Amigos do Fingidor

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Poesia: a linguagem como construção e evocação da vida



Aborto como método anticoncepcional: tragédia social dos pobres 2/3


João Bosco Botelho


A Bíblia, mesmo contendo inúmeras referências específicas sobre a organização familiar, não cita uma só vez a prática abortiva. É como se o fato, que incontestavelmente deveria ocorrer, não tivesse importância social.
A mais antiga e clara referência cristã antiabortiva está no Didaqué, manual ético moral, escrito nos anos 100: "Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida". Essas regras influenciaram o filósofo cristão Tertuliano (190 197). Nos seus escritos abandonou a antiga abertura aristotélica, aceita em muitas comunidades do mundo greco-romano, e adotou a posição antiabortiva absoluta: "É homicídio antecipar ou impedir alguém de nascer. Pouco importa que se arranque a alma já nascida ou que se faça desaparecer aquela que está ainda por nascer. É já um homem aquele que virá".
Apesar de o Concílio de Elvira (305) ter ameaçado de excomunhão todas as mulheres que abortassem após adultério, essa questão apaixonou muitos intelectuais do século 4. Como não existem registros refutando ou punindo o aborto, é provável que mesmo com o freio conciliar, predominou a tradição permissiva do aborto.
São Jerônimo (331-420), um dos quatro grandes doutores da Igreja, em correspondência endereçada à Algasia, argumentou que “... não se pode falar de homicídio antes que os elementos esparsos recebam a sua aparência e seus membros".  Em outra carta, o monge de Belém considerou as mulheres que escondiam a infidelidade conjugal com o aborto como culpadas de triplo crime: adultério, suicídio, assassinato dos filhos.
Grande parte da proposta teológica da Igreja em torno do aborto provocado está contida nas publicações de Santo Agostinho, escritas no final do século 4. Santo Agostinho, o genial teórico do cristianismo, argumenta que todos os seres humanos nascem em pecado por serem concebidos em pecado, porque o primeiro homem, Adão, pecou. Essa fantástica articulação teórica – a doutrina do pecado original – foi consagrada como doutrina oficial da Igreja Católica. É muito sugestivo que a doutrina agostiniana está, intimamente, associada à sexualidade proibida. Esse notável intelectual dos primeiros anos do cristianismo foi bastante competente para convencer outros fiscais da sexualidade, no milênio seguinte: “Estou convencido de que nada afasta mais o espírito do homem das alturas do que os carinhos da mulher e aqueles movimentos do corpo sem os quais um homem não pode possuir sua esposa.”
Nesse conjunto de cristianização, surgiram as festas saudando a vida concebida pela vontade de Deus. A da Natividade do Senhor foi uma das primeiras, fixada no fim do século 4, iniciando os atributos de sacralidade das concepções. Sem que possamos precisar a temporalidade, foi seguida da natividade da Imaculada Conceição de Maria, celebrada no dia 8 de dezembro, no século 6, e da Anunciação, ou "festa da concepção de Cristo", no século 7. Essas celebrações cristãs iniciaram o sólido processo substitutivo das festas com significados semelhantes, oriundas da tradição politeísta, impondo a simbologia sagrada à gestação.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Caminhos


