Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Os que andam com os mortos - entrevista ao Entretextos

 

Zemaria Pinto fala a Dilson Lages Monteiro sobre
Os que andam com os mortos 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Lourdes Louro fala sobre a prosa amazonense

 

Clique sobre a figura, para ter acesso ao vídeo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Leituras Compartilhadas de Crônicas Favoritas



 

João do Rio e “A alma encantadora das ruas”

Zemaria Pinto

Aos amigos livreiros e editores

independentes manauaras

Celestino Neto e Simas Pessoa,

personagens de João do Rio.

 

João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 1881 e morreu dias antes de completar 40 anos. Algumas fontes acrescentam ainda ao longo nome “Emílio Cristóvão dos Santos”, em lugar de “Alberto”. Mas, João do Rio só nasceria em 1904, nas páginas d’A Gazeta de Notícias. Era apenas mais um dos muitos pseudônimos que o jovem jornalista usava – entre os quais, o enigmático X –, mas acabou sendo sua marca definitiva, sua verdadeira identidade.

Naquele mesmo ano, Paulo Barreto publica uma série de reportagens que depois enfeixa em livro: o original, e ainda hoje fundamental, As religiões no Rio, um ensaio cultural e antropológico, dando destaque às religiões de matriz africana, até então um tabu. Em 1907, uma comissão presidida por Silvio Romero, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, aprova o livro e o autor: “O livro As religiões no Rio, do Sr. Paulo Barreto, é único em seu gênero na literatura brasileira (...) O autor merece um lugar neste Instituto.”

Jornalista de profissão, contista, romancista, dramaturgo e, sobretudo, cronista, João do Rio, o Paulo Barreto, foi eleito, em 1910, na sua terceira tentativa, para a Academia Brasileira de Letras, presidida então por Ruy Barbosa. Tinha 28 anos.

Ruy Castro o descreve como “mulato, muito gordo, fala mansa, olheiras escuras, fraques coloridos, chapéu coco, charuto à boca, diamante na gravata.” Acrescente-se: homossexual assumido. Um escândalo.

Para seu biógrafo João Carlos Rodrigues, A alma encantadora das ruas, publicado em 1908, é “uma das três melhores obras sobre a cidade do Rio, ao lado do clássico Memórias de um sargento de milícias e de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que só seria publicado em 1919.”   

A crônica de João do Rio extrapola qualquer conceito que tenhamos de crônica. Tratando do dia a dia da cidade, o autor faz reflexões que só encontram paralelo no gênero ensaístico. Simpático ao sarcasmo e humor negro de Oscar Wilde, suas crônicas-reportagens-ensaios antecipam o gênero consagrado por George Orwell, a essa época apenas uma criança. Vide “Um dia na vida de um vagabundo” ou “Como morrem os pobres”, do autor inglês, como exemplo do que afirmamos.  

Classificado por uns como pré-modernista – o que não quer dizer absolutamente nada –, por outros como art nouveau, o que é falso, João do Rio está mais próximo do Decadentismo, com toda a carga negativa que essa classificação carrega, e sem qualquer relação com o Simbolismo, como querem alguns críticos. Eu diria que muito próximo do que viria a ser o Expressionismo.

A alma encantadora das ruas desnuda a pequena burguesia da capital, mostrando as ruas e a sua paisagem sórdida (“O que se vê nas ruas”), a sua pobreza crônica e epidêmica (“Três aspectos da miséria”), os crimes cotidianos (“Onde às vezes termina a rua”) e a música que brota desse povo-paisagem (“A musa das ruas”). Estes quatro títulos mais o introdutório “A rua” reúnem vinte e sete textos elegantes, mas sem afetação – e com o realismo de um apaixonado pelo “cinematographo”, que apenas engatinhava. 

“Os mercadores de livros e a leitura das ruas” é uma faísca, crítica e bem-humorada, entrevista na obra ainda envolta em sombras desse autor, que, a título de descrever a psicologia das ruas a partir dos vendedores de livros usados, mostra que a leitura popular estava estagnada, havia pelo menos cinquenta anos. E se o povo estagnou em seu nível de leitura, estagnou também na vida.

O jornalista de família pobre, que mandava cortar seus ternos em Paris, foi polêmico e arrebanhou muitos detratores, ganhou fama e atraiu muita inveja. Em menos de 20 anos construiu uma carreira literária sólida e ainda, mais de cem anos depois, por desvendar. Seu enterro, numa tarde de domingo, depois de dois dias de velório, saiu do jornal A Pátria, local escolhido por sua mãe – que rejeitou a ABL e o IHGB. Fora seu último local de trabalho. Segundo seu biógrafo, “estima-se que cerca de cem mil pessoas tenham participado”, e, para quem duvidar, “existe registro cinematográfico”.

