Amigos do Fingidor

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Inventário em tempo sobre meu pai (1/3)

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Allison Leão


Para Raimundo Pereira

I


Antes – antes eu era apenas curioso – eu ainda perguntava a meus irmãos a respeito de nosso pai. Mas eles quase nunca me davam informações. Os mais velhos diziam não saber e os mais jovens, não conhecer. Há alguns anos, vendo-me brincar com ferramentas, meu terceiro irmão ralhou comigo, mas depois se distraiu e falou que papai devia ter começado assim, brincando. Desde então tento construir a face de meu pai, às vezes muito movimentada, acompanhada de vários gestos largos, com braços que o tempo inteiro me convidam. Outras vezes, vejo-o calado, estreito. Mas em geral essas tentativas de pintura são interrompidas pelos ecos que vêm de algum lugar do quintal. Mesmo assim, não posso dizer que desconheço papai. Além do pouco que já me foi dito sobre ele, há essa presença sonora constante, toda noite, que, muito embora desarrume os quadros em minha mente, sempre me lembra que ele está próximo. Conheço-o de ouvido.

As pouquíssimas informações que tenho nasceram em momentos de distração de meus parentes. Mamãe, às vezes, colaborava com meu mosaico quando tinha algum gesto incomum, como no dia em que me pôs no colo depois de eu ter dado uma martelada em meu polegar. Ela me acudiu dando beijinhos e soprando meu dedo, como se sussurrasse algo ao polegar inchado, algo que não me cabia entender. E isso aliviou minha dor. Outra vez, não sei por que motivo, mamãe furiosamente recolheu algumas tábuas e com martelo e pregos selou a última passagem da casa para o quintal, onde papai trabalhava. Anos após, aqui escrevendo e rememorando a cena, fico a imaginar os sem-fim de paixão e ódio que aquela mulher um dia sentiu por meu pai.

Nessas fúrias, um pouco antes de meu nascimento ou quando eu ainda era um bebê, ela retirou das paredes e dos porta-retratos todas as fotos em que papai estivesse. Quer dizer, creio que tenha sido assim. Porque, dada a escassez de informações sobre meu pai, resolvi eu mesmo criá-lo em mim, assim como a tudo que pudesse ter relação com sua obscura imagem. Não há nada de extraordinário nisso. Primeiro porque o que me move não é criatividade, gênio criador, nada disso. Sou movido pela elementar necessidade de saber de meus ancestrais – especialmente sendo este meu mais imediato ancestral. Farei, afinal, o que faço segundo minhas obrigações em casa: vejo que as horas da noite avançam, e logo nada mais haverá de meu pai senão este inventário. E, além disso, porque, de certa forma, todos nós aqui em casa fazemos isso: não fomos criados por ele, criamo-lo dentro de nós. Uns imaginam um pai mau. Outros, um pai dócil. Mamãe, se hoje conserva amarguras, é porque um dia imaginou um homem que talvez nunca tenha de fato existido. Essa dispersão da certeza não se restringe à bruma que é meu pai. Minha primeira irmã sempre faz doces para mim e diz que me tem muito amor e que quando se casar vai querer que eu more com ela e que nunca homem nenhum vai ocupar meu lugar no seu coração. Me sufoca de afagos esta minha irmã. Já minha segunda irmã nunca perde uma oportunidade para arremessar qualquer objeto em mim. E diz que eu sou a pior peste que o Diabo já pôs na terra. Eu, o mesmo mesmo de sempre, amado por uma irmã, odiado por outra. Eu? Não: o eu de mim que elas imaginam haver.

De minha família, sou provavelmente o que menos sabe sobre papai. Os outros tiveram, ao menos, uma mínima convivência direta com ele. Não sei se é isso o que me mobiliza a escrever esta noite. Tinha lá minhas esperanças de um dia encontrá-lo, cara a cara, ainda que fosse nestes últimos instantes. Mas lá fora é só silêncio e escuridão. Se ambos são o que tenho, tudo o que eu construir hoje, mesmo que não seja a verdade pura, será a verdade minha, provisoriamente minha. A ignorância, nesta emergência de imagens, me autoriza mais que o conhecimento. Dos milhares de pais que meu pai pode ser, vou colando um braço de um, um olho de outro, uma perna de um terceiro. Meu pai será esse boneco de pano, feito de retalhos, que nascerá disso. Mas será meu pai.

Creio que o desconhecimento herdo-o de meu pai, que, assim com eu, não sabia de seus antepassados. Sua mãe talvez morrera quando ele tinha possivelmente três anos. Seu pai, parece que era um imigrante português do tipo que não vingou nesta terra. Ainda assim, meu avô viveu e morreu com arrogância sua pobreza. Nunca se casou. Não admitia a ideia de se juntar a uma cabocla. Conservava-se nele certa dignidade europeia. Entretanto, gerou vários caboclinhos nas empregadas de sítios nas cercanias onde trabalhava como caseiro, no extremo norte de Manaus. Um deles é meu pai. Vovô terminou seus dias naquelas distâncias, num pequeno terreno que recebera de seu patrão quando este vendera o sítio. Isso foi por volta de 1945. Ainda pôde ver a cidade se aproximar um pouco mais do Bom Futuro, nome desse esquecido fim-de-mundo. Talvez os hábitos de papai tenham tido origens atávicas...

* * *

Disso eu sei: papai era catorze anos mais velho que mamãe. Quando se casaram, ele tinha vinte e sete; ela, treze. Mas não houve cerimônia. Poderia já não ter tido pela falta de dinheiro nos bolsos de papai, mas houve outros motivos.

Papai não havia ainda despertado a paixão pela paixão, qualquer tipo de paixão que fosse. Vivia como pudesse. Arrumava sempre algum trabalho – ainda era jovem e forte – nas várias obras que se faziam à época na cidade. Não eram mais as grandiosas empreitadas realizadas quando meu avô chegara a Manaus, no fim do século XIX, mas a quantidade das obras compensava seu relativo acanhamento. A cidade alargava-se em várias direções, casa a casa, rua a rua – de barro, por vezes, mas diziam ser rua; de barro, às vezes, mas chamavam de casa. Papai, no entanto, não habitava essa cidade de barro. Morava na Praça 14, que era então, para meu pai, um lugar estratégico: não ficava tão longe de uma linha de bonde que levava ao Centro, era próximo de algumas periferias em que se podia arranjar trabalho, sempre tinha festas – consta que papai chegou a encarnar a Catirina numas festas de boi-bumbá na Praça 14 – e... e havia a filha da dona da pensão em que ele morava.

Minha mãe ainda deve guardar alguma beleza por debaixo de seus panos e de suas mágoas. Imagino como terá sido aos treze anos... O namoro começou numa das cerimônias religiosas do bairro, ou na verdade num dos arraiais que as sucediam. E minha avó, devota de Nossa Senhora de Fátima, levava mamãe a essas festividades para mantê-la em reto caminho. A partir de então, mamãe servia meu pai à mesa, no café da manhã, e na cama, de noite.

Papai havia conseguido um trabalho na reforma de algumas ruas do Centro. A cidade já trocava o calçamento de certas vias por asfalto, e naquela manhã papai arrematava as sarjetas da Rua Costa Azevedo. Uma viatura policial se aproximou e um dos soldados, com mesuras de sigilo, interrogou o encarregado pela obra, que não demorou a flechar meu pai com a ponta do indicador.

Na frente do delegado e também perante minha mãe e vovó, papai não negou que tivesse mexido com a garota, nem que isso ocorrera repetidas vezes, mas acrescentou que tinha boas intenções, tanto que continuava, mesmo secretamente, o namoro – faltava-lhe era coragem para comunicar tudo à minha avó. De repente, o que acabaria com ele tornou-se sua redenção, porque se de fato papai tivesse más intenções, teria abandonado mamãe e ido morar em qualquer outra pensão da cidade, que isso não faltava. O delegado achou pertinente o argumento, os policiais assentiram que estava correto, mamãe sorria aliviada de amores – mas mordia o sorriso, receosa de sua mãe. Vovó discordava com o corpo inteiro – tremia de raiva. Só retirou a queixa porque disse que o melhor castigo para mamãe seria, com aquela criança na barriga, juntar-se a meu pai. E na saída da delegacia mirou bem o raquítico casal, arrenegando-lhes com os olhos.

Só depois de alguns meses receberam uma visita. Um dos meus tios, irmão mais velho de mamãe, foi ao pequeno quarto que papai alugara, também na Praça 14. Ficou surpreso ao ver os móveis, ao ver comida em casa e que ao bebê não faltaria muita coisa quando chegasse. Papai percebeu o espanto de seu cunhado e teve emoções diversas. Primeiro, uma surpresa também, porque nem ele tinha computado o quanto acumulara naqueles meses. Havia diminuído consideravelmente a quantidade de cachaça que costumava ingerir. Não saía de casa a não ser para trabalhar, e o fazia a pé para economizar com transporte. Também abandonara as putas que lhe levavam alguma receita. E com essas economias presenteava mamãe. Trabalho a trabalho, papai comprava uma cama ali, um armário acolá. Mas adquiria essas coisas sem a noção de que elas fossem um conjunto. Se comprava uma mesa, não era uma mesa que se juntava a anteriores bancos – era uma mesa e apenas. A admirada reação de meu tio despertou em papai algo que até então não havia sentido – papai estava orgulhoso de si. Mas não demorou muito, depois que meu tio os deixou, para a raiva tocar meu pai. Afinal, a surpresa de seu cunhado também significava que, na imaginação alheia, papai não era pessoa confiável em assuntos de economia.

