sexta-feira, 4 de outubro de 2024
Os que andam com os mortos - entrevista ao Entretextos
quarta-feira, 4 de outubro de 2023
Lourdes Louro fala sobre a prosa amazonense
quarta-feira, 9 de agosto de 2023
De Muhuraida a O drone de Yebá Buró, um cânone em movimento
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Leituras Compartilhadas de Crônicas Favoritas
João do
Rio e “A alma encantadora das ruas”
Zemaria Pinto
Aos amigos livreiros e editores
independentes manauaras
Celestino Neto e Simas Pessoa,
personagens de João do Rio.
João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 1881 e morreu dias
antes de completar 40 anos. Algumas fontes acrescentam ainda ao longo nome
“Emílio Cristóvão dos Santos”, em lugar de “Alberto”. Mas, João do Rio só nasceria
em 1904, nas páginas d’A Gazeta de Notícias. Era apenas mais um
dos muitos pseudônimos que o jovem jornalista usava – entre os quais, o
enigmático X –, mas acabou sendo sua marca definitiva, sua verdadeira
identidade.
Naquele mesmo ano, Paulo Barreto publica uma série de
reportagens que depois enfeixa em livro: o original, e ainda hoje fundamental, As
religiões no Rio, um ensaio cultural e antropológico, dando destaque às
religiões de matriz africana, até então um tabu. Em 1907, uma comissão
presidida por Silvio Romero, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
aprova o livro e o autor: “O livro As religiões no Rio, do Sr. Paulo
Barreto, é único em seu gênero na literatura brasileira (...) O autor merece um
lugar neste Instituto.”
Jornalista de profissão, contista, romancista, dramaturgo e,
sobretudo, cronista, João do Rio, o Paulo Barreto, foi eleito, em 1910, na sua
terceira tentativa, para a Academia Brasileira de Letras, presidida então por
Ruy Barbosa. Tinha 28 anos.
Ruy Castro o descreve como “mulato, muito gordo, fala mansa,
olheiras escuras, fraques coloridos, chapéu coco, charuto à boca, diamante na
gravata.” Acrescente-se: homossexual assumido. Um escândalo.
Para seu biógrafo João Carlos Rodrigues, A alma
encantadora das ruas, publicado em 1908, é “uma das três melhores obras
sobre a cidade do Rio, ao lado do clássico Memórias de um sargento de
milícias e de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que só seria
publicado em 1919.”
A crônica de João do Rio extrapola qualquer conceito que
tenhamos de crônica. Tratando do dia a dia da cidade, o autor faz reflexões que
só encontram paralelo no gênero ensaístico. Simpático ao sarcasmo e humor negro
de Oscar Wilde, suas crônicas-reportagens-ensaios antecipam o gênero consagrado
por George Orwell, a essa época apenas uma criança. Vide “Um dia na vida de um
vagabundo” ou “Como morrem os pobres”, do autor inglês, como exemplo do que
afirmamos.
Classificado por uns como pré-modernista – o que não quer
dizer absolutamente nada –, por outros como art nouveau, o que é falso, João
do Rio está mais próximo do Decadentismo, com toda a carga negativa que essa
classificação carrega, e sem qualquer relação com o Simbolismo, como querem
alguns críticos. Eu diria que muito próximo do que viria a ser o
Expressionismo.
A alma encantadora das ruas desnuda a pequena burguesia da capital, mostrando as
ruas e a sua paisagem sórdida (“O que se vê nas ruas”), a sua pobreza crônica e
epidêmica (“Três aspectos da miséria”), os crimes cotidianos (“Onde às vezes
termina a rua”) e a música que brota desse povo-paisagem (“A musa das ruas”).
Estes quatro títulos mais o introdutório “A rua” reúnem vinte e sete textos
elegantes, mas sem afetação – e com o realismo de um apaixonado pelo “cinematographo”,
que apenas engatinhava.
