Amigos do Fingidor

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 1/10


Zemaria Pinto
 
1. Premissas
 
Embora ociosa para alguns, a discussão a respeito da especificidade do texto de teatro atravessa milênios e oscila ao sabor das teorias em voga. Antes de falar, então, sobre os textos dramáticos de Márcio Souza, permito-me estabelecer alguns parâmetros essenciais para delimitar a abrangência desta análise:
1 – O texto dramático é literatura, sim. Sem renegar o bom Aristóteles e seus prosélitos, antes, complementando-os, afirmo que os gêneros literários, hoje, podem ser arquivados sob os títulos Poesia, Prosa de Ficção e Drama; a este último filia-se o texto teatral;
2 – O texto de teatro, entretanto, é literatura quando aprisionado nas páginas de um livro. Sobre o palco, ele adquire outra dimensão, passando a ser um componenteem alguns casos, o mais importante; em outros, nem tanto – do espetáculo;
3 – No geral, o texto dramático guarda total homologia com os outros gêneros, podendo ser apresentado em prosa ou em verso, e mantendo uma estrutura básica, formada por enredo, fábula, personagens, ambiente e tempo;
4 – O texto dramático alicerça-se na fala das personagens. Sem fala nãotexto dramático. Masteatro. De outra forma: um texto dramático formado de didascálias, sem falas, não é literatura. Mas pode ser teatro;
5 – Em síntese, texto de teatro é literatura, mas teatro é espetáculo. Com falas ou sem falas. 
Então, esclareça-se que as tentativas de análise aqui perpetradas levam em conta unicamente os textos impressos, esquecendo-se o autor, temporariamente, dos muitos espetáculos a que assistiu nos últimos trinta e muitos anos, em que esses textos foram encenados. Aliás, as peças de Márcio Souza, mesmo as que têm suporte musical, dão ênfase ao texto, na melhor tradição ocidental.
O leitor mais atento perceberá, na divisão das peças em blocos, a influência de Sábato Magaldi. Não se trata de emular simplesmente o grande crítico, mas de, tomando emprestada sua ideia, quando da organização do Teatro Completo de Nelson Rodrigues, identificar os caminhos comuns das onze peças publicadas de Márcio Souza. Assim, sem abdicar do sagrado direito ao arbítrio, mas apontando a ênfase onde ela se mostra mais densa, e sem preocupações cronológicas quanto à escritura ou encenação, mas buscando um nexo temporal no cerne dos textos, dividi a obra dramática de Márcio Souza em quatro blocos: peças míticas, tragédias amazônicas, chanchadas amazônicas e peças cariocas.
As peças míticas reúnem os textos que tratam da mitologia índia do rio Negro, em cuja foz foi plantada a cidade de Manaus. Dessana, Dessana representa o mito da criação do mundo, como o povo Dessana conseguiu preservá-lo. Jurupari, a guerra dos sexos baseia-se na visão Tariana do mito desse herói-civilizador, uma personagem de importância messiânica para os povos do rio Negro. A maravilhosa história do sapo Tarô-Bequê é uma comédia que trata de lendas do povo Tucano, envolvendo bichos e gente comum. Longe da condição de mito, mas não da mitologia.  
A Paixão de Ajuricaba, a primeira peça de Márcio Souza levada à cena, abre o capítulo das tragédias amazônicas, com a história ficcional do herói. A rigor, aliás, é a única tragédia do grupo. Pequeno teatro da felicidade, ambientada durante a guerra entre cabanos e legais, trata da tragédia coletiva, da mesma forma que Contatos amazônicos de terceiro grau, uma alegoria do poder destruidor da colonização.
Homenageando as origens cinéfilas do autor, agrupei entre as chanchadas amazônicas a cota da sua obra que seria, talvez, mais apropriado chamar de farsas históricas. Mas soaria muito helênico. As Folias do Látex é uma alegre análise sobre nossas origens e nosso caráter. A resistível ascensão do boto Tucuxi, baseada em fatos cruelmente reais, mostra a arte menor da política amazonense nos anos pós-Vargas/Maia. Tem piranha no pirarucu é um painel risonho e franco da Manaus pós-moderna.  
Finalmente, o bloco das peças cariocas traz os dois textos de Márcio Souza ambientados fora do Amazonas e com uma temática menos endógena: O elogio da preguiça, comédia, e Ação entre amigos, drama. O pano de fundo é o Brasil brasileiro dos anos 60, 70 – do século passado!
Tanto quanto possível, procurarei fugir das relações muito comuns que se faz entre o texto e a época em que foram escritos. Dizer, por exemplo, que Ajuricaba é uma alegoria da luta de parte do povo brasileiro contra a repressão da ditadura militar seria minimizar a importância estética do texto e admiti-lo datado. Por outro lado, histórias relacionadas à censura às peças, o próprio Márcio Souza contou-as em O palco verde; seria supérfluo repeti-las.
Deuses, heróis, bufões – e também gente comum: é nesse universo que o teatro de Márcio Souza se consubstancia. Utilizando-se de uma linguagem de grande carga poética, especialmente nas peças míticas e na tragédia de Ajuricaba, com expressões e palavras muitas vezes desconhecidas mesmo dos nativos urbanos, o texto impõe-se naturalmente, pela sua própria coerência interna. Entretanto, ao contrário do que o leitor apressado pode estar presumindo, não se trata de umteatro regionalista”.
 
