Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A miragem elaborada – 20

Zemaria Pinto


O pouso leve



Gaston Bachelard, em O direito de sonhar, afirma que o instante poético é “essencialmente uma relação harmônica entre dois contrários”. Na poesia de Alcides Werk, estes contrários (água/terra, mata/urbe, luz/escuridão) têm sempre a presença do homem como elo de ligação. Este terceiro elemento leva-o na direção oposta àquele poeta descrito por Sartre em Que é a literatura?: Werk não se afasta da linguagem-instrumento. A palavra não é uma barreira e por isso ele se dirige aos homens sem o temor de não ser entendido.

A palavra-signo é mais que a palavra-coisa. Refundida no fogo das paixões mais elementares a palavra poética de Alcides Werk assume por vezes conotações muito comuns, como deve ter sido observado ao longo deste trabalho. Aí, mais uma vez, o poeta atalha os velhos caminhos do estabelecido para construir uma poesia cujo maior argumento de vigor é, justamente, sua simplicidade.

Pouco mais que uma centena de poemas publicados, não é difícil concluir – pela emotividade despojada, despejada em cada poema – que Alcides constrói seu trabalho às custas do sofrimento físico que o fazer da poesia lhe impõe. As miragens elaboradas que persegue são raios de uma tempestade longínqua a que ele se acostumou a assistir nos fins de tarde da verde planície de seu exílio voluntário.

E eis que o trabalho encerra. Encerra mas não se esgota, pois que o lavor da palavra é sempre anunciador de boas-novas. Cumpra-se.

 
Dos instrumentos de voo



AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1988.

ARISTÓTELES. Poética. Série Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1973.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Série Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

__________. O Direito de sonhar. São Paulo: DIFEL, 1986.

BARBOSA, João Alexandre. A metáfora crítica. São Paulo: Perspectiva, 1974.

BITTENCOURT, Agnello. O homem amazonense e o espaço. Rio de Janeiro: Artenova, 1969.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 1989.

LYRA, Pedro. Conceito de poesia. São Paulo: Ática, 1986.

PAZ, Octávio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética. São Paulo: Brasiliense, 1987.

RAMOS, Maria Luiza. Fenomenologia da obra literária. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1974.

SANTA'ANNA, Afonso Romano de. Poesia: um negócio de muita responsabilidade. In: Revista IBM. Ano II, n° 05, Setembro/1980.

SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura?. São Paulo: Ática, 1989.

SILVA, Domingos Carvalho da. Uma teoria do poema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1989.

TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1983.

VERÍSSIMO, José. Estudos amazônicos. Belém: Universidade Federal do Pará, 1970.

WAGLEY, Charles. Uma comunidade amazônica. São Paulo: Nacional, 1977.

WERK, Alcides. Da noite do rio. Manaus: Madrugada, 1974.

__________. Marupiara. Organização de Aníbal Beca, Manaus: Governo do Amazonas, 1988.

__________. Poemas da água e da terra. Manaus: Madrugada, 1987.

__________. Trilha dágua. 1a edição, Manaus: Governo do Estado do Amazonas/UBE-AM, 1980.

__________. Trilha dágua. 2a edição, Manaus: Governo do Estado do Amazonas/UBE-AM, 1982.

__________. Trilha dágua. 3a edição, Manaus: Madrugada, 1985.


Manaus, 1989

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A miragem elaborada – 19

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz



VI


Apesar de íntima e apaixonadamente identificado com a região amazônica, Werk não se deixa inebriar pelo jogo fácil das cores. O claro/escuro de sua poesia tem nuances que só o olhar mais contemplativo e paciente poderá perceber. Considerando apenas o aspecto dia/noite, observa-se a gama de símbolos que o poeta utiliza.

O entardecer – a luz sendo substituída pelas trevas – é “prenúncio de luto” e representa a morte, a decadência, a ruína:

                                                                           amargo
                    instante só de ocasos construído

A noite, por sua vez, tem dupla função. Há a noite que sucede o entardecer, mas há noite que precede a manhã. A primeira traz em seu bojo espectros sombrios, gemidos de dor, angústia, desespero. A noite desce sobre o poeta e seu universo. A noite veste-o. A noite despe-o.

                    Noite. Deve ser noite. Nada vejo
                    no mar. O meu navio é uma figura
                    suja do mundo escuro deste mar
                    de noite. E eu vazio dentro dele.

Estes versos, do “Soneto V”, seriam palavras de um encarcerado? Seriam palavras de um torturado? A chave talvez esteja no fechamento do soneto: dúvida que enlouquece o homem e alonga a noite:

                    Esta sombra indecisa é minha sombra?
                    Desde quando navego neste barco?
                    Desde quando esta noite continua?

A outra noite – a que precede a manhã – é cúmplice do homem, protegendo-o e à natureza. Em “À irmã sem amor” ele afirma que

                    a antiga semente do amor

                    germina no silêncio da noite.

A noite que prepara a manhã, com seus pássaros, suas árvores e seus frutos, protege a natureza porque faz parte dela. A noite com seus ruídos, com suas sombras, com sua luz, é parte da vida, da natureza amazônica. Esse pacto entre o homem e a natureza o conduz ao sonho de busca da manhã, a busca da luz. E a manhã chega com a festa do retorno ao lar.

