Amigos do Fingidor

terça-feira, 25 de julho de 2017

Você pode. Nós podemos


Pedro Lucas Lindoso


Há alguns anos era inimaginável que o filho de um queniano negro seria eleito presidente dos Estados Unidos. E reeleito. Enquanto no Brasil um metalúrgico nordestino também, surpreendentemente, foi eleito para presidir o país. Também reeleito.
Obama não pode mais ser presidente. Como ex-presidente, goza de prestígio e reconhecimento. Está “numa boa”. Não é caso de nosso metalúrgico. É candidato novamente, o que é proibido constitucionalmente nos EUA. E ainda responde a acusações e processos. Não está, como seu colega Barack Obama, “numa boa”.
 É lamentável que nossas ainda frágeis instituições democráticas não sejam fortes o suficiente para evitar graves desmandos das máquinas partidárias. Assim como as práticas recorrentes de corrupção. Acusações de malfeitos envolvem todos os partidos, independente do viés ideológico.
 A população está descrente dos políticos. Isso é triste e perigoso.
O povo do Amazonas está sendo convocado para escolher, extemporaneamente, um novo governador. Em meio a muita descrença, ouço que vários vão se abster ou votar em branco.
Sou contra o voto em branco e a abstenção. O político exerce um mandato. O instrumento de um mandato é sempre uma procuração. Ora, alguém exerce o mandato porque o povo escolheu. Se você votou em branco eu entendo que você está abrindo mão de escolher seu “mandante”. Você está dizendo, em outras palavras, “façam o que quiserem”.
Lula foi eleito convencendo o povo a não ter medo de ser feliz. O povo podia eleger um metalúrgico de esquerda. Obama foi eleito convencendo o povo de que também podia. Sim você pode. “Yes, you can.”
Eu acredito nisso. O Povo pode. Só você pode mudar o Amazonas. É isso. Só você pode. Só exerce um mandato quem tem uma outorga. Ou seja, um consentimento, uma concessão do povo. A necessária e definitiva aprovação.
Por isso eu insisto: não vote em branco. Nunca. Não dê cheque em branco. Jamais. Não assine papel em branco. Só uma pessoa pode mudar nossa cidade, nosso estado e nosso país: você.
Você pode. Nós podemos.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

O escritor como criador de mundos


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domingo, 23 de julho de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXVI


Lançamento de livro de Elson Farias (foto 1/2), anos 1960.
Da esquerda para a direita: Narciso Lobo, Márcio Souza, Luiz Maximino (de paletó), Luiz Ruas (de óculos escuros), Elson Farias (ao fundo, de paletó) e Luiz Bacellar (em primeiro plano, de paletó claro). 

sábado, 22 de julho de 2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Anavilhanas, vésperas


Zemaria Pinto


o coral dos encantados
vestido em verde/arco-íris
acompanha-se de naipes
invisíveis