Este foi João do Rio, o dândi que amava as ruas.

 

 

Bibliografia:

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Cecília Meireles e o devaneio surrealista em Viagem

 Zemaria Pinto

 

Escrito a partir da exposição feita no programa Leituras Compartilhadas, produzido por Dílson Lages Monteiro, sobre o livro A espiral crítica, de Peron Rios.

 

Minha participação centra-se no ensaio “Cecília Meireles: confissão e impostura”, do livro A espiral crítica, do professor Peron Rios.[1] Minha proposta é fazer um contraponto ao ensaio citado, mas não de cunho crítico, divergente; muito pelo contrário: o ensaio de Peron Rios é instigante, muito vivo em termos de reflexão, e, o que é mais importante, muito bem fundamentado. Mas, considerando o aspecto pedagógico desta discussão, e conscientes, todos nós, de que a obra de arte – e a poesia, em particular – tem múltiplas possibilidades de leituras e mesmo múltiplos significados, farei uma leitura complementar do poema “Canção”, de Cecília Meireles (1901-1964), utilizando alguns fundamentos usados no ensaio em contraponto, buscando ampliar a polifonia crítica da obra da poeta.

O poema em tela está no livro Viagem, publicado em 1939, vencedor do prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, no ano anterior. É o primeiro livro reconhecido pela autora, posto que cinco livros publicados entre 1919 e 1937 não foram reeditados e nem relacionados pela autora na primeira edição de sua Obra Poética, em 1958, dirigida por Afrânio Coutinho.[2] A publicação da Poesia Completa em dois volumes, festejando o centenário de nascimento da autora, organizada por Antonio Carlos Secchin, traz à luz não só esses textos esquecidos, mas outros cinco, datados do mesmo intervalo, jamais publicados antes.[3]

O primeiro ponto a discutir é a presença da música na poesia de Cecília Meireles. São muitos os poemas chamados “Canção” ou “Cantiga” – com ou sem adjetivo. Outros poemas evocam a música, como “Agitato”, “Berceuse”, “Noturno”, “Balada”, “Serenata”. Um de seus livros anteriores à Viagem chama-se Cânticos (1927). Outros títulos relacionados à música: Vaga Música (1942), Doze Noturnos de Holanda (1952), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956) e Oratório de Santa Maria Egipcíaca (1996, escrito em 1957).   

O livro Viagem é repleto de referências à música. Vejamos alguns títulos de poemas: “Música”, “Serenata” (dois títulos), “A última cantiga”, “Canção” (três títulos), “Cantiguinha”, “Guitarra”, “Valsa”, “Noturno” (dois títulos), “Cantiga” (três títulos) e “Cantar”.

Mas a música não está só nos títulos, ela está entranhada nos poemas, como podemos ver nestas amostras:

 

Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis

uma sonora ou silenciosa canção:

flor do espírito, desinteressada e efêmera.

(“Epigrama n° 1”)

 

Toca essa música de seda, frouxa e trêmula,

 que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

(“Anunciação”)

 

E aqui estou cantando.

 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:

deixa seu ritmo por onde passa.

(“Discurso”)

 

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:

não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

(“Aceitação”)

 

Que música embala a minha música que te embala?

(“Desamparo”)

 

Viagem foi publicado em Lisboa e é dedicado “A meus amigos portugueses”. Peron Rios lembra, no seu ensaio, que “as canções são uma herança da poesia portuguesa, mais precisamente das cantigas de amigo, nas quais as mulheres lamentavam clandestinamente suas perdas amorosas” (p. 214).

Está em Viagem o poema mais popular de Cecília Meireles: “Motivo”, sua poética pessoal, que é uma reafirmação da música em sua obra.   

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.

  

Na sequência, vamos ler o poema “Canção”, objeto da análise de Peron Rios, no ensaio “Cecília Meireles: confissão e impostura”, lembrando que, como o livro tem três poemas com o mesmo título, vamos nos referir a ele, considerando a sequência do livro, como “Canção I”.