Noite/exílio/tristeza. Aurora/retorno/alegria.

A manhã constrói o dia. E o homem se retempera. E como fruto de flor nascido, amadurece ao sol do meio-dia.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A miragem elaborada – 18

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz


V


O “Soneto IX” – coroamento desses cânticos libertários – é a síntese definitiva da noite que se instaura no país a 31 de março de 1964. O regime de terror encontra em Alcides Werk mais que um simples opositor a protestar. Suas palavras são imagens retiradas a sangue frio de retinas ainda cálidas. Palavras que a boca não dirá jamais. Imagens, apenas.

                    Fez-se uma curta pausa. E a noite baça
                    estendeu seus lençóis sobre as cidades.
                    Ventos frios de morte andavam soltos,
                    e formas embuçadas destruíam

                    restos vagos de luz. Alguns senhores
                    guardaram pressurosos seus haveres
                    para a estranha vigília dos sonâmbulos.
                    Nas sombrias e extensas avenidas

                    as multidões dos homens deserdados
                    prosseguiram seus ritos no silêncio
                    de uma noite sem tempo. E os anciãos

                    das várias tribos foram convocados
                    para o mister pacífico das aras
                    e a glorificação das horas mortas.

O “Soneto XII” – o último poema de Trilha dágua – representa a profissão de fé do autor no futuro, futuro que se constrói com o tempo e com o trabalho, indispensável, da poesia:

                    Impossível voltar, e continuo.
                    Elaboro miragens e as persigo
                    com a determinação dos suicidas.

Futuro que virá – o poeta o sabe – não com a manhã. A aurora é a transição entre a noite de terror e a luz do novo dia. O dia toma forma aos poucos. Como a vida. Como os frutos. O poema “Noturno”, presente já em Da noite do rio, ensina como se processa essa mudança:

                    Um dia, nesta praia deserta,
                    de onde contemplo os meus ocasos
                    e somo por somar o tempo inútil,
                    ela surgirá diante dos meus olhos
                    (a mesma de sempre),
                    pousará suas mãos em minhas mãos,
                    fitará longamente o meu rosto,
                    para conhecer as marcas da angústia,
                    e dirá:
                    – Eis-me aqui novamente.

                    Ela virá no começo da tarde,
                    e o sol presidirá sua chegada.

O começo da tarde, o meio-dia, passada a festa da manhã, a embriaguez da luz rompendo a escuridão. Mais que a paixão, o amadurecimento para o amor, para o exercício pleno da liberdade.
 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 17

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz

 
IV


A noite irreversível e sem fim abate-se sobre o poeta e não apenas o cobre. Doma-o. Internaliza-o. A noite é ele. A poesia se espraia pelo tempo sem retorno e se alonga em ocasos que se repetem de forma tão igual que parecem um só: o ocaso da longa noite que o poeta viveu vagando pelo médio Amazonas.

                    Eis-me aqui nesta ausência de mim mesmo

Este verso, do “Soneto VII”, reúne em suas dez mágicas sílabas toda a força da poesia que explode em angústia e dor. De igual modo o “Soneto VI” refere-se à

                          ronda inútil
                    por além dos limites do meu nada

Como se o distanciamento dos acontecimentos nacionais o isolasse ainda mais do mundo físico ao seu redor – assumindo definitivamente a “condição de ilha” a que se refere o poema “Aos meus irmãos solitários”. Da mesma forma, os “Sonetos V” e “VII” perseguem essa imagem do ser ensombrecido – o homem noturno – e vazio. Neste, há algo de loucura dominando o poeta:

                    Silêncio. Sinto apenas o silêncio
                    em mim.

                    Busco-me, a medo, e vejo pelos cantos
                    vozes vazias, sons de antigamente,
                    projetos inconclusos, teias, nada
                    e tua linda presença estilhaçada.

Mas é no “Soneto I” que ele resiste da melhor forma – escrevendo:

                    Na meia luz da tasca entra uma lua
                    que inventa novas sombras nas paredes.
                    Dos meus olhos de espanto e de tristeza
                    vai caindo um poema sobre a mesa.

Nos doze sonetos de “Estudos”, a noite é presença constante e desafiadora. Sua simbologia é sempre negativa, nefasta. Mesmo quando a luz do sol se apresenta, tímida, é para iluminar a face da morte que a noite encobre - como no “Soneto III”:

                              Era noite, e nessa noite as sombras
                    tinham gestos de angústia em nossas almas.


                              as horas mortas
                    trouxeram lentamente a madrugada.


                    Das janelas e portas entreabertas
                    a luz veio auscultar nossa tristeza,
                    e viu a palidez do rosto dele
                    hirto, completamente alheio a tudo.

O entardecer como valor negativo está presente no “Soneto IV”, reafirmando a simbologia contida em “Noturno”, “Jacaré” e “Jaburu”:

                    Cumpro este instante amargo.

                                                                             amargo
                    instante só de ocasos construído.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 16

Zemaria Pinto


O homem noturno, a busca da luz


III


Na poética de Alcides Werk, o embate noite X dia tem as mesmas dimensões da luta água X terra. Nesta, a água poderosa e destruidora tem por função essencial a fertilização da terra, proporcionando um renovado ciclo vital. Naquele, a noite com suas sombras, sua negatividade intrínseca, conduz ao dia e à consequente e fácil metáfora da esperança no futuro, mas ainda não está aqui o lugar-comum.