Pedro Lucas Lindoso


Minha mãe me repreendia quando eu, menino de calças curtas, dizia que iria a um lugar e depois rumava para outro. Ela chamava isso de “emendar caminho”.
A geração que viveu os anos 60 e 70 jamais esquecerá a emblemática música de Geraldo Vandré – Pra não dizer que não falei das flores. Sempre que falo ou penso em caminhos, me vem à mente:
Caminhando e cantando e seguindo a canção.
Somos todos iguais braços dados ou não...
Há uma outra dessa época:
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…
Grande Caetano...
Uma das expressões favoritas de meu amigo Chaguinhas, quando fica indignado: É o fim da picada! Contou-me que uma vez, aborrecido com um taxista em Nova Iorque, exclamou:
– It’s the end of the picaede! Claro que ninguém entendeu. Esse Chaguinhas!
Por falar em Inglês, um dos poemas mais bonitos de Robert Frost é “A Road not taken”.  “A estrada não viajada”. Ou, como prefiro, "O caminho que não tomei". Vejam os dois primeiros e os dois últimos versos, no original:
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Há muitas traduções por aí. Nenhuma perfeita. Incluindo esta minha:
Duas estradas bifurcavam-se no bosque outonal
E lamentando não poder seguir viajando em ambas
Eu escolhi a menos viajada
E esta escolha fez toda a diferença.
Mas ninguém supera Carlos Drummond de Andrade na profundidade e singeleza destes versos, no festejado poema “No meio do caminho”:
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Enfrentando o trânsito infernal das grandes cidades, temos que ir “cortando caminhos”, muitas vezes por lugares sem muita segurança. Vivemos montados em carros, mas caminhando como “coelhos automotivos”, por aqui e por ali, na pressa urbana diária. E ainda nos valendo de aplicativos como o “waze”, que nos indica  a “coelhar” por onde há menos trânsito.
Felizes os que ainda fazem o “caminho da roça”, na tranquilidade das pequenas vilas do interior...



domingo, 10 de dezembro de 2017

Manaus, amor e memória CCCXLVI


A Catedral vista do porto, quando ainda não havia porto.


sábado, 9 de dezembro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Isis, the Goddess.
Tony Hough.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Paisagens Mortas 1


Estação da vazante.

Pelo Maçarico, Mamori e Juma, as águas baixas deixam os rastros de sua passagem – a paisagem fala por si.

Fotos: Zemaria Pinto, novembro/17.




















ARU - revista de pesquisa intercultural



Aborto como método anticoncepcional: tragédia social dos pobres 1/3


João Bosco Botelho


No cotidiano das maternidades públicas, em Manaus, ocorrem atendimentos de dezenas de mulheres grávidas, no primeiro trimestre, em trabalho de aborto incompleto, a maior parte provocado pelo uso oral de substâncias químicas ou pelo manuseio criminoso da cavidade uterina. Essas mulheres chegam aos hospitais com hemorragia e infecção, algumas em risco de vida. Todas são submetidas às curetagens uterinas salvadoras! A quase totalidade tem pouca escolaridade, mora na periferia urbana e em favelas.
As informações do DATASUS são impressionantes! Em algumas maternidades são realizadas mais curetagens para do que partos. O estudo realizado pelo Instituto do Coração evidenciou, entre 1995 e 2007, que a curetagem uterina pós-aborto aparece como a cirurgia mais realizada no Sistema Único de Saúde (SUS). Os números mostram a gravidade do problema de saúde pública: em 2015, 181 mil; em 2014, 187 mil e em 2013, 190 mil.
As estatísticas dos abortos provocados, no mundo, mostra com clareza aproximadamente 97 países, cerca de 66% da população mundial, que têm leis permissivas ao aborto como método anticoncepcional, até determinada idade fetal; em outros 93 países, em torno de 34% da população, só é permitido o aborto apenas em situações especiais como má formações congênitas comprometendo a vida fetal, estupro e risco de vida para a mãe.
Nos países, onde o aborto como método anticoncepcional é permitido e amparado pelo Estado, as leis autorizam a interrupção da gravidez variando entre 10 semanas, na França, desde 1975, até 28 semanas, na Inglaterra, desde 1967.
A difícil análise dos abortos provocados como método anticoncepcional, nos países tropicais, poderia iniciar com a pergunta: o que se mostra tão sedutor a essas mulheres, capaz de lhes dar força para tomar uma atitude capaz de provocar sequelas definitivas e a morte?
Dessa forma, tentar reduzir o problema aos limites socioeconômicos não é suficiente para explicar porque, ao longo de muito tempo, em diferentes culturas, certas mulheres arriscam a vida para interromper a gravidez não desejada. Os registros informam que o aborto nunca deixou de ser realizado nos quatro cantos do planeta, contudo sob diferentes interdições.
Não existem citações ao aborto provocado tanto no código de Hammurabi, do século 17 a.C., quanto nas leis de Eshnunna (1825 a 1787 a.C.), dois dos mais severos conjuntos de leis, no escravismo politeísta, que englobavam muitos aspectos da vida social, inclusive o erro médico.
Na Grécia antiga, do século 4, o juramento de Hipócrates, oferece, num primeiro momento, a clara tendência antiabortiva dos médicos gregos, da Escolas de Cós, onde se localizava o hospital-escola de Epidauro: "...Não darei venenos mortais a ninguém, mesmo que seja instado, nem darei a ninguém tal conselho e, igualmente, não darei às mulheres pessário para provocar aborto...". Outra abordagem dos princípios éticos hipocráticos aponta a valorização primordial da vida; logo, a proibição ao aborto e outras cirurgias se assentava no fato de que as complicações poderiam causar a morte da grávida. Sob esse argumento, a interdição ao aborto provocado, no juramento hipocrático, longe de representar impedimento de natureza moral do ato abortivo em si mesmo, esta atada à decisão fundamental do médico grego em manter a vida da paciente.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Pão, pão; queijo, queijo