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

 

A classificação mais comum à poesia de Cecília Meireles tem sido um vago Neossimbolismo, inserido no Modernismo. A sua Poética, “Motivo”, é uma afirmação do domínio que o eu empírico tem sobre sua poesia: a poesia do instante tornado em canção – e até emudecer, ele assevera que “não sou alegre nem sou triste; (...) não sinto gozo nem tormento; (...) não sei se fico ou passo”. Se o poeta cabe nessa definição, concluímos pela racionalidade de sua criação. Isso é um patamar acima do Simbolismo, mesmo pespegado do prefixo “neo” – inclusive com relação à musicalidade: sua harmonia é dissonante. Peron Rios explica isso, referindo-se ao poema “Canção I”:

 

Nessa canção, apesar do metro fixar-se em oito unidades silábicas, o ritmo oscila, pois a cadência se alterna entre as várias sílabas do verso. Essa constância ondulatória, somada aos sons de maciez em todo o texto, não destoa do barco ao balanço do mar, ou do que ele, mar, significa. A música não contradiz a imagem. E nem o pensamento: afinal, a melancolia é essa calma aparente, como o azul do mar é ardiloso. A placidez da superfície esconde uma turbulência discreta, um mundo de criaturas por debaixo se rivalizando sem cessar. (p. 216)

 

Se a música é dissonante, o que dizer das imagens produzidas pelo poema? Abstraindo-se que a estrutura do poema é a soma de ritmo e melodia, mais imagens e ideias (“a dança do intelecto entre as palavras”, como pregava Pound), Peron Rios, referindo-se à “Canção I”, diz que “existe no poema uma afinidade subliminar entre o eu e o sonho” (p. 217). E, de fato, na “Canção III” há um paralelo intertextual com a primeira canção:

 

No desequilíbrio dos mares,

as proas giraram sozinhas...

(...)

Quando as ondas te carregaram,

meus olhos, entre águas e areias,

cegaram como os das estátuas,

a tudo quanto existe alheias.

 

Minhas mãos pararam sobre o ar

e endureceram junto ao vento,

e perderam a cor que tinham

e a lembrança do movimento.

 

O primeiro poema começa com o mar em desequilíbrio (“– depois, abri o mar com as mãos”), situação análoga à do terceiro poema. Por outra, os dois últimos versos do primeiro poema (“meus olhos secos como pedras / e as minhas duas mãos quebradas”) são detalhados nas estrofes três e quatro do terceiro poema, reproduzidas acima.

O devaneio é uma expressão do inconsciente. O poeta registra essa expressão, sem censuras, ensinam os manuais especializados. Mas, ao poeta é facultado construir seus devaneios, não fosse ele um fingidor – é disso que trata o poema “Motivo”. E o que temos na “Canção I”, complementada, em paralelo, na “Canção III” é uma sucessão de quadros surrealistas criados pelo eu lírico, que busca esquecer seus sonhos (de juventude, talvez), valendo-se da imagem de um navio que naufraga num desequilíbrio provocado pelas suas próprias mãos, metáfora de decisões equivocadas. O naufrágio não é, portanto, obra do acaso ou do destino, mas uma decisão consciente do eu lírico.

A hipérbole “chorarei quanto for preciso, / para fazer com que o mar cresça”, confirma que a decisão é sim consciente e que o devaneio é uma construção estética. O resultado dessa construção, entretanto, tem uma consequência trágica: apesar dos olhos secos de lágrimas (como pedras), as mãos (a metonímia perfeita para colocar o sonho no navio e o navio em cima do mar – e depois abrir o mar) as mãos, eu dizia, se quebram (como pedras) e deixam o eu lírico impotente, o que leva à hipérbole da segunda estrofe, na “Canção III”:

 

Eu te esperei todos os séculos,

sem desespero e sem desgosto,

e morri de infinitas mortes,

guardando sempre o mesmo rosto.

 

A espiral surrealista de Cecília nos remete, dialogicamente, a outro poema de Viagem, “Retrato”, em que os elementos “olhos” e “mãos” são os mesmos das duas canções antes referidas, para concluir:

 

– Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

O eu lírico posta-se diante de espelhos duplos que se multiplicam em outros espelhos, indefinidamente, mas onde ele não se identifica porque esse devaneio não lhe pertence: cabe ao leitor tentar se reconhecer.        

 

 

 

  



[1] RIOS, Peron. A espiral crítica. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2021. p. 213-220.

[2] MEIRELES, Cecília. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1972/1985.   

[3] MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Vol. I e II. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Leituras Compatilhadas: A espiral Crítica, de Peron Rios


Participação: Peron Rios, Dilson Lages Monteiro,
Ranieri Ribas, Carlos Evandro e Zemaria Pinto.