a percussão da água
as cordas do vento
os sopros do sol
até o último
movimento

a capela, em pianíssimo,
a noite
com seus sussurros

Influência da astrologia na medicina


João Bosco Botelho


O encantamento pela astrologia como prática divinatória consolidou-se nos primeiros núcleos urbanos, em torno de quatro mil anos atrás.
As práticas divinatórias astrológicas continuam mantendo relações próximas com as antigas crenças e ideias religiosas estruturadas na Mesopotâmia.
Os vestígios dessa interessante dependência entre as pessoas e os astros reconhecíveis no céu estrelado podem ser rastreados em alguns registros da escrita cuneiforme. O sinal gráfico correspondente ao divino ─ elemento incomensurável e todo-poderoso do passado e do futuro ─ é o mesmo que designa a palavra estrela. Os deuses babilônicos Schamasch, Sin e Ischtar eram os guardiões do céu sob a forma do Sol, da Lua e do planeta Vênus, os três astros mais destacados do firmamento.
  Assim, a força da astrologia na modernidade não deveria causar tanta admiração. A fé no poder dos astros determinando o destino das pessoas e do mundo é tão antiga quanto as primeiras aglomerações urbanas.
Algumas palavras atuais estão repletas de significado astrológico. O prefixo latino menstruus, que originou menstruação, está ligado ao processo repetitivo de vinte e oito dias do mês lunar.
  Apesar das adaptações adquiridas também com os novos saberes sobre os elementos visíveis no firmamento, a astrologia divinatória conservou a primitiva estrutura de sedução: utiliza a adivinhação dedutiva, a partir da interpretação do movimento astral.
  Os médicos medievais, entre os séculos 8 e 11, criaram situações bizarras ao utilizarem a concepção neoplatônica de similitude entre o macrocosmo e o microcosmo, construindo extremados prognósticos astrológicos. Nesse período, predominava a certeza de que a saúde, a doença, a boa sorte, o azar, a sexualidade e a procriação estavam sob a decisiva influência dos astros.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ilação. Serve para quê?


Pedro Lucas Lindoso


“São só ilações”, explicou o presidente a todos os brasileiros, sobre as denúncias a que ora responde no Congresso Nacional.
Todas as vezes que me deparo com uma palavra considerada “difícil” ou desconhecida do falante médio do português, me vem à mente o clássico conto de Arthur Azevedo – Plebiscito.
Quando é dita por autoridade constituída, explicando algo aos brasileiros, me lembro do escândalo da parabólica. Rubens Ricúpero, no ano de 1984, então ministro da Fazenda do Brasil, enquanto se preparava para entrar no ar ao vivo no Jornal Nacional, afirmou: "Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde." Essa transmissão foi feita por meio do canal privativo de satélite da Embratel, acessível, naquela época, somente por antena parabólica.
Eu sempre faço o teste dos porteiros. Naquele dia perguntei ao porteiro de meu prédio:
– Pereira, você tem escrúpulos? No que ele respondeu:
– Nunca peguei esse troço, não doutor.
O que me levou à ilação de que no máximo dez por cento da população brasileira sabia o que era escrúpulo. Mesmo assim o ministro caiu.
Há alguns anos, no mesmo Jornal Nacional, o Ministro Marco Aurélio usou a locução latina “a priori”. William Bonner poderia ter explicado “a posteriori” a expressão utilizada pelo magistrado. Nem todos os brasileiros são bacharéis em Direito. Graças a Deus.
“São só ilações” é uma expressão usada quando queremos afirmar que um dado não é de todo preciso, que é baseado apenas em vagas deduções. Ao ouvir isso do presidente, resolvi fazer novamente o teste do porteiro.
O porteiro de onde moro atualmente não se chama Pereira. Chama-se Wallysson, e ao ser perguntado se sabia o que era ilação, me respondeu:
– Serve mesmo para que, doutor?
Na época dos escrúpulos achei que só dez por cento dos brasileiros entenderam o Ministro. Como a Educação piorou muito, a ilação que faço é que provavelmente só um por cento da população sabe o significado dessa palavra.
Mas acho que Wallysson tem razão. Ilação. Serve mesmo para quê?
Em anexo, para os que não conhecem, o magistral conto, já centenário, mas atualíssimo, de Arthur Azevedo. Vale a pena ler ou reler.


