Amigos do Fingidor

domingo, 20 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

exercício da crueldade


Zemaria Pinto


palavras são serpentes, são navalhas
são balas que explodem dentro do peito
de quem ouve e de quem fala!


A medicina de Hipócrates


João Bosco Botelho


Hipócrates, segundo Sorano de Éfeso, nasceu na ilha de Cós, em 460 a.C., filho do médico Heráclides, aprendeu os segredos da prática médica com o pai e nas viagens a Tessália, Trácia, Líbia e Egito.
Esse período admirável da Medicina grega, do qual Hipócrates foi o mais importante representante, compreendeu cinco centros de cultura médica que receberam os respectivos nomes da cidade onde funcionaram: Cós, fundada por Hipócrates, em 440 a. C., Rhodes, Cnido, Crotona e Agrigento.
Devido à importância fundamental na história da Medicina, a Escola de Cós acabou absorvendo a denominação de medicina hipocrática em menção honrosa a Hipócrates. 
O sucesso da Escola Médica de Cós, deve-se ao fato de ter sido onde Hipócrates e seus seguidores estruturaram as bases da Medicina grega na busca da materialidade das moléstias. Nesse núcleo fervilhando de novas propostas para sair das práticas de curas fortemente atadas às crenças e ideias religiosas oriundas do Egito e da Mesopotâmia, tornou-se responsável pela primeira teoria laica para explicar a saúde e a doença – a teoria dos Quatro Humores –, publicada pelo genial Políbio, o genro de Hipócrates. A proposta foi tão consistente que se manteve em discussão até o final de século 18, entre os luminares da Medicina ocidental.
A medicina hipocrática pode ser compreendida por meio das obras publicadas pelos médicos da Escola de Cós responsáveis por dezenas de textos com atualidade até hoje, quando as práticas médicas iniciaram o processo de separação das crenças e ideias religiosas. A cura deixou de ser um atributo exclusivo dos deuses protetores ou vingadores para ser explicada pela Medicina, onde era possível e preferível que o homem agisse sobre o outro homem doente, para alcançar a melhoria da saúde.
A estrutura teórica da Medicina hipocrática está contida no pensamento filosófico grego pré-socrático, notadamente, na teoria dos Quatro Elementos de Empédocles (água, terra, ar e fogo). Posteriormente, foi incluído no mundo das ideias platônico-aristotélicas.
Dessa forma, é possível estabelecer o marco fundamental da medicina hipocrática: só é possível entender a saúde e a doença se o homem for estudado em conjunto com o ambiente onde vive.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Mês do cachorro louco


Pedro Lucas Lindoso

Tia Idalina é uma pessoa supersticiosa. Aliás, muito supersticiosa. Ela pede, encarecidamente, às pessoas que evitem relatar qualquer superstição. Ela explica que acaba adotando a prática e isso é muito cansativo, segundo nos explica.
O mês de agosto é um sofrimento para Idalina. Procura não sair de casa. Recolhe-se a uma espécie de retiro espiritual. Diz que é para evitar o azar que acredita impregnar especialmente o mês de agosto. Titia se abastece de pé de coelho, trevo da sorte, amuletos, sal grosso e até um dente de alho pode ser encontrado junto aos seus pertences.
Ontem telefonei e a secretária me disse que ela não atende telefonemas no mês de agosto. Mas faria concessões, incluindo a minha pessoa.
Argumentei com Idalina que não via razão para tanto sofrimento no mês de agosto, no que ela me replicou:
– Só para lembrar: em agosto houve o suicídio de Getúlio Vargas, a morte da Princesa Diana, Elvis Presley e de Juscelino Kubitschek. Todas me abalaram profundamente, por motivos diversos. Um horror!  Em 1914, no dia 1º de agosto, teve início a 1ª Grande Guerra Mundial. Em 1945, mais de 200 mil pessoas morreram em Hiroshima e Nagasaki, completou. E você acha pouco?
Disse-lhe que o meu problema com agosto é que não há feriados para a gente descansar e passear. Além disso, em Brasília costuma ser muito seco e em Manaus faz muito calor.
Segundo meu colega Chaguinhas, foi entre os romanos que o mês de agosto começou a ser considerado azarento, embora não se saiba exatamente o motivo. Já aqui no Brasil, com a influência dos portugueses, essa crença chegou e se espalhou. Daí o dito popular “casar em agosto traz desgosto”.
Pergunto a uma amiga veterinária e muito culta por que agosto é o mês do cachorro louco. Ela me explica:
– No mês de agosto, a concentração de cadelas no cio aumenta bastante devido às condições climáticas. E quando as cadelas estão no período fértil, os cachorros ficam loucos (mesmo!) e brigam para conquistar a fêmea. Essa luta feroz entre os machos em busca da fêmea faz com que a raiva, doença transmitida pela saliva do bicho, se espalhe mais.
Então pessoal, vamos vacinar a cachorrada, porque agosto é mês de cachorro louco.