“Os mercadores de livros e a leitura das ruas” é uma faísca,
crítica e bem-humorada, entrevista na obra ainda envolta em sombras desse autor,
que, a título de descrever a psicologia das ruas a partir dos vendedores de
livros usados, mostra que a leitura popular estava estagnada, havia pelo menos
cinquenta anos. E se o povo estagnou em seu nível de leitura, estagnou também
na vida.
O jornalista de família pobre, que mandava cortar seus ternos
em Paris, foi polêmico e arrebanhou muitos detratores, ganhou fama e atraiu
muita inveja. Em menos de 20 anos construiu uma carreira literária sólida e
ainda, mais de cem anos depois, por desvendar. Seu enterro, numa tarde de
domingo, depois de dois dias de velório, saiu do jornal A Pátria, local
escolhido por sua mãe – que rejeitou a ABL e o IHGB. Fora seu último local de
trabalho. Segundo seu biógrafo, “estima-se que cerca de cem mil pessoas tenham
participado”, e, para quem duvidar, “existe registro cinematográfico”.
Este foi João do Rio, o dândi que amava as ruas.
Bibliografia:
CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos
20. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008.
RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
Cecília Meireles e o devaneio surrealista em Viagem
Zemaria Pinto
Escrito
a partir da exposição feita no programa Leituras Compartilhadas,
produzido por Dílson Lages Monteiro, sobre o livro A espiral crítica, de
Peron Rios.
Minha
participação centra-se no ensaio “Cecília Meireles: confissão e impostura”, do
livro A espiral crítica, do professor Peron Rios.[1]
Minha proposta é fazer um contraponto ao ensaio citado, mas não de cunho
crítico, divergente; muito pelo contrário: o ensaio de Peron Rios é instigante,
muito vivo em termos de reflexão, e, o que é mais importante, muito bem
fundamentado. Mas, considerando o aspecto pedagógico desta discussão, e
conscientes, todos nós, de que a obra de arte – e a poesia, em particular – tem
múltiplas possibilidades de leituras e mesmo múltiplos significados, farei uma
leitura complementar do poema “Canção”, de Cecília Meireles (1901-1964),
utilizando alguns fundamentos usados no ensaio em contraponto, buscando ampliar
a polifonia crítica da obra da poeta.
O poema
em tela está no livro Viagem, publicado em 1939, vencedor do prêmio de poesia
da Academia Brasileira de Letras, no ano anterior. É o primeiro livro
reconhecido pela autora, posto que cinco livros publicados entre 1919 e 1937
não foram reeditados e nem relacionados pela autora na primeira edição de sua Obra
Poética, em 1958, dirigida por Afrânio Coutinho.[2]
A publicação da Poesia Completa em dois volumes, festejando o centenário
de nascimento da autora, organizada por Antonio Carlos Secchin, traz à luz não
só esses textos esquecidos, mas outros cinco, datados do mesmo intervalo, jamais
publicados antes.[3]
O
primeiro ponto a discutir é a presença da música na poesia de Cecília Meireles.
São muitos os poemas chamados “Canção” ou “Cantiga” – com ou sem adjetivo.
Outros poemas evocam a música, como “Agitato”, “Berceuse”, “Noturno”, “Balada”,
“Serenata”. Um de seus livros anteriores à Viagem chama-se Cânticos
(1927). Outros títulos relacionados à música: Vaga Música (1942), Doze
Noturnos de Holanda (1952), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções
(1956) e Oratório de Santa Maria Egipcíaca (1996, escrito em 1957).
O livro
Viagem é repleto de referências à música. Vejamos alguns títulos de
poemas: “Música”, “Serenata” (dois títulos), “A última cantiga”, “Canção” (três
títulos), “Cantiguinha”, “Guitarra”, “Valsa”, “Noturno” (dois títulos),
“Cantiga” (três títulos) e “Cantar”.
Mas a
música não está só nos títulos, ela está entranhada nos poemas, como podemos
ver nestas amostras:
Pousa
sobre esses espetáculos infatigáveis
uma
sonora ou silenciosa canção:
flor do
espírito, desinteressada e efêmera.