Pedro Lucas Lindoso


Nascido em família católica, fiz primeira comunhão ainda menino de calças curtas. No catecismo, fui ensinado que pão era alimento sagrado. A hóstia consagrada só poderia ser tocada pelo sacerdote. Caso a hóstia caísse do cálice, não se podia pegá-la. Somente o padre. Recebia-se a comunhão diretamente na boca.
O Concílio do Vaticano II acabou com essa e outras práticas superadas pelos anos, pelo bom senso e cientificidade. Graças a Deus e ao grande papa João XXIII, o papa do “aggiornamento”. O concílio modernizou e deu novos ares à Igreja Católica. Passou-se a poder pegar na hóstia, inclusive para comungar. 
Morávamos na Rua Henrique Martins. O pão era comprado na padaria da família Grosso, na Avenida Sete de Setembro, perto de casa. Às vezes me mandavam comprar pão.
– Dois quilos de pão de massa grossa.
Um dia a manteiga parecia rançosa. Joguei o pedaço de pão no lixo. Uma prima velha de meu pai me repreendeu:
– Não se joga pão fora. É alimento sagrado. Isso é pecado!
Em Brasília, não se falava pão de massa grossa. Quando lá cheguei e fui comprar pão, a moça da padaria sorriu e perguntou:
– O que é pão de massa grossa?
Levei para casa uma dúzia de “pão francês”.
Em Brasília tem ainda o pão “careca”, para hambúrguer. Aqui se come como “pão de massa fina”.
Minas Gerais é a terra do pão de queijo. O melhor que já comi foi na mineira Araxá, terra de dona Beija.
Americano gosta de pão de forma. Já o verdadeiro pão francês, comprado nas “boulangeries” de Paris, é delicioso. Nada de similar com o nosso “pão francês”. Mas é aqui na América Latina onde se vê com mais frequência o francês croissant. 
Hoje há uma grande variedade de pães em nosso país. Em São Paulo come-se um delicioso pão italiano. Tem pão de milho, de batata, de beterraba, pão de queijo, de chocolate, de canela. Tem o pão caseiro e o pão natural. Tem o pão brioche e o manteiguinha. E, claro, o prestigiado pão integral, com grãos e sem grãos. E muitos outros.
Tem até o “pão que o diabo amassou”. Mas esse eu nunca provei e nem quero. Mas dizem que há gente que já comeu! “Cruz credo”, como diria minha mãe.
Até hoje fico constrangido em jogar pão no lixo. Vem na minha mente a reprimenda de que pão é sagrado. Quanta ignorância é repassada às crianças. Noção equivocada de pecado. A Igreja deveria canonizar Freud. Só ele explica e nos livra de tanto mal. Amém.
     Os nutricionistas de hoje em dia estão proibindo os gordinhos de comer pão. Descobri que eles têm certa razão. Eu gosto muito de pão e vejo que realmente engorda. Ouve-se que o trigo que nós consumimos é transgênico. Não só engorda como faz mal à saúde.
Outros põem a culpa no glúten. Ainda bem que se vende pão sem glúten. E viva a nossa tapioquinha! Essa sim parece definitivamente abençoada. É livre do terrível glúten. Espera-se que o agronegócio não invista em macaxeira transgênica. Deixem a goma de fazer tapioquinha sem glúten, por favor.
Minha querida tia Idalina diz que esse negócio de glúten e trigo transgênico é tudo bobagem. E vive dizendo:
– Comigo é assim: Pão, pão; queijo, queijo.
De minha parte, loas a nossa tapioquinha!



