Amigos do Fingidor

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Virtual macabro


Pedro Lindoso



Manhã de domingo. Ana Rosa e o marido, Clóvis, tomam café da manhã, ainda com os corações compungidos com a ida à missa de sétimo dia de Arminda, moradora no condomínio onde residem. Ana Rosa, espantada, comenta com o marido que recebeu um e-mail de Arminda, ontem. Clóvis lhe diz ser provavelmente algum engano. Ana Rosa não se convence. Não. O horário registrado era ontem, depois da novela. A mensagem era definitivamente do e-mail dela. O anexo continha fotos de Paris, com a música la vie em rose. Tipo de e-mail que Arminda repassaria aos amigos.  Deveria  estar enganada. Ana Rosa verificou que, além dela, a falecida se comunicava por mensagens, pelo menos sem cópias ocultas, com mais três amigas: Lucinda, Virgínia e Ademildes. Ana Rosa pensou em telefonar para Virgínia, a única das três, que conhecia, vagamente. Perguntaria se teria recebido também o estranho correio eletrônico, mas deixou para lá. Estava incomodada porque nada havia mudado na casa da falecida. A varanda continuava com os mesmos vasos de flores. No quarto, com a cortina entreaberta, viam-se roupas da morta no cabide. A cama arrumada como sempre. Revistas e jornais no porta-revista. Palavras cruzadas e uma caneta, em cima da mesinha da varanda. O único filho de Arminda, Adriano, disse ao porteiro que iria morar no apartamento da praia, a uns dez quilômetros dali. Não tomou nenhuma providência prática sobre o apartamento e as coisas da sua mãe falecida. Na terça-feira, outro e-mail. Agora eram fotos de Praga, República Tcheca. Na quarta, Ana Rosa recebeu lindas fotos de Portugal, com música de Amália Rodrigues. Sempre no mesmo horário. Após o término da novela das oito. Estava nervosa e assustada com os e-mails. Ninguém mais se chamava Arminda nesse mundo.  Só a falecida. O e-mail era dela. Seria brincadeira de alguém? Hackers, como dizem. Mas para quê? Com que finalidade? Ficou altamente abalada ao saber que Lucinda, amiga de Arminda, que conhecera de vista no enterro, passou mal repentinamente. Isso na última segunda-feira do mês, vindo a falecer ao dar entrada no hospital. No dia seguinte, os e-mails continuavam. Fotos da Grécia, com a música de Zorba, o grego.  Alguns dias se passaram e veio um e-mail com paisagens argentinas ao som de La Cumparsita. Ana Rosa resolveu ligar para Virgínia. A amiga disse que seu computador havia dado pane e que estava sem internet antes mesmo do falecimento da inesquecível Arminda. Ana Rosa não teve coragem de expor o motivo da ligação e desconversou. Perguntou se Virgínia conhecera Lucinda. Virgínia a conhecia de vista, mas uma amiga em comum disse-lhe que ela havia passado mal depois da visita de uma mulher desconhecida, ruiva. Esse era o único detalhe que a empregada se lembrava. E foi o detalhe dado aos parentes. Ninguém sabe quem é essa tal ruiva. A única ruiva amiga de Lucinda era a falecida Arminda, já morta e enterrada. Mas não deram muita importância, porque a morte foi diagnosticada como parada cardíaca e as artérias dela estavam meio que comprometidas. Ana Rosa perguntou ao porteiro se alguém da família havia ido ao apartamento. Ele disse que só conhecia Arminda e o filho. Não recebiam visitas. Parentes