(“Epigrama
n° 1”)
Toca
essa música de seda, frouxa e trêmula,
que apenas embala a noite e balança as
estrelas noutro mar.
(“Anunciação”)
E aqui
estou cantando.
Um
poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa
seu ritmo por onde passa.
(“Discurso”)
Desenrolei
de dentro do tempo a minha canção:
não
tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
(“Aceitação”)
Que música
embala a minha música que te embala?
(“Desamparo”)
Viagem foi publicado em Lisboa e é dedicado
“A meus amigos portugueses”. Peron Rios lembra, no seu ensaio, que “as canções
são uma herança da poesia portuguesa, mais precisamente das cantigas de amigo,
nas quais as mulheres lamentavam clandestinamente suas perdas amorosas” (p.
214).
Está em
Viagem o poema mais popular de Cecília Meireles: “Motivo”, sua poética
pessoal, que é uma reafirmação da música em sua obra.
Eu
canto porque o instante existe
e a
minha vida está completa.
Não sou
alegre nem sou triste:
sou
poeta.
Irmão
das coisas fugidias,
não
sinto gozo nem tormento.
Atravesso
noites e dias
no
vento.
Se
desmorono ou se edifico,
se
permaneço ou me desfaço,
– não
sei, não sei. Não sei se fico
ou
passo.
Sei que
canto. E a canção é tudo.
Tem
sangue eterno a asa ritmada.
E um
dia sei que estarei mudo:
– mais
nada.
Na
sequência, vamos ler o poema “Canção”, objeto da análise de Peron Rios, no
ensaio “Cecília Meireles: confissão e impostura”, lembrando que, como o livro
tem três poemas com o mesmo título, vamos nos referir a ele, considerando a
sequência do livro, como “Canção I”.
Pus o meu
sonho num navio
e o
navio em cima do mar;
–
depois, abri o mar com as mãos,
para o
meu sonho naufragar.
Minhas
mãos ainda estão molhadas
do azul
das ondas entreabertas,
e a cor
que escorre de meus dedos
colore
as areias desertas.
O vento
vem vindo de longe,
a noite
se curva de frio;
debaixo
da água vai morrendo
meu
sonho, dentro de um navio...
Chorarei
quanto for preciso,
para
fazer com que o mar cresça,
e o meu
navio chegue ao fundo
e o meu
sonho desapareça.
Depois,
tudo estará perfeito:
praia
lisa, águas ordenadas,
meus
olhos secos como pedras
e as
minhas duas mãos quebradas.
A
classificação mais comum à poesia de Cecília Meireles tem sido um vago
Neossimbolismo, inserido no Modernismo. A sua Poética, “Motivo”, é uma
afirmação do domínio que o eu empírico tem sobre sua poesia: a poesia do
instante tornado em canção – e até emudecer, ele assevera que “não sou alegre
nem sou triste; (...) não sinto gozo nem tormento; (...) não sei se fico ou
passo”. Se o poeta cabe nessa definição, concluímos pela racionalidade de sua
criação. Isso é um patamar acima do Simbolismo, mesmo pespegado do prefixo
“neo” – inclusive com relação à musicalidade: sua harmonia é dissonante. Peron
Rios explica isso, referindo-se ao poema “Canção I”:
Nessa canção, apesar do metro fixar-se em oito
unidades silábicas, o ritmo oscila, pois a cadência se alterna entre as várias
sílabas do verso. Essa constância ondulatória, somada aos sons de maciez em
todo o texto, não destoa do barco ao balanço do mar, ou do que ele, mar,
significa. A música não contradiz a imagem. E nem o pensamento: afinal, a
melancolia é essa calma aparente, como o azul do mar é ardiloso. A placidez da
superfície esconde uma turbulência discreta, um mundo de criaturas por debaixo
se rivalizando sem cessar. (p. 216)
Se a
música é dissonante, o que dizer das imagens produzidas pelo poema? Abstraindo-se
que a estrutura do poema é a soma de ritmo e melodia, mais imagens e ideias (“a
dança do intelecto entre as palavras”, como pregava Pound), Peron Rios,
referindo-se à “Canção I”, diz que “existe no poema uma afinidade subliminar
entre o eu e o sonho” (p. 217). E, de fato, na “Canção III” há um paralelo
intertextual com a primeira canção:
No desequilíbrio dos mares,
as proas giraram sozinhas...
