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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Um diálogo poético com Thiago de Mello 2/2




Tenório Telles*


Fui seguindo viagem, navegando as águas da tua poesia e parando nos diversos portos que são os teus livros. Notei que eles testemunham episódios da tua longa caminhada. Tem muita gente que pensa que a tua lírica é apenas de combate ou, como preferem outros, comprometida socialmente. Tua poética possui diversos matizes e tons. Aliás, o início do teu percurso criativo é marcado por uma dicção reflexiva sobre o existir e o sentido da tua presença neste vasto mar que se chama vida: O poema “Rumo” é revelador dessa inquietude e dessa busca: “Minhas faces mais diversas / são labirintos antigos / que me confundem e perdem // Para chegar até onde / não me presumo, mas sou, / sigo em forma de palavra”.
Sabe, amigo velho, hoje consigo compreender o sentido do verso que abre o poema que acabei de citar: “Somente sou quando em verso”. Tenho a impressão que o que dá existência às coisas são as palavras. Existimos pelas palavras. Penso que o mundo não existe em si mesmo. Acho que tudo é uma grande ilusão. Ou como dizia Shakespeare, um teatro. De bufões, loucos e espectros. Quando afirmas que és pela poesia, lembro de uma passagem do professor Bosi em que ele afirma que o poético é um ato de ressignificação e de “reencantar pessoas, coisas e eventos, mas também reconhecer-se em si mesma, palavra que se dobra sobre a palavra”. Acredito que a única forma de ser verdadeiro e de chegar ao cerne das coisas é pela poesia e por isso teu verso é epifânico.
Gosto da delicadeza dos teus poemas afetivos. Não seriam propriamente amorosos, mas enamorados, cheios de ternura, vibração e calorosos. “Num campo de margaridas” é tão bonito e comovente. E de uma densidade crua e delicada. Ele está sempre comigo. Lembro sempre dele. Ouço o ritmo dos versos e fico perscrutando o movimento das cenas. O jogo entre o onírico e a vigília. E de como o encontro dos enamorados se dá dentro do sonho:

   Sonhei que estavas dormindo
   num campo de margaridas
   sonhando que me chamavas,
   que me chamavas baixinho
   para me deitar contigo
   [...]

   Mas eu não fui, meu amor,
   que pena!, mas não podia,
   porque eu estava dormindo
   num campo de margaridas
   sonhando que te chamava
   que te chamava baixinho
   e que em meu sonho chegavas,
   que te deitavas comigo
   e me abraçavas macia
   num campo de margaridas.

Thiago, percebi que nos teus poemas tu contas na verdade uma história. Há uma narrativa permeando teu discurso poético. Entre tantas coisas e temas [liberdade, utopia, amor, justiça...] que teces com os fios do teu canto, o que sobressai é a tua vida, teu itinerário poético-existencial: a descoberta do mundo, da poesia, o sonho de uma sociedade diferente, libertária e mais justa. Plasmando tudo isso, um Eu à procura de si, de um lugar na existência e desejoso de compreensão e acolhimento. Esse ser, esse menino desconsolado, esse homem em busca de redenção se anuncia e se enuncia ao longo dos poemas. Tuas dores são dores que te aproximam dos outros e também de mim.
Nos versos de o “Encontro com o pai”, senti tua tristeza, a angústia da criança que um dia esperou do pai a “antiga ternura / e velhos carinhos / jamais transmitidos”, mas que viste “acumulados” em seus olhos. Talvez por isso és tão veemente no artigo oitavo dos “Estatutos do homem”: “Fica decretado que a maior dor / sempre foi e será sempre / não poder dar amor a quem se ama”. Imagino a falta que fez esse afeto silenciado no olhar do teu pai. Eu também convivi com esse silêncio e sei a dor que ele causa. Tua mãe, dona Maria Mitouso de Melo, teve sabedoria para depurar essas feridas com o bálsamo do amor e do cuidado. O poema que dedicas a ela é de uma ternura e comoção que faz qualquer um chorar:

   Dona Maria está partindo.
   Parece que está dormindo.
   Mas já está chegando ao finzinho
   do vale que leva à eternidade.