moravam longe, em outro estado. Eram mãe e filho. E só. O rapaz, de quase quarenta anos, foi morar no apartamentinho da praia e vem pouco aí. Também não tem amigos. Vivia grudado na mãe. Mas não tem aparecido. Quando vem, pega sempre algumas coisas, que parecem ser roupas e sai logo. Adriano sempre foi muito esquisito e caladão. Vinte dias se passaram e soube-se do atropelamento de Ademildes. O carro, furtado, era dirigido por uma mulher ruiva. Encontraram o veículo num barranco e a polícia investiga o caso. Vagarosamente, como de costume. Ana Rosa ficava cada dia mais apavorada. Os e-mails continuavam. Sempre após a novela das oito. Paisagens da Escandinávia, ao som das Quatro estações, de Vivaldi. Ana Rosa andava com os nervos à flor da pele. Agora dava para receber telefonemas em seu celular, do celular da amiga falecida. Um desassossego. Diariamente mandava rezar missas para Arminda. Pensou em bloquear os e-mails, mas desistiu. Teve então a ideia de deletar o e-mail de sua lista de contatos. Talvez assim, os e-mails da morta parassem de aparecer. Ledo engano. Paisagens da Alemanha ao som de músicas de Wagner. Era tudo muito tétrico e Ana Rosa estava com medo, muito medo. Talvez fosse a um centro espírita. Um e-mail com fotos do Rio de Janeiro, com músicas de Tom Jobim, foi o último dessa semana.   Das quatro pessoas que recebiam e-mails de Arminda, duas estavam mortas. A terceira estava sem usar o computador. E a quarta era ela. Um frio na espinha. Um tremor constante. Passados três meses de tanta agonia, resolveu que ligaria novamente para Virgínia. Os telefonemas do celular da morta continuavam.  O marido de Virgínia lhe disse que ela havia feito uma cirurgia plástica. Passou mal e não resistiu às complicações. Uma mulher ruiva desconhecida havia lhe feito uma visita horas antes de partir. Mas isso era só um detalhe insignificante. Perguntou se Ana Rosa conhecia alguma ruiva amiga de Virgínia. Ana Rosa lhe disse que só conhecia a Arminda, que falecera havia quatro meses. Tudo muito estranho. Novo telefonema do celular de Arminda. Teve a ideia de deletar o número da amiga morta. Talvez os telefonemas parassem. Ninguém falava nada mesmo. 30 segundos de silêncio e desligavam.  É apavorante. Agora só restava ela, das quatro amigas do e-mail.  O marido, Clóvis, não lhe dava crédito. Dizia que estava estressada e que deveria arrumar uma ocupação que a tirasse do computador e da internet. Aquilo era um vício e estava deixando a mulher maluca. Trocou o número do celular. Resolveu trocar de provedor. Pediu cancelamento de seu e-mail. Por que não havia feito isso antes? Finalmente parecia quer tinha paz. Sentia-se entretanto esquisita, como se tivesse matado a amiga. No dia seguinte, soube que o filho de Arminda estava no apartamento. Quis ir vê-lo. O porteiro achou tudo muito estranho. O rapaz, o tal de Adriano, entrou ontem, e está lá até agora. Nunca ficou tanto tempo. Já liguei no interfone e ninguém responde. O telefone fixo também não respondia. O porteiro já tinha tocado na campainha e nada. Ana Rosa lamentou ter deletado o telefone celular da falecida. Chamaram a polícia. O rapaz estava no banheiro. Morto por asfixia de gás. Vestido com a camisola da mãe, devidamente maquiado e com peruca ruiva, igualzinha a da falecida.

