Amigos do Fingidor

sábado, 21 de outubro de 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Platônica


Zemaria Pinto


ai, que já me arde a febre do desejo
volúpia de te ver, tocar, amavelmente
no ritual cotidiano das tardes mais banais

como não sonhar com teu colo pálido
e a sarda que se espalha
pelo teu braço infinito?

as minas de rosáceas do teu peito
espalham nervos na sala entorpecida
pela pressa de chegar de onde se vem

sempre – cotidianamente
a carne dos teus lábios
roçagando minha barba por fazer

a língua desfaz-se em fogo
adivinhando tua língua de silêncios
meu coração delira preces pagãs

a palavra – um convite? um carinho?
desaba dentro de mim
borboleta abatida a escopeta

um helicóptero sobre minha cabeça
cavalga walkírias & fúrias
fim do expediente

(amor? amor um cacete
você não existe
o tesão não resiste

você não precisa saber
que a vida não vale nada
sem você!)

Concerto na Academia celebra a obra de Telemann



Possibilidade de uma ética pré-social



João Bosco Botelho
 
É razoável pensar a Medicina e o Direito como partes fundamentais da ontogenia, ambas voltados à valorização da vida em torno da ética e da moral, estruturando os bons resultados: os agentes da Medicina controlando a dor e empurrando os limites da vida e os agentes do Direto construindo mecanismos sociais e políticos para evitar a antijuricidade. 
A característica universal da ação moral, citada por Kant; isso é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, ultrapassa as relações sociais em si mesmas. Não é impertinência pensar que esse desejo humano, desde um passado impossível de precisar, de valorizar a virtude como antagonismo ao vicio, seja um processo sociogenético gerado ao longo da humanização, ligado à sobrevivência desde os ancestrais mais distantes.
Incontáveis culturas, nos quatro cantos do mundo, pelo menos desde os primeiros registros de natureza religiosa e laica, continuam lutando para instrumentalizar regras valorizando a ética junto da moral como características insubstituíveis e universais, como genialmente Kant descreveu, da condição humana.
É possível articular um pensamento teórico entendendo esse conjunto como pré-social, isto é, inserido na herança genética, ao longo da ontogenia, resultando na existência de uma ou mais memórias-sócio-genéticas (processo teórico para explicar alguns aspectos da organização social), ligadas à valorização da virtude, da moral, da ética, como instrumentos para adequar a sobrevivência coletiva e superar os contrários que dissolvem sem reconstruir. Simultaneamente, essas memórias sociogenéticas (MSGs) também interferem na manifestação pessoal e coletiva do desprezo ao vício, que corrompe e compromete a sobrevivência.
Esse conjunto organizador social presente nas MSGs, vinculado à sobrevivência e ao ajuste ético-moral, no processo da ontogenia, amparando a vida pessoal e coletiva, claramente desprezando o vício (aqui compreendido como oposição ao ético-moral, à virtude) se manifesta socialmente por meio de categorias metamórficas, também presentes nos cinco continentes, entre culturas que nunca mantiveram contato, amparando a sobrevivência pessoal e coletiva, com forte participação da Medicina e do Direito. 
É difícil atribuir a atávica busca da virtude somente às relações sociais!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Manaus, terra dos barés