domingo, 13 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

romança



Zemaria Pinto

2° movimento (noturno)


havia o vento que desvendava
suavemente a pele morena
nave noturna
suavemente

havia a água que transbordava
alucinante a dourada fúria
colo de espuma
alucinante

havia a terra que aconchegava
dilacerante a fértil ravina
vale sagrado
dilacerante

e havia o fogo que iluminava
serenamente o fugaz momento
gozo profundo
serenamente


Deuses, deusas e médicos na Grécia


João Bosco Botelho


As relações da Medicina com a compreensão mítica da realidade se perderam no tempo. É impossível separar as ideias míticas do entendimento do homem sobre a saúde e a doença.
Das primitivas relações do homem com outros animais, posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o uso das plantas na busca da saúde. A utilização do vegetal, indispensável à sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, que foi marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios da origem primeira e do destino final do ser humano. Elas evoluíram da epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese judaico-cristã e pela Yebá Beló da lenda desana da criação do Sol.
Apesar da melhor compreensão que temos hoje das metamorfoses do pensamento mítico, a dificuldade de interpretação aumenta na proporção que recuamos no tempo. Entretanto, parece ser a partir do século 6 a.C., na Grécia, que chegou o material historiográfico suficiente para traçar, com alguma segurança, um perfil da Medicina da mitologia.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo foi considerado como o deus protetor dos guerreiros, posteriormente, foi identificado como Aplous ou aquele que fala verdade. Ele agia purificando a alma, por meio das lavagens e aspersões, e o corpo, com remédios curativos. Era considerado o deus que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio, recebeu educação do centauro Quirão para ser médico.  A escolha do centauro mítico para dirigir a educação de Asclépio se consolidou porque ele dominava o completo conhecimento da música, magia, adivinhações, astronomia e da Medicina. O centauro, além destas habilidades, tinha incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
O centauro Quirão além de ter educado Asclépio, na Medicina, também orientou Jasão na arte de vencer os mais incríveis obstáculos, e Dionísio, o deus da vegetação e do vinho, conhecedor dos mistérios da religião, do êxtase e da embriaguez. 
Hipócrates, talvez para evitar o mesmo destino de Sócrates, não abrigou o confronto com os deuses e deusas do panteão grego, em especial, com o deus Asclépio, o mais importante deus curador daquela época. Ao contrário, a Escola Médica de Cós, na ilha de Cós, no século 4 a.C., onde foi produzida a maior parte dos textos que possibilitaram o avanço na Medicina em direção à melhor compreensão da saúde e da doença, se consolidou ao lado do maior templo grego dedicado ao Deus Asclépio.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Papai...