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

sábado, 2 de dezembro de 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Leitura dramática: Estrela de Belém, uma jornada ao ventre da floresta





Estrela de Belém, uma jornada ao ventre da floresta, nasceu de uma demanda da prefeitura de Santa Isabel do Rio Negro, que está com uma forte atuação na área cultural, a cargo de Bosco das Letras. A ideia era montar um auto de natal, com cores regionais, de modo a proporcionar a identidade da população local com a atividade dramática. O diretor Nonato Tavares foi o encarregado de arregimentar o necessário para viabilizar a solicitação. Tavares contatou com o dramaturgo Zemaria Pinto, que aceitou de pronto o desafio. Detalhe: o tempo era muito exíguo, pois o segundo semestre do ano já estava em curso. Com a primeira parte do texto pronto, o diretor viajou a Santa Isabel, para a escolha de elenco e local da encenação. Infelizmente, entretanto, o projeto não vingou. Não para este ano, pelo menos. Com o texto completo, Nonato e Zemaria resolveram mostrar ao público o resultado do trabalho na forma de leitura do texto. Assim, no próximo sábado, 2 de dezembro, no MUSA do Largo, o diretor e o autor, mais doze atores, estarão promovendo a leitura do auto de natal Estrela de Belém, uma jornada ao ventre da floresta.
A peça divide-se em duas partes: “A viagem” e “O encontro”. A primeira parte se passa dentro do barco apropriadamente chamado “Estrela de Belém”, aquela que, segundo a tradição cristã, guiou os reis magos até a manjedoura onde nascera Jesus. Nesse barco viajam vários personagens. A maioria vai para Santa Isabel do Rio Negro sem saber bem a razão. Começam tensos, mas aos poucos vai se instalando um clima de harmonia dentro do barco, até a chegada à cidade.
A segunda parte mostra o encontro dos viajantes com representantes da população local: o pajé Coaraci e o casal de índios José e Maria, pais da pequena Maria de Jesus. Os nomes dos pais e da criança têm relação clara com o natal; porém, a intenção do texto é passar ideias de valores que vão muito além das religiões: valores humanos, aceitos por todos aqueles que acreditam que o mundo pode ser um lugar de paz entre os povos e entre os indivíduos. Os viajantes fazem oferendas à pequena Jesus e a jovem Manu transforma as falas em canções.
Para quem acompanha a tradição dramática brasileira, o autor, Zemaria Pinto, explica que utilizou a estrutura de Morte e vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, publicado em 1955, tanto na divisão em duas partes (viagem e encontro) quanto na forma poemática. Mas enquanto João Cabral faz de seu poema um libelo pela reforma agrária, Zemaria coloca seus personagens no centro dos problemas mais imediatos do século XXI: depressão, solidão, abusos sexuais, fragilização da estrutura familiar etc. Mas a chama da esperança é mantida acesa, com o nascimento de Maria de Jesus – uma alegoria da renovação da vida e da valorização da mulher na sociedade deste novo século.     
(release) 