No dia seguinte, o irmão de mamãe repetiu a visita. Foi contar-lhes que sua mãe, minha avó, os presenteava com um terreno muito grande que acabara de adquirir em Petrópolis, um dos novos bairros de Manaus. Meu tio falou ainda que contara para vovó o bom desempenho de papai como chefe de família, que mesmo num pequeno quarto, ele não permitia que nada faltasse a mamãe, e que o bebê já estava antecipadamente provido. Vovó então juntou as boas notícias com a saudade que sentia de minha mamãe para recompensar os meses de desprezo ao casal. É verdade, disse meu já altivo pai, e é por isso mesmo que a gente não precisa de nada que venha daquela velha.

Meu tio percebeu o óbvio rancor da fala de papai e sugeriu voltar no dia seguinte, para obter uma resposta mais calculada. Apenas do jantar mamãe precisou para abrir os olhos de papai – de fato, morar naquele quarto seria muito difícil com a chegada de meu primeiro irmão. Papai não jantou naquela noite, surrado de ideias, mas teve de engolir, inteirinho, o prato da resignação.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Princess Predator.
Denisa Mrackova.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

as máquinas

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com o ferro velho recolhido no fundo de quintais, ele esculpiu o pássaro e a máquina em luta desigual. logo a notícia se espalhou, e começaram a chegar os curiosos de outras localidades para conhecer a recente criação do artista.

até que certo dia a cidade acordou com o barulho ensurdecedor. a máquina gigantesca, uma escavadeira de braços de ferro, avançava raivosa contra a escultura e o seu criador.

nas noites de lua, ouve-se o mesmo grito tétrico de pássaro. nunca se soube dizer, no entanto, de onde vem.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Reflexões sobre o espaço e o tempo

Zemaria Pinto*

O paradoxo de Santo Agostinho é o ponto de partida para qualquer reflexão sobre o tempo: “se não me perguntam o que é o tempo, eu o entendo; se me perguntam, não sei explicá-lo.” As noções de passado e de futuro transformam-se em névoa quando nos damos conta de que não conseguimos entender as contradições do presente. E o que dizer quando olhamos para o céu e vemos a luz de estrelas que desapareceram há milhões de anos?


Reflexões Sobre o Espaço e o Tempo, de Demosthenes Carminé, trata desses e de outros assuntos provocantes, sempre ancorado no que de melhor o pensamento ocidental produziu sobre a matéria. A mim, particularmente, afeito ao problema da Literatura, me fascina o tratamento do tema na poesia e na ficção. Pois se tempo e espaço são abstrações – por isso, cada um de nós tem sua própria “explicação” para eles –, na Literatura, eles se transformam em desafio permanente a criadores e leitores.

Refletir sobre o tempo e o espaço é refletir sobre a vida. É o que faz Carminé neste pequeno-grande livro: um inventário filosófico sobre temas tão polêmicos quanto fascinantes, desde Heráclito até Einstein. Tempo e espaço compõem a essência vital do Ser: o movimento. Só o que é vivo se movimenta. Daí, nunca é demais lembrar que sobre a terra e sob o céu tudo está em movimento, inclusive o pensamento...


(*) Orelha do livro Reflexões sobre o espaço e o tempo, de Demosthenes Carminé, 2005.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Thiago de Mello faz recital com Melhores Poemas



Será amanhã, às 19:30h, na Saraiva Megastore, o lançamento do livro Melhores Poemas, de Thiago Mello, selecionados pelo escritor Marcos Frederico Krüger, professor-doutor da Universidade Estadual do Amazonas.

Na oportunidade, Thiago de Mello fará o que ele mesmo está anunciando como seu "último recital em Manaus". Na ocasião, o poeta estará em companhia do grupo Imbaúba, que lançará o CD Canta Amazônia, o terceiro da banda.

A entrada é franca, mas é bom lembrar que o espaço, que leva o nome do poeta, é pequeno.

Fantasy Art – Galeria

Matt Stawicki.

drops de pimenta 51

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─ Você escolhe...

─ Meia calabresa, meia portuguesa.

─ Falta de imaginação... Olha só: banana com canela, tomate seco, cupuaçu...

─ Tudo bem, você escolhe a outra metade. A minha é calabresa!


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Gabriel Garcia Márquez esteve lá

Marco Adolfs

A primeira ação que seus familiares tomaram, assim que Aureliano Filgueiras chegou de volta de sua longa viagem contando aquelas histórias todas que havia presenciado, foi aconselhar que ele procurasse um médico. A segunda foi interná-lo de vez numa clínica para tratamento psiquiátrico. Pois quando naquele dia Aureliano entrou em sua casa, rude, barbado e com o olhar ensandecido, relatando o que lhe acontecera quando do seu sumiço da sua casa por dois meses e meio, todos pareceram escutar atentamente o que dizia, embora já desconfiados de que o homem, que já não era considerado normal na cidade em que vivia, enlouquecera de vez. E quando Aureliano, não satisfeito por ter apenas os ouvidos domésticos como platéia, passou a propalar aos quatro cantos do bairro onde morava, indo de casa em casa, as suas estórias, não só todos se preocuparam com a possível insanidade do pobre coitado, como também trataram de proteger suas crianças de um acesso de loucura mais descabido.

Agora, deitado e sonolento naquela cama de uma enfermaria do hospital psiquiátrico local, após ter tomado um forte ansiolítico para se acalmar, o jornalista Aureliano Filgueiras recordava, como em um sonho, todas aquelas coisas que haviam acontecido em sua vida quando, a convite do hoje famoso e cultuado escritor Gabriel Garcia Márquez, foram, os dois, pisar o distante município de Uari, então apenas uma cidadezinha com poucas ruas enlameadas e casas mal ajambradas, localizada às margens de um lago de águas negras e misteriosas. Aureliano lembrava então de tudo, tim-tim por tim-tim; com Gabriel a seu lado, de quando esteve lá. Os dois tentando descobrir a verdade em meio à mentira; e a fantasia, em meio à realidade.

Tudo começou, naquela cidadezinha perdida nos confins do mundo civilizado, um dia depois do término de uma tal festa do Divino, quando Aureliano e Gabriel – após terem presenciado, em plena madrugada misteriosa, homens virando boto e mulheres tendo ataques histéricos, a mergulhar no lago para serem fecundadas pelos tais encantados –, viram também, eles mesmos, cadáveres saindo das profundezas da terra para reclamar do que ainda estava pendente em seus corações carcomidos e proclamar o que desejavam de melhorias para aquele mundo corrupto do qual haviam se afastado temporariamente. Foi a partir desses momentos que a possível loucura de Aureliano se estabeleceu e os olhos de Gabriel se arregalaram. Principalmente quando, naquela cidadezinha amazônica e por esses motivos ditos sobrenaturais e inexplicáveis, a voz da cidade (uma série de quatro alto-falantes postados no centro de um terreno localizado bem em frente ao cemitério) havia sido tomada por um outro locutor, de uma voz poderosa, tonitruante e sobrenatural. Uma voz que se apresentou dizendo:

– Amados irmãos de sangue! É chegada a hora da verdade ser dita e propalada aos quatro cantos desta cidade do pecado. É chegada a hora de o que foi escrito há milênios se tornar verdade. Segundo as escrituras, aqui, em Uari, se dará o começo do fim e o fim do começo. Chega de tanta corrupção de corpos e almas. "Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados!" Diz a Bíblia em I Coríntios,15...

Aureliano Filgueiras, portanto, chegou a sua casa, naquele dia, contando tudo isso e muito mais. Quanto ao jovem Gabriel Garcia Márquez. Esse, como vocês já devem saber, escreveu vários romances fantásticos, ganhou o prêmio Nobel de literatura e, hoje, quando pode, passa os dias da festa do Divino no distante e ainda incompreensível município de Uari, localizado em um dos lagos escondidos do alto Solimões, no estado do Amazonas. Tentando ainda entender tudo aquilo. Logo ele, que foi um dos encantados por uma mulher de longos cabelos e de olhar luminoso, que todos diziam sair das águas daquele lago profundo em noites de lua cheia.


Caricatura de Gabriel Garcia Márquez: Fraga.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O velho e o menino

Inácio Oliveira



Era uma vez um velho e um canário que moravam sozinhos numa cabana. O velho tecia um fumo, o canário cantava e cada um era feliz na sua solidão. Um dia, o velho, que já estava muito velho, morreu e o canário ficou tão triste, mas tão triste, que parou de cantar e também morreu de tanta saudade do velho.

Meu avô sempre me contava esta história quando eu era criança; na verdade meu avô não era meu avô de verdade; era só um desses velhos aposentados e sem família que moram sozinhos numa casa velha e mal arrumada. Certa vez, ele, que sempre me via na rua pedindo comida, me levou para morar com ele na sua casa velha e mal arrumada, então eu passei a chamar ele sempre de meu avô, por que eu nunca tivera um avô e eu ficava pensando como seria bom ter avô e tudo mais.

Ele era bom comigo me dava comida e cuidava de mim, me pôs para estudar, mas na escola tudo era muito chato; lá todo mundo tinha pai e mãe, e saber que tudo mundo tem uma coisa que você não tem, dá um negócio estranho dentro da gente. Além disso, porque eu tinha que aprender aquelas coisas inúteis que eu nunca ia precisar ter aprendido? Hoje eu sei que tudo que um homem precisa saber é como ganhar seu dinheiro e como se defender, isso é tudo que um homem precisa saber.