 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Panegírico do escritor Assis Brasil, na Academia Piauiense de Letras

Tributo ao grande escritor piauiense, falecido no
último novembro, aos 92 anos.
Oração da saudade: Dílson Lages Monteiro.

 

sexta-feira, 27 de maio de 2022

sexta-feira, 6 de maio de 2022

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Octaviano Mello e seu tempo

 
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sexta-feira, 16 de julho de 2021

O mundo maravilhoso da não violência

                                  Dílson Lages Monteiro(*)

 

Analisando a literatura para a infância no século XIX, diz Teresa Colomer (2017: 143-144) que os contos populares sempre desfrutaram da preferência infantil, priorizando a fantasia e o prazer narrativo. Assim é que contos de feição popular e oral se deixaram absorver e permanecem até hoje como referência social, colocando o viés moralizante como natureza secundária, para favorecer a fabulação. Chapeuzinho Vermelho e inúmeras obras, por exemplo, permanecem perenes, mas a elas, em recontos ou na incorporação delas por outras narrativas, foram acrescidos diálogos com novas manifestações da linguagem: novos gêneros, novos valores, novas formas de narrar.

Em “A cidade perdida dos meninos-peixes”, embora a obra seja lida como novela, Zemaria Pinto evidencia as constatações de Colomer, ao ressignificar a tradição oral como ponto de partida para sua escritura, que carrega a marca da imaginação a partir do realismo mágico. Lendas do Norte brasileiro, tão conhecidas país afora, servem para a surpresa e para a fantasia de significados novos. Quem já não ouviu, entre nós, a lenda do Boto? Essa lenda e outros relatos, como a universal lenda de Atlântida, aludida, inclusive diretamente no texto, criam uma narrativa que concilia a aventura e o fantástico, para o maravilhoso sobrepor-se.

Assim é que os primeiros capítulos da obra, de fundo metalinguístico, são uma anunciação do lugar das histórias oriundas da oralidade e um convite (se não uma antecipação do núcleo dramático), para se descobrir o que torna o homem verdadeiramente humano (qual vida estaria conotativamente submersa?). Um convite para a valorização da própria tradição de contar, representada pela Mãe Velha, chefe de um conselho de seres sábios, como descobrirá o leitor, e especialmente, uma alegoria para o tempo, uma negação da morte, ainda que possa ser lida como a força viva da lembrança e da saudade.

“(...) Mãe velha tinha a cara do tempo (...) É verdade (...) Um dia (...) fora vista pela última vez a beira do rio de sua cidade (...) seguindo um bando de botos (...) exibia um sorriso de felicidade nos lábios” (PINTO: 2020, 10).

O próprio narrador é quem anuncia, no capítulo 2, que a matriz de sua história é a oralidade (“Vou contar a história...”), estabelecendo a transição entre a autoexplicação e a narrativa propriamente dita por uma espécie de saudação, ao mesmo tempo, a reverência ao valor sagrado de toda a sabedoria simbolizada na Mãe Velha. “A bênção, Mãe Velha” é não somente um aviso de que a história vai começar para valer, mas também, como concluirá o leitor, a anunciação de que há valores universais sagrados a permanecerem entre nós como condição para a convivência harmônica e feliz.

Ilustrações e capa de Leyla Leong.

Ao criar um mundo sobre-humano, mas não apartado do mundo real, o narrador vale-se da  narrativa de aventuras. Sílvia Adela Kohan (2013:28) lembra que, entre os aspectos composicionais de textos com essa configuração, encontram-se o interesse por viagens, a entrada em um mundo desconhecido, marcado pela ameaça de perigos inesperados. Exatamente o que se observa em “A cidade perdida dos meninos-peixes”: o aparecimento de um ser estranho vindo de outro mundo ameaçador e parcialmente desconhecido, como também misterioso, o novo mundo em que aparece o Menino-terra depois de afogar-se. Além disso, o perigo de um mundo violento externo à realidade do povo-água e a possibilidade concreta de um grupo de meninos desse mundo ter de enfrentar a violência assinalam claramente a presença da aventura.