Partes deste texto foram apresentadas como comunicações no II e no III Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário, em 2010 e 2012, respectivamente: O teatro mítico de Márcio Souza e Tragédia e chanchada no teatro de Márcio Souza.
 
Os 10 posts que apresentamos agora, sempre nas noites de quinta-feira, são a íntegra do ensaio Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica, publicado no livro O mostrador da derrota (Manaus, UEA Edições: 2013), organizado pelos professores escritores Allison Leão e Marcos Frederico Krüger.

Defesa imunológica do corpo, organização social e doenças



João Bosco Botelho

 

             Há muito tempo, desde os primeiros registros, tanto nos escritos religiosos quanto nos laicos, sabe-se da estreita relação entre saúde e doença e o modo como as sociedades se organizaram. Hoje, basta comparar o tipo de doença, no mesmo período, nos países industrializados e nos subdesenvolvidos, para a certeza da importância da saúde como indicador social.

             Depois da publicação dos trabalhos do pesquisador Susumi Tonegawa, o ganhador do Nobel da Medicina de 1987, esclarecendo algumas dúvidas de como ocorre a variação dos aminoácidos dos anticorpos produzidos pelos linfócitos B nada mais foi como era antes. Tonegawa demonstrou que quando o linfócito B se desenvolve, segmentos do seu material genético são selecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milhões de sequências variadas de aminoácidos, capazes de efetuar com mais competência a defesa do corpo humano contra as agressões micro e macroscópicas vindas do meio ambiente.

          Como consequência imediata dessas pesquisas, é possível afirmar que pelo menos parte da estrutura genética do homem é móvel e capaz de desenvolver durante a vida uma infinidade de combinações gênicas adaptativas. Para que este mecanismo biológico ocorra na sua plenitude, é indispensável que o corpo disponha da mais importante fonte de energia – o alimento.                                                                                   

               Deste modo, se dissolveram como castelo de areia à chuva, por meio da demonstração científica, os pressupostos étnicos racistas alimentados pelos interesses dos diferentes matizes ideológicos. Isso significa que as crianças subnutridas dos países pobres não poderão competir, em igualdades de condições, com outras dos países industrializados, onde a oferta de alimentos, indispensável para a maturação do genoma, é feita em níveis calóricos adequados.

                É indiscutível que estamos nos afastando rápido, nos últimos anos, da medicina cartesiana classificatória, representante do conhecimento contido num espaço hermético e inquestionável, para colocar a doença no contexto mais abrangente e complexo das relações sociais.  

                Os conceitos positivos da imobilidade da saúde e da doença foram substituídos pela convicção da existência do equilíbrio dinâmico entre ambas, onde ter a doença não significa, necessariamente, estar doente. Essa tendência está nitidamente clara a partir do século 19, quando o médico abandona o conceito restritivo da saúde e adota o da normalidade, provavelmente motivado pela melhor compreensão da fisiologia experimental, em plena efervescência, nos trabalhos de Claude Bernard.  

               Esse primeiro momento, ficou impregnado da necessidade de explicar como tudo funcionava nos corpos. Como o mecanicismo dominava os meios acadêmicos, a máquina foi escolhida como o modelo ideal. O corpo humano passou como num passe de mágica a ser comparado a um grande relógio, onde as doenças eram somente desajustes na engrenagem.

              Entretanto, essa construção teórica restritiva não encontra suporte na História. A certeza da importância do sociocultural produzindo doença já estava presente nos livros laicos e sagrados escritos há milhares de anos nas culturas que se desenvolveram na Mesopotâmia, Egito e Índia.