(...)
Quando as ondas te carregaram,
meus olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
O
primeiro poema começa com o mar em desequilíbrio (“– depois, abri o mar com as
mãos”), situação análoga à do terceiro poema. Por outra, os dois últimos versos
do primeiro poema (“meus olhos secos como pedras / e as minhas duas mãos
quebradas”) são detalhados nas estrofes três e quatro do terceiro poema,
reproduzidas acima.
O
devaneio é uma expressão do inconsciente. O poeta registra essa expressão, sem
censuras, ensinam os manuais especializados. Mas, ao poeta é facultado
construir seus devaneios, não fosse ele um fingidor – é disso que trata o poema
“Motivo”. E o que temos na “Canção I”, complementada, em paralelo, na “Canção
III” é uma sucessão de quadros surrealistas criados pelo eu lírico, que busca esquecer
seus sonhos (de juventude, talvez), valendo-se da imagem de um navio que
naufraga num desequilíbrio provocado pelas suas próprias mãos, metáfora de
decisões equivocadas. O naufrágio não é, portanto, obra do acaso ou do destino,
mas uma decisão consciente do eu lírico.
A
hipérbole “chorarei quanto for preciso, / para fazer com que o mar cresça”,
confirma que a decisão é sim consciente e que o devaneio é uma construção
estética. O resultado dessa construção, entretanto, tem uma consequência
trágica: apesar dos olhos secos de lágrimas (como pedras), as mãos (a metonímia
perfeita para colocar o sonho no navio e o navio em cima do mar – e depois
abrir o mar) as mãos, eu dizia, se quebram (como pedras) e deixam o eu lírico
impotente, o que leva à hipérbole da segunda estrofe, na “Canção III”:
Eu te esperei todos os séculos,
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes,
guardando sempre o mesmo rosto.
A
espiral surrealista de Cecília nos remete, dialogicamente, a outro poema de Viagem,
“Retrato”, em que os elementos “olhos” e “mãos” são os mesmos das duas canções
antes referidas, para concluir:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
O eu
lírico posta-se diante de espelhos duplos que se multiplicam em outros
espelhos, indefinidamente, mas onde ele não se identifica porque esse devaneio
não lhe pertence: cabe ao leitor tentar se reconhecer.
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
Leituras Compatilhadas: A espiral Crítica, de Peron Rios
quarta-feira, 1 de junho de 2022
Panegírico do escritor Assis Brasil, na Academia Piauiense de Letras
sexta-feira, 27 de maio de 2022
sexta-feira, 6 de maio de 2022
sexta-feira, 17 de setembro de 2021
Octaviano Mello e seu tempo
sexta-feira, 16 de julho de 2021
O mundo maravilhoso da não violência
Dílson Lages Monteiro(*)
Analisando a literatura
para a infância no século XIX, diz Teresa Colomer (2017: 143-144) que os contos
populares sempre desfrutaram da preferência infantil, priorizando a fantasia e
o prazer narrativo. Assim é que contos de feição popular e oral se deixaram
absorver e permanecem até hoje como referência social, colocando o viés
moralizante como natureza secundária, para favorecer a fabulação. Chapeuzinho
Vermelho e inúmeras obras, por exemplo, permanecem perenes, mas a elas, em
recontos ou na incorporação delas por outras narrativas, foram acrescidos
diálogos com novas manifestações da linguagem: novos gêneros, novos valores,
novas formas de narrar.