Meu avô gostava muito de contar histórias, principalmente histórias da sua vida. Acho mesmo que ele só me tirou da rua para morar com ele para ter alguém a quem contar suas histórias; o engraçado é que, quando alguém conta a história da sua própria vida, conta mais para si mesmo do que para quem está ouvindo; no início eu até gostava, eram sempre histórias de sucesso e riqueza, ele era um dos muitos que enriqueceram com a borracha na Amazônia e depois perderam tudo nos cabarés de Manaus; com o tempo, suas histórias passaram a me aborrecer, por que ele sempre repetia as mesmas histórias com pormenores diferentes, de modo que eu nunca soube ao certo se o que ele contava era o que ele realmente havia vivido, ou o que gostaria de viver, acho que no fundo nem mesmo ele sabia essa diferença, mas isso não importa, ele era só um velho fodido contando aquelas histórias para justificar sua miséria.

Nos dias de domingo ele ficava bebendo São João da Barra como os outros velhos no quiosque da praça, devia contar suas história para eles também, os velhos adoram ficar contando e ouvindo histórias; eu podia ficar vagabundando com os outros moleques pelo centro da cidade. É engraçado, um dia você se olha no espelho e não é mais uma criança, acontece de repente... Minhas velhas roupas cada vez mais apertadas e algumas já nem serviam mais, e eu ficava feliz porque sabia que estava crescendo; ser pobre tem dessas pequenas felicidades, você pode perceber que está crescendo por que suas roupas já não servem mais, e crescer é tudo o que importa: crescer, crescer e crescer.

Um dia, sem perceber, eu deixei de chamar o velho de meu avô; percebi o quanto ele era estranho, ele tinha um cheiro de coisa podre que fica guardada por muito tempo até perder o cheiro de coisa podre e ficar apenas um leve odor que você não sabe exatamente de que é, ele também bebia demais e fumava muito; eu ficava pensando que um dia ele ia morrer e o cigarro ia continuar acesso na boca dele, mas as vezes ele parecia que não ia morrer nunca.

O estranho é que o tempo passava e ele não envelhecia além do velho que já era, apenas seu rosto havia ganhado uma expressão severa e cansada de alguém que já havia visto todas as coisas possíveis de acontecer; às vezes eu ficava imaginando que ele não ia morrer, um dia apenas ele ia ficar quieto, mas tão quieto que não ia se mexer nunca mais, igual a uma estátua de olhos lisos que fica no meio da praça, estátua de um sujeito que era muito importante no passado e agora ninguém mais sabe quem ele foi, as pessoas passariam por ele e ninguém ia perceber que ele estava ali.

Uma noite quando eu acordei o velho já havia ido ao banheiro umas dez vezes, sua bexiga estava grande e ele não conseguia urinar uma única gota, o velho urrava e parecia querer espremer o próprio pau, lembro que chovia muito naquela noite, eu fiquei com medo que ele morresse ali na minha frente com aquela bexiga enorme, mas eu olhava para ele e ele parecia que não ia morrer nunca, então eu liguei para o hospital e eles mandaram uma ambulância, eu acompanhei o velho a noite inteira, houve um momento em que ele olhou para mim e viu alguma coisa na minha cara, naquela noite eu sei que, pela primeira vez, ele ficou feliz de um dia ter me tirado da rua e cuidado de mim. No hospital enfiaram um negócio estranho na uretra dele, que doeu até em mim; me disseram depois que teriam que operá-lo e próstata foi uma nova palavra que eu aprendi.

Em casa ele me contou que no hospital tiveram que meter o dedo no cu dele para examinar a próstata, alguma coisa que parecia ser uma lágrima se formou nos seus olhos, eu senti uma grande pena do velho, deu vontade de abraçá-lo, mas eu não saberia como fazer isso, eu nunca havia abraçado ninguém em toda a minha vida, além disso o cheiro do velho desfez o meu gesto. O meu desprezo por ele não era culpa minha, o velho era realmente asqueroso.

Engraçado, o ódio é que nem o amor, a gente nunca sabe ao certo quando começa, nem exatamente porquê, mas acho que eu comecei a odiar o velho quando passei a ter que dar banho nele e limpar sua merda. O velho havia deixado de contar histórias e pela manhã se formava ali na cama uma coisa amarela e pastosa de cheiro nauseante, eu não aguentava mais ver aquilo; se ao menos o velho morresse logo, mas eu olhava para ele e ele parecia que não ia morrer nunca.

Um dia eu cheguei em casa e o velho estava jogado no chão; ele estendeu a mão para mim e falou alguma coisa que eu não compreendi; naquele momento eu não senti nada, apenas um grande cansaço de todas as coisas e uma vontade de acabar com tudo aquilo; então eu bati na cabeça dele com uma peça que se soltara do armário; o sangue esguichou, eu bati de novo e de novo e de novo... com força, com loucura e com um certo carinho que ninguém entenderá, os olhos gelatinosos do velho dançaram na cara dele, e eu bati mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez... mas ele parecia que não ia morrer nunca.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Aderson Dutra

Rogel Samuel*

Eu me lembro de Aderson Dutra jovem, na varanda de nossa ex-casa, na Av Getulio Vargas, nos dias de aniversário. Rindo, como sempre contando fatos, não tinha pose de Procurador Geral de Justiça, ou de Reitor, mas de amigo. Foi lá que deu emprego a um jovem químico, assim:

– Que você está estudando, perguntou ele ao rapaz.

– Estou–me formando em engenharia química este ano, respondeu;

– Estamos precisando de químicos lá na CEM.

E o rapaz estava empregado.

Certa vez fui visitá-lo e ele me presenteou com o grande livro de Samuel Benchimol “Amazônia”, que tenho até hoje.

Ele era assim. Generoso. Ele e Norma, sua esposa, instituíram uma cesta básica para minha avó, que sempre passou necessidades, e todo mês o chofer ia levar os mantimentos para ela.

Ele vivia para os outros.

Gostava de política e era um democrata. Sabendo da minha paixão pelo PT, sempre que me via perguntava, rindo:

– Como vai a Erundina? – então prefeita de São Paulo.

Ele era assim.

(*) Publicado originalmente no blog de Rogel Samuel.

Prêmio Ferreira de Castro de crítica literária

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A Universidade do Estado do Amazonas (Cátedra Amazonense de Estudos Literários) e o Instituto Camões (Centro Cultural em Brasília) anunciam as regras para candidatura ao Prêmio Ferreira de Castro de crítica literária, que engloba premiação em dinheiro e publicação dos melhores ensaios/artigos, no âmbito das comemorações em torno dos 80 anos de publicação do romance A selva.


Quando? Candidaturas até 30 de abril de 2010.

Como? Inscrição via Internet ou correios.

Quem pode? Alunos de graduação que estejam sob orientação direta de docente (sobretudo Iniciação Científica), alunos de pós-graduação de todos os níveis e professores universitários.

Tema? Abordagens críticas, interpretativas e teóricas sobre a narrativa do escritor luso-brasileiro Ferreira de Castro, abordando quaisquer de suas obras, isolada ou comparativamente, com destaque para A selva, nos seus 80 anos de publicação (1930-2010).

Prêmio? Valor em dinheiro e a publicação de ensaio em revista indexada.


Mais informações e edital completo (incluindo o anexo) em http://www.pos.uea.edu.br/catedra

Literatura em Foco - 10 anos

espreita

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do quadro na parede, o gato de olhos verdes vigiava, dia após dia, os passos do artista, à espera do momento propício para surpreender o seu criador.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

As metamorfoses de Danielle Mariam

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Zemaria Pinto*


A essência da poesia é a linguagem. Mas a linguagem da poesia não é essa que frequenta as mesas cotidianas. A linguagem da poesia é feita de estranhamentos – aquilo que soa estranho à expressão comum. Não existe, porém, uma linguagem poética padrão. Cada poeta cria sua própria maneira de expressar-se. E aí reside a beleza e a complexidade da poesia: a transformação da linguagem realiza-se nos mais diversos níveis – imagem, som, ritmo, ou na harmonização disso tudo, o que Pound chamou de “a dança do intelecto entre as palavras”, o prazer estético-sensorial que um poema, um bom poema, provoca.

Metamorfose, primeiro livro dessa quase menina, mas senhora poeta, Danielle Mariam, não poderia ter melhor título, pois mostra as diversas fases porque passou a autora – de uma poesia ainda insegura, juvenil, até o amadurecimento, em que se vislumbra não mais uma promessa, mas a certeza de termos uma nova poeta, plena de humor e lirismo, pronta para inscrever seu nome entre os mais representativos da poesia amazonense.

Não pretendo aqui fazer uma abordagem profunda do livro, até porque não é essa a função do apresentador. Mas como um mestre-de-cerimônias calejado, quero dar uns toques ao leitor, fazendo uma breve viagem no trabalho de Danielle. E começo pelo fim, pois o livro é dividido em quatro partes. “Fronteiras” fala da relação da autora com este país das Amazonas, que ela vive com tanta intensidade. Observe o leitor o que é a transformação da linguagem, lendo atentamente o poema “Mãos da Beira do Rio”. Feche os olhos e imagine as mãos ali descritas. São mãos de um Atlas caboclo.

A terceira parte, “Escárnio”, traz uma boa dose de humor, mas um humor amargo, que não sorri para si mas para os outros, para chamar a atenção. Observe nos poemas “O moço, a moça” e “Chá” como a transformação da linguagem se dá no mix entre imagem, som e ritmo.