Pedro Lucas Lindoso


Tia Idalina é a mais ilustre amazonense dos moradores de Copacabana. Pelo menos uma vez por mês convoca amigos, sobrinhos e conhecidos de Manaus para um tacacá. Compra tucupi goma e jambu de uma senhora paraense moradora de Quintino, subúrbio do Rio de Janeiro.
Estava por lá no último tacacá. O assunto era o aniversário de Manaus. Tia Idalina se lembrou de uma grande comemoração. E nos contou:
– Eu era menina quando se comemorou os 100 anos de Manaus. 24 de outubro de 1948. Fiquei abismada quando soube agora que a cidade vai fazer 348 anos! Então liguei para Etelvina Garcia. Fiquei aliviada. Ainda não estava caduca. Ela, grande conhecedora de nossa História, confirmou as comemorações. Explicou-me que em 24 de outubro de 1848 não só Manaus, mas também Santarém e Cametá foram elevadas à categoria de cidade, por lei advinda da Assembleia Legislativa da Província do Grão Pará!  A Província do Amazonas só seria criada em 5 de setembro de 1850.
– Eram vilas e tornaram-se cidades! E completou lembrando que a origem de Manaus foi o forte de São José do Rio Negro. Não se sabe o dia nem mesmo o mês da construção do forte. Mas o ano é 1669. Daí a celebração dos 348 anos! Uma mescla de datas e celebrações.
Um dos convidados, que obviamente não era amazonense, questionou se éramos manauenses ou manauaras. Teria ouvido dizer que manauaras eram “os que ficavam mais perto dos índios” e que manauenses “eram os mais urbanos”.
Tia Idalina quase desmaiou com a imbecilidade posta na conversa. Alguém subitamente foi se socorrer de um dicionário. Trouxe o dicionário Houaiss, hoje mais festejado que o Aurélio. As duas formas são aceitas. Substantivo comum de dois gêneros. Relativo ou pertencente à Manaus “o que é seu natural ou habitante”.
Fui instado a opinar. Pedi desculpas ao carioca desavisado e disse aos convivas que já ouvi outras baboseiras procurando diferenciar manauara de manauense. Eu prefiro manauara. O jornal Acrítica usa manauense. Historicamente somos todos amazonenses. Os dicionários estão, obviamente, corretos, ambas as formas são aceitas.
Mas na verdade, Manaus é “terra dos barés, dos igarapés, rios colossais”, como diz a velha canção que aprendi no jardim da Infância Visconde de Mauá.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 1/4


Tenório Telles


Resumo
Este artigo se estrutura como uma reflexão sobre a crítica e a criação literária, considerando a palavra como fundamento do labor criativo e instrumento do escritor no seu processo de concepção e representação do mundo. Busca-se na tradição, no sentido atribuído a ela por T. S. Eliot, a compreensão para o trabalho do crítico – sua responsabilidade e atributos teóricos como condição para o exercício da compreensão e julgamento do texto literário. Como uma interlocução reflexiva, referencia-se no diálogo com estudiosos e poetas que refletem sobre a experiência criadora e sua escritura.

A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de grande esforço. Ela envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico... (e) implica a percepção, não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença.
T. S. Eliot

Introdução
O poeta João Cabral de Melo Neto (2010, p. 335), no poema “O ferrageiro de Carmona”, discute o processo criativo e, ao mesmo tempo, expressa seu ponto de vista sobre seu labor poético. A partir da arte do “ferrageiro”, o autor pernambucano problematiza duas concepções sobre a arte de criar ou malhar o ferro. O texto se constrói como um diálogo entre o eu lírico e o ferreiro de Carmona, que informava de um balcão seu conhecimento sobre a técnica de dar forma a um artefato metálico:

Aquilo? É de ferro fundido,
foi a fôrma que fez, não a mão.
(...)
Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?
Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.

Apresentadas as duas abordagens sobre o fazer artístico, desdobram-se as explicações sobre o fundamento, o significado e a perspectiva do artista em relação à sua criação. O ferrageiro esclarece que “o ferro fundido é sem luta / é só derramá-lo na fôrma”. Em contraposição, afirma sua predileção pelo “ferro forjado / que é quando se trabalha o ferro / então, corpo a corpo com ele, / domo-o, dobro-o, até onde quero”.
Subjaz no poema a tradicional discussão sobre a mímesis. As duas proposições remetem ao debate entre Platão e Aristóteles sobre a relação entre as ideias e os objetos criados. Se, para Platão, os objetos são mera imitação de formas supraterrenas, para Aristóteles, o ato criativo e a própria imitação são atributos humanos, associados à habilidade e ao domínio da técnica que enseja o labor artístico, como ressalta na Poética:

Estando, pois, de acordo com a nossa natureza a imitação, a harmonia e o ritmo (é evidente que os metros são partes dos ritmos), desde tempos remotos, aqueles que tinham já propensão para estas coisas, desenvolvendo pouco a pouco essa aptidão, criaram a poesia a partir de improvisos (ARISTÓTELES, 2011, P. 43).