O conflito entre o primitivo e o civilizado determina, com relevo, as escolhas temáticas. Na oposição entre o povo-água e o povo-terra, lê-se ironicamente, pela contradição dos valores do consumo, o retorno a um mundo natural. Nele, importa o essencial. Nele, importa, por exemplo, principalmente, a família, focalizada para a ativação de conhecimentos relacionados às relações humanas, com relevo ao lugar do afeto. Todo o texto é construído para se sentir saudades de casa. O próprio Menino-terra, que tem os valores transformados pela convivência com um mundo organizado para a fraternidade, reconhece, ao final da obra, a unidade familiar como o amparo, fonte da ternura e uma das motivações para o existir.

Lê-se de igual modo a forte presença da crítica social. A narrativa, centrada no súbito aparecimento de um Menino-terra na cidade submersa dos meninos-água, vai-se organizando, em geral de maneira indireta, sobretudo nos diálogos, para criticar as variadas formas de violência. Crítica vista, por exemplo, em diálogo entre o casal Ramai e Ieso, pais das crianças protagonistas Loma e Aman, em apologia ao vegetarianismo. Diz Ramai para Ieso:

“– Aos poucos, ele começa a se lembrar da sua vida na terra. Imagine que hoje, no almoço, ele reclamou da minha comida. Disse que estava fria e que não aguentava mais comer folhas e raízes...

– O organismo dele deve estar sentindo falta de carne. Você sabe que na terra eles criam os animais em casa, para depois matá-los e comê-los?... – São uns selvagens. E eu temo que ele fique assim também...” (PINTO: 2020, 23).

A crítica social enfatiza-se, sobremodo, na negação do sentido impresso nas diversas maneiras de brincar do Menino-terra.  A brincadeira significa para ele um modo de exercer liderança e de manipular. Um modo de corromper e de ameaçar. Um modo de legitimar poder, autoritarismo, injustiça e desigualdade. Diante disso, o povo-água reage com perplexidade, melancolia e espanto. Porém, com esperança na força transformadora da espiritualidade, que leva, mesmo o Menino-Terra, a compreender:

“(...) eu percebi que além de carinho e compreensão vocês têm uma outra coisa que eu não sei explicar... As pessoas se ajudam umas às outras... Elas não se atropelam, nem mesmo tentam ultrapassar quem está na frente... Sabe, Mãe Velha, logo que eu cheguei aqui, eu achava tudo muito lento, mas agora eu compreendi... O importante não é chegar na frente... O importante é chegar... Assim todos chegam...” (PINTO: 2020, 57).

O mundo-terra aparece representado com curiosidade em conquistas tecnológicas que conduzem o leitor a questionar o sentido delas para o bem-estar social. O sentido do automóvel ensejando a violência no trânsito:

“– Automóvel é uma caixa de aço, em cima de quatro rodas. Tem de vários tamanhos, e, conforme o tamanho, muda de nome: ônibus, caminhão, carreta... Mas na rua é uma beleza só! Tem de duas rodas, também, que é a motocicleta, e é mais radical ainda: o sujeito anda se equilibrando pra não cair, a 200 quilômetros por hora...

– Vamos brincar de rua da terra? Um dos meninos sugere e recebe imediato apoio do grupo. O Menino-terra, cujo nome verdadeiro ninguém nunca soube, pois desde o primeiro momento que o viram assim o chamaram, organiza a brincadeira:

– É assim, ó... Cada um de nós é um carro, ou uma motocicleta... A gente tá numa rua lá da terra, aí quem for mais forte vai em frente e vai derrubando os outros, entenderam? Isso é o trânsito numa cidade lá da terra...” (PINTO: 2020, 26-27).

“A cidade perdida dos meninos-peixes”, de Zemaria Pinto, é um convite à reação contra as imposições da sociedade de consumo sobre as crianças. Uma provocação que faz acreditar na importância de conceitos universais sagrados para a construção de um mundo melhor. Referenda-se, assim, um postulado valioso, capaz de resumir a função social da obra:

“Os valores da liberdade, tolerância ou defesa de uma vida individual prazerosa fazem com que a literatura infantil e juvenil se dirija a enfrentar qualquer forma de poder autoritário: a denunciar as formas de alienação e exploração da sociedade industrial moderna; a reivindicar tanto a vida rural quanto aquela própria de culturas não industriais, como a harmonia com a natureza, e a defender os setores socialmente débeis ou diferentes (pessoas imigrantes, exploradas ou de raças minoritárias (sic))” (COLOMER: 2017,203).

Conclui-se sobre “A cidade perdida dos meninos-peixes”, de Zemaria Pinto, que:

“As formas de vidas geradas pela sociedade são amplamente rechaçadas por causa dos problemas de agressão que terminam em uma tríplice direção: agressão a seus próprios cidadãos alienados, explorados ou oprimidos, à natureza arrasada e a outras raças ou a culturas aniquiladas” (idem, ibidem).