Em “Sintonia”, a segunda parte do livro, observa-se ainda esse humor amargo, de resto uma característica da poesia de Danielle, porém voltado para si mesmo, rindo de si mesmo, o que é um exercício muito difícil, porque o poeta, escrevendo na primeira pessoa, assume a face aparente de suas personagens. Isso Danielle explica com bastante clareza no texto que abre essa parte: “A Poesia”. Poemas como “Meus Demônios”, “Esquina”, “Só”, “Certos Olhos”, “A Janela”, “Sermão” e “Mulher” revelam o grau de amadurecimento e o domínio da linguagem (melhor dizendo, das metamorfoses da linguagem) a que chegou Danielle Mariam.

Finalizando a nossa leitura invertida, a primeira parte do livro, “Poesia Visceral”, escancara um erotismo e uma sensualidade até aqui não ousados na comportada poesia, digamos assim, feminina do Amazonas. Não em livro, pelo menos. Citar um ou outro poema parece demonstração de preferência. Não. Todos os textos citados o foram por alguma razão, para a qual se chamava a atenção do leitor. Mas se você não quiser ler de trás para frente como eu sugeri, leia o primeiro poema, “Neblina”, e entenda o que eu quis dizer com transformação da linguagem, estranhamento, amadurecimento etc.

Agora, leitor, dê-me licença, para eu contar uma historinha à Dani. Em 81, 82, por aí, quando o poeta Thiago de Mello voltou do exílio, fomos apresentados e trocamos figurinhas durante um tempo. Depois nos perdemos de vista, que esse mundo é grande assim para que o reencontro tenha mais calor. Há uns três anos, ao rever o velho Thiago, mostrei-lhe os originais do meu segundo livro. Ouvi dele então uma frase que me tocou profundamente: que bom que você continua poeta! Minha cara Dani, conheço-a já há cinco anos – que bom que você continua poeta!


(*)Escrito em 1998 como apresentação ao livro Metamorfose, de Danielle Mariam, que continua inédito. Ex-secretária municipal de Educação de Manacapuru, Danielle hoje é diretora de uma escola estadual na zona rural daquele município, e mestranda em Ciências do Ambiente, pela UFAM. E desconfio que continua poeta.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Falece Áderson Dutra


Rogel Samuel





Leio agora no Blog O FINGIDOR, de Zemaria Pinto: "Faleceu nesta manhã o acadêmico Áderson Pereira Dutra (27/01/1922 – 17/02/2010), natural de Parintins, deixando vaga a cadeira 24 da Academia Amazonense de Letras, que tem por patrono Joaquim Nabuco, a qual ocupava desde 1983.

Áderson Dutra, formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, foi professor catedrático de Direito Administrativo e, entre 1970 e 1977, reitor da UFAM.

Dutra, que foi também secretário de Justiça do Amazonas, deixou vários títulos na área que era sua especialidade".



Dutra era casado com a prima de minha mãe, Norma Dutra, já falecida. Era um bom amigo. Quando Diretor da Companhia de Eletricidade de Manaus vinha muitas vezes ao Rio, onde eu, na época estudante, o encontrava.

Homem de grande cultura, tinha uma extraordinária biblioteca na sua casa, na rua 10 de julho, onde todos os fins de ano passávamos o reveillon.

Sempre de muito bom humor, gostava de fazer umas reflexões jocosas sobre as coisas mais sérias.

Era juiz e professor catedrático de direito administrativo da Faculdade de Direito do Amazonas, naqueles tempos em que aquela Faculdade, fundada em 1909, tinha os grandes catedráticos: Aderson de Menezes, Plínio Coelho, Samuel Benchimol, Henoch Reis (Ministro do STJ), Jauary de Sousa Marinho e outros.

Famoso foi o seu concurso para catedrático, em cuja banca estavam os maiores nomes da ciência jurídica do seu tempo. Foi Secretário de Estado do Amazonas.

Não será esquecido.


Publicado no blog de Rogel Samuel.

Áderson Dutra (27/01/1922 – 17/02/2010)

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Faleceu nesta manhã o acadêmico Áderson Pereira Dutra, natural de Parintins, deixando vaga a cadeira 24 da AAL, que tem por patrono Joaquim Nabuco, a qual ocupava desde 1983.

Áderson Dutra, formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas, foi professor catedrático de Direito Administrativo e, entre 1970 e 1977, reitor da UFAM.

Dutra, que foi também secretário de Justiça do Amazonas, deixou vários títulos na área que era sua especialidade.


(Fonte: Acadêmicos – Dicionário Biográfico, de Almir Diniz)

Fantasy Art – Galeria

Boris Vallejo.

drops de pimenta 50

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─ Se eu fosse você, pegava a paralela...

─ ...

─ Sei lá, a uma hora dessas, o trânsito flui melhor...

─ ...

─ Como você muda de faixa e não dá sinal?!

─ ...

─ Mais devagar... Pra que essa pressa?

─ ...

─ Cuidado; aquelas crianças vão atravessar...

─ Chega! Desce! Vamos trocar de lugar. Você dirige!

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Clube da Serpente em Manaus

Marco Adolfs



Tenho uma sala comercial no Millennium Center onde costumo meditar, escrever e pintar quando me dá na veneta. Um dia desses, ao entrar na tal sala, logo que abri a porta, tomei um susto enorme ao ver as costas de um homem sentado na cadeira da minha escrivaninha.

– Que é isto!? – gritei. – Quem é você!? – continuei, preparando-me para lutar.

Foi quando ele virou-se em minha direção e reconheci vagamente o rosto barbudo e o olhar esgarçado por entre aqueles óculos de aro grosso.

– Não estás lembrado de mim? – ele perguntou em espanhol, sorrindo na minha direção.

– Sim, sim...– comecei a balbuciar, aliviado do possível perigo.

– Sou o Julio – ele completou, timidamente. E continuou mais firme: – Julio Cortázar!

– Ah! Claro! – exclamei, abrindo um sorriso de alívio. Disse isso sem sequer pensar no absurdo todo daquele acontecimento.

– Como entrastes aqui? – perguntei-lhe, não querendo acreditar que ele era um fantasma.

– A casa de nosso pai tem várias entradas – respondeu, ainda sorridente. – Aquele que sempre percebe esse fato, torna-se um escritor capaz de estar em todos os lugares, viajando no tempo e no espaço – continuou.

– E você? Que fazes? – perguntou-me de supetão, acordando-me da minha letargia momentânea.

– Buscava justamente o bestiário – respondi, na hora, o que me viera à cabeça.

Sorrimos.

– E você? – perguntei de volta.

– Vim aqui para lhe dizer que pretendo reativar, nesta cidade quente e úmida chamada Manaus, o Clube da Serpente – disse Cortázar.

Engoli a seco.

– Mas achas que é possível existir aqui uma reunião de escritores malditos, com suas formas atravancadas de existir e fazer – desafiei.

– Perfeitamente possível – reafirmou Cortázar –, já que a forma de escrever está precisando dessas sacudidelas absurdas e malditas. – Não é mais possível uma literatura comportada e excessivamente clássica ou acadêmica em tempos de Internet, blogs – finalizou. Hoje o que prevalece é a não-linearidade das produções. Seja de que tipo for.

Cortázar falava de forma incisiva e eu resolvi sentar-me para enxugar o suor.

– Mas porque o Clube da Serpente logo aqui, em Manaus? – indaguei face ao absurdo da proposta.

– Morelli – lembra do Morelli?

Balancei a cabeça, lembrando. Cortázar continuou.

– Conversou comigo um dia desses e me disse que aqui, nesta cidade, o espírito parisiense de seus artistas é muito forte.

Ao relembrar de seu personagem Morelli, sorri e disse brincando.

– Ele não quis dizer espírito parintinense!? – tergiversei, brincando.

Cortázar ficou em dúvida.

– Como é que é? – perguntou, após alguns minutos de dúvida.

– Espírito de ilha! De Parintins!

Cortázar não sabia o que dizer. Com um olhar espantado, sua imagem foi desaparecendo, desvanecendo-se, lentamente do meu escritório. Desvanecendo-se como um fantasma que era.

Quando ele finalmente se foi pude raciocinar melhor sobre aquele acontecimento fortuito em uma das torres do Millennium Center, às quinze horas de uma tarde de sol.

De acordo com Cortázar, o ser humano, busca sempre o diferente. Uma criação aparentemente desordenada com notas dissonantes. A possibilidade concreta de conceber mundos paralelos onde tudo possa acontecer para justificar o fazer literário como um jogo. Tanto ele acreditou nisso que em seu livro Histórias de cronópios e de famas, dividiu o leitor em dois tipos: os "famas", aqueles que precisavam se ajustar às regras fixas de uma vida convencional, e os "cronópios" que gostam de uma forma livre e espontânea de viver. Rayuela, seu mais fenomenal romance, foi realizado para os cronópios.

Neste fabuloso romance quebra-cabeças, ele colocou em xeque a literatura e sua relação com a realidade. Um romance que se divide em três partes: a do lado de “lá”, a do lado de “cá” e, por fim, os “outros lados”, com Cortázar demonstrando a desintegração da cultura e da moralidade. Rayuela, ou O jogo da amarelinha, é a história de um personagem com o nome sugestivo de Oliveira e que, em determinado momento, deixa a riqueza de uma herança e a vida na América, por Paris. Um lugar que para ele representa o ócio criativo, a novidade artística e histórica, as festas eternas e a cultura em geral. Mas Oliveira não sai impune desse contato, pois descobre na Europa que tudo é em vão, já que tudo conduz ao nada. Para Cortázar, as coisas estão sempre por se fazer. Como deixa bem claro em seu A ilha ao meio-dia, sempre desejamos estar dentro de um avião quando em terra, e sempre desejamos a terra quando estamos dentro de um avião. Escrevendo na solidão de seu cárcere e produzindo seus livros quase confessionais, Cortázar finalmente publica em 1967 A volta ao dia em oitenta mundos, um livro insólito sobre a vida cotidiana de um escritor.