O poema de João Cabral depreende as duas perspectivas: a platônica, expressa na ação do ferreiro que trabalha com o “ferro fundido”, vazado na “fôrma”, em que “as flores” são “moldadas pelas das campinas”, que, segundo Platão, já seriam uma imitação de formas transcendentes. A concepção aristotélica vincula-se à técnica do “ferro forjado”, que pressupõe, além do domínio da arte, a destreza do ferrageiro: “Só trabalho em ferro forjado / que é quando se trabalha o ferro”. O criador impõe à sua criação as marcas de sua subjetividade, compreensão e método laborativo.
As proposições de Platão e Aristóteles são incontornáveis nos estudos sobre o fenômeno criativo, os fundamentos da arte e sobre a interpretação dos objetos artísticos. Suas reflexões plasmam o pensamento dos variados críticos e, ao mesmo tempo, são afirmadoras da força e importância da tradição, entendida simbolicamente como monumento vivo e em contínuo processo de imbricação com o novo e atualização, como sublinha T. S. Eliot (1989, p. 39, grifo do autor):

Os monumentos existentes formam uma ordem ideal entre si, e esta só se modifica pelo aparecimento de uma nova (realmente nova) obra entre eles. A ordem existente é completa antes que a nova obra apareça; para que a ordem persista após a introdução da novidade, a totalidade da ordem existente deve ser, se jamais o foi sequer levemente, alterada: e desse modo as relações, proporções, valores de cada obra de arte rumo ao todo são reajustados; e aí reside a harmonia entre o antigo e o novo. Quem quer que haja aceito essa ideia de ordem... não julgará absurdo que o passado deva ser modificado pelo presente tanto quanto o presente esteja orientado pelo passado.

A construção deste estudo referencia-se nessas balizas teóricas que fundaram a compreensão do processo criativo e a consolidação do pensamento crítico sobre o texto literário e sua escritura, entendidas como parte de uma tradição que se reatualiza permanentemente:

Esse sentido histórico, que é o sentido tanto do atemporal quanto do temporal e do atemporal e do temporal reunidos, é que torna um escritor tradicional. E é isso que, ao mesmo tempo, faz com que um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade (ELIOT, 1989, p. 39).

Originalmente, publicado na revista Kalíope. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. ISSN 1808-6977, v. 12 n. 24 – 2017.
Aqui, será publicado, sempre às segundas-feiras, em quatro partes.


domingo, 15 de outubro de 2017

sábado, 14 de outubro de 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

poema com homem, mulher e flor


Zemaria Pinto


um homem atravessou correndo a rua
uma mulher deu-me adeus
uma flor brotou do chão

um idiota  atravessou cantando a noite
uma mulher despiu seus véus
um louco brotou do chão

uma mulher rasgou os seios
um homem mamou seu sangue
uma flor brotou do leite

um louco morreu cheio de ódio
uma mulher grávida suicidou-se
um grito brotou  do escuro