A noite, como a vê o poeta, é – sobretudo – um manto protetor da natureza. Essa positividade é realçada no poema “Pescaria”:

                    O sol se põe

                    O croc-croc de mil pescadas
                    saúda a noite nas profundezas


                    Ergue-se o canto da natureza,
                    aves noturnas pelas beiradas


                    Ágeis morcegos, catando insetos


                    Noite fechada, findou-se o dia.


                    E a clara lua, por trás da mata,
                    inventa sombras nas águas mansas
                    me excita os sonhos de pescador.

A noite cúmplice, aliada do homem – convivência natural e pacífica. No poema “Tracajá”, a positividade de elementos comumente negativos é levada ao extremo na descrição da desova das tracajás. Nuvens de chuva, raios na noite, protegendo a vida:

                    Cúmulos-nimbos
                    no céu noturno
                    detonam raios
                    e cai a chuva
                    banhando a praia,
                    levando rastros,
                    lavando odores.

Mas é na chegada da noite, que se percebem elementos negativos na poética de Alcides Werk. Se a noite em si é prenúncio de um novo dia, o anoitecer encerra a destruição do dia que o antecede. No poema “Jacaré”, após lamentar o desaparecimento do pescador por quase uma semana, o narrador vê, na chegada da noite, o fim da esperança de mais um dia que se vai:

                    E eu, testemunha da ausência,
                    no fim de tarde sombrio
                    lanço perguntas ao rio:
                    por onde Dico andara?

Mas é no conciso “Maguari” que o poeta exprime à perfeição essa angústia:

                    Há, nesses teus longos silêncios
                    de fim de tarde
                    à beira do lago,
                    sob o regresso alegre das araras,
                    um ponderável prenúncio de luto.

Da mesma forma, no poema-desabafo “Aos meus irmãos solitários”, é a imagem da noite chegando que leva o poeta à plena consciência de sua condição:

                    Agora,
                    que a noite desceu irreversivelmente sobre minha alma,
                    e nela fez sua morada permanente


                    pagarei vossa hospitalidade
                    com a presença constante da minha alma
                    na noite dos vossos dias

Está claro que a noite anunciadora da aurora é matéria de sonho.

Acuado pela realidade cotidiana, o símbolo noturno recrudesce, até atingir sua condição mais elementar de negatividade. Essa condição, entretanto, realça o labor poético, a carpintaria ora grave ora apaixonada dos sonetos reunidos em Trilha Dágua sob o subtítulo “Estudos”.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 15

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz

II



Esse tecer infindo constitui-se milagre na proposição que o poeta faz em “À noite”:

                    Mas preservarei a flor.

                    Construirei muralhas,
                    e o tempo e o vento não a destruirão.
                    Quando as tempestades vierem,
                    me aproximarei e a defenderei,
                    para que possa devolvê-la ainda flor
                    à manha.

Não importam os ditadores, não interessa o tempo que lhes reserva o poder, o homem saberá preservar a si até que venha a manhã.

Este poema traduz toda a importância atribuída à noite na obra de Alcides Werk. A noite como caminho inevitável para a luz:

                    Meu coração não se erguerá contra ti,
                    porque és simples,
                    e não conheces o mal que fazes,
                    quando levas a luz.

No poema “À irmã sem amor”, o tema é retomado:

                    a antiga semente do amor
                    foi lançada no coração dos homens.
                    Ela é irmã da manhã


                    Germina no silêncio da noite,
                    mas ao amanhecer será árvore
                    e será fruto.

O amor, a fraternidade, a igualdade entre os homens. Mas o poeta não deixa de alertar contra qualquer possibilidade de radicalismos, avisando que

                    os sinais,
                    tu os conhecerás nos pássaros

No poema “Da espera”, ele renova o aviso:

                    Direi aos pássaros que esperem,
                    enquanto perdurar a ronda dos morcegos.

Esses três poemas constituem a reflexão do poeta sobre o momento político. Sem a dor estampada em “Da noite do rio” ou a quase-alegria de “Canção”:

                    Sou leve, não tenho nada
                    (nem mesmo o medo da morte).

Há a calma, a serenidade de quem sabe o que quer.

                    Há uma grande alegria na espera.

Ele diz em “À irmã sem amor”, para arrematar, na festa dos pássaros, que

                         o labor de tuas mãos limpas
                    será aceito
                    no grande banquete de amor que se prepara
                    para saudar a manhã.

Banquete que se renova a cada aurora na vida do homem amazônico. Como em “Facheação”, o dia clareando:

                    preciso remar ligeiro,
                    que o povo tá me esperando
                    com a peixada pro ajuri.

Ou em “Peixe-boi”, após o sucesso na pesca:

                    Voltar para casa
                    cheio de alegria
                    no romper do dia

A chegada do dia relacionada com a festa da volta para casa: o fim do exílio, a retomada da liberdade, o tempo novo que se anuncia. No poema “Êxodo”, o coroamento dessa ideia:

                    Quero voltar pro meu lago,
                    quero enganar a mentira,
                    assar um peixe na praia
                    e saudar o sol nascente,
                    fazer uns versos pro dia
                    mas nos teus braços, Jupira.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 14

Zemaria Pinto

O homem noturno, a busca da luz


I


Uma característica marcante na poesia de Alcides Werk é a presença da noite. A noite protetora, envolvente, cúmplice do caboclo amazônico. A noite, caminho da antemanhã. A noite, precursora da luz.