A vida de um escritor, que se vê inserido em um jogo ou labirinto, é sempre um romance interessante para um leitor cronopiano. E para este leitor nada é mais interessante que caminhar por uma literatura que apresente caminhos que se bifurcam. Caminhos que buscam uma solução, tanto para o livro, como para o escritor e mesmo para o possível e impossível leitor.

Quando terminei de escrever, puxei a persiana da sala, apaguei a luz, tranquei a porta e desci pelo elevador até o andar das lojas. Encontrei o Bacellar em uma mesa do café e tomei um com ele. Quando nos despedimos, após dar-lhe uma carona até o centro, voltei para a minha residência, acreditando que talvez o Cortázar pudesse gerenciar a literatura amazonense, influenciando, do além, para que existissem mais cronópios e menos famas, no meio.

Caricatura de Julio Cortázar: Baptistão.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

49 anos depois...


O poeta paraense Nazareno Tourinho folheia um exemplar da Folha do Norte, de 09/04/1961, que noticia o resultado do 1º Concurso Literário do Norte do Brasil: menção honrosa para Alonso Rocha, atual presidente da Academia Parense de Letras, com o "Soneto na ante-manhã" e primeiro lugar ao nosso Jorge Tufic, com a "Ode amarga ao espelho".



Detalhe com a reprodução dos poemas vencedores. O prêmio para o primeiro colocado foi de vinte mil cruzeiros!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Estelita Tapajós era macho!

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A Academia Amazonense de Letras está recebendo inscrições para os interessados em ocupar a cadeira número 13 daquela instituição, que tem como patrono o cientista amazonense Estelita Tapajós (1860-1902). Ocorre que a imprensa amazonense, por ignorância, tem tratado o ilustre  mestre como se fora do sexo feminino. Fica o registro e a informação para a moçada de que Estelita, que empresta seu nome a uma escola do simpático bairro dos Educandos, era macho, sim senhor. Ô raça!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

The gorgon and the spider.
Dorian Cleavenger.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

o ovo

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sem que ninguém percebesse, a galinha entrou na casa, chegando até o quarto do casal. lá estava, branco e limpo, o ovo na penteadeira, entre coisas que ela ignorava inteiramente, por não existirem em seu pequeno universo.

como os donos viviam mergulhados no mundo das novelas, a galinha reinou absoluta no quarto, agachada sobre o ovo, indiferente a frascos de perfumes, rouge, batom, cremes e outras coisas mais.

os donos demoraram tanto a descobri-la que a galinha conseguiu chocar o ovo. foi quando o ovo rolou da prateleira e, ao se espatifar no assoalho, libertou o pinto, que fugiu apavorado. sem rumo.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Milagre como prática de cura: do incognoscível ao conhecimento

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João Bosco Botelho

No mundo dos seres vivos, como em toda a parte, se trata sempre de explicar o visível complexo, pelo invisível simples. Mas nos seres, como nas coisas, é uma invisibilidade em encaixes. Não há uma só organização dos seres vivos, e sim uma série de organizações embutidas, umas nas outras, como bonecas russas. Atrás de cada uma se esconde a outra.
(François Jacob)


Constitui um equívoco associar o milagre somente ao cristianismo. A convivência dos homens e mulheres com os fatos extraordinários — os milagres — materializados a partir das vontades divinas, nos quatro cantos do planeta, constitui história de longa duração.

Os cultos terapêuticos dos povos que habitaram as terras férteis, nas margens do Indo, do Nilo e da Mesopotâmia, eram fortes nas relações sociais e muito utilizados por ricos e pobres. Naquelas culturas, os registros mais antigos, alguns com 4.000 anos, a doença era compreendida, invariavelmente, ligada ao pecado e à ação dos deuses e deusas maus.

A cura de natureza religiosa, operada pelos sacerdotes, intermediários da vontade divina, era obtida quando o curador identificava e expulsava o deus mau do corpo doente, com a ajuda de rezas e ritos de purificação. Na Mesopotâmia, no reinado de Hammurabi, alguns registros em escrita cuneiforme identificam com a mesma palavra a doença e o pecado.

Os panteões daqueles povos estavam repletos de divindades taumaturgas. Entre as mais famosas figuram o deus Mitra, celebrado em muitos templos espalhados no Egito, e Asclépio, adorado em belas edificações no mundo grego antigo, especialmente, em Epidauro, na ilha de Cós. Em ambos os casos, durante centenas de anos, muitos peregrinos se dirigiram aos santuários à procura da cura milagrosa.

É no Antigo Testamento, notadamente no Pentateuco, que o milagre apareceu como “sinal”, ligado à fé monoteísta, em contraposição ao politeísmo dominante. O fundamento da fé, para a liturgia judaica, não é o simples milagre, mas sim a Criação como a existência concreta e estrutura da moral. O ato criador, essencialmente divino, concretizou-se acima de todas as leis da natureza, sendo o primeiro e o mais importante de todos os sinais. Assim, Iahweh estabeleceu o ritmo das estações (Ge 8, 22), o curso das estrelas (Sl 148, 6), o movimento dos mares (Jó 38, 10), as leis do céu (Jó 38, 33) e as da terra (Jr 33, 25).

A herança do judaísmo observa duas tendências na interpretação dos milagres. A primeira admite a Bíblia plena deles, devendo constituir fonte de reflexão à pequenez do homem. A segunda está relacionada com as interpretações místicas do judaísmo contidas no Zohar, o livro dos Esplendores, escrito em torno do século 12, na Espanha. Nessa, os rabinos não aceitaram a necessidade do sinal porque existiria harmonia absoluta entre o Criador e a sua obra.

A tradição semita também compreendeu a enfermidade como castigo pelas faltas cometidas contra a Lei (Ex 4, 6) e a saúde ligada à intervenção divina (Sl 38, 2 6).

Os primeiros padres construíram fantástica reelaboração teórica dos sinais referidos no AT. Os milagres de Cristo, descritos pelos quatro evangelistas, assumiram grande importância na apologética da nova religião.

São Tomas de Aquino, um dos mais importantes teólogos da cristandade, compreendeu a importância do milagre estruturado na fé como “fato extraordinário produzido por Deus”. Dessa forma, os anjos bons e os santos poderiam ser instrumento na promoção dos acontecimentos situados à margem das leis naturais. Por outro lado, distinguiu o milagre do prodígio. Esse último, simples simulacro, não era fruto do poder divino.

Estabelecendo o juízo de valor, o tomismo dividiu o milagre em duas categorias: absolutos ou de primeira ordem e relativos ou de segunda ordem. Só o primeiro seria verdadeiro, porque superando, em si mesmo, todas as concepções da natureza criada, só Deus seria o autor. O relativo, ao contrário, poderia ser determinado por meio de outras forças sensíveis ligadas ao demônio.

O milagre apologético, sempre de primeira ordem, deve ser perceptível e confirmar a origem divina da revelação. Esse milagre como instrumento de louvor, assume enorme importância na catequese pela própria natureza, porque é capaz de mudar a forma dos corpos, curando a doença como mal. Logo, a cura de uma doença, considerada mortal, pode ser entendida como milagre e sinal de Deus, justificando a consagração.

A abordagem do tomismo foi criticada por Voltaire e Renan, ao argumentarem que, sendo as leis naturais, criadas por Deus, absolutamente coerentes, é falso supor que possa existir qualquer ação física contrária a elas.

Spinoza, de modo semelhante, recusou a existência do milagre apoiado na premissa de que a criação não tendo sido livre, mas feita pela necessidade da sua natureza transcendente, era impossível a intervenção extraordinária para mudar o rumo.

Outra oposição ao sinal está implícita no agnosticismo kantiano, firmado contra o determinismo absoluto. De acordo com Kant, não existem leis fixas e constantes, porque a estabilidade provém exclusivamente do nosso aspecto subjetivo de compreender a realidades. Um fato é incognoscível porque não temos como distinguir todas as expressões da natureza.

A resistência contra a natureza divina do sinal contribuiu, de certa forma, para o milagre perder o valor ontológico e o argumento apologético, conservando somente o aspecto simbólico da fé.

Com o intuito de reforçar o conjunto do questionamento, é possível relembrar a imutabilidade de algumas leis matemáticas regendo a essência da coisa e expressando o modo de ser. Assim, em nenhuma hipótese, nem por milagre, o triângulo poderá deixar de ter os três ângulos.

Por outro lado, se considerarmos a validade absoluta das leis regendo as relações físicas entre as coisas, hoje compreendidas a partir das três forças – gravitacional, eletromagnética e nuclear – os acontecimentos situados fora dessas leis, estariam obrigatoriamente contidos em outra manifestação, ainda desconhecida, da natureza invisível. Assim, o milagre, compreendido como sinal, sempre visível (é impossível apreender o milagre invisível), obrigatoriamente, teria de contrapor o natural: o fogo não queimar, o homem morto voltar à vida ou o enfermo incurável recuperar a saúde, numa fração de segundo. Em absoluta discordância, a leitura kantiana defende que essas manifestações podem estar evidenciando os aspectos incognoscíveis da matéria.