   Quero só ver o que a eternidade
   vai fazer com Dona Maria.
   Ela sempre garantiu, desde mocinha,
   que ia morar lá no céu.
   E muito ouvi dela que Jesus,
   de quem era serva fiel,
   A esperava, contente.

E por falar em eternidade, caro amigo, noto que, embora ressaltes que não tenhas “lá essas certezas” quanto a essa matéria, desde os teus primeiros livros há uma atmosfera de dúvida, uma ânsia de compreensão de si e do mundo – uma certa angústia metafísica. No “Silêncio e palavra”, de 1951, flagra-se um sinal alusivo a um certo sentido de transcendência presente na tua fala poética. Quarenta e cinco anos depois publicaste um poema, a propósito denominado “Da eternidade”, em que reiteras esse vínculo com uma percepção que considera a possibilidade da transcendência e de um princípio primevo que gerou todas as coisas:

   Da eternidade venho. Dela faço
   parte, desde o começo da vida
   dos que me fizeram ser
   até chegar ao que sou.

Como abarcar a complexidade dessa nossa vida tão cheia de segredos e coisas que nos ultrapassam? Embora nos achemos autossuficientes, o fato é que sabemos tão pouco sobre o que somos, nosso lugar no mundo, nosso destino, o que nos espera... Várias vidas não seriam suficientes para esclarecer tantas dúvidas e mistérios. A vida foi dadivosa contigo, meu bom amigo. Chegaste até aqui e estás próximo de completar uma centena de anos. Sobreviveste a tantas coisas e viste muito neste mundo tão grande e inapreensível. E por teres vivido tanto, aprendeste a “cultivar... o dom de ver, / mesmo o que visto dói de ausente brasa”.
Foi para te celebrar – tua vida e teu canto – que escrevi esta carta para ser lida por ti e por todos os que te querem bem. Que aprenderam a respeitar tua história e a amar teus versos. Escrevi esta carta também para registrar teus longos anos de vida, tua luta, teu comprometimento com a causa do ser humano e a transformação do mundo. E porque te mantiveste fiel a ti e ao propósito de ser no mundo – e combateste o bom combate sem te renderes como os guerreiros de Leônidas, que resistiram até o fim pela liberdade –, relembro, neste momento, para louvar tua vida e tua poesia, os versos do poeta grego Simonides dedicados ao general espartano e seus soldados:

   Digam aos espartanos, estranhos que passam,
   Que aqui, obedientes às suas leis, jazemos.

Estas palavras, amigo leitor, é para testemunhar um poeta e sua história. E também para celebrar a amizade – para que não esqueçamos a mensagem desse filho de nossa terra que cantou a liberdade, a utopia e um novo sonho para a humanidade – na certeza de que um dia

   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança.

Thiago, este pequeno gesto é para que saibas que nada foi em vão e que a tua poesia foi inspiração e força para os teus amigos e leitores. E também para os que continuam sonhando com um mundo mais generoso, mais verde e mais solidário. Parabéns, querido amigo. Que as musas continuem inspirando teu canto e te guardando.




*Tenório Telles é poeta e ensaísta, autor de Canção da esperança & outros poemas, Viver e Clube da Madrugada – presença modernista no Amazonas.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Um diálogo poético com Thiago de Mello 1/2



Tenório Telles*


Thiago,

Fiquei sensibilizado, no nosso último encontro, com o teu ânimo e altivez com que enfrentas as circunstâncias do tempo que te afligem. Nem as dores e nem o cansaço dos anos abateram teu ser resistente, pois como dizes

   De madeira lilás (ninguém me crê)
   se fez meu coração. Espécie escassa
   de cedro, pela cor e por conter
   no seu âmago a morte que o ameaça.
   [...]
   No crepúsculo estou da ribanceira,
   entre as janelas e o chão que me abençoa
   as nervuras. Já não faz mal que doa
   meu bravo coração, de água e madeira.

