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| Cassandra. David Delamare. |
quarta-feira, 17 de abril de 2019
terça-feira, 16 de abril de 2019
Apelido. Se der corda, pega...
Pedro Lucas Lindoso
Apelido é como relógio antigo: se der corda, pega. Nós, amazonenses,
acho que até por razões inexplicáveis e culturais, gostamos de apelidar as
pessoas. Principalmente políticos.
Quem é gordinho é sempre apelidado de balão, bolinha ou
botijão de gás. O importante é não dar bola. Os altos e magros são varapaus. Os
baixinhos são tampinhas. Os muito brancos são macaxeira. E por aí vai. A
imaginação para apelidos é muito fértil entre os amazonenses.
Não se pode confundir apelidos com pseudônimos. Muito usados
em concursos literários e entre escritores. Os editais exigem o pseudônimo para
preservar a imparcialidade dos julgadores. Um amigo participou da banca de um
concurso literário na cidade. Houve nove candidatos que escolheram “curupira”
como pseudônimo. Todos desclassificados. Se o curupira faz os caçadores se
perderem na floresta, na cidade faz os escritores perderem concursos
literários.
A alcunha tem um valor depreciativo e é definida a partir de
uma característica particular, física ou moral. Já o codinome geralmente é para
designar disfarce ou nomes de subversivos. Vem do inglês “code name”. Aliás, na internet tem se usado também o
anglicismo “nickname”. Especialmente em sites de bate papo, visando o
anonimato.
Por falar em anonimato, não há artigo da Constituição Federal
mais violado do que o inciso IV do artigo 5º, pelo qual é livre a manifestação
do pensamento, sendo vedado o anonimato. Ora, em tempos de internet e “fake
news”, não se vê outra coisa do que acusações anônimas. A honra dos famosos,
políticos e celebridades é jogada na lata de lixo sem dó ou piedade.
Antigamente, os políticos e famosos eram vítimas de cartas
anônimas. O mundo não muda tanto assim. Como filho de político, vi minha mãe
indignada com essas cartas. Mau caratismo não surgiu com a internet. Podem
acreditar.
Os políticos e celebridades que se importam com apelidos e
sofrem muito com críticas devem deixar a vida pública. E, como Greta Garbo,
pedir para ser esquecido. Para ficar só.
Um deputado do PT chamou um ministro do atual governo de “tchutchuca”.
O ministro revidou. Deu corda. Não deveria. Como já disse, apelido é como
relógio antigo, se der corda, pega.
domingo, 14 de abril de 2019
sábado, 13 de abril de 2019
sexta-feira, 12 de abril de 2019
Um diálogo poético com Thiago de Mello 2/2
Tenório
Telles*
Fui seguindo viagem, navegando as águas
da tua poesia e parando nos diversos portos que são os teus livros. Notei que
eles testemunham episódios da tua longa caminhada. Tem muita gente que pensa
que a tua lírica é apenas de combate ou, como preferem outros, comprometida
socialmente. Tua poética possui diversos matizes e tons. Aliás, o início do teu
percurso criativo é marcado por uma dicção reflexiva sobre o existir e o
sentido da tua presença neste vasto mar que se chama vida: O poema “Rumo” é
revelador dessa inquietude e dessa busca: “Minhas faces mais diversas / são
labirintos antigos / que me confundem e perdem // Para chegar até onde / não me
presumo, mas sou, / sigo em forma de palavra”.
Sabe, amigo velho, hoje consigo
compreender o sentido do verso que abre o poema que acabei de citar: “Somente
sou quando em verso”. Tenho a impressão que o que dá existência às coisas são
as palavras. Existimos pelas palavras. Penso que o mundo não existe em si mesmo.
Acho que tudo é uma grande ilusão. Ou como dizia Shakespeare, um teatro. De
bufões, loucos e espectros. Quando afirmas que és pela poesia, lembro de uma
passagem do professor Bosi em que ele afirma que o poético é um ato de
ressignificação e de “reencantar pessoas, coisas e eventos, mas também
reconhecer-se em si mesma, palavra que se dobra sobre a palavra”. Acredito que
a única forma de ser verdadeiro e de chegar ao cerne das coisas é pela poesia e
por isso teu verso é epifânico.