Os pressupostos de Kant e Spinoza podem auxiliar para entender os mecanismos produtores da doença como expressões da vida em profundo dinamismo com a totalidade transformadora. O gradual conhecimento, processado fora do espaço sagrado, continua servindo de estímulo para continuar a caminhada para decompor a complexidade do invisível aos olhos desarmados.

Na mesma esteira teórica, a inquestionável aceitação do milagre, como ato de contemplação pura, pode representar forte barreira ao avanço dos saberes e, ao mesmo tempo, desafio à unicidade divina, fato que não é pressupostamente o desejo de Deus, já que a inteligência humana é dádiva divina. Contudo, se o milagre for entendido como obra de Deus com o intuito de desafiar a compreensão humana para desvendar o invisível aos olhos, poderá manter o caráter apologético e, ao mesmo tempo, festejar a inteligência.

As pessoas crentes, alimentadas pela formidável herança historicamente acumulada, continuam buscando milagres, especificamente, nas doenças ainda incognoscíveis, naquelas que aguardam o melhor e mais convincente desvendar, como nas doenças comportamentais e imunomoduladas e em muitos tipos de cânceres. No outro lado, quando o medo da morte antecipada de um ente querido está contido na amigdalite infecciosa, que no passado recente, antes dos antibióticos, determinou a morte prematura de incontáveis doentes ou o outro com o osso do braço fraturado na queda da própria altura, não há dúvida: o melhor tratamento é o atendimento do médico no pronto-socorro mais próximo.

As sociedades, no passado e no presente, amparadas pelas necessidades coletivas complexas — vencer o medo da dor e da morte prematura —, organizaram com competência o espaço sagrado das divindades taumaturgas. No Ocidente cristianizado, durante o medievo, os santuários curadores de Jerusalém e Compostela receberam incontáveis peregrinos na busca de milagres. Na atualidade, os de Fátima e de Lourdes, são os mais procurados pelos que sofrem o medo desesperador da doença incurável. Mais recente, surgiu o de Medjugorje, na Iugoslávia. Os três sítios conseguem estruturar expressões de fé no milagre apologético, justificando a santidade do sinal na convicção dos fiéis quanto à materialização circunstancial e imprevisível da Virgem Maria.

Para evitar os excessos dos fiéis bem intencionados, foi criado, em 1882, uma comissão formada de médicos e religiosos, para analisar a veracidade dos sinais relatados em Lourdes. Apesar das milhares de curas descritas pelos peregrinos, a igreja católica anunciou, em 1989, a ocorrência do 65º milagres. O caso excepcional, não explicado pela ciência, é de uma jovem siciliana de 25 anos, portadora de uma forma incurável de câncer ósseo no joelho. Em 1976, depois de ela permanecer uma semana próxima do santuário, um ano depois, houve o completo desaparecimento da lesão.

Parece existir complexa associação entre o sentimento de fé que envolve o crente peregrino e a influência da religião dominante em determinado grupo social. No Brasil, nos estratos sociais abastados, são mais enfocadas as procuras de Lourdes, Fátima e Medjugorje. Porém, os mais pobres, a maior parte da população, quando tocada pela angústia do medo da morte prematura, procuram outros locais de peregrinação, como a basílica de Aparecida, a estátua do Padre Cícero, os centros de umbanda, as igrejas protestantes e grupos kardecistas, agregados aos componentes de fé e religiosidade semelhantes.

Nos últimos trinta anos, as muitas igrejas neopentecostais, ao utilizarem na catequese o milagre como prática de cura, conseguiram obter maior chamamento de conversão e estão ameaçando o catolicismo apostólico romano. A perda do monopólio do milagre, como prática terapêutica institucionalizada, tem preocupado seriamente as autoridades eclesiásticas romanas. O tema já foi abordado pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos, pela XX Assembléia do CELAN, em São José da Costa Rica, em março de 1985 e expressado claramente no Observatório Romano (Jornal Oficial do Vaticano), em 29 de junho de 1986: "Numerosas deficiências ou insuficiências de adaptabilidade na vida da Igreja... podem tornar mais fácil o sucesso das seitas."

É possível que a crença no milagre apologético exceda a religião organizada. A fé que forma e guarda o sinal, ajusta a sedução na eficiência simbólica dos ritos envolvendo palavras, gestos e objetos metamorfoseados na temporalidade dos processos de organização social, esperando que sejam trazidos do incognoscível ao conhecimento.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Laetitia.
Michael Mobius.

drops de pimenta 49

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─ Você não gosta mais de mim...

─ Que bobagem é essa?

─ Você nunca mais falou que me ama...

─ Também eu não preciso ficar repetindo isso todo dia. Aliás, nem você...

─ Mas nem no dia do nosso aniversário?!


(Zemaria Pinto)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Uma história da Índia

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Marco Adolfs


Em um tempo perdido no tempo – numa aldeia perto da cidade de Harappa – morava uma menina chamada Vainavi. Essa menina, cujo nome significa ouro, nasceu para realizar uma profecia. A história de sua vida começou em uma noite de tempestade, durante o período das grandes monções na Índia.

Nessa noite de chuvas intensas, seu pai, Ashok, o grande construtor de barcos, apenas esperava o desenrolar do nascimento da criança, entre baforadas de fumo e uma calma de faquir. Os estertores da dor de parto da mulher Vaani não o incomodavam nem um pouco. E Vaani, cercada de outras mulheres, olhava para o céu chuvoso, desejando que aquilo tudo terminasse o mais rápido possível. Aquele novo filho esperado era o décimo primeiro de uma prole só de meninos. Bem que uma menina sempre fora desejada pela mãe.

Quando o líquido escorreu por entre suas pernas e a cabeça daquele novo ser começou a aparecer, Vaani pensou em Ganesch, o deus elefante. Pois, aquele dia era consagrado aos poderes imortais de Ganesch. E foi quando os relâmpagos mais luminosos riscavam o céu, sob os estrondos e a chuva mandados por Shiva, que o grito da pequena Vainavi se fez notar na terra dos brâmanes. E foi um grito tão agudo que todos pensaram que Ganesch havia iluminado aquele ser com o poder do bramir de todos os elefantes da Índia. Seu pai logo levantou, sentindo e sabendo que aquela menina seria especial entre todos os homens. Mas como acreditar nisso? Uma menina?!

Mas Ashok lembrava do sonho que tivera na noite anterior, quando Ganesch aparecera para lhe dizer e profetizar o que aconteceria com o novo ser que iria nascer. “Essa menina será uma redentora para todos os que aqui sofrem seu carma. A todos ela irá mostrar um caminho.” Mas como uma menina poderia fazer isso acontecer, no meio daqueles homens todos? – Pensou Ashok. Porém, nada disse. E esperou.

Quando a menina Vainavi nasceu, Ashok pareceu ver o semblante perfeito de Krishna lhe sorrindo por detrás dos panos que cercavam a manjedoura. E, quando, após as chuvas terem cessado, todos os elefantes que existiam nas redondezas se aproximaram de sua casa, para, em uníssono, levantarem suas trombas emitindo aquele som infernal, percebeu que o sonho que tivera talvez fosse uma verdade dos deuses.

Após a limpeza da pequena Vainavi e após todos os incensos terem sido acesos, agora, como agradecimento pelo nascimento da menina, uma Puja, a oração necessária, deveria ser feita sob as bênçãos de Rendrapu, o sacerdote daquela aldeia.

A cerimônia mais comumente realizada para esses momentos iniciou-se então aos pés do leito da mãe. Com a palavra Om emitida vigorosamente por Rendrapu, saudando a menina-elefante. Denominação de todos os que passaram a lhe conhecer. Principalmente devido àquela estranha reverência feita pelos elefantes. Mas, quando Om, a palavra do nascimento do mundo, de tudo o que existe e existirá para sempre, foi pronunciada por Rendrapu, ele, em seu íntimo, sabia a verdade daquele nascimento.

O velho sacerdote, por trás de suas grisalhas barbas, já esperava por isso e pelo que teria de fazer. Pois aquele nascimento da menina-elefante já havia sido profetizado por quase todos os sacerdotes brâmanes ao longo de todo o rio Ganges. Desde sempre, e em um número bastante expressivo de reencarnações e profecias. Por isso, aquela vibração da palavra Om transcendia o início, o meio e o fim de todas as coisas existentes, mais do que nunca. Pois trazia, para perto daquele leito, todas as divindades existentes ao redor, para reverenciar a menina que iria mudar o destino do mundo de sofrimento em que todos ainda estavam imersos.

Rendrapu sabia que nos cultos védicos, os pedidos mais solicitados aos deuses são vida longa, bens materiais e filhos homens. Mas agora ele sabia também que tinha que se render a uma outra verdade ditada por Shiva e pelas outras divindades. Ele vira toda essa verdade, em seus momentos de êxtase religioso, imerso nas brumas escuras de uma caverna repleta dos odores de milhares de incensos. Viu quando Agni, o Pai dos Homens e Deus do Fogo e do Lar, o avisou que uma menina seria gerada sob o fogo da vida da mulher Vaani e do varão Ashok, da tribo e aldeia perto de Harappa. E que essa menina, com o apoio de Indra, o que rege todas as a guerras, iria comandar um exército contra os invasores vindos do leste. E que Varuna, o Deus Supremo, rei do universo, dos deuses e dos homens, estaria ao lado dessa menina-elefante até o final do tempo medido.