Plebiscito – conto de Artur Azevedo

A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário-belga. Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio. De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
— Papai, que é plebiscito?
O Senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente, para fingir que dorme. O pequeno insiste:
— Papai?
Dona Bernardina intervém:
— Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal. O Senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
— Que é? Que desejam vocês?
— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
— Se soubesse não perguntava.
O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…
— A senhora o que quer é enfezar-me!
— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!
— Proletário, acudiu o Senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
— Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: “Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho”.
O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
— Mas se eu sei!
— Pois se sabe, diga!
— Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
E o Senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta. No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário…
A menina toma a palavra:
— Coitado do papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
— Não fosse tolo — observa Dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!
— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
— Sim! Sim! Façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa e vai sentar-se na cadeira de balanço.
— É boa! — brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio; — é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…
A mulher e os filhos aproximam-se dele. O homem continua, num tom profundamente dogmático:
— Plebiscito…
E olha para todos os lados, a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
— Ah! — suspiram todos, aliviados.
— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...


domingo, 16 de julho de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXV


Proximidades do porto de Manaus.

sábado, 15 de julho de 2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

poundiana



Zemaria Pinto


a essência consiste em ser medula

                      fluir

                     conter

                     podar:


                  condensar!

IGHA comemora o 10 de Julho

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Linguagens e a crítica da proteção pura



João Bosco Botelho


É possível que seja nas dimensões celulares e moleculares, dando forma à função e vice-versa, que ocorre a maravilhosa capacidade humana de construir ideias para compreender o invisível, o imponderável, para, depois, desvendar e nominar, transformando-o em objeto mensurável.
Esse conjunto reforça o entendimento dos discursos atados às linguagens e impregnados do saber acumulado historicamente. No contexto da multidisciplinaridade, as gramáticas são ideológicas por que expressam certo tipo de posse do real que marcam profundamente nos corpos os prazeres e as dores, sentidos e imaginados.
O objetivo primário da ação, a ideia seguida do movimento do corpo, por si mesmo, é o mais fundamental sentimento mantenedor da sobrevivência: a cooperação unindo todos para fugir da dor e buscar o prazer, aqui compreendido como as garantias da sede e da fome saciadas, abrigo contra o frio e o calor extremos, cooperação, territorialidade, sexualidade e descendência. Algo que poderia ser chamado de crítica da proteção pura. Não se trata, exclusivamente, do viver. O morrer pode representar, em certos instantes, o ato cooperativo dominante e, nesse caso, a morte representará a proteção pura.
Apesar de os estudos da anatomia e fisiologia terem desvendado aspectos importantes da forma e da função do cérebro relacionadas às linguagens, estamos longe, muito longe, de compreender a maior parte das dúvidas. A principal barreira é a fantástica multiplicidade das formas, nos seres viventes, gerando funções semelhantes: homens e mulheres possuem áreas cerebrais semelhantes, relacionadas às linguagens, contudo jamais se expressam igualmente nas linguagens, fazendo com que um texto ou uma pintura jamais possam ser copiados impunemente.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Fantasy Art - Galeria


Aurora's Veil.
Shaun William Kerr.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Vovocidade ou avocidade?



Pedro Lucas Lindoso

Assim como existem as palavras paternidade e maternidade, deveria existir a palavra “vovocidade” ou “avocidade”. O exercício de ter netos. A qualidade de ser avós.
Reportagem recente de A Crítica fala de Renata, que não tinha sobrenome e nem documentos. Ganhou judicialmente esse direito à cidadania. Renata viveu até os dezoito anos numa instituição de acolhimento de crianças.  Sem nunca ter sido adotada, cresceu e se tonou adulta no orfanato, de onde saiu para a vida.
O sobrenome que adotou é uma homenagem a uma espécie de padrinho que tinha no orfanato. A Defensoria Pública argumentou em juízo que a ausência do sobrenome causava constrangimentos e impedia a prática de atos da vida civil.  A Vara de Registros Públicos atendeu ao pleito e foi incluído um sobrenome, mesmo que fictício, nos registros de Renata.
Está de parabéns a Defensoria, o Ministério Público e o Poder Judiciário. Renata, muito feliz, disse que vai entrar com ação para mudar o registro dos filhos e regularizar a situação do mais velho, que mora com ela, mas o pai é que tem a guarda do menino.
Pensei nessas crianças que nunca terão avós. Jamais saberão o que é “vovocidade”. Dia 26 de julho é comemorado o dia dos Avós, data promulgada pelo Papa Paulo VI em homenagem a Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria, mãe de Jesus. Apesar da referência católica, o dia entrou para o calendário laico, pelo menos, no Brasil.
Minha neta Maria Luísa tem avós maternos e paternos. Os quatro exercem com alegria, plenitude e muito amor essa função divina e maravilhosa da “vovocidade”. Não é preciso muito esforço para notar como a interação entre netos e avós é positiva. A convivência é muito benéfica para ambos.
Maria Luísa é uma privilegiada. Levá-la para passear e brincar não é uma obrigação ou uma forma de gastar a energia dela. Estar com a nossa netinha é uma oportunidade deliciosa de curtir e se divertir de verdade com ela.