Filho da terra verde ribeirinha, dos encantados e dos rios amazônicos – teu coração tem o vigor das árvores centenárias da floresta e teu ser, a fundura dos rios e seus mistérios. Por isso resististe às tempestades, às dores e às perdas que te foram dadas viver. E agora mais uma primavera, florescente girassol, abre-se no teu peito: completas 93 anos e segues tua travessia com coragem, humor e sem lamentos.
Ao chegar em casa decidi revisitar teus livros e logo me deparei com o poema “Na manhã do milênio”, em que refletes sobre o significado da existência e te questionas sobre a validade dos teus sonhos, as promessas não cumpridas do nosso tempo e o sentido da tua própria poesia. Teu poema é doloroso porque nos expressa igualmente em nossas inquietações, buscas e sonhos nem sempre realizados. Mas tua capacidade de encantar as palavras, colori-las e revesti-las de humanidade o tornou belo e pungente. Li-o devagar, ouvindo cada verso, imaginando tuas mãos deslizando pela página, tua respiração e o compasso do teu coração relembrando os fatos e vivências que evocas no texto:

   De que valeu o assombro indignado
   e esta perseverança que me acende
   em pleno dia a estrela que me guia,
   seguro do meu chão e do meu sonho?
   [...]
   De que valeram todas as palavras
   que proferi na treva da esperança?
   Tão pouco, talvez nada. Não consola
   saber que fiz, que fiz a minha parte,
   que reparti com tantos o diamante,
   que olhei o sol de frente e não fugi
   (nem do meu próprio medo).
   De consolo não cuido. Pois valeu.
   Que tudo vale a pena quando a alma
   não é pequena.
                            Não sei o tamanho
   da minha alma. Só sei que vou varando
   o fim do rio, já posso discernir
   a margem que me chama. Mas obstinado
   confiante sigo no poder distante
   da estrela alucinante. Que destino
   de estrela é o de brilhar.
                             E mesmo extinta
   brilhante permanece sobre o mundo.

Este poema bem poderia ser teu testemunho poético ou tua carta ao mundo – como declarou Emily Dickinson ao conceber um de seus textos. Hoje percebo que teu canto transcende qualquer declaração ou tema particular. Tua poesia é teu chão, tuas vivências e tua infância, onde aprendeste a enfrentar os humores da natureza e, “entre os rebojos”, perdeste o medo. Teus versos tresmalhados de água, barro e vida se fizeram protesto e canção. Por isso carregas esse “grito que cresce”

   Cada vez mais na garganta,
   cravando seu travo triste
   na verdade do meu canto.

   Canto molhado e barrento
   de menino do Amazonas
   que viu a vida crescer
   nos centros da terra firme.
   Que sabe a vida da chuva
   pelo estremecer dos verdes. 

Caro amigo,

Sei o quanto a vida te foi cara pelas tuas escolhas e pelos compromissos que assumiste diante do teu tempo e da humanidade. Entre um existir resignado e a luta pela construção de um mundo menos bárbaro e desigual, te lançaste nas águas da história e, como os antigos argonautas, foste em busca da lâmpada capaz de despertar os seres humanos do negror da indiferença e da ignorância. Tua arma foi teu canto: sabias que as noites passam e por mais que os perversos prolonguem seu domínio de sombras e mentiras, a aurora, brasa incendida sob as cinzas, se tornará fogo, claridade. E não sendo possível deter o tempo, sabes que “a manhã vai chegar”. Que o novo é inevitável. Entre noites, guerras e solidão o destino humano se tece indiferente. E o que importa, como disseste, é “poder dar amor a quem se ama / sabendo que é a água / que dá à planta o milagre da flor”.
Pensando nisso, lembrei do poema que escreveste quando estiveste preso com o Cony, o Callado e o Glauber Rocha. Era o início do ciclo de sombras que se abateu sobre o país e vocês, como os espartanos nas Termópilas se lançaram contra a força dos senhores do poder. Nessa “Iniciação do prisioneiro”, escrito no cárcere em novembro de 1965, ressaltas exatamente a necessidade de afirmar o Amor como alento e contraponto àquele momento de suplício:

   É preciso que Amor seja a primeira
   palavra a ser gravada nesta cela.
   Para servir-me agora e companheira
   seja amanhã de quem precise dela.