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
2º - DA NATUREZA





Há outras vozes (sim) na natureza

tudo é linguagem que se fala e ouve:



o vento canta como um homem ébrio

o mar soluça feito uma mulher



e os poetas aprendem essas vozes



os rios têm rumores como os loucos

as árvores resmungam feito os velhos



e os poetas aprendem essas vozes



os seixos contam níqueis como os pobre

a cachoeira ri feito as meninas



e os poetas aprendem



a areia cochicha como as tias

as aves têm canções feito as meninas



e os poetas





3º - DA LINGUAGEM



                                                    tr

há também a linguagem das es       el

                                                    as



das b o r b o l e t a s

e

dos  v a g a l u m es

há também  a linguagem do (silêncio)

das s-e-r-p-e-n-t-e-s

dos p

      e

      i

      x

      e

      s

      sob a água



há também a linguagem dos m

                                               e

dos mi/né/rios                         t

                                               a

das f        o      e                      i

           l      r          s                 s

                               s           

           b                    s

das a      e              a

                         h

                 l


(Marcus Accioly)




domingo, 29 de julho de 2012

Bandeira – um artista resistente

Tenório Telles



   No belo poema “Promessa”, a poetisa portuguesa Sophia Brayner Andresen faz uma declaração de compromisso com a liberdade: “Na clara paisagem essencial e pobre / Viverei segundo a lei da liberdade / Segundo a lei da exacta eternidade”. Os versos da escritora traduzem o desafio de ser livre num tempo ameaçador para o livre pensar e o direito de ser. Tempo de banalidades, arrogância e perda dos valores.  

   O antídoto a esse estado de degradação espiritual e conformismo é a arte. A beleza e a verdade nos salvarão da barbárie e da indiferença que nos paralisam. Os criadores têm a missão de opor resistência a essas forças que ameaçam o sonho e ultrajam a vida. Contra o medo e o adesismo, os artistas de verdade têm a responsabilidade de dizer não ao cerceamento da palavra e da consciência. O instrumento de que dispõem para esse ofício é a paixão e o fogo transformador de sua criação artística. O fato é que poucos conseguem resistir e se manter fiéis à liberdade e à honestidade de seu trabalho criativo. 

   O escritor Jorge Bandeira é um exemplo de artista resistente, cada dia mais raro na cena cultural brasileira. A regra é a submissão aos poderes e o silêncio diante do ultraje da vida. O trabalho criativo de Bandeira é afirmativo de seu compromisso com uma concepção de arte fundada na realidade e atitude crítica diante dos descaminhos do mundo. O tom predominante em seus textos e perfomances artísticas é o questionamento, a reflexão e a denúncia da virtualização das relações sociais e do que é viver nesta sociedade em que tudo virou objeto de consumo, inclusive o ser humano, que deixou de ser gente, cidadão... e se transformou em cliente e consumidor. Buscar-se, em meio a essas perdas, é uma forma de afirmação da singularidade, de romper com a condição de objeto.  

   A independência tem assegurado ao artista Jorge Bandeira algo imperativo a todo criador: a liberdade para discutir e publicizar suas ideias e construir o artesanato de sua obra. Polivalente e inquieto, reúne em si vários pendores: é ator, dramaturgo, tradutor, crítico de arte, professor e cantor. Seus mais recentes trabalhos são ilustrativos de sua opção por uma postura artística resistente e de combate: 22 lâminas, seu penúltimo espetáculo dramático, é uma reflexão, a partir dos arcanos do Tarot, sobre a existência, o poder e a condição humana. Mais recentemente montou Contatos imediatos de 3º grau, de Márcio Souza, em que se problematiza o impacto da tecnologia sobre os povos indígenas e o processo de alienação dos indivíduos.  

Bandeira traduziu A caçada do Snark, de Lewis Carroll.
   Jorge Bandeira faz parte de uma tradição de criadores: dos que resistiram à sedução do poder e se conservaram produtivos e independentes, pondo suas criações a serviço da mudança, da liberdade e da construção de uma consciência questionadora e cidadã. Essa postura é fruto de sua convicção de que o artista deve ter discernimento de sua responsabilidade diante de um mundo insensível e refratário à beleza e ao bem. Bandeira é herdeiro da linhagem artística de Baudelaire, Artaud, Beckett, Oswald de Andrade, Wagner Mello, entre outros. Como dizia Drummond, a condição desses artistas é ser “gauche na vida”, ser navegante da outra margem, dos que negam os que afirmam toda forma de poder e dominação do ser. Jorge Bandeira, pela sua resistência e conteúdo humano de sua obra, é um artista do seu tempo, sobretudo porque não traiu seus princípios e o seu coração.

Obs: publicado dia 28.07.12, no jornal A Crítica.