É um grande contentamento o exercício da “vovocidade”. Ou seria “avocidade”?

segunda-feira, 10 de julho de 2017

“Pátria amada, Brasil” acabou na República da Propina



David Almeida

Oh, Mãe gentil, como estás distante do povo heroico o brado retumbante, de quem tanto te ama e te tem como Pátria amada, Brasil. Mesmo com as mãos calejadas pela construção das tuas riquezas, mesmo com as mãos atadas pelo sol da tua liberdade, mesmo assim; por ti maltratados, desprezados, marginalizados, desvalorizados, ainda se emocionam aos primeiros acordes do teu hino, fechando os olhos, colocando a mão no peito, cantando, vibrando por puro respeito ao amor verdadeiro, mas na realidade, a “Pátria amada, Brasil” acabou na “República da Propina”.
Aí, dizem que essa “pavulagem” toda começou carregada, até o “tucupi” de emoção e muita coragem, num cenário lindo, demostrado num quadro de Pedro Américo, no seguinte endereço: às margens plácidas do Rio Ipiranga, s/n, e sem bairro – na beirada de um rio mesmo. E, lá estavam todos aqueles, que são, realmente, uns filhos... dessa mãe gentil; e, que, de lá pra cá, usufruem de tudo, e pouco ou quase nada fizeram; somente, aguardavam o momento para lançar pra valer, a pedra fundamental da construção da “RP” (República da Propina). Daí veio o brado com a tão famosa frase: “Independência ou morte” – hoje, “seriozinho manuzinho”, eu gostaria de gritar “pega ladrão”, e foi aquele alarido.
O grito ecoou nas matas, encrespou as águas do rio, os pássaros saíram em revoada querendo “sair fora da parada”, mas a “cabocada”, quando viu aquelas espadas todas levantadas brilhando ao sol, “tremeu nas bases”, e ficou ali, seguindo, sempre dependendo, morrendo, subtraído da ponta dos pés, até o último fio de cabelo. Contudo, independente de morrer ou viver, a “RP” – por cima da carne seca – foi crescendo, crescendo, e de mão em mão foi passando, até tomar conta do penhor dessa igualdade. E, é muita “propina” pra pouco dono! Essa “República” continuou crescendo, passando de mão em mão, se repartindo, se multiplicando. Cada fatia da “propina”, “democraticamente” tem seu dono, seu lugar, mas, porém, todavia, contudo, não obstante, a vida dos donos da propina passa incólume, sobre os filhos deste solo, como um gigante pela própria natureza.  
Essa onda de Pátria amada, idolatrada, salve, salve, até agora, não salvou bulhufas nenhuma, a não ser muita propina para os bolsos de poucos, e tudo continua sobre as mãos dos que sempre surrupiaram o que o povo produz – pra ser mais real – é o Reinado da Propina, onde eles têm livre acesso à riqueza produzida por essa gente, que, realmente, nunca “fugiram do trampo”; onde os que trabalham e buscam a honra, a honestidade, para viver e interagir, livre, no relacionamento com o seu semelhante, não tem o direito de pensar, de se vestir como cidadão,  para, pelo menos, admirar a imagem do real resplandecer da vida, né?
O sol da liberdade em raios fúlgidos deixa, literalmente, na escuridão um povo despido, desamparado, sob o bafo de um mormaço angustiante, à espera de fiapos de luz, que poderão vazar, ou não, pelas frestas, das festas iluminadas pelos “propineiros”, e os olhos gulosos da ganância no domínio desse pedaço de chão que bem poderia ser de todos.
Ah, minha Pátria amada, salve, salve os pobres que a duras mãos te constroem, te sustentam, te cobrem de fartura e vivem à espera do milagre do pão, que se petrificou de tanto esperar a mão que continuaria o milagre, deixando outras mãos fazerem milagres em prol de suas mochilas e malas pretas.
Levanta-te, sua “cuirona”, desse berço esplêndido; espia ainda, “manazinha”, sente o amor do teu povo, conduzido feito gado, nos caminhos risonhos dos teus lindos campos floridos. Enquanto cochilas eternamente, o mundo festeja o teu sono, ao som do mar e à luz do céu profundo, e gostam de te ver assim: inerte, passiva, emotiva, sob os olhos ávidos da águia, que cheia de “amor e de esperança à terra desce.”
O futuro não espelha mais a tua grandeza, porque a essa altura do campeonato, de tanto tirar, roubar; de tanto matar, ferir, vais ficar “gitinha”, pálida, desbotada.
O céu e o sol soluçam sobre um lençol cinza cobrindo o que era verde-louro da tua flâmula. Só a propina brilha no céu da Pátria nesse instante, e um aviãozinho, cheio de “pavulagem”, que passa pra lá e pra cá, levando, para lavar a jato, o lábaro, que um dia poderemos ostentar, estrelado, sob a curva da ordem e do progresso.  