No poema “Da noite do rio”, por exemplo, um canto angustiado, revelador de percalços históricos pelos quais passou o país, o poeta dimensiona o peso dos acontecimentos políticos tingindo de tons escuros seu universo:

                    nesta noite sem medida
                    eu todo banhado em sombras

O “homem noturno” não se opõe ao “homem diurno”. Aquele é este sem rumo

                    fugi de casa, fugi

A desesperança com o momento histórico atinge seu cume, o homem perde a concha de seus sonhos: a aurora, o símbolo mais vulgar e perfeito da mudança, parece inalcançável:

                    como se a aurora que busco
                    neste rio se afogou

Perdido o refúgio, perdido o sonho, o homem renova-se, a partir do rio – o símbolo mesmo da mudança, pois que nunca se repete. Mas o “rio noturno” é apenas a projeção da angústia do “homem noturno”: adormecido, cansado de viagens, arauto de mortes

                    que fazem parte do rio
                    e estão assim como estou

O homem ensombrecido, impotente pela impotência do rio, encontra-se ilhado: não há como lutar contra a noite que se abate sobre seu universo. Ele está só. E o maior castigo é não haver castigo.

                    por remissão de meus males,
                    deixar meu corpo vazio
                    guardando o castelo inútil
                    e partir buscando a aurora

A noite que envolve o poeta leva-o ao dia: no poema “Canção”, este repentino renascer da vontade indica claramente o novo caminho.

Não à solidão. Não ao isolamento. Não ao desespero

                    vou em busca do meu dia


                    para o labor necessário
                    de inaugurar horizontes

A poesia caminha para o convívio dos homens e renega a escuridão, o amargor, a desesperança. Relacionando algumas chaves dos poemas, percebemos isso claramente:

Da noite do rio                                                             

noite
sombras                                                                      
fugi de casa                                                                
branco (desta praia)                                                       
aurora (...) (se afogou)                                                   
acordar (o rio)                                                               
cansado                                                                         
morte                                                                        
mortos pescadores                                                         
nuvens                                                                      
chuva                                                                           
fome                                                                          
frio                                                                                
males                                                                      
corpo vazio                                                             
castelo inútil                                                               
face marcada                                                           
ventos

Canção


cantando
estrada
busca
dia
leve
não tenho nada
(...) nem o medo da morte
irmãos
ver
nova cidade
brotando (das ruínas)
lamentos inúteis
velhos cantos amargos
alegre
saudade
mãos limpas
labor
inaugurar horizontes

Primeiro – e, claro, considerando-se o contexto de cada poema – valores negativos (“Da noite do rio), depois, valores positivos (“Canção”). Os dois poemas, interrelacionados, caminham um em direção do outro

                    e partir buscando a aurora

                    vou em busca do meu dia

Da mesma forma, eles se rejeitam

                    Os meus lamentos inúteis
                    (os velhos cantos amargos),
                    esta noite os esqueci.

No fundo, eles se completam

                    Nesta noite sem medida
                    eu todo banhado em sombras


                    Vou em busca do meu dia,
                    vou juntar-me aos meus irmãos.

Essa busca inicia-se, na verdade, na opção assumida no poema “Do homem”. A aurora não é um fenômeno físico. Claramente, ela é um acontecimento forjado por mãos humanas. O homem através dos tempos, construindo seu caminho:

                    E toda lembrança
                    que trago comigo


                    é o Homem tecendo
                    o imenso milagre
                    da aurora que vem.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A miragem elaborada – 13

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

XII


O levantamento completo do espaço poético amazônida de Alcides Werk encontra-se por inteiro no subtítulo “O homem e a terra”, de Trilha dágua.

O “Soneto aberto sobre a morte”, por exemplo, em Da noite do rio, recebeu a numeração VIII da sequência de sonetos. Embora naquele volume não houvesse subtítulos, era clara a intenção do autor de separar os poemas por unidade temática. Na primeira edição de Trilha dágua, por conseguinte, os subtítulos “O homem a a terra”, “A fala” e “Estudos” viriam concretizar essa intenção. Em “Estudos”, o autor localizou os poemas sob a forma de sonetos, com um conteúdo político, porém pessoal, particular. Ali, a atmosfera é densa, escura e um tanto amarga. O soneto VIII continha essa atmosfera, porém narrava em linguagem clara um fato externo, estranho ao caráter introspectivo dos demais composições ali enfeixadas.

Da mesma forma, os poemas “Das rosas”, “Dos juízes” e “Da espera” saíram da sequência original em Da noite do rio para compor o subtítulo “A fala”, onde o autor reúne poemas nos quais a experiência pessoal dá a tônica, porém sem a exigência formal de “Estudos”, prevalecendo, aliás, quase sempre, versos livres, além de uma atmosfera mais aberta, mais clara, menos tensa. Aqui, o espaço se contrai, se intimiza, se torna quase imperceptível. Mesmo quando a magnitude espacial se agiganta, como no poema “Noturno”, é para aumentar ainda mais a ideia de intimidade pessoal:

                    Um dia, nesta praia deserta,
                    de onde contemplo os meus ocasos
                    e somo por somar o tempo inútil

No espaço de “O homem e a terra”, portanto, o Homem – como fator externo à observação do mundo – ocupa a terra e compõe com ela o espaço de movimentação da poesia de Alcides Werk, dentro de um ciclo circular: o caminho percorrido vai da selva à selva, pelo rio, passando pela cidade.