Pedro Lucas Lindoso


Mais uma vez chega agosto e se comemora o dia dos pais. Para muitos brasileiros é um dia de tristeza e constrangimentos. Há milhares de pessoas que não foram reconhecidas por seus pais. Na Amazônia, há os filhos de boto.
Reza a lenda que o boto sai dos rios e se transforma em um garboso rapaz. Veste-se de elegante traje branco e sempre usa um chapéu para cobrir a narina do topo de sua cabeça. Seduz moças desacompanhadas, engravidando-as. Daí o costume de dizer que, quando uma mulher tem um filho de pai desconhecido, é “filho do boto”.
Conversando com meu amigo Chaguinhas sobre filhos e a função de ser pai, ele vai logo sendo sarcástico e começa a filosofar:
– Meu amigo, acho que a gente nunca na verdade se torna um filho adulto. Apenas se aprende como atuar em público, geralmente de maneira hipócrita e/ou dissimulada.
Os filhos serão sempre filhos. Os filhos de boto aprendem a se virar e desde cedo lutam pela sobrevivência. Ribeirinhos ou urbanos vão à luta somente com a ajuda materna, que é a que mais importa.
Enquanto os filhos de boto não recebem nenhum carinho e orientação dos pais, os filhos legítimos e reconhecidos podem ser vítimas de muita proteção. O desvelo de muitos pais pode ser um mal para os filhos.
Contou-me que um colega seu, professor de uma faculdade de Direito em Brasília, recebeu a visita de um pai de aluno, questionando a baixa nota de seu filho, acadêmico de direito. O mais absurdo é que o pai do “garotinho estudante de direito” era um advogado, com atuação em uma cidadezinha do interior de Goiás.
O professor argumentou ao colega pai que o rapaz deveria vir falar com ele pessoalmente e pedir a revisão da prova. Afinal, já era um adulto. Era preciso aprender a atuar em público. Em breve, seria um advogado!
O rapaz se formou. Logo após a formatura o pai faleceu. Ele teve que cuidar do inventário. Ao se dirigir ao juiz, ao invés de qualificar o de cujus como FULANO DE TAL, etc., começou a petição assim:
Papai...

sábado, 5 de agosto de 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

romança


 Zemaria Pinto

1° movimento (modinha)


reza, vela, terra nua,
lembranças de nem-me-lembro,
festa de febre, louvor
para os peixes de setembro.

abre-se o rio numa flor,
o azul veludo vigia,
desce a negra com seu manto:
água, vaga melodia,

espanto, sussurro, canto,
desejo, espasmo, agonia
– explode em carne meu verso
  pra  fazer nascer o dia!

sobre o cimo do universo,
despida de linho ou lã,
a lima de aço flutua
nos fumos da antemanhã.


O mau-olhado


João Bosco Botelho


Não há dúvida da universalidade da crença do mau-olhado. O inesquecível Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, sustenta a antiguidade e a presença do mau-olhado nos cinco continentes. É também reconhecido em algumas regiões brasileiras como olho de seca pimenteira.
O grande mestre da mitologia grega, Junito Brandão, assinalou a origem pré-olímpica do mau olhado, explicando as mudanças na transição greco-romana para absorver a concepção helenística predominante nos países cristãos. Na mitologia grega, a imortal Medusa, com a cabeça coberta de serpentes, possuía olhos com excepcional brilho e com olhar maligno que transformava em pedra quem ousasse fixá-los.
Carlo Ginzburg interpretou do modo magistral os cultos agrários, no século 17, em uma sociedade camponesa italiana. A crença no mau-olhado era comum naquela comunidade e o tratamento só obtinha sucesso se realizado por alguém com poderes especiais: o benandanti ou andarilho do bem. Em um dos processos do Santo Oficio para punir o benandanti, no depoimento de um dos acusados, está claro o entendimento do mau-olhado: O que significa, pergunta o inquisidor, ter mau-olhado? E a jovem explica: nós dizemos que têm mau-olhado as mulheres que secam o leite das mulheres que amamentam e são também bruxas que comem as crianças.
As compreensões do mau-olhado são semelhantes e recebem nomes de significâncias próximas: olho de seca pimenteira, malocchio, evil eye, bose blick, mal de ojo, olho grande e olho gordo.
Os relatos mantêm semelhanças: a pessoa atingida pelo mau olhado sente, imediatamente ou após algumas horas, apatia generalizada, dores no corpo e na cabeça, alterações na digestão, inapetência, irritação e desânimo. Quando o alvo é criança, as consequências são mais intensas, podendo incluir: sonolência profunda, olhos encovados e moleiras afundadas.
O mau-olhado é reconhecido como uma das doenças que devem ser tratadas pelos curadores populares. Em algumas regiões brasileiras, o ritual de cura continua sendo realizado com a ajuda de um ramo de arruda ou erva-doce tirado do galho, semelhante ao registro de Luiz Edmundo, no Rio de Janeiro, no século 18: “Todo mal que nesse corpo entrou; ar de névoa, ar de cinza; ar de galinha choca, ar de cisco; ar de vivo em pecado; ar de morto excomungado; ar de todo o mau-olhado; seja desse corpo apartado; Deus te desacanhe de quem te acanhou; Deus te desinveje de quem te invejou”.
Alguns médicos observam no cotidiano, que certos doentes portadores de determinados cânceres, evoluindo favoravelmente ao tratamento, ao tomarem conhecimento de estar com essa doença, as complicações aparecem rápido; inexplicavelmente, ocorre a piora irreversível e acabam morrendo mais rápido.
O conhecimento historicamente acumulado insiste na veracidade do mau-olhado, sugerindo que as emoções, ainda pouco compreendidas pela medicina, interferem no rumo de certas doenças e na saúde das pessoas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ganhar ou perder?