          Naquelas épocas, os legisladores laicos e religiosos utilizaram os poderes disponíveis e interferiram nos hábitos coletivos das populações, para evitar a doença. Assim conseguiram determinar, ao longo dos séculos que se seguiram, modificações na cadeia epidemiológica de muitas doenças.  

               O exemplo de fácil verificação é o câncer do colo uterino, com baixíssima prevalência entre as judias. A explicação é dada pela cirurgia da fimose feita, obrigatoriamente, nos homens judeus no sétimo dia após o nascimento. Com isto, o prepúcio fica livre e facilita a higienização impedindo que o vírus Epstein‑Baar, relacionado com a etiologia do câncer do colo uterino, se aloje no esmegma (secreção espessa, caseosa, malcheirosa, formada por células epiteliais descamadas, que se encontra, sobretudo, em torno da genitália externa) da glânde masculina.  

          O câncer do pênis é o outro lado da mesma questão: acomete homens com fimose. O Nordeste brasileiro, como todas as outras regiões do mundo subdesenvolvido, onde o homem enfrenta enormes dificuldades de sobrevivência, ainda apresenta uma das maiores prevalências de câncer do pênis no mundo.          

 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Urubu albino no INPA



344 anos: a velha e a nova Manaus


 

David Almeida


Muita gente teve a oportunidade de conhecer um pouco da velha Manaus, aquela que ainda hoje sonhamos, e por alguns momentos – talvez, por uma fresta do tempo, acendendo e apagando – nossos olhos vagueiam como um pirilampo, brilhando na escuridão e clareando o pensamento, viajando na lembrança de um tempo que ficou pra trás.

A velha e saudosa Manaus, das calçadas livres e casas com varanda; dos igarapés com águas cristalinas; das ruas calmas, tranquilas, onde a senhora Belle Époque desfilava suas riquezas, construindo suas mansões, seus casarões, suas pontes, onde o bondinho calmamente trafegava levando os desejos e os anseios de um lugar para o outro, sobre os trilhos que o progresso um dia ia apagar, como se fossem feitos de giz, riscados nas pedras de paralelepípedos que calçavam seu chão.

Ora, como não lembrar dessa velha Manaus? Quem viveu esse tempo sabe o quanto perdemos de qualidade de vida, simplesmente, por falta de respeito, de responsabilidade com a vida das pessoas, e principalmente por falta de amor com esse pedaço de chão. Como não cuidar de quem te dá guarida? Como não cuidar de quem abre os braços para que te aconchegues? Quando viras as costas para quem te deu a mão, é porque o egoísmo é mais forte dentro de ti do que a solidariedade humana. E assim viraram as costas para ti, minha velha Manaus, para que a nova Manaus surgisse em meio a bancas e barracas, lonas e papelões. Que papelão!

A nova Manaus tem um brilho falso de bijuteria barata, vendida sobre as calçadas que traduzem esse tempo. As casas sem varandas estão agora, umas sobre as outras, como túmulos, construídas sobre o concreto, onde era outrora um igarapé, e eles eram muitos, que, como artérias, pulsavam levando as águas por dentro da nossa cidade para refrescá-la, e, os que ainda existem estão agonizando sob o odor fétido de uma lamina d’água, escurecida pela poluição. As ruas viraram feiras a céu aberto, onde vozes, gritos, correria, sufocam a vida, e, logo a seguir, em cada esquina a violência tece o seu tapete, onde a senhora Zona Franca desfila suas riquezas, construindo e distribuindo miséria, com os seus casarões cheios de delinquências, com seus ônibus articulados, trafegando lotados de gente, feito sardinha em lata, levando ilusões e incertezas de chegar a algum lugar, enquanto o seu paraíso é construído em outro canto.
Ora, como não lembrar, nesse dia, dessa nova Manaus? Sabemos o quanto a amamos, e sofremos por vê-la assim. A queremos mais saudável, mais útil à vida, queremos mais respeito e responsabilidade, dos que podem fazer dela o melhor pra se viver. É preciso mudar os comportamentos, urgentemente, sim! É preciso resgatar as avenidas, ruas, calçadas, praças, que foram tomadas por uma desorganização generalizada, para que a população tenha direito de caminhar livre nos espaços a ela destinados.

É preciso conscientizar que a nossa cidade é cercada por uma natureza maravilhosa e bela, mas expulsaram a natureza de dentro dela.