Gosto da delicadeza dos teus poemas
afetivos. Não seriam propriamente amorosos, mas enamorados, cheios de ternura,
vibração e calorosos. “Num campo de margaridas” é tão bonito e comovente. E de
uma densidade crua e delicada. Ele está sempre comigo. Lembro sempre dele. Ouço
o ritmo dos versos e fico perscrutando o movimento das cenas. O jogo entre o
onírico e a vigília. E de como o encontro dos enamorados se dá dentro do sonho:
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
[...]
Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamava
que te chamava baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
Thiago, percebi que nos teus poemas tu
contas na verdade uma história. Há uma narrativa permeando teu discurso
poético. Entre tantas coisas e temas [liberdade, utopia, amor, justiça...] que
teces com os fios do teu canto, o que sobressai é a tua vida, teu itinerário
poético-existencial: a descoberta do mundo, da poesia, o sonho de uma sociedade
diferente, libertária e mais justa. Plasmando tudo isso, um Eu à procura de si,
de um lugar na existência e desejoso de compreensão e acolhimento. Esse ser,
esse menino desconsolado, esse homem em busca de redenção se anuncia e se
enuncia ao longo dos poemas. Tuas dores são dores que te aproximam dos outros e
também de mim.
Nos versos de o “Encontro com o pai”,
senti tua tristeza, a angústia da criança que um dia esperou do pai a “antiga
ternura / e velhos carinhos / jamais transmitidos”, mas que viste “acumulados”
em seus olhos. Talvez por isso és tão veemente no artigo oitavo dos “Estatutos
do homem”: “Fica decretado que a maior dor / sempre foi e será sempre / não
poder dar amor a quem se ama”. Imagino a falta que fez esse afeto silenciado no
olhar do teu pai. Eu também convivi com esse silêncio e sei a dor que ele
causa. Tua mãe, dona Maria Mitouso de Melo, teve sabedoria para depurar essas
feridas com o bálsamo do amor e do cuidado. O poema que dedicas a ela é de uma
ternura e comoção que faz qualquer um chorar:
Dona Maria está partindo.
Parece que está dormindo.
Mas já está chegando ao finzinho
do vale que leva à eternidade.
Quero só ver o que a eternidade
vai fazer com Dona Maria.
Ela sempre garantiu, desde mocinha,
que ia morar lá no céu.
E muito ouvi dela que Jesus,
de quem era serva fiel,
A esperava, contente.
E por falar em eternidade, caro amigo,
noto que, embora ressaltes que não tenhas “lá essas certezas” quanto a essa
matéria, desde os teus primeiros livros há uma atmosfera de dúvida, uma ânsia
de compreensão de si e do mundo – uma certa angústia metafísica. No “Silêncio e
palavra”, de 1951, flagra-se um sinal alusivo a um certo sentido de
transcendência presente na tua fala poética. Quarenta e cinco anos depois
publicaste um poema, a propósito denominado “Da eternidade”, em que reiteras
esse vínculo com uma percepção que considera a possibilidade da transcendência
e de um princípio primevo que gerou todas as coisas:
Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Como abarcar a complexidade dessa nossa
vida tão cheia de segredos e coisas que nos ultrapassam? Embora nos achemos autossuficientes,
o fato é que sabemos tão pouco sobre o que somos, nosso lugar no mundo, nosso
destino, o que nos espera... Várias vidas não seriam suficientes para esclarecer
tantas dúvidas e mistérios. A vida foi dadivosa contigo, meu bom amigo.
Chegaste até aqui e estás próximo de completar uma centena de anos.
Sobreviveste a tantas coisas e viste muito neste mundo tão grande e
inapreensível. E por teres vivido tanto, aprendeste a “cultivar... o dom de
ver, / mesmo o que visto dói de ausente brasa”.
Foi para te celebrar – tua vida e teu
canto – que escrevi esta carta para ser lida por ti e por todos os que te
querem bem. Que aprenderam a respeitar tua história e a amar teus versos.
