também se aplica à literatura – até porque esta é parte daquela, como as florestas e os rios, as cidades e os campos, o sol e a chuva. Quando eu tinha 20 e poucos anos, achava que o pessoal do Clube da Madrugada era eterno. Aos poucos, convivendo com eles, dei-me conta de que, infelizmente, mais cedo ou mais tarde, começariam a partir, e era preciso que a minha geração estivesse apta a segurar o bastão, se me permitem a metáfora esportiva. A vida é mesmo uma corrida de revezamento. Arthur Engrácio, Antísthenes Pinto, Alcides Werk – mestres e amigos que reverencio em memória.

Presenciamos agora um terceiro momento, em que uma nova geração, formada por jovens talentosos, desabrocha para o mundo das artes. Organizados, uniram-se em torno de um ideal, apropriadamente nomeado CLAM – reverberando a idéia de família, de irmandade. Coisa que os da minha idade não tiveram pique para fazer. Estávamos, talvez, sufocados por aquela massa de talentos do Clube da Madrugada. Já ouvi do amigo Tenório Telles que nós somos ponte, crescemos sob o estigma da passagem. Por força do movimento incessante do universo, um novo ciclo se inicia, com uma nova geração, que, lá na frente, haverá de tomar o bastão. Travessia.

Costumo dizer, nas minhas palestras, que é muito fácil escrever; basta combinar, em proporções equilibradas, três elementos essenciais: conhecimento, habilidade e talento. O conhecimento é adquirido pelas leituras – infinitas leituras. Quanto mais lemos mais nos damos conta do quão pouco conhecemos. Digo isso não para desestimular, mas para enfatizar que o conhecimento é acessível a todos, especialmente nesta era dominada pela Informação. E se é impossível conhecer tudo – uma vida não seria suficiente para tanto –, faz-se imperativo conhecer os clássicos, a literatura brasileira e, por que não?, a literatura amazonense – sem perder de vista os contemporâneos.

No quesito habilidade as coisas se simplificam: é necessário estudar a Arte Poética (ainda que seja pra propor o seu fim) e dominar a técnica (palavra que em grego tem a mesma raiz etimológica da palavra poesia); é indispensável o domínio da técnica para desenvolver o texto literário – em prosa ou poesia. Mas aqui o universo cabe, se não numa casca de noz, num ouriço de castanha-do-pará.

Sobre talento, não preciso dizer nada. Os jovens componentes do CLAM já vêm, há alguns anos, dando demonstrações de que talento não lhes falta.

É a velha lei que se cumpre: tudo muda, tudo passa, tudo está em movimento...

(Zemaria Pinto, na orelha de A Quinta Estação)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Allison Leão é Doutor em Letras – Estudos Literários/Literatura Comparada

Allison Leão, 30, professor da UEA e autor dos livros de contos Jardim de silêncios e O amor está noir, defendeu, ontem, 06/10, na Faculdade de Letras da UFMG, sua tese de doutorado Representações da natureza na ficção amazonense.

A banca foi composta pelos professores-doutores Eliana Lourenço de Lima Reis (UFMG – orientadora), Valter Sinder (UERJ e PUC-RJ), Luís Heleno Montoril del Castillo (UFPA), Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG) e Myriam Ávila (UFMG).

Em Representações de natureza na ficção amazonense, Allison Leão estuda os seguintes autores: Euclides da Cunha (prefácio a Inferno verde e textos sobre a Amazônia presentes em À margem da história), Alberto Rangel (Inferno verde), Ferreira de Castro (A selva), Arthur Engrácio (Histórias de submundo e textos críticos), Astrid Cabral (Alameda) e Erasmo Linhares ("Três estórias da terra", contos presentes em O tocador de charamela).

A despeito de alguns (poucos) professores que não a aceitam, a Literatura Amazonense continua dando o que falar. O estudo de Allison Leão vem se juntar a outros tantos, que, respondendo à questão levantada por Jorge Tufic, há muitos anos, respondem, com convicção: existe, sim, uma Literatura Amazonense!