Em outro momento de seu êxtase Rendrapu, porém, recebeu a vinda de Ushas, a Deusa da Aurora; de Surya e Vishnu, Regentes do Sol; e de Rudra e Shiva, deuses da tempestade; para que, como guia, orientasse a menina a crescer sempre em busca da paz. Principalmente obedecendo à natureza do mundo. Mundo configurado nas plantas e animais. A começar pelos elefantes, passando pela vaca, o rato e a serpente. Todos esses especialmente adorados e reverenciados pela menina que seria chamada de Vainavi – aquela que escreve a verdade e a justiça com a espada de ouro dos homens.

E a menina então cresceu entre os homens; e aprendeu a lutar e guerrear como todos. Quando os invasores do leste vieram finalmente, ela estava montada em um elefante e comandava um exército de heróicos guerreiros. Os invasores foram então expulsos e nunca mais voltaram. Vainavi havia cumprido a profecia. Até que, idosa, com cento e quatro anos e rodeada de tataranetos, ela desencarnou, ainda lembrando de tudo.

Hoje, uma das encarnações de Vainavi vive como professora dos homens, exercendo o seu doutorado em Nova York com o nome de Ellora Neall. Nas noites em que não consegue pegar no sono, a professora Neall então vê, no teto de seu quarto, as vidas e batalhas que sempre viveu. E quando sonha, Ganesch, o Deus Elefante, lhe aparece para lembrar-lhe do imenso amor que ela deve ter por todos os seres.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cinema e crítica literária em L. Ruas - prefácio

Zemaria Pinto*



L. Ruas é um ícone da literatura amazonense. Figura controversa, suas aulas de Filosofia, no velho seminário transformado em Instituto de Ciências Humanas e Letras, ao final dos anos 70, eram das poucas a manter a audiência em alta entre os futuros economistas, no meio dos quais eu, tímido por natureza e intimidado pela figura do mestre: a tez acobreada contrastando com a branca e densa cabeleira, o cigarro sempre entre os dedos e a língua permanentemente afiada. Diziam-se coisas do mestre: no mínimo, que era um padre comunista... Numa ocasião, alguém ousou tecer um comentário desairoso sobre a Teologia da Libertação. Se um pombo dos muitos que voejavam errantes pelo ICHL entrasse em sala naquele instante, diria que era o próprio Espírito Santo que fora assistir ao mestre defender a luta de classes e o socialismo sob uma perspectiva cristã. Naquele momento, lamentei não ser cristão. Aliás, por muito pouco não me converto.

Mas as melhores lembranças que tenho de L. Ruas são bem anteriores ao vetusto prédio da Emílio Moreira. Seus poemas e crônicas publicados nos jornais da cidade, trazidos à noite por meu pai, eram sempre motivo de prazer, reveladores de uma cultura que eu, adolescente, desejava para mim. Debalde, desde então, tenho tentado. Literatura, cinema, arte, política, comportamento – nada escapava ao olhar aguçado do mestre. Olhar enigmático e zombeteiro, que não dispensava uma ironia e uma boa polêmica.

Este trabalho, organizado pelo historiador Roberto Mendonça, resgata a face cronista de L. Ruas. Gênero difícil, pois feito para consumo imediato, reconhece-se o bom cronista quando, anos depois, se lê sua obra. Se ainda mantém o interesse, se não foi tragada pelo tempo, sobressai-se a qualidade do autor. É o caso desta coletânea, que conta um pouco da história de Manaus, pelos filmes, pelos livros, mas, sobretudo, pelas idéias que o autor coloca em pauta. Ao notável poeta junta-se agora o cronista, rigoroso e perspicaz, expressão perfeita do grande artista que foi L. Ruas.


(*)Prefácio ao livro Cinema e crítica literária de L. Ruas, de Roberto Mendonça,
a ser lançado no próximo dia 26, no Pina Chope. Aguardem os detalhes.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fantasy Art – Galeria

Feathered Friends.Kirk Reinert.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

vaga-lume

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revia, já sem muito entusiasmo, a coleção de besouros, quando o fusível queimou, mergulhando o sótão em completa escuridão. tinha medo de escuro, descobriu nos ruídos do velho forro da casa a presença de antigos moradores, fantasmas e duendes. tropeçava nos móveis, e o vaga-lume se revelou na escuridão.

momentos depois, a luz voltou a brilhar no abajur de papel crepom vermelho. mas ele já decidira permanecer no escuro, enquanto o vaga-lume picotava a escuridão em voos luminosos.

foi daí que começaram a surgir os demais vaga-lumes. até que, certa noite, quando o fusível queimou novamente, a luminosidade de seu corpo se sobrepunha à minúsculos vaga-lumes.

e ele se viu sozinho no sótão. sem medo de escuridão. sem os fantasmas. sem os duendes. apenas ele e a luminosidade de seu corpo.


(Adrino Aragão)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sobre Celito Chaves

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CELITO Chaves foi um dos grandes amigos que tive em Manaus, ainda quando ele andava com o violão debaixo do braço, aqui e ali tocando e repetindo a saga do cabo Salustiel.

Caráter sem dúvida inalterável, sempre na sua, jamais regateava ao decidir por uma parceria musical.

Na época, eram raras essas pessoas com quem passávamos horas a fio a conversar e tomar golinhos de cerveja ao abrigo do Armando, Galo Carijó, São Marcos, Praça da Saudade, Bilhares, Chapada...

No bar do Otelo também, em noites completas, com a radiosa presença de tantos encantados que possamos recordar.

Dói-me sua ausência ao lado de alguns de seus parceiros, como Aníbal Beça, já porque, ao largo destes últimos dezoito anos, são esses os semblantes que me visitam e dão-me a iluminação necessária para que eu transforme os espinhos do exílio voluntário, em acenos de ternura.

(Jorge Tufic)
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Mário Adolfo lança Meu Bloco na Rua



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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Morre Celito Chaves, um dos fundadores da BICA

Simão Pessoa*
Celito, com a camisa sobre os ombros, entre Orlando Farias e Afonso Toscano.
Simão comanda o laptop, sob o olhar vigilante de Mestre Louro e Armando. Jomar Fernandes degusta um x-porco.

Um dos fundadores da irreverente Banda Independente Confraria do Armando (BICA), o cantor e compositor Celito Chaves faleceu hoje de manhã, vítima de câncer no fígado.

Seu corpo está sendo velado na funerária Almir Neves, na rua Joaquim Nabuco. Seu enterro está previsto para a manhã desta quinta-feira.

Exímio contador de causos, pesquisador incansável da cultura popular de raiz e violonista de mão cheia, Celito fez parte da geração dos festivais de música no Amazonas, tendo sido vitorioso em dois deles.

Ele também foi premiado como melhor arranjador no 1º Festival de Música Popular do Amazonas, que aconteceu em Manaus, em 1968.

Era parceiro de artistas ilustres como Aníbal Beça, Rinaldo Buzaglo e Afonso Toscano e pertencia à ala de compositores do GRES Sem Compromisso, da qual foi também um dos fundadores.
Casado com a engenheira civil e professora universitária Heloisa Chaves, Celito era pai do publicitário e videomaker Alberto Chaves, atualmente morando em São Paulo, do universitário Antonio e da bioquímica Ana Rosa.

Professor da Seduc, Celito trabalhou vários anos como produtor da TV Cultura do Amazonas.
Ele participou de vários projetos de cultura popular pelos bairros da cidade e dentre suas grandes criações está a fundação da Banda Independente Confraria do Armando (BICA), idéia sua e dos amigos Manoel Batera, Mario Buriti e Afonso Toscano.

Um de seus últimos trabalhos foi o show “Fogueiras e Serestas”, realizado no Largo de São Sebastião durante todos os sábados do mês de junho. O título era uma alusão às festas juninas.

Em parceria com Afonso Toscano, Celito criou o hino oficial da BICA:

Na Banda Independente
Confraria do Armando
Tá todo mundo dando!
Tá todo mundo dando!

Dando alegria para esse pessoal
Que quer fazer o verdadeiro carnaval
Não tem Baile de Gala
Nem tem Baile da Chica
Vem brincar na BICA,
Vem brincar na BICA!

De camiseta e samba-canção
Vamos dançando ateus e cristãos
Nosso estandarte é uma cueca
De cebola e mortadela
Será que é do Armando?
Será que é do Cancela?

Em companhia de seu inseparável parceiro Rinaldo Buzaglo, Celito protagonizou muitas histórias engraçadas. Curtam uma delas:

Em 1984, Rinaldo Buzaglo, Celito, Edu do Banjo e Mestre Carlito viajaram para o Rio de Janeiro, onde foram gravar o samba-enredo do GRES Sem Compromisso.

As gravações foram realizadas no estúdio Havaí, do respeitado produtor Bira Havaí, e contaram com a participação de Dominguinhos do Estácio.

Era um compacto duplo. De um lado o samba da Sem Compromisso e do outro um samba da Reino Unido, que ainda era bloco de embalo.

Os músicos entraram no estúdio na segunda-feira de manhã e na terça à tarde já estavam acabando de finalizar a “bolacha”.

Na quarta-feira, Dominguinhos convidou os amazonenses para participarem de uma roda de pagode que rolaria naquela noite, na quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Eles não se fizeram de rogados.

Por volta das sete horas da noite, o quarteto já estava descendo de um táxi na quadra do Cacique de Ramos e participando do fuá.

Algumas horas depois, Mestre Carlito chamou Edu do Banjo e indagou o porquê de Celito e Rinaldo estarem discutindo tanto.

Bastante gorozado, Rinaldo dizia:

– Assim que a gente chegar em Manaus eu compro outro, meu compadre!

Mais gorozado ainda, Celito rebatia:

– Mas não é a mesma coisa, compadre, não é a mesma coisa...