uma mulher matou um homem
uma flor suicidou-se
um louco morreu no escuro

um homem caiu na rua
uma flor brotou no chão
um seio brilhou no escuro

uma mulher brotou na rua
uma flor jorrou veneno
um homem morreu no escuro

uma mulher acenando-me
um seio jorrando sangue
um adeus


(1974)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

3 anos de Vibe Positiva no Rio Negro Clube



Boa prática médica


João Bosco Botelho


Após quase quatro mil anos de o Código de Hammurabi ter sido elaborado, existem diversos pontos naquelas leis que merecem reflexão:
– Presença do julgador entre a prática médica e o doente fora da influência das ideias e crenças religiosas;
– Médico recebendo pagamento de acordo com a complexidade do trabalho e o estamento social do doente;
– Penalidade mais severa se a má prática fosse a alguém socialmente destacado. Esse ajuste sócio-político do julgador também é importante sinal da historicidade do Direito atado ao poder dominador.
Também é necessário repetir como as leis também surgem a partir das necessidades sociais. É admissível supor que as leis babilônicas, no Código de Hammurabi, foram feitas para coibir o grande número de maus resultados que geravam conflito social. Dessa forma, o Direito e a Medicina, nesse ponto, inauguraram níveis de conflitos que continuam se reconstruindo até os dias atuais, isto é, o julgador se interpõe para coibir as práticas médicas consideradas desajustadas à ética e à moral. 
Um dos fortes indícios da presença da Medicina e do Direito em convívio de conflito e reconstruções, exigindo boa prática dos médicos, gerando respostas que beneficiaram os doentes,  reconhecidos pelas estruturas de poderes, é exatamente o Código de Hammurabi, do fim do século 16 a.C. Na realidade, constitui a primeira estrutura de leis contendo os direitos e deveres dos médicos, estabelecendo o pagamento pelos bons serviços e severas punições pela má prática, associando a boa Medicina ao bom resultado. Também é interessante assinalar que os preços e castigos variavam de acordo com o estamento social do doente. Os maiores preços pelos serviços prestados e castigos mais severos pelos maus resultados estavam ajustados aos doentes mais ricos e socialmente importantes.
Dos 282 artigos do Código de Hammurabi, 12 deles regulavam os trabalhos dos médicos, contidos num conjunto de outros que tratava dos direitos e deveres dos veterinários, barbeiros, pedreiros e barqueiros.
É importante ressaltar que o Código de Hammurabi legislando os direitos e deveres dos médicos e doentes, somente nos procedimentos cirúrgicos, sugere que os conflitos sociais determinados pelos maus resultados cirúrgicos alcançaram níveis de conflitos suficientes para gerar respostas administrativas por meio do julgador credenciado pelo poder dominante.
A presença do Direito no controle da prática médica, valorizando os bons resultados, está de acordo com aspiração para manter a vida. Dito de outra forma, pelo menos desde o Código de Hammurabi, estava presente o pressuposto de associar a boa prática médica ao bom resultado, que beneficia o doente.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Mother and Child.
Margriet Seinen.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ao vencedor, as batatas!


Pedro Lucas Lindoso

Ler e reler Machado de Assis é essencial. Machado não é só Literatura Brasileira. É universal. Não sou especialista em Machado. Até gostaria de ser para poder afirmar com autoridade: Capitu traiu Bentinho. No célebre “Dom Casmurro” não está explícita a traição. Mas o filho deles era a cara de Escobar, amigo de Bentinho. Com aqueles “olhos de ressaca”, “de cigana, oblíquos, dissimulados”. Eu não tenho dúvidas. Capitu foi adúltera. Hoje isso nem mais é crime.
Sempre digo a pais e professores que se deve introduzir Machado aos adolescentes bem devagar. “Despacito”. “Doucement”, como se diz em Francês. A melhor maneira é começar pelos contos. Não se pode permitir que adolescentes considerem Machado de Assis “chato de ler”. Podem até achar isso de José de Alencar. Mas o Machado, não. Jamais. Começar pelos contos então é fundamental. Há vários. Um dos meus preferidos é “O Espelho”.
Nesse magnífico conto Machado nos ensina que cada pessoa possui duas almas: uma exterior e outra interior. “A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.”
Conheço pessoas cuja alma exterior é o poder, outras a fama e outros o dinheiro. Ou o conjunto de tudo isso. Para essas pessoas, a alma exterior é muito mais importante do que a “alma interna”. Ou seja, a nossa real personalidade.
Além do famoso “Dom Casmurro”, dos contos e crônicas, Machado brindou a Humanidade com seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Nesse livro aprendi que “O menino é o pai do homem”.  Há pessoas que são matreiras, ardilosas, manipuladoras desde os dias de mais tenra infância. Outras exercem virtudes já de pequeninos.
Por fim, cabe lembrar uma das mais inteligentes e impagáveis tiradas do grande Machado de Assis.  Essa é de Quincas Borba, talvez o meu romance preferido. Em época de impeachments, mandatos ceifados judicialmente em consequência de eleições eivadas de fraude, manipulações e compra de votos, nada mais contemporâneo quando Quincas Borba finaliza: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

domingo, 8 de outubro de 2017

sábado, 7 de outubro de 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Choro por ti, Belterra! – o mais novo livro de Nicodemos Sena


Autor paraense autografa seu mais novo livro, na Banca do Largo.