A Velha e a Nova Manaus, existem: uma, na lembrança e a outra no real, mas são uma só, vamos cuidar dessa Cabocla Morena que se banha, se vê e se refresca todos os dias, nas águas de um Negro Rio, e que temos o prazer de morar nela, de ter nascido nela, e viver por ela, e de cantar nesse dia tão especial, os parabéns pelos seu 344 anos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Brevidade



Letícia Cardoso

 

Semana passada, a caminho da universidade, esbarrei em uma ex-amiga. Fazia dois anos que não nos víamos e alguns meses que não tínhamos contato algum. Depois do breve encontro, fiquei com as lembranças da época em que éramos mais próximas, amigas de verdade. De conversar todo dia, de ir para casa uma da outra, de sair para lanchar, de virar noite adentro conversando pelo mensenger. Taí, quase ninguém hoje utiliza essa ferramenta para conversar, pelo menos não como antes. Está defasada por outros serviços como o WhatsApp, por exemplo. Assim também a nossa amizade ficou para trás, coberta com poeira. Nesse dia, mal sabíamos como nos cumprimentar. Havia um embaraço entre nós. Mas éramos tão amigas, como pôde ter acabado assim? Será que eu fiz algo errado? Foi a primeira coisa que tentei responder a mim mesma.

Então me dei conta da minha brevidade. Sou uma pessoa breve. Não sei o que é ser frequente, não consigo me manter constante. Algumas vezes eu passo sem ser notada pelas pessoas, em outras eu fico ao lado delas, mas somente me percebem muito tempo depois.

Frases como “Você está aqui, nem lhe vi chegar!”, aparentemente inofensivas, têm sabor amargo para mim. A verdade é que demoro na aproximação. Eu estudo, observo, não gosto de cometer erros, tento evitar deslizes. Logo (mas não breve), eu espero ter a certeza de ter conquistado a confiança, sobretudo, a sinceridade da pessoa para que eu possa me entregar a ela por inteiro. Mas isso leva o seu tempo.

Porém o que me deixa triste mesmo é quando ela diz “Você está aqui?”, depois de eu ter passado tanto tempo ao seu lado. Perceber que não fui notada dói. E vindo de pessoa tão especial assim parece um punhal sendo cravado em meu peito. Eu estava lá, mas você não me percebeu. Dentro de mim, um desejo pede por alguém que diga: “Ainda bem que você chegou!”, porque então me sentiria especial. Seria como se estivessem esperando por mim, ou melhor, que minha presença era necessária.

Mas parece que estou sempre atrasada para os outros. Atrasada, mas não no horário, na importância da minha presença. Acho que demoro tanto para mostrar quem sou que as pessoas cansam de esperar. Por isso que hoje estou me sentindo breve e assim será essa quase-crônica. Porque o olhar entre nós não durou mais que dois segundos.

domingo, 27 de outubro de 2013

sábado, 26 de outubro de 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Augusto dos Anjos de Zemaria Pinto



Rogel Samuel

 

Seis meses depois de recebê-lo, concluo a leitura do excelente livro de Zemaria Pinto: A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos (2012).

Como já se disse, somente agora me permitiram os trabalhos e os dias de fazê-lo.

Trata-se de um dos melhores estudos – dos mais completos – do poeta paraibano.

Mas é claro que trata de uma obra poética amplamente estudada, e o livro de Zemaria Pinto correu conscientemente o risco de investigar uma obra muito estudada, e não citar os textos conhecidos como o de Lúcia Helena em “A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos”, além de Lúcia Sá etc.

Vou concentrar-me no budismo que aparece no poeta Augusto dos Anjos.

A noção de Budismo que existe na obra de Augusto é algo pessoal e mesmo “interpretada”, como de outros autores de sua época.

Os poetas não enfrentam nem poderiam enfrentar a complexidade budista.

Eu diria que o budismo passa a ser uma figura poética, retórica.

O budismo aponta para a “felicidade”, é o caminho da felicidade, da alegria. E vacuidade não é aniquilação.

O que o budismo tenta aniquilar é justamente a noção de “eu”, tão forte presença em todos nós.

Mas aniquilar o “eu” é dissolver os nossos problemas, e não o contrário.

O budismo é visto pelos poetas da época com o estigma da dor.

Não é assim nas diversas escolas de budismo.

Ninguém é mais feliz do que um grande monge budista.

O que o Buda viu foi o caminho que leva à felicidade, ao nirvana, que é bom no começo, no meio e no fim.

Mas o livro de Zemaria Pinto não comete esses erros, pois escreveu ele que “a poesia de Augusto dos Anjos encontra o seu Zeitgeist, o espírito dionisíaco de seu tempo, em uma expressão inédita na literatura brasileira, que desnorteou, por muito tempo, sua recepção crítica” – diz ele.