Mas a cidade, sabemos, não é caminho: é destino. Logo, o retorno não se cumpre, reflete apenas a inquietação do homem diante do novo espaço que se lhe afigura incompreensível, inalcançável. Voltar? Sim,

seria bom, mas o cidadão é mais forte que o nativo, domina-o com sua linguagem de argumentos irrespondíveis, com sua sedução pela novidade, a novidade que atrai o homem mais que qualquer outro aspecto do ser, porque é o único que o acrescenta.

Essa consciência do não-retorno nos remete, novamente, a “Do tempo entre duas águas”, fecho o desfecho de “O homem e a terra”:

                    Então,
                    convocaremos a força benéfica
                    que desobstruirá os canais dos nossos sonhos,
                    e iluminará os nossos corações;


                    e nos ensinará os caminhos da urbe

                    e nos ensinará os caminhos da várzea

                    e nos ensinará os caminhos da terra firme

O poeta sonha com a aurora. Com a luz.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A miragem elaborada – 12

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

XI


O tema do retorno, aliás, está sempre presente na poética de Alcides Werk. Voltar para casa, mesmo que de uma simples pescaria ou de uma aventura de vulto, como a conquista da cidade grande. “Êxodo”, publicado na antologia Marupiara, retoma a ideia de “O tempo entre duas águas”, ou seja, traça um paralelo entre a vida na capital e no interior. Sem a mesma força simbólica deste, “ Êxodo” fala da angústia do homem distante de tudo aquilo que por bom tempo representou todo o seu universo:

                    pouco mais que uma criança,
                    as luzes da Zona Franca
                    me trouxeram para aqui.

Desta vez, a consciência crítica deixa para trás as estradas infindáveis, as promessas impossíveis e situa o homem no centro da multidão. No seu imenso universo interiorano, o homem é um caso à parte. Na capital, ele é um anónimo, um rosto amorfo, de mãos que trabalham no mesmo ritmo que milhares de outras mãos. O homem do interior enumera seres ao seu redor. Na capital, as máquinas, os instrumentos frios, os componentes eletrônicos são sua referência. E o homem consciente ri de si mesmo:

                    Será que soltas risadas
                    com mais graça e harmonia
                    que todos os transistores
                    de qualquer televisor?

Lá, mesmo vestido de trapos, ele tinha um nome. Ainda que se chamasse José, havia esperança. Ainda que vivesse na miséria, tinha fé na aurora que viria. Aqui, não lhe resta alternativa:

                    ou será que te vestiste
                    da farda gris dos escravos?

Sobreviver é a palavra. Mas ao poeta cabe o sonho, a fé, a esperança, que ele constrói dentro de si mesmo. “Êxodo”, o último dos poemas publicados em livro por Alcides Werk, encerra como um sibilo entre dentes:

                    Quero voltar pro meu lago,
                    quero enganar a mentira,
                    assar um peixe na praia
                    e saudar o sol nascente,
                    fazer uns versos pro dia
                    mas nos teus braços, Jupira.

Voltar para “O lago das 7 ilhas” (Poemas da água e da terra), talvez, onde

                    há 7 ilhas plantadas
                    e um mundo verde ao redor.


                    Em cada ilha uma casa
                    em cada casa uma virgem
                    em cada virgem um amor.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A miragem elaborada – 11

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

X


E a morte faz-se presente também na natureza: “O ouro do rio Amana”, publicado na terceira edição de Trilha Dágua, é um réquiem apaixonado, um canto patético pela impotência com que o observador constata a destruição ao seu redor. O espaço transforma-se. O selvagem e primitivo – o rio Amana é afluente do rio Parauari, no médio Amazonas – dá lugar a um outro tipo de selvageria. O ritmo é frenético:

                    Chegaram dragas, pontões,
                    canoas, motores, balsas


                    escafandros, pás, bateias,
                    mecanismos de sucção

A paisagem devastada é revelada pela interrogação:

                    Cadê tuas ariranhas,
                    tuas antas e capivaras,
                    teus tambaquis, tuas piranhas
                    pretas, teus pirarucus
                    teus surubins, teus pacus,
                    araris e pirararas?

A lista é extensa: patos selvagens, inambus, tanguruparás, japiins, ciganas, uirapurus, guaribas, caititus, socós-boi, jacarés-pedra, tracajás. A resposta à indagação é dada pelo próprio observador, no mesmo frenesi registrado na invasão:

                               as vilas vão-se formando
                    nas margens, e em cada tenda
                    há muitas coisas à venda
                    e mulheres de aluguel


                               há muito cabra-da-peste,
                    e cenas de faroeste,
                    cachaça, carne-de-lata,
                    cigarro, pilha, sardinha,
                    leite-moça, mosquiteiro,
                    lanterna, charque do Sul.