Eliane Brum lança "O olho da rua"


O lançamento será na Banca do Largo.


Doença e vida social


João Bosco Botelho


Há muito tempo, sabe-se da estreita relação entre saúde e doença e o modo como as sociedades se organizaram. Hoje, basta comparar o tipo de doença, no mesmo período, nos países industrializados e nos subdesenvolvidos, para se ter certeza da importância da saúde como indicador social.
Depois da publicação dos trabalhos do pesquisador Susumi Tonegawa, o Nobel da Medicina de 1987 esclareceu algumas dúvidas de como ocorre a variação dos aminoácidos dos anticorpos produzidos pelos linfócitos B.
Tonegawa demonstrou que quando o linfócito B se desenvolve, segmentos do seu material genético são autosselecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milhões de sequências variadas de aminoácidos, capazes de efetuar com mais competência a defesa do corpo humano contra as doenças.
Como consequência imediata dessas pesquisas, é possível afirmar que pelo menos parte da estrutura genética do homem é móvel, capaz de desenvolver durante a vida infinidade de combinações gênicas adaptativas. Para que este mecanismo biológico ocorra na plenitude, é indispensável que o corpo disponha da mais importante fonte de energia: o alimento.                                                                                  
Deste modo, caíram por terra os pressupostos racistas alimentados pelos interesses dos diferentes matizes ideológicos. Isso significa que as crianças subnutridas dos países pobres não poderão competir, em igualdades de condições, com outras dos países industrializados, onde a oferta de alimentos, indispensável para a maturação do genoma, é feita em níveis calóricos adequados.
A demonstração pode ser também feita pela leitura do quadro de medalhas na última olimpíada, onde os atletas do Terceiro Mundo ficaram com 20% dos melhores índices. 
Os conceitos positivos da imobilidade da saúde e da doença foram substituídos pela convicção da existência do equilíbrio dinâmico entre ambas, onde ter a doença não significa, necessariamente, estar doente. Esta tendência está mais clara a partir do século XIX, quando o médico abandonou o conceito restritivo da saúde e adotou o da normalidade, provavelmente motivado pela melhor compreensão da fisiologia experimental, em plena efervescência, nos trabalhos de Claude Bernard. 
Mesmo antes dessa comprovação científica, os legisladores interferiram nos hábitos coletivos das populações. Assim, conseguiram determinar modificações na cadeia epidemiológica de muitas doenças. Um exemplo histórico de fácil verificação é o câncer do colo uterino, com baixa prevalência entre as judias. A atual explicação é dada pela cirurgia da fimose – circuncisão – nos homens judeus no sétimo dia após o nascimento. Com isto, o prepúcio fica livre, facilitando a higiene e impedindo que o vírus Epstein Baar, relacionado com a etiologia do câncer do colo uterino, se aloje no secreção presente na glande peniana.  

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Parabéns, idoso!