Pedro Lucas Lindoso
   
A ex-presidente Dilma em desastroso improviso afirmou: “Ninguém vai ganhar, ninguém vai perder. Todo mundo vai perder”. O pronunciamento “viralizou” na Internet. Muita gente se divertiu com isso. Principalmente, os “coxinhas”.
O fato é que ela tinha razão. Muitos estão sendo responsabilizados e há prejuízo para toda a Nação. Independentemente do viés político. Todo mundo perdeu.
É verdade que muitas vezes ninguém perde e ninguém ganha. Empata. Principalmente no futebol. Nicodemos é técnico de um time e foi excursionar no interior.  O presidente, na verdade o “dono” do time pediu notícias. Mande por “whats app”. Nicodemos que maneja o celular bem melhor que a Língua Portuguesa, mandou bala: ”Cheguemos, descansemos, treinemos, almocemos, joguemos. Nem ganhemos nem perdemos. Empatemos. Abraços. Nicodemos”.
Na vida parece que se perde mais do que se ganha. Às vezes perdemos uma oportunidade e ganhamos outra mais adiante. Um rapaz de Parintins me encontra no fórum e lamenta: “Nosso boi Garantido perdeu”. Eu lhe disse que não se pode ganhar sempre. No ele retrucou: “Eu fico triste só até o fim do ano. Quando chega janeiro eu me alegro porque sei que naquele ano que se inicia meu boi vai ganhar.”
Parece que há mesmo certo rodízio. Só há dois bois. Caprichoso e Garantido. O espetáculo é tão bonito que, parafraseando Dilma, ninguém perde, ninguém ganha. Todos ganham. Principalmente a economia da cidade de Parintins.
Por falar em ganhar ou perder, outro dia ouvi  um relato envolvendo o comendador português José Cruz. Fundador  e presidente do grupo Guaraná Magistral. O saudoso José Cruz liderava um grande número de portugueses empreendedores aqui no Amazonas. Um belo dia adentram  em seu escritório vários patrícios indignados e esbaforidos. Davam notícia que um deles, conhecido comerciante manauara, havia adotado a cidadania brasileira e não era mais português. Naquela época não havia dupla nacionalidade como hoje. Foi então que o comendador Cruz acalmou os ânimos exaltados dos portugueses:
– Portugal nada perde. O Brasil nada ganha.
A tirada do comendador foi genial. Todos ficaram tranquilos e conformados.
Conclusão: o raciocínio da ex-presidente Dilma não foi tão desastroso assim. Quem sabe um dia vamos mesmo estocar vento!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Luiz Bacellar