É hora de acordar sob o signo da verdade e da justiça, sentir claridade e transparência neste país – quiçá, um dia, iluminado ao sol do novo mundo. Aí, sim, poderemos estufar o peito, e ir de supersônico, pra um futuro digno, e, orgulhosamente, dizer: “Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria Amada, Brasil”!          

sábado, 8 de julho de 2017

quinta-feira, 6 de julho de 2017

muito prazer



Zemaria Pinto

                                                  sou um dos 999.999 poetas do país
                                                 (Affonso Romano de Sant'Ana)

Manaus tem um poeta a cada esquina?
pois eu confirmo e assino embaixo
e refaço a conta affonsina:

inofensivos poetas
a olhar Manaus com olhos
de Ajuricaba louco
mergulhando no chafariz da praça
e afogando-nos em esperma
cozido pelo sol passante

como os leprosos que passeiam
sua infeliz cidade (ah, morena)
nos calcanhares da engarrafada 7

love, sandem, guaraná
as cores inebriam rútilas pupilas
sonadas pela erva-doce

e a cidade anoite/amanhece
com o estourar das flatulências cotidianas:
um escolar quebra um ônibus
um bêbado assobia o Bolero
um deputado vitupera comunistas
um ...
(indefinidamente, mediocridades diárias)

e haja hipocrisia, malária, meningite
corrupção, hepatite
paternalismo, autoritarismo
desidratação
aborto fabricado em fundo de quintal
jogo do bicho, mormaço, banca de jornal
Ulysses, Grande Sertão, Tartufo, O Capital

e

nevermore nevermore
repete como um demente
o velho urubu ianque
pousado nos meus umbrais

só depende de você, caia na real:
se você disser que eu não rimo ou metrifico
te dou um beijo na boca
e te xingo parnasiana!

(ah, antes que eu me esqueça,
esta rua tem nome de poesia:
– Tomás Antônio Gonzaga
redondilhas pra Marília –
e só aqui no D. Pedro*
há pra mais de 100 esquinas)



* Conjunto habitacional, onde funcionava o bar Ecológico, onde este poema foi lido em público pela primeira vez.