Alguns anos depois viveste situação semelhante no Chile quando o sonho de Allende e do povo chileno foi tragado pelo fogo e pela morte. Por pouco não perdeste a vida, como ocorreu com o cantor Víctor Jara e outros artistas chilenos. Mas a providência te queria vivo, apesar do longo inferno que tiveste que amargar no exílio. Há um fato da tua história que me comove ainda hoje. Ele me foi relatado por um poeta peruano. Contou-me que estavas no Peru e para saciar tua saudade da pátria organizaram uma expedição clandestina ao rio Solimões para que pudesses ver, sentir o cheiro e estar próximo da tua terra. Fico imaginando os sentimentos que rebojavam dentro de ti – tão perto e tão longe do país. Dos teus familiares. Essas experiências te ensinaram que, apesar das intempéries, é preciso continuar navegando

   Como um rio, que nasce
   de outros, saber seguir,
   junto com outros sendo
   e noutros se prolongando
   e construir o encontro
   com as águas grandes
   do oceano sem fim.
  
   Mudar em movimento,
   mas sem deixar de ser
   o mesmo ser que muda.
   Como um rio.


(Conclui na próxima sexta-feira)

*Tenório Telles é poeta e ensaísta, autor de Canção da esperança & outros poemas, Viver e Clube da Madrugada – presença modernista no Amazonas.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Cultura, tradição e escritura 4/4


Tenório Telles


A palavra como reconciliação com o mundo

O poeta francês Francis Ponge (1997, p. 67), ao refletir sobre a capacidade do poeta de fundar o mundo por meio da palavra, pondera que esse poder “lhe vem... de uma possibilidade para o funcionamento do mundo e de uma violenta necessidade de integrar-se a ele, depois... de uma particular aptidão para manejar, ele próprio, uma determinada matéria”. Essa matéria não é outra senão a linguagem: capacidade instauradora de nossa humanidade e ponte que nos liga à realidade e às coisas. Ponte que nos liga ao ontem, ao hoje e ao futuro. Somos filhos do verbo – nascidos das entranhas do silêncio originário e do irrevelado que move o vento, as águas, os ciclos da vida – o cosmos, como desvelou Dante (1976, p. 63):
A fantasia agora está calada;
mas já renovo as forças, que a movê-las
vai a roda a girar sempre ordenada,
do Amor que move o sol e move estrelas.

Evocar a existência e transfigurá-la pela força do verbo é um dos atributos significativos dos que se dedicam à faina de encantar as palavras, revesti-las de plumas e asas – que é também um ato de desvestir a realidade e revelar-lhe sua impalpável carnadura, seus mistérios, sua ossatura. Só a linguagem permite esse mergulho no ser do mundo e nas águas do tempo em que somos. Ponge (1997, p. 69) considera que o poeta deve reatualizar permanentemente seu pacto com a vida para não se perder:
Tanto mais que, em sua atividade de dominação do mundo, ele corre o risco de se alienar, ele precisa, a cada instante, aí está a função do artista, graças às obras de sua preguiça, se reconciliar com o mundo.

A consciência do tempo, a compreensão de nossa presença no mundo e o sentido de nossa condição como seres históricos e criativos são os fundamentos capazes de nos impulsionar para uma outra possibilidade de vida – fundada no esclarecimento, na tolerância e no cultivo do belo. Isso só será possível, como nos alerta Eliot, quando compreendermos que somos parte de uma “totalidade”: quando entendermos que estamos/somos no ontem, no hoje e no amanhã – inapreensível prefiguração dessa convergência de tempos. O poeta evocou nossa trágica condição (não como algo irremediável), mas como devir – suspenso e indefinido:
Dayadhvam: ouvi a chave
Girar na porta uma vez e apenas uma vez
Na chave pensamos, cada qual em sua prisão
E quando nela pensamos, prisioneiros nos sabemos
Somente ao cair da noite é que etéreos rumores
Por instantes revivem um alquebrado Coriolano
(...)
Sentei-me junto às margens a pescar
Deixando atrás de mim a árida planície
Terei ao menos minhas terras posto em ordem?
(ELIOT, 1981, p. 105)

Teremos coragem de nos assenhorarmos da chave? De abrir a porta? De nos fazermos viajantes dessas planícies agrestes, desses desertos que não cessam de ultrapassar suas fronteiras? Teremos coragem de contemplar o firmamento e nos deixarmos, como homéricos navegantes, guiar pelos caminhos das estrelas? Na contracorrente dos tempos, acendo minha fogueira e desfio a tapeçaria da memória: “Com fragmentos tais foi que escorei minhas ruínas” (ELIOT, 1981, p. 106).