Escrevi esta carta também para registrar teus longos anos de vida, tua luta,
teu comprometimento com a causa do ser humano e a transformação do mundo. E
porque te mantiveste fiel a ti e ao propósito de ser no mundo – e combateste o
bom combate sem te renderes como os guerreiros de Leônidas, que resistiram até
o fim pela liberdade –, relembro, neste momento, para louvar tua vida e tua
poesia, os versos do poeta grego Simonides dedicados ao general espartano e
seus soldados:
Digam aos espartanos, estranhos que passam,
Que aqui, obedientes às suas leis, jazemos.
Estas palavras, amigo leitor, é para
testemunhar um poeta e sua história. E também para celebrar a amizade – para
que não esqueçamos a mensagem desse filho de nossa terra que cantou a
liberdade, a utopia e um novo sonho para a humanidade – na certeza de que um
dia
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia
inteiro,
abertas para o verde onde cresce a
esperança.
Thiago, este pequeno gesto é para que
saibas que nada foi em vão e que a tua poesia foi inspiração e força para os
teus amigos e leitores. E também para os que continuam sonhando com um mundo
mais generoso, mais verde e mais solidário. Parabéns, querido amigo. Que as
musas continuem inspirando teu canto e te guardando.
*Tenório Telles é poeta e ensaísta,
autor de Canção da esperança & outros
poemas, Viver e Clube da Madrugada – presença modernista no
Amazonas.
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Thiago de Mello
quinta-feira, 11 de abril de 2019
A poesia é necessária?
Cavalo selvagem
Eliakin Rufino
eu sou cavalo selvagem
não sei o peso da sela
não tenho freio nos
beiços
nem cabresto
nem marca de ferro quente
não tenho crina cortada
não sou bicho de curral
eu sou cavalo selvagem
meu pasto é o campo sem
fim
para mim não existe cerca
sigo somente o capim
eu sou cavalo selvagem
selvagem é minha alegria
de ser livre noite e dia
selvagem é só apelido
meu nome é mesmo cavalo
cavalo solto no pasto
veloz carreira que faço
lavrado todo atravesso
caminhos no campo eu
traço
eu corro livre galope
transformo galope em
verso
eu sou cavalo selvagem
sou garanhão neste campo
eu sou rebelde alazão
sou personagem de lendas
sou conversa nas fazendas
sou filho livre do chão
eu sou cavalo selvagem
meu mundo é a imensidão
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Eliakin Rufino
quarta-feira, 10 de abril de 2019
terça-feira, 9 de abril de 2019
A Páscoa, o coelho e seus auxiliares
Pedro Lucas Lindoso
A Páscoa de minha infância tinha um sentido mais religioso. A
celebração principal era a missa, onde todos os que já tinham feito a primeira
comunhão deveriam se confessar e comungar.
O tal coelhinho da Páscoa já existia. Mas parece que não
tinha muito prestígio na minha época de menino. Talvez porque não havia o apelo
de consumo dos dias atuais. Coelho e Papai Noel vendem muitos produtos.
Principalmente para a criançada.
Nos dias atuais, o coelho da Páscoa anda prestigiadíssimo.
Minha sobrinha Ceci, de apenas sete anos, que mora nos Estados Unidos, escreveu
uma cartinha para um tal de Mr. Lepercon. Trata-se de uma entidade do folclore
irlandês. Aparece geralmente no período da Quaresma. É quando se comemora o dia
de Saint Patrick, festejado em 17 de março e muito popular por lá.
Mr. Lepercon seria possivelmente um auxiliar do coelho da
Páscoa. Também interage com unicórnios, duendes e outros seres que encantam as
crianças e alguns adultos mundo afora. Especialmente, as entidades mágicas que
andam pelo arco-íris. Local fantástico onde há um pote de moedas de ouro.
Parece-me que o tal de Mr. Lepercon administra ou sabe onde está o tal pote de
ouro. Como é de conhecimento geral, esse misterioso tesouro se localiza no
final do arco-íris.