Pedro Lucas Lindoso


Fui estudante de intercâmbio nos Estados Unidos, ainda adolescente. Retornei como jovem adulto, já formado, usando paletó e gravata. Fiz parte de uma comitiva em visita ao Banco Mundial, em Washington. Ainda no aeroporto, faço uma pergunta e alguém me responde:
– Yes, sir.
Na minha primeira visita à terra do Tio Sam eu era um adolescente. E como tal era tratado. Aquele “yes, sir” me ensinava que definitivamente não era mais um garoto. Estava no mundo dos adultos. Aquilo era um fato irreversível.
 Naquela época estava recém-casado. Lembrei-me que no dia do casamento, após a cerimônia, eu procurava por minha noiva no salão, quando alguém me alertou. Não era mais minha noiva, era minha esposa!
Quando os filhos nascem e começam a nos chamar de pai é uma alegria imensa. Só suplantada quando a linda netinha nos chama carinhosamente de vovô.
No Brasil o tratamento mais usual entre adultos é senhor e senhora, além de você. Os gaúchos não usam muito você e sim o tu. Nem sempre com a correta concordância.
Em Inglês temos o democrático “you”, além do já citado “yes, sir” para homens e “yes, ma’am”, para as senhoras. Vem do francês, madame.
Entre autoridades, políticos e magistrados usa-se o “excelência”. Ouvi dizer que querem abolir esse tratamento no Brasil, por decreto. Todos seriam senhores e senhoras. Bobagem! Não se mudam usos e costumes por lei.
Aqui no Amazonas usa-se querido e querida, amado e amada, sem que as pessoas tenham a intimidade necessária para tal. Além dos carinhosos mana ou manazinha e mano ou mano velho.
Em todo o país, adolescentes e jovens adultos costumam usar tio e tia para os mais velhos. Às vezes usa-se tiozinho ou tiazinha com deboche. Como costumam usar “querida” ou “querido” com ironia ou desrespeito.
Antigamente, os idosos eram carinhosamente chamados de velhinhos ou velhinhas. Hoje vejo muito o uso de senhorinha e senhorzinho para os da terceira idade.  Dia 1º de outubro foi o Dia do Idoso. Alguém me disse:
– Parabéns, idoso.
Não me importei. Minha avó dizia que quem escapa da velhice a vida lhe custa.

domingo, 1 de outubro de 2017

sábado, 30 de setembro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Tree of life with flowers.
Margriet Seinen. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Estilhaços Literários - Pornôs, eróticos e afins



Direito e a ética médica



João Bosco Botelho

O Direito construiu, ao longo de milhares de anos, a estrutura sustentadora da credibilidade coletiva para nortear o bom, o certo, o belo. Dessa forma, não é inconveniência argumentar que o desejo coletivo de administrar os conflitos, que certamente estavam presentes tanto nos ancestrais muito distantes quanto nos mais próximos, após o sedentarismo, moldaram pensamentos e comportamentos.
Parece razoável pressupor que o conhecimento historicamente acumulado, desde os primeiros registros do médico e do julgador como personagens sociais, se ajustou na inclusão de curadores e julgadores como agentes sociais para promover o bem, o justo:
– Agentes de práticas curadoras: tanto médicos, amparados pelo poder dominante, quanto benzedores, parteiras, sacerdotes, encantadores.
– Agentes de práticas julgadoras: tanto os ligados ao poder dominador quanto os que intermediavam os incontáveis conflitos que nunca chegavam ao conhecimento do poder político dominante.
Nos mesmos milhares de anos, os curadores e julgadores que não conseguiram firmar o reconhecimento coletivo em torno da competência na solução dos problemas expostos pelos postulantes, não recebiam o reconhecimento coletivo.
Entre esses dois grupos – os curadores com bons resultados e os curadores que não satisfazem as demandas pessoais e coletivas –, as organizações sociais reconheceram e nominaram o médico e o julgador, compondo parte do conjunto das profissões, procuraram identificar, coibir e punir as más práticas, estabelecendo critérios na edificação da ética do médico e do julgador.
De modo geral, a má prática continua ligada ao resultado desfavorável na Medicina e no Direito, o fracasso na busca da cura e a sentença considerada injusta. Nenhum procedimento, na Medicina e no Direito, no passado e no presente, tem sido aceito se provoca, respectivamente, piora de qualquer natureza no enfermo ou a suspeição de não ter sido justa.
Esse esboço normativo ético-moral voltado aos bons resultados, no movimento de secularização das práticas da Medicina e do Direito, claramente exposto no Código de Hammurabi, no século 16 a.C., culminou com o aparecimento na Grécia, no século 4 a.C., do conceito de deontologia (deontos, “o que é obrigatório, necessário” + logia), que evoluiu para “o estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral”.
A palavra deontologia alcançou a maior parte das especialidades sociais. Na Medicina, apareceu pela primeira vez em 1845, no Congresso Médico de Paris, no trabalho do médico M. Simon, intitulado “Deontologia médica ou deveres e direitos dos médicos no estado atual da civilização”. No Direito, por meio dos escritos do filósofo inglês Jeremy Benthan, considerado fundador do Utilitarismo.
Desse modo, os códigos de ética do médico e do julgador comportam fundamentos estruturantes semelhantes: o médico e o julgador devem estar sempre a serviço do indivíduo, mantendo a vida.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Complexo de macaco-prego