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, GIORGIO. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009.
ARISTÓTELES. Poética. 4 ed. Trad. Ana Maria Valente. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Vol.III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979, p. 798-801.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. 2. ed. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
DANTE. 6 cantos do paraíso. Trad. Haroldo de Campos. Rio de Janeiro: Fontana; São Paulo: Istituto Italiano di Cultura, 1976.
ECO, Umberto. A definição da arte. Trad. Eliana Aguiar. São Paulo: Record, 2016.
ELIOT, T. S. Ensaios. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Art Editora, 1989.
______. Poesia. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
MELO NETO, João Cabral de. Melhores poemas. 10. ed. Sel. Antonio Carlos Secchin. São Paulo: Global Editora, 2010.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
______. Flores da escrivaninha. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
PLATÃO. A República. 2. ed. Trad. Ana Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
PONGE, Francis. Métodos. Trad. Leda Tenório da Motta. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
RILKE, Rainer Maria. A melodia das coisas. 2. ed. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2011.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 3/4


Tenório Telles


Machado e “a crítica pensadora”

No dia 8 de outubro de 1865, Machado de Assis publicou, no Diário do Rio de Janeiro, uma crônica intitulada “O ideal do crítico”. O texto, considerando seu caráter argumentativo reflexivo, aproxima-se do ensaio, embora conserve o tom de diálogo peculiar característico do cronista. Machado antecipa muitas questões que serão objetos de debate no século seguinte. Ao versar sobre a crítica, intima os estudiosos a exercitarem
a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata(...) a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada(...) condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença – essas três chagas da crítica de hoje –, ponde em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a justiça – só assim teremos uma grande literatura (ASSIS, 1979, p. 798)

A tradição e o domínio dos procedimentos criativos não são suficientes para gerar a obra literária – ou as obras de arte em geral. Um elemento particular é imperativo na faina criativa – o talento: entendido como atributo de uma sensibilidade artística singular (como diz Eliot (1989, p. 39): “o fragmento de platina”, prefigurado na mente do poeta): “quanto mais perfeito for o artista, mais inteiramente estará nele o homem que sofre e a mente que cria; e com maior perfeição saberá a mente transfigurar as paixões que lhe servem de matéria-prima”.
Talento, conhecimento e emoções mesclam-se no processo de gestação da obra de arte. Essa não é uma experiência destituída de tensão e de um forte componente demiúrgico. O texto escrito (poesia ou prosa) é gerado nas entranhas de seu criador: nutre-se de seu sangue, de seus sonhos e razão, de suas emoções e angústias mais profundas. Por isso, o ato criativo é uma experiência de morte e de vida, em que o artista sacrifica tempo e muito de si mesmo para que a criação nasça e seja compartilhada socialmente. A escritura é um raio que brota dos abismos do ser, pois, como afirma Rainer Maria Rilke (2011, p. 134): “A cada obra de arte vem ao mundo algo novo, uma coisa a mais”. Esse novo a que se refere é também continuidade da linhagem a que se vincula todo agente da criação – enriquecendo, com seus esforços e realizações criativas, o patrimônio artístico da humanidade.
A inquietude e o desejo de dizer de si e do mundo, que movem o artista, são forças geradoras da criação. Desassossego e falta expressam a humana condição num tempo e mundo estiolados, esvaziados de seus fundamentos: época precária, opaca e inominável – fênix destituída de sua mágica recriadora. Encantados pela esfinge do paraíso consumista, os seres humanos perdem-se entre as sombras e a paralisia de uma vida inautêntica. A arte é o antídoto para esse viver letárgico e arruinado. Resta-nos a Palavra como possibilidade de testemunho desse estar-no-mundo indiferente, mas também como libertação – ou como disse Fernando Pessoa (apud PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 105): “uma confissão de que a vida não basta”. Não basta se não for vivida com encanto, com consciência e como ato libertário. A beleza é o sangue capaz de reavivar a existência e restabelecer os fundamentos primordiais da civilização.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 2/4


