Amigos do Fingidor

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A miragem elaborada – 9

Zemaria Pinto

O homem ocupa o espaço

VIII



Outros poemas, como “Vitória-Régia”, “Ariranha” e “Jaburu”, compilados em Poemas da água e da terra, têm por motivo, ainda, a ocupação do espaço poético pelos seres amazônicos. Nesse mesmo livro – uma edição bilíngue, português/inglês, para consumo ocasional de turistas preocupados com a causa ecológica – os poemas “Calypso” e “Boto cor de rosa” registram a famigerada incursão de Jacques Cousteau pela Amazónia em 1986. Não sem poesia, como nesta passagem de “Calypso”:

                    A salsugem do teu casco
                    traz ás minhas narinas
                    a lembrança de lugares que apenas sonhei

Não sem amarga ironia, como no poema dedicado à farsa criada por Cousteau e vendida como verdade científico-piegas ao mundo:

                    Boto,
                    boto cor de rosa,
                    que em menino aprendi vermelho

No já citado “Facheação”, ausente da antologia bilíngue, prevalece o aprendizado primeiro:

                    Se o peixe estiver vasqueiro,
                    convoco o boto vermelho
                    com dois ou três assobios,
                    e a noite vira uma festa

É interessante observar que, nessa coletânea, alguns dos poemas inéditos parecem escritos especialmente para ilustrar cantões-postais –“Encontro das águas”, “Boto cor de rosa”, “Calypso”, “Igarapé de Manaus”, “Vitória-Régia”, “Jaburu”, “Ariranha” – talvez por influência dos títulos, muito menos que pela qualidade literária que encerram.

O quinteto “Igarapé de Manaus”, por exemplo, traduz com precisão microscópica o que imagem alguma poderia mostrar:

                    A água, que é mãe da vida
                    (antes pura, clara, doce),
                    passa aí prostituída,
                    triste, amarga, poluída,
                    como se mater não fosse.