“Poeta – continua – desde a adolescência, seus poemas mais antigos, dos dezesseis anos, já trazem a marca de um eu lírico melancólico, marcado pela solidão e pela reflexão sobre o estar-no-mundo” .

“No ‘Monólogo de uma sombra’, poema que abre o Eu, após zombar das ciências e bradar contra a permissividade, uma espécie de deus-verme, vaticina que somente a Arte pode redimir a Humanidade. Em ‘Os doentes’, uma alegoria da degradação, a ideia de que a Arte é a única saída para a Humanidade retorna, e o poema termina de forma otimista, ‘o começo magnífico de um sonho’, ‘a gestação daquele grande feto, / que vinha substituir a Espécie Humana!’ (p. 249). Para Schopenhauer, a arte é a única razão para que o sofrimento seja suportável, ainda que seja representação do sofrimento”.

“A sua dor é a dor universal. Manifestando-a, ele denuncia a corrupção a que está submetida a humanidade. Essa é a sua alegria” – escreveu Zemaria Pinto.



Obs: publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.
 

Relações médico-míticas: a construção da vida após a morte



João Bosco Botelho
 
 
O genial Rabelais, religioso e médico, escreveu Gargantua no século 16. Inúmeras associações foram construídas, nos séculos seguintes, em torno dos personagens, em especial, Gargantua e seu filho Pantagruel.
 
Não será muito difícil estabelecer mais uma relação: a semelhança entre o processo de desenvolvimento da medicina com a crônica pantagruelina. Em ambas, o fantástico e o imaginário, são mesclados nas ações das pessoas e os sonhos da vida eterna.
 
As relações médico-míticas transcenderam no tempo e chegaram  a nós vivificadas tão intensamente que fica quase impossível dissociá-la do cotidiano das relações sociais.
 
A própria data de comemoração do dia do médico na atualidade, 18 de outubro, corresponde na mitologia grega ao dia no qual o deus médico Asclépio, filho de Apolo, era celebrado na Grécia Antiga, há 2.500 anos. A morte de Asclépio, determinada por Zeus, divindade suprema da maioria dos povos indo-europeus, resultante da terceira geração divina da mitologia grega, por temer que a ordem natural do mundo fosse alternada pelos poderes de Asclépio, capaz de ressuscitar os mortos, fulminou-o com o raio dos Ciclopes, seres monstruosos com um só olho no meio da testa, representados por: Bronte, o trovão; Esteropes, o relâmpago; Arges o raio.
 
Apolo, não tendo poderes suficientes para vingar-se de Zeus, matou os Ciclopes, demônios das tempestades, assassinos de Asclépio.
 
O homem atual possui  características exclusivas entre todas as quatro mil e duzentas  e trinta e sete espécies de mamíferos. É bípede, sem pelos e transforma a natureza ao sabor da própria vontade. Entretanto, conserva muitas particularidades fundamentais de todos os animais, mesmo quando está em uma estação orbital, tem que comer e urinar.
O homem se envaidece de possuir o maior cérebro entre todas as espécies animais vivas, pesando pouco mais de mil e quatrocentos gramas no adulto jovem. Essa massa cinzenta é uma estrutura especializada em receber e estocar informações, emitindo instruções baseadas nelas. Sem dúvida, as buscas da origem primeira e do destino final devem estar nessas funções essenciais.
 
No intervalo de tempo entre esses dois pontos da consciência do tempo, o início  e o fim da vida, o homem convive com a certeza da doença e da morte. Nas poucas dezenas de anos que o homem consegue viver, gasta grande parte dormindo e na procura incessante do conforto, da saúde e da justificativa  mais coerentes da imaginável vida após a morte.
 
Depois  de estabelecer, ao longo de milhares de anos, as relações saúde-doença e vida-morte, o homem acumulou historicamente conhecimentos ojetivando o aumeto do tempo de vida: o renascimento após a morte.
 
Essa posição na busca da imortalidade impossível é tão antiga quanto os registros paleoantropológicos que chegaram dos nossos ancestrais e se tornou responsável pelo aparecimento  de uma especialização social que originou a procura sistematizada do conforto físico e da saúde, nessa vida e após a morte.
 
O processo que culminou com o aparecimento  do homem moderno foi lento: Australopitecos,  2.500.000 anos; Homo habilis, 1.000.000 de anos; Homo erectus, 500.00 anos, o Homo sapiens neanderthalensis, 100.000 anos e Homo sapiens sapiens, 50.000 anos.
O cuidado com a saúde pode ter começado em qualquer ponto dessa escala geneológica e certamente se iniciou na procura do conforto físico. A retirada de espinhos e parasitas da pele em forma individual ou coletivamente com a ajuda de outros membros da comunidade pode ter sido a primeira forma de assistência médica prestada nos nossos ancestrais. Essa assimilação da conduta social foi fundamental para o desenvolvimetno e sobrevivência da espécie.