Inácio Oliveira

Hoje lembrei-me de Luiz Bacellar. Tive a oportunidade de conviver com ele e a desperdicei. Quando cheguei a Manaus, vindo do interior: inocente, puro e besta; conheci o Zemaria Pinto, autor de Fragmentos de silêncio, livro que eu lia nos porões da biblioteca pública de Óbidos. Ele me convidou para seu aniversário de 52 anos, disse-me que seria num bar chamado El Perikiton que havia fechado, mas que abria excepcionalmente para receber a Panelinha. A Panelinha, ele me explicou, tratava-se de uma sociedade lítero-gastronômica que se reunia ordinariamente aos sábados. No dia combinado eu fui o primeiro a chegar, pontualmente ao meio dia, esperei mais de uma hora até que os primeiros membros da “panelinha” começaram a aparecer por volta de uma da tarde. Primeiro apareceu o jornalista e escritor Marco Adolfs, o compositor Nato Neto, depois a atriz Koia Refkalefsky, mais tarde os professores Alisson Leão e Marcos Frederico, os poetas Cláudio Fonseca e Dori Carvalho, e ainda Tenório Telles, por último apareceu o aniversariante e um senhor franzino de uns setenta anos, discreto e elegante. Que me foi apresentado como Luiz Bacellar, ele me ignorou solenemente, é claro.
Lembro que ao todo havia doze pessoas à mesa, lembro-me disso porque alguém fez um gracejo dizendo que éramos os doze apóstolos e que o Bacellar devia sentar-se à cabeceira como se fosse o Cristo, mas ele se recusou, então calhou dele sentar-se ao meu lado. Eu conhecia sua fama de ranzinza e não tive coragem de lhe dirigir a palavra. Ele cruzou as pernas, sacou um cigarro e fumou no meio de nós, como alguém que estivesse nos anos 50. Depois comeu sardinha frita e limpou a boca com a toalha da mesa, gesto que não chocou ninguém, mas que contrastava com sua postura de lorde.
Todos ali tinham tanto a oferecer e eram tão generosos, eu tinha apenas os meus 19 anos e fiquei calado a maior parte do tempo com medo de dizer qualquer tolice. Eu havia lido, ocasionalmente, um ou outro poema do Bacellar e é evidente que tinha ouvido falar dele, mas não tinha a menor noção da grandeza de sua, breve e intensa, obra que só vim a conhecer de fato muito tempo mais tarde.
Hoje eu penso que a ideia que se fazia do Bacellar, como de alguém de trato difícil, talvez fosse exagerada. Lembro que naquela tarde memorável, enquanto o Nato Neto cantava e tocava no violão canções que ele havia composto de vários poemas, ele se dirigiu a mim e pediu que eu pedisse para o Nato tocar um poema seu que ele havia musicado. O Nato tocou uma música linda que falava sobre juritis. Depois ele me perguntou gostastes? Gostei, é muito bonito. Essas foram as únicas palavras que trocamos naquela tarde.
Depois desse dia eu só fui aparecer na panelinha anos depois, quando o Bacellar já havia morrido. E saber que houve tantos sábados que eu podia ter estado lá, teria gostado de vê-lo comer peixe e ouvir quando ele falasse. Eu o vi umas duas vezes mais: uma vez na Quarta literária e outra vez na Cafeteria do Pina. Soube que ele estava doente e que vivia seus últimos dias no Instituto Dr. Thomas, ensaiei diversas vezes ir visitá-lo, mas eu não tinha nada para lhe dizer e temia lhe aborrecer. Certo dia vi a notícia da sua morte no jornal, pensei em ir no seu enterro, mas não sei se esse gesto teria algum sentido.
Depois fui lendo sua obra e fui me dando conta da dimensão quase milagrosa da sua poesia, que poeta incrível era o Sr. Bacellar! A minha vida e o próprio mundo tornaram-se mais suportáveis. E pensar que este poeta andava por um rua incerta da mesma cidade que eu. Hoje se eu o encontrasse eu apenas diria muito obrigado!