Tenório Telles

Platão – crítica e imitação

A crítica nasceu com a Filosofia. Uma das primeiras reflexões sobre a poesia e a função do poeta na sociedade foi empreendida por Platão na sua obra mais expressiva, A República, escrita no século IV a.C. O julgamento do filósofo foi desfavorável aos artífices da palavra: considerados como meros “imitadores de imagens da virtude e também de tudo o mais sobre o que versam seus poemas e que não atingem a verdade” (PLATÃO, 2014, p. 389).
O foco da apreciação de Platão foi o autor da Odisseia que, sendo um imitador “por meio de palavras e frases” seria incapaz de colaborar para educar os homens e, assim, torná-los melhores. Outro pecado a justificar seu ponto de vista sobre a poesia, expressa na figura de Homero, deve-se ao fato de despertar, nos interlocutores dos textos poéticos, emoções capazes de ofuscar-lhes a razão:
Do mesmo modo, diremos que o poeta imitador cria uma constituição má dentro da alma de cada um, porque favorece o que ela tem de irracional e não discerne nem o maior nem o menor, mas ora julga grandes, ora pequenas as mesmas coisas, criando imagens vazias, mantendo-se, porém, bem afastado da verdade (PLATÃO, 2014, p. 396).

A severidade de Platão, motivada pela sua perspectiva utilitária da arte, resultou num posicionamento radical em relação ao poeta: o qual não deveria ser acolhido na cidade que imaginava (“governada por boas leis”), “pois ele desperta e nutre essa parte da alma e, tornando-a forte, destrói a razão” (PLATÃO, 2014, p. 396). Evidentemente, os critérios suscitados pelo autor de A República não eram estéticos, mas de caráter moral e político.
Essas primeiras reflexões já trazem os fundamentos que embasarão os debates sobre a natureza da arte, o sentido da criação – compreendendo o criador e a obra – e o seu papel social. E perpassando esses elementos, os critérios de julgamento e recepção dos objetos artísticos.

Arte e labor criativo

O texto em epígrafe, do poeta e crítico T. S. Eliot, retoma o discurso sobre o processo artístico em outros termos: entende a arte em seu sentido histórico e como labor criativo, que demanda dedicação e trabalho para ser apreendido. Isso significa que o artista é um sujeito que se constrói pelo esforço individual e como parte de uma tradição. Conhecê-la e apropriar-se de seu vasto repertório técnico e estético é imprescindível no processo criador e na renovação das expressões artísticas. Eliot (1989, p. 39) considerava que
nenhum poeta, nenhum artista tem sua significação completa sozinho. Seu significado e a apreciação que dele fazemos constituem a apreciação de sua relação com os poetas e os artistas mortos. Não se pode estimá-lo em si...

A perspectiva de Eliot sobre a cultura é diacrônica – em que passado e presente se imbricam como num jogo de espelhos em que um se reflete no outro, engendrando, assim, as possibilidades do futuro. Funde-se no outro, gerando um calidoscópio de formas e cores difusas, ambíguas e inapreensíveis – metáfora viva da arte. Esse ponto de vista do autor de A terra desolada faz parte de sua visão do fenômeno histórico e do fundamento estético que enforma sua produção poética (uma vez que a entendia como “princípio de estética”). A leitura da primeira parte do poema Quatro quartetos, intitulada “Burnt Norton”, é evocativa desse olhar sobre o tempo – compreendido como grandes fluxos superpostos que se autodeterminam:
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpetua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
(ELIOT, 1981, p. 199)