Lembranças da Vivizinha e do pai


João Bosco Botelho


Mais de meio século depois, lembro-me do que penso ter sido o mais importante episódio da minha iniciação literária, que culminou com a descoberta de Capitu, personagem imortal de Machado de Assis. A minha memória aviva-se expondo com suavidade o espaço-tempo onde esses acontecimentos se iniciaram: o Colégio D. Pedro II, em Manaus, e empurram-me para março de 1960.
A edificação quadrilátera do Colégio D. Pedro II, composta de dois andares e um subsolo, no sentido sul-norte, com amplo pátio interno, possibilitava manter a circulação de ar capaz de amenizar o calor tropical. A sala 201, na ala leste, no segundo andar, aquecida pelo sol da manhã, refrescava-se pelo vento morno vindo das três largas janelas, voltadas à avenida 7 de Setembro. 
Nessa sala, sentado na quinta fila, próxima da porta, nos primeiros dias de aula, ainda explodindo de orgulho por ter sido aprovado no exame de admissão, eu vi pela primeira vez a gorda e simpática professora de Canto Orfeônico, a Vivizinha. Ela entrou na sala, passou ao meu lado, farfalhando a saia rodada multicolorida, blusa de cambraia de linho, bordada com motivos florais, e os cabelos grisalhos impecavelmente arrumados num coque.  Após chamar nominalmente cada um dos trinta alunos, apresentando um leve tremor ritmado da face e das mãos, explicou que estava substituindo o adoentado professor de português.
Então, a turma de adolescentes, pouco interessada, ouviu a mestra falar sobre a sonoridade da leitura.  Para que pudéssemos entender como é possível ouvir sons quando lemos, após dividir a turma em cinco grupos, Vivizinha vaticinou: ─ Vocês lerão Dom Casmurro, escrito por Machado de Assis, e cada grupo fará o resumo, que será apresentado na aula da próxima semana. Seguiu-se dramático mal-estar, olhávamos para os lados e buscávamos o apoio que não chegou. Fora da assídua leitura do Mandrake e do Fantasma, nunca havia lido outro livro. Não tinha a menor ideia de quem era Machado de Assis.
Ao pedir silêncio e acalmar os mais inquietos, Vivizinha interferiu na hora certa e com a bondade requerida pela ocasião. Com o Dom Casmurro na mão trêmula, explicou lentamente o que representava a obra romanesca. Ainda sem ser levada a sério, dissertou sobre o papel do narrador, como era possível o autor escrever na primeira ou na terceira pessoa, os personagens, o ambiente, a ação e a ligação entre eles. Ninguém compreendeu nada! Mais uma vez, a mestra pediu silêncio. Com a voz melodiosa, sem conseguir esconder o tremor facial, iniciou a leitura de Dom Casmurro, no trecho onde o Machado explica aos leitores de onde apareceu o título, tanto o Dom quanto o Casmurro. De tempos em tempos, Vivizinha ressaltava a genialidade do autor no uso preciso das palavras.
Quando a campainha tocou indicando o fim do segundo tempo, significou o alívio salvador. Mas a tarefa estava posta e valia nota. Ninguém ousaria desobedecer.
No almoço, na minha casa, pontualmente às 12 horas, com toda a família reunida, em torno da grande mesa quadrilátera, eu expliquei ao meu pai que precisava comprar o tal livro de Machado de Assis.  Os seus olhos azuis claros olharam-me atentamente e disse-me que eu encontraria o Dom Casmurro numa determinada prateleira, da biblioteca dele, onde estava a coleção de Machado de Assis. Com a família atenta, o meu pai perguntou por que, eu expliquei a tarefa do impertinente resumo e, imediatamente, ofereceu-se para ajudar. Maravilhado, aceitei. Ele sugeriu que, após a leitura, conversaríamos no sábado.
Logo após o almoço, a abertura das portas de vidro lapidado nas extremidades da enorme estante descortinou-me outro mundo. As centenas de livros ocupavam as seis prateleiras, mas encontrei facilmente a coleção machadiana e o Dom Casmurro.
A leitura de Dom Casmurro terminou dois dias depois, sem o entusiasmo sentido nas revistas do Fantasma e do Mandrake, ambos prendendo os bandidos, mas, eu li, com repetidas consultas ao dicionário, tornando a obrigação escolar mais cansativa.
No sábado, no meio da manhã, encontrei o meu pai na biblioteca, sentado à grande mesa de mogno preto. Aquela manhã memorável, pouco a pouco, tornou-se deslumbrante pela surpresa de como o meu pai ajudava-me a redigir o resumo, trazendo o drama: afinal, a Capitu teria sido ou não infiel ao marido apaixonado? Então, naquela hora, ouvindo-o, percebi a mágica sonoridade da linguagem escrita!
Sem esforço, eu ouvi a agonia de Bentinho ao desconfiar da traição de Capitu! O mundo da imaginação estava, definitivamente, descortinado na minha história de vida!
Na aula seguinte, ainda substituindo o professor de português, a inesquecível Vivizinha coordenou, com impressionante entusiasmo o debate literário. Os dois tempos de aulas foram insuficientes para conter o confronto do imaginário dos adolescentes, alguns enaltecendo, outros condenando a Capitu.
As duas aulas de Vivizinha marcaram a minha escolaridade. Mais de meio século depois ao ousar romancear, compreendi que a didática da bondosa professora e a do meu pai havia moldado o meu rito de passagem das histórias em quadrinhos para o insuperável Machado de Assis.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Waiting for battle.
Raul Cruz.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Cores da vida