Manaus, amor e memória LXVIII

A praça da Saudade... nua...

sábado, 28 de julho de 2012

Fantasy Art – Galeria

Souvenirs du passé.
John W. Russell.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 7/12

Zemaria Pinto
Somente a arte pode redimir a humanidade



No “Monólogo”, a Sombra arremata sua fala, emitindo o conceito-chave da obra de Augusto dos Anjos. Ecoando Schopenhauer – para quem a arte é um bálsamo para o sofrimento humano –, a Sombra afirma que somente a arte pode redimir a humanidade. Somente a arte pode libertar o homem da rede de misérias em que ele se envolveu, moral e fisicamente. Mas poucos são os que têm o privilégio de percebê-lo. Poucos se dão ao ofício ou à contemplação da arte. Desta forma, cabe ao artista manifestar-se unicamente pela dor. A sua dor é a dor universal. Manifestando-a, ele denuncia a corrupção a que está submetida a humanidade. Essa é a sua alegria.


“Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

À condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!



Provo desta maneira ao mundo odiento

Pelas grandes razões do sentimento,

Sem os métodos da abstrusa ciência fria

E os trovões gritadores da dialética,

Que a mais alta expressão da dor estética

Consiste essencialmente na alegria.”

(p. 199)



Em Os doentes, a máscara lírica, vagando incerta, afirma buscar entender “o que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam” (p. 236), colocando em cheque o conhecimento científico. A Sombra reitera sua confiança no sentimento, que não se curva à ciência e nem se deixa seduzir pela dialética, para chegar a uma conclusão, que é fruto de pura observação empírica. São princípios do budismo, que é pautado por uma razão pragmática, contrária à racionalização e à indução. A Sombra afirma que somente a “dor estética”, isto é, a dor forjada com arte, a dor “fingida” (não necessariamente sentida), pode proporcionar alegria a quem se entrega à contemplação artística. Este é um conceito novo: dor estética. E este é o projeto de Augusto dos Anjos: mostrar-nos a degradação da humanidade de maneira estética. Uma estética diferente, calcada no sofrimento humano.

Para a máscara lírica, que só se manifesta nas três últimas estrofes do poema (o que lhe empresta características de poema dramático), o que ela ouvira da Sombra – “A orquestra arrepiadora do sarcasmo!” (p. 199) – era a manifestação da própria natureza divinizada:



Era a elégia panteísta do Universo,

Na podridão do sangue humano imerso,

Prostituído, talvez, em suas bases...

Era a canção da Natureza exausta,

Chorando e rindo na ironia infausta

Da incoerência infernal daquelas frases.

(p. 200)

Durante muito tempo, a crítica mais apressada acusou a “incoerência”, a “falta de nexo” da poesia de Augusto dos Anjos. Fazendo as conexões devidas, percebemos que ele, antecipando-se, não só tinha consciência disso, mas ainda ironiza o fato.

 “Monólogo de uma sombra” engendra um postulado ético, denunciando a degradação moral e física a que o homem está submetido; e inventa um postulado estético, ao propor uma nova maneira de fazer poesia a partir da “expressão da dor” calcada na realidade vivida, o que atropelava a cristalina poesia parnasiana, bem como a hermética poesia simbolista. Estes dois postulados estão presentes, quase sempre associados, na maioria dos poemas do Eu, compondo o seu tema mais abrangente: a degradação da humanidade vista pela estética da dor. Isso mostra o quanto o autor tinha consciência do seu projeto de poesia.

Vários pontos de contato com a estética expressionista são manifestados no “Monólogo de uma sombra”: a fragmentação do eu e da realidade, a partir do discurso da Sombra; a simultaneidade da fala, que leva a própria máscara lírica a citar a “incoerência infernal” daquelas frases; o clima onírico, que perpassa todo o poema, numa dimensão que tangencia o demoníaco; o grotesco que emana de cada estrofe, a manifestar o nojo à natureza humana; a utopia de um mundo, guiado pelo não-racionalismo, para preservar os valores mais puros do ser humano; o misticismo panteísta de um Deus (“substância de todas as substâncias”) representado pela Natureza; a crença de que o sentimento pode ser superior à ciência e à filosofia; a crença na Arte como fator de transformação da Humanidade.