 

(*)Dílson Lages Monteiro é autor de diversas obras de ficção, entre as quais, O Pássaro Amarelo de Sol e o Agasalho do Vento (Nova Aliança, 2021).

 

Referências:

COLOMER, Teresa. Introdução à literatura infantil e juvenil atual (tradução Laura Sandroni). São Paulo: Global, 2017.

KOHAN, Sílvia Adela. Escrever para crianças. Tudo que é preciso saber para produzir textos de literatura infantil. Belo Horizonte: Editora Gutemberg, 2013.

PINTO, Zemaria. A cidade perdida dos meninos-peixes. 2. ed. Manaus: Editora Valer, 2020.

 


quarta-feira, 14 de julho de 2021

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Rua Grande em crônica, memória e canção

 


Temos, nós, muitas pátrias. Cada lugar em que habitamos nos deixa marcas imorredouras. Torna-nos pertencentes a um tempo, a uma paisagem, para o ser e o estar no mundo. Poucas pátrias são tão agradavelmente vitais quanto a da infância. O 18º Círculo Literário Virtual Entretextos, projeto de memória e de letramento literário do Portal Entretextos, é uma homenagem à cidade de Barras do Marataoã, no Piauí, por meio de sua rua mais famosa, a antiga rua Grande, um dia Getúlio Vargas, hoje Marechal Taumaturgo de Azevedo. Será um passeio por imagens para todas as eras. Será um momento especial: ouviremos sobre Taumaturgo no Amazonas e no Acre e escritores de diversas paisagens reescrevem, em crônicas, percepções espaço-temporais coletivas com canção de Francy Monte.

10.07, às 16h (BSB), pelo Zoom.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Leituras compartilhadas de "A cidade perdida dos meninos-peixes"

 


A cidade perdida dos meninos-peixes, de Zemaria Pinto.

 

Estudo crítico de Dílson Lages Monteiro, com leituras de encantamento de Carol Figueiredo, Diego Mendes Sousa e Jairo Nunes Leocádio.

 

Dia 26 de junho de 2021, às 16h (BSB), via Zoom. Após, ficará disponível no YouTube. 

 

Realização de Portal Entretextos.


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Octaviano Mello na cultura do Amazonas


 Palestra de Zemaria Pinto, para Entretextos.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A poesia é necessária?



Céu de asas
Dilson Lages Monteiro


Como a manhã sem pressa
no alto da colina
nasce a palavra na retina
onde crescem a lavoura
e o voo do céu.

Nasce sem pressa a manhã
no leito lento do rio
onde reses ruminam
a mina do sol.

Nasce sem pressa a manhã
nos palácios de palha
onde o corpo repousa
o silêncio do cio.

Como a manhã sem pressa
no coração da imagem
crescem a lavoura
e o voo do céu.


sábado, 4 de julho de 2020

Leituras compartilhadas: a poesia de L. Ruas


Leituras compartilhadas: a poesia de L. Ruas

Data: 04/07/2020, às 16h00 (Brasília)
Sala: 780 9305 7166
Senha: 0bs7YJ

domingo, 6 de dezembro de 2009

O morro da casa-grande

Rogel Samuel*


Dia 21 de dezembro, de 19h às 21h, em Teresina, PI, acontece na Livraria Nova Aliança o lançamento do romance de estreia de Dílson Lages Monteiro. O morro da casa-grande ambienta-se em Barras-PI, em meados do século XX, quando a vida ainda era essencialmente agreste. Cidade e campo praticamente se confundiam e as distâncias pareciam não ter fim. As fazendas ainda estavam de pé como elemento concentrador de renda, mas o modelo socioeconômico já dava sinais de ruína.

Começava a se formar um aglomerado urbano mais vigoroso, mas negligente às tradições e ao patrimônio cultural. Agredia-se, no silêncio da omissão, a identidade de um núcleo populacional fundado entre a fazenda e a igreja.

Os costumes da vida rural, a infância, a velhice, a morte, a desigualdade social e a fé são alguns dos temas pelos quais transitam Genésio, Marciano, coronel Custódio, coronel Alberto e outros personagens vigorosos em emoção.

A Livraria Nova Aliança localiza-se na rua Olavo Bilac, ao lado do prédio novo do Colégio Diocesano. Fone: (86) 3221-6793.

(*) Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.