domingo, 30 de julho de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXVII


Lançamento de livro de Elson Farias (foto 2/2), anos 1960.
Da esquerda para a direita: Luiz Maximino (de paletó), Luiz Ruas (de óculos escuros), Francisco Vasconcelos (de paletó claro), Alencar e Silva (de óculos, paletó escuro), Marcos Frederico Krüger (ao fundo, de camisa clara), Aurélio Michiles (o penúltimo, de cabelo na testa) e Elson Farias (em primeiro plano, discursando).

sábado, 29 de julho de 2017

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Anavilhanas, laudes


Zemaria Pinto


serena manhã –
o mundo se movimenta
nos olhos do iguana

o barco pesqueiro
desliza delicadeza
sobre o espelho Negro

manhã de silêncios – 
a gaivota rasga o ar
em busca da presa

sobre o fundo verde
da floresta em movimento
– as flores silvestres

murmúrio das águas –
os raios de sol se espraiam
sob a morna brisa

fuga em revoada –
a dissonância dos pássaros
reinventa o dia

As oligarquias políticas no Amazonas



Crítica platônica à medicina do pobre


João Bosco Botelho


Possivelmente, a passagem de Platão pelo Egito foi responsável pelo resgate da lenda do deus egípcio Thot, protetor dos escribas, inventor dos números e dos cálculos, para criticar a substituição da memória oral já em curso naquele tempo na Grécia.
A divinização da memória, na Grécia, fez-se por meio da deusa Mnemosine, que lembrava aos homens os seus heróis e feitos, além de presidir a poesia lírica. A memória estava distribuída em funções especificas pelo poeta, resgatando o passado com os cantores, e pelo adivinho, prevendo o futuro. Estava intimamente associada com a vida e colocava-se como o contrário do esquecimento, aqui entendido como o sinônimo da morte desmemoriada.
Desse modo, a memória também apareceu como dom aos iniciados nas doutrinas órficas e pitagóricas, ligadas à crença da metempsicose, na qual a lembrança das vidas anteriores, um dos pontos angulares do orfismo, vencia o esquecimento decorrente da morte e fazia renascer (reencarnar) com o conhecimento acumulado da vida anterior.
O médico, até hoje, edifica a sua relação com o paciente sobre a anamnese ou reminiscência, buscando, nas informações prestadas pela memória do doente, os fatos que podem ajudar a esclarecer o diagnóstico.
Não há mais dúvida de que uma parte dos saberes médicos presentes na cultura grega, representa o produto sincrético do conhecimento dos povos, de regiões próximas, que antecederam a formação da Grécia.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filha de Zeus com Leto. Apolo é reconhecido na literatura com dezenas de qualificações, além de deus–curador. Foi também identificado como Aplous, aquele que fala de verdade. O seu poder era transmitido à água dos banhos que purificava a alma, e por isso era considerado o deus que lavava e libertava o mal. De modo geral, o herói grego estava quase sempre associado à arte de curar. Grande número de deuses e personagens da mitologia grega tinham, entre seus atributos, o dom de curar doenças e feridas de guerra.
Platão descreveu a necessidade da nova postura do médico no livro Político:
“Estrangeiro: É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las à sua própria cidade senão com o consentimento de cada cidadão; de outro modo, não.
Sócrates, o Jovem: Muito bem! Não estarão eles certos?
Estrangeiro: Talvez. Em todo caso, se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos procedentes.
Sócrates, o Jovem: Que queres dizer?
Estrangeiro: Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente; senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou a uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas ineptas por parte de médicos que as puseram.
Sócrates, o Jovem: Dizes a pura verdade.
Estrangeiro: Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?”