O “Monólogo de uma sombra” é um grito de dor, mas é também um canto de esperança. Dor pela humanidade doente. Esperança de que a poesia – ou melhor, a Arte – seja o lenitivo para essa dor. 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Aprender a pensar


David Almeida



Aprender a pensar é acender uma pequenina chama no escuro mundo do pensamento; é a busca do conhecimento; do saber existir na relação humana para a integração e domínio do espaço que ocupamos na sociedade em que vivemos.

Essa pequenina chama que brota dentro do ser humano, é o começo, à procura do aprender a pensar, e com isso, ir aumentando a claridade pelos caminhos que nosso pensamento segue, no seu labor, produzindo conhecimento, certificando-se cada vez mais do poder da sua existência. 

Pensar na sociedade em que vivemos é assumir uma postura crítica emoldurada pela verdade, construindo caminhos de vital importância, para as necessidades da vida.  

Pensar, pensar e pensar, é acima de tudo responsabilidade dos atos, das decisões, que temos a tomar, para evitar um resultado negativo que vá influenciar os comportamentos.  

Tudo precisa ser bem pensado, estudado em todos os ângulos: prós, contras porque com certeza teremos um resultado positivo na edificação de um mundo melhor.  

A energia positiva que emana do pensamento e transforma escuridão em luz, não faz parte da cabeça de muitos, que não aprenderam a pensar para o bem do seu próximo, clareando somente passos egoístas, de cabeças nefastas, que cercam a vida de lama, lava limo e cinzas, construindo castelos no alto de suas arrogâncias, com medo de suas próprias sombras.  

Pensar bem é acima de tudo construir uma sociedade mais justa equilibrada, saudável onde o pensamento voe livre, que nem passarinho, sobre o tempo que o vento, semeador do amor fez seu ninho, e a luz mais que brilhante, reluz ao som de cada palavra na comunicação da espécie humana.  

Aprender a pensar, é um exercício onde através dele, podemos vislumbrar um futuro melhor para o nosso planeta continuar sempre azul, sentir o equilíbrio da emoção com a razão, dentro do peito, polindo a vida, energizando alma, regando a natureza do ser, com a mais pura água, que a fonte do pensamento produziu, fertilizando caminhos onde pétalas de esmeraldas acomodarão o futuro sob os passos da verdade e da justiça.      

Aprender a pensar é ter certeza de ser feliz, é fazer do pensamento uma estrela de primeira grandeza a iluminar o mais obscuro mundo, trazendo claridade, transparência e a verdadeira aparência do mundo real e das cabeças que nunca aprenderam a pensar.  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Fios de luz, aromas vivos: a voz da saudade


Tânia Du Bois



            Fios de luz, aromas vivos: leitura de Retrato de Mãe, sonetos de Jorge Tufic, por Rogel Samuel: “Venham os fios de luz para tecê-la, aromas vivos para senti-la, às palavras do filho descrevê-la, proferi-la” (Rogel Samuel).

            Não conheço Jorge Tufic pessoalmente, e sim através de suas obras literárias: adoro! Penso que o Poeta merece uma homenagem especial, e o escritor Rogel Samuel dá essa atenção através de reflexões literárias em 15 sonetos de Tufic.

             Samuel ressalta o caráter literário da obra com um olhar sobre o poeta. Revela o poder de quem interpreta costurando palavras e dando significado à estrutura maternal dos sonetos, e declara que “o mundo poético e o mundo da realidade colidem, possuindo cada qual a sua própria verdade”.

            Fios de luz, aromas vivos – são sonetos que Jorge Tufic, inspirado na realidade, reconhece como expressão das lembranças. Segundo Samuel, “... acaba por ser mais real do que a própria realidade.” A voz de Tufic reflete a sua própria imagem, onde faz um testemunho do Retrato de Mãe. Em jogos de palavras, proclama histórias que espelham a sua relação com a sua mãe, como se fosse ontem e vivesse o amanhã. Cria significado através do tempo e das lembranças que sinalizam a sua ausência, buscando dar sentido à sua vida. “Que restara de ti, dos teus pertences? //... Tudo posto num saco humilde e roto. / Eu quis, então, medir esse legado, / mas limites não vi para a tristeza. / Davas a sensação de que o tesouro / se enterrara contigo. //... Que eternidade / pode igualar-se à voz desta saudade?”