Pedro Lucas Lindoso


Neurocientistas explicam que cores não existem em si mesmas. Resultam de uma função cognitiva que acontece no cérebro e nos olhos humanos ao decifrar a realidade.
Meu pai gostava muito do amarelo. Coincidentemente, um lindo ipê amarelo floresceu perto de seu túmulo, no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília.
Eu não tenho uma cor favorita. Sou torcedor do boi Garantido, mas não me recuso em usar a linda camisa azul carinhosamente comprada pela minha esposa Vera. Um terno azul sempre é muito estiloso. Uma linda mulher jovem num vestido vermelho é sensacional. Gosto muito do bege para roupas, mas jamais teria um carro dessa cor.
Há pessoas que abominam determinadas cores por razões políticas ou ideológicas. Lamentável. Há ainda os times de futebol com suas cores e torcidas. E ainda, claro, as cores das seleções dos países que se enfrentam nas copas mundiais. Seriam os jogos de futebol um simulacro moderno das batalhas tribais dos homens primitivos? Com a palavra os antropólogos.
O uso das cores e suas contradições. Penso que a Coca-Cola com sua cor vermelha reluzente simboliza com perfeição o capitalismo. Daí o contraste com as bandeiras vermelhas dos partidos socialistas.
Com o país dividido, alguns cidadãos que usavam a camisa da seleção em jogos do Brasil dizem que estão constrangidos em face ao uso político ideológico da nossa camisa canarinho. De outra banda, há os que sugerem que o Papai Noel apareça no Natal de verde-amarelo, abandonando a roupa vermelha. Deplorável, repita-se.
Às vezes penso que os neurocientistas estão certos. Desde que conheci minha esposa, amiga e companheira Vera, há mais de 35 anos, as cores em minha vida se tornaram mais brilhantes. Mais definidas e precisas.
Entretanto, ao observar amorosamente o tom azulado dos olhos de minha netinha, Maria Luísa, não posso concordar com a assertiva de que as cores não existam.
E agradeço ao Criador do Universo que me possibilita, por função cognitiva ou não, por meio dos meus olhos perfeitos, apreciar as belas cores da vida.