Nunca é demais repetir esse diálogo porque refletiu uma explosão coletiva de consciência, como as que seguem as rupturas com o conhecimento acumulado, a ponto de refletir precisamente a nova posição social assumida pelo médico, capaz de poder interferir politicamente para modificar o conjunto social.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

terça-feira, 25 de julho de 2017

Você pode. Nós podemos


Pedro Lucas Lindoso


Há alguns anos era inimaginável que o filho de um queniano negro seria eleito presidente dos Estados Unidos. E reeleito. Enquanto no Brasil um metalúrgico nordestino também, surpreendentemente, foi eleito para presidir o país. Também reeleito.
Obama não pode mais ser presidente. Como ex-presidente, goza de prestígio e reconhecimento. Está “numa boa”. Não é caso de nosso metalúrgico. É candidato novamente, o que é proibido constitucionalmente nos EUA. E ainda responde a acusações e processos. Não está, como seu colega Barack Obama, “numa boa”.
 É lamentável que nossas ainda frágeis instituições democráticas não sejam fortes o suficiente para evitar graves desmandos das máquinas partidárias. Assim como as práticas recorrentes de corrupção. Acusações de malfeitos envolvem todos os partidos, independente do viés ideológico.
 A população está descrente dos políticos. Isso é triste e perigoso.
O povo do Amazonas está sendo convocado para escolher, extemporaneamente, um novo governador. Em meio a muita descrença, ouço que vários vão se abster ou votar em branco.
Sou contra o voto em branco e a abstenção. O político exerce um mandato. O instrumento de um mandato é sempre uma procuração. Ora, alguém exerce o mandato porque o povo escolheu. Se você votou em branco eu entendo que você está abrindo mão de escolher seu “mandante”. Você está dizendo, em outras palavras, “façam o que quiserem”.
Lula foi eleito convencendo o povo a não ter medo de ser feliz. O povo podia eleger um metalúrgico de esquerda. Obama foi eleito convencendo o povo de que também podia. Sim você pode. “Yes, you can.”
Eu acredito nisso. O Povo pode. Só você pode mudar o Amazonas. É isso. Só você pode. Só exerce um mandato quem tem uma outorga. Ou seja, um consentimento, uma concessão do povo. A necessária e definitiva aprovação.
Por isso eu insisto: não vote em branco. Nunca. Não dê cheque em branco. Jamais. Não assine papel em branco. Só uma pessoa pode mudar nossa cidade, nosso estado e nosso país: você.
Você pode. Nós podemos.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

O escritor como criador de mundos


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domingo, 23 de julho de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXVI


Lançamento de livro de Elson Farias (foto 1/2), anos 1960.
Da esquerda para a direita: Narciso Lobo, Márcio Souza, Luiz Maximino (de paletó), Luiz Ruas (de óculos escuros), Elson Farias (ao fundo, de paletó) e Luiz Bacellar (em primeiro plano, de paletó claro). 

sábado, 22 de julho de 2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Anavilhanas, vésperas


Zemaria Pinto


o coral dos encantados
vestido em verde/arco-íris
acompanha-se de naipes
invisíveis

a percussão da água
as cordas do vento
os sopros do sol
até o último
movimento

a capela, em pianíssimo,
a noite
com seus sussurros

Influência da astrologia na medicina


João Bosco Botelho


O encantamento pela astrologia como prática divinatória consolidou-se nos primeiros núcleos urbanos, em torno de quatro mil anos atrás.
As práticas divinatórias astrológicas continuam mantendo relações próximas com as antigas crenças e ideias religiosas estruturadas na Mesopotâmia.
Os vestígios dessa interessante dependência entre as pessoas e os astros reconhecíveis no céu estrelado podem ser rastreados em alguns registros da escrita cuneiforme. O sinal gráfico correspondente ao divino ─ elemento incomensurável e todo-poderoso do passado e do futuro ─ é o mesmo que designa a palavra estrela. Os deuses babilônicos Schamasch, Sin e Ischtar eram os guardiões do céu sob a forma do Sol, da Lua e do planeta Vênus, os três astros mais destacados do firmamento.
  Assim, a força da astrologia na modernidade não deveria causar tanta admiração. A fé no poder dos astros determinando o destino das pessoas e do mundo é tão antiga quanto as primeiras aglomerações urbanas.
Algumas palavras atuais estão repletas de significado astrológico. O prefixo latino menstruus, que originou menstruação, está ligado ao processo repetitivo de vinte e oito dias do mês lunar.
  Apesar das adaptações adquiridas também com os novos saberes sobre os elementos visíveis no firmamento, a astrologia divinatória conservou a primitiva estrutura de sedução: utiliza a adivinhação dedutiva, a partir da interpretação do movimento astral.
  Os médicos medievais, entre os séculos 8 e 11, criaram situações bizarras ao utilizarem a concepção neoplatônica de similitude entre o macrocosmo e o microcosmo, construindo extremados prognósticos astrológicos. Nesse período, predominava a certeza de que a saúde, a doença, a boa sorte, o azar, a sexualidade e a procriação estavam sob a decisiva influência dos astros.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ilação. Serve para quê?