            Através da imagem poética, mostra o seu eu versus mãe, ao alcançar a infinitude do tempo: sua intimidade desvela os mistérios da dor da ausência. Nesse horizonte, o poeta compreende, interpreta e projeta o sentido da herança da Grande Mãe que se perde com a morte.

            Fios de luz, aromas vivos revela a parceria de mãe e filho, onde apenas o amor é o único segredo. E a memória do poeta reconstrói os bons momentos sem se perder no tempo. “Nossa infância era tudo iluminada / pelas fontes da tua juventude. //... Ainda te vejo, o porte esbelto indo / por aqueles baldios transparentes / onde a luz, de tão verde, pincelando / os ermos...”

            Mesmo com a saudade presente, Jorge Tufic, em seus sonetos, volta ao seio materno para registrar a importância e a resistência da lembrança (viva) em sua vida. Ao escrever Retrato de Mãe, não teve medo de mostrar a outra face, o lado filho.

            O encontro entre lembranças e saudades, filho e mãe, deu a oportunidade ao escritor Rogel Samuel de fazer a análise detalhada da obra, mostrando o Poeta Jorge Tufic com o dom do mistério menor e mais emoção, revelando, mais uma vez, o seu talento literário.

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
ANIMAIS & PÁSSAROS



Os animais aprendem o silêncio

mas possuem os seus sons:



o lobo uiva o vento

a cascavel chocalha a vagem



e os pássaros aprendem essas vozes



o corvo crocita a treva

o cisne arensa a morte



e os pássaros aprendem essas vozes



o leão ruge a própria força

o urso freme a mesma fúria



e os pássaros aprendem essas vozes



o pavão pupila as cores

o papagaio palra as palavras



e os pássaros aprendem essas vozes



o elefante barri toda floresta

o touro urra a tempestade



e os pássaros aprendem essas vozes



a cegonha glotera o silêncio

o camelo blatera o deserto



e os pássaros aprendem essas vozes



a andorinha trissa o verão

a nambu trila o inverno



e os pássaros aprendem essas vozes



a ovelha bale a voz de sino

o porco grune o som da água



e os pássaros aprendem essas vozes



o ganso grasna o lago azul

a garça gazea o açude verde



e os pássaros aprendem essas vozes



o cavalo relincha igual ao fogo

o asno orneja feito um relógio



e os pássaros aprendem essas vozes



o pombo arrulha o doce suspiro

o peru grugulha a alegre roda



e os pássaros aprendem essas vozes



a araponga retine o seu metal

a serpente sibila o ar de veneno



e os pássaros aprendem essas vozes



a coruja pia a escura noite

o canário trina o sol do dia



e os pássaros aprendem essas vozes



o grilo cicia as folhas

a cigarra estridula as flechas



e os pássaros aprendem essas vozes



o macaco grincha como as árvores

a rã coaxa e é a fonte



e os pássaros aprendem essas vozes



o cão ladra

a raposa regouga



e os pássaros aprendem essas vozes

(Marcus Accioly)

domingo, 22 de julho de 2012

Manaus, amor e memória LXVII

Os caminhos do Tesouro Público sempre foram sujos...

sábado, 21 de julho de 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 6/12


Tema e motivos: recorrências



É no “Monólogo de uma sombra” (p. 195-200)[i] que Augusto dos Anjos determina os limites de sua poética, o seu projeto poético: mostrar a degradação da humanidade vista por uma estética da dor. Ensaiando uma metafísica insólita e sarcástica, o poema reflete o desagrado para com os rumos que tomara a ciência; critica a permissividade sexual, e mostra o “horroroso” como um componente da natureza humana. Mas também faz uma exaltação à Arte, como única via de reconstrução e revivificação da humanidade doente. O poema foi escrito, ao que tudo indica, em 1912, sendo um dos últimos – senão o último – do Eu a ser produzido, funcionando como prólogo ao Eu e uma “arte poética” em relação ao conjunto da poesia do autor.