A cultura, a arte e a história constituem uma “totalidade” em movimento, em continuidade permanente – em que os fluxos temporais se imbricam, se amalgamam e fluem, assumindo formas e sentidos novos. Essa relação com a tradição, portanto com o passado, tensionada com o presente, desperta no escritor a consciência de que não é um astro desgarrado e nem é uma subjetividade fechada em si mesma, mas compreende-se situado na constelação dos criadores e “ferrageiro” do verbo: assim, situa-se, “para contraste e comparação, entre os mortos” (ELIOT, 1989, p. 39). O novo se funda sobre os alicerces do ontem – em que o hoje logo será ultrapassado pelo devir da grande máquina do mundo que torna tudo inapreensível e crepuscular.
Essa consciência não é um atributo imperativo apenas para o poeta, mas para todos os que se dedicam à palavra – seja o crítico, o professor, o autor: todos são chamados a refletir sobre as implicações estéticas e históricas de seus ofícios – sobretudo a “responsabilidade” como criadores e formadores, pois é inegável, sem descurar o aspecto estético, o caráter pedagógico das artes. O interesse pelo objeto artístico, como experiência de fruição da beleza, decorre da necessidade e do prazer experimentado pelos homens. Para Aristóteles (2011, p. 42), “A razão disto é também que aprender não sé só agradável para os filósofos, mas é-o igualmente para os outros homens, embora estes participem dessa aprendizagem em menor escala”.
O crítico, em particular, para levar a termo seu ofício, não pode prescindir do histórico, compreendido como o espaço das vivências, do aprendizado e repositório dos avanços técnicos, estéticos e dos conhecimentos. Inquisidor de seu tempo, portanto um contemporâneo, o crítico estende suas pontes entre as margens do grande oceanotempo da cultura, propiciando, como destaca Agamben (2002, p. 71): “um encontro entre os tempos e as gerações”.
A atividade crítica pressupõe uma atitude profissional e uma formação adequada para o seu exercício. Em se tratando de crítica literária, exige-se, como nos lembra Leyla Perrone-Moisés (2016, p. 68), “bagagem cultural e argumentos, e estes necessitam de um mínimo de fundamentação teórica, que só se adquire na prática de muita leitura ‘de’ e ‘sobre’ literatura... (e) requer formação e profissionalismo”.
O pacto da criação literária se estabelece por meio da relação do escritor com o leitor. O ponto de convergência entre os dois é o objeto artístico. O crítico literário, com seu conhecimento da tradição e domínio dos critérios estéticos e de legitimação da obra criativa, pode ajudar de forma construtiva na aproximação dos leitores dos textos literários e, assim, contribuir com sua formação. Isso esclarece a afirmativa de Eliot quando ressalta que o conhecimento do antigo e do novo é uma consciência que se exige do crítico e, ao mesmo tempo, é uma grande responsabilidade.
Crítico dos mais qualificados, Umberto Eco (2016, p. 272) considera que na definição da obra de arte “os valores (o ‘antes’ que está na origem da obra e o ‘depois’ ao qual se dirige a obra) só se resolvem em estrutura”. Como um corpus tecido com palavras, ideias e imagens, o objeto artístico pode expressar princípios contrastantes com a opinião do crítico ou ser afirmativo de posicionamentos preconceituosos. Nesse aspecto, é imperativa a capacidade de julgar do analista, que deve agir com distanciamento, honestidade e instrumentalizado de critérios estéticos claros. Eco problematiza a possibilidade de discordância em relação aos valores que enformam uma obra de arte, podendo contestá-la e apontar-lhe as fraquezas. A validade do objeto analisado é outra possibilidade e, por isso, conclui que
A tarefa do crítico pode ser também e especialmente esta: um convite a escolher e a discernir. Cada um de nós, lendo uma obra literária, ainda que professe os critérios técnico-estruturais aqui expostos, deve e pode encontrar uma relação emocional e intelectual, descobrir uma visão de mundo e do homem. É justo que existam pessoas com a sensibilidade mais apurada que nos comuniquem as experiências de leitura para que possam se tornar nossas também (ECO, 2016, p. 272).



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 1/4


Tenório Telles


Resumo
Este artigo se estrutura como uma reflexão sobre a crítica e a criação literária, considerando a palavra como fundamento do labor criativo e instrumento do escritor no seu processo de concepção e representação do mundo. Busca-se na tradição, no sentido atribuído a ela por T. S. Eliot, a compreensão para o trabalho do crítico – sua responsabilidade e atributos teóricos como condição para o exercício da compreensão e julgamento do texto literário. Como uma interlocução reflexiva, referencia-se no diálogo com estudiosos e poetas que refletem sobre a experiência criadora e sua escritura.