No seu lamento, contudo, o poeta-observador prevê que, esgotado o ouro, o velho rio voltará a ser dos seus, deixando entrever um sonho antigo quando registrara em “Das Fronteiras”, de Da Noite Do Rio:

                    Quando se esgotar o meu tempo de luta,
                    construirei minha morada entre árvores sadias e simples

Em “O ouro do rio Amana”, não é outra sua intenção:

                    Depois do caso passado,
                    mesmo sabendo que és triste,
                    quero fazer um roçado,
                    levantar um tapiri,
                    deixar o mundo de lado
                    e morar perto de ti.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A miragem elaborada – 10

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

IX


Mas, voltando às imagens em movimento de Trilha Dágua, o soneto “Vista do paraná da Eva” faz um pequeno levantamento, nos limites infinitos da composição, da vida naquela comunidade

                    Paraná de água branca corre lento.

Bodós, garça-morena, acarás, jejus, o casco, o timbó-titica, a sapopema, o tijuco.

                    Sabão de caraipé e pequiá
                    limpando o corpo lindo da cabocla.

Canarana, garera, terra preta, cebolinha, cheiro-verde, o caminho da casa, o cacaueiro

                    e os curumins brincando no terreno.

O registro frequente de termos amazônicos levou Alcides Werk a preocupar-se com a montagem de um glossário, a partir da 2a edição de Trilha Dágua, que, na edição seguinte, registra 116 verbetes. Tal recurso, se num primeiro momento interrompe a leitura, causando ruídos à música do poema, por outro lado, facilita-lhe o entendimento, estabelecendo uma relação mais próxima entre o leitor e autor.

Outra composição muito popular de Alcides Werk é o “Soneto aberto sobre a morte”, onde o olho-câmera percorre o interior da casa e registra:

                    Beatas, terço, cafezinho, estórias,
                    o choro inútil da mulher sozinha

Com duas versões musicais – Roberto Dito e Armando de Paula – o “Soneto aberto” circulou também em folha esparsa, homenageando o líder ecológico Chico Mendes:

                    Brasileiro, do norte, agricultor.
                    Semeou, semeou a vida inteira,
                    fez o campo florir por tantas vezes,
                    alimentou mil pássaros vadios

Neste poema, Alcides Werk revela uma outra face do amazônida interiorano: a resignação diante da morte transforma o ritual fúnebre em acontecimento de uma discrição não nefasta:

                    Hoje é dia de festa nesta casa:
                    festa dos círios e das lamparinas.
                    (...)
                    foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
                    e se vestiu de trapos para a morte.

Ao agricultor do norte está reservada a ironia da relação com a morte em sua labuta diária. O poema “Roçado”, de Trilha Dágua, lista os cuidados no preparo da terra e arremata:

                    Aguardarei a chuva de Finados,
                    e plantarei.

A chuva, que traz a vida fertilizadora da terra, vem, segundo creem, no dia consagrado à Morte. E o poeta não deixa de registrar o júbilo:

                    E a semente escolhida da maniva
                    vai ressurgir votiva em cada cova,
                    como uma dádiva.

OBS: amanhã, 13 de novembro, completam-se sete anos da morte de Alcides Werk.
Acendam-se os círios e as lamparinas...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A miragem elaborada – 9

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

VIII



Outros poemas, como “Vitória-Régia”, “Ariranha” e “Jaburu”, compilados em Poemas da água e da terra, têm por motivo, ainda, a ocupação do espaço poético pelos seres amazônicos. Nesse mesmo livro – uma edição bilíngue, português/inglês, para consumo ocasional de turistas preocupados com a causa ecológica – os poemas “Calypso” e “Boto cor de rosa” registram a famigerada incursão de Jacques Cousteau pela Amazónia em 1986. Não sem poesia, como nesta passagem de “Calypso”:

                    A salsugem do teu casco
                    traz ás minhas narinas
                    a lembrança de lugares que apenas sonhei

Não sem amarga ironia, como no poema dedicado à farsa criada por Cousteau e vendida como verdade científico-piegas ao mundo:

                    Boto,
                    boto cor de rosa,
                    que em menino aprendi vermelho

No já citado “Facheação”, ausente da antologia bilíngue, prevalece o aprendizado primeiro:

                    Se o peixe estiver vasqueiro,
                    convoco o boto vermelho
                    com dois ou três assobios,
                    e a noite vira uma festa

É interessante observar que, nessa coletânea, alguns dos poemas inéditos parecem escritos especialmente para ilustrar cantões-postais –“Encontro das águas”, “Boto cor de rosa”, “Calypso”, “Igarapé de Manaus”, “Vitória-Régia”, “Jaburu”, “Ariranha” – talvez por influência dos títulos, muito menos que pela qualidade literária que encerram.

O quinteto “Igarapé de Manaus”, por exemplo, traduz com precisão microscópica o que imagem alguma poderia mostrar:

                    A água, que é mãe da vida
                    (antes pura, clara, doce),
                    passa aí prostituída,
                    triste, amarga, poluída,
                    como se mater não fosse.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 8

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço


VII



Mas nem sempre o dia é do pescador. Os poemas “Piranhas”, de Trilha dágua, e “Jacaré”, de Poemas da água e da terra, retratam o conflito natural entre o homem e seu meio. “Piranhas” descreve a viagem do gado, da várzea à terra firme, fugindo da enchente e o sacrifício de uma rês tresmalhada:

                    As águas se agitam
                    no rude festim,
                    e em poucos instantes
                    só resta o esqueleto.