“Monólogo de uma sombra” nos fornece um tema central, agregador entre tantos outros, para uma compreensão mais imediata do Eu, onde se espraiam motivos diversos. Tema e motivos entendidos como conceitos que se imbricam: os motivos consubstanciam o tema; e este é um estuário para onde os motivos convergem.  

O poema “Os doentes” (p. 236-249) é outro paradigma de Augusto dos Anjos. É nele que estão relacionados os motivos com os quais o poeta trabalha o tema predominante em sua obra, definido no poema de abertura. Doenças, morte, cadáveres, cemitérios, micróbios, vermes – são recorrências que ilustram essa degradação física, metáfora para a degradação moral. A máscara lírica descreve a paisagem noturna da “urbe natal do Desconsolo” (p. 236), mas não de uma maneira objetiva, como seria esperado de um parnasiano; a cidade também não é um emaranhado de símbolos, como pensada por um simbolista. Augusto dos Anjos descreve a cidade, em toda a sua complexidade, deformando-a para além do visível: não com a razão naturalista, mas com uma dramaticidade fragmentada, desconexa e tangenciando o grotesco – características do Expressionismo, marca da maior parte dos poemas inseridos no Eu.



[i] Todas as citações de Augusto dos Anjos têm uma mesma fonte (ANJOS, 1994), mencionada nas Referências. Deste ponto em diante, citaremos apenas as páginas onde as mesmas se encontram.

Jornalistas de verdade


David Almeida



A notícia sempre vai existir. Alguém vai ter que informar o que está acontecendo no seu país ou no seu pedaço de chão, certo? A democratização da informação se faz necessária, reta e precisa, para a interação e integração da raça humana, e pra isso acontecer, de uma forma justa e honesta, a informação deve, contudo, seguir nos moldes e padrões da ética e da responsabilidade de bons profissionais, compromissados, respeitosamente, com o povo.

Como sempre irão existir os camelôs da notícia e jornalistas de verdade – seja em blogs, twiters, ou em qualquer outra conquista da tecnologia, que futuramente vier a aparecer – a informação deve ser checada, pesquisada sob a luz da verdade, para poder seguir seu rumo e prestar um bom serviço.

Como vivemos em um país capitalista onde tudo vira produto, para se ganhar dinheiro, e atender, também, outros interesses, que alimentam o poder, muitos aproveitadores de plantão, com raras exceções, vão querer mudar de profissão, alimentar seus egos de pseudojornalistas e partir para a produção de notícias, sem se importar com a qualidade das mesmas, sem uma a apuração real dos fatos, viajando pela rede, como fuxico, boato, e às vezes até difamando, caluniando pessoas honestas.

É triste, mas isso já está acontecendo, pessoas estão deslumbradas, se achando poderosas com todo esse aparato tecnológico nas mãos, mas, sem conhecimento algum do que é capaz um meio de comunicação desse porte, e por isso, já fazem as redes cibernéticas balançarem, colocando a democracia, que é uma estrutura social, na lixeira. Claro, quem estudou, ralou para tal questão pode fazer a diferença, ganhando a credibilidade dos leitores. Mas demora! Ôôôô, mas como demora! O poder, e a velocidade de contaminação e destruição que tem uma má informação pode ser catastrófico, e devido à situação cultural do povo, o que era verdade, por incrível que pareça no mesmo instrumento de comunicação, caminha a passos lentos, parece até que a verdade não tem pressa, e a mentira é muito mais que veloz online, apesar das suas pernas curtas.

Acontece que, com o advento dessa maravilha, que agrega várias mídias, chamada Internet, nos defrontamos com uma aparente informação democratizada, tudo porque, a revolução é tecnológica e não social, mas que, na verdade, só ilude, fomentando mais ainda, a desinformação dissimulada, abrindo um leque de opções para a manipulação em massa, afastando mais ainda, o povo do poder, e podemos até dizer, que está a serviço da vontade de quem, sempre teve as rédeas da situação nas mãos.