A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de grande esforço. Ela envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico... (e) implica a percepção, não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença.
T. S. Eliot

Introdução
O poeta João Cabral de Melo Neto (2010, p. 335), no poema “O ferrageiro de Carmona”, discute o processo criativo e, ao mesmo tempo, expressa seu ponto de vista sobre seu labor poético. A partir da arte do “ferrageiro”, o autor pernambucano problematiza duas concepções sobre a arte de criar ou malhar o ferro. O texto se constrói como um diálogo entre o eu lírico e o ferreiro de Carmona, que informava de um balcão seu conhecimento sobre a técnica de dar forma a um artefato metálico:

Aquilo? É de ferro fundido,
foi a fôrma que fez, não a mão.
(...)
Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?
Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.

Apresentadas as duas abordagens sobre o fazer artístico, desdobram-se as explicações sobre o fundamento, o significado e a perspectiva do artista em relação à sua criação. O ferrageiro esclarece que “o ferro fundido é sem luta / é só derramá-lo na fôrma”. Em contraposição, afirma sua predileção pelo “ferro forjado / que é quando se trabalha o ferro / então, corpo a corpo com ele, / domo-o, dobro-o, até onde quero”.
Subjaz no poema a tradicional discussão sobre a mímesis. As duas proposições remetem ao debate entre Platão e Aristóteles sobre a relação entre as ideias e os objetos criados. Se, para Platão, os objetos são mera imitação de formas supraterrenas, para Aristóteles, o ato criativo e a própria imitação são atributos humanos, associados à habilidade e ao domínio da técnica que enseja o labor artístico, como ressalta na Poética:

Estando, pois, de acordo com a nossa natureza a imitação, a harmonia e o ritmo (é evidente que os metros são partes dos ritmos), desde tempos remotos, aqueles que tinham já propensão para estas coisas, desenvolvendo pouco a pouco essa aptidão, criaram a poesia a partir de improvisos (ARISTÓTELES, 2011, P. 43).

O poema de João Cabral depreende as duas perspectivas: a platônica, expressa na ação do ferreiro que trabalha com o “ferro fundido”, vazado na “fôrma”, em que “as flores” são “moldadas pelas das campinas”, que, segundo Platão, já seriam uma imitação de formas transcendentes. A concepção aristotélica vincula-se à técnica do “ferro forjado”, que pressupõe, além do domínio da arte, a destreza do ferrageiro: “Só trabalho em ferro forjado / que é quando se trabalha o ferro”. O criador impõe à sua criação as marcas de sua subjetividade, compreensão e método laborativo.
As proposições de Platão e Aristóteles são incontornáveis nos estudos sobre o fenômeno criativo, os fundamentos da arte e sobre a interpretação dos objetos artísticos. Suas reflexões plasmam o pensamento dos variados críticos e, ao mesmo tempo, são afirmadoras da força e importância da tradição, entendida simbolicamente como monumento vivo e em contínuo processo de imbricação com o novo e atualização, como sublinha T. S. Eliot (1989, p. 39, grifo do autor):

Os monumentos existentes formam uma ordem ideal entre si, e esta só se modifica pelo aparecimento de uma nova (realmente nova) obra entre eles. A ordem existente é completa antes que a nova obra apareça; para que a ordem persista após a introdução da novidade, a totalidade da ordem existente deve ser, se jamais o foi sequer levemente, alterada: e desse modo as relações, proporções, valores de cada obra de arte rumo ao todo são reajustados; e aí reside a harmonia entre o antigo e o novo. Quem quer que haja aceito essa ideia de ordem... não julgará absurdo que o passado deva ser modificado pelo presente tanto quanto o presente esteja orientado pelo passado.

A construção deste estudo referencia-se nessas balizas teóricas que fundaram a compreensão do processo criativo e a consolidação do pensamento crítico sobre o texto literário e sua escritura, entendidas como parte de uma tradição que se reatualiza permanentemente:

Esse sentido histórico, que é o sentido tanto do atemporal quanto do temporal e do atemporal e do temporal reunidos, é que torna um escritor tradicional. E é isso que, ao mesmo tempo, faz com que um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade (ELIOT, 1989, p. 39).

Originalmente, publicado na revista Kalíope. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. ISSN 1808-6977, v. 12 n. 24 – 2017.
Aqui, será publicado, sempre às segundas-feiras, em quatro partes.