O pequeno romance “Jacaré” narra a história do pescador Dico, que sai à caça do “jacaré-preto crescido / pra cima de quatro metros” e, quase uma semana depois, não retorna. Dico sabia dos riscos, mas a recompensa lhe era irrecusável:

                    Regatão passou dizendo
                    que jogava preço alto
                    no couro de jacaré:
                    fogo, pilha, sal, anzol,
                    sabão, conserva, tabaco,
                    cartucho, chumbo, espoleta,
                    pólvora, linha, terçado,
                    remédio pra impaludismo
                    e outras tantas precisões.

O regatão foi embora e Dico não retornou. A curva do rio, imóvel, guardará a lembrança da partida e a esperança do regresso:

                    E eu, testemunha da ausência,
                    no fim da tarde sombrio
                    lanço perguntas ao rio:
                    por onde Dico andará?

Vitor Manuel de Aguiar e Silva, na sua Teoria da Literatura, caracteriza o texto narrativo como “uma sequência de eventos, comportando como elemento estrutural relevante da sua forma de conteúdo a representação do tempo”. É interessante observar nos dois poemas anteriormente citados a facilidade com que Alcides Werk transita também nesse terreno, distanciado do lirismo usual. Outros poemas como “Amazônica” e “Facheação” também podem ser vistos sob esta ótica, uma vez que representam um sequência de eventos, além de terem uma representação temporal histórica, dentro de um espaço físico e social claramente delimitado.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 7

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

VI



Esses registros de vida estão presentes desde os primeiros poemas de Da noite do rio até nos mais recentemente publicados. Mas é a partir da 1ª edição de Trilha dágua que Alcides Werk passa a mostrar-nos poemas onde a ocupação do espaço é plena e em constante movimento. O autor desapega-se da idealização pura e simples do espaço – onde os animais são apenas bichos e peixes – e passa a nomear seus ocupantes, como no já citado poema “Trilha dágua”. O poema “Tracajá”, por exemplo, descreve o movimento repleto de vitalidade de piranheiras, araçás, tracajás, onças, jacurarus, maracajás. É como se na sua poética construída ao sabor do tempo, Alcides Werk notasse, a partir de determinado momento, um movimento além das águas poderosas. É interessante observar, contudo, que a preocupação com a ecologia vai muito além do discurso fácil e emocionado de um modismo ocasional –redundante em si mesmo. O poema “Peixe-boi” fará qualquer ecologista de última hora torcer o nariz à crueldade com que é descrita a pesca àquele raro mamífero. Após expor com detalhes os preparativos indispensáveis, o “arremesso forte” e certeiro do arpão é seguido por um “navegar sem rumo” do animal arrastando o casco, enlouquecido pela dor.

                    Depois o cansaço nessa luta inútil
                    que eu sempre venci. Um pau molongó
                    em cada narina,
                    e tudo acabado.

A exclamação que o autor não explicita está clara. A alegria incontida, entretanto, não é pela vitória comum do homem. É uma outra alegria, quase infantil, primitiva:

                    Vou viver fartura,
                    vou guardar mixira,
                    vou ter peixe e boi.

Essa mesma motivação remete-nos a outro belo poema, “Facheação” , onde o objetivo da pesca é menos específico:

                    Há sempre pelas restingas
                    gerações de acaratingas
                    acomodados na areia,
                    acaris, bararuás
                    aracus, tucunarés
                    (por trás dos âmagos velhos,
                    guardando suas ninhadas)
                    e casais de apaiaris.

O espaço em movimento é enriquecido pela descrição dos objetos indispensáveis à faina:

                    E eu pego o rumo da beira,
                    com facho, poronga, arpão,
                    azagaia e jaticá.
                    No paneiro vai farinha,
                    vai sal, pimenta, limão,
                    língua de pirarucu,
                    cuia e pão de guaraná.

Não, os fonemas não têm cores como não as têm as vogais. Antes, traduzem alegria ou tristeza em acordo com o texto. Nas duas estrofes acima, o frio i e o sombrio u traduzem a mesma força telúrica dos fogosos o e a. Porque o objetivo desta facheação é mesmo a festa:

                    Depois, o rumo de casa:
                    preciso remar ligeiro,
                    que o povo tá me esperando
                    com a peixada pro ajuri.

O tema, aliás, repete-se, embora sem o mesmo brilho, no poema “Pescaria”, da antologia Poemas da água e da terra. A enumeração dos ocupantes do espaço prossegue na sua melodia inconfundível:

                    São piraíbas, jaús, dourados,
                    são pirararas de enormes panças,
                    são peixes-lenha e barbas-chatas,
                    piramutabas, capararis,

                    piracatingas e mandiis.

Da mesma forma, o poema “Jaraqui”, dado a público na 2ª edição de Trilha dágua, ensina a pesca àquele peixe, iguaria comum nas mesas da região:

                    jaraqui de piracema:
                    eis do pobre a mesa posta.