Em “A cidade perdida dos
meninos-peixes”, embora a obra seja lida como novela, Zemaria Pinto evidencia
as constatações de Colomer, ao ressignificar a tradição oral como ponto de partida
para sua escritura, que carrega a marca da imaginação a partir do realismo
mágico. Lendas do Norte brasileiro, tão conhecidas país afora, servem para a
surpresa e para a fantasia de significados novos. Quem já não ouviu, entre nós,
a lenda do Boto? Essa lenda e outros relatos, como a universal lenda de
Atlântida, aludida, inclusive diretamente no texto, criam uma narrativa que
concilia a aventura e o fantástico, para o maravilhoso sobrepor-se.
Assim é que os primeiros
capítulos da obra, de fundo metalinguístico, são uma anunciação do lugar das
histórias oriundas da oralidade e um convite (se não uma antecipação do núcleo
dramático), para se descobrir o que torna o homem verdadeiramente humano (qual
vida estaria conotativamente submersa?). Um convite para a valorização da
própria tradição de contar, representada pela Mãe Velha, chefe de um conselho
de seres sábios, como descobrirá o leitor, e especialmente, uma alegoria para o
tempo, uma negação da morte, ainda que possa ser lida como a força viva da lembrança
e da saudade.
“(...) Mãe velha tinha a cara do tempo (...) É verdade (...)
Um dia (...) fora vista pela última vez a beira do rio de sua cidade (...)
seguindo um bando de botos (...) exibia um sorriso de felicidade nos lábios”
(PINTO: 2020, 10).
O próprio narrador é quem
anuncia, no capítulo 2, que a matriz de sua história é a oralidade (“Vou contar
a história...”), estabelecendo a transição entre a autoexplicação e a narrativa
propriamente dita por uma espécie de saudação, ao mesmo tempo, a reverência ao
valor sagrado de toda a sabedoria simbolizada na Mãe Velha. “A bênção, Mãe
Velha” é não somente um aviso de que a história vai começar para valer, mas
também, como concluirá o leitor, a anunciação de que há valores universais
sagrados a permanecerem entre nós como condição para a convivência harmônica e
feliz.
![]() |
| Ilustrações e capa de Leyla Leong. |
Ao criar um mundo
sobre-humano, mas não apartado do mundo real, o narrador vale-se da
narrativa de aventuras. Sílvia Adela Kohan (2013:28) lembra que, entre os
aspectos composicionais de textos com essa configuração, encontram-se o
interesse por viagens, a entrada em um mundo desconhecido, marcado pela ameaça
de perigos inesperados. Exatamente o que se observa em “A cidade perdida dos
meninos-peixes”: o aparecimento de um ser estranho vindo de outro mundo
ameaçador e parcialmente desconhecido, como também misterioso, o novo mundo em
que aparece o Menino-terra depois de afogar-se. Além disso, o perigo de um
mundo violento externo à realidade do povo-água e a possibilidade concreta de
um grupo de meninos desse mundo ter de enfrentar a violência assinalam
claramente a presença da aventura.
O conflito entre o
primitivo e o civilizado determina, com relevo, as escolhas temáticas. Na
oposição entre o povo-água e o povo-terra, lê-se ironicamente, pela contradição
dos valores do consumo, o retorno a um mundo natural. Nele, importa o
essencial. Nele, importa, por exemplo, principalmente, a família, focalizada
para a ativação de conhecimentos relacionados às relações humanas, com relevo
ao lugar do afeto. Todo o texto é construído para se sentir saudades de casa. O
próprio Menino-terra, que tem os valores transformados pela convivência com um
mundo organizado para a fraternidade, reconhece, ao final da obra, a unidade
familiar como o amparo, fonte da ternura e uma das motivações para o existir.
Lê-se de igual modo a forte presença da crítica social. A narrativa, centrada no súbito aparecimento de um Menino-terra na cidade submersa dos meninos-água, vai-se organizando, em geral de maneira indireta, sobretudo nos diálogos, para criticar as variadas formas de violência. Crítica vista, por exemplo, em diálogo entre o casal Ramai e Ieso, pais das crianças protagonistas Loma e Aman, em apologia ao vegetarianismo. Diz Ramai para Ieso:
“– Aos poucos, ele começa a se lembrar da sua vida na terra.