– Deixa comigo, compadre! – insistia Rinaldo. “Eu vou lá na importadora Mundial e compro um zerado, melhor do que aquele...”

– Mas não vai ter nenhum valor pra mim, compadre! – contestava Celito. “Pra mim, não vai ter nenhum valor...”

Edu entrou na conversa:

– Êi, cara, o quê que tá pegando?... O Ademir Batera, o Bira Presidente e o Sereno estão ficando preocupados com essa discussão de vocês dois. O pessoal do pagode já até parou de tocar...
Celito, quase chorando, abriu o coração:

– Esse sacana do meu compadre esqueceu o meu violão Alhambra, modelo C10, dentro do porta-malas do táxi, Edu! Puta que pariu, Edu, aquele violão foi presente do meu falecido pai. E eu ainda disse pra esse miserável não trazer o violão, porque aqui tinha instrumentos pra todo mundo tocar...

– Mas aquele violão tinha sido afinado por mim, compadre, e eu queria tocar nele! – explicava candidamente Rinaldo. “Assim que a gente chegar em Manaus eu compro outro, meu compadre! Eu vou lá na importadora Mundial e compro outro!”

– Eu sei compadre, eu sei, mas não é a mesma coisa, compadre, não é a mesma coisa... – insistia Celito.

A ladainha só terminou em Manaus três dias depois. O violão Alhambra, claro, nunca mais foi encontrado.

Da esquerda para a direita, Celito e Heloisa são, respectivamente, os foliões 4 e 5.
(*) Publicado originalmente no Blog do Simão Pessoa.

Fantasy Art – Galeria

Julie Bell.

drops de pimenta 48

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─ Ando meio sem idéias pra terminar aquele livro de cenas banais.

─ Escreve sobre a gente...

─ O editor está me cobrando. Quer ao menos uma amostra pra conferir se estou no caminho que ele imaginou...

─ Escreve sobre a gente...

─ Pior é que não acontece nada de diferente ao meu redor...

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

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A bola do escritor na hora do pênalti

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Marco Adolfs



Tem duas coisas que deixam um escritor doente: falta de tempo para escrever e texto mal revisado. Não ter tempo para escrever é alguma coisa parecida com um aborto provocado ou um coito interrompido. Frustra o nascimento do prazer. E texto mal revisado, com erros de ortografia ou gramática, é como um espelho quebrado ou a existência de uma ferida a mutilar.

Um dia desses levei um livro muito bem impresso – papel e capa excelentes; diagramação ordenada e texto aparentemente correto – para um escritor amigo meu autografar. Antes de escrever e assinar a sua dedicatória, com um semblante tenso e preocupado, me alertou para os erros que haviam saído naquela edição.

Foi quando percebi que essa frustração do escritor é como a do goleiro na hora do pênalti. Aquele pênalti que ele só não defendeu porque pulou um milionésimo de segundo atrasado.

O escritor é aquele ser solitário e empedernido que sempre acha que a Bíblia é fichinha perante o que ele pretende fazer. Se tem um ser humano extremamente zeloso e vaidoso de sua cria, esse é o escritor. E goleiro não pode errar, não é verdade?!

Venho refletindo sobre o que anda acontecendo na literatura. Para o escritor, a literatura virou um espetáculo de futebol com partidas fracas e pênaltis mal defendidos. Sendo o escritor como aquele goleiro que fica vendo tudo acontecer em campo e que quase nunca tem culpa pelas faltas cometidas. Mas goleiro só deve ter pressa – já que fica a maior parte do tempo parado – quando a bola vem em sua direção. E não o contrário. Tem que defender a meta. Ah, isso tem. Como o escritor tem que defender a sua glória. Bem, isso pode ser até discutível.

Mas vamos em frente.

O tempo do goleiro é o da espera. E a sua conquista é o pulo do gato com as mãos entranhadas na bola. Se tudo der certo ele evita o gol; senão, sai vaiado e culpado. O tempo do escritor também é o da espera. E se tudo der certo ele faz um bom livro. Se não, fica decepcionado com a impressão final.

E tem mais uma coisa. A literatura já teve os seus bons tempos de mansidão, hoje o que prevalece é a pressão. Quanto mais, melhor. Mas, o que é mais acaba por ser menos. Tem que se ter cuidado em ser prolixo, senão vai-se pro lixo!

A Nélida Pinon, uma de nossas escritoras, que se fosse goleiro teria agarrado bastantes pênaltis, disse certa feita que são necessários mais ou menos vinte anos de muita leitura e exercício da escrita para alguém poder se tornar um escritor. Fico pensando então quanto tempo de editoração correta deve um escritor ter!

Dizem que goleiro é como vinho, só fica mais apurado com o tempo. E escritor? Qual o seu tempo de apuração, deixando de lado o que a Nélida escreveu?

Justamente o tempo da escrita, ou melhor, do treino com bolas exaustivamente chutadas na direção do gol. É quando então o escritor encontra o seu timing.

Mas que ele não se iluda, a bola não para nunca de vir em sua direção.

Às vezes ele pega; às vezes, não. O que importa é que se esforce para defender.

Já disse um outro escritor, que escrever é cortar as adiposidades. Ou, trocando em miúdos, cortar o que é desnecessário. Ele falou corretamente. A sua poesia, graças aos cortes, é tão perfeita quanto um pênalti bem defendido.

Mas, se escritores estão nascendo em centenas de milhares de campos, falta apurar os treinos e as defesas para se evitar os gols. Senão a partida torna-se medíocre.

O pior futebol é aquele no qual os dois times faturam doze gols de cada lado. É partida que diverte, mas é apenas uma pelada. Sem o brilhantismo das dificuldades de um belo treinamento ou uma bela partida, o goleiro, ou guarda-metas, não pega mais nada. E passa o tempo todo buscando a bola nos fundos da rede e a levar o time inteiro ao prejuízo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

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Resultado da Assembleia Estadual Setorial do Livro, Leitura e Literatura do Amazonas

De costas, ao centro, Tenório Telles dirige os trabalhos, sob o olhar atento, de frente, dos poetas Thiago de Mello, à esquerda, e Elson Farias, à direita.

O Estado do Amazonas já tem seus representantes para a PRÉ-CONFERÊNCIA SETORIAL DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA. Os eleitos, representantes das cadeias que representam o setor: Produtiva (editor e livreiro Isaac Maciel); Segmento Criativo do Livro (escritor Wilson Nogueira); e Mediadora de Leitura (bibliotecária Ana Castelo), representarão o Estado na Pré-Conferência Nacional do Setor, que ocorrerá em Brasília, nos dias 26 a 28 de fevereiro, onde apresentarão as propostas e sugestões dos segmentos do livro, leitura e literatura do Amazonas.

Organizada pela Câmara Amazonense do Livro e Leitura – CALL, o Conselho Municipal de Cultura, Associação Amazonense de Leitura – Amaler e o Comitê Gestor do FLIFLORESTA – Festival Literário Internacional da Floresta, a ASSEMBLEIA ESTADUAL SETORIAL DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA contou com a participação de entidades, instituições e empresas representativas dos diversos segmentos do livro e leitura, como o Inpa, Academia de Letras Ciências e Artes, Clube Literário do Amazonas, Associação Amazonense dos Escritores, Sesc, Seduc, Uea, Instituto Memorial Parintins, Universidade Federal do Amazonas, Biblioteca Municipal João Bosco Pantoja Evangelista, bem como do setor livreiro e editorial: Valer, Vozes, Saraiva, Paulinas, além de escritores, professores e historiadores.

Entre as propostas aprovadas, destacam-se: a 1. “Criação de Banco de Dados sobre as Manifestações Culturais Nacionais, com o Registro do Patrimônio Imaterial do País e, ao mesmo, Criando Mecanismo de Acessibilidade para que a População Tenha Acesso aos Bens Culturais”; 2. “Formulação de Política Cultural Municipal, Assegurada em Orçamento, com Ênfase na Promoção do Livro e Leitura e Cumprimento das Metas Estabelecidas”; 3. “Formulação de Programas, Financiamento, e Ações Econômicas para Promover a Cadeia Produtiva da Cultura”; 4. “Estímulo e Apoio às Iniciativas Econômicas e Projetos de Cunho Cultural, Incluindo-se a Isenção Tributária e as Peculiaridades do Segmento da Economia Criativa”; 5. “Fortalecer a Participação da Sociedade na Gestão e Acompanhamento dos Projetos, Programas e Ações Culturais Desenvolvidos em Âmbito Governamental, Mediante a Criação de Conselhos Gestores da Cultura”.

A pauta da ASSEMBLÉIA contemplou ainda a discussão sobre o Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura, que resultou no endosso do Plano e sugestão de aprofundamento de suas propostas e fundamentos em relação à questão do Livro e da Leitura, com ênfase na necessidade de aprimorar e criar novos mecanismos que promovam o acesso da sociedade à Leitura, ao Livro e à produção literária em geral. Foi votado pela plenária o PROJETO UMA BIBLIOTECA EM CADA MUNICÍPIO, que objetiva zerar no Amazonas os municípios sem bibliotecas, por meio da articulação com prefeituras e sensibilização dos representantes do poder público estadual. As discussões se encerraram com a eleição dos delegados (e suplentes) que representarão o Amazonas na Pré-Conferência em Brasília:

Cadeia Produtiva: Isaac Maciel – Suplente: Delta Paula Melo;
Segmento Criativo do Livro: Wilson Nogueira – Suplente: Ana Peixoto;
Mediadora de Leitura: Ana Castelo – Suplente: Socorro Gomes.