A técnica do distanciamento empregada por Alcides Werk nesses poemas visa afastar o envolvimento emocional do leitor com o fato em si: o poeta é o pescador. A recíproca dessa assertiva é falsa, entretanto, posto que o resultado – o pescador é o poeta – nos levaria perigosamente à catarse aristotélica e, consequentemente, ao discurso emocionado, dirigido ao leitor “pré-parado”. Aqui reside, aliás, o grande trunfo da poesia de Alcides Werk no que ela tem de mais regionalista: uma poesia feita de dentro para fora, viva, pulsante, vibrante. Não são meras lembranças do passado, saudades de um tempo perdido no tempo. Não. É a vida que flui, naturalmente, com a força arrebatadora das águas poderosas, destruindo o passado, preparando o futuro.

Mesmo nos poemas discursivos, como “O Ouro Rio Amana” (Trilha dágua, a partir da 3a edição), a catarse dá-se muito mais a partir da visão apaixonada do autor que do fato narrado: o poeta passa a sua indignação antes mesmo de provocá-la pela leitura mais atenta do poema.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A miragem elaborada – 6

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

V
 

Escrito muito tempo antes, “Das águas Grandes”, já incluído em Da noite do rio, prenunciava o delírio poético da mudança além da História:

                    Quando eu for Presidente,
                    de amplos e amorosíssimos poderes

                    Convocarei um exército de anjos
                    para domar o rio e o desvario
                    dos prováveis dilúvios anuais.

Neste poema, porém, a ironia contida no sonho cede lugar à revolta do cidadão que conhece os mecanismos que o levariam a realizar seu sonho. E, transmudando-se em político vulgar, o poeta – longe da poesia que ensina a política ao povo que não lê poesia – imagina sua campanha, no habitual estilo de nossos maiores próceres:

                    E, de repente
                    me vem uma vontade provisória
                    de encher os bolsos de demagogia
                    entrar em cada casa com uma estória,
                    qualquer que seja – que não seja séria,
                    falar de tudo – menos de miséria,
                    prometer coisas que não cumprirei,
                    como se faz em tempo de eleições,
                    para que sejam menos infelizes
                    (enquanto o rio esconde as roça podres),
                    mastigando ilusões.

Porque para o caboclo – o José a esperar, como seus pais – o futuro é ontem, o passado é hoje.

Em “Das águas grandes”, além de seu forte conteúdo enquanto texto, destaca-se ainda a belíssima construção fônica da primeira parte do poema: a repetição de palavras cria uma tensão inusitada, que torna mais perceptível ainda o sentimento transmitido:

                    Na estreita maromba,
                    os bichos chorando de fome e de frio,
                    com medo do rio
                    com medo do rio que cresce outra vez.


                    com os olhos cansados de espanto e de mágoa
                    de ver tanta água
                    de ver tanta água

Tzvetan Todorov, citado por Maria Luiza Ramos no livro Fenomenologia da obra literária, propôs a ilustração sonora como um dos grupos dos fenômenos sonoros na literatura, descrevendo-a como “o caso em que as palavras, sem serem onomatopéias, evocam em nós a impressão auditiva que teríamos do fenômeno descrito”. Alcides Werk ilustra a passagem de um barco no rio cheio através de alterações e assonâncias que nos remetem ao fato:

                    O barco passando e a onda molhando
                    o menino molhado, na porta da frente.
                    O homem doente
                    deitado no rede
                    com os olhos cansados de espanto e de mágoa
                    de ver tanta água
                    de ver tanta água
                    bebendo do sangue, roendo as raízes
                    de tudo que fez.
                    Na estreita maromba,
                    os bichos chorando de fome e de frio
                    com medo do rio
                    com medo do rio que cresce outra vez.

Este trecho do poema poderia ser lido todo como se fosse composto por versos de cinco silabas:

                    O barco passando
                    e a onda molhando o
                    menino molhado,
                    na porta da frente.


                    com os olhos cansados
                    de espanto e de mágoa


                    bebendo do sangue
                    roendo as raízes


                    os bichos chorando
                    de fome e de frio


                    com medo do rio
                    que cresce outra vez

Esse ritmo é quebrado, entretanto, na sequência citada no inicio deste capitulo, quando, abruptamente, a musicalidade da passagem do barco é substituída pela veemência do discurso. A interrupção intencional da eurritmia é um recurso usado pelo autor chamando a atenção do leitor para um fato que julga particularmente importante no contexto.

Se a criação poética, como afirma Otávio Paz, em O arco e a lira, consiste na utilização do ritmo como agente de sedução, Alcides Werk é um sedutor. Invariavelmente, seus versos são lapidados com mestria, havendo predominância, nos poemas metrificados – à exceção dos sonetos, decassilábicos – de versos curtos, tetrassilábicos e redondilhas, típicos das canções populares. A propósito, Werk teve vários de seus poemas musicados por compositores amazonenses. “Trilha dágua” tem pelo menos duas versões – Pedro Amorim e Armando de Paula – e ilustra bem o que se afirma:

                    Nas margens, a prata
                    da lua escorrendo
                    pelas sapucaias,
                    pelos cajuranas,
                    pelos tarumãs,
                    sobre as garças brancas,
                    sobre as piaçocas,
                    sobre os jaburus.

As anáforas tornam-se um recurso se síntese: o poeta passeia pelo seu espaço como uma câmera cinematográfica, registrando instantâneos da vida amazônica. Ele prossegue, na trilha do casco, registrando

                    jacaré com filhos

                    gafanhotos verdes


                             peixes notívagos


                    lamparina acesa


                    cachorro latindo
                   
                    minha roupa branca,
                    meu sapato novo


                                      a cunhantã