Já é do conhecimetno dos zoólogos que os nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, são capazes de se tratarem mutuamente lambendo pequenas feridas da pele, retirando parasitas e espinhos que penetram acidentalmente no corpo. Não se trata de simples catação. É indício de verdadeira assistência médica, porque envolve atividade consciente e dirigida a um determinado ponto onde está ocorrendo desconforto físico.

A partir do aparecimento da consciência do tempo, reveladora da impotência frente à ocorrência das doenças que levavam à morte, multiplicaram-se as explicações míticas para explicar a morte.

O ponto de convergência desse caminho que moldou o pensamento criativo do homem foi o fantástico número de deuses e deusas com poderes de curar e ressuscitar os mortos, registrados pela História.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Lábios que beijei 4


Zemaria Pinto
Ana

Ana devia ter o triplo do meu tempo de vida, o que é uma eternidade quando se tem sete anos. Ana era meiga, embora rigorosa; graciosa, ainda que circunspecta; delicada, mas severa; e carinhosa sempre. Impossível não levá-la comigo em meus pensamentos, quando acabava a aula, desejando que um novo dia amanhecesse para encontrá-la de novo, naquela rotina entre o mormaço e o azul. Quando soube que eu mudaria de escola, ela abraçou-me e me beijou o rosto com ternura, desejando-me felicidades. Na hora, apenas engasguei. No caminho de volta para casa, chorei a separação, transbordando uma tristeza que me acompanha até estes dias sombrios, quando não me restam mais que as lembranças por companhia. Branca, magra, os cabelos lisos levemente castanhos, encontrei-a muitos anos depois como padrão de heroína romântica: todas elas, em todas as épocas, tinham os mesmo traços gentis e senhoriais, o mesmo porte aristocrático de Ana. Quando soube de sua morte precoce, eu já adolescido, não pude evitar um sentimento de perda por alguém a quem um dia amei. E chorei por Ana, mais uma vez.

domingo, 20 de outubro de 2013

Manaus, amor e memória CXXX



O poeta Jorge Tufic, entrevistado pelos então candidatos a escritores Francisco Vasconcelos, João Bosco Araújo e Antônio Cruz Neto, em 1956.

sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes faz 100 anos!



Vinicius, por Baptistão.


 
 
Poética (I)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
 
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
 
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
 
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Nova York, 1950
 
Vinicius, por Max Zimer.


Poética (II)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo
(Um templo sem Deus)

Mas é grande e clara
pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!

Rio, 1960


Esta postagem é dedicada a todos aqueles  jovens, balzacos e velhos  que se esforçam em parecer poetas, e fazem da poesia mero trampolim social. 
Sejam humildes, leiam o quanto seus eventos pseudopoéticos o permitam, e aprendam com quem sabe.
Vininha, por exemplo. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Literalmente Manaus




Beto Vianna

Tarde de domingo na peixaria Moronguetá, num bairro chamado Felicidade, quase à beira do rio Negro, de frente pro encontro das águas, ladeado pelo escritor, poeta e dramaturgo Zemaria Pinto, por sua bela, índia e poeta companheira Tainá, pelos colegas de Livro de Graça na Praça e por minha filha Tábata, carregando no ventre o neto Aruã, debruçado sobre o prato de matrinxã (meio sem-vergonha, diga-se) com pimenta murupi, baião de dois, farinha de mandioca brava e suco de taperebá com gelo e açúcar. A cerveja expulsa do meu cardápio pessoal, graças a uma colelitíase que demandara laparoscópica retirada da minha vesícula e, três dias depois, graças a um dolorido perrengue por conta de abusar da própria cerveja e de porções desregradas de tambaqui sob o sol agudo de Manaus. Mas isso é outro assunto, interno e lateral demais. Voltemos ao Zemaria. E a Manaus.

Na manhã dessa tarde teve Livro de Graça na Praça ao largo do Largo de São Sebastião, atrás do Teatro Amazonas, de frente pro Palácio da Justiça. A primeira edição do evento em uma praça fora de Belo Horizonte, fora das Minas Gerais, fora, enfim, do Sul Maravilha. E que se dane o excesso de sul no Brasil. Manaus é uma maravilha, maninho. Literalmente.