Linguagens, prêmios e castigos


João Bosco Botelho
     
Apesar dos avanços na genética e nas imagens do corpo, continuam os entraves ao acesso do cérebro humano. Contudo, os casos clínicos acidentais são capazes de levar aos grandes progressos. Um desses, na Universidade Western, Ontário, refez conceitos em torno da consciência não manifesta (ou aparente descompasso entre o comportamento manifesto e a memória) com uma doente com dano cerebral por intoxicação de monóxido de carbono. Quando ela se recuperou, era incapaz de identificar a xícara de chá, todavia os movimentos para segurá-la e leva-la à boca eram normais.
Esse tipo de comportamento alterado reforça a existência de, pelo menos, duas formas diversas do reconhecimento visual: uma dependente da percepção e a outra das funções motoras.
O outro relato significativo, identificado pelo suíço Édouard Claparède (1873-1940), um dos mais influentes da escola da psicologia funcionalista, descreveu a paciente portadora de distúrbio para assimilar fatos recentes. Na consulta inicial, ao cumprimentar o entrevistador, ela teve a mão levemente furada de modo intencional por um alfinete. No dia seguinte, não reconheceu ninguém, porém se recusou a repetir o gesto que provocou dor.
Esse fato sugere natureza física ao conhecimento historicamente acumulado em torno do controle social: oferecer o prazer pela obediência e a dor como castigo à indisciplina. Como chamamento, as linguagens laicas e religiosas oferecem: promessa de prolongar a vida, trabalho ameno, comida farta, maior liberdade sexual, espaço sagrado (templo) ou profano (partido político, tribunal) para defender a causa comum e julgar os resistentes, aumento da proteção individual e coletiva e melhoria das situações temidas, causadoras de desconforto: a fome e o frio. 
Algo muito poderoso se passou na intimidade da memória acumulada na espécie humana: o êxtase do quanto fascinam os homens e as mulheres alegorias simbólicas que ligam a recompensa do prazer aos que obedecem e da dor aos desobedientes!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

Não confunda


Pedro Lucas Lindoso

Minha querida tia Idalina vive dizendo: “não confunda catraca de canhão com conhaque de alcatrão”.
Mas as pessoas confundem as coisas. É muito comum confundir-se o Amazonas, nosso estado, com Amazônia, com seus vários conceitos: o bioma, a região Norte, a Amazônia Legal, Internacional etc.
Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, na década de 80 do século passado, em périplo pela América Latina, confundiu o Brasil com a Bolívia. Foi demais! Logo a Bolívia! O Piauí do mundo!
Rondônia, que o pessoal confunde muito com Roraima, já foi Território do Guaporé. Porto Velho já pertenceu ao Amazonas, mas tornou-se capital do então Território de Rondônia, cujo nome é homenagem ao Marechal Rondon.
O Estado de Roraima já foi Território Federal de Rio Branco. O rio que corta a cidade de Boa Vista é o rio Branco. Rio Branco é a capital do Acre, nome do rio que corta a cidade. A cidade de Rio Branco foi homenagem ao Barão do Rio Branco. Como se sabe, o Barão era o chanceler do Brasil quando foi assinado o Tratado de Petrópolis, que anexou o Acre definitivamente ao Brasil.
Cartas e encomendas dirigidas à capital do Acre eram equivocadamente enviadas a Boa Vista, capital do então Território do Rio Branco. Provavelmente por esse motivo, mudaram o nome para Roraima. Homenagem ao monte cujas rochas são tidas como uma das formações mais antigas do planeta.
A possível última vítima dessa confusão é meu amigo Parimé Pinto. Nascido em Boa Vista, há mais de 80 anos, quando esta ainda era capital do Território do Rio Branco. Na identidade de Parimé, expedida pela SSP-AM, quando veio viver em Manaus, consta que ele é natural de Rio Branco-AC! Mas ele se considera mesmo é amazonense, e não acreano.
A ex-presidente Dilma em visita a Boa Vista confundiu Roraima com Rondônia. Informada da gafe pediu desculpas aos “roraimadas”. Agora confundindo roraimenses com “roraimadas”. Pobre povo macuxi.
Muita gente confunde Suécia com a Suíça, como confundem Roraima com Rondônia. Em viagem ao exterior, o presidente Michel Temer cometeu uma enorme gafe. Ao discursar na Noruega, após encontro com a primeira-ministra, Temer chamou de rei da Suécia o monarca da Noruega.
Chamar empresários russos de soviéticos ainda se perdoa. Agora o Temer foi confundir logo o rei da Suécia, que é casado com uma brasileira, a Rainha Sílvia. Imperdoável. Tia Idalina tem sempre razão. “Não confunda”!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Vermelho e Azul, as cores da nossa Bandeira