domingo, 26 de novembro de 2017

sábado, 25 de novembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

os olhos da moça loura


                                             Zemaria Pinto


os olhos da moça loura
passeiam no corredor
carregando o corpo magro
as mãos de lis matizadas
e a palidez de um sorriso
carregado de pudor

o corpo da moça loura
passando no corredor
envolto em véus de mistérios
lembra vultos vaporosos
de românticas donzelas
do tempo do imperador

ah moça loura que passa
que passa no corredor
dá-me teus olhos de água
dá-me tua boca, teus seios
dá-me teu sorriso pálido
dá-me dá-me tua dor




Carnaval: festa de ricos e pobres


João Bosco Botelho


É possível que a festa correspondente ao atual carnaval tenha começado entre as muitas que comemoravam os frutos da mãe-terra e os favores recebidos das forças da Natureza. As máscaras dos demônios tutelares e dos animais das florestas eram utilizadas como forma de aproximação com os deuses protetores.
A associação das festividades romanas das saturnais com o deus Baco foi concretizada, no medievo, possivelmente relacionada à leitura de Teodósio Macróbio, autor do século 4, e estudado como fonte de informação nos dez séculos seguintes.
Com a consolidação do cristianismo no Ocidente, o poder eclesiástico intensificou as medidas repressivas para anular as influências greco-romanas remanescentes nas populações. Uma das alternativas adotadas foi associar as festas da saturnália aos loucos.
Mesmo com toda a repressão da Igreja, as festas populares medievais que mantinham alguma relação com simbolismos da loucura continuaram sendo realizadas. Parece que estas comemorações foram intensificadas, a partir de 1466, com a medida do Duque da Borgonha em conceder certa quantia em dinheiro para que se realizassem com pompas.
Nesses dias de relaxamento das tensões sociais, as pessoas se sentiam autorizadas para representar a desordem e a contestação. Pode-se reconstruir, nos registros disponíveis das festas medievais, que os ornamentos e máscaras utilizadas desafiavam os interditos e exaltavam esta ou aquela brincadeira proibida. É certo que as máscaras expressavam simbologia mais ampla. Ao que parece, e como ainda hoje, detêm certos significados de protestos sociais.
Os documentos das festas carnavalescas no Brasil, no século 17, mostram que apesar das proibições, eram realizadas nos quatro dias anteriores à Quarta Feira de Cinzas, com o nome ENTRUDO.
O processo de mudança do carnaval no Brasil intensificou-se, na primeira metade do século 19, quando ficou caracterizado como festa dirigida e orientada pelas elites. Era mais divertimento dos brancos e ricos. Se algum grupo de negros tentasse fazer o próprio carnaval, era violentamente reprimido pelas forças de segurança, a partir do pressuposto da violência que poderiam acarretar.
Entre as transformações urbanas ocorridas no Brasil, a partir dos anos 1950, o carnaval também mudou: tornou-se festa popular dos pobres. As escolas de samba foram fortalecidas e as camadas mais pobres passaram a participar ativamente na organização dos desfiles: milhares de desempregados se transfiguravam, durante quatro dias, em atores e espectadores dos mecanismos de afrouxamento das tensões socais.
No Amazonas, o curso não foi muito diferente. O fortalecimento das festas de rua, antes, mais entre os ricos, está relacionado à formação do operariado do distrito industrial. O carnaval tornou-se importante para milhares de trabalhadores moradores nas periferias urbanas de Manaus, submetidos às fortes tensões da sobrevivência.