Dezessete autores convidados, todos quase manauaras, e três vencedores de concurso literário nacional, quase todos manauaras, costuraram seus contos na obra Manaus 20 autores, título com destino certo no mercado editorial: ser repartido gratuitamente, em 3.000 exemplares, pra população ali presente, toda quase manauara, em espaço aberto e público. Livro de Graça na Praça. Zemaria Pinto, mocorongo de nascença, foi show à parte e parte do show. Não haveria um projeto grande e generoso como o Livro de Graça na cidade sem a ajuda desse bamba das letras que, além de grande, é generoso. Cabeça gostosa de peixe da lista dos contadores de contos do livro, Zemaria capitaneou o time local de colaboradores, escritores e produtores do evento. Zemaria cresceu ele e cresceu sua obra em Manaus. Foi em Manaus que publicou e continua a publicar seus copiosos escritos em prosa e verso, seus poemas de sacanagem, seus livros pra criançada e suas peças de teatro, quase todas encenadas só em Manaus. Manaus é cidade grande no norte, é capital. Manaus é roça pro sul, é interior pros olhos cegos ou olhos baixos do sul. Manaus e o norte são merda nenhuma pro sul, “pronto!”, como costuma encerrar conversa um certo poeta Thiago de Mello.

Tesão, tesão. Não há outro termo pra dizer do sentido de “romper a barreira montanhosa do Curral” (pra citar a mim mesmo num artigo no jornal O Tempo) e desaguar livros de graça e mergulhar em caras felizes de leitores e autores numa cidade ao norte, numa cidade da importância de Manaus. Manaus invisível aos olhos baixos do sul. Quem é Ajuricaba? Não sei. Quem são os cabanos da Comarca do Alto Amazonas? Não sei, não sabemos. Comparo a ignorância do sul pras coisas do norte com a ignorância do Brasil pras coisas da Latino-América. Quem é Bolívar ou Martí? Sabemos não. E Hatuey? Não sabemos. Embora saibamos muito bem quem seja Lincoln ou De Gaulle. Tem de olhar pra cima e ver a grande Manaus, Manaus por quem se afogou o tuxaua Ajuricaba, Manaus onde, se quase todos são manauaras, nenhum mais será manaó, que estes foram dizimados pelo bicho-branco, praga de norte a sul, como já havia previsto a sabedoria dos desana do rio Negro. Triste Manaus suntuosa da borracha, Manaus francesa, de um Eduardo Ribeiro que manda trazer da França incongruente cúpula pro teatro de sua cidade. Manaus francesa e amante das zonas, amante da zona francesa, francamente ama zônica.

 “Manaus inculta”, diz um poeta quase manauara. “Manaus corrupta”, diz o poeta de Barreirinha. “Afogada na bandalheira da Zona Franca”, diz Thiago, um dos escritores de Manaus 20 autores. “E foi Manaus que me fez...”, “Manaus onde passeava com meu pai e vi, na rua, os homens cumprimentarem uma senhora, dar-lhe passagem, curvarem-se, tirarem o chapéu, e eu, menino, perguntei, quem é essa dama tão importante, meu pai? Ele diz gravemente: é uma professora, aquela que ensina as letras aos homens, para que se tornem advogados, médicos, engenheiros...”. Não há mais essa Manaus. Mas custo a crer numa Manaus inculta. Inquieta, sim. Que dizer de uma Academia de Letras que por meio século teve a marca do traseiro amazonense do poeta dos “Estatutos do homem”, remanescente da briosa geração de 45, inimigo das injustiças de Estado, exilado por mais de uma ditadura e que prefere verdades servidas antes da sobremesa? Esse poeta não renunciou a essa mesma Academia “...constrangido pelas práticas e intenções recentes, ambiciosas de poder, de alguns de seus membros...”, como diz trecho da carta de renúncia? É muita vida literária pulsando prum só mausoléu de imortais (lembrem-se de, e comparem com, a ABL de Sarney, Paulo Coelho e Merval).