Imagine que hoje, no almoço, ele reclamou da minha comida. Disse que estava
fria e que não aguentava mais comer folhas e raízes...
– O organismo dele deve estar sentindo falta de carne. Você
sabe que na terra eles criam os animais em casa, para depois matá-los e
comê-los?... – São uns selvagens. E eu temo que ele fique assim também...”
(PINTO: 2020, 23).
A crítica social
enfatiza-se, sobremodo, na negação do sentido impresso nas diversas maneiras de
brincar do Menino-terra. A brincadeira significa para ele um modo de
exercer liderança e de manipular. Um modo de corromper e de ameaçar. Um modo de
legitimar poder, autoritarismo, injustiça e desigualdade. Diante disso, o
povo-água reage com perplexidade, melancolia e espanto. Porém, com esperança na
força transformadora da espiritualidade, que leva, mesmo o Menino-Terra, a
compreender:
“(...) eu percebi que além de carinho e compreensão vocês têm
uma outra coisa que eu não sei explicar... As pessoas se ajudam umas às
outras... Elas não se atropelam, nem mesmo tentam ultrapassar quem está na
frente... Sabe, Mãe Velha, logo que eu cheguei aqui, eu achava tudo muito
lento, mas agora eu compreendi... O importante não é chegar na frente... O
importante é chegar... Assim todos chegam...” (PINTO: 2020, 57).
O mundo-terra aparece
representado com curiosidade em conquistas tecnológicas que conduzem o leitor a
questionar o sentido delas para o bem-estar social. O sentido do automóvel
ensejando a violência no trânsito:
“– Automóvel é uma caixa de aço, em cima de quatro rodas. Tem
de vários tamanhos, e, conforme o tamanho, muda de nome: ônibus, caminhão,
carreta... Mas na rua é uma beleza só! Tem de duas rodas, também, que é a
motocicleta, e é mais radical ainda: o sujeito anda se equilibrando pra não
cair, a 200 quilômetros por hora...
– Vamos brincar de rua da terra? Um dos meninos sugere e
recebe imediato apoio do grupo. O Menino-terra, cujo nome verdadeiro ninguém
nunca soube, pois desde o primeiro momento que o viram assim o chamaram,
organiza a brincadeira:
– É assim, ó... Cada um de nós é um carro, ou uma
motocicleta... A gente tá numa rua lá da terra, aí quem for mais forte vai em
frente e vai derrubando os outros, entenderam? Isso é o trânsito numa cidade lá
da terra...” (PINTO:
2020, 26-27).
“A cidade perdida dos
meninos-peixes”, de Zemaria Pinto, é um convite à reação contra as imposições
da sociedade de consumo sobre as crianças. Uma provocação que faz acreditar na
importância de conceitos universais sagrados para a construção de um mundo
melhor. Referenda-se, assim, um postulado valioso, capaz de resumir a função
social da obra:
“Os valores da liberdade, tolerância ou defesa de uma vida
individual prazerosa fazem com que a literatura infantil e juvenil se dirija a
enfrentar qualquer forma de poder autoritário: a denunciar as formas de
alienação e exploração da sociedade industrial moderna; a reivindicar tanto a
vida rural quanto aquela própria de culturas não industriais, como a harmonia
com a natureza, e a defender os setores socialmente débeis ou diferentes
(pessoas imigrantes, exploradas ou de raças minoritárias (sic))” (COLOMER:
2017,203).
Conclui-se sobre “A
cidade perdida dos meninos-peixes”, de Zemaria Pinto, que:
“As formas de vidas geradas pela sociedade são amplamente
rechaçadas por causa dos problemas de agressão que terminam em uma tríplice
direção: agressão a seus próprios cidadãos alienados, explorados ou oprimidos,
à natureza arrasada e a outras raças ou a culturas aniquiladas” (idem, ibidem).