David Almeida

No mês de junho, os amazonenses ficam di­vi­didos entre as ban­deiras do Capri­choso e do Garan­tido, e, por in­crível que pareça, a ban­deira do Ama­zonas tem as cores dos bumbas. Há quem diga que a nossa ban­deira parece com a dos Es­tados Unidos, al­guns pensam até em mudar, mas, no mo­mento, essa não é a questão. Será que foi algum vi­sionário, que criou a ban­deira do Ama­zonas, vis­lum­brando um fu­turo com os dois bois? Bom, isso, também, não se sabe, o certo é que, o azul do Capri­choso está no nosso pendão, cheio de estre­linhas, como um céu estre­lado. Já o ver­melho do Garan­tido, não tem o co­ração visível, mas, só para não dar con­fusão, foi com­pen­sado com uma es­ti­cadela a mais, e está no meio da ban­deira. Por tanto, como um grande co­ração.


A bandeira do Amazonas, entre as bandeiras do Garantido e do Caprichoso.
Foto: David Almeida.


Gente, é só uma hipótese. Se anal­is­armos bem, o ide­al­izador do nosso pavilhão es­tava, po­liti­ca­mente, cor­reto, em re­lação aos bois, pois, estrelas são vistas, clara­mente, no céu, prin­ci­pal­mente, numa noite en­lu­arada. O sol, estrela de primeira grandeza da nossa galáxia, é bem visível no céu azul de num lindo dia de verão. Um co­ração ninguém vê, ele fica dentro do peito pul­sando as emoções, co­man­dando o sangue nas veias, num vai e vem rit­mado, ox­i­ge­nando, en­er­gizando a vida.

           Ufa!!! Agora, eu acho que está bem ex­pli­cado, porque essa questão que en­volve o uni­verso fol­clórico dos nossos bumbás, se a gente pisar na bola numa ex­pli­cação, a coisa fica preta. Não se pode tender, nem para um lado e nem para o outro.

         Para você sentir como a coisa é le­vada aos ex­tremos, tem torcedor que pinta a casa toda de ver­melho ou azul. Ex­istem bairros em Par­intins onde a pop­u­lação – com rarís­simas ex­ceções –, é toda torce­dora de um só boi. Como ex­istem famílias, também, di­vi­didas entre o azul e o ver­melho.

       Contam de um caso acon­te­cido em Par­intins que, numa briga entre marido e mulher – ele Capri­choso e ela Garan­tido – a con­fusão só acalmou de­pois que ela o colocou numa rede e em­ba­lando cantou: “ninguém gosta mais desse boi do que eu/ ninguém gosta mais desse boi do que eu”... É por essas e outras que a nossa ban­deira, como a própria arena onde acon­tecem os espetáculos, tem lugar para o ver­melho e o azul, cada um no seu de­vido lugar; e na hora das ap­re­sen­tações, o respeito e a ética são de fun­da­men­tal im­portân­cia.


domingo, 2 de julho de 2017

sábado, 1 de julho de 2017