Dizem que o tal de Mr. Lepercon fica ocupadíssimo na época da
Pascoa. Ele tem que auxiliar o coelho na confecção e embalagem de ovos de
chocolate. Os ovos são para ser distribuídos entre todas as crianças boazinhas
ao redor da terra. Incluindo Ceci, seu irmão Nicholas e os primos brasileiros.
Pois bem. Vamos então falar da cartinha que Ceci escreveu
para o tal de Mr. Lepercon. Ceci, que
vem de uma linhagem de gente inteligente e bem sucedida, houve por bem propor
negócios com o tal irlandês. Na missiva, a esperta garotinha propõe ao administrador
do tal pote de ouro cuidar dos cavalos, dos duendes e dos unicórnios. A
contrapartida seria receber o famoso pote como pagamento.
Entre suas obrigações contratuais, a pequena Ceci se
compromete ainda a comprar um caminhão e um trailer para facilitar a vida do
tal Lepercon na distribuição dos ovos.
Essa minha sobrinha vai longe. Executivos da Wall Street
guardem esse nome: Cecilia, conhecida carinhosamente como Ceci.
segunda-feira, 8 de abril de 2019
A mulher
David Almeida
O que seria da vida se não existisse a mulher? É difícil de
responder, porque não existiria vida; então, não existiria nem essa pergunta.
Mas eu insisto, afinal de contas vivemos num planeta em que existe vida, né?
Alguém pode afirmar isso? Será que a mulher está com essa bola toda? Ou a bola
toda desse planeta é a mulher? Será que a mulher é uma espécie de sol onde tudo
gira ao seu redor e ninguém percebe, ou faz de conta que não percebe? A mulher
é a mãe dos filhos da terra?
Já sei, vocês não querem responder, porque não admitem que a
mulher é, realmente, a vida nesse Planeta ainda Azul. Que tudo seria sem graça,
sem cor, sem cheiro, sem alma, sem amor, sem luz, ..., sem o toque e a leveza
da alma feminina. Admitem ou não? Já pensaram num jardim sem flores, rosas? Não
passaria de um matagal, devoluto, sem graça, pronto pra invasão de
extraterrestres. Vocês não acham que a mulher é a flor mais bela, esplendorosa,
que inspira o beijo ao toque da multiplicação do jardim da vida? Aí, algum
engraçadinho pode falar: “e quem vai arar a terra para fazer o jardim?” O
próprio engraçadinho, né? Tudo na vida é uma consequência de atos; se querem
viver, respeitem a vida; respeitem e cuidem da mulher, porque só ela é capaz e
tem o poder de gerar vidas.
Será que Ela é uma necessidade sem limite? Não, o limite da
necessidade é Ela, depois vem um abismo, o vazio onde tudo se perde, onde o
nada não é nada; é só uma cabeça oca que pensou ser tudo, sem perceber que o
seu tudo era o nada sem ela.
As estações do ano sem a primavera seriam: verão, outono e
inverno, aí, iria faltar a estação mais feminina de todas; a mais perfumada; a
mais florida; a mais mulher... a minha Mãe, e de todos, claro! Ela: a
Primavera! Não que todas não tenham importância fundamental na vida desse planeta
ainda azul, mas a Primavera é que dá um toque de elegância é a que floresce e
de suas flores vem a multiplicação da vida que se completa em todas estações da
existência.
A mulher floresce a cada dia, se rega a cada momento, se
constrói a cada passo, caminha sobre suas regras regando caminhos e como uma
bandeira desfraldada acima de qualquer muralha, levanta a sua voz proclamando
sua libertação, desprendendo-se do rótulo que lhe prendia há tanto tempo,
desvinculando-se daquela “fêmea” – “que era a mulher de verdade” – pra ser a
mulher de hoje, uma heroína sim, com todo o poder de salvar a humanidade, pelo
amor de cada gesto seu.