O povo precisa saber o que é a democratização da informação com todos os seus filtros para poder não ser enganado: para saber votar; falar, escolher seus representantes: protestar, saber dos seus direitos; não se iludir com contadores de causos e donos de verdades; justiceiros que aparecem nos meios de comunicação da noite pro dia com o ar de super heróis; salvadores da pátria, sem qualificação alguma, fazendo doações de ranchos, oferecendo o paraíso como salvação, quando na realidade não estão democratizando nada, suas informações tem um fundo: o fundo de seus bolsos, que enche cada vez mais, levando ao fundo de um poço seco a dignidade de quem trabalha.

A notícia sempre vai existir, sim, pela cabeça de verdadeiros formadores de opinião, que pensam e trabalham na construção de um futuro melhor para a humanidade.            

quarta-feira, 18 de julho de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vou votar para prefeito...

Zemaria Pinto

Vou votar para prefeito...

No candidato que assumir o compromisso de erradicar o trânsito de carros no centro velho de Manaus.

Carros só até a Leonardo Malcher, entrando pela Luiz Antony, para permitir o escoamento para Aparecida, Céu e São Raimundo – além dos moradores da gloriosa e nunca assaz louvada Frei José dos Inocentes.

Essa área – um retângulo (Luiz Antony, Leonardo Malcher, Joaquim Nabuco) com a base abaulada (as ruas do entorno do Mercado Municipal) – tem pouco mais de 2 milhões de metros quadrados (sorry, números estratosféricos impressionam a plebe ignara) e seu perímetro pode ser percorrido em menos de 60 minutos.

Carga e descarga no comércio do centro, permitida de 21 às 3h. Vá lá, de 20 às 4h.

Seria uma ótima área de lazer, inclusive para caminhadas – Manaus é uma cidade sem calçadas!

Lembram-se daquele bordão lá dos anos 1980? Mexa-se! Podemos atualizá-lo: Mexa esse rabo!

Só com uma medida radical se poderá dar uma nova cara a Manaus.

Quem se habilita ao meu solitário voto?

Pedro Lindoso lança "Oremos pela guerra - Manaus de Chopin e Mussolini"

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic





há um estilo lírico e outro épico

por exemplo:

o relógio do tempo é um coração (...)

isto é lírico

o coração do tempo é um relógio (...)

isto é épico

há um estilo passado e outro presente

por exemplo:

eu te amei com as mãos e com os lábios (...)

isto é passado

eu te amei com silêncio e palavras (...)

isto é presente

há um estilo simples e outro complexo

por exemplo:

o seu sonho de areia era uma estrela (...)

isto é simples

a areia de uma estrela era o seu sonho (...)

isto é complexo

há um estilo lógico e outro ilógico

por exemplo:

sou um número só na natureza (...)

isto é lógico

sou o número um e os outros números (...)

isto é ilógico

há um estilo visual e outro auditivo

por exemplo:

o círculo do sol é um leão (...)

isto é visual

o silêncio da lua é como um lobo (...)

isto é auditivo

há um estilo olfativo e um gustativo

por exemplo:

sentia alguma flor dentro do vento (...)

isto é olfativo

sentia o sol amargo como um fruto (...)

isto é gustativo

há um estilo que desperta o tato

por exemplo:

era de pedra a sua mão de pássaro (...)

etc     etc     etc





a poesia antiga se difere

da moderna:

era a noite dos deuses e demônios (...)

isto é medieval

o cardume do céu era as estrelas (...)

isto é renascentista

o fruto verde sob o sol maduro (...)

isto é barroco

ele levava o mundo sobre os ombros (...)

isto é romântico

talhada em pedra era a canção de pedra (...)

isto é parnasiano

o seu cavalo atravessava o céu (...)

isto é simbolista

sua cabeça é a máquina do sonho (...)

isto é moderno

etc    etc     etc

(Marcus Accioly)