Eu, ali visitante de primeira viagem, custo a crer numa Manaus inculta. Manaus de Vera do Val (outra das contistas no livro do Livro de Graça), contadora do rio sensual, do rio Negro, do rio macho. Para desfilar mais autores de Manaus 20 autores, Márcio de Souza, escritor, dramaturgo, cineasta (dos poucos pra quem o sul ergue os olhos) e o escritor, crítico e, principalmente, editor, Tenório Telles que, para o acadêmico-amazonense Ruy Lins, “sacrificou a própria obra pra publicar a dos outros”. Esses “outros”, quase todos manauaras. Manaus de uma editora inteira – a Valer – há 20 anos dedicada a botar no prelo obras quase todas manauaras. Que Manaus inculta é essa onde as bancas de revista não vendem revistas ou jornais, mas livros usados? Pra não dizer que eu não falei da banca do Joaquim, que lança, na cidade, as obras de Milton Hatoum (se bem que esse quase nada mais manauara, exilado que é no sul). Sebos pela cidade quase toda, sebos nas feiras de artesanato, sebo na Praça do Congresso, sebo na Praça da Polícia. Rodas de leitura no Largo, gente fazendo fila pra pegar autógrafo e sorrindo com o livro na mão, esgotando em poucas horas os 3.000 exemplares do Livro de Graça na Praça.

Custo a crer na Manaus inculta, meu poeta. Mas eu sou moço e moço do sul, eu aprendo. Ano que vem, no II Livro de Graça da Praça de Manaus, tiro essa história a limpo, Thiago. 
 

Publicado em O Cometa Itabirano, Ed. 362, set/2013, p. 22.
 
 
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Vídeo do projeto Livro de Graça na Praça Manaus.
 

 

 

Morte rejeitada: sempre a vida

 

João Bosco Botelho

 

            As ações humanas, transformando a natureza, para controlar a dor, são imperativas. Estão ligadas direta e indiretamente aos mecanismos neuroquímicos endógenos autorreguláveis. As dores, física e mental, determinadas pela ferida, na carne dilacerada no acidente traumático ou na morte da mulher amada, são sempre temidas. Têm sido, ao mesmo tempo, a inspiração dos poetas e a arma preferida da insanidade para aqueles que exigem o apagar dos sentidos, a fim de limitar, pelo pavor, o confronto das ideias no exercício da livre consciência.

            Diversas circunstâncias, do homem chorando a perda do amor ao suplício do torturado pelas ditaduras de todos os matizes, determinam o alerta dos sentidos e modificações significativas em todos os órgãos, em níveis moleculares, hoje inacessíveis.

            Uma das características mais intrigantes é como a dor altera a noção do tempo. Suportar o desconforto doloroso, por um minuto, é como estar sofrendo na imensidão do infinito. Durante a manipulação dentária, quando a pequena broca alcança o nervo sensitivo, as sensações cerebrais são indescritíveis. Ao contrário, a hora de prazer corre como um breve instante.

            Por essa razão, é impossível manter, durante muito tempo, a dor fulgurante. De pronto, todos os sentidos natos atiçam para evitá-la ou os sentidos são apagados, pela inconsciência forçada, para aliviar o desastre biológico.

            Por outro lado, quando a vítima da tortura associa, de maneira persistente, alguém ao suplício da dor, a lembrança do algoz faz a ansiedade alcançar um nível difícil de suportar. A morte, antecipada pelo suicídio, pode significar a única saída.

            A espécie humana elabora uma substância específica para diminuir as dores e tornar a vida possível: endomorfina (morfina produzida no próprio organismo) autorrequisitada pelas trocas biológicas, independentes da vontade, para modular a dor.

            Em complemento, existem moléculas especiais, acopladas às membranas celulares, no sistema nervoso central, dotadas de especial receptividade aos derivados dos opiáceos naturais e sintéticos, utilizados como alucinógeno e analgésico.

            A incrível disseminação das drogas proibidas também não é um problema social exclusivo. A sedução exercida pelo consumo ilegal é diferente em cada pessoa. Está contida na individualidade material molecular e é transmitida geneticamente. Não é possível tantas pessoas, espalhadas no mundo, algumas coagidas por métodos brutais, continuarem desafiando o controle social sem coerência biológica.

            As investigações realizadas nos símios responderam, favoravelmente, a essa assertiva. Os animais produzem substâncias, em nível molecular, para atenuar todas as circunstâncias exteriores e interiores capazes de determinar a dor.

            Se considerarmos a dor determinada pela morte dos entes queridos, a crença no renascimento pode ser também entendida como mecanismo atávico, formado ao longo do processo de hominização, como um dos mais extraordinários mecanismos para entender a morte como parte da vida e, assim, minorar o sofrimento.

            Esse pressuposto é reforçado a partir da melhor compreensão da escrita cuneiforme das tábuas de argila, encontradas nos sítios arqueológicos assírios e babilônicos, onde se tornou possível esclarecer o intrigante sinônimo das palavras sortilégio, malefício, pecado, doença e sofrimento.

            A crença no renascimento após a morte continua sendo um dos mais valorosos artifícios da ficção, para atenuar a morte rejeitada.