O que seria da vida se não existisse a Mulher?
domingo, 7 de abril de 2019
sábado, 6 de abril de 2019
sexta-feira, 5 de abril de 2019
Um diálogo poético com Thiago de Mello 1/2
Tenório
Telles*
Thiago,
Fiquei sensibilizado, no nosso último
encontro, com o teu ânimo e altivez com que enfrentas as circunstâncias do
tempo que te afligem. Nem as dores e nem o cansaço dos anos abateram teu ser
resistente, pois como dizes
De madeira lilás
(ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e por conter
no seu âmago a morte que o ameaça.
[...]
No crepúsculo
estou da ribanceira,
entre as janelas e o chão que me abençoa
as nervuras. Já não faz mal que doa
meu bravo coração, de água e madeira.
Filho da terra verde ribeirinha, dos
encantados e dos rios amazônicos – teu coração tem o vigor das árvores
centenárias da floresta e teu ser, a fundura dos rios e seus mistérios. Por
isso resististe às tempestades, às dores e às perdas que te foram dadas viver. E
agora mais uma primavera, florescente girassol, abre-se no teu peito: completas
93 anos e segues tua travessia com coragem, humor e sem lamentos.
Ao chegar em casa decidi revisitar teus
livros e logo me deparei com o poema “Na manhã do milênio”, em que refletes
sobre o significado da existência e te questionas sobre a validade dos teus
sonhos, as promessas não cumpridas do nosso tempo e o sentido da tua própria
poesia. Teu poema é doloroso porque nos expressa igualmente em nossas
inquietações, buscas e sonhos nem sempre realizados. Mas tua capacidade de
encantar as palavras, colori-las e revesti-las de humanidade o tornou belo e
pungente. Li-o devagar, ouvindo cada verso, imaginando tuas mãos deslizando
pela página, tua respiração e o compasso do teu coração relembrando os fatos e
vivências que evocas no texto:
De que valeu o assombro indignado
e esta perseverança que me acende
em pleno dia a estrela que me guia,
seguro do meu chão e do meu sonho?
[...]
De que valeram todas as palavras
que proferi na treva da esperança?
Tão pouco, talvez nada. Não consola
saber que fiz, que fiz a minha parte,
que reparti com tantos o diamante,
que olhei o sol de frente e não fugi
(nem do meu próprio medo).
De consolo não cuido. Pois valeu.
Que tudo vale a pena quando a alma
não é pequena.
Não sei o tamanho
da minha alma. Só sei que vou varando
o fim do rio, já posso discernir
a margem que me chama. Mas obstinado
confiante sigo no poder distante
da estrela alucinante. Que destino
de estrela é o de brilhar.
E mesmo extinta
brilhante permanece sobre o mundo.
Este poema bem poderia ser teu
testemunho poético ou tua carta ao mundo – como declarou Emily Dickinson ao conceber
um de seus textos. Hoje percebo que teu canto transcende qualquer declaração ou
tema particular. Tua poesia é teu chão, tuas vivências e tua infância, onde
aprendeste a enfrentar os humores da natureza e, “entre os rebojos”, perdeste o
medo. Teus versos tresmalhados de água, barro e vida se fizeram protesto e
canção. Por isso carregas esse “grito que cresce”
Cada
vez mais na garganta,
cravando seu travo triste
na verdade do meu canto.
Canto molhado e barrento
de menino do Amazonas
que viu a vida crescer
nos centros da terra firme.
Que sabe a vida da chuva
pelo estremecer dos verdes.
Caro
amigo,
Sei o quanto a vida te foi cara pelas
tuas escolhas e pelos compromissos que assumiste diante do teu tempo e da
humanidade. Entre um existir resignado e a luta pela construção de um mundo
menos bárbaro e desigual, te lançaste nas águas da história e, como os antigos
argonautas, foste em busca da lâmpada capaz de despertar os seres humanos do
negror da indiferença e da ignorância. Tua arma foi teu canto: sabias que as
noites passam e por mais que os perversos prolonguem seu domínio de sombras e
mentiras, a aurora, brasa incendida sob as cinzas, se tornará fogo, claridade.
E não sendo possível deter o tempo, sabes que “a manhã vai chegar”. Que o novo
é inevitável. Entre noites, guerras e solidão o destino humano se tece
indiferente. E o que importa, como disseste, é “poder dar amor a quem se ama /
sabendo que é a água / que dá à planta o milagre da flor”.