Pedro Lucas Lindoso


Os jornais e a televisão do sudeste falam do início da primavera e convidam os brasileiros a plantar árvores. Só que o dia da árvore na Amazônia é 21 de março. Plantar árvores em setembro aqui na região é inadequado. Mas muita gente não sabe disso.
Marcílio de Freitas e Marilene Corrêa são doutores pesquisadores sobre a Amazônia. Ambos lançaram recentemente importantes trabalhos sobre a Amazônia no IGHA – Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, onde somos confrades.
Eles criticam o fato de que “os mecanismos operacionais da economia global(...) propugnam a prevalência do pensamento único, dificultando a construção de soluções compartilhadas” (A Sustentabilidade como paradigma. Editora Vozes, pág. 65).
Nós, amazônidas, não podemos agir nem pensar com unicidade com o resto do país. Exemplifico: as grande férias escolares nos meses de dezembro e janeiro são inadequadas para a Região Amazônica. É verão no sudeste e lá a diversão é garantida. Com muita praia e sol. Americanos e europeus frequentam as escolas em janeiro. Faz frio e neva por lá. Aqui o clima fica mais ameno e chove. E muito. Não há praias em nossos rios, que estão na cheia. Por que tirar férias nessa época?
A professora Marilene nos alerta que “a manutenção da ordem nacional justificou a exclusão dos direitos de autodeterminação dos povos amazônicos(...); permitiu que a ambição dos interesses administrassem, a seu modo, a vida e a sociedade regional” (Amazônia, passado, presente e futuro. Editora Juruá, pág.21).
Aos cronistas e ficcionistas cabe opinar, falar, comentar e até inventar. Aos pesquisadores, a cientificidade! Aos cronistas, o eventual deboche!
O grande escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que nós brasileiros temos complexo de vira-latas e explicava: “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”.
Parece que nós aqui na Amazônia temos o complexo de macaco-prego. Somos inteligentes e muito espertos. O macaco-prego é o gênio da selva. Mas vive no topo das árvores, onde passa a maior parte do tempo. Só desce ao chão para beber água ou para comer.
Precisamos nos unir e lutar pelos nossos interesses. Vamos descer do topo das árvores para reivindicar direitos e exigir respeito.

domingo, 24 de setembro de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXXV


Linha Porto de Lenha  Liverpool.
Colaboração: Hiram Lopes.

sábado, 23 de setembro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Dawn and the intangible.
Yannick Bouchard.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

exercício nº 7


Zemaria Pinto


palavras são pedras frias à margem
da estrada que atravessa o automóvel
são peixes mortos de dominga feira
cavalos pastando plástico e aço
palavras são carcaças na corrente
lavada em mercúrio e lama são galos
sem manhã cachorros atropelados
espelhos estilhaçados disparos
dispersos cabe ao poeta cuidar
que o lixo em transubstância invente
a dura geometria do poema
e o barulho o mau cheiro a porcaria
sobrepairem no éter sublimados
em cor ritmo imagem e harmonia

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"Oremos pela Guerra" em segunda edição