Os atuais estudos facilitam a compreensão de que as festas romanas e o carnaval não parecem ter sido, em nenhuma época, a celebração do louco ou da loucura. Ao contrário – como festa ponta-cabeça – participa da superação pessoal e coletiva do controle das tensões sociais de pobres e ricos.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Life is a dance in the rain.
Adrian Bordan.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Reparar – verbo transitivo


Pedro Lucas Lindoso


A Gramática nos ensina que verbos transitivos são verbos que, tendo sentido incompleto, necessitam de um complemento verbal para completar o seu sentido, ou seja, necessitam de um objeto direto e/ou objeto indireto.
Um bom exemplo de verbo transitivo é o verbo reparar. Realmente, reparamos sempre algo ou alguém. O verbo reparar tem vários significados: restaurar, consertar, retratar-se, aperfeiçoar, dentre outros.
Mas aqui no Amazonas é muito usado no sentido de “fixar atenção, observar”. Ou seja, como diz o caboclo: “tomar de conta”.
O guardador de carros nos pergunta ao estacionarmos o carro:
– Posso reparar, doutor?
Meu amigo João Grijó diz que quando havia festas no interior seus pais sempre lembravam que ele deveria “reparar” sua irmã. É sempre assim. Os pais, zelosos com suas filhas adolescentes, costumam pedir ao filho mais velho para não deixar de “reparar” suas irmãs. Podem atribuir a obrigação a qualquer outra pessoa. Mas a responsabilidade do irmão mais velho é emblemática e cultural.  Principalmente quando um moço de roupa branca e chapéu se aproximar. Pode ser o boto.
Usa-se muito “reparar” no sentido de olhar.
– Repara só! Diz a mulher a sua comadre, apontando o malfeito de alguém.
Mas o verbo reparar, no sentido de “observar”, “tomar conta de alguém” passou a ter um significado especial depois que Maria Luísa, minha netinha, começou a andar e descobrir as coisas e o mundo.
Ela é uma graça. Inteligente, falante e curiosa. Como não tem noção ainda de todos os perigos do mundo e das coisas, é preciso que alguém esteja sempre “reparando” a garotinha.
Outro dia fiquei incumbido de “reparar” Maria Luísa. Pode ser um pouco cansativo, fisicamente, porque ela gosta de andar de um lado para outro. Mas é obediente e muito charmosa. Sempre usa laços de fita no cabelo e é muito vaidosa.
Ora, reparar é um verbo transitivo e nada nos dá mais contentamento do que “reparar” essa pessoinha tão amada, repleta de fofurice. É um grande contentamento “reparar” Maria Luísa.


domingo, 19 de novembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Canção sem esperança


Ao Paulo Graça,
navegante do insondável*


I

Não era ainda a hora de te escrever
por isso fui ao Averno
como fazíamos todas as sextas
e mergulhei meu sangue engordurado
em miligramas de moléculas de álcool

Mas já não havia o absinto de uso exclusivo dos românticos pálidos

II

Na passagem pelo Estige
sempre ponto obrigatório
vi que o alfanje prateado
sangrava recém-usado

Perguntei-me quem seria
o destinado a empunhá-lo

III

Ah, pântanos da memória
desabrochai em begônias
gardênias gerânios rosas
asfixiando o enxofre
que exalam vossas entranhas
palude paul pauis

IV

Ouço soluços ao lado
um espectro de mulher
a face descarnada as mãos trementes
implora-me um mísero trago
(ao fundo a music box
aspergia sobre nós
os nós de notas e sílabas
de um tango retrô-pós)

V

Em vão a busca prossegue
nos vãos dos leitos impuros

No Flagetonte ou no Aqueronte
meu corpo cambaleia relutante
sob o peso dos vícios
que me incutiu a nave de Caronte

VI

Às portas do Letes o dia se levanta
e eu sorvo o esquecimento
em lentos goles de quinino
(o líquido me queima os lábios e as entranhas
num rito de reencontro
com algo que não perdi)

VII

Por entre a turba apressada
meu corpo segue em direção contrária
na boca um gosto amargo
e um peso indefinido me oprimindo o peito
além de uma certeza

não era ainda a hora de te escrever



(*) O escritor Antônio Paulo Graça (23/11/1952–09/06/1998) estaria completando 65 anos na próxima quinta-feira.