Pensando nisso, lembrei do poema que
escreveste quando estiveste preso com o Cony, o Callado e o Glauber Rocha. Era
o início do ciclo de sombras que se abateu sobre o país e vocês, como os
espartanos nas Termópilas se lançaram contra a força dos senhores do poder.
Nessa “Iniciação do prisioneiro”, escrito no cárcere em novembro de 1965,
ressaltas exatamente a necessidade de afirmar o Amor como alento e contraponto
àquele momento de suplício:
É
preciso que Amor seja a primeira
palavra a ser gravada nesta cela.
Para servir-me agora e companheira
seja amanhã de quem precise dela.
Alguns anos depois viveste situação
semelhante no Chile quando o sonho de Allende e do povo chileno foi tragado
pelo fogo e pela morte. Por pouco não perdeste a vida, como ocorreu com o
cantor Víctor Jara e outros artistas chilenos. Mas a providência te queria vivo,
apesar do longo inferno que tiveste que amargar no exílio. Há um fato da tua
história que me comove ainda hoje. Ele me foi relatado por um poeta peruano.
Contou-me que estavas no Peru e para saciar tua saudade da pátria organizaram
uma expedição clandestina ao rio Solimões para que pudesses ver, sentir o cheiro
e estar próximo da tua terra. Fico imaginando os sentimentos que rebojavam
dentro de ti – tão perto e tão longe do país. Dos teus familiares. Essas
experiências te ensinaram que, apesar das intempéries, é preciso continuar
navegando
Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir,
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.
Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.
(Conclui na próxima sexta-feira)
*Tenório Telles é poeta e ensaísta,
autor de Canção da esperança & outros
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quinta-feira, 4 de abril de 2019
A poesia é necessária?
Corpo
de delito
Armando
Freitas Filho
I
Escuta o rumor nas margens plácidas
feitas de lama, sangue e memória.
Escuta o brado retumbante
na garganta do túnel.
Por entre as grades do grito
o céu da liberdade viaja
e o sol, sem Pátria, se espalha
nesse instante, no cimento.
Aqui, Senhor, tememos
o braço forte que sobre os seios
se abate, sem remorso.
Aqui, no peito, os sussurros do coração
o muro de murros desabado
os urros na boca do corpo de entulho
e os erros da minha mão
que apalpa a própria morte.
Nesta cela que sonho nenhum
se escreve nas paredes
nesta sala de azulejos lívidos
um raio de dor sempre aceso
e vívido à terra desce.
O céu é o sol desta luz
em cada nervo
e em cada um de nós
um límpido incêndio resplandece.
Daqui escuto os passos dos gigantes
pisando, impávidos, a paisagem.
Escuto a marcha dos colossos
por cima dos ossos
por cima dos mapas de mar e grama
escuto as botas dos passos
nas poças do corredor
cada vez mais próximos
dos calcanhares nus do meu futuro.
II
Sentado na cadeira do dragão
largado no berço profundo do chão
sobre o som do mar o céu fulgura
com o seu sol elétrico
que não cessa
o curto, o choque, o surto
em chamas do dia iluminado
nos porões iniciais de um Novo Mundo.
As flores que aqui gorjeiam
garridas, em suas jaulas
se agarram na beira da vida
que cisma e insiste
e continua avançando
por entre vadias várzeas e charcos
e exclama e se espanta
como a primeira palmeira brusca
que busca o espaço
no bosque de fumaça do horizonte.
Onde está você, amor eterno
que não drapeja no vento
sua flâmula trêmula de estrelas?
Onde o verde-louro, o céu de anil e mel
o lábaro, a labareda de pano
que o látego rasga e marca?
Onde a glória do passado
se o presente é este furo
de bala na pele do futuro?
Mas se ergues, ainda sim
a clava forte do seu corpo
e não foge à luta
nem teme a própria morte
que avança armada até os dentes
verás os raios fúlgidos
do sol da liberdade no céu
e neste chão de terra que se ama!
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Armando Freitas Filho
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