(*)Dílson Lages Monteiro é autor de diversas obras de ficção, entre as
quais, O Pássaro Amarelo de Sol e o Agasalho do Vento (Nova Aliança, 2021).
Referências:
COLOMER, Teresa. Introdução à literatura infantil e juvenil atual (tradução Laura
Sandroni). São Paulo: Global, 2017.
KOHAN, Sílvia Adela. Escrever para crianças. Tudo que é preciso
saber para produzir textos de literatura infantil. Belo Horizonte: Editora
Gutemberg, 2013.
PINTO, Zemaria. A cidade perdida dos meninos-peixes. 2. ed. Manaus: Editora Valer, 2020.
quarta-feira, 14 de julho de 2021
sexta-feira, 9 de julho de 2021
quarta-feira, 7 de julho de 2021
Rua Grande em crônica, memória e canção
Temos, nós,
muitas pátrias. Cada lugar em que habitamos nos deixa marcas imorredouras.
Torna-nos pertencentes a um tempo, a uma paisagem, para o ser e o estar no
mundo. Poucas pátrias são tão agradavelmente vitais quanto a da infância. O 18º
Círculo Literário Virtual Entretextos, projeto de memória e de letramento
literário do Portal Entretextos, é uma homenagem à cidade de Barras do
Marataoã, no Piauí, por meio de sua rua mais famosa, a antiga rua Grande, um
dia Getúlio Vargas, hoje Marechal Taumaturgo de Azevedo. Será um passeio por
imagens para todas as eras. Será um momento especial: ouviremos sobre
Taumaturgo no Amazonas e no Acre e escritores de diversas paisagens reescrevem,
em crônicas, percepções espaço-temporais coletivas com canção de Francy Monte.
10.07, às 16h
(BSB), pelo Zoom.
quarta-feira, 23 de junho de 2021
Leituras compartilhadas de "A cidade perdida dos meninos-peixes"
A cidade perdida dos meninos-peixes, de Zemaria Pinto.
Estudo crítico de Dílson Lages Monteiro, com leituras de
encantamento de Carol Figueiredo, Diego Mendes Sousa e Jairo Nunes Leocádio.
Dia 26 de junho de 2021, às 16h (BSB), via Zoom. Após, ficará disponível no YouTube.
Realização de Portal Entretextos.
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
Octaviano Mello na cultura do Amazonas
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
quinta-feira, 23 de julho de 2020
A poesia é necessária?
sábado, 4 de julho de 2020
Leituras compartilhadas: a poesia de L. Ruas
![]() |
Leituras compartilhadas: a
poesia de L. Ruas
Data: 04/07/2020, às
16h00 (Brasília)
Sala: 780 9305 7166
Senha: 0bs7YJ
|
domingo, 6 de dezembro de 2009

Dia 21 de dezembro, de 19h às 21h, em Teresina, PI, acontece na Livraria Nova Aliança o lançamento do romance de estreia de Dílson Lages Monteiro. O morro da casa-grande ambienta-se em Barras-PI, em meados do século XX, quando a vida ainda era essencialmente agreste. Cidade e campo praticamente se confundiam e as distâncias pareciam não ter fim. As fazendas ainda estavam de pé como elemento concentrador de renda, mas o modelo socioeconômico já dava sinais de ruína.
Começava a se formar um aglomerado urbano mais vigoroso, mas negligente às tradições e ao patrimônio cultural. Agredia-se, no silêncio da omissão, a identidade de um núcleo populacional fundado entre a fazenda e a igreja.
Os costumes da vida rural, a infância, a velhice, a morte, a desigualdade social e a fé são alguns dos temas pelos quais transitam Genésio, Marciano, coronel Custódio, coronel Alberto e outros personagens vigorosos em emoção.
A Livraria Nova Aliança localiza-se na rua Olavo Bilac, ao lado do prédio novo do Colégio Diocesano. Fone: (86) 3221-6793.