Pedro Lucas Lindoso


“São só ilações”, explicou o presidente a todos os brasileiros, sobre as denúncias a que ora responde no Congresso Nacional.
Todas as vezes que me deparo com uma palavra considerada “difícil” ou desconhecida do falante médio do português, me vem à mente o clássico conto de Arthur Azevedo – Plebiscito.
Quando é dita por autoridade constituída, explicando algo aos brasileiros, me lembro do escândalo da parabólica. Rubens Ricúpero, no ano de 1984, então ministro da Fazenda do Brasil, enquanto se preparava para entrar no ar ao vivo no Jornal Nacional, afirmou: "Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde." Essa transmissão foi feita por meio do canal privativo de satélite da Embratel, acessível, naquela época, somente por antena parabólica.
Eu sempre faço o teste dos porteiros. Naquele dia perguntei ao porteiro de meu prédio:
– Pereira, você tem escrúpulos? No que ele respondeu:
– Nunca peguei esse troço, não doutor.
O que me levou à ilação de que no máximo dez por cento da população brasileira sabia o que era escrúpulo. Mesmo assim o ministro caiu.
Há alguns anos, no mesmo Jornal Nacional, o Ministro Marco Aurélio usou a locução latina “a priori”. William Bonner poderia ter explicado “a posteriori” a expressão utilizada pelo magistrado. Nem todos os brasileiros são bacharéis em Direito. Graças a Deus.
“São só ilações” é uma expressão usada quando queremos afirmar que um dado não é de todo preciso, que é baseado apenas em vagas deduções. Ao ouvir isso do presidente, resolvi fazer novamente o teste do porteiro.
O porteiro de onde moro atualmente não se chama Pereira. Chama-se Wallysson, e ao ser perguntado se sabia o que era ilação, me respondeu:
– Serve mesmo para que, doutor?
Na época dos escrúpulos achei que só dez por cento dos brasileiros entenderam o Ministro. Como a Educação piorou muito, a ilação que faço é que provavelmente só um por cento da população sabe o significado dessa palavra.
Mas acho que Wallysson tem razão. Ilação. Serve mesmo para quê?
Em anexo, para os que não conhecem, o magistral conto, já centenário, mas atualíssimo, de Arthur Azevedo. Vale a pena ler ou reler.


Plebiscito – conto de Artur Azevedo

A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário-belga. Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio. De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
— Papai, que é plebiscito?
O Senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente, para fingir que dorme. O pequeno insiste:
— Papai?
Dona Bernardina intervém:
— Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal. O Senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
— Que é? Que desejam vocês?
— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
— Se soubesse não perguntava.
O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…
— A senhora o que quer é enfezar-me!
— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!
— Proletário, acudiu o Senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
— Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: “Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho”.
O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
— Mas se eu sei!
— Pois se sabe, diga!
— Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
E o Senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta. No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário…
A menina toma a palavra:
— Coitado do papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
— Não fosse tolo — observa Dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!
— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
— Sim! Sim! Façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa e vai sentar-se na cadeira de balanço.
— É boa! — brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio; — é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…
A mulher e os filhos aproximam-se dele. O homem continua, num tom profundamente dogmático:
— Plebiscito…
E olha para todos os lados, a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
— Ah! — suspiram todos, aliviados.
— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...