Construções da ética na prática médica


João Bosco Botelho


Teorizando em torno da associação entre o ético-moral – gerando o bem, o bom, o certo, antepondo-se ao vício – ligado ao mal, ao mau, ao errado, é interessante assinalar um ensaio teórico para apreender a ética médica integrada à virtude.       
É possível entender a virtude kantiana nas práticas médicas, obrigatoriamente, ligada ao “bem”, ao “bom”, no qual o médico controla a dor e adia os limites da vida, sempre festejado pelo doente. Dessa forma, seria inadmissível pensar a Medicina como uma especialidade social para provocar a dor ou a morte. Essa vertente ligando a ética médica aos bons resultados entendidos como “boas práticas”, gerando bem-estar ao doente, está presente na historicidade e na maior parte das atuais abordagens teóricas referenciais.
Nesse sentido, é possível resgatar relações dos saberes historicamente acumulados atando a ética médica à boa prática, entendida pelo senso comum como aquela que oferece bons resultados às demandas da clientela por meio de ações que deveriam, obrigatoriamente, trazer melhorias à vida pessoal e coletiva.
A historicidade dos códigos de ética da Medicina foi construída entendendo os médicos e outros curadores como especialistas sociais que devem saber controlar a dor e aumentar os limites da vida.
Heródoto, no seu extraordinário livro “História”, descreveu um dia de festa, numa praça, na Mesopotâmia, quando doentes e curadores se encontravam, para buscar as curas das doenças nos exemplos de doentes que tiveram algo semelhante e se curaram fazendo ou bebendo isso ou aquilo. Ao cruzarem com alguém que apresentava sinais e sintomas de alguma doença que sabiam como curar, os curadores paravam para orientar, oferecer o tratamento.
A Medicina é muitíssimo mais recente em relações às milenares práticas de curas anteriores, sem ensinamento formal. Nas culturas que se organizaram e prosperaram, no segundo milênio a.C., os processos dos aprendizados, amparados pelos poderes dominantes, na formação do médico, como o principal agente da Medicina, estavam dentro dos templos mais importantes.
Essa Medicina, ligada à Ciência, é a única que construiu, desconstruiu e continua reconstruindo propostas teóricas para desvendar a origem das doenças nas dimensões cada vez menores da matéria e tem vencido as barreiras para diminuir a abstração e aumentar a materialidade das doenças.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O problema está na rima


Pedro Lucas Lindoso

Seria trágico se não fosse cômico. Veio consultar-me, como advogado, uma humilde senhorinha, muito simpática. Sua sobrinha, moradora da periferia de Manaus, está muito triste e revoltada.
A moça é musa de uma equipe de futebol do Peladão. Como se sabe o Peladão de Manaus é o maior campeonato de peladas do mundo. Reúne três coisas que o homem médio brasileiro muito aprecia: mulheres, futebol e uma boa cerveja.
Pois bem, cada time elege uma musa. Há mais de quatrocentos times inscritos no campeonato deste ano. Houve a primeira eliminatória com a escolha de cem moças. Cada uma representando seu time na qualidade de musa. A moça em questão ficou fora dessa primeira grande repescagem. Ou seja, ficou fora das cem primeiras classificadas.
Segundo regras do campeonato, a classificação das moças eleva a pontuação dos times. Entendo que não se classificar em uma eliminatória, em que são escolhidas uma centena de moças, deve ser um baque terrível em qualquer autoestima. Afinal, cem é um número bastante expressivo.
Sou de opinião de que não existe moça jovem feia. A juventude em si é sinônimo de beleza e vigor.
Disse-me a tia que a menina estaria se sentindo injustiçada porque não tem um nome da moda. Ela gostaria de ter um nome americano. Ou pelo menos que tivesse y, k ou uma letra dobrada. Que fosse um nome de princesa, de menina rica.
Perguntei o nome da garota. Chama-se Raimunda. A tia explicou que a família veio do Alto Acre e são vizinhos da Amazônia peruana. Santa Raimunda do Bom Sucesso é uma devoção popular para o povo da região. Incluindo também os países vizinhos Peru e Bolívia.
Argumentei que conheci e conheço várias Raimundas. Todas carinhosamente chamadas de Rai. Todas ótimas pessoas. Mas a garota não quer mais o prenome e a consulta é se é possível mudar.
As decisões judiciais têm sido favoráveis pela alteração do prenome, quando da exposição ao ridículo. Há muitos anos o Tribunal de Justiça de São Paulo permitiu a alteração do nome de Kumio Tanaka para Jorge Tanaka. A pronúncia “Cumi o Tanaka” ridicularizava o cidadão.
A menina deseja mudar o nome para KRYSLAYNNY, com k, y e n dobrado. Só assim, acredita, conseguirá ser rainha do Peladão.
A garota desabafou dizendo que o nome a expõe ao ridículo. O problema do nome Raimunda é a rima.